terça-feira, março 21

O Julgamento

Silêncio sepulcral reinava no recinto. Podia-se ouvir a respiração arranhada de alguns asmáticos ávidos por suas bombinhas, mas sem coragem de usá-la naquele lugar. Uma tosse nervosa aqui e ali. A luz atravessava o vitral mais alto e projetava turbilhão de cores e movimentos, como caleidoscópio imenso.
Fazia calor. O único ventilador não dava conta de refrescar o suficiente, na realidade ele só fazia circular o ar morno de um lado para o outro.

Um ranger de porta se fez ouvir no fundo da sala. Ninguém ousou olhar para trás, baixaram-se cabeças em reverência ao réu que naquele instante adentrava escoltado por dois policiais quase a lhe pedir desculpas pelo que faziam. O som metálico de suas botas, o tilintar de metais de suas vestes, conferiam um ar ainda mais solene ao momento.
Baixinho todos, rezavam pedindo perdão preventivo.
O próprio juiz sentia-se impossibilitado de olhar o réu nos olhos e, com gesto largo, apontou a contragosto a cadeira onde deveria se sentar para a interpelação.

— Tenha a bondade de se sentar.
Com rosto sereno, agradeceu com aceno de cabeça e em movimento ágil, ao timbre de mil sinos de igreja, atirou sua capa para a esquerda e deixou-se ficar imóvel em elegante postura.
Seguiu-se pois o interrogatório de praxe.
— Nome por favor.
— Georgius, respondeu firme sem titubear.
— Certo, mas Georgius de que?
— Como assim de que? Perguntou o réu com voz firme, porém meiga.
O juiz, um tanto sem graça, emendou: tipo sobrenome Sr. Georgius, está aqui no formulário. Nome, nome do meio, caso houver e sobrenome. Tenho que perguntar. Sabe como é a burocracia, se deixar uma campo em branco, o computar trava.
— Sei, acompanho há séculos a evolução tecnológica, mas serei franco, não me lembro de sobrenome.
— Vou colocar três pontinhos aqui no campo e ver o quê acontece.
— Funcionou! Em alegria quase infantil comemorou o juiz.
— Ocupação?
— São tantas, meritíssimo, mas para simplificar coloca aí: soldado e pronto.
— Naturalidade?
— Anatólia, na Turquia
— Uai, mas aqui diz Capadócia!
— E está correto, Capadócia é uma região de Anatólia.
Se perguntarem ao senhor onde nasceu o que responderia?
— Diria o nome da minha cidade!
— Não diria o Estado de¬ origem correto?
— É, tem lógica.
O senhor sabe o motivo pelo qual aqui está?
— Dizem que uma tal de APDD me processou por maus tratos e caça ilegal.
— E o que o senhor tem a dizer a respeito?
— Olha senhor juiz, estou no ramo há muito tempo, faço o que me pedem. Defendo mocinhas em perigo, protejo afetos de todo tipo de maldade. Um time de futebol contra a minha vontade até me adotou como símbolo. Para chegar até aqui já fui preso, torturado, humilhado e até perdi a cabeça. Mas, para tanto, tenho que seguir minha sina queira a APDD ou não. Sina, fado ou, se preferir, destino, assim tem que ser. No mais, ele e eu nos tornamos grandes amigos. Nossa imagem está associada, na realidade ao que encenamos. É um grande teatro, que está em cartaz há séculos e não pretendemos parar agora. Quantas pobres almas iriam sofrer se não tivessem a quem recorrer em aflição? E os fabricantes de camisetas e medalhinhas? Já pensou no desemprego? A crise está brava. Isso sem falar dos soldados, cavaleiros, fazendeiros e agricultores, de países como Inglaterra, Portugal, Geórgia, Lituânia, Catalunha, Sérvia, Montenegro e Etiópia; das cidades de Londres, Barcelona, Gênova, Ferrara, Régio da Calábria, Friburgo em Brisgóvia, Moscou e Beirute. Sou padroeiro de todos eles.
O senhor assume a confusão geral?

 E essa APDD – Associação de Proteção dos Direitos dos Dragões, já conversou com meu dragão para ver se lhe faço mal? Nunca. Nem nome deram ao pobre. Eu cuido, trato, vacino, levo no veterinário quando está doente, dou carinho e muita amizade e cumplicidade. Vez ou outra ensaiamos uma lutinha para ganhar a vida, onde eu o “mato”. Entendeu senhor juiz? É teatro, performance e nada mais. Já atuamos muito mais do que Deborah Kerr e Yul Brynner em o “Rei e eu”. Claro, nunca estivemos na Broadway, mas nosso palco é um astro de verdade! Meu querido amigo e companheiro estamos em cartaz há muito mais tempo. Repudio a acusação veementemente!

O Senhor juiz baixou a cabeça, avaliando o tamanho da bronca que estava em suas mãos. Firme no malhete, bateu com vigor três vezes proclamando:
— Caso encerrado! Considero o réu Georgius da Capadócia inocente e a acusação da Associação de Proteção dos Direitos dos Dragões improcedente. E tenho dito!
Sob aplausos e cantos de alegria, nosso Jorge, São Jorge, venceu mais um belo combate contra aqueles que querem que ele suma.
Salve Jorge!






Publicado em Uberlândia Hoje em 19 de março de 2017

quinta-feira, março 2

O mundo é dos loucos

O mundo é dos loucos. Bom, se não é, agem como foi se assim fosse.
Hackearam a primeira dama de plantão, a senhora Temer, e parece que o mundo vai implodir em chamas. Conte-me, que interesse temos lá em saber de conversas de alcova dessa senhora e desse senhor?
Outro senhor muito nervoso, de peruca ridícula e olhar ameaçador, comanda a maior potência bélica do planeta, possuindo sob seu dedo o botão vermelho da morte. E o Vasco provavelmente será vice outra vez.

O mundo é dos loucos e dos bem-aventurados. O Uruguai, esse mesmo que no futebol nos detonou em pleno Maracanã e calou milhares, hoje é exemplo para o mundo. A antiga “Suíça da América do século XIX foi o primeiro país a estabelecer por lei o direito ao divórcio (1907) e um dos primeiros países do mundo a estabelecer o direito das mulheres a votar.”

O mundo é dos loucos e arrogantes. Em 1973 um golpe militar jogou nosso vizinho em trevas. Dizem que as causas foram “a escassez de recursos minerais e energéticos, a carência de tecnologia e a queda do preço da lã e da carne no mercado internacional após a década de 1970.” Porém, isso felizmente passou e, a duras penas, após muitos ditadores, o país encontra a normalidade lançando-se novamente em avanços sociais e democracia plena.
Agrade uns ou horrorize a outros, o pequeno país legalizou o aborto e o consumo de maconha para uso recreativo em 2014.
Só para ilustrar “Desde a legalização do aborto no Uruguai, em dezembro de 2012, até a maio de 2013, nenhuma mulher faleceu vítima do procedimento.”

O mundo é dos loucos e dos audazes.
Da Redação Ciclo Vivo: “Nos últimos anos o Uruguai tem incentivado a produção de energia limpa. Os esforços governamentais, em parceria com empresas privadas, foram tão bem sucedidos, que o país já tem 94,5% de toda a sua energia proveniente de fontes renováveis. Mas, eles não querem parar por aí.”
O pequeno país sul-americano é um dos grandes exemplos internacionais também em redução de emissões de gases do efeito estufa. De acordo com Ramón Méndez, diretor nacional de energia, o intuito é “cortar as emissões de carbono em 88% até 2017, tendo como base os dados médios de 2009 a 2013.”

O mundo simplesmente é dos loucos, dos saudavelmente loucos.
Contam. Andando pelo centro da cidade, encontra-se com homem bem aprumado, jeito de gente tranquila, com belo sorriso nos lábios a mostrar dentes brancos de ator de novela, em luta para subir em poste.
Preocupado toma coragem em ajudar o desatinado.
— Meu amigo, vamos acalmar, o sol está quente, senta comigo ali e me conte seu problema. Por mais confuso que possa parecer tudo tem saída.
— Não estou entendendo sua aflição meu senhor, qual o motivo de tamanha preocupação?
Isso em português claro e limpo, sem tropeço em vogais ou sílabas tônicas.
— É que o senhor está querendo subir em um poste no ponto mais movimentado da cidade!
— Calma, sei o que estou fazendo, só quero comer goiaba!
— Pronto é isso. Isso é um poste e não uma goiabeira!
— Meu caro, é o seguinte. A goiaba está no meu bolso. E quer saber? Eu a como onde eu quiser!
O mundo é dos loucos. Na verdade, melhor seria que fosse assim cada um. Em sua loucura mansa, curariam o mundo. No mais, Gerais.







quarta-feira, fevereiro 15

Recuerdos

40 anos de amizade - 40 years  friendship

O tempo judia, estraga/melhora mas a alma de criança vive trancada dentro de cada um de nós. Força saída todo instante. Insistimos em mantê-la presa, tristonha de brilho e luz. Esses três ai nas fotos mostram o resultado de deixar esse lado de permitir moleque sempre solto, livre como passarinho, livre como vento, livre com poeira de estrela.

Quarenta anos, quarenta anos, de verdadeira amizade pura e verdadeira. Encontros poucos mas quando acontecem são intensos como explosões de uma super nova - hecatombe . Sempre presente a sensação que ontem foi que nos encontramos pela última vez. Cada um mora dentro do outro, em prova verdadeira de que amor fraternal existe.












segunda-feira, fevereiro 13

Progresso

O barulho de roncos e sirenes surgiu sem aviso no meio da mata. A terra, em tremor, assustou gentes, galinhas e pôs em revoada passarinhos de tudo quanto é qualidade canto e cor. O céu, aquarela em movimento. Cachorro uivava medo. Cavalo em porta de venda desfez amarra de cabeçada e vazou na braquiária, sem rumo, mas sempre em trilheiro oposto ao piseiro, que lento se via chegar.
Foi um entreolhar geral. Apenas alguns sorriam já sabendo do ocorrido.
Era surpresa do prefeito para seu povo. Foi tudo combinado na quietura de gabinetes regados a cafezinhos, água mineral e brinde com espumante de boa procedência e safra.
O progresso finalmente chegaria aos grotões abandonados por homens e Deus. Ali nem o Cadreel, o Mefistófeles, o Belzebu, queria pouso.
A vida ia melhorar.
Da pequena estrada de chão, que se estendia da vila muitas léguas mata adentro até no susto dar de encontro ao asfalto, brotaram caminhões, tratores, máquinas imensas e gente, muita gente.
Muita árvore tombou no passar do cortejo de aço. Muito ninho de angola foi pisoado.
Depois de grande espera finalmente chegava a tão prometida obra.
A vila amanheceu de um jeito e posou de outro. Pouco retirado da rua única construiu-se acampamento. Primeiro barracas imensas de lona. Depois furaram fossas, montaram cozinha e até campinho de futebol.
A ordem naquele momento era evitar a vila. Desincômodo para moradores não.
Tempo. Agora casas de alvenaria, vila dos operários e dos engenheiros apartada, vendas cheias e sortidas. Vida seguia. E vida e sustento era a obra.

Fim-de-semana armava-se torda imensa. Tinha baile. Sanfona pé-de-serra soprava até altas horas.
Assim, uma a uma, as moças do lugar foram arrumando par. Namorando, noivando, casando. Umas emprenhavam e moço guardava na capoeira. Via-se mais não. Esbravejo de pai era comum, mas amolecia quando rebento nascia inocente e lindo.

Assim foi. Dia veio ideia. Sêo Hildebrando e dona Valdirene concluíram que era hora de desencalhar a filha mais velha Isolina.
Como moravam no sítio, a única chance de aproximar a filha dos futuros-quem-sabe-maridos era a festa da torda.
Relutante em sua timidez, Isolina acabou cedendo. Não sem muito conselho de mãe. Vê se me arruma moço bão de posto na obra, fecha as perna e segura mão de afoitado viu filha!

Na festa pai se ajeitou em um canto, com garrafa de boa cachaça a botar tento e proteção na cria.
Ela refuga dois, três pedidos de dança, vira e vê cara de pai amarrada. Se solta e dança com um, com outro e mais outro. Por fim achou rapaz arrumado, cheirando a leite de rosas e com botina bem zelada. Encantou. Marcaram encontro e visita ao sítio para pedir namoro.

Na volta pra casa, já na charrete, o pai animado pela pinga e pelo encontro, pergunta à filha:
— E aí filha, moço bão né?
— Bão pai. Respeitador que só.
— E o serviço, pelo tipo é de bom posto, é engenheiro, tô certo?
— Tá não pai, diz ele que tem cargo dos mais importantes e sem ele a obra não anda. É diretor de pare-siga.
O velho não quis se fazer de dessabido . Calado ficou, matutando que profissão era essa. Queria coisa boa, de posição e recurso para filha. Ia assuntar. Ora, se não!

No amanhecer escuro do dia seguinte arriou cavalo e seguiu para a obra. Objetivo traçado.
Demorou muito não. Na entrada da obra a estrada afinava, era cavada entre pedras e as rochas permitiam passagem de um ser vivente de cada vez. Fosse carro, caminhão, trator ou cavalo, era um estreito que só.
Já na boca do estreito deu com o moço, agora de uniforme amarelo e capacete, com placa na mão. Ele a virava para um lado, que era vermelho e escrito PARE. A torcia para o outro em verde, era SIGA.

Operador de pare-siga, pensou então o pai. Pensativo, deu volta nos cascos, rumo de casa.
Pois olhe, se deu casamento, não posso contar. Isolina, mande notícias.

William H Stutz
Veterinário e escritor






Publicado em Uberlândia Hoje em 12 de fevereiro de 2017

segunda-feira, fevereiro 6

Envelhecer

 Pois assim é. De tempos para cá ando a pensar no tal do envelhecer. Absolutamente não, nada me diz respeito diretamente apesar de me saber em constante mudança de era. Isso, o início da contagem dos anos já se vai longe, mas nem tanto assim. Acostumei a buscar a marca do tempo nas outras pessoas. Quando você fica muito, muito tempo sem encontrar alguém e do nada topa com ele, ou ela, as manifestações são mais marcantes. É cada susto que só.


A mais bela e cobiçada da rua, dono de sonhos e desejos de tantos, como flor de sete-copas murchou, amarelou a pele, o sorriso e este dói, ficou pálido. São alguns casos isolados te garanto. Para algumas gentes o tempo é extremamente generoso e com o seu passar estas pessoas ficam cada vez mais bonitas, pele linda, sorriso radiante. Tudo haver com modo de vida e aqui não me remeto a alimentação regrada, exercícios físicos diários que tem sim sua função de inegável preservar, nem conto de medicamentos milagrosos vendidos em cápsulas ou garrafadas. Falo do coração. Não do coração anatômico que faz circular e trocar o sangue, encher átrios, ventrículos, válvulas mitrais , veias cava e, por vezes, pontes e stends.

Não. Refiro-me ao coração poético, benfazejo, que dói de amor e não de enfarto, que pára de paixão e não na morte física. Refiro-me ao coração da sensibilidade, da afeição, do amor. Quem tem este acesso pulsando é eterno jovem. Pode até envelhecer, mas é lento e quase imperceptível. Repare quem ama e quem vive paixão. É diferente. Mais leve, mais sorrisos, menos desatento com as coisas do mundo. Passarinho é lírico, caramujo simpático, borboletas bailarinas.
Que todo ser vivente envelhece é fato, mas como o fazem é que é fita.

Ódios, rancores, sentimento de vingança. Inveja, medo, ganância. Bebem dessas águas e envelhecem feios e solitários.
E por falar nisso, hoje ouvi frase ótima sobre beleza e feiúra. Conto: “Gente feia é igual gente bonita, só que feia”.
Contam com muita propriedade que as três causas principais de mortes entre os erados são: tombo, friagem e caganeira, nessa ordem. Cuide-se pois e deixe a poesia te levar, o amor de preencher, o sorriso te iluminar. Que vai morrer, a lá isso vai, mas tenha certeza, vai demorar um cadinho mais. A escolha é sua. No mais, Gerais.







Publicado em Uberlândia Hoje 05 de fevereiro de 2017

segunda-feira, janeiro 23

Torneira

Nada melhor nesse mundo do que amigos daqueles que você pode contar sempre, em qualquer situação ou embaraço. Conhecidos milhares, amigos poucos. Pois foi exatamente um amigo a me convidar para seu aniversário.
Sabedor do dia exato, botei algum estranhamento apenas no horário: meio do dia de uma bruta sexta-feira. Bom, pensei, assim seja, chego pouco mais tarde e saio direto do trabalho para lá almoçar em festa.

Feito. Cheguei com sol a pino, presente na mão e fome de anteontem, como cantou Chico. Não, não seria feijoada, mas churrasco e um suculento pernil assado.
Toco a campainha meio sem graça, pois a festa seria em casa de outro. Nada não. Logo fico sabendo que a festança seria sábado, ou seja, cheguei vinte e quatro horas adiantado. Tirando a vergonha passada ganhei foi muita boa prosa e disposição para ajudar no temperar pernil, o que na realidade não ocorreu. A irmã do agora amigo em comum o fez sozinha.

O ambiente da casa merece um detalhado descrever. Ficaria horas pormenorizando as belezas de uma ilha verde bem no centro da cidade. Quem está dentro se vê na mata, quem está fora nada vê. Muita planta e água de um azul infinito a jorrar de mina incessante. Passarinhos aos montes e, para meu deleite, uma colônia respeitável de morcegos, moradores permanentes da varanda. Morcegos polinizadores, mansos a fazer o eterno preservar e multiplicar da vida.

Ali ficamos a conversar e degustar saborosa cerveja até a boca da noite nos engolir mansa. Nada de acender luzes. Só no breu total estratégicas luminárias concederiam aspecto mágico ao frondoso jardim e à piscina.
Saí encantado esperando o novo dia.
Assim feito, sábado começou cedo naquele paraíso.
Boa música ofertada por outro amigo, mestre DJ de bom gosto inquestionável. O dia passava manso e divertido.
Todos sabem o resultado mais cedo ou mais tarde de uma cerveja. Isso, xixi.

Levantei tranquilo e fui ao banheiro para desbeber. Feito e aliviado fui lavar mãos. Aí meu caro, me deparei com a pia e sua torneira. Olhei bem para a dita sem entendê-la. Uma torneira será sempre uma torneira, por mais diferente que possa parecer. Não me fiz de rogado e levei a mão para abri-la. Convém contar que não era daquelas de torcer para direita ou esquerda. A manopla era reta.
Levei para um lado, nada. Levei para outro e que água que nada. Olhei para os lados já pensando no alívio de que não havia ninguém a me ver. Com olhos atentos me coloquei a observar aquele desafiador pedaço de metal, a me fazer de completo besta. Perguntar a alguém que sabe? Nunca! A gozação iria durar dias.

Não poderia ser passado para trás por uma simples torneira. Nem tão simples assim, cá prá nós. Desse modo o tempo ia ligeiro, até outro apertado à porta do lavabo bater. Era tudo ou nada. Impaciente, mas sem raiva, bati a mão naquele pedaço de metal a me fitar. Olha só! Água abundante a jorrar. O jogo era este. Para cima abria, para baixo fechava. Para cima e à direita água quente. O contrário, água fria.
Mãos lavadas e perfumadas saí à luz do dia como quem sabe tudo. Pensei no coitado do próximo a entrar. Ou seria só eu o dessabido?

Assim ficou mais uma aula de que pouco de quase nada sabemos. Precioso esse nosso viver.
De torneira lição, só para quem bem quer aprender, se assim não for vai-se em vazio e mãos sem lavar.

Para encerrar o prazeroso dia só mesmo um indescritível arroz com linguiça com direito a fantástica aula de culinária recheada de segredos dignos dos melhores chefs do mundo, caprichosamente produzido por outro novo amigo.






Publicado em Uberlândia Hoje em 22 de janeiro de 2017

quarta-feira, janeiro 11

To carná or not carná

"Quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé"
Acordei com esse trechinho de Samba da Minha Terra do genial Dorival Caymmi criado em um longínquo 1940.

A polêmica do momento é ter ou não ter carnaval em nossa querida Uberlândia, machucada, tristonha, deitada em leito de UTI em sofrimento depois de tão maltratada, chagas abertas para quem quiser ver.

Em época de vacas magras faz-se festa monumental de aniversário para filho? Acho que não. E por isso deixamos de gostar menos do filho? Nunca. Sim dói, nos sentimos os piores seres do mundo, mas engolimos seco, colheita e fartura virão, assim como aniversários. Conversamos e rola um bolo, se der uma jarra de Q-suco. Muitos parabéns e beijos de verdadeiro amor. Quanto os fatos são explicados, ninguém vai para terapia por conta de uma festa perdida.

Acho até que não sou mal sujeito mas querem saber? Estou momentaneamente doente do pé e muito ruim da cabeça. Não posso imaginar festa em sala de espera de unidade intensiva.

Vamos reerguer nossa amada cidade, vamos devolver à nossa gente a alegria e orgulho de viver em cidade bela, "plena de sol, sem chaminés ou fumaça" como cantando em Terral de Fagner e ai sim festejar com a alegria de tamborins, caixas. Dedos ligeiros a vibrar melódicas cuícas, agogôs e reco-recos.
Surdo e repique a dominar uma avenida vibrante de alegria e com a certeza de poder voltar para casa sem riscos de cair em buracos, que seus filhos estão sendo bem cuidados em creches e escolas públicas de qualidade, que a medicação da avó, da tia do neto, do filho de todos estará nas prateleiras . Utopia? Acho que não, quem viver verá.
Verá muitos carnavais, muitos sorrisos muita alegria.
Hoje não. Tenhamos paciência. O impossível pode-se fazer, milagre demora um pouquinho mais.

Vamos juntos, poder público e nós cidadãos fazer Uberlândia brilhar em carro abre alas e muitos carros alegóricos, muito trabalho pela frente e depois, ai sim muitos carnavais, natais luzes e tais.
Me veio um lampejo. Gostamos tanto assim de carnaval? Está tão entranhado na nossa cultura popular como na Bahia, em Olinda, em maracatus de São Luis, ou o Carnaboi de Manaus?
Ou temos carnaval de rua, blocos, fantasias, alegria espontânea como Ouro Preto, São João del-Rei e tantas outras?

Sem custo, fechar trecho de avenida e pronto o povo faz sua festa sem a dependência paternal do estado. Cria-se nossa Praça Castro Alves e ali, para os que gostam que façam ordeira e pacificamente sua manifestação carnavalesca. As finanças públicas agradecem, e o povo faz a festa.

Sim sou ruim da cabeça quando se trata de assunto que dizem respeito à coletividade. mas recursos públicos para carnaval em plena crise?  Educação, Hospital Municipal a pleno vapor, salários, atendimento integral à população em todas as áreas ai sim. Tudo no lugar então carnavais a mil. Antes? Não mesmo!
Tenham dó. Mão na consciência gente. Mão na consciência

" Este ano eu vou sair de buda
A minha fantasia ninguém muda
Mexe o buda pra cá
Mexe o buda pra lá
O que eu quero é rebolar

A minha fantasia de buda
Foi um presente do sultão de lá
Mas se esse ano chover
A minha buda
Vai encolher "

Marchinha carnavalesca de domínio público antiga que só






Uberlândia Hoje  15 de janeiro de 2017


Post Scriptum: Este texto não foi revisado, nasceu assim em desabafo, erros? Me contem por favor

segunda-feira, janeiro 2

Voltamos

Depois de quatro anos fora do ar, sem divulgar ações de nossa Secretaria Municipal de Saúde estamos de volta a todo vapor.
Os motivos que nos levaram a esta parada não merecem ser nem mencionados, todos já sabem.
Começa um período de reconstrução, de retorno.
A nossa eterna paixão pelo fazer renasce!
Feliz ano novo a todos !
2017 é um marco de esperança, de mudanças para melhor!

Palavras de ordem ? TRABALHO DURO, RECONSTRUÇÃO, ESPERANÇA !

Nosso endereço: Blog da Saúde de Uberlândia




segunda-feira, dezembro 26

Assim será



Queridos amigos do bem, um lindo e iluminado dia de Natal exatamente como a manhã que se faz anunciar. Esta é minha última crônica para nosso querido Jornal CORREIO que também se despede dia 31. Acabaram-se os domingos. Nó na garganta aflição em dedos que continuam a escrever como se houvessem muitos domingos a publicar pela frente. Tristeza e alegria. Tristeza pela falta que nosso CORREIO fará, alegria ter passado pela experiência maravilhosa de aqui estar durante incontáveis domingos.
Amigos, gente do bem, um forte abraço para quem é de abraço, um beijo especial para quem é de beijo. Nos veremos por ai.
Um 2017 de muita esperança.
 
William H Stutz
whstutz@gmail.com




Querido Clarimundo Campos, vou parar com a frescura e chamá-lo apenas Clarimundo. Caro Clarimundo, como vão as coisa por ai no mundo das estrelas e das luzes? Tem encontrado muita gente conhecida? Sei que muitos tomaram outro rumo. Não têm merecimento das estrelas e devem andar a beirar porta de entrada do universo de gente do bem. Mas estes, que fiquem por lá o tempo que for necessário para então, na base de muita reza e penitência receber alvará de entrada. Mas me conte, tem ai tudo que sempre botamos atenção? Tem moça bonita de vestido de chita a balançar ao vento das estrelas? Tem serra azul e córrego de pescar lambari e traíra? Tem cachoeiras enormes com poções de nadar em água gelada de tão boa? E passarinho tem de monte em cantoria sem fim de embalar sono tranquilo? Matas, cerradão, ponta de areia, mar azul turquesa e praias de areia fina e branca?

Tá certo concordo, chega de perguntação, pois conheço resposta – Quer conhecer, vem prá cá.
Hora vou meu querido amigo, quando puxarem minha senha dando baixa no meu CPF pego o trecho e, se acharem que faço por merecer, ganho entrada direto, se bem que acho que vou ter que passar algum tempo no meio do caminho, pois de santo, nem tanto. Fiz das minhas, poucas, mas fiz, devo ter alguma duplicata vencida, algum acerto há de acontecer. Reconheço.

Sei que deve estar acompanhando curioso os acontecimentos aqui por essas bandas, mas se distraiu ponha tento. Moço, nem te conto, não que perdeu muita coisa não.
O Bicho humano não vai aprender nunca. Sinto que até o fim dos tempos, quando já não tiver mais nada que destruir, ele vai continuar nesse ato de andar de fasto.
Mas deixa prá Clarimundo é sina, fado cada um escolhe o seu.

O verdadeiro motivo dessa missiva é um agradecimento. Pois então. Por mágica sua, apeei nesse espaço aqui no CORREIO de Uberlândia. Claro, fui trazido pelas mãos generosas de Ivan Santos, Cézar Honório, e recebido com uma trupe gentil de primeira linha como Pablo Pacheco, Núbia Mota e outros tantos que fica difícil aqui citar por conta até de espaço, afinal, como sempre bem lembrava a minha maravilhosa editora a quem de coração agradeço e muito me afeiçoei, Adreana Oliveira, sobre quantidade de caracteres e tais.

Bem sei, teimoso que sou, sempre burlei a regra, Adre, pacientemente, diminua o “olho” da crônica. Nunca cortou ou editou uma linha, figura especial. Mas aí de seu plano astral tenho certeza que você soprou meu nome para estas fantásticas pessoas. Deu no que deu. Pode acreditar, caro Clarimundo, sempre tentei fazer o melhor, como disse na minha primeira crônica, substituir você foi sempre um desafio impossível, fazer jus ao seu espaço sempre me exigiu esforço sobre-humano em tentativa semanal de me superar e fazer por merecer.

Não sei se consegui, mas tentei e muito. Assim, meu querido amigo de escrita, hoje quero, junto com você, me despedir. Não se assuste. Por motivos ligados aos novos tempos ao novo mundo que se faz brilhar, nosso CORREIO se despede também no dia 31. Essa será nossa última crônica logo em dia de Natal. Gostaria, antes do apagar da luzes, do silêncio se fazer nas oficinas, do fechar de cortinas lhe render uma grande salva de palmas, em pé e gritar a plenos pulmões: Bravo Clarimundo do Mundo, da Luz, dos Campos, da vida, da alegria. Bravo, mil vezes obrigado a todos que por aqui pousaram olhar e, em inumeráveis domingos puderam nos fazer companhia. Bravíssimo a todos que compõem o quadro do CORREIO. Meus queridos, o importante é que fizemos parte da história e isso, amigo Clarimundo, isso é eterno.

Feliz Natal e um novo ano de muita paz leitores queridos. Vou sentir uma saudade danada de vocês.
Uberlândia, 25 de dezembro de 2016.








segunda-feira, dezembro 19

Busca





Blocos barrocos
carnavais de tapetes coloridos
lanternas em báculos enfeitados,
lanternas de vime,
fitas e mais fitas além de belas chitas
no sobe e desce das ruas, fria chuva,
Zé Pereira.

num carnaval de pedras
paixão estonteante
amor adolescente, imaturo, de repente
busca por amor puro utópico, alucinante paixão proibida, banida, expurgada

tribunal tendente, pérfido, sem alma
juiz leviano, inconfidente,
quadrilha
sentimentos machucados, corações sofridos
nobre e plebeu- história repetida
final previsto, sórdida armadilha.

amor perpetuado na memória
dias de infindável alegria, para os enamorados sentimento encantatório da mais linda e impossível vitória
sumariamente julgados, friamente afastados

num carnaval de frias pedras
choro e tristeza
paixão agonizante
para um degredo, para os dois, eterno e puro segredo

o tempo,
felizes se fizeram, outros amores, outras e abrasadas quimeras.

Cristalizado na memória, entre confetes, serpentinas, chitas e multicoloridas fitas:
muito carinho, lembrança terna de um carnaval de pedras.

( Era uma vez um carnaval - William H Stutz)

São tantas as maneiras de um verdadeiro amor expressar. O poema acima de minha autoria nasceu muitos, muitos anos atrás. Um amor adolescente, permanente que a vida toda me acompanhou. Estranha a vida, quisera eu saber motivos para guardar na lembranças amores tão distantes, tentativa de resgate? Por que não? Vontade de saber como está, como vive onde se encontra. Todos sofremos de lonjuras como disse com maestria Manoel de Barros, o grande poeta das miudezas, aquele que me ensinou o olhar para todos os lados, não em busca das riquezas gigantescas e velozes, mas as lentas quase invisíveis seu “Apanhador de desperdícios” encanta.

Os amores foram feitos para durar para sempre, bom quase todos. Pode-se viver uma vida com alguém e o amor não ser o bastante. Vira costume, cadeira ao sol, acomodado. De amor a escrava solidão, rotina sufocante, vazia. Insistimos a malhar ferro frio.

Não. Fomos feitos para sermos felizes, “a vida não é uma condenação” me disse um amor verdadeiro. A busca perfeita, eterna busca, um dia um dia surge em luz. Parafraseio Alda, minha mãe “no fundo bem no fundo encontrarás a pérola” e não existe tempo nem lonjura que separe sentimento verdadeiro, puro. O feito para eterno ser eterno será, sem costume, rotina, bocejos ou indiferença.

Cada dia um pedido de namoro, cada amanhecer beijo doce, variados sabores. Feliz aquele que da poltrona da vida arriba, por vontade própria ou atirado. Tem a chance de começar tudo outra vez. E lá não é tal uma dádiva? Quantos podem ou querem? “Mergulha fundo/Mergulha mais fundo ainda/ Como um pescador de pérolas/ E procura/ Procura sem te cansar! 
(Swâmi Paramananda, Índia, sec. 19)
Sim encontrei minha rara joia, você também achará a sua. Basta e só basta procurar.

Assim Manoel, o de Barros, nos ensina “Prezo a velocidade/ das tartarugas mais que as dos mísseis./ Tenho em mim esse atraso de nascença./ Eu fui aparelhado /para gostar de passarinhos. Mestre, mestre, quanta saudade: “ Só uso a palavra para compor os meus silêncios.”

Reaprendi o amor verdadeiro. No mais Gerias. Em festa.







Jornal Correio de Uberlândia 18 de dezembro de 2016








terça-feira, dezembro 13

Mesa 15



Difícil em poucas linhas descrever a mesa 15. Um universo em miniatura, sempre em expansão. Alguns assíduos são os eternos guardiões do espaço ali reservado. Entorno deles, em variáveis estado de matéria, orbitam algumas centenas de sempre bem-vindos visitantes. Alguns sentados, outros em pé mesmo, trocam dedo de prosa e boas gargalhadas. Aliás, o que mais se faz ali na mesa 15 é rir. De tudo. O bom humor prevalece sempre. Discussões são comuns e acaloradas. Os assuntos, motivadores e variados: política, futebol, gosto musical. Se não estou enganado em relação a este é uma unanimidade: sertanejo não!

Sempre em pauta cinema, receitas de hambúrgueres, churrascos e tipos de bebidas. Aliás, aí um ponto interessante. Tem gosto para todas. Alguns só bebem a cerveja A, outros B, mais outros C. Reina sem problemas a democracia plena. Cada um pede o que gosta. Nada de cerveja? Refrigerante zero, colorido coquetel de frutas, vodca ou whisky, estão sempre presentes. Até água ali se toma!

Eclética, etílica e, repito, democrática. Não é uma confraria de homens. As mulheres estão sempre presentes e dão cor e graça à mesa 15, onde todos são iguais independente de tudo.

Ali é um lugar de integração absoluta. Ninguém se importa se você é de direita ou de esquerda. As referências são as mais variadas. Reina a falsa máxima de Voltaire. “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Falsa sim, pois em obra alguma do grande iluminista foi encontrada tal citação. Poderia até ser atribuída a Panglós, ator principal de Cândido, o otimista, mas lá não está. Acalorado debate pode surgir à mesa 15 sobre o assunto, mas também ninguém está tão disposto assim, e com razão.

Ali, convivem também em plena harmonia, sempre sujeitos a gozações, corintianos, palmeirenses, atleticanos e até cruzeirenses e flamenguistas. Seu time perdeu? Tome sarro. Entenda sarro como “ato peremptório de divertir-se de outrem”, e não aquelas outras definições que de lampejo surgem à cabeça. Podemos chamar a mesa 15 de irmandade ou similar? Seguro que não, pois ali nada de estatutos ou regras rígidas prevalecem. confraria talvez. Impera sim o bom senso e a harmonia. Alguns foram criados perto de cachoeiras e falam aos berros. Parece briga, o que nunca é. Outros sussurram e ficam roucos com música alta.

A mesa vive plena era tecnológica. Tem grupo nas redes sociais onde, como em todos os grupos, amanhece com dez ou 12 bons dias, marca-se acontecimentos, festejos de aniversários e o tradicional de dezembro “inimigo invisível ou oculto”. Aqui só vale presente deboche. Mesa 15 não tem sinais ou toques, mas só de olhar um para outro se sabe o que rola. Diversão garantida, sem traumas.

Fui apresentado à mesa 15 por um amigo em comum, em um momento crítico de minha vida. Senti-me plenamente acolhido e falta me faz quando lá não posso estar. Laços reais de amizade por meio dela foram consolidados. Posso dizer com propriedade que aquele grupo me fez rir novamente. Fim definitivo de vivido luto e pronto! Quisera eu que todos tivessem uma mesa quinze para sentar. As gentes seriam menos solitárias, mais solidárias, menos tristes.

Vida longa à mesa 15!






Jornal Correio em 11 de dezembro de 2016

segunda-feira, dezembro 5

Dizer adeus



Era ainda madrugada adentro. De tão frio nem grilos cantavam, pios de coruja haviam se silenciado, corujas/encorujadas se aquietaram na tentativa de se aquecer, nem a fome as faria voar esta noite.
A lua exuberante em um céu estrelado — anunciavam geada.

Uma única e pálida lamparina ardia na casa. Os movimentos eram cuidadosamente calculados para que nem um ruído acordasse a família. Vestiu-se devagar, sentado na cama. De minuto a minuto lançava um olhar para a mulher deitada ao seu lado. Só seus vastos e perfumados cabelos longos podiam ser vistos, escondida estava sob várias mantas multicoloridas de tear. Percebia-se sua respiração cadenciada; profundo sono; com certeza repleto de sonhos calmos/suaves. Quanto calor emanava daquele corpo oculto, que vontade de ficar e deitar-se ao seu lado, apertá-la contra seu corpo, amá-la, amá-la, amá-la.
Calçou a botina, seus dedos ainda doíam da lida do dia anterior, assim como as suas costas e braços. Envelhecia. Levantou-se mais lentamente ainda para que o já gasto catre não rangesse. Passou levemente as mãos nas pontas daqueles cabelos sedosos.

Caminhando para a porta do quarto, olhou furtivo em direção de sua companheira, as sombras de seus contornos dançavam nas paredes projetadas pela luz da lamparina que agora ele segurava. Não mais a via. Cômodo em breu.

Parou à porta do quarto do filho, mantas espalhadas pelo chão, menino encolhido na cama. Ternamente recolheu as cobertas e cobriu seu garoto. Beijo na testa. O pequeno entreabriu os olhos e sorriu longe. Sentiu o calor voltando e sussurrando um “Eu te amo” para o pai, virou-se a dormir.

No quarto em frente, a filha. Menina-moça quase adulta, adolescente. Beijou-lhe rapidamente a face fria pelo vento que matreiramente insistia em entrar pela janela semi-aberta como que a trazer murmúrios de juras de amor de algum pretendente desconhecido. Fechou a janela rápido, espantou e apagou os recados, pai ciumento.

Bebeu um gole de café frio, caminhou para a porta da varanda, apagou a lamparina. Escureceu a casa, escureceu sua alma, junto com aquela chama apagou-se também parte imensa de sua vida. Não podia, não sabia viver sem os seus.

Partiu jurando voltar.






Jornal Correio em 4 de dezembro de 2016

segunda-feira, novembro 28

Superlua



Foto  da web

Pois então, dias atrás tivemos a “Superlua”. Trem de doido, a tão cantada em versos e prosas, inspiração dos “poetas, seresteiros namorados, correi…”, deu o maior 171 na gente. Não que tenha não ocorrido, as potentes lentes de jornalistas e astrônomos nos mostraram o fenômeno mundo afora em imagens televisivas. Aqui choveu a cântaros. Uma super bem-vinda água do céu a verter. Para ser sincero, mais importante do que a lua em grandeza diferente. Não, não é isso. Sou grande admirador e apreciador de luas, sóis e cometas, a ponto de me deixar largado no chão a contar pequenos pontos moventes como se fossem discos voadores, quando não passam de invenção humana, os satélites artificiais. São dezenas deles a toda hora, já parou para olhar?

Pois digo, os astros andam a nos pregar peças com uma constância danada. Outro dia foi uma chuva de meteoros que melou. Fiquei noite inteira, olhar fixo em um céu doente de tanta estrela, com minha lista imensa de pedidos a fazer para cada um avistado. Frustração. Nem um acertinho na mega-sena ou amor perfeito consegui emplacar. Há alguns anos foi Mr Cometa Halley, que deu as caras numa ressaca de deslumbre e beleza decepcionante. Aliás, a tal chuva de meteoros, dizem, é o rastro do tão falado cometa da enganação. Bom, vamos esperar 2061. Quem sabe toma tipo e produz um espetáculo decente? Talvez consiga algum patrocínio via lei Rouanet que lhe permita cobrir-se de brilho convincente. Quem viver verá.

O céu e suas peripécias, a bela Estrela d’alva nem estrela é. Para quem não sabe é Vênus, um planeta. Plutão que era planeta com P maiúsculo foi rebaixado a categoria de planeta anão. Não existia essa categoria, mas a União Astronômica Internacional (UAI), sabia que era coisa nossa de mineiro foi lá e criou o termo para não humilhar demais o astro. Não gostamos de nos desfazer de nada, nem de ninguém. Somos observadores atentos, mas maldade deixe para os outros.

O melhor foi a história de um amigo. Mesmo com a invernada que deu, tomou todas e foi para o quintal à caça da superlua. Não deu outra, ele viu e esparramou a notícia pelas redes sociais — Cara essa superlua é realmente super. Estou embriagado de tanta beleza, nunca vi nada igual. Vocês estão curtindo? Dedilhava freneticamente em seu celular.

Todos respondiam quase a mesma coisa: — Você bebeu demais. Tem lua não, as nuvens estão cobrindo tudo!

— Que nada, aqui tem chuvisco só e a tal é Super mesmo.

Intrigados, mais do que curiosos, alguns amigos foram à sua casa conferir. O encontraram encharcado no meio do gramado, em ataque eufórico, abraçado com uma garrafa de uísque. — Ali ó, olha que beleza, balbuciou quase em choro de alegria.

— Cara, vamos entrar e sair dessa chuva!

— Nunca! E perder esse espetáculo?!

— Vamos sô, você pode gripar!

— Saio não. Só na hora que ela for embora!

Cansados de tentar convencer bebum, um dos amigos perdeu a Brahma!

— Vai entrar sim, o que você está admirando seu mala é a antena parabólica do vizinho.

Pois é, os astros não mentem jamais, mas que enganam… Ah, isso fazem com frequência.






segunda-feira, novembro 21

Belo Horizonte




Nunca fui bom de matemática. Tabuada era um suplício. A de dez, de dois, com esforço a de cinco, eu me dava bem. Tinha a de um, mas esta a professora nunca pedia. Detalhe, não podia contar nos dedos, pois as mãos tinham que ficar sobre a carteira, para serem vistas pela mestra possuída, olhos de maritaca, de tão vermelhos de raiva. A régua na mão mais parecia um facão, pronto a decepar nosso pescoço em caso de erro. Verruga enorme no nariz. Claro, não era nada disso. Ela era bonita e carinhosa conosco, mas era como bruxa que a víamos em dia de tabuada. Talvez fosse essa a nossa maior preocupação infantil, a tal da matemática. O ano lembro bem, 1963. Ano do assassinato de Kennedy. Fomos dispensados das aulas do grupo escolar e lembro que, ao chegar em casa, todos choravam como se tivessem perdido alguém da família. Chorei também, mesmo não sabendo motivo.
O país vivia um frágil lampejo de democracia. O parlamentarismo acabava de ser derrota nas urnas. Jango presidente. O resto da história certamente todos conhecem.

Mas queria mesmo é falar de Belo Horizonte, minha Curral del Rei. Os ficus enfeitavam a Avenida Afonsa Penna e onde hoje está a rodoviária ficava a bela Feira de Amostras. Foi lá que, pela primeira vez, vi um formigueiro vivo, funcionando dentro de um terrário de vidro. Amor à primeira vista pelas miudezas da natureza mudou meu olhar. Passei a buscar ainda criança as maravilhas de um mundo quase invisível para a maioria das pessoas. Parafraseando Manoel de Barros, "meu quintal (tornou-se) é maior do que o mundo".

Cidade pacata, os bondes estavam sendo desativados, mas ainda os vi rodando em guinchos e suaves solavancos em morosa velocidade. A vida em BH era assim. Crianças como eu iam a pé para o Instituto de Educação. Correria e risadas na saída, carrinho amarelo da Kibon, saquinhos de Delicado, balas Chita e pirulitos de açúcar em tabuleiro de madeira. A vida era doce.
Pousei Uberlândia.

Outro dia, um domingo, fui convidado por um amigo/irmão para uma galinhada beneficente. O cabra estava num mau humor de fazer inveja em cachorro bravo amarrado. Danou a excomungar Belo Horizonte. — E você é de lá! Bramiu ao me ver.
— Como assim? Em espanto.
 —Como é que pode morar num inferno daquele?
E eu ainda sem entender.

— Imagina - continuou - Você chega ao aeroporto e até que te deixam sair se vão duas, três horas. Pega o buzu, pois o aeroporto fica literalmente nos confins do mundo, e são mais duas, três horas até chegar ao centro. Pega um táxi para o local de reunião, trânsito parado e lá se vão mais três, quatro horas. Isto quando consegue chegar. Entardece, aí vira loucura geral. Você tenta voltar para o hotel, outra eternidade. Toma um banho com o estômago nas costas de tanta fome e sai. Outra guerra. Aí quando você chega ao restaurante, ele está fechado! Tem dó gente! Como é que você consegue morar num lugar desse? 

Eu, calado, deixo desabafar. Não me contenho. Ataque de riso daqueles incontroláveis. O amigo estava assim porque teria que viajar e de carro, desta vez para a capital.
Rimos juntos. Ele já estava conformado.
 —Também não é assim, né mano velho! 
— É, suspirou. Tô fazendo drama.
E tome risadas.

Isto me fez lembrar de outro amigo que mora aqui no Prata. Fomos juntos a BH ministrar curso. Na Savassi, tempão para atravessar a Getulio Vargas. Ele, tranquilo, olhou para um lado, olhou para outro e me cutucou com pergunta: — Povo daqui trabalha não? Ao ver minha cara de desentendido completou: — Uai, eles só ficam andando de carro o dia todo!
Saudades de minha Belo Horizonte.






sexta-feira, novembro 18

Vento verde



Moleque nas cercas vivas. Criava ondas verde vegetal imitando um mar vertical. Trazia paz e lembranças de um mundo de água longe. O cheiro de maresia veio fundo enchendo pulmões. A espuma se formando a cada onda quebrada. As bolhas dos buraquinhos dos tatuis.

Senti cheiro de moqueca de Marlene e seus encantos culinários. Senti nos olhos e na garganta o gosto salgado de um tempo indefinido. Lágrimas são filhas do mar, mergulhei em onda imaginária, sentindo o prazer que quem só mergulhou conhece. Um abraço quase materno da água.

Um aperto carinhoso lhe segurando por todo o corpo. Cada milímetro. Vontade de virar peixe naquele imenso útero protetor. Vento trouxe outra onda verde, casal de bem-te-vis surfaram alegres entre a folhas. Ali deve ter ninho. Melancolia tomou conta. Tinha acabado de fechar a última página de “A morte de Ivan Ilitch”. Tolstoi produz um efeito estranho em quem o lê. A desconstrução da alma humana de seus personagem é certeira e direta. Sei que vou ficar dias impregnado de Ilich.

A onda verde. Vento morno para um outubro que não se faz anunciar. A beleza da primavera ainda se deixa notar tímida com seus ipês brancos, flores que lembram lenços de linho, a balançar em despedida de navio quando, lentamente, manobra em um desatracar do cais do porto.

O vento agora segura, em congelada imagem, andorinhas. Pairam em leveza, observam. O vento é sólido amparo para elas, gaviões e abutres. A maré virou. Agora em rodopios a cerca viva balança histérica. Parecem saias de monjas empurradas para o alto. Os bem-te-vis, juntinhos, pousam no chão. Suas penas também esvoaçam em descabelo, talvez preocupados com os filhotes, assustados com corcovear dos galhos como brinquedo de parque de diversão. Lembranças voltam a girar com aquele quase redemoinho.

Um telefone toca, um cão late, um carro passa com música alta e de péssima qualidade. Quem dotado de bom gosto musical colocaria música dessa altura numa merda de carro? Dizem que agora dá multa. Tá, mais uma lei para não ser cumprida. E tem quem fiscalize?

Já reclamei mil vezes dos imbecis que ocupam vagas de idosos e deficientes em shoppings, clube e supermercados. Apareceu alguém? Alguma “autoridade” se dispôs a sair do conforto de seu nada fazer para agir? Nunca!

O vento verde aquietou-se. Parecia cansado. O mormaço subiu em golfadas. O céu não estava com a mínima vontade de mostrar chuva. Concordo, e lá isso é prosa para um domingo? Avisei, estava tomado por Ilich. Não poderia ser de outra forma. Até passarinho na muda emudece.

Acho que vou ler algum “escritor maldito”. Quem sabe melhoro? Quem sabe reler Anthony Burgess e sua Laranja Mecânica? Não, quero não. Vou me refugiar nas belezas do mágico Manoel de Barros, pois ali sim um viver feliz guarda tons de serenidade:

“Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.”

E o vento verde em arco íris se transformou. Belo domingo!






segunda-feira, novembro 7

Boi boi



Passou a noite na macega a campear bezerro sobre ano fujão. Como havia emprenhado muito mato adentro o anoitecer o abraçou sem que percebesse. Podia culpar o horário de verão, mas este, ali, não fazia a menor diferença. Nem relógio usava! Galo cantou, pulava da cama para as obrigações da roça. Trato para galinhas e porcos no mangueiro que era um mundo. Apartar bezerro, tirar leite, colocar latão na porteira. Só então tinha tempo para um café forte coado. Deu fome? Merenda. Arroz, feijão com toucinho, um ou dois ovos fritos de gema amarelo ouro, mole por cima. Um suco de tamarindo.

A pasta ainda era do ano passado. Deu sono? Cochilava onde dava. No paiol, na rede da varanda ou até sobre o arreio de cavalo a campear. Horário de verão? Existia isso não. Dormia e acordava com as galinhas, literalmente.

Hora ou outra dava nisso, bezerro fujão, javali empurrado para cerrado atentando suas marrãs no cio, raposa no galinheiro, o obrigava a contragosto, diga-se de passagem, a montar guarita com sua velha flober. Às vezes, dava sorte e comia um javaporco ou mesmo um bruto puro javali na bala. A Florestal permitia. O bicho era invasor, a espalhar-se na velocidade de vôo de falcão-peregrino que, visitante, vem fugindo do frio lá do norte. Carne na lata por muito tempo. Fartura. Raposa não matava não, mas atirava perto para passar susto e ver se não voltava. Dava um tempo, porém, sumido o medo e apertando fome, voltava sorrateira.

E assim, perdido em pensamentos e uma ponta de raiva por conta do sono, abriu o amanhecer no meio do nada. Perdeu a batida do garrotinho. Deu conta de que estava perto da casa do compadre Belarmino. Tocou pra lá.

Encontrou o amigo tirando leite no curral. O sereno da manhã teimava em transformar-se em chuva fininha e fria.

— Dia compadre, andando cedo? — Pois então compadre, correndo batida de boi fujão, noite toda e nada.
 — Passa pra dentro do curral, acabando aqui vamos tomar um café. Você está com cara de cansado. — Não é pra menos compadre, mas fico de cá mesmo. 
— Ara, passa pra dentro do curral homem! 
— Passo não. Se eu pisar aí esse boi me pega. Conheço bem ele. 
— Pega nada sô! Pula pra dentro! — Não compadre, esse danado já correu comigo. Se eu entrar é cabeçada certa.

— O que é isso homem, medo de boi? Tô te estranhando. Aí era demais. Não podia nem fingir medo. Bateu a botina na primeira tábua do curral e fincou os dois pés na lama de dentro.

Foi nada não. Mal sentiu o baque do corpo no chão, o boi de olhos bem abertos, como quem quer mesmo, veio com tudo pra cima dele, que ligeiro negaceou. O bicho foi lá adiante, virou nos cascos e investiu outra vez. Ele negou de lado, já jogando o chapéu na cara do desalmado.

Agora nem se afastou. Só virou o corpo e levou a cabeça do filho do cão à força, que fez vento pertinho dos fundilhos do moço. Deu de banda mais uma vez. A lama espalhava pra todo lado, a cada repicada de casco no chão.

Ligeiro passou, deu volta no corpo, rodopiou em salto único e caiu de lá do curral.

Sem fôlego, agachado com mãos apoiadas sobre as pernas, mal conseguiu sussurrar: — Falei, num falei compadre, que esse excomungado ia me pegar?

—Uai, compadre e pegou?






Jornal Correio em 6 de novembro de 2016

Bichos de verão




Chega a hora e não tem quem segure. O ciclo da vida raramente pode ser interrompido, quando não há interferência humana. O entardecer veio em pintura. Tantos tentaram reproduzir, um ou outro mestre na genialidade na lida com pincéis conseguiu. A maioria falha até em foto. A beleza ali é única, perfeita, imexível. Magri criou, ficou. A língua viva permite. Se fosse um poeta ninguém notaria ou então elogiaria sua “criatividade”. Como foi político, sindicalistas caíram de pau. Gosto de inventar palavras.

O imexível pôr do sol se faz. As primeiras luzes vão se acendendo na calmaria. Pronto, é o sinal. Brotam da terra aos milhares, em um balé confusamente sincronizado no chão e se atiram ao ar. As luzes as atraem e ali rodopiam até cansar. Ao pé de cada poste, um sapo, às vezes, dois. Calmamente, em banquete glutão, empacham-se e ficam mais redondos. Morcegos velozes/felizes soltam gritos de um alegre caçar fartura. É tempo de nascimento de filhotes. Estes virão fortes por mães bem alimentadas. A revoada tem que ser grande, poucos se salvarão. Assim se faz o enredo da vivência.

Nas casas, luzes amarelo fraco transformam o chão e parede em algo possuído. Movimentam-se como se vida tivessem. Hora da farra das Taruíras. Nossas lagartixas exibem barriga imensa de tanto festar. O aviso foi dado, vai chover. Aleluias aprenderam a ler o tempo. Carecendo voar, agora arrumam par para criar família. Não adianta brigar, jogar veneno. O máximo a fazer é desligar luz, aprender a ler os bichos, seus sinais, seus vôos, seus pios, seu andar, seu voar.

Ao amanhecer restarão milhares de asas e pequenos corpos espalhados por toda casa. As formigas, antes do sol se mostrar tímido, entre nuvens, em correria, se apressarão em carregar o máximo do espólio daquela batalha de sobrevivência. A nós cabe tentar varrer os restos. Missão ingrata, asas voam por sobre nós e pousam sem corpos logo ali. Bom seria um aspirador. Pano molhado, balde e muito torcer. Amanhã tem mais.

Estranho, por essas bandas as gentes quase todos, odeiam mandarovás e pouco tempo se tem de apreciar a beleza azul das borboletas imensas, em seu bater de asas silencioso e coreografado em que se transformarão. Esquecem das podas naturais que fazem. Cortam árvores em desverdejamento constante, inquietam a vida, a harmonia em prol de estética ou puro desprezo pelos viventes. Conhecer jeito dos bichos para controlar os das doenças sem matar as nossas borboletas, difícil não farão.

Folhas que abrigam ninhos tombam em tristeza. Mais uma mãe perdeu as crias. Temos abelhas e joaninhas de menos, disse uma amiga virtual que atende pelo delicado nome de Passarinho.
Aleluias. A prometida chuva derrama a cântaros. O ciclo se fecha mais uma vez. Pergunte aos bichos se sabem de horário de verão? As andorinhas migratórias abrem o verão. Uma só? Milhares. No velho mundo adoradas, aqui odiadas, “sujam” muito.

Pare um dia. Observe a chegada delas e a sincronia de um voar. O belo nos foi dado, basta querer ver. Hoje deve chover. Agradeça a sorte de poder se molhar. Aproveite o dia.






Jornal Correio em 30 de outubro de 2016

Aranha



Domingo quente esse. Parecia Palmas, no Tocantins, onde cada um tem um sol só para si, dizem. Estive lá e conferi. O meu sol estava guardado em caixa reluzente e me foi dado assim que desci do avião. Sorte que ao partir ele, o sol particular, me foi delicadamente recolhido. Acredito que, após passar por recarga, fica ali a espera do próximo visitante.
Domingo quente. Já havia corrido, nadado. Sentei à mesa imensa para almoço convidado. Olhava o tempo sem ver, quando movimento mínimo me atraiu atenção. Uma micro aranha papa-mosca passou aos pulos sobre minha mão, na maior falta de cerimônia. Passei a segui-la.

Displicentemente chegou à borda do copo. Em sucessivos giros observou o ambiente. Mexia-se aos pequenos trancos, erguendo a cabeça como buscar foco e escorregou até o fundo, rodopiando em passos de balé contemporâneo.
Dei leve toque no cristal, senti sua vibração, diapasão.

Ela pareceu me olhar aborrecida, afinal a imobilidade em que se pôs lembrava tocaia. Cara, se não pode ajudar não atrapalha! Pensei ter ouvido em sussurro amplificado pelo bojo do cristal. Pedi desculpas baixinho. Vai quê!
Subiu a parede gigantesca de vidro resmungando, acredito.

Lá do alto mirou o infinito. Estava com fome e os insetinhos miúdos não andavam por perto.
Uma mosca pousou ao alcance de seu bote. Mirou bem, deu uma dançadinha de lado. Desistiu. Muito grande. Se pego me leva, avaliou. Tomou rumo naquele mundo de panos, garfos, facas, taças, garrafas e pratos. Não eram obstáculo para seus olímpicos saltos. Foi até ao final da mesa, distancia considerável para tão minúsculo animal. Calculei a relação com a gente. Umas duas maratonas, talvez três. Não me pareceu cansada ao chegar à borda do abismo. Parecia irritada de fome. Ligeiro, peguei em fruteira uma banana nanica, já pintadinha. Esta atrairia mosquinhas de fruta, ou Drosophilas, para os que dominam as ciências dos bichos e seus nomes horrivelmente científicos. E isto é nome para se dar a uma mosca em miniatura? Quer outro exemplo? Didelphis marsupialis.

Sabe o quê é? Nada mais do que um gambá de terno e gravata. Imagine só em festa de muita pompa o anunciar:
Senhoras, senhores, o conde Sir Didelphis marsupialis e Lady Lutra longicaudis. Todos se viram em curiosidade e me entra um gambá e uma lontra na maior das prosas, falando alto e às gargalhadas. É pra acabar de vez com o pequi de Goiás e com a jabuticaba de Sabará.

Voltando à nossa amiguinha. A isca de banana não funcionou. Ninguém a visitou além de moscas verdes e uma maritaca sem medo, que pousou no respaldar de uma cadeira da mesa e ficou olhando gulosa.
O mar não estava pra peixe para a pobre aranhinha, pelo menos ali. Não pensou duas vezes. Em salto acrobático atirou-se ao infinito. Assustado ajoelhei para acompanhar a queda. Quase que encosto nariz na pequena. Ao pular lançou seu mais perfeito fio de seda e como trapezista ficou a balançar elegante. Teceu, teceu e chegou ao chão com classe. Tentei tocar o fio na tentativa de trazê-la junto, mas ela já tinha desaparecido entre pés de cadeira, mesa e os desenhos do piso.
Suspirei triste. Perdi minha companhia de fim de tarde.

Colocando o queixo entre as mãos, tornei a matutar e me disse em segredo, baixinho: domingo quente esse.






Jornal Correio em  23 de outubro de 2016

segunda-feira, outubro 17

Dia da criação




"(…)deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. (…). Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. Na verdade, o homem não era necessário (…). Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias. Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa. Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos (…)” – Fragmento de “Dia da criação”, de Vinícius de Moraes

Pois não é que essa semana, que passou voando, que nem harpia em retorno ao ninho, comemorou-se o 434º aniversário do calendário gregoriano e ainda o Rosh Hashaná, o ano novo Judaico, segundo o calendário estamos no ano 5778. Ainda temos o calendário Chinês. Estamos vivendo o Ano do Macaco de Fogo. Este, curioso e sem papas na língua, cria amigos e inimigos facilmente.

Para contar tempo, o homem criou mais um monte de calendários, o calendário hegírico ou Islâmico, Calendário Juche que, como tudo mais, só é usado na Coreia do Norte. Bom, de tão isolados que são, só serviria para eles mesmo e não vai fazer diferença para o restante do planeta. Ainda tem o Maia, o Etíope e tais.

O fato é que o homem sempre arrumou um jeito de prender o tempo e tentar usá-lo a seu bel prazer. Quantos não riscam diariamente a folhinha, na tentativa de apressar o tempo por algum motivo? O mais comum hoje é o dia do pagamento. Acaba-se de receber e já começa a marcar o dia do próximo. Não está fácil pra ninguém.

Contam os criacionistas que Ele se desdobrou em criar o mundo no qual vivemos, deu um duro danado e, exausto, resolveu a parada no sétimo dia. Se existisse televisão, certamente iria assistir a um bom programa, um filme, talvez. Os dez mandamentos, não estas versões atuais, seria sem dúvida alguma aquele com Charlton Heston, Yul Brynner, e “grande elenco”. Esse jargão nas artes deve ter sido criado para economizar papel.

Particularmente, acho que Deus, em momento de tensão, de saco cheio de tudo, resolveu pintar os passarinhos e plantas. Esquece o tempo, pensou. Pediu ajuda aos anjos poetas. Decidiram que o vento não teria cor visível, nem aroma especial. Assim, cada um poderia escolher o que sentir. Salgou o mar, mas adoçou rios, riachos e cachoeiras. Distraiu-se com saíras. Alguns querubins as usavam para limpar as mãos de tintas, deixando algumas com até sete cores. E Ele viu que era bom. Deve ter sorrido feliz.
Começou a pensar ao observar as belezas de seus artistas alados — Esqueçam o tempo criaturas. O sol, a lua, as marés, as chuvas e as flores. O amor, fome e sede serão seus relógios. Pronto, aí veio uma merda de uma serpente e atrapalhou tudo.

“(…) o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intépido, como se diante deles estivesse a eternidade.”

Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta

“(…) o homem não era necessário (…)”

Ficassem apenas os poetas…







Jornal Correio em 16 de outubro de 2016

segunda-feira, outubro 10

Trem bom




Imagem coletada na web

Esse tempo está mais para trem bala do que para maria-fumaça. Ligeiro que só, às vezes, não permite nem paisagem. Da janela apenas mistura de cores, riscos azuis, prováveis rios e córregos da infância. Hora ou outra um rosto. Quem será meus Deus? Puxo da memória. A viagem continua em compasso de xote, nossa polca patropi. Não, o ritmo é zumba, de tão ligeiro. Havia um tempo de toada de maria-fumaça, um tango, um bolero manso. Um arrastar gostoso das horas. Ficou longe. “Maria-fumaça não canta mais/ Para moças, flores, janelas e quintais”, cantou Bituca.

Pois sim, lá se vão quase dois anos a morar só. Totalmente adaptado a nova vida. Já não ocorrem os desperdícios de tudo. Não acontece mais o horror de ter que jogar coisas fora por estragarem ou por validade perdida. Achei o equilíbrio. Já assovio sem razão, canto no banheiro, dou risada sozinho. Outro dia pela manhã acordei com um zumbido forte. Será o quê? Pensei. Pernilongos, isso mesmo. Os danados estavam em turma. Parecia festa e o cardápio certamente seria eu. O “seria” é que, já sabendo dos visitantes noturnos (diurnos também para dar com pau), durmo de cortinado. Isto mesmo. Devo ter sangue tipo gourmet, pelo menos para o paladar voraz dos meus alados visitantes.

Se eu estiver no Mineirão lotado até a tampa, em uma final onde jogam Atlético Mineiro, meu Galo de coração, contra o Cruzeiro, seguramente aparecerá um pernilongo. Um só, desavisado, vindo da lagoa da Pampulha, trazido pelo vento direto para o gramado. Ele vai se recompor, aprumar as asas, dar uma olhada na massa alvinegra, obviamente maioria no estádio, e com seu olhar culicídeo vai me achar. Bem lá no meio, com a nossa tradicional charanga, há “mil anos”, entra na arquibancada tocando “Mamãe eu quero” e pimba! Logo estarei coçando. Ele me acha. Acha mesmo!

Certo dia, frente àquela infantaria pernilongal, saquei de minha já famosa raquete eletrônica e, depois de vários sets de luta, estalos e cheiro de mosquito queimado, postei-me no centro do campo de batalha. Centenas de corpos alados se espalhavam pelo chão. Senti-me o próprio Leônidas durante a Batalha de Termópilas. Não lembra? Tem o filme por nome “300: Rise of an Empire”.

Aquela batalha fora minha, mas a guerra, só rindo, nasceu perdida. Enquanto nós humanos continuarmos a criar esses bichos, não tem jeito, pois, para todos eles, fornecemos em fartura casa, comida e roupa lavada. Quem não quer tamanho aconchego? Leila Diniz: — “Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”.

O mundo é, e será sempre, dos sôfregos pequeninos.

A vida ligeira que só, me põe a pensar na maria-fumaça e nas estações que à frente estão. Não carece perder tempo em contar quantas ainda temos, mas a velocidade nos trilhos poderia bem reduzir para trote manso, deixando a paisagem passar sonolenta e bela. Um cochilo, vento de serra e perfume de terra molhada. Cada um aperta o maquinista de sua via como quer. Prefiro e assim. Sigo querendo amigo, que seja desse jeito. Mesmo com fornalha em ouro brasa, o resfolegar poderia ser manso, o ranger musical e a viagem bem demorada.






Jornal Correio em 09 de outubro de 2016