segunda-feira, julho 15

Carroças - Parte I





Feche os olhos e imagine a cena: hora do rush. Não, essa palavra não combina com nossa cidade, não temos um rush de verdade, temos tumulto e pressa de sair do trabalho e correr para casa ou para o boteco. Rush é coisa para São Paulo, Belo Horizonte, Nova York. Por falar na capital em BH, há pouco tempo estávamos por lá a ministrar curso em manejo de escorpiões. Compondo equipe de instrutores levei especial amigo e profissional de primeira linha da cidade do Prata.

Acostumado com a tranquilidade pratense, certa tarde, ao tentarmos, sem sucesso, cruzar a avenida Getúlio Vargas em plena Savassi na faixa de pedestre esperamos mais de 40 minutos na boca da noite rumo ao hotel. Ele, depois de dezenas de tentativas, desce da calçada, volta correndo, pula para trás, dois passos a frente, em coreografia digna de fina academia de ginástica, me saiu com essa:

— Esse pessoal daqui não trabalha, não? Será que não tem nada melhor para fazer do que andar o dia inteiro de carro?

Não restou, além de rir e concordar, o trânsito de Belo Horizonte é caótico, lá tem rush, e como tem.

Mas voltando à vaca fria. Imagine a cena: hora do aranzé das seis da tarde aqui em nossa Uberlândia. Todo mundo apertado em nossas vielas estreitas e despreparadas para o atual volume de carros a circular agressivamente pelo Centro.

À sua frente, caro leitor, segue em toada tranquila nada mais, nada menos do que uma carroça, e, obviamente, o carroceiro e seu cavalo. Para desespero do condutor, seu animal é, como todos os outros, por natureza, pouco dado a controle de esfíncter e regras sociais, resolve, na pureza de sua existência, como uma criança ou um cão de madame, durante seu harmonioso trotar, fazer suas necessidades.

O carroceiro, cidadão cumpridor de suas obrigações e muito bem informado, puxa as rédeas, para a condução, calmamente busca tateando sob o banco um saquinho de plástico. Não encontra. Puxa da memória e dá um empurrão com as costas da mão no chapéu, como a ventilar as ideias. As primeiras irritadas buzinas já se fazem ouvir na fila que rapidamente se formou bem coladinha na traseira do velho coche de trabalho.

Ah! Deixei na caixa de ferramentas – pensa com seus botões. Totalmente indiferente ao buzinaço que agora se faz ouvir a quilômetros, desce, pega o saquinho, procura a pazinha e calmamente recolhe o montinho de estrume que poderia infectar de pragas bíblicas a nossa cidade.

O cavalo, aparentemente indiferente, se mantém impávido a mastigar distraidamente o bridão. Obrigação cumprida, tão comprida quanto a fila, que, a essa altura, já faz curva lá pelas bandas da Nicomedes. Aqueles lá no final do congestionamento e que não fazem a menor ideia do cinematográfico e jamais visto congestionamento, já fora dos carros, se põem a perguntar angustiados o motivo de tamanha confusão. Será que aconteceu um grave acidente com direito a ônibus em chamas, carros de bombeiros e ambulâncias? Não, acho que foi um assalto a banco com cerco policial e tiroteio.

Um bicicleteiro sacana, vindo na contramão do fluxo, da cabeceira da fila comenta entre dentes: foi um atentado a bomba, tem até esquadrão especializado lá; abaixa a cabeça para evitar ser flagrado em seu cínico sorriso frente ao atônito olhar dos imobilizados motoristas.
(continua)






 Diário de Uberlândia 14 de jullho 2019

segunda-feira, junho 17

Gente estranha I e II





Esta não é uma crônica política nem ideológica. Ė uma constatação nefasta.

A vida vai levando nossas emoções, paciência, tolerância e mais algumas coisas em banho-maria, em quentura de fogo baixinho. Braseiro de fogão de lenha em amanhecer. Parece só cinza, um calorzinho vai saindo leve que nem a chapa esquenta. Mas bastam alguns gravetos, uma palha de milho e um sopro ligeiro de quem mal acordou, para que as brasas virem fogo e logo, no calor de manhã fria, água entre em fervura para café coar.

Andava eu assim, em cinza morna, observando, observando.

Quando criança, filho de oficial da marinha americana, morávamos em uma das cidades mais frias dos EUA, na divisa com o Canadá, às margens dos Grandes lagos. Próximo à nossa casa havia um pequeno pântano que, claro, éramos proibidos de cruzar, embora fosse um atalho dos bons para chegarmos à escola. Como toda criança normal seguíamos nosso irmão mais velho pelo short cut, Ele pra variar sempre nos xingava e nos ameaçava de afogamentos, areia movediça e pé-grande ferozes. E adiantavam as ameaças? Eu e minha irmã mais nova o seguíamos à distância e ele fingia não nos ver. Numa dessas consegui, à custa de uma boa surra posterior, capturar uma linda rãnzinha verde, de olhos imensos e coraçãozinho disparado na palma de minha mão.

A tunda valeu, pois minha mãe me deixou ficar com o bichinho, contanto que cuidasse dele com carinho e o soltasse junto à sua família uma semana depois. Mesmo com todo o zelo que tive dois dias depois a rãnzinha morreu. Entrei em choque devido à culpa que senti. Copiosamente chorei e fiz seu enterro em nosso jardim. Coloquei até cruzinha na sepultura, apesar de minha família judia. Foi a única cara feia que vi meu pai fazer e não era pela morte do bicho. Até hoje sonho com isso.

Por motivos de doença de meus avós maternos tivemos que voltar para o Brasil. Minha mãe era mineira de Teófilo Otoni. Como conheceu e se casou com meu pai já é outra deliciosa história. Hora conto.
Chegamos nas asas da PANAIR em um reluzente Constellation, depois de mil escalas, incluindo uma em Havana. Opa, já sei! Vão me chamar de comunista, pois pisei em solo cubano. Contudo, aviso que não almocei com Fidel. Ah, para aqueles que detestam história, a época era a do ditador sanguinário Fulgêncio Batista.
Já no Galeão, mais uma demonstração de que os bichos seriam minha vida. Enquanto todos passavam pela alfândega e migração, eu corria de um lado para outro com uma caixinha pegando moscas. Nunca tinha visto aqueles “passarinhozinhos” na vida!

Assim, fui cuidar da vida, reaprender português, criar passarinho de pena e canto, galinha e pato, como era moda entre os meninos em Belo Horizonte, onde nasci e retornava para morar. Ah, meu querido Manoel de Barros, o meu quintal era maior do que o mundo!
Possuía uma infinidade de espécies de saíras coloridas, canarinhos, bicos-de-lacre, sabiás e outras tantas espéciestodosem gaiolas.

Cuidava deles com carinho e admiração. Cores e cantos, minhas jóias. Enquanto outros meninos usavam estilingues e bodoques, eu os criava e não admitia matar bicho em meu reino/quintal.

Um domingo de brilho indescritível amanheceu naquele céu de 1965. O entorno era cinzento e negro. Meu país sofria horrores.
A criança de nada sabia. Via mas não entendia.

Domingo de luz. Tinha acabado de tratar de todos os passarinhos. Sentei-me à sombra de frondosa goiabeira, minha morada preferida em meu pequeno domínio. Ouvia meus passarinhos em canto, que soava naquele dia mas pareciam clamores de tristeza como grito de sofrimento e morte. Um estalo! Em grande gaiola coloquei quase todos juntos e com ajuda de amigo subimos até as torres da TV Itacolomy, passando pela favela do Pindura-saia.

Às minhas costas Belo Horizonte, à minha frente a mata do Jambreiro. Naquele tempo era do povo, hoje uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), de ninguém menos do que a assassina Vale. Abri as portas das gaiolas, o céu se pintou em milhões de cores e pios, o bater asas a fazer vento em rosto de menino que, sem saber motivo, chorava. Contraditoriamente, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Tinha descoberto meu fado. Cuidar de bicho e de planta, zelar pela vida por menor que fosse.

Desci a Serra do Curral correndo e chorando a rir. Sentia-me o mais feliz dos seres. Assumi essa missão, que tento a duras penas seguir. Passei décadas a defender os mais estigmatizados dos bichos, briguei por corte de árvore, plantei e vou plantar muito ainda. Salvei centenas de colméias de abelhinhas dos fornos de carvoeiras. Esparramei abelhas e sementes. Assim vou ser até o fim. Acredito nos bichos e nas plantas, em gente muito pouco.

Gente estranha II

Agora, nos últimos meses, fecho o tempo a contar, coração acelera em raiva, sangue nos olhos de tristeza e revolta.
Não dá mais. Sobre leve graveto ou palha de milho o fogo veio alto. Se não houver válvula de segurança vai explodir. Juro, nunca vi tanta besteira em tão pouco tempo. Sei que vai virar aquela polêmica chata, tipo Atlético versus Cruzeiro. Podem espernear, recitarem receitas de bolo pronto, culparem os anteriores e o escambau. Aviso que não terão resposta de minha parte. Dessa forma, podem ofender com gosto e com toda estupidez que lhes é particular. Minha intenção não é polarizar mais essa política nefasta que andamos a viver. Nada de direita versus esquerda. A discussão fica muito pequena. É reducionismo em excesso (podem chamar de circunlóquio ou até de pleonasmo, mas quem não sabe definir comunismo com imparcialidade não vai saber nem do que estou a falar). Eu não aguento mais!

O país está divido entre os defensores de Darth Vader, nascido Anakin Skywalker e o resto. Aliás, para aqueles o “resto” é comunista. Para mim nenhum conseguiu definir “comunismo” de maneira convincente e de fato nem sabem o que significa. Há também o socialista, cujos primeiros o consideram um perigo. Alimentam a ideia de que irão entrar em suas casas e “socializar” tudo que é seu. Misericórdia Divina, quanta ignorância!
Não dá mais para segurar a bronca. Entre as muitas besteiras vou naquelas que me diretamente me irritam com força, como se aquela criança lá do começo fosse atacada na alma e sóme refiro ás mais recentes, O espaço é pouco. Dá para aguentar? Logo de cara tentou-se acabar com o Ministério do Meio Ambiente, levando em conta quem lá está até que poderia se pensar nisso novamente.

Reproduzo aqui parte de texto de João Lara Mesquita de 24 de maio de 2019, publicado no Estadão sob o título “Cancun em Angra dos Reis, nova bobagem de Bolsonaro”. Disponível em https://marsemfim.com.br/cancun-em-angra-dos-reis-bolsonaro/:

Ele está no poder há apenas cinco meses. Cinco meses de confusões, bate- cabeça entre a cúpula do governo; discursos desconexos, trocas de ministros, etc. Na área ambiental não foi diferente. Exoneração do fiscal que flagrou Bolsonaro pescando na ESEC de Tamoios; abertura da área do banco de corais Abrolhos para prospecção de petróleo; ameaças infantis de abandonar o protocolo de Paris; de transformar o MMA em apêndice do ministério da Agricultura; acusação sem provas ao Fundo Amazônia cujos parceiros estranharam; ameaças de acabar com as multas do Ibama; creditar o aquecimento global a um plano orquestrado por comunistas e mais. Não por acaso, o desmatamento na Amazônia explodiu este ano. Agora vem a estapafúrdia ideia de importar a cafonice brega, criando uma Cancun em Angra dos Reis, justamente nos 5% da baía de Angra formada pela unidade de proteção integral, ESEC de Tamoios! Simplesmente, para um site especializado em meio ambiente marinho, não há como não repercutir mais esta idiotice.”

Gonzaguinha, onde estiver: “Não dá mais prá segurar, explode coração”.





Diário de Uberlândia dias 9 e 16 de junho 2019

terça-feira, junho 11

O trecho - outra parte



Volto às luzes. Movimento rápido outra vez, sem ser brusco voltava a sumir para agora brilhar no meio do pasto. Riscava um oito imenso e com rastro no alto céu e sumia, agora só amanhã. Hora era uma sozinha, hora eram muitas. Ficavam perto, muitas ficavam longe muito longe lá no contorno do vale. Luz de carro dizia uns – mas como se lá nem estrada tinha, nem atalho, e até hoje não tem.

Uma feita eu mais Vilson Gato – nome de batismo mesmo Gato, não era por assim chamado apelido não – coisa de Padre Dázio? Ninguém afirma – resolvemos correr atrás delas.

Brincou conosco, corremos mais de quilómetro e ela arteira na frente. Sumiu outra vez, zombeteira, já estava lá junto de Bia, e ela não via, só Vilson e eu cá de longe.

Carece sei eu de falar mais da aparência das luzes, difícil contar. Um diamante com luz dentro. Pronto descrevi, era assim. Ou quase, tem coisa sem jeito de contar, palavras faltam, estão aqui as lembranças não saem recontadas – difícil.
Tento: acende luz dentro do puro cristal, vai ver o que víamos toda noite no céu, na estrada, no pasto no mato – um brilho sem calor – suave e vivo. Era assim. Maravilhoso.

Gente estudada por lá esteve observando, vieram da capital. Aparelhamentos e muito observar. Ficaram uma semana – a luz só deu o ar da graça duas vezes – e rapidinho, acho que não gostou da cátedra – os professores se foram frustrados mas crédulos pois viram e filmaram, não contaram mais nada para nós da vila. Arrogância de doutor de papel, só, conhecedor nada da vida das gentes. Levou muito, nada, as luzes ficaram nossas.

Um dia, nem te conto, mas tenho que contar. Era um sábado – tarde da noite para nossa vila já dormindo. Fomos buscar a companhia mágica de nossas luzes. Nossas sim, todo mundo via, conhecia, mas não punham o reparo merecedor. Acostumaram e pronto – as luzes? Ah as luzes, sei estão lá fim de prosa, virou cerca, virou cobra, virou árvore, mas novidade não, nem te ligo. Perdeu o encanto para os quase todos.
Seguimos a acompanhar o bailado de luz por hora ou pouco. Depois nos colocamos a ir – surpresa – uma acompanhou o batido. Seguiu de longe. Entrou na vila desconfiada. Passou rente a farmácia fechada a anos, desceu a rua. Cruzou a outra rua. Na esquina o bar do Jorginho japonês, meia dúzia com as cabeças presas no dominó. Não adiantou gritar por nome, ninguém olhava.

Cruzou conosco, a meio trote a frente da escola e da igreja, à esquerda desceu rumo ao campo onde o circo ficava. A direita no fim do campo, a esquerda no corredor de gado onde morávamos. Não seguiu mais. Parou no moirão da cerca. Brilhava-brilhava. Descemos até o portão – e ela lá a vigiar. Não sabemos até quando ali ficou. Sentimos estranha proteção.

Por muito passar de tempo com as luzes compartilhamos. Segredos e mágica. Mudamos para cidade, as luzes, minhas luzes, as luzes de São Sebastião do Pontal. Se continuam lá não sei. Talvez falte platéia, talvez falte companhia. Hora vou lá de visita. Depois conto. O trecho ainda é longo, tem muita história, acabou não.





Diário de Uberlândia

O trecho - Uma parte


A vila não tinha padre, assim fixado, morando. Vez ou outra aparecia um na vila, coisa de espaço grande. Quando vinha fazia tudo no atacado, casamento, batizado, crisma, confissão: perdoava uns, penitenciava outros. Se o pecado era grande demais e a procuração de Deus não cobria, ai era aguardar o destino. Até extrema-unção atrasada o padre dava. Sem presença do moribundo, esse havia a tempos partido, mas a alma mesmo tarde era encomendada.

Morando lá apenas três irmãs missionárias, cuidando das coisas das coisas do espírito. Certa feita teve festa. Fartura de comida e bebida, uns mataram tatu atropelado e fizeram farofa outro trouxe carneiro para assar. As irmãs comeram enganadas achando que era frango e vaca. No dia seguinte mesmo depois de elogiar a comida passaram mal ao saberem da procedência. Coisa da cabeça, guia em tudo até no gosto.

O padre por nome Dázio, este sim, gostava de carne de caça. Dia daqueles ganhei um rabo de jacaré, de tanta dó do bicho, cozinhou mal, ficou com gosto de couro, de baixeiro velho até Tupã o cão das caçadas fez pouco, quis não. Jogar fora nem pensar. Veio a lembrança, toca a oferecer para Padre Dázio, ele estava na vila. Que maldade, será pecado?

Cobri a tigela com o mais alvo dos panos de prato da casa, linho branco com pequenas flores bordadas em azul e rosa, um primor de beleza. Cheguei à tardinha na casa paroquial, já escurecendo, o padre nos recebeu com um sorriso maroto, sentiu o cheiro do tempero – pouco via era ruim das vistas, pois não é que comer com os olhos não podia, minha salvação. O padre comeu ao enfaro – lambeu até osso, fazia gosto de ver. E eu, livre fiquei do jacaré de má sina, pelo menos morreu por causa uma – alimentou padre. Tomei o caminho de volta, Futrica e Tupã a correr junto rolando no pó – alegria de bicho.

As tardes e as noitinhas na vila não eram de passar. O vento ficava quieto, ofegante e cansado. O sol teimava em aquietar-se na distância, mas não sumia de todo rápido, era manso o seu sumir. Carregava de tinta e cor o céu, as matas e os pastos. Dava uma vontade e de não-sei-o-que-dava-de-vontade, era uma meia tristeza longe, amarro de boca de estomago – triste tristeza que vinha com a tarde finzinha. Doía. De certo era portanto que as gentes mais se matam nessa hora. Choro preso.

Depois o breu. A noite enfeitaitada, estrelas adoeciam o céu de tantas que tinham. Nas noites sem lua então, dava sombra na terra-pó. Sombra de estrela. Era nessas noites que vinham as luzes. Gostava de ir até fora da vila – em estrada que seguia rumo ao posto de leite, laticínio resfriador, um ermo.

Tinha um mata burro. Ficava no tope do trecho que rumava para o rio lá longe. Sentava lá quase sempre no silêncio. Criava sonhos, criava um mundo meu, meuzinho de fantasia, belo/lindo, puro sonho de tão bem sonhado.

Na calma dos contos ela devagar se anunciava. Tímida, primeiro brilhava rente ao chão quase sempre no meio da estrada. Parecia se oferecer. Candura. Flutuava com ainda pouco brilho prata-vermelho-azul palmo ou dois do chão. Como a buscar atenção aumentava o brilho, bailava em curvas rápidas para bem alto.

Sumia. No repente aparecia a poucos passos de mim já grande e agitada corria em rapidez de passarinho pela estrada, veloz. Sem aviso se atirava ao céu em frenética dança: rodopiava, parava se fazia vir/ir. Parava, parava. Apagava um pouco e outra vez vinha devagar para mim. Sem medo, sem som, sem vento. Só luz e movimento. Sumia. Cansou de gente sussurrei. Quando apercebía seu brilho em minhas costas na entrada da vila antes do limite criado, que era a sombra, a iluminação vermelha da lâmpada do primeiro poste. De lá ainda não tinha passado. Ainda.





Diário de Uberlândia

quinta-feira, maio 9

Piri piri piri!!!!! Ratatatata!!!!






Uma onda branca toma conta da Ponte Seca. A concentração atrai a atenção de turistas e nativos. Apesar de acostumados com essa invasão, que já dura 47 anos, é impossível passar sem parar para dar uma espiadinha, que carece de horas, pois encanta. Sempre dá uma pontinha de inveja de não estar ali no meio de tanta gente alegre. Velhos, moços, idosas, lindas meninas. Impressiona a seriedade de todos. Cada um sabe seu papel, seu lugar, sua nota. Aos poucos se vai colocando certa ordem na confusão séria, mas alegre e emanando alegria contagiante. O comandante com sua jaqueta azul, botões dourados e calça de linho de um branco impecável, pede silêncio. A ordem custa a correr as colunas e a falação não pára. De mão em mão alguns carotes de boa cachaça circulam faceiras. Latas e mais latas de cerveja, embalam o clima.

Depois de berros e mais gritos, o comandante consegue algum silêncio. Reza a cartilha para os novatos. Pede minuto de silêncio para antigo membro que deixou saudades, partiu para as estrelas. Lembra solene as vítimas de Brumadinho e Mariana. Neste minuto o silêncio é total. Canta bem-ti-vi em árvore bem próxima. Lágrimas brotam em rostos rudes, queimados de sol pela lida. As gotas seguem caminhos entre profundas rugas, escavadas pela erosão do tempo. Perdeu alguém muito amado para a lama criminosa da Vale. Passa ligeiro a manga da camisa, sussura: − Sai tristeza. Essa tarde é para você que nos deixou em tragédia.

Pessoal do sopro vai na fente, percussão ao fundo. Põe-se em marcha e logo imensa serpente branca toma conta das ruas: O sopro, Piri piripiripiri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Piri piripiri piri, ratatatata!!!! A serpente branca sobe a rua Antônio de Albuquerque até a Igreja do Pilar, contorna a Praia do Circo e rapidamente chega ao Largo do Rosário. A linda Igreja dos pretos parece aprumar suas torres barrocas, para agradecer a homenagem a receber. Ali todos ficam de frente para ela e o refrão soa mais alto, repicando em casas coloridas, janelas repletas de gente alegre. Piri piripiri piri!!!!! Ratatatata!!!! Piri piripiri piri!!!! Ratatatata!!!!

Segue rumo ao Largo da Alegria. Ali em ligeira e suave curva à esquerda, avança pela Rua São José. Aplausos, gritos e dança. Puxa centenas de pessoas com sua força.

No Largo do cinema, apenas o nome permanece. O cinema se foi para sempre. Só lembranças. Também, Manteiga o pipoqueiro, tratou de buscar estourar seu milho bem longe lá, no alto para onde vão as boas pessoas. As ladeiras vão se tornando mais íngremes. Não, não precisam de cordão de isolamento ou segurança. As cabeças brancas de verdade impõem respeito e a rua se abre em passarela. Sobe-se a rua Direita. Piri piripiri piri!!!!! Ratatatata!!!!!!!!! Ratatatata!!!! O suor cola camisas de algodão, mas nada que atrapalhe a marcha. Lá no alto a Praça Tiradentes lotada a esperar. O som já avisa que estão chegando. Apoteose! Rompe-se praça adentro sob aplausos. Banhos de confete, serpentina e espuma colorida. Há sempre uma mão na multidão a estender uma cerveja, uma garrafa de água gelada. Jogam-se beijos que, como borboletas parecem pousar em cada rosto. Sopro Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Contorna-se a praça, passando primeiro pelo palco erguido bem em frente ao Museu da Inconfidêndia, circula a estátua de nosso herói maior, marcha cadenciada pela Escola de Minas. Outra volta e desce a Rua do Ouvidor, rumo ao Largo de Marília, já na Antônio Dias. Se você olhar à sua direita no Largo de Coimbra, vê a belíssima Igreja de São Franciso. Mandarim a lhe sorrir. Depois, parada geral para recompor as energias. Leia-se xixi, mais pinga e cerveja à vontade. Estão todos enxarcados, mas apenas cansados. Aproveito e descanço, descrevo os trajes. Tem que ser impecável e, na falta de algum item, corre-se o risco de não poder participar.

A calça obrigatoriamente preta, assim como o sapato, gravata e meias. Camisa branca social para fora e o cinto abraçando a camisa. No cinto um rolo de papel higiênico. Na cabeça, um pinico branco esmaltado. Se for a primeira vez que vai sair, este pinico será batizado. Não com o que normalmente se coloca dentro dele, como na cabeça de muitos que se dizem poderosos que aí estão. Nada de merda. O batismo é jogar o dito no meio da turma, onde é chutado, amassado em calçamento de pedras seculares, que ainda trazem o pisar de cavalos, de portugueses, escravos e artistas eternos. Assim lhe é devolvido já com a tarja oficial. Agora, você iniciante, faz parte de uma ordem desordenada e prestigiada. Você ostenta o título de membro da maravilhosa, tradicional e mágica BANDALHEIRA.

Sopros, Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Saiu uma vez, vai viajar dias para sair novamente! Viva a Bandalheira! Viva o carnaval de Ouro Preto!







Diário de Uberlândia em 17 de março de 2019

Bicharada II




Aluga-se lindo imóvel. Vende-se ou aluga. Tratar direto com proprietário. Essa foi minha vida por bom tempo. Podia identificar um imóvel apenas pelas letras e cores das placas. Só relembrando meu périplo contado outro dia. Deu no que deu. Achei uma casa minúscula, unha de dedinho, fria e sem vida que, como já contei, tratei de lhe dar jeito de lar. Pode parecer mentira, mas hoje já a acho grande demais, menos o quase zero quintal, que é o "coração das pessoas". Não é Bituca? Esse poderia ser bem maior.

Parei meu contar na semana passada no miado do gato, que acabou ficando e me adotou de fato. Durou pouco nosso convívio. Gente do mal o querendo fora do condomínio. Pela mansidão e inocência de filhote, entrava em casa de gente ruim sem alma. "Quem não gosta de bicho dificilmente vai gostar de gente". Vi na prática. Certo, passei o gatinho para uma amiga especial. Lá cresce livre, leve, solto e muito feliz e eu ainda tenho a oportunidade de visitá-lo sempre. De lá para cá, se foram riscos no calendário, marcadores de nossa vida ao passar.


Perdi a esperança de voltar a ter companhia animal, a melhor de todas. Comecei a pensar que essa dádiva não me seria concedida. Ledo engano. O destino me reservava boas surpresas. E não é que em tranquilo fim de semana, me aparece outro gato! Este erado e bem desconfiado. Gato de rua, certamente tinha sofrido um bocado em mãos de humanos. Chegou como quem não queria nada, entrou, roçou pescoço pelos pés de bancos e tamboretes. O olhar sempre firme em mim, como a esperar um grito ou um chute. Neste dia não deixou nem passar a mão em sua cabeça, arredio que era. Ainda tinha resto da ração do que foi expulso do condomínio. Servi um tanto. Ele comeu ávido e ligeiro, como se estivesse saindo de um campo de concentração. Raro em gatos. Logo conto. Com os dias, já subia no sofá, onde passava a tarde toda dormindo. Baixou a guarda. Dormia de pernas para cima. Em posição totalmente vulnerável, aceitava carícias e já pedia comida aos mios. Ronronava tranquilo ao meu lado. Não deixava que ele ficasse só dentro de casa. Fiz macia cama na varandinha do cafofo - no dizer de pessoa querida, mas que não quis mais de mim. Ali ficava até eu chegar. Porém, o destino nos reserva boas surpresas. E não há de ver que ao chegar de um dia especial, escuto outro miado à minha porta? Pensei comigo que não poderia ser o Chaninho. Velho como era, só se engasgado estivesse. Ligeiro desci a abrir a porta e dou com o quê? Gatinha filhote, do pelo feio de cor e sem brilho. Ela não teve cerimônia. Na inocência dos pequenos já foi entrando, roçando na minha perna aos ronronares de frio e fome. Peguei no colo, olhou-me fundo e triste. Dia seguinte, castrada, vacinada, deslumbrigada, ganhou casa, comida e dono. Pretensão ser dono de gato. Eles nos escolhem, eles sãos donos, nós os seus animais de estimação. Ganhou nome de Princesa. Faz literalmente gato e sapato do velho Chaninho que, por vez, perde a paciência e ralha forte com ela. Mas a rotina é assim. Onde um está, está a outra, que vem ligeiro. Toma a ração dele, mordisca o rabo, mas no fim acabam os dois dormindo o dia inteiro na caixa da varandinha. Depois, somem no negrume da noite para fazerem sabe-se lá o que.

Ração, como já disse, só Premium.Vai ficando caro, quase o preço de minha marmita. E olha que essa dá para almoço e janta.

O pior, como sabem, é que gato come devagar, mordisca e larga o resto ali para outra hora. Por menos que se coloque, sempre sobra e muito. Deu no esperado. Aquele restinho de ração começou a cevar casal de gambás que, na maior tranquilidade, da goiabeira passavam para o tronco de minha amoreira e desciam em rota segura bem à frente de minha janela. Ainda tratavam de dar um sorriso calmo para nós e seguiam para os comedouros, onde se banqueteavam com as sobras dos gatos. Assim estava difícil. Tratar gambá a ração especial é osso.

Resolvi fazer sérias mudanças. Contenção de despesas moaçada! De agora em diante ração a granel! Com um quilo da outra comprava cinco desta.

A resposta veio no primeiro dia que a servi. Os gatos vieram em rodeios e miados, chegaram com a costumeira fome de mordiscos, cheiraram uma vez, olharam em sincronia para mim. Cheiraram outra vez, levantaram as cabeças juntinhos, firmaram as vistas como a me dizerem: — Ô cara, que que isso? Baixou o nível? Perdeu o emprego? Sem essa, pode parar, cadê nosso comer de verdade! Isso? Queremos não!

Pensei, deixa a fome apertar que logo vêm comer. Deu certo não. Jejum de dias. E olha que eu tirava a ração e só colocava no dia seguinte.
Certa noite coloquei a ração e esqueci de tirá-la. Estava a ler bom livro, quando vi de canto de olho os gambás descerem tranquilos. Bom, pelo menos estes comem e ficam numa boa.

Que o quê! Não passaram cinco minutos e os dois filões foram na carreira árvore acima. Parece que ouvi um resmungo do tipo:
— Quem esse cara pensa que somos? Somos gambás de respeito e estirpe nobre! Acha que vamos comer sobras? Assim tá é doido!

Nenhum sorriso me deram. Passaram-se cinco dias de greve geral felina e didelphiana. Sem negociação, sem carinhos e companhia. Dei-me por vencido. Voltei a oferecer ração dentro dos "requerimentos nutricionais mínimos estabelecidos pelo Conselho de Nutrição Animal do NRC (National Research Council)" e recomedados pela AAFCO (Association of American Feed Control Official). Bicho sindicalizado e organizado tem meu respeito e eu sou péssimo negociador. Gatos e gambás unidos jamais serão vencidos.






Publicado em Diário de Uberlândia em 10 de março de 2019

Bicharada I



Já faz um tempo. Depois de uma relação de três décadas, esta chegou ao fim, como acontece com quase tudo em minha vida. Não, não estou a me queixar, nem me colocando em posição de vítma. O mestre Vinicius tinha toda razão: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Assim foi. Não é o caso de expor minha intimidade e tais, mas a verdade é que fiquei sem chão, sem céu, sem rumo. Estranho seria se não ficasse. Recomeçar é sempre difícil, doído, mas ao mesmo tempo é como novo nascer. É chance de fazer uma avaliação do caos interno e jurar nunca mais repetir erros do passado. A verdade é que não é fácil, principalmente quando se vive a segunda juventude ou a “envelhescência”. Os sonhos sonhados derretem como degelo glacial sob efeito de mudanças climáticas, e olha, tem gente que não acredita no aquecimento global. Coisa de comunista. Passado o impacto você começa a pensar se realmente compartilhava sonhos ou os vivia sozinho em uma clausura mental, fantasiosa. É impactante.

Além do chão e coisas mais, tem o hábito. Este é custoso. As manias, o jardim a cuidar, os passarinhos que lhe são tão familiares, quase já comendo em sua mão. Não se despede apenas de gente humana. Despede-se de móveis, cheiros, plantas, bichos, rituais do coditiano, o dormir na rede, a feijoada no fogão do quintal e dos morcegos amigos sempre em disputa pelas belas jabuticabas. Enfim, chega de lamúrias. O cantar de Chico já se foi e não existe mais, virou pó: “Se me faltares, nem por isso eu morro / Se é pra morrer, quero morrer contigo (…)” Que nada, viver é preciso, ser feliz mais ainda.

O mais importante e única coisa que agora faz sentido são os filhos. Estes, amores eternos, sinceros, maravilhosos. E gratidão por tê-los tido, uma amizade fraterna sem ranços, gritos de gansos, apenas o manso.

Ah, Leminsky “Viver é super difícil/ o mais fundo/ está sempre na superfície.” Introito feito, vida maravilhosa que segue.

Depois de muito procurar, achei pouso para alugar. Não que fosse difícil, pelo contrário, nunca tinha passado por minha cabeça a infinidade de casas e apartamentos que aqui existentes. Imagino que, se todos os imóveis estivessem ocupados a população de nossa cidade triplicaria. O complicado foi encontrar morada do agrado. Acostumado com a vastidão de quintais e ruas calmas, arborizadas, fica complicado não comparar.

Achei enfim algo nem perto do que buscava, mas meio longe do que não queria. Minúscula casa, com quintal menor ainda, nua de plantas. Sem alma ou brilho. Mas era ali. Tratei de fazer dali um canto agradável. Plantei árvores e o fiz verde. Defendi com ferocidade jurídica um lindo pé de goiaba. Hoje, sua sombra e frutos são a alegria de centenas de passarinhos, maritacas, sanhaços, pássaros-pretos, cambaxirras e seu gorgeios que nos levam a viagens no tempo. Uma festa do amanhecer ao fim de tarde.

Do quintal de cimento quente, brotou horta em vasos. Alfaces, tomates, almerões de várias espécies, temperos exóticos, flores coméstíveis, além das básicas salsa e cebolinha. Morangos, pitangas, romãs e também laranjas Kinkan (laranja fruta, que fique bem entendido). As plantas cresceram tanto que a casinha ficou agradavelmente fresca e acolhedora. Certo dia duas crianças passaram à porta e apontaram para nossa entrada. Olha a casinha dos Smurfs! Quer elogio maior?

Por muito tempo minhas únicas companhias eram plantas e bichos. Fiz cevagem com quirera de milho. Virou “point” da passarada. Levantar para trabalhar cedo. Saudade desse tempo. Não do cedo, do trabalho, mas essa é outra história, guardada e pronta para contar. Levantava junto com frescor do sereno. Um mundo de cores e sons me esperava, ávido por desjejum. A passarada se misturava rapidamente com o amarelo do milho, me deixava aquietar em uma paz. Difícil descrever.

Certa feita, em um sábado bem cedinho, miaram à porta. Se já contei, reconto assim mesmo, peço desculpas, pois me perco em tantos escritos. Abri a porta intrigado. Pequeno gato preto, noite sem lua, sem estrelas, negro balandrau, me olhava pidão. Minha relação com gatos era distante. Sempre tive desconfiança deles. Criava cães de grande porte. Deixei a porta aberta, tratei da passarada no cocho e fiquei a observar. Se ele atacasse os de pena, não haveria a menor chance de mantê-lo comigo. Qual foi minha surpresa, não deu a menor para os canores do meu jardim. Neste dia, fui às compras como fazia sempre aos fins-de-semana. Morar sozinho é doido, tem que acostumar a pequenas porções. Nossa cidade não vive essa cultura. Vivia de um desperdício involuntário e isso me doía forte. Ao passar por uma gôndola colorida, avancei alguns passos, mas em ré voltei.
Comprei uma super ração premium. O gato fica. Por excesso de letras e espaços aviso: essa prosa continua.

Bom domingo.






Publicado em Diário de Uberlândia em 3 de março de 2019

Compadres



 Eles eram de uma amizade e cumplicidade pouco vista. Moravam em pequena cidade em um longe, no meio do nada. Para lá chegar só estrada de chão e se formasse chuva, nem carecia sair, pois só passava de carro de boi ou trator. Essas caminhonetes de propagandas, que sobem e descem barranco, andam dentro de córrego e, em falta de educação total, correm por praias esmagando ovos de tartarugas, por lá não valiam nada, faziam fila no massapé grudento da terra de cultura.

A vila era que nem tantas que visitei e descrevi aqui mesmo neste espaço. A igreja numa ponta, lupanar na outra. Este, também chamado de zona, casa de tolerância ou puteiro. Bem que tentei ser educado. Lupanar em primeiro momento me pareceu, digamos, mais discreto, nobre. Não funciona em certas ocasiões, melhor o popular mesmo. Dois moleques a correr descalços por toda banda. Sempre juntos, pareciam irmãos bem apegados. Assim, eram amigos de cortar dedo e juntar sangue como nos filmes de faroeste. Corte no pulso não tiveram coragem. Viram corpo de Seo Sinobelino mergulhado em poça de sangue, por conta de pulsos cortados. Contam que estrebuchou que nem frango, até morrer em suspiro de arrependimento. Não teve tempo de desdizer e se foi com olhos abertos e tristes. O motivo nem se sabia direito. Não devia a ninguém, tinha sítio bem zelado, pomar farto, galinhas, patos e até um peru imenso que dizia guardar para quando casasse. O peru andava velho, com as canelas grossas e escamosas pela era. Não respondia nem a assovio. Matou-se de solidão, disse o padre na missa de corpo presente. Contrariando as leis da Santa Madre Igreja, foi enterrado em campo santo. E quem ia saber disso? Contei, ali era o fim do mundo redondo ou plano, mas era o final.

Uma gota de sangue do dedão, furado com espinho de macaúba, resolveu o problema do ritual. Irmãos de sangue se tornaram de fato e de direito.

Cresceram, namoraram, casaram e filhos tiveram. Além de amigos se tornaram compadres, pois pegaram filhos um do outro para batizarem.

Trabalhão. Um montou venda com tudo quanto há. Aquietou bem na praça, onde recebia, vendia e trocava prosa. O outro tinha alambique famoso pela delícia de sua cachaça. Fornecia ao amigo em garrafões de cinco litros. Gente andava léguas para comprar.

Punha preço que fosse, vendia tudo. Tudo não, sempre guardava uma ou duas garrafas da mais fina porção de destilar. Uma para uso próprio e dos amigos, outra selava bem com rolha e cera de abelha e enterrava bem escondida. Único que sabia dos lugares de segredo era seu compadre/irmão de sangue. Nesse podia confiar. Dizia sempre:

− Compadre, essas pingas especiais vamos tomar no casamento de nossas filhas. A primeira que casar, seja sua ou minha, nós abrimos uma por uma. Combinado?

− Certim compadre, certim! Assim será feito!

A vida pastosamente foi passando. Corria em calma e preguiça.

Num amanhecer murmurante como sempre, aquele dia abriu diferente. Ninguém sabia explicar o ar pesado, difícil de atravessar, mesmo com tanta brisa fresca. Para bom observador um notar ficava. Galo não cantou naquela madrugada, cachorrada não latiu para a lua, que se fazia cheia deixando tudo em prata. Gatos sumiram e nem miado de paixão se fez ouvir. Urutau mãe da lua se aquietou e não assustou cavalo em pasto. A Caburezinha tão chegada a quintais e praças não piou seu canto gargarejado,

O funesto estava anunciado e ninguém percebia.

Acontece que um dos compadres, não o das pingas, o da venda, tinha saído de madrugada para pescar e, como estava demorando demais a voltar, a venda não abria, criou-se desconfiança. Toca as gentes a procurar. A canoa acharam emborcada na margem do rio, do compadre nem aviso nem avisto. A procura levou semanas. Nada. Assim, foi dado como morto pelo delegado da comarca vizinha, que comandava buscas.

A tristeza tomou conta. Em luto a vila ficou por semanas a fio.

O tempo. Passaram-se anos e mais anos. E depois desse tanto, mais um muito de tempo se passou.

O fato caiu no esquecimento, ficando aceso apenas na viúva, que nunca mais se casou e só de preto se vestia, nos filhos que agora tinham netos e, claro, no peito do único amigo de verdade sobrevivente a tudo. Não abriu as pingas enterradas para casamento de filha. Esperou em paciência. Acreditava que do nada o amigo iria voltar, de meio de picada na mata.

Foi nada não. Quando inteirou trinta anos do desaparecimento, e decidido a por fim naquilo tudo, resolveu fazer baita festa em homenagem ao desaparecido. Convidou a vila toda, armou torda com mesa farta, muita comida, cerveja a ufa e, para completar, com os filhos e mapa na mão, saiu a catar as tantas garrafas de pinga enterradas.

Colocou tudo em mesa de toalha branquinha e em discurso contou a história da cachaça para todos, que agora iam em cerimônia brindar ao parceiro que se foi.

Serviram-se e após o levantar de braços deram talagada, para apreciar o gosto de pinga tão especial envelhecida por três décadas.
Depois do gole fez-se silêncio barulhento por dentro. Ninguém deu um pio. O dono da festa, de bochecha cheia, cuspiu com força a bebida, no que foi seguido por todos. O velho deu uma gargalhada tão forte que tremeu a lona. E ainda quase explodindo de tanto rir gritou para a multidão:

− Esse compadre fdp era um moleque dos infernos. E não é que nesses anos todos que lhe mostrava minhas pingas especiais ele, na calada, corria lá, bebia e colocava água no lugar! Sacanagem com trinta anos de frente!

Adiantava xingar? A festa durou a noite inteira. E o velho amigo, agarrado a uma de suas pingas de verdade, sentado em tronco beirando mato, ria e chorava. Chorava muito de saudade.







Publicado em Correio de Uberlândia em 24 de fevereiro de 2019

terça-feira, fevereiro 19

Longevidade




Acho que todos querem viver mais do que merecem ou estão fadados a isto. A história da morte anda me rondando há muito. Ando a perder para o tempo amigos queridos. O ciclo da vida é assim. Imponente, não existe forma de fazer a roda parar.

Nesta fase involuntária de pouco fazer, de não ser produtivo para a comunidade na qual estou inserido, acaba sobrando muito tempo para o pensar, ler e claro, rabiscar o produto embruscado de meu refletir. Na toada que vou, entre livros, jornais e discos (leia-se Spotify), crio minhas listas de ouvir misturando tatu com cobra. Emendo o Overture da ópera Tommy, do The Who, com um Chico Buarque, Caetano, Elis, Milton, The Dave Brubeck Quartet ou com a trilha sonora de Morte em Veneza, adaptação genial da novela de Thomas Mann. Esta, tendo à frente ninguém menos do que um dos grandes mestres da sétima arte, Luchino Visconti.

A trilha sonora tinha que ser Gustav Mahler. Não falo mais. Sei que é pedir muito às pessoas que leiam um pouco mais, que "percam" seu tempo com filmes de qualidade, deixando de lado o encantamento pelo 3D que, em minha humilde opinião, é diversão de criança, de parque de diversões, sem poesia arte zero.

Imagine você que começou nas redes sociais, com o ICQ, Orkut, ou voltando ainda mais no tempo, os bate-papos via DOS. Tela negra, letras verdes e cursor piscando à frente da última letra digitada, eram o máximo em tecnologia. Eu e meu 386 viajamos muito mundo afora. Hoje, dizem, é terra abandonada, por onde trafegam livremente hackers e crackers.

Bom, o Orkut com todos seus recursos, lapidando o modo de contatar gente foi breve. Explodiu o Facebook, porém demanda escrever muito. As abreviações foram sendo inventadas e criou-se uma linguagem própria, mas ainda assim cansativa. Escrever cansa não é? Foi então que um gênio resolveu o assunto, reduzindo o mundo a 140 caracteres. Nasceu o Twitter e com ele o microblogging. A maioria dos humanos se satisfez com ele. De celebridades a presidentes bons e maus.

Mas você acredita que tem gente que se desgasta e apresenta enxaquecas horríveis para criar frases com tão pouco? Pois saiba que tem sim e, com o novo modelo de escola que se pretende, vai aumentar mais ainda. Adeus haicais com seus três versos e métrica de 4-7-5 silabas.
Aí, como um passe de mágica, nasceu o Instagram. Nada de escrever. Apenas fotos. Dirão alguns: "mas uma palavra vale mais do que mil palavras". Se você sabe viajar nas imagens eu concordo. Porém, cá pra nós, esse tanto de caras e bocas, beicinhos. bundinhas arrebitadas e olhares lânguidos forçados não contam muita história não.

Voltando à vaca fria. Entremeando todas essas redes sociais estão os famigerados anúncios de todas as espécies. Com eles os programadores têm a cara de pau de colocar posts patrocinados como se fossem recomendados por amigos. Tenha a santa paciência! Aí começa o desespero.
Uns dizem que quem bebe muito café tem grandes chances de passar dos cem anos, outros trocam o café pela cerveja. Transformam bananas, feijão preto e algas marinhas em um caminho triunfal dos centenários. Cara, até o ovo, considerado perigoso por muitos para a saúde, está na lista dos alimentos milagrosos para uma vida longa.

Contam uma história, não sei se é totalmente verdadeira, mas que dá o que pensar. Ah, isso dá! Dizem que os Estados Unidos obtiveram certa feita uma supersafra de espinafre. O governo havia fomentado o plantio da erva. Sim, espinafre é uma erva rasteira. Não tirem conclusões apressadas, por favor, esqueçam as goiabas.

Resumo da opereta: tinham que vender a produção, se não quebrava todo mundo. Espertos, entraram com campanha publicitária gigante e assim nasceu o Marinheiro Popeye. A criançada caiu matando. Nos conta a Redação de Mundo Estranho que, " na década de 30, a verdura conquistou a criançada americana e seu consumo cresceu 33% nos Estados Unidos."

Será que está sobrando ovo nas granjas? Há banha de porco estocada? Pois agora tudo condenado agora faz um bem danado. Antes matava. Será que existe alguma jogada comercial nos prometendo os cem anos por puro interesse econômico? As teorias da conspiração, sempre elas.
Agora cá pra nós, no sério. Quantos realmente querem chegar aos cem? Tá, se for com cabeça e corpo numa boa, independente, produtivo, até eu quero. Mas só para virar estatística mórbida da previdência e ser acusado de quebrar o país por viver mais, quero não! Um século é tempo para danar. Dá para fazer bom uso dele sem chegar tão longe.

Uma coisa é importante, só não podemos desperdiçar tempo, pois este, meus caros, se vai em lampejo!

Carpe diem.






Publicado em Diário de Uberlândia em  27 de Janeiro de 2019

quarta-feira, fevereiro 13

Sem pé nem cabeça






Tem dias que nem o cotidiano te mostra caminho de contar. Tudo parece igual, nada digno de nota ou de por atenção. Imagino que são dias assim que determinam o vazio do existir. Claro que tudo está em movimento ao seu redor. Os céus com seus aviões de carreira a cruzarem um azul de beleza inconteste, alguns soltando aqueles riscos de gelo, que sempre pensei ser fumaça. Mas não, é gelo mesmo. E pensar que enquanto aqui estamos assando como frango em vitrine, lá, onde o rastro se mostra, a temperatura tem obrigatoriamente de estar por volta dos trinta e cinco negativos. Atenção, atenção urgente! Inutilidade pública:

"O vapor d´água que sai de suas turbinas congela na hora, transformando-se em cristais de gelo suspensos na atmosfera. Isso, porém, não acontece sob qualquer circunstância. O ar precisa estar a uma temperatura de pelo menos 35ºC negativos, ou seja: o avião tem que voar a pelo menos 10 quilômetros de altura, se estiver nas regiões equatorial ou temperada, ou a 5 quilômetros, nas de clima mais frio. Além disso, a umidade relativa do ar deve estar em torno de 65%."
Fonte: Super Interessante / Redação Mundo Estranho, publicado em 18 abril 2011.

Pois não viu? Dias assim nos voltamos para a cultura inútil, mas que pode terminar em caloroso (fala mais de calor não...) debate em mesa de boteco, sobre a resposta final a questão tão perturbadora de como é formado aquele rasto deixado por aviões no céu. Como pode alguém viver e nunca saber disso?
Emocionante não é? Ainda bem que a terra não é plana como querem alguns. Já pensou que manobra estranha o tal avião com seu rabo de gelo teria que fazer para chegar ao Japão, debaixo da pizza Terra?
Caraca! Olha só, o castigo imposto por Zeus a Atlas, o mitológico titã, seria o de entregador de pizza e não de sustentar os céus para sempre. "Desceu a estrada subiu na vida" ao contrário.

Tem dias que nem o cotidiano te mostra caminho de contar. Sinto que foi em dia assim que o grande Monteiro Lobato concebeu sua obra Reforma da Natureza. Muito ócio e um olhar para dentro, onde ocorrem os absurdos em que tudo é possível. Preenche o momentâneo despejado existencial.
Se dê ao direito a loucura do pensar. Terra plana, dragões dóceis. Fadas a pirilampear casa adentro. E, ufa, ainda bem que hoje, mas só hoje, a terra é o centro do universo. Somos muito importantes para girar entorno de algum astro. Ou vai querer discutir com Aristóteles e Ptolemeu?
Tapem bem os ouvidos. Galileu Galilei e Copérnico são hoje um fake day. Fadas e elfos, amigos imaginários? Coisa alguma, tenho uns tantos. Li outro dia: "Tenho um monte de gente os quais jurava amigos."

Hoje nesse brincar com palavras e escrever abobrinhas busco recompor de, como disse, um vazio que anda a me perseguir.
Na verdade me pego em diálogo ligeiro entre Calvin e Harold, do genial cartunista Bill Watterson:
— O seu problema Harold, é que você nunca tem o que dizer.
— Isso é muito útil para preservar certas amizades.
Isso aí gente, tem dias que de noite é assim.
Cá em meus devaneios, só me preocupo em receber uma jaca na cabeça ao invés de inofensiva jabuticaba.






Publicado em Diário de Uberlândia em 10 de fevereiro de 2019

segunda-feira, fevereiro 4

Até breve


No assustar de uma manhã recebo a notícia da perda de mais um amigo. Se outro dia ainda trocávamos alfinetadas inofensivas, coisas de futebol e política sem a menor importância, mas que aproximam as pessoas pelo menos no brincar, num repente recebo telefonema de um compadre que mora em São Paulo para compartilhar o susto e o medo de amanhã aqui nesse plano já não mais estar.

Não meu amigo, minha amiga, não é nem de longe medo da morte! Essa é nossa por direito. E o dia em que nosso CPF for para alguém, ou algo lá no alto, ou lá embaixo puxar, não há quem segure. O medo é de não poder mais compartilhar de um mundo tão louco, tão confuso, mas dependendo de quem e do quanto é maravilhoso de se viver. "Morrer deve ser tão frio".

Talvez por isso criamos as religiões, para nós eximirmos da culpa da morte como destino inelutável. Alguns querem ser eternos. Nós somos eternos em nossos atos, em nossos filhos, nas árvores que plantamos, nas luas que admiramos, nas canções que cantamos, no amor a todo ser vivente que compartilhamos e, principalmente, no mal que não fazemos.

Um céu como prêmio ou um inferno como castigo, sinto muito, não dá para engolir. Somos pura energia e ai sim, quando energia que se finda nos juntamos a bilhões e bilhões de outras fontes de luz, somos feito de pó das estrelas como assim um dia disse Carl Sagan e, quando o corpo físico para seja de "susto, bala ou vício" voltamos para nossa verdadeira casa, as próprias estrelas. Sorte nossa que acreditamos no Grande Arquiteto do Universo e sua infinita criação, sem castigo ou prêmio, apenas o puro e calmo amor.

Não apenas nós, mas todo ser vivente, do mais escondido Peripatus do alto dos seus meros 1,5 cm de comprimento, ou a mais primitiva das criaturas como a velha Lampreia, ou o erado pinheiro a “árvore Matusalém” e seus 4.800 anos tem sua hora de voltar ao lar definitivo: o universo. Ilimitada fonte de energia.
Perdemos mais um amigo, bonachão, irreverente, teimoso, criador de casos, mas sempre generoso e dentro daquele imenso corpo físico uma alma do bem. Tudo defesa, tudo timidez, da teimosia à falsa arrogância. Claro, felizmente nunca foi unanimidade. E quem de nós o é? Esse misto de dor e alegria é que nós faz diferentes, alguns como nós nascemos para ironizar e debochar do establishment. Se assim não for nos algemam e nos tornamos criaturas rastejantes em lama criminosa como a de Mariana e agora de Brumadinho.

Engessados ficamos e não criamos, não contribuímos nem mesmo forma miúda para a construção de um ser humano melhor, mais caridoso, mais criativo. Nos deixem livres e voaremos ao ponto mais alto - a primeira das condições do pássaro solitário no contar de San Juan de la Cruz.

Neste particular, eu e meu querido amigo de poucos encontros físicos, mas frequentes em redes sociais, nos parecemos. Difícil colocar peia e bridão em gente como a gente. Ele mais no grito, eu mineiramente mais calado. Ambos observadores e espectadores atentos. Sentamos na mesma arquibancada ou na geral da vida. Vou sentir falta de nossas relias, nossas discordâncias em milhões de aspectos, da nossa amizade.

Lembro de você dentro de um fusca de uma rádio fazendo reportagens ao vivo! Era você e outro repórter quase do seu tamanho, a memória me fez tropeçar, não lembro o nome do cujo, era muito engraçado ver vocês tentarem entrar e sair do fusquinha. Não tinha entrevista por mais séria que fosse que não me dava acesso de riso e você ficava uma onça! Putz, foram tantas entrevistas, não foram? O tempo passou apressado e agora se achou no direito de te levar de volta ao céu. Pelo tamanho e energia, uma supernova vai explodir em intenso brilho em algum canto da imensidão.

Leva brilho aí para as galáxias, desequilibra as leis cósmicas, hora nos encontramos. Vai cara, vai bagunçar a calma do céu careta! Até um dia meu grande em todos sentidos amigo Alaor Barbosa Jr.

Não me canso de ver a sua caricatura feita pelo mestre Ziraldo e a dedicatória bem dele mesmo, sua cara, seu jeito.

Alá la ôr ô ô ô ô ô !!! Alá la ôr ô ô ô ô ô !!!






Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 03 de fevereiro de2019

terça-feira, janeiro 29

Vida Simples





Dedicado a Públio M15

Vila miúda. De um lado descampado de pasto a perder de vista, aqui e ali uma mancha de matinha a preservar nascentes. Perigoso de banhar, território de bichos de querer longe. Sem mais ter para onde ir, habitavam terra e copa de árvores. Bichos peçonhentos que nem gente humana. Cobra rasteira aprendeu escalar tudo no rastro de ninho de passarinho. No chão, contam, até pisada de onça grande no barro beira córrego eram avistadas.

Pra toda banda aranhas de todo feitio, cor e tamanho. Veneno, muito veneno. Passarinhada fazia ninhal, pois fruta do mato e até de quintal tinha muita. Sementes levadas por morcegos e outros bichos. Festa só. Não havia menino que não cobiçasse as mangas enormes em amarelo/vermelho/roxo, as goiabas de tamanho assim, jambos carnudos, pitangas e amoras maiores do que o ovos de garnisé vindas lá de Guernsey, longe canal da mancha e soltas aqui, agora cantavam em português fluente.

Abelhas zumbiam em trabalho sem parar e, cada oco, pequeno que fosse, era rico em mel de favo. Das miudinhas sempre fartura: Jataí-itajaó, Inhanti, Lambe-suor, Marmelada, Moça branca, Mané-de-abreu, Arapuá, Abelha Cachorro, Tataira, Caga fogo, Mirim Preguiça. Eram tantas tribos, que se tornava difícil contar. Cada um dava um nome.

Orquídeas de pouco ver enfeitavam o tudo. Contam que gringo foi lá, retratista de natureza, visitou as ilhas verdes do demeio do pasto, voltou mais nunca. Veio até avião da capital com gente de busca, mateiros da região de experiência seguiram junto, cães de farejo agudo, mas nada se achou. Nunca.

Alguns contam que foi vingança das manchas, pois queriam não era retrato, era levar para longe nossas riquezas frágeis. Paraíso perigoso. Tinha o doce, tinha o ardume, arrastando, beirando cada pau caído, o susto e a morte. Melhor não ir. Deixar quieto as manchas fervendo vida, prudência. Beleza não era para ser vivente que de lá não fosse. Contar de lá era o que ficava. E disso a vila era sábia.

Se de um lado era pasto, virando para o poente era parte areia e findava no mar. O sustento de quase todos vinha da pesca. Um dia o lugarejo fora beira-mar, mas vento veio carregando toda areia das praias nossas e até da África. Vinha em tempestade. Açoite no corpo e na alma. Casas foram recuando, recuando, recuando. Por tantas vezes povoado se afastou do mar que pouco se via. O vento deu sossego, mas caminho ficou longe. Assim o andar da porta de casa até o barco amarrado na areia beirando mar, transformou-se no dia a dia das gentes daquele lugar.

Não demorou turista descobrir o recanto. Avisados do que havia do lado de lá, nem se aventuravam no medo. Armavam barracas na praia sob sombra de belas e viçosas castanheiras. Pequenos comércios de peixe, camarão, lagosta, moquecas, siris e seus parentes guaiamus, rendiam bom sustento nos meses de férias. Depois disto, era solidão mansa, silêncio frio de paz.

Morador por nome eu não sei, mas apelidado de Xaréu, por conta de uma história de um desses de mais de seis quilos que diz ter fisgado, mas que na hora de embarcar rabiou e fugiu água a fundo, era com frequência questionado. — Xareú de seis quilos? Conte outra! E era risada que só. Manso, da paz, mas sistemático, nunca ligava. Restava saber se verdade era, mas que Xareú ficou assim apelidado, isso ficou.

No verão dos turistas Xareú inventou e montou barraca de pau e folha de sapé a vender café, leite morno, rosca, pão e biscoitos fritos pela mulher, para os famintos da cidade.

Contei, era sistemático e teimoso. Tinha sistema. Manhã azul/férias. Chega turista branquelo leite, todo cor da bunda.
— Bom dia!
— Dia!
— Queria um café com leite e uma rosca com manteiga.
— O café com leite eu vendo, rosca também, mas manteiga só no pão. Aqui não se come rosca com manteiga. Onde já se viu fato assim? Resmungou perdendo o humor.
— Moço, mas eu vou pagar. É só passar a manteiga na rosca e pronto! Retrucou o turista.
— Aqui não! Se quiser manteiga é só no pão, na rosca nunca, vendo não.
— Tá certo. Mas o senhor vende a manteiga por pacote ou quilo? Pode ser?
Abriu sorriso, ia dar negócio. — Aí eu vendo.
— Então me vê quatro roscas e um tablete de manteiga.
Xareú feliz a embrulhar as roscas, primeira venda do dia. Prometia.
Deu estalo em Xareú. Parou, desritmou o empacotar. Olhou para o teto de sapé por onde entravam tímidos raios de sol. Um deles acertou em cheio seu olho, piscou forte no desviar.
— Não, vou vender mais não! Enrugando a testa.
— Mas por que santo homem? Eu vou levar daqui!
— Acha que sou bobo? Você vai é passar manteiga nas roscas! Aqui não violão! Manteiga só no pão!

E lá se foi um irritado visitante a pisar firme na areia.
Eita! Povo da cidade esquisito, irrita atoinha que só!






Veterinário e escritor
Publicado em Diário de Uberlândia em 27 de janeiro de 2019

terça-feira, janeiro 22

Fumaça


A noite chegou mansa. Horário de verão complica a vida de todo ser vivente, custa a escurecer e o amanhecer demora mais um pouco. Particularmente gosto, pois posso aproveitar um pouco mais o fim de tarde. Confesso, chego ao fim de semana cansado de um não sei o quê. Fico imaginado as gentes que moram na terra de Papai Noel dos Natais cada vez mais difíceis pois a vida não está para peixe nem peru. Na Lapônia, que fica encostada no círculo Ártico, acontecem em alguns períodos "noites sem noites". É quando o sol nunca some na linha do horizonte, corre por ele de ponta a ponta, mas não desaparece. Assim têm luz vinte e quatro horas por dia, durante meses. Coitado dos poetas, dos seresteiros, dos namorados. Gilberto Gil se lá vivesse, jamais teria composto Lunik 9, pois jamais chegaria a "hora de escrever e cantar e não haveria derradeiras noites de luar".

Aquela noite, que mansa chegou, seria diferente. Lua nova, escuridão total, canto longe de alguma Mãe-da-lua, pensando ter perdido sua companhia. Os Urutaus são assim, melancólicos. Carga pronta, caminhão esperando o amanhecer na olaria para seguir viagem.

Assim do nada, do fundo do breu, uma risadinha arranhada na carroceria do velho D-9.500 de 1958 mais conhecido por "barriga d'água" por conta do eterno vazamento do bloco do motor. Um cachorro vigia uivou, de medo. Logo outra risada mais aberta, seguida de outra e mais outra. Depois de certo tempo o que se ouvia era um gargalhar de milhares. Risos de doer o estômago, como quem boa e bem contada piada, ou caso, ouviu. Aquele riso aberto de quem vê alguém levar um tombo em lodo de pedra de riacho e a seguir perguntar com dentes travados: Machucou? Diante da negativa despenca em gargalhar a plenos pulmões. As risadas não paravam. Depois de muito tempo, um movimentar sem fim deu lugar ao riso. Inquietação geral, despencar de lugar algo, esborrachar em chão com som seco, tosses, risos, delírios acéfalos.

Pela manhã, rebordosa geral. Todos para o caminhão. O chacoalhar martelava cada pedaço. Ressaca assim nem de cachaça de carotinho, de cinquenta centavos, nem de vinho doce de mesa, garrafão bebido no bico. Quem disse que conseguiam ficar em formação ali na carroceria? Para espanto geral mal se mantinham, e não era o balanço de estrada esburacada não, a zoeira estava dentro de cada um. Volta e meia, quando o vento conseguia levantar parte da lona que os cobria e uma brisa gostosa entrava sem educação, o alívio era breve. Alguns mais resistentes ainda davam longas, sinistras e sonoras gargalhadas. Motorista e ajudante se entreolhavam arredios na boleia.

Aqueles tijolos, depois da queima de toneladas de droga tipo cocaína, crack, cigarro falso do Paraguai - esse deve ser um mata-rato - toneladas de "Maruamba" em forno de cerâmica pela Polícia Federal , por muito tempo não iriam prestar para levantar paredes, podia até bater prumo, mas logo, do nada efeito "poltergeist" amaneciam de ponta cabeça equilibrados em apenas um cabo de enxada. No meio da linhada assentada, um risinho arranhado se faria ouvir e logo a algazarra novamente se instalaria.

Pedreiro assentava hoje, no dia seguinte encontrava confusão de formatos de paredes. Os tijolos, muito doidos, não conseguiam ficar parados em pilhas. Farra do bode no transporte até a obra, depois só confusão. E cadê peão para trabalhar nessa obra?

Roubo frase, nem acredito, "Max Payne" um game antigo : “Não sei quanto aos anjos, mas o medo é que dá asas aos homens...”


Publicado em Diário de Uberlândia em 18 de janeiro de 2019


Dura vida




Abriu a boca em bocejo de engolir o mundo. Acordou tarde, havia passado quase toda a noite a campear comida. Tinha revirado latas de lixo e terrenos baldios, onde a estupidez humana ficava escancarada, diante das montanhas de sobras que ali jogavam com vontade. Um dia quase tomou saco repleto de tranqueiras na cabeça, lançado sem a menor cerimônia por cima de um muro.

Desconfiava que, se eles não viam o lixo este deixava de ser problema deles. Assim, era mais fácil jogá-lo de lá do muro, não lhes dando atenção. Tipo o ditado mais dito no mundo: "o que os olhos não vêem o coração não sente". Vai nessa toada para você ver onde vai parar, digo eu.

Quanta tarouquice desse povo. Mal sabiam que ali se criavam ratarias gigantescas, que esperavam ansiosamente o momento de entrar nas casas dos parvos que os alimentavam sem saber, a espalhar doenças e destruição. Como disse o escorpião de Esopo, dando de ombros antes de se afogar, é a natureza deles.

Evitava tais territórios por dois motivos: a concorrência era grande e os restos ali atirados eram sempre de péssima qualidade.
A humanidade pronta a submergir por escolha e atitudes próprias.

Deu-se conta de que seu corpo doía todo. Talvez a posição de dormir. Ademais, o sereno da madrugada não tinha secado de todo e o sol ainda estava longe, no risco do horizonte. Deu uma chacoalhada e seguiu caminho. A fome o empurrava. Outra lata de lixo, um saco a rasgar e fuçar, à cata de algo que lhe abrandasse um pouco o incômodo. Sabia que a hora não era das melhores, mas como a penumbra não havia rendido nada tinha que se arriscar às claras.

Não demorou muito a ser xingado por um que vinha e quase levou um pontapé. Sentiu o vento do chute, mas esquivou-se como deu. Quanto mau humor matinal. Pensando nas contas a pagar? Gastou mais do que podia nas festas? Nesta época sempre encontrava nos sacos das sobras, recibos vencidos, IPTU, IPVA, imposto de renda, contas de lojas e vendas. Comprar é fácil, pagar, sacrifício. Como essa gente gosta de posar de importante. Gastam sem poder e vivem duras penam para pagar, quando é que pagam. Uma roda viva de sofrimento desnecessária. Basta pôr freio. Ele não devia um tostão. Também, não tinha nada, não carregava o peso de excessos. Vivia das sobras e lhe bastava.

Nesse meio pensar, um cachorro saiu em disparada a latir em sua direção. Não dava para fugir. Parou encarando o bicho. Olho no olho. O cão ladrava em fúria, espumava pelos cantos da boca, olhos vermelhos de um ódio instintivo. Não atacava. Latiu até ficar rouco. O olhar e a falta de medo foram decisivos para evitar confronto. Ainda latindo, pêlos em pé da nuca ao cavador do rabo, o cão foi devagarzinho se afastando. Virava quando em vez e ainda dava com seus olhos nele fixos. Saiu resmungando. Logo achou um bicicleteiro para aporrinhar.

Imóvel, coração ainda aos pulos de um medo que conseguiu não demonstrar, músculos tesos, respirou fundo e foi relaxando aos poucos. Agora não sabia o que doía mais. Fome ou corpo?

Achou melhor parar um pouco. Jogou-se em um beco aparentemente seguro. De uma calha lá no fundo corria uma água. A sede provocada pelo encontro com a fera lhe havia secado por inteiro. Sem cerimônia bebeu com avidez. Sentiu gosto de sabão de bola, mas nem isso o impediu. Bebeu como se fosse água do mais límpido riacho de mata fechada, vindo de cachoeira iluminada por sol da manhã. Fechou os olhos e ouviu o canto de passarinhos de todas as cores. Uma borboleta pousou em seu nariz.
Abriu os olhos e o que viu foi uma horrenda varejeira lhe beliscar as ventas. Com tapa a expulsou de seu breve sonho.

Tentar levantar ligeiro lhe repuxou a espinhela. Sem pressa, arqueado, se enrolou como pode. Tinha que descansar. Um ronco oco se fez ouvir em seu estômago. Não aguentava mais. Voltou ao sonho, ao riacho, se banhou nos respingos fortes da queda d'água, rolou na grama macia e manso subiu em árvore linda, de onde se via o fim do mundo em verde e montanhas. Nada disso existia mais. Só roça gigante, um deserto verde baixo sem vida para ele e para todos outros que ali moravam. Migrou forçado para a cidade, virou mendigo da natureza. Ali onde raras árvores existiam, tentava sustento. Seu alimento principal eram as lembranças, a fartura, a paz perdida.

Vida de gambá na cidade era dura e arriscada, mas tinha que sobreviver. Não havia lugar para fugir, mas algo lhe empurrava sempre - dia há de vir, as florestas voltarão a reinar. Dormiu exausto.

William H Stutz
Veterinário e escritor



Publicado em Diário de Uberlândia em 14 de Janeiro de 2019

sexta-feira, janeiro 11

Transporre - Efemérides

Desde que a lei seca que passou a vigorar no trânsito brasileiro já começou a fazer lá seus efeitos tanto no comportamento de motoristas quanto nos valores humanos. Que fique bem claro que considero a mistura álcool-direção explosiva. Mas a celeuma criada não podia ser mais inspiradora.

Na toada que vai, não raro ouviremos conversas diferentes sobre futuros casamentos. É fim do antipático e nefasto requisito tão presente na conversa de mesquinhos e dos de coração de pedra: bonita e rica, perfeita para casar.

De agora em diante tende a ser mais ou menos assim:
- A moça é um partidão, até que não é muito bonita não, é remediada de dinheiro, mas tem carteira de habilitação e olha que lindo: não bebe nadinha e detesta bombons de licor. Casal perfeito, será? Noites de sábado e futebol de domingo, o futuro maridão bebe em paz, patroa conduz.

Dia desses sentado em uma roda, tomando cerveja básica é claro, todos vizinhos a pouca distância de casa e nenhum dirigindo, fica o registro, surgiu a ideia de implantarmos em Uberlândia e com pretensões de expansão para todo país, prestação de serviço inusitado especialmente para os fins de semana, sugestivo nome veio à baila: Transporre.

Isso mesmo, seria um serviço de vans adaptadas para os apreciadores de uma boa cerveja gelada nos bares, nos clubes e mesmo nos churrascos e reuniões em casa de amigos sejam eles ainda solteiros ou cujas companheiras também ingerissem álcool. Assim todos poderiam sair tranquilos e moderadamente apreciar suas bebidas preferidas e guloseimas etílicas sem correr risco de infringir a lei. Seria o transporte solidário dos boêmios de carteirinha, dos poetas, namorados e seresteiros, que por ação da bebida não podem, como cantou um dia Gil, correr, mesmo chegada a hora de sorrir e cantar talvez as derradeiras noites de luar.

Apesar do nome sugerido em reunião de boteco, o serviço não é dirigido àqueles que de forma irresponsável consomem bebidas alcoólicas. Serviço Vip para bebuns ou não Vips, enfim um serviço diferenciado para os que sabem realmente apreciar sabores, seja uma loura gelada, uma cachacinha mineira de engenho ou bombons de licor, biotônicos Fontouras e até para os usuários de desodorantes e perfumes que em sua composição contenham o ilícito álcool.

E para as oktoberfest da vida e outros eventos de vulto onde haja venda de bebidas já estamos pensando em grandes ônibus com ar condicionado e serviço de bordo: café quente extraforte, caldos variados e marmitex caprichados para repor energias e atenuar os efeitos da bebida; será o Transporrão da madrugada.

O mais importante é que deve sempre valer a importante e inquebrantável regra não só em função de leis, mas em função do bom senso, da responsabilidade e da civilidade: Se dirigir não beba jamais, mas se beber chama o motorista abstêmio do Transporre, garantia de festa segura e tranquila para todos.






Publicado em Diário de Uberlândia em 06 de janeiro de 2019

quinta-feira, janeiro 3

Preceitos diários




Sou exageradamente dado a reflexões. Pode parecer bobagem, mas não tem uma manifestação a meu redor que eu não busque um motivo, uma razão para tal. Só as gentes humanas com suas posturas já deveriam preencher meu tempo, pois tenho por sistema levar grande parte dos acontecimentos do dia para cama comigo.
Por que tal pessoa age assim com tanta maldade acumulada?
Por que a figura atropelou propositalmente aquele gato?
E assim vai. As reflexões que demandam tempo prefiro levar para o leito. O silêncio da noite nos permite ir mais longe.
As reflexões leves do cotidiano me trazem paz. O motivo do canarinho tanto cantar, o céu de um azul deslumbrante, cada fruto de nossa horta colhido em movimentos ritualísticos de agradecimento. Estes e tantos outros reverberam em belas auroras boreais em pleno trópico, brilham como o mar ao nascer do dia em puro ouro líquido.

Temos um calendário da Seicho-No-Ie, presente de alguma amiga para minha companheira de caminhada.
Só, pois ela está em viagem, já me sinto mais pele, propenso a introspecção. A solidão assim é tão pesada...Virei o calendário para o dia de hoje e assim encontrei:

"Não há ninguém que seja pobre na infinita abundância da natureza."

"Havia muitas flores brancas em uma árvore velha e isso era muito bonito. Além disso, uma fragrância maravilhosa vinha dessas flores e se espalhava por todos os Lugares ... Que abundante riqueza permeia a natureza! Apesar de estarem envolvidos nessa abundância, as pessoas pensam que são pobres ou se sentem solitárias."
Seicho Taniguchi, Junsui Ni Ikiyou

Tão apegado ao pensar nunca havia me feito a pergunta maior sobre o rolinho que girava todo santo dia, talvez pelo fato de ainda, como os hamsters, acordar por etapas. Quem os tem ou já os teve, sabe do que estou falando. Mas o que é a Seicho-No-Ie? Lá me pus a buscar resposta direta sem rodeios e assim encontrei:

"É um ensinamento de amor que prega que o ser humano é filho de Deus, que o mundo da matéria é projeção da mente e, também, nos revela qual é a nossa verdadeira natureza. É uma filosofia que transcende o sectarismo religioso, pois acredita que todas as religiões são luzes de salvação que emanam de um único Deus."

Perfeito para mim, pois pego gomo doce de todas as religiões sem praticar nenhuma. Já lhes disse gnóstico em outras escritas.

Assim, segui para o outro ritual do dia a pensar no que li;
“Não há ninguém que seja pobre na infinita abundância da natureza.”
Não quando foi escrito, mas não serve mais para nossos dias, onde vivemos o destruir gradual de tudo que vive. Destruímos florestas, secamos rios, rasgamos a terra em desmesurada ganância. As poucas leis que seriam para proteger as espécies viventes vão caindo uma a uma, em dominó de negociatas espúrias, a beneficiar meia dúzia de pouco pensar.
Sim, estamos cada vez mais pobres, miseráveis de vida, no que depende a “infinita abundância da natureza.”
Último recurso para alguns de nós é defender causas que não queremos acreditar perdidas e repetir o jargão "a natureza encontrará seu caminho". Acrescento que para tal, careçe eliminar a raça mais nociva sobre a terra, nós humanos.

Continuando, "Apesar de estarem envolvidos nessa abundância, as pessoas pensam que são pobres ou se sentem solitárias."
Não meus queridos, estamos pobres sim, estamos solitários mesmo juntos. Olhe ao seu entorno e repare o que já se perdeu e não retorna nunca mais. Não apenas matéria, mas emoções, sentimentos, amores.
Não me levem por pessimista neste último texto de um agonizante 2018. Tento apenas trazê-los a minha companhia em reflexão maior, de criação, de reconstrução de sentimentos e ambiente. Desejo sim, para todos, um ano novo de muito repensar. Façamos um trato. Plante uma árvore. Se não der cultive um vaso. Se não der regue as plantas do vizinho. Se não der, ...Vai dar! Somos os tutores do planeta. Vamos fazer nossa curta viagem prazerosa e mais leve. Ainda há tempo! O muda, mas é um simples virar de página, como os preceitos diários.
Feliz Ano Novo de coração a todos! Virem as páginas do que estar por vir com carinho e atenção


Publicado em Diário de Uberlândia em 30 de dezembro de 2018 ( Último texto do ano)




quarta-feira, dezembro 26

Relógio

Tinha nascido em um belo janeiro, farto de chuva e colheita boa. Na roça nasceu, da roça nunca saiu. Se havia um mundão mais perto pra lá da vila, não era de sua conta e nem rompante de ir além possuía. Gostava da vidinha que lhe arrastava. Era feliz.

Por nome Marlubrano Sebastião, segundo nome em homenagem ao santo do dia, veio ao mundo pelas mãos de parteira boa de ofício. Esse vinga! Exclamaram ao ver o miúdo chorar com força. A mãe tinha perdido dois antes dele, daí a grita de alegria.

O primeiro nome, Marlubrano, foi por conta também da mãe. Quando jovem, chegou à vila um apresentador de fita de cinema. Armou tela grande, não muito branca, meio amarelada pelo uso e com uns buracos que possibilitavam, para alegria dos mais novinhos, espiar pedaços de filme fugidos da tela para as paredes das casas e para as mangueiras, assustando galinhas e passarinhos.

O filme era Espíritos Indômitos e não teve jeito dela não se encantar com a beleza daquele moço na cadeira de rodas. Ficou o nome na ideia. Marlon Brando, repetia ela todo dia como se fosse reza. Marlon Brando, Marlon Brando... Mas com o passar do tempo, os afazeres na lida, os seguidos e sofridos partos que deram a ela as duas primeiras filhas, os dois seguintes perdeu as crianças, foi comendo letras e jeito de falar. Marlão Brano, Marlanbrano, assim ficou. Como fim de memória, o que restou da infância e dos sonhos da mãe foi Marlubrano Sebastião, com muito orgulho. Enchia o peito para dizer que tinha nome de artista famoso. A mãe, velhinha, curtida de sol e vento, suspirava melancólica por aqueles olhos azuis em preto e branco do moço do cinema.

E a vida ia mansa para Marlubrano. Aos domingos era dia de feira na vila, e para lá carreavam todos e tudo que se produzia na região. Porco, galinha, rapadura, vestidos de chita, botinas e chapéus Panamás feitos nem tão longe. A cidadezinha virava uma festa de movimento. Desde muito Marlubrano tinha um pensamento de querer. Um relógio de bolso com aquela correntinha de engatar no cinto. Achava chique por demais ver os mais abastados da região, em roda de conversa, tirarem com firmeza o patacão, abrirem a tampa e darem aquela levantada de queixo, com olhar meio que por cima dos óculos, pensar longe e após o estalo gostoso de ouvir ao fechar o bicho, guardá-lo no bolso do paletó ou mesmo no bolsinho de moedas da calça. Vidrava só de ver!

Era seu mais íntimo desejo. Nem as moças do alcoice, cheirando a lavanda e leite de rosas a insinuarem-se nas janelas com seus imensos decotes, competiam com seu desejo de possuir um belo e reluzente relógio de bolso. Se bem que, por falta de dinheiro para comprar o sonho, acabava seus domingos quase sempre nos braços das moças, em suas camas sedosas e macias, pagando-lhes a bebida mais cara da região.

Esse domingo seria diferente. Ficou mais de mês sem sentir cheiro de alfazema e sem tomar cerveja cara com as amigas confidentes. Juntou dinheiro, centavo a centavo e à feira seguiu determinado. Levou pouca coisa para vender, só um cadinho caso tivesse que inteirar.

Mal chegou à vila, foi direto para a banca que vendia jóias de prata, bijuterias coloridas e, claro, relógios de pulso e de bolso, ao gosto do freguês. Posando de conhecedor, olhava um, sentia o peso, jogava de uma mão para outra. Levava ao ouvido, ouvia longe o funcionar da máquina. Gastou bem uma meia hora para decidir. Escolheu o mais bonito da banca. Era dourado, com desenhos em alto relevo, onde se via uma cena que lhe pareceu bíblica. Anjinhos, potes jorrando algo que devia ser vinho e, em um córrego, uma moça a se banhar. Isso tudo ele viu em seu objeto de vontade. Pagou sem pestanejar, nem catirar preço. Foi na lata.

Não dava para saber se o que brilhava mais ao sol era o relógio ou o rosto de Marlubrano.
Amarrou a correntinha na cinta e saiu pela feira a rodar o tão sonhado. Voltou para casa feliz como criança. Mostrou a conquista para mãe, para os agregados do sítio, para cães e gatos, para cavalos, vacas e até para as galinhas.
No anoitecer, banho tomado, sabão de bola perfumado, bateu janta ligeiro e pulou no catre. A luz da lua entrava como vento. Parecia que queria ver a preciosa joia. Passou a noite admirando o relógio. Adormeceu com ele no peito.

Dia seguinte arriou o cavalo cedo e seguiu outra vez para a currutela, fazer o que não fez no dia anterior, de tão envolvido que estava com a compra. Na cinta o relógio.
Apeou na porta da venda e, mal colocou o pé na soleira, um amigo de longa data disse:

─ Dia Marlubrano ! Quantas horas?

Aí veio o estalo. Tinha agora o tanto querer, mas não sabia o uso. Desconhecia número e letras. Não aprendera ler ou escrever. Sem tempo, roça consome vida de criança, ensanguenta mãos em colheita de algodão. Mas, em lampejo de pensamento, devolveu ao companheiro:
─ Calcula?
─ Hum, deve ser umas nove horas.
─ Em riba! Ligeiro se foi venda adentro.







Publicado em Diário de Uberlândia em 24 de dezembro de 2018