sexta-feira, janeiro 12

Encomenda

Acordei às cinco da manhã assim do nada. Talvez o movimento dos bichos pois o dia anda a clarear cedo. Não pensei duas vezes, virei de lado, puxei a manta de tear e pensei lá com meus travesseiros – levantar que nada! O escuro do quarto e o ar-condicionado no 23 me compeliam a ficar quietinho a hibernar, os trovões e uma provável chuva acrescentavam um tempero de ali ficar. Sorri buscando o sonho não terminado. Queria saber o fim. Era de muita paz. Adormeci profundamente outra vez, não achei o sonho, mas vieram outros. Acho que sonhamos mais quando retomamos sono interrompido, assunto para especialistas em ritmo circadiano e coisas e tais. Acho. Não sei dizer quanto tempo passou quando em um susto o telefone tocou histérico.

 Assustado procurei do outro lado da cama, claro não achei nada. Tinha passado uma semana fora em viagem e o dormir em outra cama que não a minha descontrolou a rotina do levantar. Troquei a perna direita pela esquerda, o travesseiro escorregou pela falta de apoio. Dei uma guinada na cama como se estivesse abaixando para fugir de um rabo-de- arraia. Agarrei o celular a atender. Era da portaria. Um vizinho amigo ausente de sua casa solicitando se poderia pegar uma encomenda para ele. Claro que sim! Levantei-me de pronto, na afobação calcei apenas uma das velhas havaianas e, de pijama, isso mesmo que ouviu ou leu, pijamas, durmo assim, não consigo dormir pelado, me sinto nu, putz essa deveria ir para o concurso dos trocadilhos infames capitaneadas por Maurício Wincler, Flávio Pacheco, Edson Denisard e companhia - “a regra é clara” Não acho que seria desclassssifiiiicadaaaaaa!

 Levantei-me calçando apenas um pé das sandálias, olhos inchados de sonhos e o cabelo parecendo uma macega em terreiro mal carpido. Ah, e sem meus óculos displicentemente largados no criado mudo ou para ser politicamente correto no móvel servidor com carteira assinada incapaz de proferir palavra alguma (mundo ficando sem graça). Desci a passos largos para buscar o solicitado.

 

O rapaz da entrega me olhou de cima para baixo com estranhamento. Cabreiro, estendeu o pacote com as pontas dos dedos, olhos fixos no pé sem sandália, sei lá se “isso” vai me avançar, deve ter pensado. Ia quase indo embora quando de estalo se voltou a perguntar – será que poderia me dar número de um documento seu se não for incomodar muito? Quase uma súplica? Ainda meio tonto de sono e confuso pela claridade e pouco enxergando sem as lentes salvadoras, misturei CPF com RG. 

Ele, entregador, percebeu, mas acho que também pensou – vou cutucar esse doido mais não... Estava ele preste a subir em sua moto, falei eu: Pera aí! Ele gelou, percebi, pois tentava ligar a moto mas confundia com o pedal de partida. Por debaixo do capacete senti que ele empalideceu. Olhou com olhos quase a saltar da órbita. Perai, repeti, tá errado! Acho que ele pensou em largar até a CG 125 e sair na carreira... Não, tá tudo certo, deixa eu ir embora por tudo que há de sagrado! Ele não disse isso, mas a expressão corporal demostrada era como se tivesse dito. O número do RG não é esse. 

Ele quase chorou de alívio enquanto eu de cá ditava o número correto (acho que ele não anotou). Voltando, cruzei por moradores que pouco me relaciono. Me olharam com estranheza, dispensei o bom dia. Aqui já tenho uma fama de ser meio estranho, de ser o cara que conversa com bichos e plantas... Outro trovão e a chuva recomeçou mais grossa. Não entrei, à porta de casa me deixei ficar. A água lavou meu rosto, ajeitou meu cabelo e encharcou uma alma feliz e lógico o pijama. Depois disso, só banho e café quente. O dia mal começava. Abençoado dia! Que cheguem mil encomendas, se aqui estiver com prazer recolho.






Diário de Uberlândia 12/01/2024