sábado, maio 9

Um dia de aula

Foto: Cultura/Henglein and Steets/Riser/Getty Image

Sobre a mesa, há apenas lembranças: alguns decalques coloridos, cola com glitter, restos de papel crepom. Do lado esquerdo, o armário denuncia, no vazio, que tudo o que abrigou foi retirado. Pendurado pela ponta do nariz, o palhaço zomba e chora.
Nas paredes, cartazes permanecem. O Calendário do Tempo mostra o dia ensolarado. A contagem da semana marca quarta-feira. Um dia de Maio. No canto da sala, livros infantis se misturam às almofadas, e os dizeres “Cantinho da Leitura”, um quadro feito de recortes traz a foto da criança da semana. Maria Eduarda. Com ela ainda está o último livrinho que foi para casa. Ainda não havia contado a história aos coleguinhas.

Silenciosamente, desliza pela sala como quem caminha em um oráculo. Seu corpo pende um pouco para frente e cansado vai recolhendo as últimas coisas. Lápis que se amontoam esparramados pelo chão, pequenos carrinhos, algumas bonecas. Panelinhas, faquinhas e garfinhos se engalfinham no canto de fazer coisinhas. No canto da beleza, espelhinhos de mentira, rolinhos de cabelo, secadores de plástico.

Lentamente, ela vai recolhendo tudo. Hoje não houve tempo para a criançada guardar objetos. Foram dispensadas mais cedo. Ela transita pelos cantos desfazendo o cenário de sua última sessão com os pequenos. Tinha orgulho do que fazia. E alegria também.

De repente, para diante de um brinquedo que havia sido alvo de brigas entre Cauã e Antonella. Riu de si mesma e para si mesma ao lembrar a cena. Tratou de entrar na “disputa” como se criança fosse e também quisesse o brinquedo. As crianças ao se darem conta desandaram em incontida risada. Tudo virou uma grande festa. O brinquedo, causa da contenda, já não era mais importante. Depois, a conversa boa. E a criançada fazendo seus combinadinhos para que todos pudessem desfrutar dos brinquedos e dividi-los entre si.

Gostava daquele ambiente. Gostava de estar perto daquelas terrinhas cheias de vontade de sementes. Gostava de descobrir os tipos de semente que cada uma das crianças era e guardava em segredo. Naquela sala, havia sementes de toda espécie. Afofar a terra, colocar adubo, deixar a semente ser e se fazer planta era seu primeiro desafio. Amava as crianças.

Agora, terminando de guardar objetos, olha atenta o armário novamente sortido. Ajeita o palhaço. As almofadas voltam, acomodadas, aos seus lugares. Dá uma última olhada em torno de si mesma. Dirige-se à porta. Antes de fechá-la, abre seu frasco mágico. Num minuto, a sala está tomada pelo seu pó de pirlimpimpim. Sorri. Olha o Calendário do Tempo e vê o sol também sorrindo arteiro. Amanhã, será você ou as gotinhas de chuva? Indaga-se, enquanto o pirlimpimpim vai pousando suave sobre os rostos dos meninos e meninas, em fotos presas ao teto em forma de móbile.



Miryan Lucy de Rezende
Escritora e educadora infantil
Uberlândia (MG)
miryanlu@hotmail.com


Publicado Jornal Correio em 09 de maio de 2015


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