segunda-feira, julho 9

A Copa do mundo é nossa. Será?




Gente de Deus, que ressaca! Não, não é de excessos, não é de cerveja e afins. Ressaca existencial e da brava. Tá certo, tenho que falar de copa do mundo. Cobraram. Não vou lançar olhar para os primeiros jogos do Brasil, no time apequenado, de futebol medíocre, várzea mesmo, apresentado no jogo de estréia contra a Suiça. Este país que já nos goleia por mil a zero em todos indicadores de vida e riqueza possíveis, mas até então, no futebol não seu João. Futebol é nosso, era nosso. O Brasil mostrou um futebolzinho medíocre e o que se via em campo era um bando de mauricinhos, com seus saltos altos e cabelos de Walking dead em temporada russa.

Veio a Costa Rica e eu cá muito desconfiado.
A seleção saiu do camarim, ops, do vestiário, com jeito diferente, mas faltando alguma coisa. Não consigo descrever, senti. Resolvi não ir à festa maravilhosa na casa de amigos como no primeiro jogo - essa reunião salvou aquele dia. Vi o segundo jogo com a patroinha, quieto em casa. Melhor escolha não poderia ter feito. Bateu uma saudade da copa de 1970, em que eu, moleque, mesmo sem entender muito, me envolvi de tal forma que jurava que ia ser um torcedor de primeira linha da camisa amarela. Não deu liga, peguei gosto não.

Por enquanto, só jogo do Galo me envolve, mexe comigo, me tira do sério.
Torcedor fervoroso do Clube Atlético Mineiro, aí sim me transformo. Grito, xingo, choro, orgulhosamente visto a camisa e certamente estarei rouco no dia seguinte. Galo na veia.

Bom, vem nosso segundo jogo da copa contra a "terrível" Costa Rica.
Já pensou quanta tradição no esporte bretão aportou em terras brasilis, em belo dia de sol, céu azul, ar puro e mar de uma beleza pouco vista de um 1895 e que rapidamente tornou-se nosso por direito e valor?

Costa Rica, um paraíso caribenho, onde ar, terra e mar são tratados com respeito. Um dos países detentor de uma das democracias mais consolidadas da América e o único da América Latina incluído na lista das 22 democracias mais antigas do mundo. Acabou com exército em 1949.
Assim, ao contrário da maioria dos países da América Central, a Costa Rica nunca vivenciou golpes de Estado e guerras civis tão comuns poelas bandas de nosso continente. Não posso deixar de cantar Bituca:
"São José da Costa Rica, coração civil/Me inspire no meu sonho de amor Brasil/ Se o poeta é o que sonha o que vai ser real/ Bom sonhar coisas boas que o homem faz/E esperar pelos frutos no quintal/ Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder ?/

Viva a preguiça viva a malícia que só a gente é que sabe ter/ Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida/Eu viver bem melhor/ Doido pra ver o meu sonho teimoso, um dia se realizar."

Quanto ao futebol, sem essa, futebol é nosso. Nenhum país pode ter tudo. Pois não é que se não houvesse acréscimos iríamos amargar outro humilhante empate?

Ontem foi a gota d'água. Que nos venha a Sérvia, um país de governos bélicos e um passado recente negro e triste.
Pois a seleção deles entrou em campo como se fosse um amistoso e a nossa jogou como se treino fosse. Ganhou, que bom, mas não convenceu. Ouvi alguém chamá-la de Seleção Rivotril.

Certo, façamos um trato. Quando essas mal traçadas linhas forem lidas nossa seleção já terá enfrentado o México, em um tudo ou nada. Se for o tudo passamos para as quartas de final e prometo me desculpar por tanto ceticismo, descrença e saudade de nosso futebol arte. Se for o nada, nos restará fazer o que fizemos até agora. Vibramos mais contra a Argentina e Alemanha - aliás, comemoramos a saída dela como se fosse vitória nossa, terceirizamos a vingança, que horror. A nossa seleção estava até agora em segundo plano.
Aí meus compatriotas, só nos restará voltar para nosso campeonato brasileiro. Eu com meu Galo, você com seu Flamengo, o outro com o Corinthians dele e esperarmos quatro anos repensando o quanto o futebol é realmente nosso.
Tudo que eu quero é soltar o grito preso no peito e com orgulho comemorar um hexa. Mas não depende de nós, não é mesmo?

Pô, seleção canarinho, murmuro Cazuza para você: "Brasil mostra a tua cara quero ver quem paga/ Pra gente ficar assim./ Brasil, qual é teu negócio/ O nome do teu sócio/ Confia em mim / O meu Brasil!"






Publicado em Diário de Uberlândia, 8 de julho de 2018


segunda-feira, junho 25

Baiano






Existem coisas que me intrigam e uma delas é essa história de que baiano é preguiçoso. Até onde pesquisei, usando a mais alta tecnologia da Nasa, da base de Alcântara que está às moscas, conforme informações de fontes sigilosas. Juro que tentei também a nossa Agência Espacial Brasileira (AEB), mas a mesma encontra-se em quase ponto morto por excesso de burocracia e falta de recursos. À boca miúda lhes conto, acho que vão privatizar o belo lugar para a Empresa Espacial Paraguaya (EEP). Bom, pelo menos peças de reposição "importadas" eles terão de sobra. Particularmente, se eu fosse dono de lá venderia para Disney. Teria aventura de sobra.

Você querido leitor, virtuosa leitora, já teve a oportunidade de visitar o Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão?

Se a resposta foi não, te conto sem medo de errar que Alcântara é uma vila colonial linda e vale a visita. Até se puder ficar lá pra sempre. O problema é o chegar e voltar. Moço de Deus, a viagem dura nem duas horas. Se o mar estiver de brigadeiro, no caso de almirante, verá uma beleza incrível e vivenciará um prazer imensurável diante da poética brisa marinha e das gaivotas a acompanharem o catamarã. Vai nessa não, pois sistematicamente ali o mar nunca está pra peixe e com onda de metro, põe metro nisso, se seu estomago for fraco vai chegar verde do outro lado. Duvido que consiga ter olhos para tamanha beleza local. Tudo que você vai querer é ficar deitado e a gemer, enquanto os mais resistentes, ou que tiveram o cuidado de tomar um remedinho para enjôo, se deleitam. Fica o conselho, vá mas durma lá e aproveite o dia seguinte.

Bom, vamos deixar minhas pesquisas e roteiros turísticos lunáticos de lado e descer para a Bahia. Terra de tantos como nosso imortal "Capitão do mato Vinicius de Moraes,  o carioca mais baiano do Brasil, 
Poeta e diplomata. O branco mais preto do Brasil
Na linha direta de Xangô, saravá!"


Pois assim crescemos ouvindo histórias sobre a preguiça de baiano, a começar pela bobagem de que ele é mineiro cansado. Que nada, mineiro que sou me pego a pensar o contrário, pois queria morar em alguma prainha morna daquela terra abençoada. Desconfio que os portugueses só se interessaram pelo Brasil porque desembarcaram na Bahia. Amor a primeira vista. Se tivessem dado em outras praias talvez as tivessem deixado para os espanhóis.


Aqui as histórias da mandriice baiana estão em todas as bocas não nativas da terra dos Orixás. Contam que por lá o carnaval começa seis meses antes e termina seis meses depois da data certa e emenda às comemorações do Natal e Reveillon (do ano seguinte). Tudo intriga.
E tem a conhecida, mas digna de registro:
─ Mainha, tartaruga morde? Quinze minutos depois:
─ Morde não, mas por quê? Silêncio longo.
─ É que uma lá invem loonnge.

Tudo enredo, existe isso não. Exagero de quem lá vai. Ora, você é turista acelerado, vem do mundo do stress, da hora marcada, do compromisso. Da ditadura do relógio, tipo, se chegar dez minutos antes para um compromisso chegou na hora, se chegar na hora exata está atrasado, se chegar dez minutos depois perdeu o compromisso. Caraca meu, já tomou seu ansiolítico de hoje? O medicamento para a pressão, colesterol, ácido úrico, gastrite, esofagite, úlcera? Olha o enfarto! Não é o baiano que é devagar, é você que está desregulado.

Desacelera moço, "Cuidado, companheiro!/ A vida é pra valer/ E não se engane não, tem uma só/ Duas mesmo que é bom/ Ninguém vai me dizer que tem/ Sem provar muito bem provado/ Com certidão passada em cartório do céu/ E assinado embaixo: Deus/ E com firma reconhecida!"


O Baiano na verdade é prático, só isso. Conto fato acontecido com pessoa que tem por paixão o Mercado Modelo em Salvador. Tinha turistado montes, subido e descido ladeira sob escaldante sol de verão, a sede apertou brava.

Entrou no mercado ávida por uma limonada gelada ou uma refrescante água de coco. Foi nada. Sentou-se em boteco e pediu logo limonada SEM açúcar. Quase uma hora depois chega o imenso copo de suco com muito gelo e, para seu espanto, no fundo quase dois dedos de açúcar repousavam em ligeiro balançar de areia.
─ Mas moça eu pedi sem açúcar! Olha isso!
A garçonete pegou com cuidado o copo. Bom, pensou, vai trazer outro. Ao retornar, com o mesmo cuidado ela colocou o copo na mesa outra vez e com voz mansa, quase suspirando disse:
─ Liga não, é só não mexer...

Preguiça? Nunca. Praticidade uai, não é meu rei?
" É melhor ser alegre que ser triste/ Alegria é a melhor coisa que existe/ É assim como a luz no coração (...)"

Nota do Autor: Trechos em itálico "roubados" sem maldade do maravilhoso Samba da Benção, do genial  Vinícius de Moraes.







Publicado  em Jornal Diário de Uberlândia em 24 de junho de 2018 - dia de São João

terça-feira, junho 19

Idade





Pois não é? Todos sabem que com o avançar da idade muitas coisas começam a mudar na vida das gentes, cabelos branqueiam, dificuldade de ler letras miúdas vão permanecendo e insistimos até em nos render ao uso de óculos. Presbiopia, ametropia, miopia e hipermetropia, todas as "ias" possíveis, desde que com letras graúdas.

Os óculos. Se escolher os multifocais está fadado a enfrentar longa luta de adaptação. No começo, para a maioria, é uma tortura, ou diria uma tontura. O chão fica longe, o longe fica perto demais, um sufoco. É preciso paciência e jeitinho, que também com a idade começa a diminuir. Principalmente ao ver e ouvir posturas e besteiras tipo " intervenção militar já" ou "ditadura no Brasil nunca existiu". Chega a explosão de raiva, cuidado com a pressão. Anda nas alturas, outra característica do desgaste da máquina quando agridem seus ouvidos com comentários homofóbicos, racistas, enfim assuntos preconceituosos de qualquer natureza.

Essa conversa de que com a idade fica-se sábio, mais tolerante, é para boi dormir ou, se assim for, deve ser lá no Tibet. Papo de monge. Na verdade fica-se exatamente o contrário, pois as papagaiadas das gentes ficam escancaradas e palpáveis às mãos e mentes erradas e boi velho não carrega canga. Não é de meu feitio generalizar assim. É óbvio que vamos topar com muitos velhos calmos, transbordando sabedoria como passíveis vaquinhas de presépio, que entregaram a carga de se preocupar com os destinos do mundo e da vida. Contemplativos se tornam.
Não posso lhe dizer qual dos tipos quero ser quando crescer. Hoje encaro minha terceira juventude ainda com um furor interessante. Sinto-me bem assim. Depois, com o passar do tempo, contarei o final.

Mas uma coisa é fisiologicamente certa, a sede, ou a falta dela. O avançar da idade faz com que tenhamos cada vez menos sede e isso é um perigo danado. Água é que segura a barra. E aí começo a história de um amigo, companheiro de trilhas e corridas. O cabra corria dez, vinte km e, no máximo, em um posto de hidratação tomava metade de um daqueles copinhos plásticos de água, digo metade, pois a outra metade jogava na nuca para refrescar e se dava por satisfeito. Rapaz, eu dizia, você acha que é planta que molhando por fora vai hidratar? Certa feita lhe passei um aplicativo onde você coloca seu peso, idade, hora de dormir e de acordar, as atividades que faz durante o dia e o danado calcula quanto de água você deve tomar. A cada hora ele apita, treme e toca musiquinha com som de cachoeira, te avisando que é o momento de seu copo d'água.

No começo é uma tristeza, como no caso dos óculos multifocais. Sem sede alguma lá vai você ao pote, filtro ou talha e tome água. Um sacrifício, mas com ele deu certo. Ficou feliz da vida.
Passado bom tempo sem o encontrar, dia desses ele me ligou do hospital. Tomei baita susto.
─ O que aconteceu rapá? Ele, em um cochichar, me disse
─ Nada grave, vem cá que te conto.

Apressado e, claro, preocupado, fui ter com ele.
O encontrei no quarto de hospital com cara de dor, olheiras, abatido que só. Uma fraqueza de dar medo. Sussurrando me disse:
─ Fecha, fecha a porta! Obedeci ainda mais cismado.
Olhando atento para o lado da porta com olhos de bicho atirado me contou sua façanha.
Tinha gostado tanto do aplicativo da água que resolveu fuçar buscando outros, e assim baixou um monte. Instalou um tal de MyFitnessPal que lhe deu uma dieta maluca para os indicares que ele criou por conta e risco. Outros de abdominais, exercícios para músculos das costas, dos braços, agachamentos, polichinelos, flexões e tiros de corrida. Tinha um que marcava hora até de afagar cabeça de neto e beijar a patroa. O telefone dele não parava de trinar, sacolejar, pisar e o escambau a quatro. Sua vida tinha se tornado um calvário. Não sabia se corria, se fazia flexão, se passava a mão em cabeça de neto, se comia a tal clara de ovo ou pulava corda.

Em casa ou no trabalho. Um dia se viu beijando o cachorro e afagando vassoura. Loucura. Resultado: stress muscular, sapinho na boca, e uma virada na espinhela que o deixou de cama. Assim, ali foi parar.

Tentei conversar e lhe tirar de cabeça os exageros. Porém, não foi nada. No meio de nossa conversa um sinal do celular o fez se arrastar da cama e ensaiar um exercício muito louco. Não deu outra. Travou ali mesmo e fui obrigado a pedir por socorro para colocar o amigo no lugar.
Depois de tomar uma bela injeção para dor/tranquilizante/relaxante, meio sonolento, de olhos fechados quase apagando, segurou meu braço e com sorriso tímido na cara ainda teve tempo de murmurar: é isso amigo, mas que estou hidratado lá isso estou! Pimpa dormiu de roncar.
Saí de lá cismado. Já na rua, a primeira coisa que fiz foi deletar o aplicativo da água. Sei lá, vai quê!






Publicado no Jornal Diário de Uberlândia em 17 de junho 2018


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quarta-feira, junho 13

Lava-pés

Aproveitando o furdunço causado pela greve/locaute dos caminhoneiros, publico novamente  após dez anos a prosa. Pelo que notamos NADA mudou na vida dos valentes caminhoneiros, mas se mudou, garanto, não foi para melhor







Tinha carregado em Guarantã do Norte, quase na divisa com o Pará um dia antes, cedo, e bem de madrugada pegado o trecho. Carga de arroz. Itaúba e Sinop já tinham ficado para trás, e só tinha parado para almoçar em Sorriso.

Aliás, o almoço já estava esquecido, e bateu outra vez uma fome danada, viagem tem dessas coisas, abre o apetite. Já era tarde e perto de escurecer. Pensava em pousar em Lucas do Rio Verde e seguir até Cuiabá no dia seguinte, sair da BR 163 já seria um consolo, estrada judiada aquela. O calor como sempre por aquelas bandas era o cão chupando manga, de tão forte.

O motor do caminhão, apesar de toda aquela caloria, roncava manso e seguro, parecia não se importar nem com as bacadas que volta e meia aconteciam, a velha 163 para variar, andava daquele jeito.

Lá longe o céu escurecia e as nuvens vinham que vinham subindo ligeiras, era muita água que ia despejar.

Pensei comigo, se eu pegar trecho de estrada com lama debaixo d'água aí é que estou no pau da goiaba, terra massapé com chuva vira um encravador só, é fila e mais fila de carro atolado, e podia perder esse tempo não, a carga tinha prazo.

Com pouco chegou um vento forte que veio debulhando tudo quanto há que encontrava pela frente, roça de soja e milho deitava como que a caçar abrigo rente ao chão. De outro tanto de lavoura já colhida e de onde só tinha ficado palha de planta e terra limpa, subiu um mundaréu de poeira que fez a noite chegar antes da hora. Um redemoinho passou bem na minha frente, parecia coisa de filme.

Pensava, se aquele barrado escuro que ia subindo lá longe chegasse aqui, ia ser um tubeu d'água do tamanho do mundo. Não deu outra.
A chuva derramou de vez com vontade e força. Se por um lado era bom que refrescava, por outro, fazia diminuir bem a toada, e com isso a janta ia atrasando, e a fome só aumentando.

E eu que queria chegar logo em Cuiabá, encostar a carreta, tomar um merecido banho e bater um prato desse tamanho. Mas estrada é assim mesmo, nunca sai do jeito que a gente programa, não adianta perder a calma.

Resolvi esperar a ventania e o grosso da chuva passar e encostei beiraninho um posto da polícia rodoviária.

A barriga roncando de fome daquele tanto. Não ia ter jeito. Tinha que pousar por ali mesmo. Apeei do caminhão e fui puxar prosa com os guardas, pelo jeito eles já tinham jantado, daquela lagoa não saía peixe. Foi quando me informaram que logo ali, em uma currutela próxima tinha um pouso ajeitado onde podia passar a noite e se desse sorte ainda conseguir uma janta famosa na região de tão boa que era, feita em fogão de lenha e panela de ferro.
A pensão era de uma dona sozinha e de suas duas filhas.
A boca encheu d'água só de pensar, rumei para lá.

Bem recebido, se puseram a senhora e as moças a arrumar lugar para dormir e bacia para lavar os pés, costume da região, pois banho completo àquela hora da noite tinha jeito mais não. O cheiro da comida ainda estava no ar mas vinha de cozinha escura, o comer já havia sido servido fazia tempos.
E agora? Matutei. Pedir comer ficava sem graça, dormir com fome daquele jeito não ia conseguir.
A solução veio de estalo, assim que descalcei as botinas e lá ia colocando os pés na bacia de água morna, recuei ligeiro perguntei para a dona como quem não quer nada:

– Será que lavar os pés com a barriga muito vazia não faz mal pra saúde, não?
Susto só, depois de um Deus nos acuda de sem graça e muito pedido de desculpas, a mulher gritou para a filha mais nova para atiçar a brasa do fogão e esquentar as panelas.

Conto só para dar vontade: carne de lata daquela conservada na manteiga de porco, arrozinho solto, feijão com torresmo, banana frita, taioba rasgada refogada, e por cima disso tudo dois ovos caipiras de gema amarelinha e mole. Para beber limonada de limão china, feita com água geladinha de pote e adoçada com rapadura.

Comi feito um condenado. Depois do cafezinho quente, dispensei a cama, fui para a cabine de meu caminhão, minha casa, meu sossego, deitei escutando os barulhos da chuva no teto, dormi pesado e feliz, Cuiabá agora era sonho longe.








Publicado no Jornal Diário de Uberlândia em 10 de junho de 2018


segunda-feira, junho 4

Noite canora





Pela greta da janela, a lua quase cheia esgueira e entra colorindo ambiente em um azul pálido mágico.
Uma leve brisa também serpenteia e acha caminho pelo palmo de espaço aberto, rodopiando afoita pelas paredes. Sigo com os olhos fechados. Ligeireza felina vem buscar abrigo e se aquecer bem junto a mim. Sinto um arrepio.
O frio não quer ir embora. No radinho, Blitz:

"Longe de casa/ A mais de uma semana/ Milhas e milhas distante/
Do meu amor/ Será que ela está me esperando?/ Eu Fico aqui sonhando/ Voando alto/ Tão perto do céu"

É isso aí minha amiga, meu amigo, sou daqueles que não suporta televisão no quarto. Claro que já vivi essa horrível mania, até descobrir que dormia pessimamente. Os clarões mais pareciam relâmpagos artificiais, foguetório sem explosão. Entravam em meus sonhos e cheguei a ponto de piscar jingles. Ouvia vozes, locutores e acordava assustado a cada propaganda de eletrodoméstico ou supermercado. Fico me perguntando o motivo de tanto gritarem nas propagandas... irritantes.

Acho que por anos a fio não passava da fase do adormecer. Aquele leve dormir de bicho do mato em que um entrar e sair, qualquer coisa, te acorda. O corpo em ponto morto, mas motor funcionando, cadenciado, bem regulado. As pernas escoiceiam longe de seu querer e os músculos ganham vida própria. É nessa fase do sono, dizem, que passamos pela sensação de estar caindo ribanceira abaixo e acordamos no susto, Vó dizia que era momento que estávamos crescendo em tamanho. No tempo que longe vai de televisão no quarto, sempre ouvia um cara aos berros: É SÓ ATÉ SÁBADO! Vociferava quase espumando pelos cantos da boca como siri no mangue.
Não aguentei tantas prestações sem juros que, mesmo imaginárias, me tiravam o sono.

O radinho, excelente companhia, bem baixinho te embala manso.
Conto e saibam que não estou recebendo jabá algum por isto.
Descobri uma rádio deslumbrante, só MPB de boa qualidade, na qual programas com horas seguidas de jazz, blues, reggae/Bob Marley e os bons e velhos rocks da época em que se produzia música, ocupam espaço de honra. Nome da estação? Ainda se usa essa palavra para designar rádio? Peraí, nem tão velho nem tão novo. Algumas palavras ficam incrustadas como lindo topázio imperial em nossas lembranças e desse HD nada se apaga totalmente. Fica cinzento às vezes, desmagnetizado, mas se fuçar acha.
Voltando. O nome da estação? Rio Verde FM.
Não acreditei. Como pode uma rádio com esse nível sobreviver em Goiás? Porém, antes de seguir, uma explicação: olha só, nenhuma ofensa aos irmãos goianos, mas viajei muito por aquelas bandas, mesmo antes do estado do Tocantins existir e conheço bem o gosto musical da maioria dos goianos, aliás muito parecida com o de nossa gente aqui em Uberlândia e cercanias. Para completar meu dizer e aplacar a implicância de algum que possa ficar insatisfeito comigo, contam que, Nashville a capital da música country nos EEUUA, está para Goiânia como a capital da música sertaneja universitária, secundarista ou mesmo vestibulanda. Se for mentira me digam.

Enfim, liguei para um grande amigo que mora em Rio Verde e, empolgado, contei-lhe da descoberta da fantástica estação de rádio na cidade. Na outra ponta da linha longo silêncio se fez.
Alô! Alô! Repeti algumas tantas vezes. De lá então veio gostosa gargalhada: ─ Compadre, acho que você está enganado, aqui o gosto é outro, não tem esse papo de jazz, reggae e tais! Pode ser que um ou outro aprecie, mas tocar em rádio, toca não.
Desconversei ligeiro, perguntei das crianças, da plantação de soja, da situação das estradas. Despedi-me marcando visita, churrasco e roda de viola.

Encasquetei. Fui atrás e lá estava ela, como brilho de xibiu em bateia de quem procura: Rádio Rio Verde FM, 106.3, Baependi.
A pequena cidade mineira com seus nem vinte mil habitantes, fincada na Serra da Mantiqueira, à beira da Estrada Real, é a dona de tamanho bom gosto musical.

Tente uma noite dessas. Só som bom, de qualidade. E o melhor, não tem propaganda alguma. Você não será acordado por berros de ofertas de fogões e geladeiras.
Chego a desconfiar motivos que levam vento
galhofo e maravilhoso luar a buscarem guarita sob minhas cobertas. A boa música encanta gente, bichos outros, plantas e outras criaturas da noite que nos cercam. Carinhosamente os recebo.
Só não os vê quem não quer.

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Quanta saudade Saramago, quanta!

“A radioatividade leva até vocês
mais um programa da série "dedique um programa a aquele que você ama (...)
“Estou a dois passos do paraíso, e meu amor vou te buscar”







Publicado em Diário de Uberlândia página 2  em  04 de junho de 2018


segunda-feira, maio 28

Prá casar




Crônica no Jornal clique AQUI


Abriu os classificados de seu jornal matinal por acidente, nunca olhava aquele caderno, "perda de tempo", pensava ele. Como estava com tempo deu uma passada d'olhos naqueles quadradinhos anunciando desde armários usados a promessas de desfazer feitiços, curas contra mau olhado, terrenos no paraíso e até prazeres inimagináveis:

"Louro, um metro e noventa, musculoso, inteligente, atende a domicílio ou em motel homens, mulheres ou casal. Completo."

Ficou a imaginar o que seria o tal de completo, talvez a garantia que não faltaria no moço algum pedaço? O "inteligente" também chamou a atenção. A vida anda dura mesmo, com tantas qualificações e ainda tem que colocar um anúncio de três por três em meio a outros milhões daquelas páginas? Alguém chegaria a ler? Bom certamente, pois ele o fez. Por puro acidente que fique bem claro, justificou para si mesmo.
Passou o dedo sobre tantos outros: "Morena, olhos verdes, universitária, pele bronzeada, corpo escultural, atende executivos, total sigilo." O título do anúncio era "Morena fogosa". Endireitou-se na cadeira, curiosidade aguçada pelas ofertas daquele mercado de carnes e almas.


"Vendo máquina usada de overlock, ótimo estado procurar..." Pulou esse, que diabos seria overlock? Vai saber...

"Procura-se homem de bem para casar". Parou o dedo, levantando a sobrancelha:
"Mulher de meia idade, nem muito bonita, nem muito feia, situação financeira remediada, porém com emprego fixo, tímida, sem atrativos físicos especiais, procura homem honesto para compromisso sério, para casar. Ligar para ..."

A primeira reação foi de riso: "só pode ser gozação", pensou com seus botões. Ou quem sabe seria algum daqueles códigos secretos que só poderiam ser entendidos pelos que de alguma trama ou conspiração participassem, como se vê no cinema? Matutou. Chegou a mudar de página, mas a curiosidade o fez voltar. Procurou o estranho anuncio até de maneira afobada, ansioso. Custou a encontrá-lo perdido entre tantas bicicletas velhas, balcões frigoríficos em bom estado, jogo de panelas semi-novos, aluguéis e vestidos de noiva e claro outras máquinas de overlock - o que seria aquilo? Não podia esquecer de perguntar para alguém de sua confiança, não queria parecer um idiota desinformado.

Com o auxilio de uma régua recortou o anúncio procurado e instintivamente guardou-o no bolso da camisa.

Seu dia passou como sempre, arrastado. Parecia que nada de novo acontecia em sua vida. Telefonemas aborrecidos, reuniões entediantes, conversas sem graça e sentido com os colegas sobre futebol, que ele detestava, ou fofocas de todo tamanho sobre os ausentes, odiava assuntos assim até mais do que futebol.

Olho no relógio a cada dois minutos, aguardando o fim do expediente, o tempo não passa no trabalho.

Entre um bocejo e outro ou um espreguiçar disfarçado, mais um telefonema chato, um ou outro memorando escrito através de modelo já pronto - daqueles que só se mudam as datas para não se dar ao trabalho nem de criar algo novo, lá se foi levando de rastos, aos barrancos e trancos o dia.


Despediu-se mudo de todos e seguiu para casa, não sem antes parar em um bar e estalando os dedos e apontado a geladeira a pedir sem som uma cerveja gelada. Seu único prazer em dias de trabalho era esperar os fins de semana, não sabia por que, motivo especial não havia, a não ser pela glória de não ter que ver ou ouvir aqueles do escritório, no mais todos eram iguais: café da manhã na padaria, o jornal na praça, o bar, as cervejas, almoço sozinho, cochilo, ressaca suportável, lanche leve, banho, televisão ou um livro e cama.

Bebeu o primeiro copo de um gole só, o amargo da bebida desceu suavemente doce. Bateu a mão no bolso em busca de um invisível maço de cigarros que já não o acompanhava há mais de dez anos, parara de fumar.

Os dedos porém repicaram naquele pedaço de papel de jornal amarrotado que já havia até esquecido. Curioso, tornou a observá-lo.

"Para casar" leu e releu atento. Já havia sido casado, um fiasco, foram poucos anos e nada sobrou, nem filhos, e por incrível que pareça nem mágoas ou fotos ficaram. O quê levaria alguém a publicar anúncio assim em épocas de tanta violência e pessoas mal-intencionadas? Um perigo, um perigo.

Cerveja quase no fim. Pediu outra, coisa rara em dia de semana.

Ligaria. O que tinha a perder? Pelo menos ouviria uma voz diferente daquelas que estava acostumado em seu vazio dia-a-dia.

Com certo desconforto teclou em seu celular o número do anúncio - quem sabe dá ocupado e tiro essa ideia maluca da cabeça? - Sinal de chamada se fez ouvir com força em seu ouvido. Tocou uma, duas, três vezes. Aflito desligou. "Que bobagem, olha a que ponto cheguei!"

Saboreou mais um pouco da sua cerveja pensativo. Ouviu passar às suas costas um grupo de colegas de seu trabalho em normal e antipático estardalhaço, vociferando como se fossem os únicos, os donos no mundo. Encolheu-se ao máximo, e em mimetismo instantâneo virou parte do balcão para que não o notassem, sentiu mais antipatia ainda de sua vidinha.

Com raiva dedilhou novamente o número: tímida, ela assim se descreveu, talvez da voz mansa e baixa, era tudo que ele queria.

Desta feita o telefone tocou até a ligação cair. Tentou outra vez, de novo e de novo. Nada.

Frustrado foi para casa. Morava sozinho em pequeno apartamento quarto/sala. Sua janela sem vista alguma dava sim para gigantesco e iluminado relógio de algum banco. Ali também contava cadenciadamente os minutos de sua existência.

Tentou comer alguma coisa, mas a fome não passava na garganta apertada.

Sentado na cama tentou o discar novamente.

Desta vez uma voz masculina rugiu na outra ponta. Meio assustado conseguiu sussurrar:

- Estou ligando pelo anúncio.

- Anúncio? Que anúncio, mano?

- O do jornal, sobre o casamento.

- Casamento? Jornal? Olha aqui cara, não sei qual é a sua, mas deve ser engano.

- Mas o número...

- Olha aqui, comprei essa merda de telefone não tem nem dois meses e já me arrependi desse mico, esta não é a primeira ligação esquisita que recebo e pelo visto não vai ser a última. E quer saber, sai fora meu.

- Mas o que... de quem você...

De lá agora o sinal de ocupado.

Desolado, se jogou no chão frio e encolhido como criança em fetal posição chorou um amor que nem existira.

Acordou suando em bicas no meio da madrugada. Em sonhos, agora determinado encontrara a solução:

- Classificados boa noite!
- Gostaria de publicar um anúncio.
- O texto, por favor.

- Homem de meia idade, nem muito bonito, nem muito feio, situação financeira remediada, porém com emprego fixo, tímido, sem atrativos físicos especiais, procura mulher honesta para compromisso sério, para casar. Ligar para ..."






Jornal Diário de Uberlândia em 27 de maio de 2018

William Stutz
Veterinário e escritor

segunda-feira, maio 21

Carona



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Moço novo, primeiro emprego. Tinha promessa de trabalhar fora do Brasil, aprendizado seria sem tamanho. Daí a conquistar o mundo um pulo. O giro do viver o tirou da rota. O lá fora virou aqui dentro, em escritório enfumaçado de tanto cigarro que seu chefe queimava. Era um atrás do outro, sem trégua para os pobres bofes. O pigarro, os acessos de tosse, o chiar da voz, eram fundo musical de sua aborrecida rotina de fazer contas e mais contas. Elaborava fórmulas de comida de bicho. Era ração para tudo quanto é bicho de criação. Odiava! Queria o campo aberto, o cheiro de terra depois da chuva, o vento a carregar pólen e passarinho. Estradas de terra tinhosas, poeira com pouco sol, atoleiro com um quase nada de água, massapé onde tudo brota fácil. Queria banho de rio com a namorada, riso fácil. Queria conhecer mesmo era o interior bravo onde ainda havia caçadas de onça e “almoncas” de capivara guardadas na lata. Queria sumir desse inferno urbano, desse chefe defumado. Queria distância da louca ambição que treinamentos e conversas com graúdos e colegas de trampo lhe enfiavam na cabeça, dia após dia. Pink Floyd estocava em sua mente como tortura de Laranja Mecânica:
“Money, get away./Get a good job with more pay and you're okay./Money, it's a gas./Grab that cash with both hands and make a stash. (…)”.
 
Queria ser estradeiro, à conquista agora de seus próprios caminhos. Ali plantaria milhões de árvores, margaridas a ladear seus trechos. Não haveria atalhos, pois o caminho era sempre prazeroso. Córregos com mil borboletas a enfeitar os cabelos de sua amada, pé no chão, vestido de chita, descalço. Sombra boa para cochilar olhando nuvens e passarinhos, lá bem no alto quase sumindo, pequenos pontinhos rodopiantes em fundo de um azul, azul.

Acordou do pensar com a tosse do chefe. Tosse gosmenta, asquerosa. O pulmão hora estoura.
Atrás de morro tem morro, como sempre disse amigo antigo, que sumiu no mundo.
Sentindo que o rapaz não aguentava mais o ali ficar, o mandaram para o campo, vender ração e ideias. Aceitou em um já tão ligeiro, que assustou as gentes. Ia embora dali e isso bastava. Escolheu região pouco aberta para a empreita, a ponta de Minas, Goiás e um longe Maranhão. Pelo menos até Carolina, com esticadas a São Raimundo das Mangabeiras e, vez ou outra, a Benedito Leite, já na divisa com o Piauí. Ganhou o mundo, esqueceu de tudo de ruim. De lembrança carregou por bom tempo um pigarro de fumante passivo.
A estrada virou sua fiel companheira. Asfalto, chão ou pedra pouco lhe importava. Ria e cantava sozinho. Chorava às vezes, mas não sabia se era felicidade ou algum vazio que nunca acabava. Estranhava, pois tinha tudo e mesmo assim, de vez em quando, sentia que nada tinha.
Quantas vezes deitou-se no capô do fusca da tal empresa, parado em pátio de posto de gasolina para dormir. Um dia viraria estrela.

Conheceu gente de tudo que era jeito e tipo, do bem, do mal, ricos e pobres, andou por cidades grandes, currutelas, fazendas sem fim e muitos sítios miúdos. Vendas e praças de todos os jeitos e formas. Andava muito, vendia pouco. Não tinha o menor jeito para empurrar produto que vendia a quem dele não carecia. Chegou a tirar de cabeça de produtor que queria comprar, pois provava no riscado que não ia ser de valia nenhuma para ele. Ia perder o emprego, ligava não. O que importava era o que estava vivendo. Aprendizado que carregaria para o resto de sua vida, mas o vazio também iria sempre junto.

Certa feita, saindo de uma fazenda, pronto para visitar outra estrada de muito pó, topou com velhinho a pedir carona, carregando embornal. Tempo bom aquele, podia-se dar carona sem medo.
Parou beirando o barranco.
− Vai prá onde senhor?
− Pra onde Deus manda, mas nesta hora sigo para meu sítio duas légua adiante.
− Entra aí, é o meu caminho, levo o senhor de bom grado.
− Ô meu filho, não sabe a caridade que me faz. Estas pernas eradas já não comandam o trote, canso fácil. Toda semana é essa latumia de passar na vila para comprar coisinha ou outra. Aí tomo uma canjebrina da boa na venda do Seo Canveco e toco caçar carona. Quase não passa carro essas horas por aqui, foi São Cristovão que lhe mandou.
Já iam de prosa solta caminho afora, quando o velhinho pousou a mão no braço do moço e meio sem jeito falou baixo, como se tivesse mais gente no carro:
− Pode parar um instantezinho, é que a bexiga está carregada, coisa de velho.
− O que é isso, é prá já!

O homem desceu com a peculiar dificuldade de quem anda de fusca e encostou-se numa bela cerca paraguaia esticadinha. Os mourões todos com a cabeça sextavada, pintadas de branco. Ao fundo se via maravilhosa alameda bem arborizada, árvores centenárias a fazerem guarda por todo caminho até a sede. Uma sombra só. A sede um primor, varanda ampla, janelas azuis enormes, jardim bem cuidado, um grande lago ladeado por pomar de dar inveja. Mais ao fundo, um bosque dava a impressão de que aquela casa jamais seria quente no verão mineiro. Uma brisa balançava suave a copa das árvores e lambia cálida a lavoura de milho ainda baixinha.
O moço estava em êxtase admirando tanta beleza. Saiu do transe com o bater da porta do carro e o velhinho entrou com cara alegre de alívio.
− Menino nem te conto, como é bom fazer um belo xixi no que é nosso!
O moço tomou um susto danado, olhando a beleza da aquarela que se abria diante deles e perguntou quase engasgado:
− Essa maravilha é toda sua!?
O velho olhou pela janela e num sinal de “toca prá frente” respondeu sem muito pensar.
− Não sô, estava falando da minha botina!






Publicado em Diário de Uberlândia em 20 de maio de 2018

segunda-feira, maio 14

Improviso




Crônica  no Jornal, clique AQUI


Antes de perguntar conto um fato acontecido, de fato. Convém lembrar que a chance do “jeitinho brasileiro” dar certo, por certo vai dar merda. Escute o que conto.
Não, não estou a repetir palavras por falta de vocabulário. Tenho por mania buscar sonoridade canora quando escrevo, pois sinto o escrever como composição musical. Mania e não improviso.

Quem se deliciou com o“Tigre e a Neve” dirigido pelo genial Roberto Benigni e estrelado por ele e Nicoletta Braschi, percebe que o improviso ali deu certo sempre, ma prego, são tutti buona gente italiana e no mais é filme. Ainda assim convém lembrar do triste final de “A vida é bela”, com o mesmo Benigni. Ali morava um improviso, Toscano na verdade, mas presente.

O contar: Fim de semana em fazenda de compadres. Lá pelas tantas o compadre sugere um passeio de lancha. Não uma lancha qualquer. Refiro-me a uma super marítima, gigante, com cabine, sonar e tudo mais. Faltava uma coisa só. Marcador de combustível. Bom, havia um. Era um cabo de vassoura com riscos a canivete, por meio dos quais se adivinhava mais ou menos quanto tinha no tanque. Toca a andar. Não foi nada não, quando deu na barra do Tejuco, no meio da represa, apagou geral. Breve resumo: saímos lá pelas 10 da manhã e só conseguimos voltar à fazenda na volta da meia noite. Não me alongo por conta do espaço, mas prometo a história com detalhes para breve.

Aí, agora pergunto, diante do acontecido, já sabendo resposta. Quem nunca passou por situação de ter que improvisar? Surpresas do inesperado em que se tem que dar um jeito. Seja no trabalho, nas relações pessoais, cotidiano mesmo. Assim, no repente, se vira rapaz, a bola não pode cair.
Você está andando na rua e do nada aparece um microfone quase dentro de sua boca:
- O quê o senhor acha do aumento do combustível de jato supersônico?
- Qual sua opinião sobre o aquecimento global na salinidade do mar e conseqüentemente na menopausa das baleias jubarte?

Você está tranqüilo no teatro, a peça acaba e alguém lá do palco resolve escolher uma pessoa da platéia para falar sobre as emoções que sentira durante o espetáculo. Advinha onde o spot clareia? Exatamente, em pleno brilho de fogo-fátuo! Logo você, que entediado dormiu quase o tempo todo. Ah! E tem a chata da moça a seu lado, que toda empolgada te agarra pelo braço e te coloca bem no meio do palco, batendo palmas, animando a todos. Ela foge pela coxia e você fica lá.
Balbucia um terrível improviso e sai de fininho amaldiçoando a hora em que resolveu acordar naquele dia.
Improviso não pode dar certo.

Lembrei de história muito contada do bebum que, sem norte, entrou em uma igreja e foi sentar-se na primeira fileira, bem diante do padre. Era hora da homilia. Atento, bom, na medida do porre, prestava atenção. O padre falava da passagem em que Madalena fora salva do apedrejamento. Na empolgação comum aos sacerdotes recém-ordenados, abriu os braços e teatralmente exclamou:
-“Aquele que nunca errou que atire a primeira pedra!”
O bebum olhou para um lado, olhou para o outro e não encontrando pedra, arrancou a velha botina jogando-a com força total, acertando o peito do padre em cheio. Este, assustado, caiu de costas com o impacto e com olhos de espanto perguntou:
- Meu filho, você nunca errou!?
- Dessa distância não seu padre!

Pronto. Puro improviso. Não tem pedra, caça com botina mesmo. Óbvio que não poderia dar certo.
Certa feita, dia de meu aniversário, resolvi não avisar ninguém e não fazer comemoração alguma. Tinha em casa uma dúzia de latinhas de cerveja fora da geladeira, um bolinho de padaria de meio quilo para comemorar com meus filhos, uma vela a assoprar e só.
Nem te conto. Quando deu na volta das dez da noite, parecia procissão de carros a chegar. A turma saiu de um casamento em igreja onde festa não haveria e alguém teve o lampejo de meu aniversário. Toca todo mundo pra minha casa. Não sabia o que fazer. Aflição tomou conta, a começar pelo tamanho da casa, que não iria caber aquele mundaréu de gente.

Mesmo na carreira a pedir desculpas, adiantou não. Um pegou as cervejas colocando-as no freezer e logo, ainda mornas, as dividiu em copos da Cica, dando meio copo para cada um. O bolo magicamente foi dividido, não sem antes um sonoro cantar de parabéns. Abraços fraternos e foram todos embora. Emocionante demonstração de amizade, mas a “festa” de improviso, fiasco total.
Se você for um Eric Clapton, um B. B. King, astro do jazz, da guitarra ou outro instrumento qualquer, pode até ser. Mas na vida real tenho que concordar com um amigo, que outro dia com convicção e acertiva nos disse:
A única coisa que tem que funcionar de improviso mesmo é velório.
Sai fora!






Publicado em Diário de Uberlândia em 13 de maio de 2018




segunda-feira, maio 7

Diário de Viagem


https://cerradodeminas.blogspot.com.br/2018/05/diario-de-viagem.html



Beira de pasto, dia abrasador, à distância recém-conhecida Morada do Sol. O que me impressiona é a cordialidade das pessoas e a fartura, a generosidade da terra. Não há quintal sem pimentas várias: malaguetinhas, redondas bodes, cores e formatos diferentes, muitas.

Frutas o que há: carambolas, tamarindos, cajueiros, mexerica enredeira/corriqueira, maracujá a cobrir o todo. Árvores centenárias. Mangueiras, largos e viçosos troncos, vestidas de musgo verde-aveludado, jabuticabeiras, cajás-manga. Apesar da aparente pobreza, o sorriso é fácil e sincero. Em todo canto galinhas de canelas secas. Pilhas infindáveis de telhas de barro antigas, provavelmente vindas de roça distante, aguardam anos a fio serventia outra vez.
Vem não, ficam assim largadas sem nada a cobrir.

Ali bamburramos, é por elas que começa sempre nosso trabalho, é lá que se encontram nossos escorpiões.

Vingança das telhas pelo abandono? Criam, albergam e protegem escorpiões. Centenas. Sol escaldante, as costas logo doem, o suor encharca rosto e roupa, tudo magicamente desaparece, some. Olhares apenas para o fazer, começa nossa caçada. Pé-de-vento, sombra e tento, do miúdo vermelho olho preto. As folhas dos bacuris fazem chover em céu sem nuvens, o barulho da chuva é eterno. Expedição de trabalho em algum lugar Minas afora. Ao fundo sempre brejo, os quintais seguem mata adentro, são infinitos.

As acerolas intrusas decoram de vermelho os mandiocais, sempre carregadas, sem pragas a fazer frente, seguem em doce azeda fartura, ao lado tapetes rosados sob espinhentas paineiras parecem esperar procissão da paixão santa. Sento cansado à sombra de imensa ameixeira. Aqui tudo é superlativo. Retomo o fôlego.

Fogo-apagou pia mansa. Bandos e mais bandos de tucanos, canários da terra, saíras de mil cores. Saracuras: os potes, sempre três. Magnólias floridas perfumam um Brasil colonial. Felizmente o tempo, aqui parou. As casas construídas ao acaso, adobe, tijolo novo, telha comum. Madeira lavrada, outra roliça, bruta. Mistura do que se tem. Faz-se. No escuro da casa devagar se acostuma a vista. Janelas sempre fechadas, a luz fica lá fora. Escuro sem tristeza. Quadros nas paredes irregulares enfeitam. Fotos retocadas à mão, molduras redondas. Os portais baixos obrigam reverência. Abaixa-se para transpô-los, sempre em respeitoso silêncio: - Dá licença?

O fogão de lenha sempre aceso - seus cheiros atiçam cedo a fome. Na varanda do fundo a água dos batedouros corre quintal abaixo. Os patos se fartam no lodo. O rego é ladeado de taiobas. Longa e pesada semana. Os escorpiões são muitos, centenas. Prática de uma vida. Aqui se busca, se aprende os mistérios de tão antiga e bem-sucedida sobrevivência. Voltando, tentamos aplicar o que a terra nos ensina calada. Expedições pelo Brasil, um repassar do pouco saber, nosso trabalho.
Adorava o que fazia, saudade doída.


 


Publicado em Diário de Uberlândia em 06 de maio 2018

terça-feira, maio 1

Coisas de Minas




A venda era igual a outras tantas espalhadas por esse mundo de meu Deus. Duas portas de dobrar, madeira de lei surrada, gasta de tanta chuva e sol. Pintura desbotada mostrava camada por camada as tantas cores do passado de uma árvore que fora grande na mata, até tombar em estrondo e virar tábua em alguma serraria. Um bom observador diria que a primeira tinta foi azul, com muitas demãos em óleo grosso. As outras cores vieram cada vez mais ralas. Preguiça ou falta de recurso, vai saber.

Do lado de fora três mesinhas também de madeira, gastas e manchadas de tanto cotovelo e marcas de rodelas de garrafas de cerveja. Algumas traziam escritos e desenhos feitos a maioria com canivete. Em uma delas destacava um coração em linhas tortas: Adelano Carlos e, sob monte de arranhados aparentemente feitos com raiva ou desgosto, um nome ilegível. Amor frustado ou ciúmes incontrolado. A data ainda aparecia: 1967


Ano curioso. Bom, acho que todos os anos o são, principalmente vistos de longe. Mas, o que aconteceu de tão especial nesse ano? Tinha a guerra do Vietman, Guevara foi morto no vilarejo de La Higuera, na Bolívia e Dr. Barnard fez o primeiro transplante do coração, que poderia ser do pobre em sofrimento que rabiscou a mesa do boteco. Contudo, este paciente morreu alguns dias depois. O micro-ondas foi lançado em 1967, Os Beatles lançaram o genial e imbatível álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band e, do nada, estourou a guerra dos seis dias. Ano louco. Mais de meio século e os anos, todos eles, continuam loucos. Corações continuam a ser rabiscados em mesas, troncos de árvores e bancos de praça.

Dentro do boteco um balcão imenso de madeira, também sofrida pelo passar dos anos, envelhecia em silêncio. Abaixo de sua tampa, como uma vitrine, mostrava doces misturados com maços de cigarro, lâminas de barbear, pilhas Raiovac, marias- moles cor-de-rosa, paçoquinhas, chiclestes e caixas de ramonas, que conviviam pacificamente. De resto, sacos de arroz, feijão e quirera. Sementes e saquinhos, venenos para todos os “males”. Sobre o balcão um cabo de vassoura amarrado com arame, de onde pendiam gordas linguiças. Na prateleira do fundo, garrafas com bebidas de todas as cores, sabores e teores. Pinga de engenho no carote era de graça. Uma cabacinha de pescoço ficava pendurada na torneirinha, era só chegar e servir, cortesia da casa.



Ia-me esquecendo que, beirando as mesas, duas imensas árvores jogavam sua fresca sombra bar adentro. Calor lá não tinha graças a elas. E o resto das cidades matando suas árvores. Estupidez sem fim.

Em cada árvore uma gaiola. Em uma um canarinho muxoxo das penas engrenhadas, na outra um pássaro preto cantador que só.

O dono da venda, ou boteco se quiser assim, dormitava a espera de fregues.

O arrastar da pesada cadeira na calçada o tirou de um sonho agradável que só.

Pegou o pano de secar, sempre aninhado no ombro, passou-o no balcão e nos olhos. Sem pressa pegou uma cerveja bem gelada e copo para o freguês conhecido. Mas quem não era, naquela pequena vila nos confins das Gerais?

- Ô Seo Samuel, tudo em paz?

- Tudo meu filho. Tudo na mais santa paz.

Seo Samuel arrastou outra cadeira da mesa e como de costume sentou-se com o freguês. Ficaram os dois a admirar o canto do Pássaro Preto. Tempo passando, segunda, terceira cerveja e o bicho numa cantoria sem fim.

O freguês encantado tentou o senhor:
- Seo Samuel, quanto o senhor me vende esse danado de tanto canto?

Coçando a barba por fazer, pensou, pensou e manso respondeu - Ah sô, uns duzentos contos a gente pode fazer negócio.

- Sei - murmurou o rapaz
- E o canarinho feio e caladão?
- Eita, esse por menos de oitocentos não começo nem a negociar!
- Mas que história é essa? Mais sem lógica! Um canta sem parar e tu quer 200 contos. Para o outro emburrado, triste e feio, me pede 800. Endoidou de vez?

Samuel matreiro, olhou para um lado, olhou pra outro, passou o pano na marquinha deixada pela cerveja, olhou fundo no olho do frêgues.

- Sabe o que que é, se quiser vai ter que levar os dois.
Não há de ver que quem compõe pro pássaro preto é o canarinho!

Ê Minas;

“Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais." Guimarães Rosa






Veterinário e escritor
Publicado em Diário de Uberlândia em 29 de Abril de 2018



quarta-feira, março 21

Datas



Neste 14/3 o universo perde um de seus maiores físicos teóricos que por essas bandas passou. Stephen Hawking com toda sua genialidade e mesmo preso a doença progressiva, sem cura por enquanto, esclerose lateral amiotrófica (ELA), foi sem dúvida depois de, ou junto com Albert Einstein, uma das mentes mais admiráveis que se tem notícias. Morre o homem fica o legado, a fama não importa. Curiosamente ou propositalmente Hawking resolve partir exatamente no aniversário de morte de Einstein e no de dia do Pi (aqui ó para tamanhas coincidências), “constante deste, um número infinito que é representado pela 16ª letra do alfabeto grego” – dicionário de simbolos.com.br – seu valor 3,14 é data para inglês ver. Para nós 14/3 não significa nada, apenas uma quarta-feira chata como outras, modorrento como todo meio de semana se apresenta. Se você gosta de futebol então é um dia especial para você. Caso contrário, é um meio de nada. 
Foi-se a preguiça da segunda e terça, mas não nasce a expectativa do fim de semana. Bom, quartas são quartas e esta em particular comemora o tal dia do Pi. Aposto que isso agora muda sua vida para sempre.

Física/matemática não me pertencem, assim como muitas outras datas criadas num à toa de dar dó. Vereadores adoram este expediente e criar uma data é projeto digno de deliberação por semanas. Quanta riqueza de pensar!

Pois olhe, fico mesmo é espantado com a imaginação das gentes. O ócio criativo junto com alta remuneração cria pérolas. Após longa e exaustiva pesquisa (uns 15 minutos talvez), e sem receber um centavo (como sou altruísta), trago para você algumas datas muito importantes, as quais, com toda certeza, mudarão sua vida para sempre. Espero que esta pequena contribuição de conhecimentos inúteis lhe seja útil algum dia.
Vamos a elas:

03 de janeiro – Dia do Juizado de Menores. Tem mais de 18? Então esquece.
08 de janeiro – Dia da Rotação da Terra. Ébrios talvez se interessem pela data.
14 de janeiro – Dia do Treinador de Futebol. Estes coitados merecem canonização, pois pulam de emprego em emprego.
15 de janeiro – Dia do Adulto. Que dia é esse?
18 de janeiro – Dia Internacional do Riso. Só rindo.
30 de janeiro – Dia da Saudade. E tem dia para senti-la?
14 de fevereiro – Dia Mundial do Amor. Amor com dia marcado.
23 de fevereiro – Dia da Escrita à mão. Essa já dançou, pois escrever hoje em dia é ato de bravura, principalmente usando-se palavras inteiras.
02 de fevereiro – Dia Mundial das Zonas Úmidas. Duplo sentido. E as zonas secas, perfumadas e com cortinas de veludo vermelho?
28 de fevereiro – Dia do Engolidor de Espadas. Meu Deus, mude o cardápio!
10 de março – Dia do Sogro.
14 de março – Dia dos Carecas. Criado provavelmente por em, movimento contra fabricantes de perucas,
17 de março – Dias dos Fãs de Séries de TV e Cinema.
Não dá para comentar todos, deixo para sua imaginação. Aproveite e envie e-mail, telefone, faça manifestações nas ruas, crie o dia que te agrada sobre qualquer coisa. Aposto que seu político de estimação vai adorar. E segue a lista:
31 de março – Dia Mundial do Backup.
13 de abril – Dia do Beijo.
26 de abril – Dia do Goleiro.
28 de abril – Dia da Sogra.
03 de maio – Dia do Sol.
12 de maio – Dia do Silêncio.
20 de maio – Dia do Humorista.
22 de maio – Dia do Esclarecimento sobre os malefícios do trote telefônico. Este é especial, adverte o Ministério da Saúde.
27 de maio – Dia do Vendedor Lotérico. São tantos assim? Ah, tem os anões do orçamento, esqueceram?
31 de maio – Dia do Aeroporto.
05 de junho – Dia do Pedestre. ¨Morreu atropelado atrapalhando do transito”.
22 de junho – Dia do Orquidófilo.
27 de junho – Dia do Quadrilheiro Junino.
08 de julho – Dia Mundial da Alegria.
13 de agosto – Dia Mundial do Canhoto – Dia da Esquerda?
20 de agosto – Dia do Vizinho. Esse é duro de aguentar.
23 de agosto – Dia da Injustiça. É justo?
09 de setembro – Dia do Alcoólico Recuperado. Um brinde!
17 de setembro – Dia da Compreensão Mundial. Patrono Trump.
22 de setembro – Dia dos Amantes.
25 de setembro – Dia da Tia Solteirona. Aqui estão de sacanagem.
22 de setembro – Dia da Banana- Engorda e faz crescer.
12 de outubro – Dia do Torcedor Corintiano. Juro que existe. Quem criou? Vicente Mateus provavelmente.
10 de novembro – Dia da Pizza – Em Brasília todo dia.
11 de novembro – Dia do Origami.
12 de novembro – Dia do Supermercado.
13 de novembro – Dia da Gentileza no Trabalho.
19 de novembro – Dia do Tênis de Mesa.
21 de novembro – Dia da Saudade do Jornalista Falecido.
10 de dezembro– Dia do Palhaço. Todos nós Brasileiros deveríamos vestir luto nesse dia.
Ah, fica a sugestão. Dê trabalho para seu parlamentar de estimação e envie sugestões, pois ele irá adorar ter o que fazer.
Que tal Dia do Chulé, Dia da Dobradinha, Dia da Preguiça, Dia do Ovo Frito, Dia da dor de Calo, Dia do Quiabo, Dia do Mingau de Milho verde, Dia do…

Post Scriptum:

Para não ser como tantos oportunistas da web, aí vão as fontes pesquisadas: Wikipédia pt.wikipedia.org/wiki/Datas_comemorativas, Mega Curioso www.megacurioso.com.br/, Superinteressante , super.abril.com.br/ www, dicionariodesimbolos.com.br.





Veterinário e escritor


Publicado em Uberlândia Hoje 

quarta-feira, março 14

Olha o trem




Posso te garantir meu caro amigo e hoje, em particular, minhas amigas, dedilho esse contar em pleno 8 de março, passou eu sei mas assim foi, dia internacional da mulher. Particularmente e sendo bem lugar comum, acho que todos os dias pertencem a vocês. Pode acreditar, não é lamechice de minha parte não, é constatação. Assim através de amores passados, esquecidos e principalmente pelo iluminado amor que junto a mim está, companheiro, escudeiro “amiga para todas as horas, várias faces de uma só pessoa” e de minha filha maravilhosa, envio meu carinhoso abraço a todas as mulheres guerreiras desse vasto mundo. O mundo é de vocês Marianas, Marílias, Marias que não vão com as outras.

Há assunto ainda fervilhando aqui em minha cabeça de vontade de contar. Quase passo o meu espaço falando de vocês o que seria ótimo, mas não posso perder o fio da meada, senão como poeira de estrada quando passa caminhão, levanta dispersa e some nas palhadas, nos pastos, nas manchas de mato. Chuvisco fino que não chega a molhar.

História que aqui reconto me foi contatada, não carrego os créditos do caso nem posso dá-los pois ao mundo pertencem, talvez até conheça, mas o registro tem que ficar.
Em pequena cidade em pé de serra, vazia de barulhos e de gente, três meninos cresceram juntos, claro que havia mais crianças no pequeno grupo onde ainda se usava “Caminho Suave” e à vezes até palmatória. Mas esse trio era diferente, amizade siamesa, xifópaga. Podia contar, onde um estava era só passar olho e achavam-se os outros. Se por acaso um era pego roubando fruta em quintal castigo para os três. Cresciam pé no chão alegres e pregados. Frango caia de maduro de poleiro, direto na panela ou fogueira. Os pais dividiam e pagavam o vizinho enfezado com a traquinice.

Adolescentes, hormônios à flor da pele, suavam frio/quente, êxtase ao espiar as meninas nuas em banho de cachoeira. Exaustos, pernas bambas, seguiam em alegre silêncio até se prostrarem em gramado e bancos de praça. Nenhum pio, apenas as estrelas como companheiras. Logo, recompostos a algazarra de sempre. Três que valiam mil em contar detalhes e fechar de olhos.

O tempo. “Medida arbitrária da duração das coisas”.
A pequena cidade não os cabia mais. Buscar rumo, não tinha jeito. Resolveram fazer concurso do Banco do Brasil, carreira promissora, futuro certo. Bota um estudar sem fim.
Vendas, botecos e zona. Tinha sim. Era pequena mas como manda a tradição a zona lá estava e sempre cheia, inclusive em dias de semana. Um terror das matronas.

Dizem que foi lá que nasceu a história do vendedor de panelas que, ao ser surpreendido pela noite em suas andanças, buscou pouso no único hotel da cidade. Banho tomado resolveu sair para aventura. Perguntou ao porteiro do hotel onde ficava a igreja. Com sorriso de mineiro cordial indicou direção. O mascate pegou o oposto: — Uai moço, a igreja é prá lá!
Maroto, respondeu em cochichos — Eu vou é pra zona sô, pelo que sei é sempre do lado contrário das igrejas. Padre ia deixar ser diferente?

Pois nem tempo tinham os três. Era um estudar que só. Montanhas de apostilhas chegavam quase todo dia pelo correio.
A prova foi na Capital. Belo Horizonte os recebeu barulhenta e com seu trânsito agarrado de sempre.
Exame feito, agora era esperar resultado.

Meses de agonia depois e pronto toca a comemorar. Fecharam todos os bares e vendas da cidade. No último, vendo que não iam embora o dono proclamou: – Toma a chave dos fundos. Vocês vão marcando o que beberem no caderno e depois acertam, vou dormir, o, leiteiro passa cedo. Só não vão me botar fogo na venda!

A luz tinha caído como sempre e lampião de querosene iluminava o ambiente. Naquela noite o gato do armazém dormiu em paz sobre seu saco de arroz preferido e nem camundongo ousou botar bigode fora da toca, tamanho furdunço.

Dia amanhecendo, abraçados seguiram para a estação de trem, cada um ainda com uma garrafa de Fernet pela metade.
Tontos se jogaram no banco da velha estação se deixando ficar. Passou hora e mais hora. Num sobressalto o rapaz acordou. Cabeça doía que só. A luz do amanhecer entrava por seus olhos como zagaias afiadas. Na ponta do banco o cabo da polícia estava sentado com as mãos entre pernas e dedos entrelaçados. Sem nem olhar para o rapaz que conhecia desde molecote, com voz paternal lhe murmurou:
— Tá vendo, estudou tanto e agora que ia assumir o posto perdeu o trem. Seus amigos embarcaram tontos, mas foram. Tem vergonha não?
O moço aprumou, coçou cabeça e assim, do nada, começou com risada miúda, que foi crescendo, crescendo até transbordar em gargalhada de rolar no chão. A cabeça doía, mas o riso era impossível de segurar.
Sem entender nada o cabo já ia ficando era assustado.
Enlouqueceu rapaz? Eu vou é chamar o doutor e seu pai.
O moço ainda no chão de tanto rir, que doía corpo inteiro:
— Carece não cabo, carece não. É que na verdade só eu passei. Só eu é que ia viajar, os amigos vieram foi me trazer aqui na estação.
Levou semana para os outros voltarem.








Publicado em

Jornal Uberlândia Hoje
Jornal Voz Ativa Ouro Preto - MG
Diário de Uberlândia


quinta-feira, março 1

Paranormal

Chegou em casa esgotado, dia estafante de pouco fazer, mas a cabeça não parava. Como sempre abriu as janelas para que o doce ar da tarde empurrasse o cheiro de casa fechada. Cheiros de madeira dos poucos móveis, do incenso queimado na noite anterior. Sonhos e lembranças ainda presos fugiam com a brisa leve e tomavam rumos desconhecidos. Jogou-se preguiço em sofá pequenino. Só então se deu conta dos latidos chorosos vindos do quintal e do arranhar de porta. Tão detonado estava que não pôs atenção que seu companheiro cão o aguardava ansioso. Já sem a botina, só de meia, correu abrir porta da cozinha. Festa assim, de poucos ou de ninguém recebia. O vira-lata puro, de nome Pistache, ficava eufórico toda vez, por menor que fosse a sua ausência. Ao voltar era sempre recebido como um deus.

Pistache entrou feito um foguete casa adentro, subia e descia as escadas que levavam ao quarto como um louco. Latia, quase falava pedindo carinho e atenção. Aquela bagunça durava alguns longos minutos e só parava depois de muito afago e coçar de barriga.
Companheiro aquietado, segue-se a rotina solitária. Abre a geladeira sem procurar nada, só costume. Confere a marmita do almoço e vê que vai dar para a janta tranquilamente, pois sobrou muito.
O tempo se fechava para chuva. Resolveu ficar quieto em casa. Subiu de dois em dois os degraus rumo ao banheiro.

Já no chuveiro, pensou ouvir vozes no andar de baixo. Fechou a torneira e pôs atenção. Nada, imaginação apenas.
Retornou ao revigorante banho cantarolando. Poucos segundos, vozes novamente.
Tem alguma coisa errada, se fosse gente estranha Pistache daria sinal. O vira-lata dava notícias de tudo, mas o bicho estava quieto…

Enxugou rapidinho e de pulo vestiu uma bermuda larga e confortável.
Nesse meio tempo escurecera. As sombras delicadas da noite tomavam conta de toda a casa. Luz agora só no quarto onde se vestia.
Ao apagar o único brilho luz percebeu um clarão a piscar embaixo. A luz fazia movimentos e se espalhava por toda sala. Que estranho. Nada de tenebroso lhe passou pela cabeça, tipo fenômeno sobrenatural, um poltergeist da vida. Nada do tipo, mas que era estranho era.

Desceu com mais cuidado do que de costume e, por precaução, não acendeu luz alguma.
Qual foi sua surpresa. Ao entrar na sala de televisão, a mesma estava ligada e Pistache super atento a olhar a luz de um canal sem sinal. Pronto, agora só me falta sair alguém daí de dentro e arrastar o cão. Sorriu. Bateu a mão sobre a cama que lhe servia de sofá a procurar o controle remoto, mas foi só virar as costas e entrou na tela um programa de televisão, desses de pregação e tira-capeta, com o som nas alturas! Tomou um susto louco. O coração veio à boca. Olhou Pistache e este continuava a olhar firme para a tela, desconfiado.

Mas cadê esse danado de controle que não acho? Aí sim acendeu luzes, revirou tudo, quando novamente o canal mudou para uma novela qualquer por si só. Eita, que tem muita coisa esquisita aqui! Manualmente abaixou o volume que ainda estava no máximo, ensurdecedor. Não suportava barulho. Outra vez canal mudou sem explicação, filme antigo agora.
Não tá certo. Sentou no improvisado sofá e botou reparo no ambiente. Pistache a seus pés, olhos vidrados na tela. Ele não era disso, aqui tem coisa.
Não conseguia fazer ligação com nada. Os canais mudavam, o som aumentava e diminuía sozinho, como se a televisão tivesse ganhado vida própria.

Foi quando resolveu atentar para o cachorro e sua seriedade ali. Mexia a orelha direita o som aumentava. Bobagem, pura coincidência, mas ficou velhaco, o bicho mexeu a orelha esquerda o som diminuiu de sumir. Epa!
Passou a mão no lombo do danadinho e esse destampou a abanar o rabo, aí ele viu, os canais começaram a passar em incrível velocidade, no ritmo certinho do abanar.

Era demais, mas só tinha uma explicação. Pistache comeu o controle remoto e de alguma forma agora seus movimentos comandavam a TV. As orelhas o som, o rabo os canais. Olhe, levou um bom tempo para assimilar tudo isso e ensinar o cão a se concentrar, para não atrapalhar um programa ou filme a ser visto. A paz voltou a reinar e hoje, além de latir carinhosamente em amores quando o dono chega em casa costumeiramente esgotado, Pistache já coloca a televisão em seu canal preferido. O amor é lindo. Repito, por conta desta e outras, prefiro bicho a gente.
Tá rindo de quê? Acha que é gozação? Não está acreditando no ocorrido? Te levo lá para ver. Só não pode ser na hora em que passa filme da Lessie, aquela Rough Collie, no Telecine Cul, pois democraticamente a prioridade é dele, o cão. Fica o convite, mas traz o vinho.






Publicado em Jornal Uberlândia  Hoje