quarta-feira, dezembro 26

Relógio

Tinha nascido em um belo janeiro, farto de chuva e colheita boa. Na roça nasceu, da roça nunca saiu. Se havia um mundão mais perto pra lá da vila, não era de sua conta e nem rompante de ir além possuía. Gostava da vidinha que lhe arrastava. Era feliz.

Por nome Marlubrano Sebastião, segundo nome em homenagem ao santo do dia, veio ao mundo pelas mãos de parteira boa de ofício. Esse vinga! Exclamaram ao ver o miúdo chorar com força. A mãe tinha perdido dois antes dele, daí a grita de alegria.

O primeiro nome, Marlubrano, foi por conta também da mãe. Quando jovem, chegou à vila um apresentador de fita de cinema. Armou tela grande, não muito branca, meio amarelada pelo uso e com uns buracos que possibilitavam, para alegria dos mais novinhos, espiar pedaços de filme fugidos da tela para as paredes das casas e para as mangueiras, assustando galinhas e passarinhos.

O filme era Espíritos Indômitos e não teve jeito dela não se encantar com a beleza daquele moço na cadeira de rodas. Ficou o nome na ideia. Marlon Brando, repetia ela todo dia como se fosse reza. Marlon Brando, Marlon Brando... Mas com o passar do tempo, os afazeres na lida, os seguidos e sofridos partos que deram a ela as duas primeiras filhas, os dois seguintes perdeu as crianças, foi comendo letras e jeito de falar. Marlão Brano, Marlanbrano, assim ficou. Como fim de memória, o que restou da infância e dos sonhos da mãe foi Marlubrano Sebastião, com muito orgulho. Enchia o peito para dizer que tinha nome de artista famoso. A mãe, velhinha, curtida de sol e vento, suspirava melancólica por aqueles olhos azuis em preto e branco do moço do cinema.

E a vida ia mansa para Marlubrano. Aos domingos era dia de feira na vila, e para lá carreavam todos e tudo que se produzia na região. Porco, galinha, rapadura, vestidos de chita, botinas e chapéus Panamás feitos nem tão longe. A cidadezinha virava uma festa de movimento. Desde muito Marlubrano tinha um pensamento de querer. Um relógio de bolso com aquela correntinha de engatar no cinto. Achava chique por demais ver os mais abastados da região, em roda de conversa, tirarem com firmeza o patacão, abrirem a tampa e darem aquela levantada de queixo, com olhar meio que por cima dos óculos, pensar longe e após o estalo gostoso de ouvir ao fechar o bicho, guardá-lo no bolso do paletó ou mesmo no bolsinho de moedas da calça. Vidrava só de ver!

Era seu mais íntimo desejo. Nem as moças do alcoice, cheirando a lavanda e leite de rosas a insinuarem-se nas janelas com seus imensos decotes, competiam com seu desejo de possuir um belo e reluzente relógio de bolso. Se bem que, por falta de dinheiro para comprar o sonho, acabava seus domingos quase sempre nos braços das moças, em suas camas sedosas e macias, pagando-lhes a bebida mais cara da região.

Esse domingo seria diferente. Ficou mais de mês sem sentir cheiro de alfazema e sem tomar cerveja cara com as amigas confidentes. Juntou dinheiro, centavo a centavo e à feira seguiu determinado. Levou pouca coisa para vender, só um cadinho caso tivesse que inteirar.

Mal chegou à vila, foi direto para a banca que vendia jóias de prata, bijuterias coloridas e, claro, relógios de pulso e de bolso, ao gosto do freguês. Posando de conhecedor, olhava um, sentia o peso, jogava de uma mão para outra. Levava ao ouvido, ouvia longe o funcionar da máquina. Gastou bem uma meia hora para decidir. Escolheu o mais bonito da banca. Era dourado, com desenhos em alto relevo, onde se via uma cena que lhe pareceu bíblica. Anjinhos, potes jorrando algo que devia ser vinho e, em um córrego, uma moça a se banhar. Isso tudo ele viu em seu objeto de vontade. Pagou sem pestanejar, nem catirar preço. Foi na lata.

Não dava para saber se o que brilhava mais ao sol era o relógio ou o rosto de Marlubrano.
Amarrou a correntinha na cinta e saiu pela feira a rodar o tão sonhado. Voltou para casa feliz como criança. Mostrou a conquista para mãe, para os agregados do sítio, para cães e gatos, para cavalos, vacas e até para as galinhas.
No anoitecer, banho tomado, sabão de bola perfumado, bateu janta ligeiro e pulou no catre. A luz da lua entrava como vento. Parecia que queria ver a preciosa joia. Passou a noite admirando o relógio. Adormeceu com ele no peito.

Dia seguinte arriou o cavalo cedo e seguiu outra vez para a currutela, fazer o que não fez no dia anterior, de tão envolvido que estava com a compra. Na cinta o relógio.
Apeou na porta da venda e, mal colocou o pé na soleira, um amigo de longa data disse:

─ Dia Marlubrano ! Quantas horas?

Aí veio o estalo. Tinha agora o tanto querer, mas não sabia o uso. Desconhecia número e letras. Não aprendera ler ou escrever. Sem tempo, roça consome vida de criança, ensanguenta mãos em colheita de algodão. Mas, em lampejo de pensamento, devolveu ao companheiro:
─ Calcula?
─ Hum, deve ser umas nove horas.
─ Em riba! Ligeiro se foi venda adentro.







Publicado em Diário de Uberlândia em 24 de dezembro de 2018

segunda-feira, dezembro 17

Zéfiro






A noite não foi das melhores. Quem nunca passou por algo assim? Você deita de um lado, os pensamentos escorrem dentro da cabeça, para o outro, se acumulam junto ao travesseiro parceiro e lá ficam martelando o seu pensar. Dói o ombro você virar para o outro lado e, como areia de ampulheta, lá vem aquele monte de pensares a se esgueirarem por um canto qualquer onde exista vazio. Grão a grão vão se acumulando em montículos do outro lado. O travesseiro esquenta, você o vira. Breve frescor, pois logo está tão quente quanto. A janela aberta a trazer brisa de nada adianta. Desligaram o vento noturno. Saudade das chuvas que até outro dia embalavam sono em carinhosa sonata.

O lençol compartilha sua agonia, mas em deboche ganha vida própria. Teima em lhe aquecer como se cobertor fosse. Descubro os pés em estratégia, nada adianta. Rolo de um lado para o outro na tentativa de achar um sono, que nem no horizonte se avista. Mais pensamentos em rodopio, sempre ruins, sempre atormentadores. Vejo o passar das horas bem na minha frente. Fixo o olhar na janela e acho as estrelas. Foco meu pensamento nelas, viajo. O sono manso vem abraçar. Sobressalto. Algo funesto se materializa do nada, abro os olhos. Testa a suar. O corpo teima em doer mais. Exagero de exercícios, caminhadas puxadas e corridas diárias. Vou me dar um tempo, penso totalmente aceso.

Procuro os sons noturnos, meus companheiros. Nenhum pio de coruja, nenhum grito das inquietas galinhas d'angola. Os grilos em silêncio absoluto. Como é que pode?

Muito bem, me rendo. Penso em sair da cama e ler um bom livro. Há alguns dias que não abro o meu Livro do desassossego, de Fernando Pessoa ou Bernardo Soares.

Talvez o heterônimo menos conhecido de Pessoa. Talvez nem fosse, talvez a simples vontade de assinar a obra assim. A história do guarda-livros iria me tirar mais o sono ainda.
Busquei refúgio no rádio. Perguntariam: por que não liga a TV? Respondo: detesto televisão no quarto e jamais submeteria lugar tão sagrado a ela.
Meia dúzia de vaga-lumes passam em brilho pelo vão da janela, pirilampeiam pelo quarto e voltam para a penumbra do céu de uma estrela. Um conforto, ainda estou vivo. Só, insone, mas vivo e começando a ficar irritado por não conseguir conciliar o sono.
Ligo o radinho. Este sim, companheiro. Não queria música, queria vozes, conversa. Busquei até achar. E para minha grata surpresa era uma prosa com o escritor Gonçalo Júnior. Confesso que não o conhecia até então, mas o seu livro me levou em viagem à infância em minha Belo Horizonte. O título? "O Deus da Sacanagem: a Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro".
Já tinha esquecido aqueles livrinhos e seus desenhos de péssima qualidade, mas que eram disputadíssimos à época e seriam os manuais de iniciação nas artes do prazer de várias gerações.

Fiquei mais fã ainda só em saber que esse cara durante mais de quarenta anos deu nó na censura, na polícia, no Doi-Codi, no DOPS, na igreja, nos fofoqueiros de plantão, na malandragem carioca, nas socialites e em toda a força bruta e "inteligência" da ditadura militar que vivíamos a época,
Uma trecho da sinopse:

" Por décadas, o pacato funcionário público carioca Alcides Caminha viveu no subúrbio de Anchieta e de lá escondeu de todo mundo, inclusive da polícia, que era o desenhista Carlos Zéfiro, autor das famigeradas revistinhas pornográficas em quadrinhos conhecidas como “catecismos”. Entre as décadas de 1950 e 1970, principalmente, com suas narrativas de sexo explícito, Zéfiro fez a alegria de adolescentes, jovens e adultos do sexo masculino, que pouca ou nenhuma informação tinham sobre sexo, em uma época de forte repressão moral, promovida por entidades conservadoras, políticos, juízes, educadores e religiosos.
Primeiro, suas revistinhas foram consagradas por toda Rio de Janeiro. Depois, espalhou-se pelo Brasil. Com um detalhe: eram sempre vendidas às escondidas.”
Já encomendei o livro, depois conto.

Por verdadeiro nome Alcides Caminha, o Zéfiro, não ficou só nos “catecismos”, poucos sabem, mas era também ótimo compositor. Sabem a música A flor e o espinho? A letra é do próprio Alcides, em um longe 1957. A música é de ninguém menos que Nelson Cavaquinho até hoje reverenciada .
Assim como essa obra prima, tem várias outras por ele compostas. Zéfiro foi ainda um grande defensor dos direitos das mulheres e, se falava de sexo, seus textos sempre enalteciam a mulher e o seu direito ao prazer. A igreja queria crucificar esse misterioso filho do cão, como era chamado pelos inimigos.
Pois assim, confortado por tão rica entrevista, sobre um personagem que fez parte de minha infância, fui tranquilo ao encontro do filho de Hipnos.

Mesmo profícua, a noite não foi das melhores. Dormi perto do amanhecer, mas a primeira visão que tive ali, bem na minha frente, no galho da goiabeira que quase adentra o quarto, foi um maravilhoso papa capim, com todo seu singelo e discreto esplendor. Anos sem ver um desses na cidade. Fiquei imóvel e, assim do nada, ele entoou seu indescritível/inconfundível canto. Canto também da minha infância, de meus largos quintais.

Recompensa em dose dupla no recordar de criança, que por várias vezes pensei já em mim não habitar. Ao reencontrá-la criança soube que nunca me abandonou segundo sequer, tive de volta a plena alegria do viver.







Publica em Diário de Uberlândia em 16 de dezembro 2018


segunda-feira, dezembro 10

Paletão



Quem nunca foi às compras em um supermercado? Tenho lá minhas cismas com tais comércios, principalmente em época de festas ou feriados. Aquele monte de "ofertas" me deixa desconfiado, de orelha em pé. Gasto mais tempo olhando data de validade cravadas em minúsculas letrinhas e em locais nada fáceis de encontrar, do que pegando o que fui buscar.

Confesso que prefiro as boas e velhas vendas, daquelas que têm de tudo quanto há, sem a organização intencional, sempre com estratégias muito bem estudadas das grandes redes, a fim de estimular compra que nem se quer fazer. Os produtos estão dispostos cientificamente e psicólogos treinados traçaram estratégias a bem do consumo, nada bom para o consumidor.

Antigas vendas que ainda reinam em muitas cidades do interior de nosso imenso território, carregam um ar de graça em sua desorganização. São acolhedoras e simpáticas, repletas de aromas e cheiros mágicos, com poderes a lhe remeter a qualquer fase de sua vida. O pito de fumo de rolo do Vô, a goiabada da vizinha de rancho, sempre acompanhada de um tenro queijo canastra. Caixas de lápis de cor com perfume de infância. Goma arábica, maria-mole cor de rosa salpicada de bolinhas prateadas, botinas mateiras, sacos de arroz, milho, feijão, linguiça e sempre, um gato sonolento que mal abre os olhos à sua passagem.

A caixa de bacalhau salgado aberta sobre o balcão de madeira gasta. Bingas e fluído azul em ampolas. O barrilzinho de pinga com pequeno coité pendurado na torneira, sempre a lhe dar boas-vindas. Tanta coisa que, se não estiver ao alcance das vistas, é só perguntar: ─ Tem camisinha de lampião?
─ Tem sim senhor, estão logo ali na prateleira atrás das panelas de alumínio batido.

Sabe de tudo, de lugar a preço e aceita catira também. Duas mantas de tear cardadas e fiadas lá em casa, trocadas por linha de anzol, cabeçada de arreio e par de chinelos. Negócio fechado. Todo mundo satisfeito. Dinheiro é o de menos. Com canivete cortam tora de linguiça, bebem uma da boa, mastigam o tira-gosto em sinal de amizade e negócio acertado.

Tem muita venda assim e não carece ir longe. No meio desse devaneio, lá estava eu em supermercado. Já aviso, levo lista feita e raramente saio dela. Aprendi a resistir à profusão de cores, corredores infinitos de tentações e moças oferecendo degustações. Estranho, acho que nunca vi homem servindo patês, cafezinhos ou provas de sucos e tais. Estranho.

Lista na mão, me pego no açougue. Nela constava um quilo de paletão.

Pego minha senha. É, acha que não? Até para balcão de carnes tem senha. Estávamos em três de cá e, de dentro, a atender, quatro. Mesmo assim tive que ouvir o sonoro ─ Pegou a senha? Olhei em volta, mais ninguém que pudesse tumultuar. Sorri e senha peguei.
─ A Senhora? Diz o magarefe. A jovem lhe mostra a senha. Ele nem confere. ─ O que vai ser?

Antes do pedido ela coça os cabelos louros: ─ Qual é a diferença entre paleta e paletão? Olho ligeiro para minha lista e confiro a coincidência. O rapaz de avental branco encheu o peito e deu aula sobre os dois cortes. Nisso, mais gente se juntou, curiosa no assunto. A loira moça, em seriedade e atenção, bateu o martelo. Paletão, vou levar paletão! A outra senhora, senha em punho timidamente lhe perguntou: ­─ E como se prepara?

O pequeno grupo - já nem tão pequeno - se voltou todo em atenção para ela, inclusive o pessoal de dentro do balcão. Ela, com uma descontração absoluta e entre tomadas de ar profundas, pois não se fazia em pausa o contar, explicou o passo-a-passo de um delicioso preparo, com direito a exclamações entusiasmadas que levaram todos a sentir até o sabor do prato. Essa saborosa receita deve exigir prá lá de meia hora de puro fazer/prazer. Além da plateia atenta, a fila atrás de mim foi só aumentando, porém, em círculo e perto da moça dos cabelos loiros e de requintados dotes culinários. Havia algo mágico, com ar de venda naqueles minutos que passaram voando. Como a sair de transe o moço do avental branco: ─ E o senhor? A resposta ele parece que já sabia. ­ ─ Paletão dois quilos, por favor. Ele sorriu. ─ Em cubos como o daquela senhora? Pelo meu olhar já sabia que sim. Enquanto preparava o pedido me pus a memorizar a receita, ia fazer sucesso.

Recebi meu pedido. Olhei a imensa fila que tinha se formado. Não mais pediram senha e só o que conseguia escutar ao me afastar bem devagar era: Paletão, por favor. Paletão, paletão, paletão! Os pedidos foram ficando longe e abafados pelo movimento, conversas de laranjas, alfaces, detergentes...

Dei de ombros em pensamentos: Vai faltar paletão !







Publicado em Diário de Uberlândia em 9 de dezembro de 2018

segunda-feira, dezembro 3

Olha o Natal ai gente!



Pois assim, como título destas mal traçadas linhas, retomo o tema Natal. Data sagrada para católicos outros cristãos e para o comércio, não necessariamente nessa ordem.

Ano duro que se vai e vai tarde. País dividido em ideologias, mergulhado em recessão, dinheiro escasso, desemprego nas alturas. As perceptivas não são das melhores para 19, mas como já lhes disse, sou como Panglós, o eterno conselheiro de Cândido, o otimista, personagem do mestre François-Marie Arouet, ou Voltaire para os doutos, um ícone da liberdade e do iluminismo. Tenho esperanças de que teremos um ano novo rico em avanços, apesar dos pesares. Amigos farão as pazes, mesmo com o Palmeiras campeão brasileiro.

Nossa árvore de Natal este ano idealizada pela artista nata e ouropretana Marília Pereira, não por acaso minha companheira e mulher, retrata tudo que em nosso entorno vive e o que espera para o futuro. Um retrato de devoção e fé ao momento.

Ela, Marília, católica, fervorosa devota de Nossa Senhora, eu gnóstico enveredando pelo misticismo, o sincretismo religioso e algumas correntes filosóficas, devoto absoluto de São Jorge, Ogum.

Filtro de barro iluminado com cordão de flores que piscam. Obra simples, mas carregada de alegria e esperança, como deveria ser a data. Assim definimos seu conteúdo filosófico:

O barro simbolizando a matéria prima da criação do homem.
"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente." Gênesis 2:7

A parte inferior do filtro que capta e armazenar representa alérm do homem, também a riqueza, a nobreza, a postura, o companheirismo, adoração pelo amor emanado por mulher, além de tentar sempre defender a relação (Não senhoras! Não é machismo de minha parte, é como um pêndulo).

"O Senhor Deus disse: "Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada." Gênesis 2:18

E Deus fez a mulher, sem manual...

A água ali depositada gota a gota simboliza a vida, o renascer em chão seco e rachado. Aparentemente improdutivo e estéril, torna-se vivo como jovem Fênix, a renascer não do fogo, mas do precioso líquido purificado pela mulher e distribuído igualmente entre todos os seres viventes. Na crença de tantos o precioso líquido foi utilizado por São João Batista, para batismo de Jesus no rio Jordão.
As flores/luzes em emaranhado, para nós, simbolizam os tortuosos caminhos a seguir do nascer à morte, uma vida iluminada de bem fazer, de paz e harmonia. Uma vida em tentativa permanente de justiça e perfeição.

Assim, da criação da artista e da interpretação deste que se faz poeta, nasceu nossa pura e inocente intenção de festejo de Natal.

Enquanto isso, no mundo real, no Black Christmas sem descontos e encantos, imagino: Olhando do alto uma Rua 25 de março ou qualquer shopping center desse nosso Brasil varonil, um extraterrestre, ou um gringo pouco informado, acreditaria se tratar de um bloco de carnaval, tamanha a multidão, as cores e as faces em alegre consumismo. Facilidades do paga-se tudo em dez vezes no cartão. A seguir, logo vem a passagem, a virada e, como todos tentam acreditar, ano novo, vida nova! Vamos gastar gente! Pagar é outra história. Afinal, para que existe Serasa e SPC?

Quando chega o carnaval saímos todos no "Bloco dos Farrapos". Como bem diz o ditado, "quem não deve ($) não treme!" Dessa forma, segura firme sua garrafa de catuaba ou o carotinho de Pedra 90, pois, pensando bem, só falta um ano para outro ano novo começar!

Vivamos o eterno conflito.

"Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Ou se preferir: "Devemos cultivar nosso jardim."
Voltaire







Publicado Jornal Diário de Uberlândia em  02 de dezembro de 2018

segunda-feira, novembro 26

Preparo




Parece coisa de fim de ano. Deu novembro já pelo meio. Por força de um celular a buscar remendo, me vi perdido no templo máximo do gastar sem vontade, um shopping. Quem já teve na infância curiosidade de ver como funciona um formigueiro por dentro, sabe bem o que quero mostrar. Pois, criança curiosa, pai me levou certa feita ao maravilhoso Centro de Amostras que, como as imponentes árvores da Avenida Afonso Pena, foi ao chão. Lá vi o tal. Corredores em idas e vindas, ninheiras, roça de fungo, aposentos de rainha. Em encanto colei nariz no vidro e por nada queria me ir. Hipnose. Arrastado sem sentir, pensei comigo que um dia iria fazer um. Anos e cicatrizes de todas as formas, corpo e alma criando calos. Coração sempre pronto, o tempo se fez vento e junto me carregou. Um dia fiz o meu formigueiro.

Como a criança que nunca me largou e muito ensinou saí a caçar tanajura. Criei caminhos, ninhos em potes, tratei-as com pétalas de rosa, suculentas e rubras Acalifas, folhas de amargoseira, Contas-de-Santa-Bárbara, assim por cá nomeadas. Além de apreciada pelas formigas diz a lenda que Santa Bárbara protege contra raios e tempestades. Lá em casa tinha muita reza a mando Vó.  Em noites de tempestade recitar ela, vela acessa nos punha a recitar:

"Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura (...)"

Nunca medo de tempestade tive, trovão sempre me pôs dormir em estranha paz. A chuva, uma deliciosa cadência a acalmar loucos e feridos na alma.

Pois assim fiz meu formigueiro. Um dia depois de longa travessia, encontrei-o em imobilidade de morte. Alguém de coração negro e vestido com manta de inveja o envenenou. Perdi gosto, desisti das gentes, me recolhi em copas.

Assim me vi dentro de imenso formigueiro de gente. Cheiros e cores passavam em raso vôo por todos os lados. Esbarrões e olhares. Gente produzida, eu de sandália Franciscana. Gente com elegantes cortes, eu sertanejando jeans surrado/camiseta antiga, e se vi, até buraco tinha. Uns a buscar reparo, eu o invisível.
Furdunço me agoniando. Gosto de feira, festa de rua e praças. Ali um estranho em fervedouro alheio.
Ligado no modo automático segui sem muita atenção.
Mas como não perceber o súbito nascer de árvores gigantes de plástico sem vida, a produzir frutos de vidro e cipós de luzes num piscar ritmado? Nas vitrines risonhos papais-noéis de vazio olhar. Alguns me abanaram a mão, cismei.

Começou novembro e com ele as armadilhas do gastar. Não sou apegado à religião, pois como Riobaldo de Rosa, o Guimarães e seu perfeito Grande sertão: veredas, tomei por minha verdade:

" O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; (...). Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. (…)”

Festeja-se o nascimento de Jesus, mas conta-se que ao chegar a um templo em Jerusalém deu com um enorme shopping a céu aberto.
Em fúrias soltou bois, cabras e pombas, detonou barracas, espalhou moedas pelo chão:

— "Tirem tudo isso daqui! A casa do meu Pai não é lugar pra ficar comprando e vendendo coisas!"

Obviamente não foram estas palavras mas algo assim. E o que vemos hoje? O aniversário Dele insano comercio.

Mas não é por razão esta que fico sempre triste nessa época. A solidão aperta, saudade de nem sei mais o quê. A hipocrisia anda solta.


"(...) Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… (...)"

Aliquis ora pro nobis nóbis






Publicado em Diário de Uberlândia em 26 de novembro de 2018

quarta-feira, novembro 21

Mercado de pulgas







Chuvinha mansa a trazer dia. Vontade de ficar um pouco mais debaixo das cobertas. Quem não gostaria? Infelizmente tinha um levantar a me esperar. Tinha nada, pois era domingo e podia ficar o tempo que quisesse ali, mas detesto perder a manhã, parte mais linda do dia. Os cheiros são novos, os olhares das gentes quase sempre mansos e vagarosos.

O delicioso Mercado de Pulgas a visitar. Perfeito para o dia.
Tomei rumo para o Mercado Municipal onde acontece sempre o evento. Cá comigo no pensar, tomo um belo café lá por perto e me deixo ficar a contemplar objetos e pessoas. Gente risonha, bonita no ver e comportar. Nenhuma desavença, discussão só de preços, pechinchar é preciso.

Dei com os burros n'água. O Mercado de Pulgas fugiu da garoa. Mas o tempo riu tímido. Poderia ter acontecido. A chuvinha se desfez em um lindo dia de céu azul, sem nuvens. Mas como adivinhar? A feirinha da Sérgio Pacheco sempre acontece. Sinal de chuva, praça vazia. Poucas barracas, expositores, cantores e meu delicioso acarajé some. Contento-me quando lá, com o também saboroso churrasquinho ou com o yakisoba abrasileirado em tempero e sabor.

Mercado de pulgas. Não aconteceu o acontecido. Frustrado, passei a dar voltas sem rumo mercado adentro. Sinto-me um pouco incomodado, apreciador que sou de mercados municipais. Afinal, conhece-se uma cidade por meio deles.
Já pensou ir a Pádua e não conhecer o seu belo centro de comércio de cores e aromas? E a Boquería em Barcelona? Para os grandes vôos, o Grande Mercado de Budapeste ou na Tailândia, o fantástico Mercado Flutuante em Damnoen Saduak.

Se quiser ficar por perto saiba que o de Belo Horizonte é considerado um dos dez melhores do mundo. Uma viagem ao de Montes Claros ou São Luis, que também tem o seu, assim como Salvador e São Paulo com vitrais de Conrado Sorgenicht Filho.
O nosso é tímido e repetitivo em mercadorias. Parece que todo mundo, com raras exceções, vende a mesma coisa. Mas gosto dele assim mesmo e o frequento desde os tempos de estudante.

Os bares e algumas lojas fazem hoje seu diferencial. E, lógico, as manifestações artísticas lhe dão alma e mais vida.
Hora conto a história de um banquinho que comprei da senhora do acarajé, do box lá no canto do estacionamento. A negociação foi divertida e o banquinho nem era para vender. Era de uso da venda.

Ainda confuso com o dia e esperança perdida das belas antiguidades das pulgas, me deixei levar.
Do nada, meio abafado, senti um batido a lembrar um ponto de umbanda:

"Ogum é guerreiro/Que nos livra de todo mal/ Na Aruanda ele é cavaleiro/ Oh na Umbanda ele é general ogunhê ".

Assim imaginei ouvir. Segui em hipnose. Deparei-me com uma porta aberta, que já dava em escada, como a convidar para entrar. Sem cerimônia subi devagar degrau por degrau, a imaginar o que lá poderia encontrar. Bela surpresa. Gente bonita, colorida, lugar de ali se deixar. Sorrisos sinceros na chegada, sem estranhamento nenhum ou olhar de cima para baixo como a julgar. Nem um "filho de quem"? Tão raro por cá.
Não sabia se era ensaio ou exercício, mas era lindo. A música, o rodar de vestidos de chita coloridos. Lembrei de minha adolescência e de tempos bem menos distantes. Deu vontade de entrar na roda, cantar, acompanhar o bater de palmas. Faltou coragem. Os olhos quiseram me pregar peça da alma e lágrimas ali se juntaram como orvalho em folha larga da mata.

Sentei em degrau da escada e a cabeça em rodopio me levou a ver lugares, gente, paisagem.
Estranho não nos deixarmos mais chorar. Respirei fundo em alegria diferente, com cheiro de anis, biscoito de araruta e Oui de Lancome. Ganhei o domingo. Não houve mais mercado de pulgas. Pelo menos até agora, mas garimpei o "Centro de teatro de Uberlândia", assim dizia a placa esmaltada no alto da porta de entrada.
Ali, seguro, vou voltar sempre.

"Eu vi chover, eu vi relampear/ Eu vi chover/ Eu vi relampear/ Mas mesmo assim o céu estava azul (...)" (Ponto de Oxóssi)







Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 18 de novembro de 2018

segunda-feira, novembro 12

Casa laranja




Foto de Marcos - Pousada Mondego 
Ouro Preto

Casarão secular tem estilo chalé, do final do império. Lambrequins rendilhados nos beirais, sinal de luxo e riqueza à época. Seus jardins imensos guardam ainda ruínas de um velho monjolo. A grande pedra, que tanto moeu, se encontra jogada em um canto, cercada de mato e histórias. Seus gemidos ainda podem ser ouvidos. Bastam atenção e espírito leve.
O jardim se espalha até a beira do córrego do Caquende que um dia foi limpo e piscoso. Mãos e atos humanos se encarregaram de transformá-lo em um nada de vida. Alguns heroicos sapos ainda conseguem, sabe-se como, cantar triste sinfonia de sobrevivência. Talvez em seu coaxar lamuriento se voltem tristes para o que ali antes havia. Memória genética da destruição.
Colocando-se de costas para o pobre riacho tens a impressão nítida de outros tempos. Ciprestes imensos em disciplinada fileira se dobram em música ao vento, que vem lá da igreja do Rosário.

A construção quase se esconde entre vegetação. Trepadeiras floridas e buquês de hortênsias formam caminho, iluminando pequena trilha batida entre grama e mato. Caramanchão meio despido deixa cair cachos de belas flores miudinhas. Pequenas jóias escondidas no cinza do paredão de pedra, avencas em renda portuguesa e samambaias atrevidas em tanto verde, despencam em fartura selvagem/bela, apoiadas em aveludado musgo eternamente úmido.

Cochos cavados em pedra se deixam largados pelos cantos do quintal, calangos ali tomam sol em espaçosa segurança.
Dois leões, também em pedra, olham para o vazio do portão de entrada. Esfinges sem segredos a cobrarem apenas aguardando, aguardando. A fazer companhia aos inanimados felinos, dois cães. Aparentando braveza só no tamanho, se deixam levar a troco do menor afago. Sentem-se sós de gente. O casarão parece divido em três partes. A varanda dá acesso por um lado. Uma pequena quinta se deixa cercar por paredes espessas. Chega-se a ele por um lance de três degraus e portal fechado com pesado portão de ferro. É ali, ao fundo, que se encontra o caramanchão e as avencas.

A cor laranja das paredes externas confere certa imponência à construção. De longe, do alto se vê.
Um segundo andar em janelas permite imaginar as dimensões internas, causam certa surpresa a princípio.
A frente de cada janela uma sacada curta, parapeito também de ferro com desenhos que lembram arabescos.
Ali talvez esteja o mistério, a magia de toda construção. Não ali fisicamente, erguida em imobilidade eterna. Mas devido a uma curiosa e diária visita.

Toda tarde, antes do repicar dos sinos de Vila Rica, na mesma sacada, pousa manso um belo tucano. Anos repetindo a rotina. Esperava-se que uma vez pousado se virasse para as torres e casas ao longe, para as montanhas ou para o jardim. Não. O pouso é feito sempre de frente para a janela. Talvez a solidão aí o levasse para apreciar seu reflexo e sentir certo conforto. O abandono e solidão menos lhe doeriam. Penso que bela ave pode vir sistematicamente em recordação de alguém ou alguma coisa passada. Ao invés de imenso salão vazio e escuro, iluminação se dá tão e somente por pequenas frestas do telhado sem forro. Talvez o pássaro ouvisse música e atentaria para algum baile. Belas damas em trajes deslumbrantes, com decotes, cores, colares de pedras preciosas e tiaras a espalharem mais e mais brilho. Cavalheiros elegantes, alguns com trajes da guarda imperial, brindavam champanhe em talhadas taças de cristal.

Uma orquestra entoava os sucessos de época vindos da corte.
Abaixo, na entrada hoje calçada, carruagens e belos cavalos eram dispostos espalhados pelo encantado jardim.
Seriam estas as lembranças do tucano? O que sentia bela e pobre criatura em suas visitas diárias?
O escurecer vem do Itacolomy, desce as encostas da serra e lança-se pelo campo. Muda, abraça as primeiras casas da cidade, corre suas ruas, becos e vielas, envolvendo pessoas e animais. Envolve a vida. O tucano mesmo de costas, parece perceber o chegar frio da sombra. Sem soltar som que seja, se lança do parapeito de ferro. Ninguém sabe seu destino. Certo mesmo é que amanhã estará novamente naquela janela, revivendo novos bailes, novas músicas, preciosas lembranças. Amanhã.






Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 11 de novembro de 2018



terça-feira, novembro 6

Acabou

Amanheceu segunda. Entre mortos e feridos se salvaram todos. Não, nem todos. Nunca em minha vida assisti a um embate tão duro entre duas correntes de pensamento. O nível das discussões foi tão baixo, que embrulhava o estômago. A raiva, o ódio e o rancor afloravam frente a qualquer comentário, por mais insignificante que fosse. Parecia pessoal. Havia uma permanente patrulha ideológica a espreitar redes sociais, prontas a apontar dedos e tecer ofensas, caso o digitado não dissesse exatamente o que um lado ou outro queria ouvir.

Catarse coletiva! Incompreendida, mas geral. Foi como se a porteira fosse aberta e a boiada inteira, imensa, em transe, sem saber ao certo o rumo, se lançasse em disparada diante de algo reprimido, indecifrável.

Não, não se salvaram todos. Amizades antigas desfeitas, agressões inúteis e toscas. A democracia pode ter sobrevivido ao pleito, mas seria o que que queríamos? Adversários se transformaram em inimigos mortais. Faltou razão, sobrou sectarismo e ódio. Faltou educação e respeito. Nunca, repito, vi tanto ódio oculto, profundo e represado, se lançar com tamanho vigor contra as rochas da razão e do bom senso, a ponto de romper as paredes "opressoras" de cada mente.

O vencer aqui ficou em segundo plano. A guerra, o digladiar tornou-se o esporte nacional.
Agora que tudo acabou, rezemos para que as patrulhas se desfaçam e que não surjam milícias nem de um lado, nem de outro. Que a normalidade democrática reine e permita que um país chamado Brasil passe a existir de fato. Que o respeito à nossa Constituição seja pleno e o sonho para o futuro seja possível.

Famílias e pedaços se recomponham, amigos voltem a brindar à vida e à felicidade de viver.
Aqueles que se sentem vitoriosos, que zelem para que esta vitória seja plena de paz e caminhe cadenciadamente e em harmonia. E aqueles que perderam, não se sintam derrotados, mas parte do processo mais belo de um país livre.
Que as discussões doravante sejam civilizadas e no campo das ideias, calcadas na razão.

Defender o que se acredita é saudável e meritório. Saber como defender é mais importante ainda.
Chega de divisão, chega de agressões e vinganças pessoais. O futuro de um país inteiro depende dessa luz para não correr risco de mergulhar em escuridão, pouco vista na história da humanidade, mas que, quando em trevas esteve, pagou preço incalculável pela aventura e desfaçatez de insanos. A História contempla esses momentos de horror e trevas.

Acreditemos, pois nossa pátria mãe gentil não pode e não deve passar por aventuras e correr riscos. Somos grandes, somos frágeis. O gigante se fere com um simples espinho de rosa. União! É hora de baixar a guarda e juntos caminharmos pacificamente rumo a um futuro que pode ser auspicioso ou fúnebre. Depende de nós, sempre de nós.

Não quero jamais concordar com Nelson Rodrigues quando disse:

"Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos."

Olhar à frente, um futuro nos espera. Vamos provar que o ácido gênio de nossa dramaturgia, autor de O Beijo no Asfalto, A Mulher sem Pecado e A Falecida, pode e estava errado.

Paz eu peço, paz eu espero. Ligue para o amigo com quem você rompeu, beije a mulher que pensou diferente. O primeiro passo para o fim é a divisão. Um pequeno tratado escrito no século IV a.C. já alertava guerreiro.

Nem Sun Tzu, nem Nelson Rodrigues. O futuro nos aguarda. Fazê-lo sólido depende apenas de nós. Afinal, não existem derrotados ou vitoriosos quando a nau navega  a todos.
Viva a Democracia!






Publicado em Jornal Correio em 4 de novembro em 2018

quarta-feira, outubro 31

Lazinho





Com o passar do tempo fica difícil guardar multidão de pensares e lembranças. Dia desses contei do labirinto de prateleiras com gavetas, pilhas e pilhas de recordações amarradas com finíssimos cordões de passado que, a qualquer momento, podem se romper em derrame de imagens, situações e vivências que habitam nossas cabeças. Pois então. Hora ou outra carecemos de um empurrão para o passado, para pescar no mar de dias aqueles que nos atropelaram com um lampejo escondido.

Numa prosa com o amigo Marcelo, que é garçom por profissão portanto grande andarilho da noite e que possui invejável capacidade de estocar acontecidos, alguns nós foram desatando, gavetas se abrindo.

Não conseguia esconder o sentimento de orgulho desse amigo, a puxar de sua prodigiosa memória detalhes vivenciados que, na minha cabeça, foram rebrotando como em pasto seco e judiado, após receber boa e pesada chuva. Uma benção ver as tanajuras e cupins alados em alvoroço, como flashes a te conduzir por prazerosos caminhos, lá longe no passado.

Claro que como garçom, me levou em sua narrativa a passeio por antigos bares da cidade, desde as particularidades de cada “copo sujo” aos frequentados por gente mais abonada e esnobe da cidade.

Passamos por praças onde ainda se podia sentar e ficar de prosa a noite toda, sem ser importunado por polícia e muito menos por ladrão. Não é mentir, nem licença poética de escritor não. Só quem viveu pode confirmar.

Já correu de ganso na Praça Tubal Vilela? Não!? Pois nós corremos e muito, ao cruzar a praça a trote para não perder o Transcol, que nos levaria ao Campus Umuarama para aula de histologia cedinho, às sete horas em ponto, no anfiteatro do Bloco A, ao lado da anatomia humana. Calouros de Veterinária, Medicina e Odontologia, todos juntos. O mestre? O professor Gladstone. Isto mesmo. Este que atualmente é nosso secretário de saúde.

Mas, os gansos nos forçavam marcha. Pense. Qual seria o destino de belos gansos soltos na Tubal Vilela hoje? Quanto tempo você acha que lá ficariam? Uma, duas, talvez três horas? Certo, fui otimista.

Passamos pelo Sobrado, seguimos para o Frango Assado. Em conversa mansa cruzamos a porta do DAGEMP. Nele, basicamente só havia homens e, como todo bom sábado de estudante, quase todos bebuns. Na praça outra vez, um pastel na Paulistana com guaraná mineiro de garafinha de vidro. De lá os mais abastados enchiam as mesas do Garibaldi's ou "já ó" por apelido. O motivo? Na falta de fazer e cantar de galo, era só moça bonita passar pela calçada e lá vinha um em mentiras: "Viu aquela ali? Pois já ó!" E fazia gesto com mão passando pelos lábios.

Memória é como braseiro. Fica assim fingindo de apagada sob fina camada de cinzas, mas basta um sopro e alguns gravetos para que possa novamente arder em chamas e voltar a aquecer.

Tomamos um escaldado no Porta Aberta ali na Rio Branco depois um pulo no Bar do Tarcisio todo pintado de um azul cinza - barra pesada.

Seguimos prosa até o Bar do Bené, lá na Fernando Vilela. E já que estávamos no Martins, uma gelada no Carne Assada e pega rumo para visitamos algumas "casas de tolerância", vizinhas ao Parque de Exposições. Pô, quer nome mais babaca e preconceituoso para se dar a uma zona? Tolerância! Que maquiagem mal feita.
Ali sim apesar de cara, a cerveja mais gelada da cidade.

Mas, baixemos os ânimos. Pois bem, sei que se estiver a ler esta prosa neste domingo, sua cabeça vai estar mesmo é no resultado das eleições. As mais doidas que minha curta vida de eleitor para presidente me ofereceu. A sorte está lançada. Que se salve ao menos a Democracia, a pedra mais cara e preciosa que temos.

Minha conversa com Marcelo tinha que parar no estabelecimento mais pitoresco de todos à época. Este merece destaque, por ser um tratado. O Bar do Lazinho, lá na Afonso Pena com Santos Dumont. Quem lembra levante a mão - antiquado isso não é – então, como nas horrorosas conferências online de venda de qualquer coisa, quem por passou solte dai uma alva de "claps" ( que tristeza...)

Enfim conheceu o Bar do Lazinho? Segue um pouco de alguma coisa para relaxar o tenso domingo eleitoral. Então se lembre do slogan: "Lazinho não faz propaganda" . O estreito e miúdo bar tinha duas mesas. A mesa 1 e a mesa 250, isso ela nunca explicou para ninguém. Porém, a marca registrada do Lazinho era um cartaz bem escrito e anexado à parede com os preços do moca

Cafezinho 10,00
Cheirinho 10,00
Um tiquinho 10,00
Fundinho 10,00
Ainda havia aqueles que trabalhavam com bom humor e felizes.
Seria muito nostálgico um fundo respirar e dizer: Bons tempos?

Bom domingo, bom voto.








Publicado em Diário de Uberlândia em 28 de outubro de 2018

terça-feira, outubro 23

São Tomé



Depois do milagre da ressurreição da torta de camarão em certo hiper mercado, resolvi ficar mais atento. Nada pelo visto é o que parece ser, pelo menos para os lados do consumidor. Guardo essa história para um novo contar.

Me veio então uma ideia no mínimo dantesca, que à primeira vista me pareceu inefável: resolvi medir rolo de papel higiênico. Será que aqueles alvos e macios rolos teriam mesmo os tantos metros indicados na embalagem? É que nós, simples mortais, dados à consumição, andamos tão enganados que fica difícil acreditar no "vale o que está escrito". Na zoo contravenção do barão de Drummond afirmam que sim, sei lá eu.

A ideia, a principio maluca, carecia de bases científicas e testemunhais para ter valor real. Pensei em filmar o experimento e depois colocar no Youtube, junto com o gato comendo carne no açougue. Desisti. Como na internet quase tudo também não é o que é, assim como as pessoas não são o que ou quem dizem ser, logo alguém no meio da multidão virtual dará um grito: — Mais uma pulha! Um fake, farsa total!

Pensei então em criar uma comissão de alto nível (um perigo falar alto nível ou notáveis hoje, generais podem não gostar). Uma banca especializada. Mas onde encontrar doutores, PhDs em medir ph? Como os experts, além de raros, são de difícil lida, fiquei imaginando o longo e inútil debate acadêmico que estaria fomentando. Questões do tipo se o picotado do papel deveria entrar na medição ou se deveria ser descontado paquimetricamente (de paquímetro e não paquiderme),do resultado final.

Como quase tudo no mundo dos muito especializados, da academia, exceções à parte é óbvio, a discussão duraria uma eternidade, demandaria pesquisa pura e altos financiamentos em projetos, bolsas e simpósios, e cá para nós, no fim, jamais se chegaria a uma conclusão e ainda ficariam criadas duas escolas, duas linhas de pensamento filosófico contemporâneo, em medir o quê? Papel higiênico. Achei melhor não envolver os "notáveis" em minhas pendências existenciais.

Então, em surto de lucidez, me dei conta de que já contamos com órgãos e instituições próprias para isso. Criadas para nos proteger, defender a população e seu bolso contra o descaso e desrespeito. Foquei na instituição maior, aquela federal.

Mas só de pensar na papelada que teria de preencher, nas justificativas que teria que apresentar, me deu tristeza, larguei para lá. Pensei no Procon. Mas também mudei de idéia. Pelo que acompanho, sei bem da competência daquele órgão. Sei que fazem das tripas coração com o pequeno número de agentes de seu quadro, portanto seria uma falta de consideração da minha parte solicitar ao respeitado e atuante órgão destacar um servidor para auditar medição de papel higiênico. Não seria justo nem de bom alvitre.

Me veio à baila história do moço cujo carro furou o pneu em estrada da roça e que estava sem macaco. Resolveu andar até fazenda próxima para pedir emprestado. Com pouco dinheiro no bolso, durante o percurso sofismava. Se pôs a imaginar quanto o dono da fazenda iria lhe cobrar pelo uso do equipamento. À medida que se aproximava, a quantia imaginária subiu tanto, mas tanto que, depois de bater à porta, já descarregou sua raiva em atônico e sonolento senhor que mal havia destravado a tramela: — Sabe o que você faz com esse seu macaco!?
Andamos ficando com raiva antes da hora.

Querem saber, mudei de ideia, vou mesmo é contar palito de fósforos e de dentes.Quero ter absoluta certeza de que as caixinhas contém o que prometem. Pago para ver.






Publicado em  Diário de Uberlândia em 21 de outubro de 2019

quinta-feira, outubro 18

Tenho sede - Reminiscências





Em passeio no tempo encontro "espantosa manchete" : E não é que acharam cem litros de água na lua? Espantoso. Porém, enquanto lá no cosmo, sem alarde, ruído ou consulta prévia a poetas e dragões, sonda espacial recheada de caríssima tecnologia se espatifava em solo lunar, para desalento de trovadores e afins, na busca de poça d’água, aqui embaixo, mais de um bilhão de pessoas passam sede ou não têm acesso a água potável.
No Brasil cerca de 600 mil pessoas estão sedentas, sofrendo a quase total escassez do precioso líquido, isso só no sertão do Piauí.

Um artigo publicado no “L’Osservatore Romano”, tempos atrás, trazia em manchete "A sede mata filhos da África”: “Na África, morre uma criança a cada quinze segundos, porque não tem acesso à água potável", rugia o diário da Santa Sé.

No ano passado uma ONG belga e a Cruz Vermelha conseguiram arrecadar 3,3 milhões de euros e ainda ganhar dois Leões de ouro, um de prata e um Titanium Intregated em Cannes com campanha usando o mesmo clamor do jornal católico.
Produziram um filme dramático, "Thirsty Black Boy". Não viu? Ainda há tempo, pois está no Youtube onde pode ser encontrado sob o título "Black Boy Wanting Water".

O filme parte do constatado fato de que todo apresentador de televisão aparece sempre com um copo d`água ao seu lado. Durante vários dias o misterioso vídeo, que não estava ainda assinado, mostrava um garoto negro invadindo rapidamente e sem cerimônia, ao vivo, estúdios de emissoras de TV de todo o país. Agarrava e bebia vorazmente aqueles copos e, sem dizer palavra, saia correndo. Os entrevistados, que não sabiam de nada, olhavam atônitos e visivelmente nervosos a ação do garoto, apenas observam-no.

Pois bem, esta louvável e muito bem produzida criação arrecadou como já disse 3.3 milhões de euros para combater ou amenizar o sofrimento dos filhos da África.
Muito mais tem que ser feito. Ações isoladas ajudam, mas não resolvem. Não basta ver ou ler sobre campos de refugiados em Gaza, na Cisjordânia ou, voltando ao continente africano, onde está o maior campo de refugiados do mundo, em Daddab no Quênia, onde segundo a ONU se amontoam 270 mil almas. E a cada quinze segundos, se vai uma criança, de sede.

Criticar acúmulo de riquezas da Santa Madre Igreja ou os exorbitantes milhões de dólares gastos com mais esta expedição da NASA para encontrar água em nossa vizinha celeste é, me perdoem o sarcasmo, chover no molhado. O mundo também tem sede de ações globais e permanentes.
Recursos existem, só precisam ser aplicados nos lugares certos ao tempo e à hora. Quanto dá isso em segundos?

Um pouco de bom senso e verdadeiro amor ao próximo seriam suficientes para, se não acabar, pelo menos começar de fato a resolver o problema de tantos espalhados pelo mundo. O foco deve estar errado, é como tentar resolver o problema do outro sem ter arrumado a própria casa.

Bordão eu sei, mas nós só temos um planeta terra, um único e solitário lar em meio a bilhões de outras terras inatingíveis, pelo menos por enquanto. Não varrer calçada com mangueira, escovar os dentes com a torneira fechada e segundo sugestão recente, até fazer xixi no chuveiro durante o banho.

Um bom começo, pois a se continuar como está não teremos apenas uma África sedenta, mas em breve um planeta inteiro, seco, rajado em pó/poeira, e só. Mas na lua encontraram cem inacessíveis litros de água e aqui, a cada quinze segundos, morre uma criança, de sede.








Publicado em Diário de de Uberlândia em 14 de outubro de 2018


terça-feira, outubro 9

Gente das leis






Conhece profissão mais ardilosa do que a de advogado? Quando o cara é bom, é bom mesmo e não tem aperto em situação alguma. O interessante é que não apenas em defesa de alguma causa, ele leva sua esperteza e poder de convencimento para sua vida, seu cotidiano na prosa mais simples com os amigos, nas calorosas discussões sobre qualquer assunto, política ou futebol.

Claro que há alguns que são um desastre, mas toda profissão os tem. Convivo muito com advogados, em suas mais diversas especialidades do Direito, tais como os mais tradicionais do Direito Civil, Comercial, Direito do consumidor, Direito tributário, Direito trabalhista, Previdenciário e Penal. Há também alguns bem à frente no tempo do que a maioria, que se embrenharam por novas áreas como o Direito virtual, eletrônico e o Biodireito. Este é louquíssimo e deve ser fantástico, pois tenta responder a perguntas tipo "Até que ponto devem ser utilizados recursos médicos e tecnológicos para o prolongamento da vida? Os transgênicos são realmente uma ameaça ao homem?"( Fonte: "Advogado"; Editora: Publifolha).
Ia me esquecendo: Com a dinheirama que rola não só pelos gramados, mas por todas as quadras e tabuleiros, aparece o Direito desportivo, um verdadeiro e intrincado jogo.
Ai de mim se não cito a fonte. O Direito autoral devora meu fígado.

Além dessas áreas fazem parte de meu círculo de relações, Juízes, Promotores e Defensores. Tenho na família que muito amo.
Admiro a profissão e pensei um dia em cursá-la, depois de formado em Medicina Veterinária. Porém, ficou só no querer, como muita coisa em minha vida. Muitos projetos e vontades. Estou tentando resgatar algumas antes impensáveis. Mas, o assunto aqui não sou eu, com minhas querências e pesares, são os advogados.
Ricos em histórias, muitas divertidas, outras nem tanto, em nossas longas prosas me municiam com material raro. Faço uso com a devida vênia dessa matéria prima recontando-as.

Já contei a história do bêbado que atormentou um delegado em pequena vila. Reconto o final para aqueles que já leram ou para aqueles que não. No bar, em pleno fim de semana, esse nosso amigo delegado resolveu tomar uma cerveja na única venda da currutela. Um senhor já de idade, totalmente embriagado, pegou a mangar do delegado: ─ O senhor pode me prender que eu saio, mas se eu prender o senhor sai não.
Paciencioso foi deixando. O velho ria que ria, com aquele olhar pastoso de todo bêbado (conhece algum que não o possui?).
Na tentativa de encerrar a conversa o Delegado falou firme ─ Mas afinal quem é o senhor que me prende e eu não saio!?
─ O Coveiro doutor, o coveiro. E destampou a rir que só. Foi o dia da caça, mas até o advogado delegado riu daquele tanto e trouxe a história.
Entretanto, deixaram outra que não poderia levar só comigo.

Vinha um advogado pela MS 240, beiraninho Porto Alencastro, quando do nada, em uma ligeira curva, viu um tatu prancheado no asfalto. Buscou acostamento e pegou o pobre bicho num morre não morre. Despejou água de sua garrafa companheira na cabeça do pequeno. Era um tatu galinha e esse logo virou o focinho e sorveu com sede de andarilho o litro todo.
Preocupado, colocou o bicho dentro carro e seguiu rumo. Pelo retrovisor observava que ele foi melhorando, ficando esperto daquele tanto. Foi nada não, alguns quilômetros a frente deu com bloqueio da polícia rodoviária que, lógico, o mandou parar.
─ Boa tarde senhor. Seus documentos.
─ Pois não, aí estão. Sua cabeça estava a mil por conta do bicho e do suposto crime ambiental cometido.
O policial ao contornar o carro viu o danado a pular no banco traseiro e endureceu.
─ E esse tatu? Sabe que é crime inafiançável carregar tais animais? Por favor, desça do carro.
O advogado desceu com um posso explicar já pronto. O guarda foi direto:
─ Conte a história. Se me convencer eu te libero.
─ É o seguinte seu guarda, tenho esse tatu há muito tempo e ele é até treinado.
─ Tá de sacanagem comigo?
─ Não, é verdade. É o seguinte, eu solto o bicho, ele vai longe e ai eu assobio, ele vem direto para minha mão.
─ Conversa! Isso não existe.
─ É a mais pura e sagrada verdade!
─ Bom, vamos fazer o seguinte, me prove e se for verdade te deixo ir. Combinado?
O Dr. advogado mansamente abriu a porta traseira do carro. O tatu vendo a liberdade guardou na capoeira que nem um risco, levantando poeira e embrenhou-se na mata fechada atrás de uma cerca de arame liso.
─ Muito bem, agora assobia para o tatu voltar.
O advogado, fazendo cara de paisagem, abriu os braços se fazendo de desentendido:
─ Você tá doido? Que tatu?








Publicado em Diário de Uberlândia em 07 de outubro de 2018

segunda-feira, outubro 1

Famosos




Há quem pense que a vida de famosos seja fácil. Glamour, festas de segunda a segunda. Flashes, sempre cercados de gente bonita e sorrisos. Portas sempre abertas. Vai nessa! Pense cá comigo, sinta-se no lugar e imagine que é de você que estou a falar. Me dê algumas palavras e depois conte.

Cai o pano, fecham-se as cortinas, a plateia volta para casa, o teatro fica vazio, som de passos miúdos se agigantam dentro de imenso espaço. Ouve-se agora apenas o barulho de vassouras e rodos. Nos botecos, quando nos querem para fora, aquela última mesa que fica e vai ficando, garçons já sem uniformes, levantam as cadeiras e jogam água no chão, repleto de espuma de detergente. No teatro é diferente. Após o espetáculo, o zum zum zum na coxia, comentários sobre peça/show, marcação, público. Não jogam água para expulsar os tranquilos artistas. Apagam as luzes.

Resta pálida luzinha que leva aos camarins. Aí a vida volta a ser. O personagem é desmontado devagar para não se ferir. Maquiagens, perucas, roupas. Ali, jogado em cadeiras, cabides, araras, vai ficando o sonho, o imaginário, parte da alma.
A casca sai, mas a criação sai junto. Leva tempo para se desfazer. Talvez solidão e vazio possam ser os únicos companheiros naquele instante. Tira-se a máscara, veste-se um sorriso.

Lá fora ainda se ouve sons de fãs à espera de ficar bem perto ou tocar o artista. Quem sabe uma foto, talvez uma "selfie"? Mas, se é "selfie", não pode ter outra pessoa. Vá lá, deixe de ser chato, literal demais! Pronto, uma selfie em grupo ou um sozinho com muitos. Talvez ali se expresse com força sentimento de isolamento. Rompe-se salão adentro, novamente luzes, flores, brindes, beijinhos à distância, apertos de mãos. Entrevistas aborrecidas. O cansaço escondido atrás de ar de satisfação. Afinal, é atriz e sabe atuar. Jantares sonolentos, amanhã o dia começa cedo. Dormir será pouco. O corpo doendo, a cabeça a mil. Contas a pagar. Será que o borderô foi legal essa noite? Bom, a casa estava cheia. Pensamentos entrecortados por brindes, mastigares, movimento de pratos. A comida sem gosto certo. O que foi que pediram mesmo? Dez vozes a responder e explicar o prato. Finge que entende. Come sem prazer. Um banho e uma cama é tudo que deseja.

O diretor ainda se perde em detalhes do espetáculo de amanhã. Alguns se deixam encantados. Se alguém se atrever a me cantar vai ter barraco, pensa com aquele sorriso plástico ainda preso no rosto. Sente pequena câimbra no canto do lábio. Percebe que começa a tremer. Aproveita o gole de vinho para relaxar os músculos da face.

Então você quer glamour de estrela? Se prepare, pois talvez seu trabalho anônimo em algum canto de escritório seja mais tranquilo e recompensador. Já pensou que pode se dar ao luxo de comemorar a chegada de um fim de semana? E se houver feriado na segunda ou na sexta? Alegria dobrada. Pense na paz de espírito de ter apenas um chefe sacana. Ele também tem seus podres e você os conhece. Se apertar o assédio moral ou qualquer outro, você o expõe. Simples assim. Atriz/ator não pode, mas deveria. E o sossego de não ser reconhecida nas ruas, sem multidões a lhe pedir autógrafos e posses? Quer fechar a cara? Que feche. Ninguém vai te censurar. Não será vigiada por espiãs/espiões, por bando de paparazzis, que jamais te darão trégua, escondidos em bancos traseiros de carros, latas de lixo ou na copa das árvores. Ah! Se for em Uberlândia, não se preocupe, pois as árvores não tem copas e geralmente possuem pouquíssimos galhos, já que foram mutiladas por quem as deveria proteger.

Um amigo contou história de certa cantora "sertaneja universitária", em turnê aqui no cerrado. Fã lhe pediu quase chorando que ela autografasse seu chapéu de peão urbano. Assim ela fez. Escreveu romântica: "Com amor e um beijo”. Graciosa D’alho (nome artístico fictício para não contar a santa, só o milagre).

O cara olhou a dedicatória e completou:
─ Pode por meu nome aí?
─ Claro querido, como se chama?
─ Washington da Silva - respondeu estufando o peito.
Nossa Graciosa fez que ia começar a escrever, parou, pensou e percebeu que não iria dar conta. Arrematou brejeira:
─Tem apelido não?
─ Claro! Fica melhor assim. Mais íntimo né? Bota aí me tratam por Schumacher! Lascou de vez

Viu só? Acha que é mole? Agradeça todo dia a vida aparentemente normal que tem sô!








Publicado Jornal Diário de Uberlândia em 30 de setembro de 2018

segunda-feira, setembro 24

Arrastão




Não é surpresa para ninguém que, com o passar do tempo, a gente fica quando em vez melancólico, com saudade de uma coisa que não sabe o que é. Um trem que fica lá dentro remoendo com vontade de sair de alguma gaveta empoeirada, perdido fundo no guarda-treco da memória. Estranhamente as tais gavetas não tem etiquetas, numeração ou qualquer coisa que identifique seu conteúdo. Tem que ser busca ao acaso. Quando ando pelos labirintos de minhas cômodas repletas de lembranças, a primeira coisa que faço é soprar o pó do tempo ali acumulado por distrações frequentes.

Sigo a miúdo passo levando a mão em carinho sobre elas. Algum toque na qual busco e ela vai se fazer presente.
Noto longe, no profundo corredor, pequena luz. É ali que está o que me vem, mas não posso ficar ansioso, nem correr atrás com muita gana, pois a luz pode perceber minha aflição e, ciente de que não saberia saboreá-la com o devido cuidado, simplesmente sumiria, me deixando no escuro do "como era mesmo?"

Hoje desde cedo assim acordei. Não chegava a tristeza, nem a nada em busca arômata conhecida, mas sem identificação. Não era melancolia na acepção da palavra. Era sem nada ser. Era só isso.
Como estou em clausura forçada, ócio imposto por gente repleta de invídia gratuita - talvez nem tão gratuita assim - resolvi me deixar levar pelo silêncio e abrir as portas do corredor de gavetas. Bem ali perto, uma tênue luz mostrou a direção a seguir. Manso, segurei o puxador e mergulhei em seu conteúdo.

Durante minha infância até a adolescência passávamos pelo menos quatro meses por ano na praia. No começo, casa alugada, família junta e estrada de terra em gena de trecho até chegar ao Atlântico. A areia era minha segunda morada.

Com o passar do tempo, resolvi que ir só ou com pouca companhia era melhor ainda. Barraca, mochila, pouca grana e o mundo era nosso.
Assim foi por muito tempo.

Preocupados com as mudanças do tempo e não me refiro a chuva e vento, mas a uma escuridão malévola, que cobriu todo um país, trevas da "redentora", quando gente sumia para nunca mais, meus pais resolveram construir uma casinha simples. Delicioso abrigo a cinquenta metros da praia, em rua de pura areia e sem carros.
Mineiro de Belo Horizonte, não é necessário ser, nem consultar Oráculo de Delfos, para saber em qual estado ficava nossa casinha. Na mosca, no Espírito Santo, uai!

A esta altura a gaveta transbordava em luz e lembranças límpidas, perfumadas e repletas de sons. O quebrar das ondas em seu eterno lamber areia, as gaivotas ávidas por alguma sobra do arrastão matinal.
O dono do arrastão era Cabo Afrodísio, homem da cara amarrada, mas sempre pronto a sorriso aberto. Nossas pequenas mãos ajudavam a puxar toda manhã aquela corda imensa. Pelo peso tentávamos adivinhar a pecaria do dia. Quando dava na rede, mãos hábeis e ligeiras dos pescadores retiravam os peixes, caranguejos e camarões. Mas a grande espera era pelo bolsão final. Quando este se abria na praia era uma festa de gente e bichos.

Nós pequenos ficávamos agora de lado, para não atrapalhar os mais velhos. Em movimentação o de valor era colocado em imensos jacás feitos de corda. O que não era ali mesmo comercializado com turistas seguia para o mercado de peixe do arraial. Redes embarcadas eram levadas para outra ponta da praia, ainda havia tempo para mais um arrastão.

Nós crianças, ali parados a ver os barcos quebrados por ondas de ponta, corríamos com nossos baldes a salvar os pequenos peixes e siris abandonados na areia para morrerem sob sol escaldante ou serem comidos pelas gaivotas e guruçás famintos que, mesmo com o pisar de gente, se arriscavam fora das tocas. Todos os miúdos eram levados de volta à água.
O maior prazer estava em salvar as estrelas do mar. As recolhíamos uma a uma com especial cuidado. Mar adentro, com água até na cintura, as colocávamos de volta uma a uma, em ritual. Dava para sentir um perfume doce de flores a nos soprar, Yemanjá, tenho comigo, agradecia sorrindo o retorno de suas criaturinhas.

Dou parada no contar em respeito ao espaço, mas continuo. A gaveta estará aberta por um longo tempo, pois há muito a dizer sobre este meu paraíso.






Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 23 de setembro de 2018





terça-feira, setembro 18

Camafeu (Reminiscência)


Talvez os mais jovens – putz, me senti um velho agora –, aqueles que não conheceram bonde – o de Santa Tereza RJ não vale –, que não têm a mínima idéia ou no máximo ouviram falar de vídeo K7, máquina, monóculo com foto, câmara fotográfica com rolo de filme Agfa de doze, vinte quatro ou quarenta e oito poses... E principalmente, o que é pior e vem se tornando infelizmente cada vez mais comum, nunca se deram ao prazer de ler clássico de nossa e da literatura mundial... Estes talvez também não devam ter a mínima idéia do que seja um camafeu.

Vamos lá então. Camafeu vem de longe, pra lá de séculos antes de Cristo. Encontrado em escavações arqueológicas, pelo visto sempre foi um enfeite. A realeza egípcia era vaidosa ao extremo, nunca entendi o motivo de só serem pintados de perfil. Bons em invenções e construtores audazes, eram ruinzinhos em perspectiva. Ou então pediam para crianças pintarem tumbas e pirâmides como parte do ensino para se tornarem futuros arquitetos. Se foi assim, enganaram a todos que profanaram seus santuários. Doce deboche.

Geralmente camafeus são feitos em pedra preciosa, trazem delicada escultura em alto relevo. Já foi pingente, mas nossas avós os usavam em seus xales cheirando a água de lavanda como prendedores. Existem peças maravilhosas em museus mundo afora ( museu...palavra de que só de ouvir dá aperto de tristeza e nó na garganta, as cinzas já assentaram, pouco se fala do assunto mas o cheiro de fumaça ficou impregnado na memória) .

Pois não é que tempos atrás, década de oitenta ou comecinho dos noventa, em jeep emprestado da Secretaria de Estado da Saúde, cinza, ,(lá vem museu à lembrança novamente) capota de lona rasgada, queimando óleo quarenta, ao passarmos pela então tranquila Praça Tubal Vilela avistamos sujeito vendendo filhote de tamanduá, assim na cara dura. Naquela época as leis de proteção de fauna, se existiam, ninguém dava a menor bola. Hoje muita gente ainda caça e pesca ilegalmente, mas já faz com medo pois sabe que se pego for vai se dar muito mal. Naquele tempo não. Pedi para parar o projeto de sucata e desci cuspindo fogo pelas ventas. Dei uma danada de uma bronca no sujeito que ainda teve a pachorra de contar assustado me olhando que matou a mãe para comer e queria vender o filhote, tinha família com fome, vinha de um longe nordeste.
Me bateu uma vergonha sem tamanho, a pobreza levou aquele homem a um ato que para ele era normal, só queria como qualquer um sobreviver e salvar os seus.
Comprei o bichinho, ganhei um problema. Como todo bom tamanduá miúdo, acostumado estava em ficar agarrado com a mãe. Não deu outra. Já no pegar o pequenino se agarrou a mim em busca de proteção, carinho e calor. Aninhou mesmo.
Adotamos o tamanduá e passamos a revezar no carregar e alimentar.

Tereza, colega de trabalho, não demorou a batizá-lo de Camafeu.
Camafeu ficou conosco muito tempo, cresceu forte, às vezes gripava, e não tinha cerimônia em correr aquela língua gelada em quem o pegasse no colo.
Mas como tudo tem um the end, dia chegou de deixá-lo ganhar mundo. Debaixo de tempestade de choro das meninas e muito nó na garganta e falta de coragem de verter lágrimas choro nosso, entregamos Camafeu para a Florestal, esta seguramente o soltou em local apropriado. Hoje já deve ser avó ou avô, tanto trato e nunca olhamos se era macho ou fêmea, curioso isso.

Quanto à máquina mencionada lá no alto, a minha é uma Remington, não o revólver ou rifle, a máquina de escrever, sabendo que palavras são bem mais poderosas do que armas, para não perder a chance de usar um lugar-comum. Vi charge genial onde o pai escrevia em uma máquina e o filho tipo geração Y observava fascinado, certa altura não aguentou e eufórico disse: “Pai, que doido, esta máquina é tudo de bom, é só escrever que ela já imprime!”
Sinal dos tempos...






Veterinário e escritor

Republicado em Diário de Uberlândia em 16 de setembro de 2018

terça-feira, setembro 11

Setembro em cinzas






Em pleno domingo, 2 de setembro, acompanhei tudo sobre o incêndio no Museu Nacional que consumiu grande parte de nossa memória já tão pobre e desprezada. A essa altura do campeonato muito já deve ter rolado, uma semana já se passou e sei que nesse domingo 9 de setembro, dia do Médico Veterinário, quase tudo já foi dito sobre o trágico acontecimento. Me perdoem mas não posso me furtar a tocar no assunto.

Escrevi este meu desabafo no dia seguinte, pois não pude deixar de relatar a estranha dor que me incomoda tanto, como pesadelo a se repetir.

Ontem, dois de setembro, ventou muito e todo o acumulado de agosto foi gasto com força. O vendaval trouxe consigo não apenas pó/poeira, folhas secas em redemoinhos e pânico aos pequeninos emplumados, agarrados a seus ninhos e ao carinho de pais e mães passarinhos.
Vento de setembro espalhou por todo país, por nossas consciências, para nosso horror, cinzas de nossa memória. O Museu Nacional ardeu em chamas. Pedra cantada. Em tristeza acompanhei tudo pelo rádio. Não tive coragem de ver as cenas. Senti-me um pouco culpado, como quase todo brasileiro que sabe o inestimável valor de nossa história, de nossas vidas, do aço que deveria ter nos forjado gente humana.

Esse dia entrará para a triste história do Brasil. Um país que, como está, deveria ser interditado, tamanhas as mazelas assistidas em nosso cada vez mais pobre cotidiano. Um setembro que se propôs amarelo, dedicado à prevenção do suicídio, do nada assassina sua memória, sem dó nem piedade.

Viajo à Alexandria 642 a.C., quando esta foi incendiada pelo governador geral do Egito. A história joga toda culpa da tragédia em um homem só. Porém, de acordo com Ana Freitas, "O declínio da Biblioteca de Alexandria foi gradual e se deveu a algo que, infelizmente, a gente conhece bem: um corte de gastos públicos e burocracia."

O Brasil perdeu seu maior museu de história natural e poucos lastimam. Ando pela cidade e não vejo um grupo sequer comentar a tragédia. O assunto continua: futebol, eleição, dólar e mais futebol.
Penso em perguntar se alguém ouviu contar do incêndio ocorrido na antiga residência real, onde nasceu D. Pedro II, na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro. Resposta única recebida: "No Rio? Ah, então foi na favela. Aposto que foi guerra entre traficantes!"

Suspiro profundamente. Não sinto vontade de conversar. Memória? Para que lembrar? História? Para que contar? Educação? Para que educar?
Educa e perde-se o cabresto. Senhores de engenho não querem colher sua própria safra.
Ouço ao longe um cantarolar:
Se essa rua/ Se essa rua fosse minha/ Eu mandava/ Eu mandava ladrilhar/ Com pedrinhas/ Com pedrinhas de brilhante/ Para o meu/ Para o meu amor passar.
Estranhamento. Quem em dia tão triste cantaria melancólica canção? Alguém, em algum lugar, externa sua tristeza com a pirotecnia pavorosa, com gentileza e carinho. Saio à rua procurando origem. Acho não.

Literatura (arte & história) seria propagadora da infelicidade, como vaticinou Truffaut em seu Fahrenheit 451, com seus bombeiros do fogo.
O que dizer dos nazistas na Alemanha e do Partido Bolchevique de Lênin e Stalin durante a revolução russa?
A história, sempre ela, a nos lembrar dos absurdos.
Recentemente Cláudia Fusco nos relatou como o Estado Islâmico destruiu o Templo de Baal-Shamin, construído na cidade síria de Palmira, no século II a.C.
Não parou por aí. O Templo de Baalshamin e o Mosteiro de
Mar Elian, construídos há mais de 1500 anos, na cidade síria de Al Qaryatain, também vieram abaixo. E mais algumas dezenas de monumentos entraram na lista destes "libertadores".

Nós não precisamos de grupos religiosos para que nosso patrimônio cultural seja destruído. Temos a infelicidade da destruição oficial, governamental. Somos autosuficientes na matéria.
Importante contar que nas comemorações dos duzentos anos do Museu Nacional nenhum, repito, nenhum ministro de estado se dignou a comparecer. Ato este que deixa claro o que podemos esperar desses senhores do poder.

Outubro teremos eleições e sou obrigado a dizer que não vejo em nenhum candidato à presidência da república a mínima possibilidade de mudança. Estamos reféns de uma política nefasta, egoísta e covarde.
Em dois de setembro de 2018, em um estertor de um moribundo agosto, os céus do Brasil literalmente choraram cinzas de nossa história, de nosso passado, dificultando ainda mais a possibilidade de criar um futuro melhor e mais belo para todos. Eu jogo a toalha, desisto de vez. Que os céus se apiedem de nós, estúpidos humanos.






Publicado em Diário de Uberlândia em 09 de setembro de 2018