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quarta-feira, março 21

Datas



Neste 14/3 o universo perde um de seus maiores físicos teóricos que por essas bandas passou. Stephen Hawking com toda sua genialidade e mesmo preso a doença progressiva, sem cura por enquanto, esclerose lateral amiotrófica (ELA), foi sem dúvida depois de, ou junto com Albert Einstein, uma das mentes mais admiráveis que se tem notícias. Morre o homem fica o legado, a fama não importa. Curiosamente ou propositalmente Hawking resolve partir exatamente no aniversário de morte de Einstein e no de dia do Pi (aqui ó para tamanhas coincidências), “constante deste, um número infinito que é representado pela 16ª letra do alfabeto grego” – dicionário de simbolos.com.br – seu valor 3,14 é data para inglês ver. Para nós 14/3 não significa nada, apenas uma quarta-feira chata como outras, modorrento como todo meio de semana se apresenta. Se você gosta de futebol então é um dia especial para você. Caso contrário, é um meio de nada. 
Foi-se a preguiça da segunda e terça, mas não nasce a expectativa do fim de semana. Bom, quartas são quartas e esta em particular comemora o tal dia do Pi. Aposto que isso agora muda sua vida para sempre.

Física/matemática não me pertencem, assim como muitas outras datas criadas num à toa de dar dó. Vereadores adoram este expediente e criar uma data é projeto digno de deliberação por semanas. Quanta riqueza de pensar!

Pois olhe, fico mesmo é espantado com a imaginação das gentes. O ócio criativo junto com alta remuneração cria pérolas. Após longa e exaustiva pesquisa (uns 15 minutos talvez), e sem receber um centavo (como sou altruísta), trago para você algumas datas muito importantes, as quais, com toda certeza, mudarão sua vida para sempre. Espero que esta pequena contribuição de conhecimentos inúteis lhe seja útil algum dia.
Vamos a elas:

03 de janeiro – Dia do Juizado de Menores. Tem mais de 18? Então esquece.
08 de janeiro – Dia da Rotação da Terra. Ébrios talvez se interessem pela data.
14 de janeiro – Dia do Treinador de Futebol. Estes coitados merecem canonização, pois pulam de emprego em emprego.
15 de janeiro – Dia do Adulto. Que dia é esse?
18 de janeiro – Dia Internacional do Riso. Só rindo.
30 de janeiro – Dia da Saudade. E tem dia para senti-la?
14 de fevereiro – Dia Mundial do Amor. Amor com dia marcado.
23 de fevereiro – Dia da Escrita à mão. Essa já dançou, pois escrever hoje em dia é ato de bravura, principalmente usando-se palavras inteiras.
02 de fevereiro – Dia Mundial das Zonas Úmidas. Duplo sentido. E as zonas secas, perfumadas e com cortinas de veludo vermelho?
28 de fevereiro – Dia do Engolidor de Espadas. Meu Deus, mude o cardápio!
10 de março – Dia do Sogro.
14 de março – Dia dos Carecas. Criado provavelmente por em, movimento contra fabricantes de perucas,
17 de março – Dias dos Fãs de Séries de TV e Cinema.
Não dá para comentar todos, deixo para sua imaginação. Aproveite e envie e-mail, telefone, faça manifestações nas ruas, crie o dia que te agrada sobre qualquer coisa. Aposto que seu político de estimação vai adorar. E segue a lista:
31 de março – Dia Mundial do Backup.
13 de abril – Dia do Beijo.
26 de abril – Dia do Goleiro.
28 de abril – Dia da Sogra.
03 de maio – Dia do Sol.
12 de maio – Dia do Silêncio.
20 de maio – Dia do Humorista.
22 de maio – Dia do Esclarecimento sobre os malefícios do trote telefônico. Este é especial, adverte o Ministério da Saúde.
27 de maio – Dia do Vendedor Lotérico. São tantos assim? Ah, tem os anões do orçamento, esqueceram?
31 de maio – Dia do Aeroporto.
05 de junho – Dia do Pedestre. ¨Morreu atropelado atrapalhando do transito”.
22 de junho – Dia do Orquidófilo.
27 de junho – Dia do Quadrilheiro Junino.
08 de julho – Dia Mundial da Alegria.
13 de agosto – Dia Mundial do Canhoto – Dia da Esquerda?
20 de agosto – Dia do Vizinho. Esse é duro de aguentar.
23 de agosto – Dia da Injustiça. É justo?
09 de setembro – Dia do Alcoólico Recuperado. Um brinde!
17 de setembro – Dia da Compreensão Mundial. Patrono Trump.
22 de setembro – Dia dos Amantes.
25 de setembro – Dia da Tia Solteirona. Aqui estão de sacanagem.
22 de setembro – Dia da Banana- Engorda e faz crescer.
12 de outubro – Dia do Torcedor Corintiano. Juro que existe. Quem criou? Vicente Mateus provavelmente.
10 de novembro – Dia da Pizza – Em Brasília todo dia.
11 de novembro – Dia do Origami.
12 de novembro – Dia do Supermercado.
13 de novembro – Dia da Gentileza no Trabalho.
19 de novembro – Dia do Tênis de Mesa.
21 de novembro – Dia da Saudade do Jornalista Falecido.
10 de dezembro– Dia do Palhaço. Todos nós Brasileiros deveríamos vestir luto nesse dia.
Ah, fica a sugestão. Dê trabalho para seu parlamentar de estimação e envie sugestões, pois ele irá adorar ter o que fazer.
Que tal Dia do Chulé, Dia da Dobradinha, Dia da Preguiça, Dia do Ovo Frito, Dia da dor de Calo, Dia do Quiabo, Dia do Mingau de Milho verde, Dia do…

Post Scriptum:

Para não ser como tantos oportunistas da web, aí vão as fontes pesquisadas: Wikipédia pt.wikipedia.org/wiki/Datas_comemorativas, Mega Curioso www.megacurioso.com.br/, Superinteressante , super.abril.com.br/ www, dicionariodesimbolos.com.br.





Veterinário e escritor


Publicado em Uberlândia Hoje 

quarta-feira, março 14

Olha o trem




Posso te garantir meu caro amigo e hoje, em particular, minhas amigas, dedilho esse contar em pleno 8 de março, passou eu sei mas assim foi, dia internacional da mulher. Particularmente e sendo bem lugar comum, acho que todos os dias pertencem a vocês. Pode acreditar, não é lamechice de minha parte não, é constatação. Assim através de amores passados, esquecidos e principalmente pelo iluminado amor que junto a mim está, companheiro, escudeiro “amiga para todas as horas, várias faces de uma só pessoa” e de minha filha maravilhosa, envio meu carinhoso abraço a todas as mulheres guerreiras desse vasto mundo. O mundo é de vocês Marianas, Marílias, Marias que não vão com as outras.

Há assunto ainda fervilhando aqui em minha cabeça de vontade de contar. Quase passo o meu espaço falando de vocês o que seria ótimo, mas não posso perder o fio da meada, senão como poeira de estrada quando passa caminhão, levanta dispersa e some nas palhadas, nos pastos, nas manchas de mato. Chuvisco fino que não chega a molhar.

História que aqui reconto me foi contatada, não carrego os créditos do caso nem posso dá-los pois ao mundo pertencem, talvez até conheça, mas o registro tem que ficar.
Em pequena cidade em pé de serra, vazia de barulhos e de gente, três meninos cresceram juntos, claro que havia mais crianças no pequeno grupo onde ainda se usava “Caminho Suave” e à vezes até palmatória. Mas esse trio era diferente, amizade siamesa, xifópaga. Podia contar, onde um estava era só passar olho e achavam-se os outros. Se por acaso um era pego roubando fruta em quintal castigo para os três. Cresciam pé no chão alegres e pregados. Frango caia de maduro de poleiro, direto na panela ou fogueira. Os pais dividiam e pagavam o vizinho enfezado com a traquinice.

Adolescentes, hormônios à flor da pele, suavam frio/quente, êxtase ao espiar as meninas nuas em banho de cachoeira. Exaustos, pernas bambas, seguiam em alegre silêncio até se prostrarem em gramado e bancos de praça. Nenhum pio, apenas as estrelas como companheiras. Logo, recompostos a algazarra de sempre. Três que valiam mil em contar detalhes e fechar de olhos.

O tempo. “Medida arbitrária da duração das coisas”.
A pequena cidade não os cabia mais. Buscar rumo, não tinha jeito. Resolveram fazer concurso do Banco do Brasil, carreira promissora, futuro certo. Bota um estudar sem fim.
Vendas, botecos e zona. Tinha sim. Era pequena mas como manda a tradição a zona lá estava e sempre cheia, inclusive em dias de semana. Um terror das matronas.

Dizem que foi lá que nasceu a história do vendedor de panelas que, ao ser surpreendido pela noite em suas andanças, buscou pouso no único hotel da cidade. Banho tomado resolveu sair para aventura. Perguntou ao porteiro do hotel onde ficava a igreja. Com sorriso de mineiro cordial indicou direção. O mascate pegou o oposto: — Uai moço, a igreja é prá lá!
Maroto, respondeu em cochichos — Eu vou é pra zona sô, pelo que sei é sempre do lado contrário das igrejas. Padre ia deixar ser diferente?

Pois nem tempo tinham os três. Era um estudar que só. Montanhas de apostilhas chegavam quase todo dia pelo correio.
A prova foi na Capital. Belo Horizonte os recebeu barulhenta e com seu trânsito agarrado de sempre.
Exame feito, agora era esperar resultado.

Meses de agonia depois e pronto toca a comemorar. Fecharam todos os bares e vendas da cidade. No último, vendo que não iam embora o dono proclamou: – Toma a chave dos fundos. Vocês vão marcando o que beberem no caderno e depois acertam, vou dormir, o, leiteiro passa cedo. Só não vão me botar fogo na venda!

A luz tinha caído como sempre e lampião de querosene iluminava o ambiente. Naquela noite o gato do armazém dormiu em paz sobre seu saco de arroz preferido e nem camundongo ousou botar bigode fora da toca, tamanho furdunço.

Dia amanhecendo, abraçados seguiram para a estação de trem, cada um ainda com uma garrafa de Fernet pela metade.
Tontos se jogaram no banco da velha estação se deixando ficar. Passou hora e mais hora. Num sobressalto o rapaz acordou. Cabeça doía que só. A luz do amanhecer entrava por seus olhos como zagaias afiadas. Na ponta do banco o cabo da polícia estava sentado com as mãos entre pernas e dedos entrelaçados. Sem nem olhar para o rapaz que conhecia desde molecote, com voz paternal lhe murmurou:
— Tá vendo, estudou tanto e agora que ia assumir o posto perdeu o trem. Seus amigos embarcaram tontos, mas foram. Tem vergonha não?
O moço aprumou, coçou cabeça e assim, do nada, começou com risada miúda, que foi crescendo, crescendo até transbordar em gargalhada de rolar no chão. A cabeça doía, mas o riso era impossível de segurar.
Sem entender nada o cabo já ia ficando era assustado.
Enlouqueceu rapaz? Eu vou é chamar o doutor e seu pai.
O moço ainda no chão de tanto rir, que doía corpo inteiro:
— Carece não cabo, carece não. É que na verdade só eu passei. Só eu é que ia viajar, os amigos vieram foi me trazer aqui na estação.
Levou semana para os outros voltarem.








Publicado em

Jornal Uberlândia Hoje
Jornal Voz Ativa Ouro Preto - MG
Diário de Uberlândia


quinta-feira, março 1

Paranormal

Chegou em casa esgotado, dia estafante de pouco fazer, mas a cabeça não parava. Como sempre abriu as janelas para que o doce ar da tarde empurrasse o cheiro de casa fechada. Cheiros de madeira dos poucos móveis, do incenso queimado na noite anterior. Sonhos e lembranças ainda presos fugiam com a brisa leve e tomavam rumos desconhecidos. Jogou-se preguiço em sofá pequenino. Só então se deu conta dos latidos chorosos vindos do quintal e do arranhar de porta. Tão detonado estava que não pôs atenção que seu companheiro cão o aguardava ansioso. Já sem a botina, só de meia, correu abrir porta da cozinha. Festa assim, de poucos ou de ninguém recebia. O vira-lata puro, de nome Pistache, ficava eufórico toda vez, por menor que fosse a sua ausência. Ao voltar era sempre recebido como um deus.

Pistache entrou feito um foguete casa adentro, subia e descia as escadas que levavam ao quarto como um louco. Latia, quase falava pedindo carinho e atenção. Aquela bagunça durava alguns longos minutos e só parava depois de muito afago e coçar de barriga.
Companheiro aquietado, segue-se a rotina solitária. Abre a geladeira sem procurar nada, só costume. Confere a marmita do almoço e vê que vai dar para a janta tranquilamente, pois sobrou muito.
O tempo se fechava para chuva. Resolveu ficar quieto em casa. Subiu de dois em dois os degraus rumo ao banheiro.

Já no chuveiro, pensou ouvir vozes no andar de baixo. Fechou a torneira e pôs atenção. Nada, imaginação apenas.
Retornou ao revigorante banho cantarolando. Poucos segundos, vozes novamente.
Tem alguma coisa errada, se fosse gente estranha Pistache daria sinal. O vira-lata dava notícias de tudo, mas o bicho estava quieto…

Enxugou rapidinho e de pulo vestiu uma bermuda larga e confortável.
Nesse meio tempo escurecera. As sombras delicadas da noite tomavam conta de toda a casa. Luz agora só no quarto onde se vestia.
Ao apagar o único brilho luz percebeu um clarão a piscar embaixo. A luz fazia movimentos e se espalhava por toda sala. Que estranho. Nada de tenebroso lhe passou pela cabeça, tipo fenômeno sobrenatural, um poltergeist da vida. Nada do tipo, mas que era estranho era.

Desceu com mais cuidado do que de costume e, por precaução, não acendeu luz alguma.
Qual foi sua surpresa. Ao entrar na sala de televisão, a mesma estava ligada e Pistache super atento a olhar a luz de um canal sem sinal. Pronto, agora só me falta sair alguém daí de dentro e arrastar o cão. Sorriu. Bateu a mão sobre a cama que lhe servia de sofá a procurar o controle remoto, mas foi só virar as costas e entrou na tela um programa de televisão, desses de pregação e tira-capeta, com o som nas alturas! Tomou um susto louco. O coração veio à boca. Olhou Pistache e este continuava a olhar firme para a tela, desconfiado.

Mas cadê esse danado de controle que não acho? Aí sim acendeu luzes, revirou tudo, quando novamente o canal mudou para uma novela qualquer por si só. Eita, que tem muita coisa esquisita aqui! Manualmente abaixou o volume que ainda estava no máximo, ensurdecedor. Não suportava barulho. Outra vez canal mudou sem explicação, filme antigo agora.
Não tá certo. Sentou no improvisado sofá e botou reparo no ambiente. Pistache a seus pés, olhos vidrados na tela. Ele não era disso, aqui tem coisa.
Não conseguia fazer ligação com nada. Os canais mudavam, o som aumentava e diminuía sozinho, como se a televisão tivesse ganhado vida própria.

Foi quando resolveu atentar para o cachorro e sua seriedade ali. Mexia a orelha direita o som aumentava. Bobagem, pura coincidência, mas ficou velhaco, o bicho mexeu a orelha esquerda o som diminuiu de sumir. Epa!
Passou a mão no lombo do danadinho e esse destampou a abanar o rabo, aí ele viu, os canais começaram a passar em incrível velocidade, no ritmo certinho do abanar.

Era demais, mas só tinha uma explicação. Pistache comeu o controle remoto e de alguma forma agora seus movimentos comandavam a TV. As orelhas o som, o rabo os canais. Olhe, levou um bom tempo para assimilar tudo isso e ensinar o cão a se concentrar, para não atrapalhar um programa ou filme a ser visto. A paz voltou a reinar e hoje, além de latir carinhosamente em amores quando o dono chega em casa costumeiramente esgotado, Pistache já coloca a televisão em seu canal preferido. O amor é lindo. Repito, por conta desta e outras, prefiro bicho a gente.
Tá rindo de quê? Acha que é gozação? Não está acreditando no ocorrido? Te levo lá para ver. Só não pode ser na hora em que passa filme da Lessie, aquela Rough Collie, no Telecine Cul, pois democraticamente a prioridade é dele, o cão. Fica o convite, mas traz o vinho.






Publicado em Jornal Uberlândia  Hoje

quinta-feira, fevereiro 15

Caça-palavras

Começou outra vez e não é de hoje. O contar novamente me some. Ideias e vontades brincam de começar e sumir esconde-esconde de impacientar. Exatamente como palavras cruzadas de revista/jornal de nível considerável. Não. Parece mais caça-palavras daquelas de circular com caneta e a maioria está de fasto ou de lado em curva. Aí fico em mato sem cachorro, acho não. Procuro as histórias e elas fogem ligeiro, não me dando tempo de rabiscar papel. Conheço bem meu sistema. A história nasce miúda, vinda de um sussurro perdido, de um ver de canto de olho, de um observar quieto. Andando meio a tais, atento sem por atenção, pois não carece, vem sozinho.

Conto o fato que de uns dias pra cá parece orquestra em afinação antes de concerto, cada um ouvindo seu próprio instrumento atento às notas. Violinos, trompete, metais em desarmonia até batuta de maestro bater desconfusão. Os sussurros se transformam em algazarra de maritacas estridentes em pé de goiaba carregado, o observar confuso de quem anda desatento, o ouvir pouco, meio que fechado. Sinto cheiro de pólvora no ar. Os assuntos andam televisivos. Todos repetindo como papagaios, que me desculpem os lindos emplumados repetidores de sons, como se lessem cartilha de alguém.

Vai tentar manifestar em público opinião bem sua, criada do seu pondero, influência alheia nenhuma, fruto seu por atenção, sem interesse de partido tomar. Um Deus nos acuda de contra-pontos e censuras, a diversidade, a pluralidade, o simples pensar. O respeito é da boca pra fora. Outro dia um amigo colocou um videozinho na rede com dizeres tipo assim: "O que acontece quando você expõe sua opinião na internet". O vídeo mostra a antológica cena de Piratas do Caribe, onde Johnny Depp na pele do capitão Jack Sparrow aparece correndo em uma praia, perseguido por centenas de nativos dispostos a jantá-lo. Hilária a participação de um solitário cachorro que se limita a latir para Sparrow e depois para a caterva enfurecida.

Aí, meu amigo, como planta sem rega vamos murchando. As palavras que deveriam compor casos vamos engolindo. Cortadas quase sempre ao meio por algum suspiro salvador. Resultado? Hoje as palavras se escondem por todo canto a me olhar, em um desafiador "vem me pegar".

Teimosia não me falta e sei que é passageiro. Acho que acontece com todo atrevido que resolve bater chapéu em caixa de letras, em cutucar pensamentos e ideias com vara curta. Hora elas revoltam e lhe dão um sumiço.

Mas a faxina já começou, saibam. Vassoura e basculho a percorrer quinas e as mais altas e escuras quinas. Depois aspirador emprestado, recolho as fujonas e em comum acordo voltamos as pazes, ao um bem querer cálido e harmônico.

Vivo de contar o vivido/sentido/passado. Sem isso flutuo em vácuo desconecto. Sinto falta de compartilhar estrelas, infinito olhar de paisagens, de trocar olhar sisudo por sorriso largo de quem perde tempo com meus rabiscos e de tentar tirar a cabeçada e o freio das convenções. E olha que tenho viajado muito, chão rodado mesmo, não só aqui dentro. Com meu livre pensar, acender velas e soltar vaga-lumes, cobrir novamente cabelos longos maravilhosamente revoltos e longos de margaridas.

Perfumes meu amigo, perfumes em letras exalar. Estou voltando, ressaqueado de super dosagens de crueldade humana, mas estou logo ali com minha tralha cheia de letras e histórias. Voltando com toda força e verdades escondidas a serem escancaradas. A porteira entreaberta me dá um sinal

Em paz, tranquilo, mas com toda disposição no falar.







Publicado em



sexta-feira, janeiro 19

Quem quer ser um milionário?





O título aí no alto e aao lado faz menção ao deslumbrante filme “Slumdog Millionaire”, do diretor Danny Boyle, laureado com dez indicações para o Oscar de 2009. Faturou oito. Em português o título ficou igual aos medíocres programas televisivos que prometem, mas ninguém leva a bolada prometida. Não posso reclamar, pois assim consegui o que considero mais difícil para meus pobres e humildes escritos: Título.

Deixemos, pois, em paz, a cinéfila, esporte que pratico solitário e sem aventurar em críticas e análises. Deixo missão para os especialistas.

Não sei se vem acontecendo com você, mas de um tempo para cá minha caixa de e-mail vem sendo bombardeada por mensagens, com promessas mirabolantes de como se tornar um milionário e sem participar das “gags” televisivas. Isso mesmo, e-mail, pasme, ainda uso este velho recurso. Não me deixei seduzir pelas mensagens instantâneas de Whatsapp, mensseger, Instagran e afins. Claro que uso todos, mas e-mail não saiu de moda. Tenho saudades até do idoso ICQ!

Recebo mensagens oferecendo fundos de renda fixa, mesmo com a inflação em baixa (será?), a taxa SELIC miúda, o INPC negativo, o PIB crescente (hummm) e PNB sendo maior do que esse último. Se entendo de economia? Absolutamente nada, mas de tanto receber tais propostas milagrosas pus atenção e pesquisa. Bitcoins, CDBs, IGP-M, CDIs e muitas outras siglas e expressões invadem meu cotidiano, meu vocabulário macro econômico está em alta. Então vende! Grita um. Compre na baixa, venda na alta.

Eu hein, Rosa!

Outro dia um email me conta que posso fazer meu primeiro milhão aplicando cem contos por mês  em “apenas” 30 anos. Cara, eu não tenho trinta anos para esperar como a história, na gamela sobram poucos pequis para roer, e, mesmo que tivesse, o que iria fazer com essa fortuna naquela altura de minha vida?

Gostei da Bitcoins. Não pelo investimento em si, pois não sei cuidar nem de finanças domésticas. Mas o nome impõe e me alegra saber que ela é sem ser. Não existe de verdade, não tem como juntar no porquinho de barro ou debaixo do colchão. A sonoridade do nome encanta por si só, fale baixinho e devagar BIT (respira) COIN. Pronto já me sinto milionário. Essa não tem banco te sugando, não tem gerente te vendendo sonhos, não tem nada. Ela não existe, mas é. Literalmente um “Bit”. Dizem que quem comprou um desses impulsos binários há três anos ficou muito rico. Muito legal.

Porém, o que eu queria entender é simples. Se esses caras que te enviam mensagens e, como disse, são muitas vendendo sonhos de riqueza fácil, têm a infalível fórmula mágica de alcançar o pote de ouro, deveriam então ser todos magnatas. Concorda? Então pra que ficar espalhando a notícia? Altruísmo, filantropia? No mundo mesquinho das finanças onde até coelho engole lobo? Aqui “procês” ó!

O mineirinho de cá, escaldado está até com coisinha pequena. Já perdeu amigo por emprestar merreca. O cara sumiu. Mal sabia ele que nem cobrar eu iria. Envolveu dinheiro fica o ditado: “Confia no amigo, mas amarra o camelo”. Sábia placa do saudoso Barari, lá na beira do mar capixaba onde guardo minhas mais belas e também as mais tristes lembranças.

Se você meu amigo estiver recebendo mensagens de fortuna fácil fique esperto. Amarre-se no mastro, pois o canto da sereia é suave e encantador, mas a realidade é outra bem diferente. Ulisses rei da ilha de Ítaca, em sua Odisséia que o diga.

Tem a história do moço que morreu e foi para o céu. Chegou lá uma onça de bravo. Quis audiência de pé de ouvido com Deus. Depois de muito esperar foi atendido. Afinal, Ele é super ocupado, mas já que o moço não queria despachar com santo nem anjo…

Já entrou esbravejando: – Pô Seo Deus, eu fiz tudo direitinho lá embaixo, segui à risca seus mandos, nunca pequei. Bom, desejei a mulher de um próximo hora ou outra, mas sempre confessei arrependimento. A única coisa que pedia era para ganhar na mega-sena, e olha que coisa, o Senhor nunca, nunquinha me atendeu. O peito arfava e tremia, com os olhos parecendo de maritaca de tão vermelhos.

Ele, sereno, coçou a longa barba branca e com candura respondeu. – Meu filho, sabe que recebi seus pedidos sim e até queria que você ganhasse, mas você nunca jogou! Aí não teve jeito!

Quer saber, vou ali fazer uma fezinha na mega-sena, pois vai que uma hora dá certo. Tá escutando Altíssimo?






Publicado em  Janeiro de 2018

 Diário do Comércio Olha no Diário  - Uberlândia

Jornal Voz Ativa - Ouro Preto

Uberlândia Hoje

quinta-feira, janeiro 11

Bem-vindos

Então passou. Passou Natal, Virada do ano/ Reveillon. Pipocaram milhares de foguetes, em uma comemoração bárbara a matar milhares de pássaros do coração. Cães e gatos em pânico horror não sabiam para onde correr. Aqueles que têm sorte de ter dono presente ainda encontraram colo, proteção e aconchego. Os pobres que ficaram trancados em casa enquanto seus donos vestidos de branco, amarelo, ou calcinha vermelha, cada um com seu sonho, saiam em saltitante alegria brindar paz e prosperidade, devem ter se enfiado em algum canto a tremer de pânico. Cada um vivendo sua Alepo particular, corpo e mente em frangalhos. Em tormento, para onde irão seus pensamentos em tais horas?

Mas é ano novo, tudo pode. Não meus queridos, não quero que me tomem por um protetor fanático dos animais e inimigos dos homens. Apesar de manter minha máxima de gostar mais de bicho do que de gente, aprendi a conviver com ambos. Passou forte por minha mente o sofrimento dos enfermos em seus leitos de hospital, dos berçários repletos de recém-nascidos e dos acamados terminais em casa. O bebê que nunca dorme em cólica ou febre. O idoso, um homem, uma mulher, em solidão, olhos a lacrimejar, sobressalto a cada rojão, memória a vagar longe caçando lembranças que teimam em não ficar e companhia fazer. Consegue pintar o quadro?

Ah, esquece, é ano novo que avança madrugada adentro, eu quero mais é festar. Suar minhas frustrações/decepções. Quero mais é deitar fora a tristeza e pequenez de um ano sem muito o que comemorar, pois sim, o seu final merece regozijo e justificam o espocar de medo. Os animais? Ora são apenas os animais, descartáveis como as árvores que mutilamos, como os rios que poluímos, como as vozes que calamos, como ar que impregnamos com nossa grosseria e falta de respeito.

Não, não vivemos uma Paris em guerra. Nos faltam puras crianças como Paulette e Michel a roubar cruzes para o seu pequeno cemitério de animais. Não temos “Brinquedos proibidos”. “Não existe pecado do lado de baixo do equador”. Tudo é festa, apenas festa.

Acabou, passou, pronto. Restam as contagens de não sobreviventes e retrospectivas repetitivas chatas que mais parecem reprises. Mas qual, ” tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Perai, acabou nada, tem carnaval logo ali, tem copa do mundo e mais foguetes e piseiro. Aí, quando menos se espera, pipocam as eleições, a “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”. Assim esperamos.

Apesar dos pesares, das tristezas a cada foguete, dos terremotos humanos, Voltaire me fez Cândido, sigo Panglós, o otiminista.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. […] Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”

Bem-vindos a dois mil e dezoito.






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Jornal Uberlândia Hoje
Jornal Diário do Comércio - Olhe no Diário (PDF) ou link direto AQUI
Jornal Voz Ativa  - Ouro Preto

quinta-feira, janeiro 4

Cantada


Adoro rádio. Nada melhor para dormir do que um rádio à válvula, daqueles que custam a esquentar e ficam zumbido em estática o tempo todo. Ganhei um assim do grande amigo Júlio Penna. Este, sim, entende de rádio, tem dezenas. Fuça, busca peça, conserta, ajeita e os deixa prontos para quem gosta de viajar nas ondas longas, médias, curtas e frequência modulada. O presente apresentou um pequeno problema ao regular volume e ele o levou para arrumar.

Alguns preferem som remasterizado, livre de ruídos e outros atrapalhos. Particularmente, os tais atrapalhos é que me fascinam.

Ouvir uma Nina Simone em um ensaio em plena Nova York e, ao fundo, ouve-se o telefone tocar, carros buzinam lá fora. Quem ligou em pleno ensaio? Algum diretor de teatro da Broadway? Um restaurante na 150 West 57th Street? O Russian Tea Room, por exemplo, confirmando reservas? Ou simples nightclub onde ela poderia soltar a voz e beber em paz? E as buzinas, qual a marca dos carro? Um tradicional Ford preto? Um Oldsmobile imponente? E a causa de tanta aflição? Mulher em trabalho de parto, alguém ferido a bala por algum gangster? Ou simples impaciência com um trânsito já caótico da Grande Maçã nos distantes anos 30 do século passado?

Tudo isso e muito mais se pode criar com a cabeça no travesseiro, ouvindo rádios e suas estáticas. São viagens infinitas a cada mexida no seletor de estação.

Antes de ganhar joia rara de Júlio, comprei um rádio moderninho. Não queria aqueles que tocam CD, queria um rádio e pronto. Na pressa, levei para casa o bicho.

Para meu espanto, o danado só toca rádio FM, nem AM tem. Uma tristeza. Tive que me conter com o danado.
Achar estação do agrado à noite é que era complicado. Ou era rádio de igreja exaltando pecados e castigos aos quatro ventos ou era música sertaneja universitária – vai ser chato pra lá. Bom, vai ver que o chato eu sou. Nada de noticiários, nada de preamar, aviso aos navegantes, nada dito em voz suave de locutor tipo Eldorado de São Paulo – “Artes e entretenimento” seu lema. Saudades do “Varig é dona da noite” ou de “Um instrumento dentro da noite”, aqui não pega.

Resignado, me deixei levar, colocando atenção às letras das músicas e se conseguiria me soltar em pensamentos. Dou exemplo de duas estações, sem citar nomes para não magoar ninguém, que tocavam músicas com letras que poderiam parecer cantadas a uma linda mulher.
Uma de muito bom gosto tocava um gentil Caetano: “Fonte de mel/ Nos olhos de gueixa/ Kabuki, máscara/ Choque entre o azul/ E o cacho de acácias/ Luz das acácias/ Você é mãe do sol (…) Você é linda/ Mais que demais/ Você é linda sim/ Onda do mar do amor/ Que bateu em mim” e seguia.

Outra estação tocava algo assim: “É bonita/ Você sabe que é bonita/ Mas eu sei que é bandida (…) Você com essa cara de santa/ Mas a falsidade é tanta/ Só eu mesmo sei dizer (…)”

Não sabia se ria ou chorava. Me conte você, moça, mas com sinceridade, qual das duas cantadas você gostaria de receber?

Júlio, querido amigo, que falta está fazendo o velho e bom Vintage Crosley anos 50, culpa minha, eu enrolando para buscar. Ando preguiçoso.






Publicado em:

Olha no Diário
Uberlândia hoje
Jornal Voz Ativa (Ouro Preto)

domingo, dezembro 24

Carta a Papai Noel









Foto arquivo pessoal

Querido Papai Noel, eu sei e imagino seu espanto. Tem muito tempo que não penso no senhor. Afinal deixei de acreditar em sua existência. Também, sua imagem estava associada apenas ao comércio e consumo. Judiaram. Como acreditar em conversa de garoto propaganda vendendo de pernil a carro de luxo?
Tormento de vitrines cheias de “neve” e musiquinhas chatas pra caramba, tocando sem parar. Isto, em um país como o nosso. E ainda pensar que o Natal “era festa pagã, Natalis Solis Invicti ou “nascimento do sol invencível”, em homenagem ao deus persa Mitra e as comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, o dia mais curto e frio do ano”. Aqui cai em pleno verão escaldante tipo Rio 40º.
O cientista da religião, Carlos Caldas, nos conta que “Na Bíblia, o evangelista Lucas afirma que Jesus nasceu na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo e irem às cidades se alistar. Só que, em dezembro, os invernos na região de Israel são rigorosos, impedindo um grande deslocamento de pessoas.
Também por causa do frio, não dá para imaginar um menino nascendo numa estrebaria. Mesmo lá dentro, o frio seria insuportável em dezembro”

Assim a coisa se transforma em conversa pra boi dormir.

Mas, deixa isso pra lá, meu negócio é com o senhor.
Deixei sim de acreditar. Porém, não se sinta só. Deixei de acreditar em um monte de outras coisas e não estou me referindo a fadinha dos dentes, ao coelho da páscoa ou ao Tutu Marambá ( aquele do “…não venha mais cá que o pai da criança manda te matar…”).

Perdi crença em gente humana, conto nos dedos aqueles que trazem confiança. Passei a desacreditar na bondade das gentes, na gratidão, no companheirismo, na benevolência. Bicho gente benfazejo, compassivo, na maioria quase absoluta dos que se diziam amigos. Passei a duvidar , em amores eternos. Tornei-me cético e infeliz, estou em fase de convalescença, quase curado pode apostar de algumas dessas descrenças.
Salvaram-me os bichos em particular os miúdos, as árvores, os ventos, as chuvas e outras tantas demonstrações do Criador. Os cantos suaves colorindo amanhecer e fim de dia. Restaram poetas, margaridas, seresteiros, contistas, girassóis.
Jóias raras beija-flor, corujas atentas, canarinhos-da-terra. Manifestações estas de que nem tudo está absolutamente perdido.
Papai Noel, me desculpo pela longa ausência, mas a vida é assim e nosso Guimarães, o Rosa lá de de Cordisburgo esculpiu em letras com maestria:

“O correr da vida embrulha tudo./A vida é assim: esquenta e esfria, /aperta e daí afrouxa,/sossega e depois desinquieta./ O que ela quer da gente é coragem”.

O ano foi difícil 2017 não vai ser bem lembrado, além do assédio moral sofrido e doído sem precedentes na minha vida profissional que deve continuar no ano vindouro, foi um ano de malvadezas sem fim. Mas acho até que mesmo assim me comportei bem, não maltratei ninguém como é de minha criação, relevei as maledicências e até os acontecidos pois sei que, eita que hoje estou para citações dos mestres, nas palavras do engenhoso e Mario Quintana: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão…/ Eu passarinho!”. Retribui o mal com perdão, quase sempre, pois não sou santo nem rapadura nem de ferro.

Assim já que fui quase bonzinho vou deixar minha botina mateira do lado de fora na noite de Natal e, se pela manhã, ao acordar, encontrá-la molhada de um sereno perfumado/colorido terei certeza de que meus pedidos foram ouvidos. Quanto a atendê-los, não se preocupe, sei o quanto é uma pessoa ocupada. Faça no seu tempo. Só quero de volta a crença nos homens e o renascimento da fraternidade. Apenas, e tão só, um mundo mais justo, mais perfeito para todo ser vivente. Sorrisos, abraços, beijos apaixonados. Que Ele e seu Pequeno Menino sejam a nova Estrela que tanto esperamos para curar o planeta e deixar viver em plenitude tudo e todos que aqui se entrelaçam, em generosa conexão harmônica. Um dividir sem fim de seiva pura e vital.

Todos os dias botarei reparo e pelo resto de minha vida, a cada pequeno sinal de mudança, avistarei feliz seu dedo e o Dele mudando para melhor o rumo da vida.

Antes que me esqueça, desejo a você e a todos viventes Boas Festas e muitos anos de realizações, principalmente muita paz, harmonia e serenidade.








Publicado em
Uberlândia Hoje

Jornal Diário do Comércio

sexta-feira, dezembro 15

quarta-feira, novembro 22

Gênero


Vivemos um momento de overdose de "politicamente correto" (PC). Já brinquei seriamente sobre isso em outro escrito e olha que faz muito tempo. Por incrível que pareça o PC evolui em velocidade cósmica, não havendo um dia sequer em que não apareça uma nova imposição e torcer de narizes para aqueles que não seguem as regras doutrinárias de alguns que se acham vanguarda, mas na realidade são uns chatos caretas. Cabelo comprido ou roupas diferentes não fazem ninguém ser "cabeça". No primeiro caso temos um exemplo singular bem perto de nós.

Os falsos doutos em comportamento às vezes me lembram mais Black blocs sem causa definida do que mestres capazes de modificar léxico. Olha só, modificar para uso em suas tribos e guetos tudo bem, mas impor é outra coisa.

Não que eu seja adepto fervoroso da gramática normativa, basta levar em conta que na maioria de minhas crônicas, prosas ou poemas uso e abuso da linguagem coloquial. Vejo-me peão, prostituta, dono de venda, matuto, andarilho louco varrido, anjo, santo ou rapadura. Perco-me em minhas frases longas sem ponto, nem vírgula. Busco a sonoridade dos viventes bicho ou gente, ar, mar, vento. Tudo isso para desespero de revisores. Aqueles que bem me conhecem já se acostumaram e tiram de letra as letras que faltam e falas que contam. Contudo, a imposição moralista de uma vanguarda pouco ousada me aflige/agride. Não me imponham nada, pois farei o contrário.

Aqui a história é deliciosamente outra. Uma amiga me deu um puxão de orelha por algum dito. Brincou, acredito eu, com frase usada e reforçou o que tinha tomado conhecimento por meio de grande amigo, médico e pródigo escritor cuiabano. Sinto que os mato-grossenses, assim como nós mineiros e paraibanos, já nasceram com este "defeito" no juntar letras. Não digo que seja bom ou ruim o resultado, pois é como jogar futebol. Uns nascem com o dom, outros, como este que vos fala, vêm ao mundo por acaso. Nunca acertei um chute e só fiz gol batendo bola sozinho.
Não é o caso de meu querido amigo, que, repito, domina a escrita como poucos. Foi ele que me contou pela primeira vez a história do "X" como igualador de gênero (não tem igualador no dicionário, me dou ao direito). Assim, Senhor e Senhora são substituídos por Senhorex. Nesta toada temos também artitex, veterinarex e meninex, que substitui numa boa menino e menina.

Em reunião ou comício muitos canditatex dirão: Companheirex! Aos brados ou em reunião solene: Senhorex, autoridadex, meu povex, bom dia... e segue o discurso. Em bom português, lá se foi o boi com a corda.

Lógico, claro e límpido que o simples uso de um X não vai reduzir o famigerado preconceito, as fobias, o ódio pelas opções individuais. O respeito à diversidade de gênero é base de tudo. Basta de caretice, de hipocrisia. Para os ou ox que ainda se sentem perturbados com tantas e boas mudanças, sugiro leitura de “Livres & Iguais”, da Organização das Nações Unidas (ONU). A desinformação é uma das principais fontes do preconceito.

O mundo mudou e, repito, não são sinais ou letras que vão ajudar a acabar com a essência da intolerância, da cegueira moral. Tenho fé que tanto ódio se desvaneça de uma vez por todas. Pois se ainda tivermos que usar de subterfúgios estaremos contribuindo cada vez mais para o distanciamento e segregação. Assim, deixemos o x para as palavras que o utilizam, tais como Xerox, Jontex, Fax, Climax, Fênix, Ônix, Tórax, Durex ...

Dura lex, sed lex







Publicado em Uberlândia Hoje em 22 de novembro de 2017

quinta-feira, novembro 16

De árvores e fakes




A Noruega se tornou o primeiro país do mundo a se comprometer com o fim desmatamento em todo o território nacional, após decisão do Parlamento na semana passada. Para cumprir com a meta, o governo proibiu o corte de árvores e baniu a compra e a produção de qualquer matéria-prima que contribua para a destruição de florestas no mundo.”
Fonte: Revista Veja

Assim, com espanto e alegria e muita mineira desconfiança recebi a notícia pelas redes sociais. Afinal quase tudo que se torna viral na rede não passa de grande bobagens e pior, tem sempre um mundo de gente que acredita e compartilha, bom se não o fizesse não seria tornaria viral ará!
Entendo a tão conhecida preguiça de ler das gentes que vivem coladas em aplicativos, redes sociais e agora, super felizes, passam grande parte de suas vidas caçando Pokemons. Caçada esta até admissível para crianças e adolescentes, com parcimônia é claro. Sobriedade e caldo de galinha nunca são demais. Mas velho barbado? Moça feita com carteira de motorista, matriculada em curso superior e de namorado a tiracolo? Tem dó, usem esse tempo para ler um bom livro, uma revista que não seja de futilidades por favor. Aprende outra idioma, tocar um instrumento musical e ainda sobrar tempo para se exercitar e sair dessa mândria crônica.

Todos estamos sujeitos a pagar mico com as armadilhas das redes. Outro dia, (já tem tempo, mais de ano, assim como a notícia vinda da península escandinava), leio sobre a morte do genial escritor Ariano Suassuna ,adjetivo bem empregado viu mestre esteja onde estiver, achando tratar-se de homenagem de sua partida – ele nos deixou em 2014 – não pestanejei e compartilhei preito. Sem ler, criatura, sem ler o link da postagem!
Só depois fui conferir fonte, postei sem ler, não tinha mais volta, a meada estava feita, algum babaca tinha postado ou compartilhado a velha matéria do passamento do grande escritor. Não demorou segundos, tenho amigos antenados e felizmente cultos em minha lista, veio a gozação cética.
Tentei apelar para o famoso “morreu para você filho (leitor) ingrato, pois continua vivo em meu um coração” do folclórico ministro de JK, José Maria Alkmin.

Não teve jeito, cai feito um patinho ou um alienado “webiano” da vida.
Esclarecimento: Quando reforcei o “Genial” relembrei fantástica entrevista onde, ao ler em jornal guitarrista da banda Calypso Chimbinha ser chamado de genial.
O mestre Suassuna disparou: “Se gasto adjetivo “genial” com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven?”
E assim vamos levando a vida. Infelizmente os fakes, as mentiras sinceras ou não, os Pokemons, Chimbinhas e as novelas são mais palatáveis do que o duro cotidiano individual do ganhar o pão de cada dia.

Quantos realmente se interessam em saber que a Noruega proibiu corte de arvores? Qual a importância disso para a grande maioria das pessoas – não,"grande maioria", não é pleonasmo:
“A metade, juntada a mais um, constitui a maioria; a grande maioria seria muito mais que isso, portanto a expressão não pode ser considerada um pleonasmo”

Quem se importa? O que vejo todo santo dia são milhões de pedidos de corte de árvores, seja na rua ou nos quintais.
E assim minha gente, por estas e outras , o velho e centenário óleo perto do DMAE, lá no alto, de tamanha tristeza e desgosto, inconformado com a gente humana, secou e morreu.






Publicado em Uberlândia Hoje e no Jornal Voz Ativa de Ouro Preto em14 de novembro de 2017

quarta-feira, novembro 8

Timeo hominem unius libri



Falar da ocupação do cerrado em uma época onde a palavra ecologia soaria mais para algo como os “estudo dos ecos” é maniqueísta demais, perigosa simplificação de um tempo. E como toda simplificação, segundo o psicanalista Raymundo de Lima, “geralmente nasce da intolerância ou desconhecimento em relação à verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo”, corre-se o risco de ser injusta.

Seria algo como condenar os descobridores por levar Pau-Brasil daqui na então colônia ou reprimir o naturalista Charles Darwin por ter arrancado de seu habitat natural milhares de plantas e animais. Ou ainda crucificar Marco Pólo por trazer a pólvora para a Europa, ou pior, execrar os chineses por terem inventado o papel, algo tão politicamente incorreto do ponto de vista das árvores.

Uma discussão destas carece de profunda avaliação histórica.

Quando daquela ocupação do cerrado, nada ou muito pouco se sabia sobre aquecimento global, de emissão de gases poluentes, de efeito estufa ou camada de ozônio. Como também o termo “agrobusiness”, cunhado por Davis e Goldberg em Harvard, até onde sei não havia ainda chegado ao Brasil.

A visão ecológica da sustentabilidade veio bem mais tarde.
Segundo a ONG Amazônia-Brasil “O movimento ecológico surgiu no Brasil nos anos 1970 denunciando os efeitos ambientais do modelo de desenvolvimento da época e os riscos de usinas nucleares, o que influenciou a criação de novas áreas protegidas. O principal marco é o Manifesto Ecológico de 1976, liderado pelo gaúcho José Lutzemberger”.

Voltando ao cerrado. Inicialmente foi o interesse por ouro e pedras preciosas que levou à sua exploração, isso ainda no século XVII. Contudo, historiadores afirmam: “Somente a partir da década de 1950, com o surgimento de Brasília e de uma política de expansão agrícola, por parte do Governo Federal, que iniciou-se uma acelerada e desordenada ocupação da região do cerrado, baseada em um modelo de exploração feita de forma fundamentalmente extrativista e, em muitos casos, predatória.”

Numa época em que o cerrado era desprezado tanto do ponto de vista econômico quanto poético (algumas raras e maravilhosas exceções), tudo que pudesse ser feito para atrair investimentos e principalmente fixar gente era bem-vindo. É duro? Com certeza o é.

Mas era a realidade de uma época. Muito diferente das ações descomedidas dos dias de hoje onde a falta de informação não pode ser desculpa para a destruição de nosso ecossistema, de nosso planeta. Todos, hoje, sabem muito bem o que estão fazendo.

O ex-governador Rondon Pacheco foi sem sombra de dúvidas um visionário. Com as informações disponíveis à época fez o que deveria fazer para o desenvolvimento da região, e o fez por amor à sua terra. Tenho plena convicção que hoje, municiado tecnicamente pensaria duas vezes, e com certeza encontraria opções outras para o desenvolvimento regional, mas encontraria! Bem diferente de alguns hoje que mesmo de posse de todas as informações e de todo conhecimento disponível, simplesmente fecham os olhos e atropelam a razão e a sensatez e destroem, sem critério ou visão de sustentabilidade mínima e sentimento por sua terra, sua gente.

Tomaz de Aquino, o santo, estava coberto de razão: “Timeo hominem unius libri”, ou “Temo o homem que só conhece um livro”.
Se estiver enganado estendo minha mão à palmatória de bom grado.





Publicado em Uberlândia Hoje em 08 de novembro de 2017 ( Angústia de uma década)

quarta-feira, novembro 1

Estranheza




Noite encalorada, nem brisa mansa para balançar folhas de árvores havia. O sol de verão esquenta tudo, jardim e horta murcham rápido. Uma tarde sem aguar planta já mostra sinal de tristeza, baixa/encolhe. Terra racha que nem leito de rio seco.
Noite estranha. Deitado, buscando sono que não vinha, olhos virados para o céu de janela aberta até onde dava, vontade de nem parede ter. Sem camisa, sem lençol. O cortinado não tem como tirar, pois aliado de primeira hora de calor, mesmo no seco vem hordas de pernilongos cantadores. Dorme não, desassossego fica imenso.

Ponho a escutar o silêncio quente. Nada, só zumbido pregado no véu protetor. Calor. Dou o dedo para mosquito sugar, quando sinto a voracidade e pressa dela afasto. Parece que ouço o seu xingar nervoso. Carece de meu sangue para amadurecer ovos e por cria no mundo. Então, só elas usam sangue no comer. Eles não. Vivem de seiva mesmo quente em dia como hoje. Elas não! O sangue nosso é seu buscar para perpetuar. Eles é que cantam zoada em nossos ouvidos. Dizem que é para distrair incauto enquanto fêmeas se banqueteiam na outra ponta, lá nas canelas. Só se dá conta quando vem a coceira. Nada de sono. Suor aumenta. Ligo ventilador em busca de refresco. O cortinado, como vela de barco de pesca, como saveiro, se joga em um mar de pensamentos. Melhora um pouco, a quentura.

Do nada um canto triste e forte de pássaro preto rompe a noite vestida com sua cor. Boto atenção no não normal do feito. Pia/canta uma, duas, três vezes. Sinto agonia nesse cantar noctívago a campear tarde assim. Penso em levantar e buscar saber. O abafamento me põe preguiça e me deixo ficar, mas alerta. O canto volta a fazer-se ouvir. Estranheza.
Será filhote perdido? Será mãe a buscar cria que não encontrou ninho? Talvez. Penso o pior: será gente humana sempre carregando fardo de maldade, ruindeza, que roubou filhote para amansar em gaiola? Este sentimento me tira de vez o dormir. Têm tantos assim, que acham motivo para prender cantos como se deles fossem senhorios.

Não consigo me levantar, a noite será longa em pios/cantos, tristeza.
Lá adiante um frescor e, sem perceber, fadiga me leva a sono curto, repleto de pesadelos, cantos tristes. Sonho com gaiolas e prisão.
Acordo em trapos.

No caminho da lida vejo de canto de olho gato sair ligeiro de moita e em certeiro bote levantar em penas uma rolinha carijó. Desjejum farto este terá.
Virando a esquina, a um braço de meu rosto, casal de beija-flores dança em namoro. O aprender a ver e ouvir o que rodeia tem um triste/alegre integrar. Avanço com sono bruto para encarar um nada fazer. Ando sem serventia para uns. Não é meu querer, mas sigo a cumprir tabela.
Será predição aquele pio triste? Acredito nisso não. Só as gentes premeditam o mal e sinal não mandam.







Publicado Jornal Uberlândia Hoje em 01 de Novembro de 2017


quarta-feira, outubro 25

Questão de química





Levanto cedo, lavo as mãos com sabonete perfumado, vou à cozinha e ponho água a ferver para o café.

Tomo banho também com sabonete, lavo os cabelos com shampoo com cheiro de frutas, não resisti e provei, o gosto é horrível.
Após o shampoo vem o condicionador, antes chamado de creme rinse, lembram? Na ducha mesmo faço barba e para tal uso creme específico para que as lâminas bem deslizem: a primeira faz “cham”, a segunda faz “chum”. Saio do banho, escovo os dentes com pasta dental tricolor, não sei o que representam aquelas cores: Fraternité, Egalité, Liberté, em bom francês poderia ser? A liberdade é azul.

Ia esquecendo, creme pós-barba,afinal ninguém é de ferro.
Um creme hidratante de rápida absorção, pois aqui é o cerrado e a umidade anda pela casa dos 12%. Saara, dizem.
Desodorante sem cheiro, e antes de me vestir um perfume.
Para a rua, não sem antes aplicar um protetor solar fator trinta pois o buraco na camada de ozônio não nos permite facilitar.

Alguém já parou para imaginar a quantidade e a variedade de produtos que foram usados apenas em uma manhã, num pós-despertar? Overodose química de procedências várias — claro, todos com a devida chancela da ANVISA, mas será que a mistura, a combinação já foi testada alguma vez?
Dizem que manga com leite, pepino com cachaça fazem mal, e aquilo tudo pode também?
Detalhe importante, as senhoras e senhoritas ainda acrescentam à sopa de cheiros e nomes, batons e maquiagens variadas. Céus.

Um coquetel molotov de moléculas e princípios ativos vários. Além das infinitas trilhas sonoras das propagandas, até que ponto nossa pele, essa que é o maior órgão do corpo humano, pode aguentar?
Será mesmo o céu o limite? Questão de química ou de saúde pública? Com a palavra, senhores dermatologistas. Deixa eu correr, a água do café já ferveu.






Publicado em Uberlândia hoje em 25 de outubro de 2017

quarta-feira, setembro 27

(Des) ordem

Passam em bando num cantarejo sem fim. A força de suas asas é tamanha que criam vento, fazendo repicar meus sinos da felicidade, seguem em algazarra para árvore próxima.
Peitos estufados a cortejar namoro. Vêm filhotes por aí.
Primavera anunciada. Vão nascer com o chegar das primeiras chuvas.
Tudo em sincronia, nada fora do lugar, do tempo, da vida.
Minto, tem muita desordem mundo afora, no nosso entorno, dentro da gente. Em esforço de sobrevida fingimos nada ver, mesmo tanto olhando. Árvores são arrancadas por conta de um portão sem sentido. O lixo maquiado de luxo que nunca existiu.
Ah, mas em troca, você mata três e planta outro tanto. Pensou se justiça humana assim pendesse?

A seca castiga como de costume nesse inverno sem frio ou neve. E como de costume, por costume, ateia-se fogo por toda cidade. Um matinho seco, um roçado, arde em frieza, morte.

As corujas buraqueiras, do alto de postes de inanimado concreto, observam em agonia suas tocas serem devoradas, suas crias fadadas a horrível martírio. Pequenas Joanas d’Arc na morte, às avessas em vida. Aqui família empoleirada presencia sacrifício estúpido, sem soldados ingleses, sem canonizações póstumas.

A primavera se aproxima arrastada em poeira e cinza. Logo a chuva protetora trará vida, verde, cantos. As corujas terão outra chance. Escondidas de olhos humanos poderão ver filhotes voarem mudas em pios e bater de asas.

O bando de Pássaros Pretos, Canarinhos da Terra, Joões-de-barro em gritos, cantos e algazarra, pousam em nossa primavera. Fizemos ceva com quirera amarela/doce e farinha de pão. Tocamos o sino duas vezes, só duas vezes, eles vêm de longe buscar sustento. A cantoria encanta. Passamos horas a ver/ouvir. Nem goiaba deu. Árvore mutilada custa dar fruto outra vez.
A seca castigou forte este ano. Não secou apenas plantas e córregos, secou alma humana. Muitos que por perto circulam estão secos para um eterno sempre. Como deserto em suas entranhas nada mais vingará em vida e paz.
Nos conta Dante: ” […] cruzam rio pantanoso e cinzento rio Aqueronte, conduzidos por Caronte – o barqueiro dos mortos na mitologia grega. Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! […], anuncia, descendo o remo nos que hesitam em embarcar. Começa a descida pelos nove círculos infernais!”

Bicho homem! Apenas de ti tenho receio.

Busquemos nos encantos, que por vir estão, alento para nossas vidas. O Criador nos deu as costas ou apenas virou olhar? Talvez nem exista como o concebemos/acreditamos. Ainda há tempo. Rogai por nós.
Ordem e o que mesmo?


27 de setembro de 2017

Publicado em



quarta-feira, setembro 6

Mentiroso

Imagem capturada na web


Sem tem uma coisa que me impressiona absurdamente é o talento do mentiroso. Sério, não que eu concorde com essa nefasta atitude, pelo contrário odeio mentiras. Elas me cheiram a traição, covardia e tudo de ruim que acompanham estas palavras.
Não me refiro ás mentirinhas inocentes tipo “True Lies” ou “mentiras sinceras”, expressão cunhada por compadre. Exemplo clássico deste grupo, me remeto ao Barão de Münchhausen. Falo do mentiroso com M maiúsculo, que faz da prática meio de vida, com o objetivo de tirar proveito próprio em tudo. Perverso e degradante, passa por cima de qualquer um para obter seus objetivos, tendo como principal arma a mentira.
Perdoo quando o compulsivo sofre de impulso patológico. Apesar de difícil conviver, o melomaníaco carece é de tratamento, pois é um doente.

Mesmo com tudo que disse, uma coisa não dá para negar: o mentiroso crônico é um cara especial. Posso falar de cadeira, pois conheço vários. Já convivi com estes mestres do engodo, da enganação.
A fertilidade de imaginação desses caras é de fazer inveja aos aprendizes da arte de juntar palavras. Quer um exemplo? Qual aquele que escreve regularmente não passou por períodos curtos ou longos de estiagem criativa? Pois olhe, tempos em tempos acontece comigo.

Sento para meu exercício diário de buscar um contar e nada. As ideias correm de mim como bicho miúdo fugindo de onça. No alto das serras, matas ou em fundo de rio ou mar. As letras teimam em se esconder no topo de árvores, em caravelas naufragadas ou em grutas profundas e silenciosas. Aprendi lidar, apavora mais não. Depois de um tempo elas voltam pedindo lugar. Não há letra ou palavra que queira viver só. Querem companhia. Bem ou mal as amarro em filas imensas e viram isso, prosa, caso, histórias.
Voltando ao cascateiro, ao aldravão, ao trampolineiro. Além de imaginação ilimitada o cara tem que ter uma memória de elefante – sei lá eu se isso é verdade ou força de expressão – mas pensa bem, se ás vezes é duro lembrar-se das verdades, imagine lembrar os detalhes de uma mentira? Cara, o negócio é que as cascatas costumam ser recheadas de detalhes, de bordados tão fartos, que só um gênio para lembrar-se de tudo e tantas. Sofrimento sem fim, pois volta e meia cai em uma armadilha por ele mesmo criada. Jeito de viver não. O doente deve buscar ajuda. O cretino, além de desculpas por existir, deve buscar vergonha na cara e, se tiver, renascer o caráter.

Caso acontecido, Mestre contou, eu reconto com fé e você julgue em qual grau o peão deve ser classificado.
Morava em cidade até grandinha e tinha por gosto reunir com amigos em finais de tarde para cerveja gelada e jogar conversa fora. Naquele dia a conversa girou em torno de pescaria. Cada um tinha um caso de peixe maior do que outro. De Jurupoca a Dourado, de Matrinchã a gigantescas Piraibas de trezentos e tantos quilos.
Não podia ficar de fora da prosa, assim contou de seu rancho onde dava de tudo quanto há. Tinha ceva que para pescar e tinha que afastar peixe com a mão.

Animação geral, pois pesqueiro era não muito longe, marcaram encontro para fim de semana seguinte.
Assim passou semana de ansiedade e o dia chegou. Partiram leves.
O recanto era simples e agradável, uma represa na porta da casa e o rio, de pouca água e correnteza mansa, mais afastado.
Todos com muita disposição e vontade se puseram logo pescar.
E vai tempo e nada. Nada e mais tempo gastando. Olhe, disse um, vamos deixar varas em espera, assar uma carne e tomar uma, afinal ninguém é de ferro. Peixe que é bom, sei não. Já desconfiado que enganados foram.
Enquanto se divertiam sob sombra generosa de imensa gameleira, um deu sinal. Uma das varas de espera puxava emborcada como a mostrar peixe grande fisgado.

Desceram todos, afinal seria o primeiro depois de muito tempo ali.
Um puxa estiva sem fim, briga e tanto, daquelas de sangrar mão de pescador calejado.
O bicho finalmente mostrou o lombo escuro na flor d’água. Não dava para saber que peixe era ainda.
Algazarra infantil dos marmanjos. Olha que vem chegando!
Foi aí que o silêncio baixou. Para espanto de todos o que estava fisgado no anzol era peixe não, era um tatu peba dos criados.
Antes que qualquer um pudesse tossir, respirar ou fechar a boca de tanto queixo caído, o dono do rancho vociferou ligeiro:
— Num falei que aqui dava de tudo? Esse ai  é o terceiro tatu que pegam aqui.
Para lá ninguém voltou mais.







Em  6 de setembro de 2017

quarta-feira, agosto 30

Eternidade

Assim não dá, aí é sacanagem, e não vem com esse papo de olha quem está aqui te esperando. Pô, estamos falando de eternidade, cara.
E t e r n i d a d e, entendeu? Skilja? Verstehen? Capito? Fui clara, agora?
O combinado, o trato, se bem me lembro, foi só até que a morte nos separe, e pronto. Hellouoooo, até que a morte nos o que mesmo? Morte, SEPARE. Fim, The End, É Finito!
Pronto, morreu, separou, acabou! Nem vem que não tem, seus anjinhos do pau oco, isso sim é o que vocês são.
Eternamente que eu saiba só a Yolanda caraca, e aposto, duvi-de-o-dó que o Pablo Milanês e ou Chico nem a conheceram. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né! Sei.

Quero falar com quem resolve, chama o líder, ou seja lá quem for. Tá bom, o chefe está ocupado? Ah, mas deve estar mesmo, aposto que nem Ele tem paciência de ficar inventando desculpas esfarrapadas para todos que chegam aqui de bobeira.

Dá para imaginar o trabalhão d’Ele. Então faz o seguinte, me arranja o número do SAC daqui para ligar, um Procon ou seja lá o que vocês tiverem nessa bagunça. Ou, se não for pedir muito, pelo menos alguém do sexo feminino, aposto que ela vai me entender. Se é que sobrou alguma, né! Com essa conversa mole de tirar o sexo de quem vem dar nessa porta e vira anjo…
Não, não falei que não foi bom. Não começa a fazer joguinho nem colocar palavras em minha boca.

E depois dizem que só chefão de vocês pregou no deserto. Parece que estou falando pras nuvens!

Foi ótimo, passou de bom. Valeu cada segundo. Mas é que nem produto de supermercado, cara, aqueles do setor de frios, aliás em tudo hoje em dia. Tem composição, modo de usar, tabela nutricional e prazo de validade. Ouviu bem esse último? Prazo de va-li-da-de! Soletrando, às vezes, vocês entendem. Que coisa mais chata!

Depois só pode fazer é mal, adoece, se é que me entendem. Não estou nervosa! Não estou nervosa coisa nenhuma! Detesto quando falam que estou nervosa! Aliás, quer saber, estou sim, agora fiquei P. da vida, nervosa pra caramba.

E xingo sim! Não me peçam para não xingar. Passei a vida toda me segurando, me contendo para não falar palavrões, pudica ao extremo. Politicamente correta uma vida toda e para que mesmo? Ser engambelada agora? Sai fora, quero o prometido. O combinado não é caro. Cumpra-se e fim. Olha só, vamos resolver isso logo, ou vocês acham que tenho todo o tempo do mundo? E não me faz essa cara de cínico, não! Pode tirar esse sorrisinho da cara.

Olha atrás de mim, olha o tamanho da fila de reclamação. O pessoal está começando a ficar nervoso e isso vai dar rolo, estou avisando, vai dar rolo. Depois vão colocar no B.O. que a culpa é minha.

Ah sei, estou começando a achar que esse papo de céu é pura embromação, propaganda enganosa, isso sim. Sacanagem da grossa.
Pode conferir outra vez esses registros, aposto que tem coisa errada. Alguém anotou coisa fora do lugar, mas também, numa desorganização dessa! Informatiza esse trem pelo amor do Sagrado, o Cara deixa os outros criarem, mas Ele mesmo não usa?
Valha-me Deus! Bom, valha-me se resolver esse caso, senão vou atrás de meus direitos!

Vocês são engraçados, a gente faz tudo direitinho, cumpre fielmente nossa parte do trato e agora vocês mesmos, os donos do contrato, os donos da verdade, da Palavra, querem roer a corda? Na-na-ni-na não! Agora é minha vez, mano velho, sem essa .

Tá certo, tá certo, uma vez ou outra chegamos até a dizer que queríamos ficar juntos para todo sempre. Mas foi meio assim, me deixa ver, metafórico, sabe como, coisa de momento, palavras soltas e pronto.

Ao pé da letra? Que papo é esse de que levaram nossas juras ao pé da letra? E você quer que eu engula essa? E o monte de outras coisas que dissemos, planejamos, pedimos? Cadê? Onde foram parar a casa na praia, as viagens para a Europa. O aumento de salário, a Ferrari zero? Aposentar e mudar para a Polinésia francesa e morar numa ilha vizinha do Marlon Brando ou da Zeta Jones, dependendo de quem puxava o assunto… Cadê, cadê? E o tanto de coisa menor que também não rolou, mas não vou nem perder tempo em listar, pois aí, sim, iria durar uma eternidade e meia.

E querem que eu acredite que só levaram a sério umas jurinhas de amor feitas no calor do ímpeto? Tenho cara de imbecil, por acaso?

Faça-me o favor outra vez! E um DESSE tamanho.

Teste drive? Que papo é esse de teste drive de eternidade para ver se acostumo? Em que parte do contrato que estava escrito essa besteira? Nem em letrinha miúda.

De jeito nenhum que quero essa sua “generosa” oferta. Generosa o caramba, conheço bem o tipo.

Isso tá me cheirando a esculhambação, falta de gerência, de mando. Depois ficam choramingando pelos cantos dizendo que estão perdendo a freguesia para os outros. Também, trabalhando desse jeito. Quando um ou outro consegue voltar só tem pra contar da desorganização!

E ainda vêm aqueles malas falando de vidas passadas. De vida de princesa e coisas e tal. Se vocês não estão dando conta de uma vida, já estão querendo avacalhar até com essa umazinha, imagina com outras. Só se estão dando outras para todo mundo que reclama, aí mano, vai faltar espaço lá embaixo ou sei lá onde.

Ninguém merece, quer saber? Parei de brincar, minha paciência estourou, me leva de volta agora mesmo antes que eu arrume o maior pampeiro aqui. Se é para ser assim prefiro lá embaixo onde já estava acostumada.

Compensação pelo engano? Ah tá! Agora vocês querem negociar? Não tem negociação coisa nenhuma, combinado é combinado. Se vocês não têm a mínima competência para cumprir a parte de vocês, eu estou fora. Me mande de volta agora. Eu e ele também. Sei lá se ele arruma um rabo de saia eterno por essas bandas! Ciúme? Você ficou besta? Eu estou achando que esse lance aqui é muito machista. Vai todo mundo às favas, ô palavra boa de falar depois de uma vida inteira me controlando! Queremos voltar e pronto.
Não senhor, não vou perguntar para ele se ele quer voltar, ele vai e pronto, era assim lá e por que iria mudar agora.

Olha, me faz um grande favor, tá. Chega de papo, me devolve nossos prontuários, ou seja lá o nome que vocês dão e manda a gente de volta ligeirinho. Volto aqui mais nunca e quer saber por quê? Vamos virar budistas, assim quando passar daquela que vocês vão nos devolver, para outra, voltamos grama, árvore, passarinho ou qualquer outra coisa. Pelo que sei, eles ainda cumprem seus tratos. Tem dó, tenha a santa paciência. Aqui para vocês, ó. Não me pegam mais nunca! Essa vocês podem escrever. E não precisa fazer essas caras de zonzos, de purinhos, não. Cara de santo não me comove hoje, não. Tô fora.





Jornal Uberlândia Hoje em 30 de agosto de 2017