quarta-feira, julho 15

Um ano sem Rubem



A tarde cai. Fico em silêncio procurando palavras. Elas, Rubem, as palavras. A flor do pensamento. A origem da nossa história. Sim, nós temos uma história. Nosso encontro se deu há anos.
Jovem, fui fazer curso. Antes, passando em livraria encontrei livro chamado “O retorno e terno". De você já ouvira falar. Mas aquele livro, a possibilidade de tê-lo nas mãos como coisa minha fez meu coração pular. Eram tempos difíceis em se tratando de grana. Dei-me ao luxo de levar você comigo. Antes mesmo de sair da livraria já havia degustado boa parte de você. Achei o gosto tão bom...
A partir de então passei a devoradora de Rubem Alves. E foram tantos pratos bons que você preparou pra mim. Tantos banquetes para saciar minha alma sedenta de reciprocidades.

De tanto te encontrar pelas páginas, fui me encontrando pela vida. Reconhecendo a importância da beleza. Aprendi a alegria da poesia, compreendi a que havia em meu pai (ele também amava os ipês amarelos). Fui levando você pelos caminhos: havia alguém que dizia o que eu intuía na informalidade da juventude.
Em minhas mãos você virou presente. Distribuí Rubem por aí... Meu coração ditava a regra. Eu atendia: Esse vai conhecê-lo. E assim, fui espalhando você como vento que leva semente pra germinar.
Um dia, uma palestra. Levei carta e uma vela feita por mim. Branca. No meio dela, dois ramos de trigo. Luz e pão. Você a colocou em cima da mesa acendeu-a. Iluminado, encantou.

Não quero falar da tristeza que sinto hoje. Prefiro falar de ipês e ostras. Você ensina: não são todas as ostras que fazem pérolas. A ostra que faz pérola o faz porque sofre. Quer se livrar da areia que a incomoda e a transforma em pérola. Você conta da pergunta de sua filha Raquel, com seus apenas três anos: – Pai, quando você morrer, vai sentir saudade? Você conta da dor que lhe causou a pergunta. Da areia que lhe arranhou. Da incapacidade de encontrar resposta. Não chora, papai, eu vou te abraçar. E você, como boa ostra, escreveu depois disso uma história. Fabricou sua pérola.

E é por “essas e ostras” que não quero falar da areia que está me arranhando. Não consigo expressar tudo o que sinto. Mas sei que é tempo de ipês. Os rosa estão florindo. Os amarelos estão por todo lado abotoados em flor. Sei. O Jardineiro te colheu. Te levou de volta. Consigo visualizar você deslumbrado diante de tantos ipês amarelos. Caminhando entre eles, se sentindo tão parte de tudo. São todos seus agora, Rubem. São as belezas que você plantou em forma de palavras florescendo em forma e cores de eternidade.

Não quero terminar esta carta. Não quero pontos finais por aqui. Quero mais histórias, mais flores, mais céu, mais ipês floridos, mais ostras, mais cacos de vidro e mais fios de nylon, mais luas acendendo amores, mais escolas, menos gaiolas, mais pássaros corajosos ansiando por liberdade, mais cebolas para descascar, mais banquetes de palavras.

Mas quero ainda mais: quero que Deus, o Jardineiro maior lhe atenda, e que seja para você exatamente como você O queria: um fino fio de nylon, invisível. E que faça exatamente como você pediu: que procure suas contas de vidro no fundo do rio e as devolva a você como um colar. Eu acho, Rubem, que esse colar será feito de flores amarelas, e que será colocado em seus galhos; porque, meu poeta, hoje você renasce ipê!


Miryan Lucy de Rezende
Escritora e Educadora Infantil


Publicado no Jornal Correio - Painel em 15 de Julho de 2015


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