sexta-feira, novembro 24

Beija-flor


 Sempre pensei que os beija-flores fossem eternos. Cada um com sua roupagem única, pintura exclusiva, assinada por artista caprichoso. Dezenas de vezes topei com pardais, pombas, canários e até urubus estirados chão afora. Espalhados em monturos de plumagem e sangue, alguns achatados como se folha de papel fossem. Cães e gatos também. Em qualquer parte da cidade é possível, em algum momento, se deparar com carcaças estraçalhadas por desumanos pneus. Não se esquece daqueles olhos vidrados a fitar um nada.

Nas estradas que cortam nosso Brasil, já vi tamanduás, onças, capivaras, lontras, além de bois e cavalos, jogados como sacos para o acostamento.

Nunca, nunca tinha visto um beija-flor morto. Sempre os vi anjos e anjos não morrem.

Assim pensava e jurava de pés juntos: os beija-flores são eternos. Não, infelizmente não o são.

Nesta semana, do nada, deparei-me com uma pequena joia em canto de calçada. O sol bem à minha frente mostrava apenas estranha figura refletindo multicor. Frágeis arco-íris envolviam aquele pequeno amontoado de quase nada.

Dei alguns passos com palma da mão em viseira, ainda sem saber o que era. Parecia uma caixinha de joias tombada, mostrando suas riquezas; miúdas contas e pedras preciosas em perfeito corte lapidário. Coloquei-me contra o sol e só então entendi o tamanho da tragédia. Via, pela primeira vez, em toda minha vida, um colibri morto. Seu delgado e longo bico apontava para o céu. Era lá o seu lugar. Entre flores coloridas e perfumes transcendentes, a banhar-se em pequenas gotas de chuva de primavera sobre largas folhas, riscando o tempo e abrindo caminho ao vento. Nunca ali.

Olhos foscos agora em um nada ver. Sentei ao seu lado. Um pouco de mim ali morria. Clichê, lugar comum? Pode até ser, mas era a mais pura verdade. Para alguém que sonhava a certeza de que estas minúsculas estrelas vivas não morriam, foi um mais perder da infantil que teima em nos acompanhar pelo tempo.

Talvez o envelhecer seja isso: o perder das falsas verdades puerícias. A reserva destes fragmentos que, quando em vez manda recado, vai-se aos poucos esvaziando, esvaziando até quase nada restar, incrustado apenas em apagadas retinas. Ao mesmo tempo em algum canto, vai se acumulando a borra da vida. As frustrações, o não realizado tão forte de tempos atrás, que, resignados e exaustos, deixamos de lado. As utopias, sempre elas, perdidas. Abdicamos de tanto e, às vezes, descobrimos que foi por tão pouco.

Descobri, pois, de forma súbita que os beija-flores, infelizmente, morrem, assim como tudo mais. Mas disso fica lição e crescimento, os sonhos. Ah, os sonhos! Estes não envelhecem jamais mesmo, cantou a voz de anjo Milton. Não morrem e se multiplicam, ramificam, nos seguem/perseguem até o fim do caminho.

Resta consolo de que outros milhares de cuitelos continuarão saga da eternidade, pois não tem aquele, por mais sisudo, frio e insensível que seja, que não pare um segundo e, mesmo sem querer, deixe esboçar, ainda que ligeiro, sorriso de criança. Pode não demonstrar, mas sente.

Assim, trazendo paz também aos carrancudos e infelizes, recupero o meu devanear e torno a acreditar na imortalidade dos beija-flores, dos anjos e dos sonhos.

Dessa forma, “Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos/calmos, calmos, calmos/Lá se vai mais um dia”.






Publicado em Jornal  Olha no Diário  (Uberlândia)

quarta-feira, novembro 22

Gênero


Vivemos um momento de overdose de "politicamente correto" (PC). Já brinquei seriamente sobre isso em outro escrito e olha que faz muito tempo. Por incrível que pareça o PC evolui em velocidade cósmica, não havendo um dia sequer em que não apareça uma nova imposição e torcer de narizes para aqueles que não seguem as regras doutrinárias de alguns que se acham vanguarda, mas na realidade são uns chatos caretas. Cabelo comprido ou roupas diferentes não fazem ninguém ser "cabeça". No primeiro caso temos um exemplo singular bem perto de nós.

Os falsos doutos em comportamento às vezes me lembram mais Black blocs sem causa definida do que mestres capazes de modificar léxico. Olha só, modificar para uso em suas tribos e guetos tudo bem, mas impor é outra coisa.

Não que eu seja adepto fervoroso da gramática normativa, basta levar em conta que na maioria de minhas crônicas, prosas ou poemas uso e abuso da linguagem coloquial. Vejo-me peão, prostituta, dono de venda, matuto, andarilho louco varrido, anjo, santo ou rapadura. Perco-me em minhas frases longas sem ponto, nem vírgula. Busco a sonoridade dos viventes bicho ou gente, ar, mar, vento. Tudo isso para desespero de revisores. Aqueles que bem me conhecem já se acostumaram e tiram de letra as letras que faltam e falas que contam. Contudo, a imposição moralista de uma vanguarda pouco ousada me aflige/agride. Não me imponham nada, pois farei o contrário.

Aqui a história é deliciosamente outra. Uma amiga me deu um puxão de orelha por algum dito. Brincou, acredito eu, com frase usada e reforçou o que tinha tomado conhecimento por meio de grande amigo, médico e pródigo escritor cuiabano. Sinto que os mato-grossenses, assim como nós mineiros e paraibanos, já nasceram com este "defeito" no juntar letras. Não digo que seja bom ou ruim o resultado, pois é como jogar futebol. Uns nascem com o dom, outros, como este que vos fala, vêm ao mundo por acaso. Nunca acertei um chute e só fiz gol batendo bola sozinho.
Não é o caso de meu querido amigo, que, repito, domina a escrita como poucos. Foi ele que me contou pela primeira vez a história do "X" como igualador de gênero (não tem igualador no dicionário, me dou ao direito). Assim, Senhor e Senhora são substituídos por Senhorex. Nesta toada temos também artitex, veterinarex e meninex, que substitui numa boa menino e menina.

Em reunião ou comício muitos canditatex dirão: Companheirex! Aos brados ou em reunião solene: Senhorex, autoridadex, meu povex, bom dia... e segue o discurso. Em bom português, lá se foi o boi com a corda.

Lógico, claro e límpido que o simples uso de um X não vai reduzir o famigerado preconceito, as fobias, o ódio pelas opções individuais. O respeito à diversidade de gênero é base de tudo. Basta de caretice, de hipocrisia. Para os ou ox que ainda se sentem perturbados com tantas e boas mudanças, sugiro leitura de “Livres & Iguais”, da Organização das Nações Unidas (ONU). A desinformação é uma das principais fontes do preconceito.

O mundo mudou e, repito, não são sinais ou letras que vão ajudar a acabar com a essência da intolerância, da cegueira moral. Tenho fé que tanto ódio se desvaneça de uma vez por todas. Pois se ainda tivermos que usar de subterfúgios estaremos contribuindo cada vez mais para o distanciamento e segregação. Assim, deixemos o x para as palavras que o utilizam, tais como Xerox, Jontex, Fax, Climax, Fênix, Ônix, Tórax, Durex ...

Dura lex, sed lex







Publicado em Uberlândia Hoje em 22 de novembro de 2017

quinta-feira, novembro 16

De árvores e fakes




A Noruega se tornou o primeiro país do mundo a se comprometer com o fim desmatamento em todo o território nacional, após decisão do Parlamento na semana passada. Para cumprir com a meta, o governo proibiu o corte de árvores e baniu a compra e a produção de qualquer matéria-prima que contribua para a destruição de florestas no mundo.”
Fonte: Revista Veja

Assim, com espanto e alegria e muita mineira desconfiança recebi a notícia pelas redes sociais. Afinal quase tudo que se torna viral na rede não passa de grande bobagens e pior, tem sempre um mundo de gente que acredita e compartilha, bom se não o fizesse não seria tornaria viral ará!
Entendo a tão conhecida preguiça de ler das gentes que vivem coladas em aplicativos, redes sociais e agora, super felizes, passam grande parte de suas vidas caçando Pokemons. Caçada esta até admissível para crianças e adolescentes, com parcimônia é claro. Sobriedade e caldo de galinha nunca são demais. Mas velho barbado? Moça feita com carteira de motorista, matriculada em curso superior e de namorado a tiracolo? Tem dó, usem esse tempo para ler um bom livro, uma revista que não seja de futilidades por favor. Aprende outra idioma, tocar um instrumento musical e ainda sobrar tempo para se exercitar e sair dessa mândria crônica.

Todos estamos sujeitos a pagar mico com as armadilhas das redes. Outro dia, (já tem tempo, mais de ano, assim como a notícia vinda da península escandinava), leio sobre a morte do genial escritor Ariano Suassuna ,adjetivo bem empregado viu mestre esteja onde estiver, achando tratar-se de homenagem de sua partida – ele nos deixou em 2014 – não pestanejei e compartilhei preito. Sem ler, criatura, sem ler o link da postagem!
Só depois fui conferir fonte, postei sem ler, não tinha mais volta, a meada estava feita, algum babaca tinha postado ou compartilhado a velha matéria do passamento do grande escritor. Não demorou segundos, tenho amigos antenados e felizmente cultos em minha lista, veio a gozação cética.
Tentei apelar para o famoso “morreu para você filho (leitor) ingrato, pois continua vivo em meu um coração” do folclórico ministro de JK, José Maria Alkmin.

Não teve jeito, cai feito um patinho ou um alienado “webiano” da vida.
Esclarecimento: Quando reforcei o “Genial” relembrei fantástica entrevista onde, ao ler em jornal guitarrista da banda Calypso Chimbinha ser chamado de genial.
O mestre Suassuna disparou: “Se gasto adjetivo “genial” com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven?”
E assim vamos levando a vida. Infelizmente os fakes, as mentiras sinceras ou não, os Pokemons, Chimbinhas e as novelas são mais palatáveis do que o duro cotidiano individual do ganhar o pão de cada dia.

Quantos realmente se interessam em saber que a Noruega proibiu corte de arvores? Qual a importância disso para a grande maioria das pessoas – não,"grande maioria", não é pleonasmo:
“A metade, juntada a mais um, constitui a maioria; a grande maioria seria muito mais que isso, portanto a expressão não pode ser considerada um pleonasmo”

Quem se importa? O que vejo todo santo dia são milhões de pedidos de corte de árvores, seja na rua ou nos quintais.
E assim minha gente, por estas e outras , o velho e centenário óleo perto do DMAE, lá no alto, de tamanha tristeza e desgosto, inconformado com a gente humana, secou e morreu.






Publicado em Uberlândia Hoje e no Jornal Voz Ativa de Ouro Preto em14 de novembro de 2017

quarta-feira, novembro 8

Timeo hominem unius libri



Falar da ocupação do cerrado em uma época onde a palavra ecologia soaria mais para algo como os “estudo dos ecos” é maniqueísta demais, perigosa simplificação de um tempo. E como toda simplificação, segundo o psicanalista Raymundo de Lima, “geralmente nasce da intolerância ou desconhecimento em relação à verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo”, corre-se o risco de ser injusta.

Seria algo como condenar os descobridores por levar Pau-Brasil daqui na então colônia ou reprimir o naturalista Charles Darwin por ter arrancado de seu habitat natural milhares de plantas e animais. Ou ainda crucificar Marco Pólo por trazer a pólvora para a Europa, ou pior, execrar os chineses por terem inventado o papel, algo tão politicamente incorreto do ponto de vista das árvores.

Uma discussão destas carece de profunda avaliação histórica.

Quando daquela ocupação do cerrado, nada ou muito pouco se sabia sobre aquecimento global, de emissão de gases poluentes, de efeito estufa ou camada de ozônio. Como também o termo “agrobusiness”, cunhado por Davis e Goldberg em Harvard, até onde sei não havia ainda chegado ao Brasil.

A visão ecológica da sustentabilidade veio bem mais tarde.
Segundo a ONG Amazônia-Brasil “O movimento ecológico surgiu no Brasil nos anos 1970 denunciando os efeitos ambientais do modelo de desenvolvimento da época e os riscos de usinas nucleares, o que influenciou a criação de novas áreas protegidas. O principal marco é o Manifesto Ecológico de 1976, liderado pelo gaúcho José Lutzemberger”.

Voltando ao cerrado. Inicialmente foi o interesse por ouro e pedras preciosas que levou à sua exploração, isso ainda no século XVII. Contudo, historiadores afirmam: “Somente a partir da década de 1950, com o surgimento de Brasília e de uma política de expansão agrícola, por parte do Governo Federal, que iniciou-se uma acelerada e desordenada ocupação da região do cerrado, baseada em um modelo de exploração feita de forma fundamentalmente extrativista e, em muitos casos, predatória.”

Numa época em que o cerrado era desprezado tanto do ponto de vista econômico quanto poético (algumas raras e maravilhosas exceções), tudo que pudesse ser feito para atrair investimentos e principalmente fixar gente era bem-vindo. É duro? Com certeza o é.

Mas era a realidade de uma época. Muito diferente das ações descomedidas dos dias de hoje onde a falta de informação não pode ser desculpa para a destruição de nosso ecossistema, de nosso planeta. Todos, hoje, sabem muito bem o que estão fazendo.

O ex-governador Rondon Pacheco foi sem sombra de dúvidas um visionário. Com as informações disponíveis à época fez o que deveria fazer para o desenvolvimento da região, e o fez por amor à sua terra. Tenho plena convicção que hoje, municiado tecnicamente pensaria duas vezes, e com certeza encontraria opções outras para o desenvolvimento regional, mas encontraria! Bem diferente de alguns hoje que mesmo de posse de todas as informações e de todo conhecimento disponível, simplesmente fecham os olhos e atropelam a razão e a sensatez e destroem, sem critério ou visão de sustentabilidade mínima e sentimento por sua terra, sua gente.

Tomaz de Aquino, o santo, estava coberto de razão: “Timeo hominem unius libri”, ou “Temo o homem que só conhece um livro”.
Se estiver enganado estendo minha mão à palmatória de bom grado.





Publicado em Uberlândia Hoje em 08 de novembro de 2017 ( Angústia de uma década)

quarta-feira, novembro 1

Estranheza




Noite encalorada, nem brisa mansa para balançar folhas de árvores havia. O sol de verão esquenta tudo, jardim e horta murcham rápido. Uma tarde sem aguar planta já mostra sinal de tristeza, baixa/encolhe. Terra racha que nem leito de rio seco.
Noite estranha. Deitado, buscando sono que não vinha, olhos virados para o céu de janela aberta até onde dava, vontade de nem parede ter. Sem camisa, sem lençol. O cortinado não tem como tirar, pois aliado de primeira hora de calor, mesmo no seco vem hordas de pernilongos cantadores. Dorme não, desassossego fica imenso.

Ponho a escutar o silêncio quente. Nada, só zumbido pregado no véu protetor. Calor. Dou o dedo para mosquito sugar, quando sinto a voracidade e pressa dela afasto. Parece que ouço o seu xingar nervoso. Carece de meu sangue para amadurecer ovos e por cria no mundo. Então, só elas usam sangue no comer. Eles não. Vivem de seiva mesmo quente em dia como hoje. Elas não! O sangue nosso é seu buscar para perpetuar. Eles é que cantam zoada em nossos ouvidos. Dizem que é para distrair incauto enquanto fêmeas se banqueteiam na outra ponta, lá nas canelas. Só se dá conta quando vem a coceira. Nada de sono. Suor aumenta. Ligo ventilador em busca de refresco. O cortinado, como vela de barco de pesca, como saveiro, se joga em um mar de pensamentos. Melhora um pouco, a quentura.

Do nada um canto triste e forte de pássaro preto rompe a noite vestida com sua cor. Boto atenção no não normal do feito. Pia/canta uma, duas, três vezes. Sinto agonia nesse cantar noctívago a campear tarde assim. Penso em levantar e buscar saber. O abafamento me põe preguiça e me deixo ficar, mas alerta. O canto volta a fazer-se ouvir. Estranheza.
Será filhote perdido? Será mãe a buscar cria que não encontrou ninho? Talvez. Penso o pior: será gente humana sempre carregando fardo de maldade, ruindeza, que roubou filhote para amansar em gaiola? Este sentimento me tira de vez o dormir. Têm tantos assim, que acham motivo para prender cantos como se deles fossem senhorios.

Não consigo me levantar, a noite será longa em pios/cantos, tristeza.
Lá adiante um frescor e, sem perceber, fadiga me leva a sono curto, repleto de pesadelos, cantos tristes. Sonho com gaiolas e prisão.
Acordo em trapos.

No caminho da lida vejo de canto de olho gato sair ligeiro de moita e em certeiro bote levantar em penas uma rolinha carijó. Desjejum farto este terá.
Virando a esquina, a um braço de meu rosto, casal de beija-flores dança em namoro. O aprender a ver e ouvir o que rodeia tem um triste/alegre integrar. Avanço com sono bruto para encarar um nada fazer. Ando sem serventia para uns. Não é meu querer, mas sigo a cumprir tabela.
Será predição aquele pio triste? Acredito nisso não. Só as gentes premeditam o mal e sinal não mandam.







Publicado Jornal Uberlândia Hoje em 01 de Novembro de 2017


Escorpiões




Como já mostramos na última edição, moradores de vários bairros de Sabará estão sofrendo com a infestação de escorpiões. Os artrópodes foram encontrados principalmente nos bairros Águas Férreas, Villa Real e Morada da Serra, tendo inclusive invadido a Escola Municipal José Rodrigues da Silva, Morada da Serra, levando pânico a pais, alunos e funcionários.

Nesta edição conversamos com um especialista sobre o tão temido animal, William H. Stutz é médico veterinário sanitarista especialista em animais peçonhentos da Secretaria de Saúde de Uberlândia e Colaborador da Coordenação Nacional de Controle de Animais Peçonhentos do Ministério da Saúde. Ele esclarece qual o ambiente propício para o aparecimento, o que devemos evitar e como se proceder caso aconteça algum acidente e destaca ainda os benefícios do escorpião. Estranho? Não, por incrível que pareça esse bicho tão rejeitado tem suas qualidades.

O médico explica que os escorpiões se adaptam muito bem ao ambiente humano, pois ali encontram tudo que necessitam: água (umidade), abrigo (entulho, jardins exuberantes, quintais sujos, caixas de passagem e gordura quebradas) e alimento (principalmente baratas).

Logo, ele destaca que para impedir o aparecimento de escorpiões as pessoas devem evitar as situações citadas, mantendo os imóveis limpos e livres de baratas e ainda vedar o possível acesso deles às casas, fechando as caixas de passagem e gordura e também os ralos de banheiros e áreas de serviço, utilizando ralos giratórios ou equipamento de vedação próprio. É importante acondicionar o lixo adequadamente e entregá-lo para o lixeiro nos horários de coleta. “Somos donos do lixo que produzimos. Nunca devemos jogar lixo em terrenos baldios, pois este atrairá insetos e consequentemente escorpiões”, ressalta.

Segundo relatos dos moradores, a infestação na cidade é do escorpião amarelo (Tityus serrulatus) que de acordo com o especialista é o que oferece maior gravidade em seus acidentes e, é o que predomina em Minas. Ele explica que é a espécie que se espalha mais rapidamente pelo Brasil posto que sua reprodução se dá por partenogênese ou seja, só existem fêmeas nesta espécie. A maioria das aproximadamente 160 espécies do Brasil apresenta dimorfismo sexual, ou seja, existem machos e fêmeas, diferente do escorpião amarelo. Outro dado preocupante, Minas é o estado campeão de acidentes e óbitos por escorpião do país, sinal que devemos ficar mais alertas.

William Stutz diz que em caso de acidente com escorpião deve-se procurar orientação médica imediatamente, pois somente ele poderá avaliar a necessidade ou não da utilização do soro antiveneno. Ressalta ainda que não se deve passar nada no local e que uma bolsa com água morna ajuda um pouco aliviar a dor, até chegar ao socorro. O hospital referência na região é o João XXIII, em Belo Horizonte, para onde a pessoa deve ser encaminhada imediatamente. O veterinário destaca também que crianças, idosos e enfermos com baixa imunidade são os grupos menos resistentes ao veneno do escorpião, tornando o acidente ainda mais grave, porém, todo caso deve ser avaliado.

Embora o veneno do escorpião possa matar em poucas horas, ele tem suas vantagens. Segundo o especialista, o veneno do escorpião tem uma série de propriedades terapêuticas, além do uso de seu próprio veneno para produzir o soro que salva. Porém, por ser um animal sinantrópico (aqueles que colonizam habitações humanas e seus arredores retirando vantagens em matéria de abrigo, acesso a alimentos e a água) a convivência se torna impossível com gente humana. A captura desses animais vivos e o envio para instituições de pesquisa deve ser objeto de atenção dos órgãos públicos. Ação esta que, além de ajudar na pesquisa, diminui expressivamente a população dos animais em áreas habitadas, reduzindo o risco de acidentes. Os órgãos de saúde devem realizar sistematicamente captura, busca ativa de escorpiões como preconizado no Manual de Controle de Escorpiões do Ministério da Saúde (disponível para download no site do Ministério).

Para finalizar, o médico veterinário salienta mais uma vez que limpeza, acondicionamento e destinação adequada de lixo significam pouquíssima chance de presença de escorpiões.


Publicado em Jornal Folha de Sabará em 31 de outubro de 2017

quarta-feira, outubro 25

Questão de química





Levanto cedo, lavo as mãos com sabonete perfumado, vou à cozinha e ponho água a ferver para o café.

Tomo banho também com sabonete, lavo os cabelos com shampoo com cheiro de frutas, não resisti e provei, o gosto é horrível.
Após o shampoo vem o condicionador, antes chamado de creme rinse, lembram? Na ducha mesmo faço barba e para tal uso creme específico para que as lâminas bem deslizem: a primeira faz “cham”, a segunda faz “chum”. Saio do banho, escovo os dentes com pasta dental tricolor, não sei o que representam aquelas cores: Fraternité, Egalité, Liberté, em bom francês poderia ser? A liberdade é azul.

Ia esquecendo, creme pós-barba,afinal ninguém é de ferro.
Um creme hidratante de rápida absorção, pois aqui é o cerrado e a umidade anda pela casa dos 12%. Saara, dizem.
Desodorante sem cheiro, e antes de me vestir um perfume.
Para a rua, não sem antes aplicar um protetor solar fator trinta pois o buraco na camada de ozônio não nos permite facilitar.

Alguém já parou para imaginar a quantidade e a variedade de produtos que foram usados apenas em uma manhã, num pós-despertar? Overodose química de procedências várias — claro, todos com a devida chancela da ANVISA, mas será que a mistura, a combinação já foi testada alguma vez?
Dizem que manga com leite, pepino com cachaça fazem mal, e aquilo tudo pode também?
Detalhe importante, as senhoras e senhoritas ainda acrescentam à sopa de cheiros e nomes, batons e maquiagens variadas. Céus.

Um coquetel molotov de moléculas e princípios ativos vários. Além das infinitas trilhas sonoras das propagandas, até que ponto nossa pele, essa que é o maior órgão do corpo humano, pode aguentar?
Será mesmo o céu o limite? Questão de química ou de saúde pública? Com a palavra, senhores dermatologistas. Deixa eu correr, a água do café já ferveu.






Publicado em Uberlândia hoje em 25 de outubro de 2017

Maria De Maria

 Foto: Ninguém dos Campos/Divulgação

Antes de mais nada grito aos ventos: não sou crítico de arte, não entendo de arte, não sou arte. Faço arte no sentido lúdico e infantil da palavra. Lanço-me em aventuras, algumas inconsequentes, sem trema ou trama, mas sempre inofensivas.
Sou espectador que põe atenção. Se me agrada gosto, se não me agrada me aquieto.

"Amou daquela vez como se fosse a última".

Tive o lampejo de ir ao teatro em uma quente quinta-feira, na qual a maioria gostaria de estar em um bar ou à beira de piscina ou, quem sabe, caminhando no parque. A peça, uma produção independente da até então para mim desconhecida Maria De Maria, cativou logo nos primeiros instantes.

“Beijou sua mulher como se fosse a última"

Bom, posso dizer que os longos primeiros minutos de silêncio e breu poderiam ter sido mais curtos. Criou um certo incomodo, proposital talvez.
O denso texto de Claudia Eid Asbun inspira. Impressionante a coragem de produzir e encenar Mulher de Juan.
Em árido cenário de obra, Maria De Maria se move com leveza bruta, contracena com o maravilhoso e fantasticamente harmônico e pontualíssimo violoncelo de Laura Millya.

“E cada filho seu como se fosse o único"

"O tempo não para/ Disparo contra o sol/
Sou forte, sou por acaso"
, cantou Cazuza.

A plateia em silêncio absoluto. Se bem que, quando chegamos no esperar do escuro, duas tagarelas palreavam ao som de saquinhos de o que me parecia batatas chips. Mudamos de lugar e a paz voltou a reinar.

A direção de Adriana Capparelli é sóbria e libertadora para a atriz (acho eu, foi para mim é certo).

Se era crítica que  Elena,  mulher de Juan, buscava, eis a de um simples espectador, que em muito se viu no espetáculo.
Vi-me em suas falas e coreografias. Fui mulher, fui celo, fui Juan, fui você. Como é bom em plena quinta quente ser parte de uma peça tão envolvente. Mil vezes recomendo. Quem viu viajou, quem não viu não perca a próxima apresentação. Quando a peça chegar a Ouro Preto, e tenho certeza que vai rodar mundo, peço: não perca.

Só me resta dizer Bravo! Bravíssimo Maria de Maria! Espero te ver sempre em palco. Usando modernos tempos: curti e te sigo.

"E flutuou no ar como se fosse um pássaro"

(*) Intervenções grifadas da obra "Construção" de Chico Buarque não são meras coincidências







Publicado em Olha no Diário ( Diário do Comércio ) em 25 de outubro de 2017

quarta-feira, setembro 27

(Des) ordem

Passam em bando num cantarejo sem fim. A força de suas asas é tamanha que criam vento, fazendo repicar meus sinos da felicidade, seguem em algazarra para árvore próxima.
Peitos estufados a cortejar namoro. Vêm filhotes por aí.
Primavera anunciada. Vão nascer com o chegar das primeiras chuvas.
Tudo em sincronia, nada fora do lugar, do tempo, da vida.
Minto, tem muita desordem mundo afora, no nosso entorno, dentro da gente. Em esforço de sobrevida fingimos nada ver, mesmo tanto olhando. Árvores são arrancadas por conta de um portão sem sentido. O lixo maquiado de luxo que nunca existiu.
Ah, mas em troca, você mata três e planta outro tanto. Pensou se justiça humana assim pendesse?

A seca castiga como de costume nesse inverno sem frio ou neve. E como de costume, por costume, ateia-se fogo por toda cidade. Um matinho seco, um roçado, arde em frieza, morte.

As corujas buraqueiras, do alto de postes de inanimado concreto, observam em agonia suas tocas serem devoradas, suas crias fadadas a horrível martírio. Pequenas Joanas d’Arc na morte, às avessas em vida. Aqui família empoleirada presencia sacrifício estúpido, sem soldados ingleses, sem canonizações póstumas.

A primavera se aproxima arrastada em poeira e cinza. Logo a chuva protetora trará vida, verde, cantos. As corujas terão outra chance. Escondidas de olhos humanos poderão ver filhotes voarem mudas em pios e bater de asas.

O bando de Pássaros Pretos, Canarinhos da Terra, Joões-de-barro em gritos, cantos e algazarra, pousam em nossa primavera. Fizemos ceva com quirera amarela/doce e farinha de pão. Tocamos o sino duas vezes, só duas vezes, eles vêm de longe buscar sustento. A cantoria encanta. Passamos horas a ver/ouvir. Nem goiaba deu. Árvore mutilada custa dar fruto outra vez.
A seca castigou forte este ano. Não secou apenas plantas e córregos, secou alma humana. Muitos que por perto circulam estão secos para um eterno sempre. Como deserto em suas entranhas nada mais vingará em vida e paz.
Nos conta Dante: ” […] cruzam rio pantanoso e cinzento rio Aqueronte, conduzidos por Caronte – o barqueiro dos mortos na mitologia grega. Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! […], anuncia, descendo o remo nos que hesitam em embarcar. Começa a descida pelos nove círculos infernais!”

Bicho homem! Apenas de ti tenho receio.

Busquemos nos encantos, que por vir estão, alento para nossas vidas. O Criador nos deu as costas ou apenas virou olhar? Talvez nem exista como o concebemos/acreditamos. Ainda há tempo. Rogai por nós.
Ordem e o que mesmo?


27 de setembro de 2017

Publicado em



quarta-feira, setembro 6

Mentiroso

Imagem capturada na web


Sem tem uma coisa que me impressiona absurdamente é o talento do mentiroso. Sério, não que eu concorde com essa nefasta atitude, pelo contrário odeio mentiras. Elas me cheiram a traição, covardia e tudo de ruim que acompanham estas palavras.
Não me refiro ás mentirinhas inocentes tipo “True Lies” ou “mentiras sinceras”, expressão cunhada por compadre. Exemplo clássico deste grupo, me remeto ao Barão de Münchhausen. Falo do mentiroso com M maiúsculo, que faz da prática meio de vida, com o objetivo de tirar proveito próprio em tudo. Perverso e degradante, passa por cima de qualquer um para obter seus objetivos, tendo como principal arma a mentira.
Perdoo quando o compulsivo sofre de impulso patológico. Apesar de difícil conviver, o melomaníaco carece é de tratamento, pois é um doente.

Mesmo com tudo que disse, uma coisa não dá para negar: o mentiroso crônico é um cara especial. Posso falar de cadeira, pois conheço vários. Já convivi com estes mestres do engodo, da enganação.
A fertilidade de imaginação desses caras é de fazer inveja aos aprendizes da arte de juntar palavras. Quer um exemplo? Qual aquele que escreve regularmente não passou por períodos curtos ou longos de estiagem criativa? Pois olhe, tempos em tempos acontece comigo.

Sento para meu exercício diário de buscar um contar e nada. As ideias correm de mim como bicho miúdo fugindo de onça. No alto das serras, matas ou em fundo de rio ou mar. As letras teimam em se esconder no topo de árvores, em caravelas naufragadas ou em grutas profundas e silenciosas. Aprendi lidar, apavora mais não. Depois de um tempo elas voltam pedindo lugar. Não há letra ou palavra que queira viver só. Querem companhia. Bem ou mal as amarro em filas imensas e viram isso, prosa, caso, histórias.
Voltando ao cascateiro, ao aldravão, ao trampolineiro. Além de imaginação ilimitada o cara tem que ter uma memória de elefante – sei lá eu se isso é verdade ou força de expressão – mas pensa bem, se ás vezes é duro lembrar-se das verdades, imagine lembrar os detalhes de uma mentira? Cara, o negócio é que as cascatas costumam ser recheadas de detalhes, de bordados tão fartos, que só um gênio para lembrar-se de tudo e tantas. Sofrimento sem fim, pois volta e meia cai em uma armadilha por ele mesmo criada. Jeito de viver não. O doente deve buscar ajuda. O cretino, além de desculpas por existir, deve buscar vergonha na cara e, se tiver, renascer o caráter.

Caso acontecido, Mestre contou, eu reconto com fé e você julgue em qual grau o peão deve ser classificado.
Morava em cidade até grandinha e tinha por gosto reunir com amigos em finais de tarde para cerveja gelada e jogar conversa fora. Naquele dia a conversa girou em torno de pescaria. Cada um tinha um caso de peixe maior do que outro. De Jurupoca a Dourado, de Matrinchã a gigantescas Piraibas de trezentos e tantos quilos.
Não podia ficar de fora da prosa, assim contou de seu rancho onde dava de tudo quanto há. Tinha ceva que para pescar e tinha que afastar peixe com a mão.

Animação geral, pois pesqueiro era não muito longe, marcaram encontro para fim de semana seguinte.
Assim passou semana de ansiedade e o dia chegou. Partiram leves.
O recanto era simples e agradável, uma represa na porta da casa e o rio, de pouca água e correnteza mansa, mais afastado.
Todos com muita disposição e vontade se puseram logo pescar.
E vai tempo e nada. Nada e mais tempo gastando. Olhe, disse um, vamos deixar varas em espera, assar uma carne e tomar uma, afinal ninguém é de ferro. Peixe que é bom, sei não. Já desconfiado que enganados foram.
Enquanto se divertiam sob sombra generosa de imensa gameleira, um deu sinal. Uma das varas de espera puxava emborcada como a mostrar peixe grande fisgado.

Desceram todos, afinal seria o primeiro depois de muito tempo ali.
Um puxa estiva sem fim, briga e tanto, daquelas de sangrar mão de pescador calejado.
O bicho finalmente mostrou o lombo escuro na flor d’água. Não dava para saber que peixe era ainda.
Algazarra infantil dos marmanjos. Olha que vem chegando!
Foi aí que o silêncio baixou. Para espanto de todos o que estava fisgado no anzol era peixe não, era um tatu peba dos criados.
Antes que qualquer um pudesse tossir, respirar ou fechar a boca de tanto queixo caído, o dono do rancho vociferou ligeiro:
— Num falei que aqui dava de tudo? Esse ai  é o terceiro tatu que pegam aqui.
Para lá ninguém voltou mais.







Em  6 de setembro de 2017

quarta-feira, agosto 30

Eternidade

Assim não dá, aí é sacanagem, e não vem com esse papo de olha quem está aqui te esperando. Pô, estamos falando de eternidade, cara.
E t e r n i d a d e, entendeu? Skilja? Verstehen? Capito? Fui clara, agora?
O combinado, o trato, se bem me lembro, foi só até que a morte nos separe, e pronto. Hellouoooo, até que a morte nos o que mesmo? Morte, SEPARE. Fim, The End, É Finito!
Pronto, morreu, separou, acabou! Nem vem que não tem, seus anjinhos do pau oco, isso sim é o que vocês são.
Eternamente que eu saiba só a Yolanda caraca, e aposto, duvi-de-o-dó que o Pablo Milanês e ou Chico nem a conheceram. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né! Sei.

Quero falar com quem resolve, chama o líder, ou seja lá quem for. Tá bom, o chefe está ocupado? Ah, mas deve estar mesmo, aposto que nem Ele tem paciência de ficar inventando desculpas esfarrapadas para todos que chegam aqui de bobeira.

Dá para imaginar o trabalhão d’Ele. Então faz o seguinte, me arranja o número do SAC daqui para ligar, um Procon ou seja lá o que vocês tiverem nessa bagunça. Ou, se não for pedir muito, pelo menos alguém do sexo feminino, aposto que ela vai me entender. Se é que sobrou alguma, né! Com essa conversa mole de tirar o sexo de quem vem dar nessa porta e vira anjo…
Não, não falei que não foi bom. Não começa a fazer joguinho nem colocar palavras em minha boca.

E depois dizem que só chefão de vocês pregou no deserto. Parece que estou falando pras nuvens!

Foi ótimo, passou de bom. Valeu cada segundo. Mas é que nem produto de supermercado, cara, aqueles do setor de frios, aliás em tudo hoje em dia. Tem composição, modo de usar, tabela nutricional e prazo de validade. Ouviu bem esse último? Prazo de va-li-da-de! Soletrando, às vezes, vocês entendem. Que coisa mais chata!

Depois só pode fazer é mal, adoece, se é que me entendem. Não estou nervosa! Não estou nervosa coisa nenhuma! Detesto quando falam que estou nervosa! Aliás, quer saber, estou sim, agora fiquei P. da vida, nervosa pra caramba.

E xingo sim! Não me peçam para não xingar. Passei a vida toda me segurando, me contendo para não falar palavrões, pudica ao extremo. Politicamente correta uma vida toda e para que mesmo? Ser engambelada agora? Sai fora, quero o prometido. O combinado não é caro. Cumpra-se e fim. Olha só, vamos resolver isso logo, ou vocês acham que tenho todo o tempo do mundo? E não me faz essa cara de cínico, não! Pode tirar esse sorrisinho da cara.

Olha atrás de mim, olha o tamanho da fila de reclamação. O pessoal está começando a ficar nervoso e isso vai dar rolo, estou avisando, vai dar rolo. Depois vão colocar no B.O. que a culpa é minha.

Ah sei, estou começando a achar que esse papo de céu é pura embromação, propaganda enganosa, isso sim. Sacanagem da grossa.
Pode conferir outra vez esses registros, aposto que tem coisa errada. Alguém anotou coisa fora do lugar, mas também, numa desorganização dessa! Informatiza esse trem pelo amor do Sagrado, o Cara deixa os outros criarem, mas Ele mesmo não usa?
Valha-me Deus! Bom, valha-me se resolver esse caso, senão vou atrás de meus direitos!

Vocês são engraçados, a gente faz tudo direitinho, cumpre fielmente nossa parte do trato e agora vocês mesmos, os donos do contrato, os donos da verdade, da Palavra, querem roer a corda? Na-na-ni-na não! Agora é minha vez, mano velho, sem essa .

Tá certo, tá certo, uma vez ou outra chegamos até a dizer que queríamos ficar juntos para todo sempre. Mas foi meio assim, me deixa ver, metafórico, sabe como, coisa de momento, palavras soltas e pronto.

Ao pé da letra? Que papo é esse de que levaram nossas juras ao pé da letra? E você quer que eu engula essa? E o monte de outras coisas que dissemos, planejamos, pedimos? Cadê? Onde foram parar a casa na praia, as viagens para a Europa. O aumento de salário, a Ferrari zero? Aposentar e mudar para a Polinésia francesa e morar numa ilha vizinha do Marlon Brando ou da Zeta Jones, dependendo de quem puxava o assunto… Cadê, cadê? E o tanto de coisa menor que também não rolou, mas não vou nem perder tempo em listar, pois aí, sim, iria durar uma eternidade e meia.

E querem que eu acredite que só levaram a sério umas jurinhas de amor feitas no calor do ímpeto? Tenho cara de imbecil, por acaso?

Faça-me o favor outra vez! E um DESSE tamanho.

Teste drive? Que papo é esse de teste drive de eternidade para ver se acostumo? Em que parte do contrato que estava escrito essa besteira? Nem em letrinha miúda.

De jeito nenhum que quero essa sua “generosa” oferta. Generosa o caramba, conheço bem o tipo.

Isso tá me cheirando a esculhambação, falta de gerência, de mando. Depois ficam choramingando pelos cantos dizendo que estão perdendo a freguesia para os outros. Também, trabalhando desse jeito. Quando um ou outro consegue voltar só tem pra contar da desorganização!

E ainda vêm aqueles malas falando de vidas passadas. De vida de princesa e coisas e tal. Se vocês não estão dando conta de uma vida, já estão querendo avacalhar até com essa umazinha, imagina com outras. Só se estão dando outras para todo mundo que reclama, aí mano, vai faltar espaço lá embaixo ou sei lá onde.

Ninguém merece, quer saber? Parei de brincar, minha paciência estourou, me leva de volta agora mesmo antes que eu arrume o maior pampeiro aqui. Se é para ser assim prefiro lá embaixo onde já estava acostumada.

Compensação pelo engano? Ah tá! Agora vocês querem negociar? Não tem negociação coisa nenhuma, combinado é combinado. Se vocês não têm a mínima competência para cumprir a parte de vocês, eu estou fora. Me mande de volta agora. Eu e ele também. Sei lá se ele arruma um rabo de saia eterno por essas bandas! Ciúme? Você ficou besta? Eu estou achando que esse lance aqui é muito machista. Vai todo mundo às favas, ô palavra boa de falar depois de uma vida inteira me controlando! Queremos voltar e pronto.
Não senhor, não vou perguntar para ele se ele quer voltar, ele vai e pronto, era assim lá e por que iria mudar agora.

Olha, me faz um grande favor, tá. Chega de papo, me devolve nossos prontuários, ou seja lá o nome que vocês dão e manda a gente de volta ligeirinho. Volto aqui mais nunca e quer saber por quê? Vamos virar budistas, assim quando passar daquela que vocês vão nos devolver, para outra, voltamos grama, árvore, passarinho ou qualquer outra coisa. Pelo que sei, eles ainda cumprem seus tratos. Tem dó, tenha a santa paciência. Aqui para vocês, ó. Não me pegam mais nunca! Essa vocês podem escrever. E não precisa fazer essas caras de zonzos, de purinhos, não. Cara de santo não me comove hoje, não. Tô fora.





Jornal Uberlândia Hoje em 30 de agosto de 2017


quarta-feira, agosto 16

Centro de Controle de Zoonoses

Aqui se fez História. Clique na foto para ampliá-la



Curioso, outro dia um conhecido de longa data que não via, nem o ouvia há tempos, do nada me ligou.
Depois das conversas de sempre entre dois que não se falam há séculos, veio o real motivo da ligação. Pessoa de quem gosto e considero mas, não era saudade que o levou a descobrir meu telefone e fazer contato. A razão da ligação foi técnica, digamos assim. Ele está a preparar sua qualificação em algum mestrado e este envolve o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). Segundo ele, em suas pesquisas e levantamentos bibliográficos nada encontrou sobre a história daquela unidade da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia. Creio eu que em algum lugar estes dados devem estar registrados mas pesquisar é moroso e chato para quem não está acostumado, compreendo. Como testemunha viva participei da elaboração do projeto inicial, da peregrinação pelos gabinetes do Ministério da Saúde em Brasília na busca de recursos, cumprindo cada etapa de um vai e vem sem fim.

Conseguimos a fórceps captar parte dos recursos necessários. Escolhemos a área e participamos de todos os tramites legais, passando pela interminável e aborrecida burocracia, até ficar do jeitinho que eles lá queriam. Como testemunha ocular, colocamos o primeiro tijolo no que viria a ser o primeiro Centro de Controle de Zoonoses do interior do país. Luxo este de poucas capitais até então, o qual viria ser reconhecido como referência nacional em poucos anos de trabalho árduo.

O que nos levou a idealizar e focar na implantação de um CCZ em Uberlândia dizia respeito à avassaladora presença da raiva animal entre nós. O vírus rábico circulava sem o menor controle e a primeira missão destinada a mim como médico veterinário seria exatamente trabalhar para conter tão letal doença, para animais bichos e humanos.

O ano era 1983. O prefeito à época Dr. Zaire Rezende (1983-1988) e o secretário de saúde Dr. Flávio Alberto Goulart.
Cabe aqui contar que em meu período como estudante em nossa Escola de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia, na qual me formei em 1980, uma das máximas de nosso professor de Histologia, hoje pela segunda vez Secretário Municipal de Saúde, Dr. Gladstone Rodrigues da Cunha sobre a complexidade do processo saúde/doença era:
“O que é comum é comuníssimo, o que é raro é raríssimo". Carrego comigo tais ditos até hoje e os deixo fugir do academicismo puro aplicando-os em minha vida. Gratidão a todos os meus mestres.
Bom, voltando à vaca fria.

O então denominado Centro Regional de Controle de Zoonoses (a ideia inicial era criar um consórcio entre municípios) repito, o primeiro do interior do Brasil, foi oficialmente inaugurado em março de 1988. A primeira fonte de captação de recursos foi o antigo e já extinto Programa Nacional De Zoonoses (PNZ), órgão do Ministério da Saúde e à época coordenado pelo Dr. Carlos Alberto Viana Costa.
Como disse, o objetivo inicial do CCZ era controlar a raiva animal.

Ações incontáveis foram desencadeadas, a começar com uma super e massiva campanha de vacinação da população animal, posto que no ano anterior esta não foi realizada. Trabalhávamos em parceira com a Policia Militar que cedia pessoal e com alunos do Curso de Medicina Veterinária UFU, eu mesmo já tinha participado de várias à época de estudante.
Projetos de educação em saúde, palestras, feiras, cartilhas e até um "CãoCurso" do Vira-lata mais bonito foi realizado. Árduo, contínuo e incessante trabalho. A doença mostrava sinais de cansaço e de um constante recrudescimento, começando a rarear, diminuir.
Assim, em setembro de 1997 ocorreu o que consideramos o último caso de raiva animal urbana diagnosticado em nosso município, em um pequeno gato de aproximadamente sete meses de idade.

De lá para cá, nenhum caso da doença foi registrado e graças à vigilância permanente, sem nenhuma solução de continuidade até os dias de hoje, a raiva passou a ser um problema a menos na saúde coletiva de nosso município. Claro que a ameaça de retorno vai sempre existir. Basta as ações de controle de vigilância afrouxarem ou serem interrompidas que a doença, 100% letal, pode voltar com força total. Saúde é assim, atenção absoluta se faz necessária. Hoje a raiva segue seu ciclo, sua história natural e continua circulando onde sempre esteve, na população de morcegos. É importante frisar que estes morcegos urbanos não oferecem risco à população e são protegidos por lei, pelo bem enorme que fazem ao ecossistema. Em caso de morcego caído ou voando durante o dia, contate o CCZ e jamais toque no bicho, pois ele pode morder para se defender e aí moço é procurar orientação médica imediatamente.

Missão comprida no que diz respeito a Raiva animal, outras e importantes atribuições foram sendo agregadas ao CCZ, principalmente depois que participamos do Curso de Especialização em Gerenciamento de Centros de Controle de Zoonoses, realizado no CCZ de São Paulo realizado pelo Ministério da Saúde, da Organização Pan-americana de Saúde e da Escola Nacional de Saúde. Com carga horária de mestrado, aprendemos muito com os melhores.

Muitas destas novas atribuições ligadas a bichos não eram percebidas pela população. O problema dos escorpiões é um exemplo. A população convivia com os mesmos, desconhecendo os riscos que estes poderiam oferecer à saúde. Acidentes eram comuns.
Durante os anos em que atuei no controle e manejo de escorpiões, mais de três décadas, tivemos um único óbito, cuja criança foi socorrida a tempo, recebeu soroterapia, mas por algum motivo, que os próprios médicos não conseguiram explicar, a pequena não pode ser salva. Foi um baque para todos envolvidos na ação de controle e do corpo médico que a atendeu, dentre eles o Professor Dr. Paulo Victor, o PV, como o chamávamos. Super especialista no assunto e que nos deixou precocemente. Perda irreparável.

Assim à medida que o tempo passava outros programas eram incorporados: Roedores, Chagas, Malária ( diagnóstico e tratamento ), Quirópteros, Leishmaniose e finalmente Dengue. Este foi o grande avanço do CCZ, a municipalização do programa de controle de Aedes, antes atribuição da extinta SUCAM. Um programa que considero referência pela maneira sua atuação. Claro, como é um programa gigante ficou vulnerável em várias ocasiões a ingerências políticas, sendo estas um dos maiores erros das administrações públicas no Brasil, seja na esfera federal, estadual ou municipal. Áreas técnicas que funcionam deveriam ser intocáveis. Um exemplo? O coordenador do CCZ na gestão do prefeito Gilmar Machado ( 2013-2016) era um leigo e, quer queiramos ou não, isto em muitas ocasiões atrapalhava o andamento técnico das ações em saúde.. Inconcebível. Tinha boas intenções? Talvez. Mas é o bastante para gerenciar uma estrutura eminentemente técnica? Jamais. Foi um fiasco e imenso retrocesso, não apenas no Controle de Aedes mas afetou quase, senão todos programas.

Registre-se o Programa de Controle de Aedes, vou chamá-lo assim ai de uma tarrafada só englobamos dengue, zica e chikungunya, conseguiu superar todas ondas contrárias e de gerenciamento e segue de vento em popa e com resultados alvissareiros. Deus, dirigentes e técnicos competentes o conservem assim.

Mudando de pau para cavaco. Convém registrar que as primeiras contratações feitas pelo CCZ foram realizadas por meio de seleção entre os moradores do Bairro Santa Rosa e Liberdade, local onde implantamos o Centro de Controle de Zoonoses, no qual este ainda está firme e forte. Naquela bairro então ermo, longe e de difícil acesso foi realizada uma prova teórica, uma avaliação psicológica e entrevista. Tal seleção contou com a participação direta da Associação dos Moradores do Bairro. A ideia e a determinação do então prefeito Zaire Rezende apontava para este procedimento. O lema daquela administração era "Democracia Participativa" e as organizações populares deveriam se envolver. Não tenho segurança para afirmar que o melhor caminho foi exatamente esse, já que em pouquíssimo tempo quase nenhum dos "aprovados" na tal seleção continuava morando no bairro.

A primeira ampliação física de nosso CCZ aconteceu na administração do Prefeito Virgílio Galassi (1989/1992), da qual participei também na discussão de projetos . Embora modesta em se tratando de estrutura física, foi substancial no que tange a equipamentos e veículos. O crescimento já demonstrava que nosso trabalho tinha sua importância reconhecida. No período de longos onze anos o Dr. Dorival Sanches e logo a seguir o Dr. Paulo Roberto Salomão, estiveram à frente da Secretaria Municipal de Saúde e nos deram apoio irrestrito.
Na administração do prefeito Paulo Ferolla da Silva ( 1993/1996 ) foram implantados os laboratórios de sorologia, entomologia e de animais peçonhentos, do qual fiquei à frente até fevereiro de 2017 quando fui afastado das ações de campo e manejo. Coube a mim e alguns de minha antiga equipe cuidar do biotério de escorpiões onde realizamos manutenção, quarentena, identificação de espécies e estudos etológicos de comportamento dos escorpiões. Nele continuamos a preparar lotes de animais para envio a laboratórios oficiais produtores de veneno, como a Fundação Ezequiel Dias e o Instituto Butantan. Digo sempre e repito, salvar vidas humanas continua sendo o meu sacerdócio.

O período de 2001 a 2004, novamente sob a administração do Prefeito Zaire Rezende, foi tristemente sofrível para todos os setores da prefeitura. Os escassos recursos e certa confusão administrativa bloquearam o muito a fazer. Enfim, a história fará seu julgamento, assim como fará do ciclo há pouco encerrado da gestão Gilmar Machado (2013-2016) onde, repito, sofremos pressões absurdas por parte de coordenações do CCZ.

O grande "jump" no que tange a estrutura física e reorganização do CCZ se deu nas gestões ( 8 anos) do prefeito Odelmo Leão Carneiro (2005/2012), na qual em16 de janeiro de 2009 reinagurou-se o CCZ, completamente reformulado, com novas instalações e estrutura. Na ocasião tive a honra e a surpresa de presenciar o "batismo" do Centro de Controle de Zoonoses com meu nome. Honraria esta que divido com cada um que ali colocou seu esforço, trabalho e dedicação.

O referido período foi de muito crescimento, tanto em sua estrutura, quanto no reconhecimento nacional. Pudemos participar como um dos autores do Manual de Controle de Escorpiões junto ao Ministério da Saúde, com um fantástico grupo de profissionais, todos especialistas em escorpiões.
Fomos ainda convidados a participar do MANUAL DE VIGILÂNCIA, PREVENÇÃO E CONTROLE DE ZOONOSES, NORMAS TÉCNICAS E OPERACIONAIS, trabalho minucioso e demorado do qual participaram especialistas de todo o Brasil. Sua publicação, depois de longo período de gestação e em conjunto com a Portaria do Ministério da Saúde de N° 1138/2014, revolucionou o modus operandi dos CCZs . Publicado apenas em 2016 é um documento que consolida o controle de zoonoses e animais peçonhentos no Brasil. Apesar de redação clara e objetiva, muitos o interpretam de acordo com suas conveniências.

Não tenho intenção de julgar a forma de atuar de cada gestão pelas quais passei ao longo de mais da metade de minha vida, apesar de me sentir seguro e capacitado para fazê-lo, caso resolvesse descer às filigranas, a detalhes que bem conhecemos. Quanta coisa a contar. Não, não é esta a intenção pelo menos aqui neste breve relato, súbita catarse. Bom, breve para quem ainda tem costume de ler.
Aqui quero, (me desculpem o uso da primeira pessoa com tanta frequência, mas logo abaixo vou me redimir), deixar apenas uma simples narração do que foi uma vida de trabalho e realização pessoal.

Podem me tomar tudo ou não gostar de mim, mas apagar o que construímos em prol da saúde coletiva de nossa gente, isso meus amigos e inimigos, roam ossos, por mais que apaguem arquivos, feitos, arranquem placas ou mudem nomes de estruturas, minha, nossa história tomam não. Uma coisa carregaremos eternos, herança de trabalho duro e muita entrega. Lembrança que deixaremos para nossos filhos e netos. A marca do pioneirismo, da trilha, da picada aberta a paixão, a alegria que todos que chegaram e/ou chegarem depois terão obrigatoriamente por ela passar, acaba nunca, temos sim o orgulho se poder dizer com orgulho: Fizemos.
Aqui destaco os "dinossauros" que lapidaram esta estrutura tão importante desde o comecinho,desde o primeiro tijolo. Alguns já partiram para o Oriente Eterno, mas serão para todo o sempre lembrados:
Edilson Medeiros de Macedo, Jovenil Gomes da Silva (†)
Paulo Cesar Ferreira, Oscar Carvalho, Abadio Antonio da Silva, Anadir Batista Silva, Jurandir Maria Terezinha, Sonia Maria de Freitas, Darci de Freitas, Almeri Joaquim, Seo Divino Vigia (†), Batista, Seo Franciso, Seo Vicente (motorista de nossa espetacular e restaurada Kombi 1966),  Wellington.
Se esqueci de alguém me perdoem ou me lembrem. Culpem o tempo.
Espero em breve apresentar a história esmiuçada de nosso Centro de Controle de Zoonoses, recheada de histórias e muitas fotos, cujos primeiros esboços já estão prontos. Chamemos pois este breve resumo de um prelúdio da grande história.

A árvore plantada cresceu forte, abriu copa, deu sombra farta e frutos maravilhosos. Que, como uma Sumaúma, um imponente Jequitibá ou um sagrado Baobá, ela se perpetue e tenha estrada e belezas a realizar e escrever, sempre objetivando o cuidado com a vida animal e das gentes humanas.
Longa vida ao CCZ.







Publicado em Uberlândia Hoje em 11 de Agosto de 2017

quarta-feira, julho 19

Here there and everywhere

Não sei, por mais que se viva atento, tem um bando de coisas que nos fogem, escapam aos olhos, ao sentir, ao mais profundo e silencioso pensar. Manada de enormes girafas em seu absoluto silêncio passam às suas costas e você, entretido com um nada, deixa de perceber.
Não sei. Tiro noites a sonhar estrelas que, dizem , nem mais existem. Só nos chega um brilho espectral, eterno viajante a assombrar e encantar. Te conto baixinho que estas fantasmas de luz quando contadas a dedo fazem nascer verrugas, um perigo. Sobre nós um falso céu estrelado, mas como fogo fátuo, Boitatá protetor, continua a esquentar peito com beleza, sonho e poesia.
Penso, não sei direito, se tudo assim anda de formosura solitária nós também rumamos para um deserto de emoções puras.

Namoro/amor/encanto de aplicativo dura mais do que o vivido, tocado. Passam-se anos de convivência boa com troca, carinhos, amor, risos e afagos. É só entrar no relacionamento que aplicativos, trocas de mensagens, imagens, defectíveis mensagens vazias de bom dia, de oba chegou sexta-feira, fazem com que aquelas 24 horas chamadas segunda-feira tornem-se nossas inimigas, a lembrar que a vida não é para um fim de semana. Os aplicativos ampliaram ou deram voz e rosto ao ódio pela semana, raiva da vida.
Os risos, as gargalhadas transformadas em ridículos kkkkk, jajajajaja espanhóis, lol ingleses, risos de polidez, de cyber-etiqueta , Socila dos novos tempos.

O beijo, uma careta horrível com beiço de chipanzé. A expressão máxima do amor, outra cara de lua amarela com dois corações no lugar de olhos. Para cada expressão ou sentimento, uma figura.
Relações não podem existir fora das redes.

Você chega em casa recebe um oi, um beijo por um “app” que não significa área de Preservação Permanente” e muito menos “áreas de aproximação”, do inglês em torres de comando aéreo ” approach control”, mas algo como “aplicativo”. Aqui o app virou zap. O que seria numa analogia sonora gringa com “what`s up”, aqui, na bruta, virou ‘uatszapi” ou “zap” ou, pior ainda, “zap-zap”.
Sei, sei. Não sou o primeiro e acredito não serei o último a falar desses alienadores programas.

Assim meus amigos, dada as circunstâncias, resolvi falar o menos possível. Vou aderir a todas as tecnologias de comunicação, reduzindo palavras, rindo em Ks, chorando em snifs ou carinhas tristes. Desejando bons dias e espalhando ops, compartilhando curtidas e améns para não quebrar correntes nas quais até o filho Dele está batendo à sua porta, acompanhado quase sempre de alguma frase tipo “se você acredita, veja o que vai acontecer em sua vida”, além de fazer papel de idiota, é claro.
Vou salvar vidas de crianças com doenças raríssimas onde cada “curtida” vale uma doação virtual. Não vou procurar saber se o que compartilho é verdade ou um “Hoax” – olha a palavra criada para falso. Parece ou não nome de dragão nórdico, inimigo do Thor e assassino de aldeias Vikings? Pelo menos a linda e deliciosa donzela ele leva. Bobo nada!

Não sei. Quer saber ? Sei sim! Em um mundo real onde o assédio moral é uma constante e se traduz em isolamento e descaso, as redes sociais têm até um papel importante em denunciar o errado e de mobilizar. Sabendo usar são fantásticas. Aliás, sobre assédios e isolamento está no prelo um imenso artigo/crônica/caso. Sem pressa vou tecendo essa história e hora conto.
Use bem, mas quer um conselho? Quando chegar em casa, no bar, “here, there, anywhere”, desligue Faces, Instagrams, Twitters, Whatsapps. Desligue tudo! Caso contrário suas relações afetivas estarão por um fio.

E, queridos, quando quiserem um pouco de isolamento leiam um livro, escolham um bom filme, pois assim, mesmo longe, jamais ficarão irritados com chamados à cozinha, ao jardim para ver flores ou ao quintal para namorar lua e brilhos de estrelas que, para você, jamais estarão mortas. Eternamente belas e singelas.






Publicado em Uberlândia Hoje em 19 de julho de 2017

terça-feira, julho 18

Foda-se




"Voto para Membro Eterno da ABL!

Millôr Fernandes escreveu e publicou milhares de toneladas de textos, incríveis e infernais textos, usando uma máquina de datilografia. Um gênio pré-histórico sem igual, sobretudo por sua eterna atualidade. Data vênia, aliás, máxima vênia, respeitando a sensibilidade dos mais pudicos (que não devem prosseguir lendo), selecionamos um de seus escritos mais memoráveis, sua tese de doutorado para aplicar xingamentos no momento certo e exato.
Para vocês o FODA-SE, do maior filósofo ipanemense de todos os tempos, Millôr Fernandes."

Ricardo Kohn, Escritor.


"O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional a quantidade de foda-se! que ela fala. Existe algo mais libertário do que o conceito do foda-se!? O foda-se! aumenta minha autoestima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.

─ Não quer sair comigo? Então, foda-se!

─ Vai querer decidir essa merda sozinho(a) mesmo? Então, foda-se!

O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

Pra caralho, por exemplo. Qual expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade do que pra caralho? Pra caralho tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?

No gênero do Pra caralho, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso Nem fodendo!.

O “Não”, “não é não!” e tampouco o “nada eficaz” não têm mais nenhuma credibilidade. Não, absolutamente não o substituem. Mas o Nem fodendo é irretorquível e liquida o assunto. Te libera, com a consciência tranquila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: Marquinhos presta atenção, filho querido, Nem fodendo! O impertinente se manca na hora!

Por sua vez, o porra nenhuma! atendeu tão plenamente a situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso cotidiano profissional:

─ Ele redigiu aquele relatório sozinho?, porra nenhuma!

O porra nenhuma, como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos aspone, chepone, repone e mais recentemente, o prepone – presidente de porra nenhuma.

Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um Puta-que-pariu!, ou seu correlato Puta-que-o-pariu!, falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba…

Diante de uma notícia irritante qualquer puta-que-o-pariu! Dito assim te coloca outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.

E o que dizer de nosso famoso vai tomar no cu!?

E sua maravilhosa e reforçadora derivação vai tomar no olho do seu cu!. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta:

─ Chega! Vai tomar no olho do seu cu!. Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua autoestima. Desabotoa a camisa e sai a rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: ─ Fodeu!. E sua derivação mais avassaladora ainda:

─ Fodeu de vez!

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e autodefesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar. O que você fala?

─ Fodeu de vez!"


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Sobre o Ambiente
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segunda-feira, julho 10

Praça

Foto: William H Stutz


Engraçado, a passagem nem era para virar escrita, mas uma foto, na verdade várias em uma rede social plantou o pensar dentro de mim e, por bem, acho melhor compartilhar. Assim são as histórias. se você é do tipo que olha o entorno com olhos de bicho ou de atirador sabe do que estou falando. Tudo quanto há vira narrativa, vira conversa vira assunto.
Não gosto de descrever o horror, o feio lado da alma humana ou das coisas, das pedras, dos bichos, das árvores.
Desvio olhar de acidente acontecido, as gentes se aglomeram para apreciar o trágico, corto volta. Se acontece na hora paro ajudar, mas não procuro horrores, me apego a amores.

Assim seguindo para resolver assunto passo pela praça e me dou mais uma vez com o espetáculo do belo vestir da linda da praça. Todo ano assim se faz, primeiro se desnuda em sensual cair de vestes folhas. Nua se deixa ficar. Poucas a olham. mas de salto em pleno romper de manhã esplendorosa de um finzinho de junho ainda cheirando a pólvora dos foguetes dedicadas aos santos, eis que em pudor adolescente se veste em traje de gala. De folhas, agora flores em profusão estonteante amanhece linda em lilás vivo. Se nua atenção não chamava, agora, raro aquele que não lhe dirige um olhar mesmo ligeiro. Por alguns segundos ou fração esquece problemas, desgostos, rotina, planos. Por mais breve que seja, aquele simples olhar leva a lugares ocultos dentro de cada um. Cheiro de mato, colo de mãe, beijo de filho, abraço de amigo, ranger de porteira, latido do primeiro cão da infância. A namorada que ficou escondida no passado, talvez a o primeiro toque em seio de mulher.

 Mesmo o mais distraído mesmo sem querer, sem sentir/perceber se projeta longe, até que a buzina do carro de trás o faz movimento. Automático, o olhar da bela da praça para o retrovisor, não viu direito nem um nem outro. Mas ela deixou um gosto doce na alma, imperceptível mas deixou. Todos chegarão em casa mais leves como se anjo lhe cantasse aos ouvidos suave perfume.

Ligeira, tempo curto. Aos poucos, com sensualidade, gestos milimetricamente calculados, se despe serena. Olhos desejosos observam suas vestes a cobrir chão agora transformado em deleitoso tapete. O erguer da vista é sem querer, nascem sorrisos e suspiros. Ligeira, tempo curto logo amanhece plenamente nua. Devagar, botões a lhe fazer cócegas vão muito lentamente cobrindo seu corpo, galho a galho, não há mais plateia.
Morosa, já naquele instante inicia ensaio
para sua apresentação em outro finzinho de junho, ar cheirando a pólvora de foguetes que tanto céu seco iluminaram em louvor a santos, e são tantos os santos.







Publicado em Uberlândia Hoje em 5 de julho de 2017

quarta-feira, junho 28

Cabides

Essa vida volta e meia nos apresenta cada mistério. É tanto fato estranho que até Deus duvida. E olha que não estou me referindo a fantasmas, gnomos ou fadas, não. Observo fatos do cotidiano. O sobrenatural nosso de cada dia, acontecidos que se repetem bem debaixo de nossos narizes. Um desses grandes arcanos domésticos diz respeito aos cabides. Isso mesmo, cabides, esses de pendurar roupas.

Certa feita sugeri em um conto que, volta e meia, os inanimados ganham vida própria. Tive uma máquina de lavar roupas que era assim, nós a chamávamos carinhosamente de Daiane dos Santos, pois tinha complexo de ginasta, e até o duplo carpado twist esticado, especialidade de nossa querida atleta, ela, a máquina, aprendeu a dar.
Depois dela, passei a observar os objetos de casa com outros olhos e tenho a convicção de que, como nos desenhos, em alguma hora do dia ou da noite, longe de olhos, eles ganham vida e aprontam das suas.

Minha mais recente experiência diz respeitos aos tais cabides. Estes, como todos sabem, mesmo possuindo as mais variadas formas e serem compostos por materiais diversos têm, é claro, o mesmo objetivo e função. Lá em casa, além dessa finalidade são largamente usados para abrir janelas de banheiro, uma vez que alguns não foram agraciados com estatura muito elevada. Temos cabides de várias, digamos, castas e cada uma se comporta à sua maneira. Temos aqueles mais frágeis que, à primeira vista, quando são comprados, detêm aparência de robustos. Ledo engano, à primeira calça jeans mais pesada literalmente abrem o bico e a pega do guarda-roupa deixa de existir, desmontam como pipas rasgadas por vento forte bagunçando e amarrotando tudo.
Temos aqueles cujo plástico imita vidro ou cristal, são mestres em quebrar a haste do meio e, aí, passam a servir para dependurar camisas.

Quando morávamos na roça, um mestre oficial em marcenaria italiano, Seu Pedro Talarico, caprichosamente fez, a nosso pedido, vários cabides de madeira. Pequenas obras de arte, pois eram entalhados em peça única de madeira, sem emendas. O único defeito, se é que assim se pode chamar, eram os ganchos que colocamos, com o peso perdiam a rosca e despencavam. Na realidade dever-se-ia utilizar tiras de trapos para amarrá-los ao cabideiro, a ideia dos ganchos foi nossa. Até hoje guardamos essas raras e belas peças.

Os cabides passaram a fazer parte daqueles que têm vida própria.
Já notaram que, sempre que alguém precisa de cabides, eles desaparecem? Na hora de passar ou lavar roupa, sempre que você precisa não os encontra em número suficiente? E não adianta comprar mais não. Ao chegar em casa com dois ou três pacotes de cabides novos, temos a sensação de que nunca mais vamos ter que nos preocupar. Mas qual, uma semana depois para desespero nosso, onde por Deus se meteram esses monstrinhos? Sempre faltam e muitas peças de roupa ficam aguardando vaga, tal e qual restaurante em São Paulo ou estacionamento em zona azul.

Esse é um mistério que guardo para quando aposentar. Descobrir o destino, o rumo que esses caras tomam. Infelizmente, em nosso querido Brasil, o único tipo de cabide que não acaba, nem some, aliás, como ratos se multiplicam, são os nefastos cabides de emprego. Estes, para tristeza da nação, por mais que queiramos, não damos conta de fazê-los desaparecer. Não é incrível?






Publicado em Uberlândia Hoje  28 de junho de 2017