segunda-feira, dezembro 5

Dizer adeus



Era ainda madrugada adentro. De tão frio nem grilos cantavam, pios de coruja haviam se silenciado, corujas/encorujadas se aquietaram na tentativa de se aquecer, nem a fome as faria voar esta noite.
A lua exuberante em um céu estrelado — anunciavam geada.

Uma única e pálida lamparina ardia na casa. Os movimentos eram cuidadosamente calculados para que nem um ruído acordasse a família. Vestiu-se devagar, sentado na cama. De minuto a minuto lançava um olhar para a mulher deitada ao seu lado. Só seus vastos e perfumados cabelos longos podiam ser vistos, escondida estava sob várias mantas multicoloridas de tear. Percebia-se sua respiração cadenciada; profundo sono; com certeza repleto de sonhos calmos/suaves. Quanto calor emanava daquele corpo oculto, que vontade de ficar e deitar-se ao seu lado, apertá-la contra seu corpo, amá-la, amá-la, amá-la.
Calçou a botina, seus dedos ainda doíam da lida do dia anterior, assim como as suas costas e braços. Envelhecia. Levantou-se mais lentamente ainda para que o já gasto catre não rangesse. Passou levemente as mãos nas pontas daqueles cabelos sedosos.

Caminhando para a porta do quarto, olhou furtivo em direção de sua companheira, as sombras de seus contornos dançavam nas paredes projetadas pela luz da lamparina que agora ele segurava. Não mais a via. Cômodo em breu.

Parou à porta do quarto do filho, mantas espalhadas pelo chão, menino encolhido na cama. Ternamente recolheu as cobertas e cobriu seu garoto. Beijo na testa. O pequeno entreabriu os olhos e sorriu longe. Sentiu o calor voltando e sussurrando um “Eu te amo” para o pai, virou-se a dormir.

No quarto em frente, a filha. Menina-moça quase adulta, adolescente. Beijou-lhe rapidamente a face fria pelo vento que matreiramente insistia em entrar pela janela semi-aberta como que a trazer murmúrios de juras de amor de algum pretendente desconhecido. Fechou a janela rápido, espantou e apagou os recados, pai ciumento.

Bebeu um gole de café frio, caminhou para a porta da varanda, apagou a lamparina. Escureceu a casa, escureceu sua alma, junto com aquela chama apagou-se também parte imensa de sua vida. Não podia, não sabia viver sem os seus.

Partiu jurando voltar.






Jornal Correio em 4 de dezembro de 2016

segunda-feira, novembro 28

Superlua



Foto  da web

Pois então, dias atrás tivemos a “Superlua”. Trem de doido, a tão cantada em versos e prosas, inspiração dos “poetas, seresteiros namorados, correi…”, deu o maior 171 na gente. Não que tenha não ocorrido, as potentes lentes de jornalistas e astrônomos nos mostraram o fenômeno mundo afora em imagens televisivas. Aqui choveu a cântaros. Uma super bem-vinda água do céu a verter. Para ser sincero, mais importante do que a lua em grandeza diferente. Não, não é isso. Sou grande admirador e apreciador de luas, sóis e cometas, a ponto de me deixar largado no chão a contar pequenos pontos moventes como se fossem discos voadores, quando não passam de invenção humana, os satélites artificiais. São dezenas deles a toda hora, já parou para olhar?

Pois digo, os astros andam a nos pregar peças com uma constância danada. Outro dia foi uma chuva de meteoros que melou. Fiquei noite inteira, olhar fixo em um céu doente de tanta estrela, com minha lista imensa de pedidos a fazer para cada um avistado. Frustração. Nem um acertinho na mega-sena ou amor perfeito consegui emplacar. Há alguns anos foi Mr Cometa Halley, que deu as caras numa ressaca de deslumbre e beleza decepcionante. Aliás, a tal chuva de meteoros, dizem, é o rastro do tão falado cometa da enganação. Bom, vamos esperar 2061. Quem sabe toma tipo e produz um espetáculo decente? Talvez consiga algum patrocínio via lei Rouanet que lhe permita cobrir-se de brilho convincente. Quem viver verá.

O céu e suas peripécias, a bela Estrela d’alva nem estrela é. Para quem não sabe é Vênus, um planeta. Plutão que era planeta com P maiúsculo foi rebaixado a categoria de planeta anão. Não existia essa categoria, mas a União Astronômica Internacional (UAI), sabia que era coisa nossa de mineiro foi lá e criou o termo para não humilhar demais o astro. Não gostamos de nos desfazer de nada, nem de ninguém. Somos observadores atentos, mas maldade deixe para os outros.

O melhor foi a história de um amigo. Mesmo com a invernada que deu, tomou todas e foi para o quintal à caça da superlua. Não deu outra, ele viu e esparramou a notícia pelas redes sociais — Cara essa superlua é realmente super. Estou embriagado de tanta beleza, nunca vi nada igual. Vocês estão curtindo? Dedilhava freneticamente em seu celular.

Todos respondiam quase a mesma coisa: — Você bebeu demais. Tem lua não, as nuvens estão cobrindo tudo!

— Que nada, aqui tem chuvisco só e a tal é Super mesmo.

Intrigados, mais do que curiosos, alguns amigos foram à sua casa conferir. O encontraram encharcado no meio do gramado, em ataque eufórico, abraçado com uma garrafa de uísque. — Ali ó, olha que beleza, balbuciou quase em choro de alegria.

— Cara, vamos entrar e sair dessa chuva!

— Nunca! E perder esse espetáculo?!

— Vamos sô, você pode gripar!

— Saio não. Só na hora que ela for embora!

Cansados de tentar convencer bebum, um dos amigos perdeu a Brahma!

— Vai entrar sim, o que você está admirando seu mala é a antena parabólica do vizinho.

Pois é, os astros não mentem jamais, mas que enganam… Ah, isso fazem com frequência.






segunda-feira, novembro 21

Belo Horizonte




Nunca fui bom de matemática. Tabuada era um suplício. A de dez, de dois, com esforço a de cinco, eu me dava bem. Tinha a de um, mas esta a professora nunca pedia. Detalhe, não podia contar nos dedos, pois as mãos tinham que ficar sobre a carteira, para serem vistas pela mestra possuída, olhos de maritaca, de tão vermelhos de raiva. A régua na mão mais parecia um facão, pronto a decepar nosso pescoço em caso de erro. Verruga enorme no nariz. Claro, não era nada disso. Ela era bonita e carinhosa conosco, mas era como bruxa que a víamos em dia de tabuada. Talvez fosse essa a nossa maior preocupação infantil, a tal da matemática. O ano lembro bem, 1963. Ano do assassinato de Kennedy. Fomos dispensados das aulas do grupo escolar e lembro que, ao chegar em casa, todos choravam como se tivessem perdido alguém da família. Chorei também, mesmo não sabendo motivo.
O país vivia um frágil lampejo de democracia. O parlamentarismo acabava de ser derrota nas urnas. Jango presidente. O resto da história certamente todos conhecem.

Mas queria mesmo é falar de Belo Horizonte, minha Curral del Rei. Os ficus enfeitavam a Avenida Afonsa Penna e onde hoje está a rodoviária ficava a bela Feira de Amostras. Foi lá que, pela primeira vez, vi um formigueiro vivo, funcionando dentro de um terrário de vidro. Amor à primeira vista pelas miudezas da natureza mudou meu olhar. Passei a buscar ainda criança as maravilhas de um mundo quase invisível para a maioria das pessoas. Parafraseando Manoel de Barros, "meu quintal (tornou-se) é maior do que o mundo".

Cidade pacata, os bondes estavam sendo desativados, mas ainda os vi rodando em guinchos e suaves solavancos em morosa velocidade. A vida em BH era assim. Crianças como eu iam a pé para o Instituto de Educação. Correria e risadas na saída, carrinho amarelo da Kibon, saquinhos de Delicado, balas Chita e pirulitos de açúcar em tabuleiro de madeira. A vida era doce.
Pousei Uberlândia.

Outro dia, um domingo, fui convidado por um amigo/irmão para uma galinhada beneficente. O cabra estava num mau humor de fazer inveja em cachorro bravo amarrado. Danou a excomungar Belo Horizonte. — E você é de lá! Bramiu ao me ver.
— Como assim? Em espanto.
 —Como é que pode morar num inferno daquele?
E eu ainda sem entender.

— Imagina - continuou - Você chega ao aeroporto e até que te deixam sair se vão duas, três horas. Pega o buzu, pois o aeroporto fica literalmente nos confins do mundo, e são mais duas, três horas até chegar ao centro. Pega um táxi para o local de reunião, trânsito parado e lá se vão mais três, quatro horas. Isto quando consegue chegar. Entardece, aí vira loucura geral. Você tenta voltar para o hotel, outra eternidade. Toma um banho com o estômago nas costas de tanta fome e sai. Outra guerra. Aí quando você chega ao restaurante, ele está fechado! Tem dó gente! Como é que você consegue morar num lugar desse? 

Eu, calado, deixo desabafar. Não me contenho. Ataque de riso daqueles incontroláveis. O amigo estava assim porque teria que viajar e de carro, desta vez para a capital.
Rimos juntos. Ele já estava conformado.
 —Também não é assim, né mano velho! 
— É, suspirou. Tô fazendo drama.
E tome risadas.

Isto me fez lembrar de outro amigo que mora aqui no Prata. Fomos juntos a BH ministrar curso. Na Savassi, tempão para atravessar a Getulio Vargas. Ele, tranquilo, olhou para um lado, olhou para outro e me cutucou com pergunta: — Povo daqui trabalha não? Ao ver minha cara de desentendido completou: — Uai, eles só ficam andando de carro o dia todo!
Saudades de minha Belo Horizonte.






sexta-feira, novembro 18

Vento verde



Moleque nas cercas vivas. Criava ondas verde vegetal imitando um mar vertical. Trazia paz e lembranças de um mundo de água longe. O cheiro de maresia veio fundo enchendo pulmões. A espuma se formando a cada onda quebrada. As bolhas dos buraquinhos dos tatuis.

Senti cheiro de moqueca de Marlene e seus encantos culinários. Senti nos olhos e na garganta o gosto salgado de um tempo indefinido. Lágrimas são filhas do mar, mergulhei em onda imaginária, sentindo o prazer que quem só mergulhou conhece. Um abraço quase materno da água.

Um aperto carinhoso lhe segurando por todo o corpo. Cada milímetro. Vontade de virar peixe naquele imenso útero protetor. Vento trouxe outra onda verde, casal de bem-te-vis surfaram alegres entre a folhas. Ali deve ter ninho. Melancolia tomou conta. Tinha acabado de fechar a última página de “A morte de Ivan Ilitch”. Tolstoi produz um efeito estranho em quem o lê. A desconstrução da alma humana de seus personagem é certeira e direta. Sei que vou ficar dias impregnado de Ilich.

A onda verde. Vento morno para um outubro que não se faz anunciar. A beleza da primavera ainda se deixa notar tímida com seus ipês brancos, flores que lembram lenços de linho, a balançar em despedida de navio quando, lentamente, manobra em um desatracar do cais do porto.

O vento agora segura, em congelada imagem, andorinhas. Pairam em leveza, observam. O vento é sólido amparo para elas, gaviões e abutres. A maré virou. Agora em rodopios a cerca viva balança histérica. Parecem saias de monjas empurradas para o alto. Os bem-te-vis, juntinhos, pousam no chão. Suas penas também esvoaçam em descabelo, talvez preocupados com os filhotes, assustados com corcovear dos galhos como brinquedo de parque de diversão. Lembranças voltam a girar com aquele quase redemoinho.

Um telefone toca, um cão late, um carro passa com música alta e de péssima qualidade. Quem dotado de bom gosto musical colocaria música dessa altura numa merda de carro? Dizem que agora dá multa. Tá, mais uma lei para não ser cumprida. E tem quem fiscalize?

Já reclamei mil vezes dos imbecis que ocupam vagas de idosos e deficientes em shoppings, clube e supermercados. Apareceu alguém? Alguma “autoridade” se dispôs a sair do conforto de seu nada fazer para agir? Nunca!

O vento verde aquietou-se. Parecia cansado. O mormaço subiu em golfadas. O céu não estava com a mínima vontade de mostrar chuva. Concordo, e lá isso é prosa para um domingo? Avisei, estava tomado por Ilich. Não poderia ser de outra forma. Até passarinho na muda emudece.

Acho que vou ler algum “escritor maldito”. Quem sabe melhoro? Quem sabe reler Anthony Burgess e sua Laranja Mecânica? Não, quero não. Vou me refugiar nas belezas do mágico Manoel de Barros, pois ali sim um viver feliz guarda tons de serenidade:

“Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.”

E o vento verde em arco íris se transformou. Belo domingo!






segunda-feira, novembro 7

Boi boi



Passou a noite na macega a campear bezerro sobre ano fujão. Como havia emprenhado muito mato adentro o anoitecer o abraçou sem que percebesse. Podia culpar o horário de verão, mas este, ali, não fazia a menor diferença. Nem relógio usava! Galo cantou, pulava da cama para as obrigações da roça. Trato para galinhas e porcos no mangueiro que era um mundo. Apartar bezerro, tirar leite, colocar latão na porteira. Só então tinha tempo para um café forte coado. Deu fome? Merenda. Arroz, feijão com toucinho, um ou dois ovos fritos de gema amarelo ouro, mole por cima. Um suco de tamarindo.

A pasta ainda era do ano passado. Deu sono? Cochilava onde dava. No paiol, na rede da varanda ou até sobre o arreio de cavalo a campear. Horário de verão? Existia isso não. Dormia e acordava com as galinhas, literalmente.

Hora ou outra dava nisso, bezerro fujão, javali empurrado para cerrado atentando suas marrãs no cio, raposa no galinheiro, o obrigava a contragosto, diga-se de passagem, a montar guarita com sua velha flober. Às vezes, dava sorte e comia um javaporco ou mesmo um bruto puro javali na bala. A Florestal permitia. O bicho era invasor, a espalhar-se na velocidade de vôo de falcão-peregrino que, visitante, vem fugindo do frio lá do norte. Carne na lata por muito tempo. Fartura. Raposa não matava não, mas atirava perto para passar susto e ver se não voltava. Dava um tempo, porém, sumido o medo e apertando fome, voltava sorrateira.

E assim, perdido em pensamentos e uma ponta de raiva por conta do sono, abriu o amanhecer no meio do nada. Perdeu a batida do garrotinho. Deu conta de que estava perto da casa do compadre Belarmino. Tocou pra lá.

Encontrou o amigo tirando leite no curral. O sereno da manhã teimava em transformar-se em chuva fininha e fria.

— Dia compadre, andando cedo? — Pois então compadre, correndo batida de boi fujão, noite toda e nada.
 — Passa pra dentro do curral, acabando aqui vamos tomar um café. Você está com cara de cansado. — Não é pra menos compadre, mas fico de cá mesmo. 
— Ara, passa pra dentro do curral homem! 
— Passo não. Se eu pisar aí esse boi me pega. Conheço bem ele. 
— Pega nada sô! Pula pra dentro! — Não compadre, esse danado já correu comigo. Se eu entrar é cabeçada certa.

— O que é isso homem, medo de boi? Tô te estranhando. Aí era demais. Não podia nem fingir medo. Bateu a botina na primeira tábua do curral e fincou os dois pés na lama de dentro.

Foi nada não. Mal sentiu o baque do corpo no chão, o boi de olhos bem abertos, como quem quer mesmo, veio com tudo pra cima dele, que ligeiro negaceou. O bicho foi lá adiante, virou nos cascos e investiu outra vez. Ele negou de lado, já jogando o chapéu na cara do desalmado.

Agora nem se afastou. Só virou o corpo e levou a cabeça do filho do cão à força, que fez vento pertinho dos fundilhos do moço. Deu de banda mais uma vez. A lama espalhava pra todo lado, a cada repicada de casco no chão.

Ligeiro passou, deu volta no corpo, rodopiou em salto único e caiu de lá do curral.

Sem fôlego, agachado com mãos apoiadas sobre as pernas, mal conseguiu sussurrar: — Falei, num falei compadre, que esse excomungado ia me pegar?

—Uai, compadre e pegou?






Jornal Correio em 6 de novembro de 2016

Bichos de verão




Chega a hora e não tem quem segure. O ciclo da vida raramente pode ser interrompido, quando não há interferência humana. O entardecer veio em pintura. Tantos tentaram reproduzir, um ou outro mestre na genialidade na lida com pincéis conseguiu. A maioria falha até em foto. A beleza ali é única, perfeita, imexível. Magri criou, ficou. A língua viva permite. Se fosse um poeta ninguém notaria ou então elogiaria sua “criatividade”. Como foi político, sindicalistas caíram de pau. Gosto de inventar palavras.

O imexível pôr do sol se faz. As primeiras luzes vão se acendendo na calmaria. Pronto, é o sinal. Brotam da terra aos milhares, em um balé confusamente sincronizado no chão e se atiram ao ar. As luzes as atraem e ali rodopiam até cansar. Ao pé de cada poste, um sapo, às vezes, dois. Calmamente, em banquete glutão, empacham-se e ficam mais redondos. Morcegos velozes/felizes soltam gritos de um alegre caçar fartura. É tempo de nascimento de filhotes. Estes virão fortes por mães bem alimentadas. A revoada tem que ser grande, poucos se salvarão. Assim se faz o enredo da vivência.

Nas casas, luzes amarelo fraco transformam o chão e parede em algo possuído. Movimentam-se como se vida tivessem. Hora da farra das Taruíras. Nossas lagartixas exibem barriga imensa de tanto festar. O aviso foi dado, vai chover. Aleluias aprenderam a ler o tempo. Carecendo voar, agora arrumam par para criar família. Não adianta brigar, jogar veneno. O máximo a fazer é desligar luz, aprender a ler os bichos, seus sinais, seus vôos, seus pios, seu andar, seu voar.

Ao amanhecer restarão milhares de asas e pequenos corpos espalhados por toda casa. As formigas, antes do sol se mostrar tímido, entre nuvens, em correria, se apressarão em carregar o máximo do espólio daquela batalha de sobrevivência. A nós cabe tentar varrer os restos. Missão ingrata, asas voam por sobre nós e pousam sem corpos logo ali. Bom seria um aspirador. Pano molhado, balde e muito torcer. Amanhã tem mais.

Estranho, por essas bandas as gentes quase todos, odeiam mandarovás e pouco tempo se tem de apreciar a beleza azul das borboletas imensas, em seu bater de asas silencioso e coreografado em que se transformarão. Esquecem das podas naturais que fazem. Cortam árvores em desverdejamento constante, inquietam a vida, a harmonia em prol de estética ou puro desprezo pelos viventes. Conhecer jeito dos bichos para controlar os das doenças sem matar as nossas borboletas, difícil não farão.

Folhas que abrigam ninhos tombam em tristeza. Mais uma mãe perdeu as crias. Temos abelhas e joaninhas de menos, disse uma amiga virtual que atende pelo delicado nome de Passarinho.
Aleluias. A prometida chuva derrama a cântaros. O ciclo se fecha mais uma vez. Pergunte aos bichos se sabem de horário de verão? As andorinhas migratórias abrem o verão. Uma só? Milhares. No velho mundo adoradas, aqui odiadas, “sujam” muito.

Pare um dia. Observe a chegada delas e a sincronia de um voar. O belo nos foi dado, basta querer ver. Hoje deve chover. Agradeça a sorte de poder se molhar. Aproveite o dia.






Jornal Correio em 30 de outubro de 2016

Aranha



Domingo quente esse. Parecia Palmas, no Tocantins, onde cada um tem um sol só para si, dizem. Estive lá e conferi. O meu sol estava guardado em caixa reluzente e me foi dado assim que desci do avião. Sorte que ao partir ele, o sol particular, me foi delicadamente recolhido. Acredito que, após passar por recarga, fica ali a espera do próximo visitante.
Domingo quente. Já havia corrido, nadado. Sentei à mesa imensa para almoço convidado. Olhava o tempo sem ver, quando movimento mínimo me atraiu atenção. Uma micro aranha papa-mosca passou aos pulos sobre minha mão, na maior falta de cerimônia. Passei a segui-la.

Displicentemente chegou à borda do copo. Em sucessivos giros observou o ambiente. Mexia-se aos pequenos trancos, erguendo a cabeça como buscar foco e escorregou até o fundo, rodopiando em passos de balé contemporâneo.
Dei leve toque no cristal, senti sua vibração, diapasão.

Ela pareceu me olhar aborrecida, afinal a imobilidade em que se pôs lembrava tocaia. Cara, se não pode ajudar não atrapalha! Pensei ter ouvido em sussurro amplificado pelo bojo do cristal. Pedi desculpas baixinho. Vai quê!
Subiu a parede gigantesca de vidro resmungando, acredito.

Lá do alto mirou o infinito. Estava com fome e os insetinhos miúdos não andavam por perto.
Uma mosca pousou ao alcance de seu bote. Mirou bem, deu uma dançadinha de lado. Desistiu. Muito grande. Se pego me leva, avaliou. Tomou rumo naquele mundo de panos, garfos, facas, taças, garrafas e pratos. Não eram obstáculo para seus olímpicos saltos. Foi até ao final da mesa, distancia considerável para tão minúsculo animal. Calculei a relação com a gente. Umas duas maratonas, talvez três. Não me pareceu cansada ao chegar à borda do abismo. Parecia irritada de fome. Ligeiro, peguei em fruteira uma banana nanica, já pintadinha. Esta atrairia mosquinhas de fruta, ou Drosophilas, para os que dominam as ciências dos bichos e seus nomes horrivelmente científicos. E isto é nome para se dar a uma mosca em miniatura? Quer outro exemplo? Didelphis marsupialis.

Sabe o quê é? Nada mais do que um gambá de terno e gravata. Imagine só em festa de muita pompa o anunciar:
Senhoras, senhores, o conde Sir Didelphis marsupialis e Lady Lutra longicaudis. Todos se viram em curiosidade e me entra um gambá e uma lontra na maior das prosas, falando alto e às gargalhadas. É pra acabar de vez com o pequi de Goiás e com a jabuticaba de Sabará.

Voltando à nossa amiguinha. A isca de banana não funcionou. Ninguém a visitou além de moscas verdes e uma maritaca sem medo, que pousou no respaldar de uma cadeira da mesa e ficou olhando gulosa.
O mar não estava pra peixe para a pobre aranhinha, pelo menos ali. Não pensou duas vezes. Em salto acrobático atirou-se ao infinito. Assustado ajoelhei para acompanhar a queda. Quase que encosto nariz na pequena. Ao pular lançou seu mais perfeito fio de seda e como trapezista ficou a balançar elegante. Teceu, teceu e chegou ao chão com classe. Tentei tocar o fio na tentativa de trazê-la junto, mas ela já tinha desaparecido entre pés de cadeira, mesa e os desenhos do piso.
Suspirei triste. Perdi minha companhia de fim de tarde.

Colocando o queixo entre as mãos, tornei a matutar e me disse em segredo, baixinho: domingo quente esse.






Jornal Correio em  23 de outubro de 2016

segunda-feira, outubro 17

Dia da criação




"(…)deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. (…). Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. Na verdade, o homem não era necessário (…). Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias. Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa. Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos (…)” – Fragmento de “Dia da criação”, de Vinícius de Moraes

Pois não é que essa semana, que passou voando, que nem harpia em retorno ao ninho, comemorou-se o 434º aniversário do calendário gregoriano e ainda o Rosh Hashaná, o ano novo Judaico, segundo o calendário estamos no ano 5778. Ainda temos o calendário Chinês. Estamos vivendo o Ano do Macaco de Fogo. Este, curioso e sem papas na língua, cria amigos e inimigos facilmente.

Para contar tempo, o homem criou mais um monte de calendários, o calendário hegírico ou Islâmico, Calendário Juche que, como tudo mais, só é usado na Coreia do Norte. Bom, de tão isolados que são, só serviria para eles mesmo e não vai fazer diferença para o restante do planeta. Ainda tem o Maia, o Etíope e tais.

O fato é que o homem sempre arrumou um jeito de prender o tempo e tentar usá-lo a seu bel prazer. Quantos não riscam diariamente a folhinha, na tentativa de apressar o tempo por algum motivo? O mais comum hoje é o dia do pagamento. Acaba-se de receber e já começa a marcar o dia do próximo. Não está fácil pra ninguém.

Contam os criacionistas que Ele se desdobrou em criar o mundo no qual vivemos, deu um duro danado e, exausto, resolveu a parada no sétimo dia. Se existisse televisão, certamente iria assistir a um bom programa, um filme, talvez. Os dez mandamentos, não estas versões atuais, seria sem dúvida alguma aquele com Charlton Heston, Yul Brynner, e “grande elenco”. Esse jargão nas artes deve ter sido criado para economizar papel.

Particularmente, acho que Deus, em momento de tensão, de saco cheio de tudo, resolveu pintar os passarinhos e plantas. Esquece o tempo, pensou. Pediu ajuda aos anjos poetas. Decidiram que o vento não teria cor visível, nem aroma especial. Assim, cada um poderia escolher o que sentir. Salgou o mar, mas adoçou rios, riachos e cachoeiras. Distraiu-se com saíras. Alguns querubins as usavam para limpar as mãos de tintas, deixando algumas com até sete cores. E Ele viu que era bom. Deve ter sorrido feliz.
Começou a pensar ao observar as belezas de seus artistas alados — Esqueçam o tempo criaturas. O sol, a lua, as marés, as chuvas e as flores. O amor, fome e sede serão seus relógios. Pronto, aí veio uma merda de uma serpente e atrapalhou tudo.

“(…) o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intépido, como se diante deles estivesse a eternidade.”

Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta

“(…) o homem não era necessário (…)”

Ficassem apenas os poetas…







Jornal Correio em 16 de outubro de 2016

segunda-feira, outubro 10

Trem bom




Imagem coletada na web

Esse tempo está mais para trem bala do que para maria-fumaça. Ligeiro que só, às vezes, não permite nem paisagem. Da janela apenas mistura de cores, riscos azuis, prováveis rios e córregos da infância. Hora ou outra um rosto. Quem será meus Deus? Puxo da memória. A viagem continua em compasso de xote, nossa polca patropi. Não, o ritmo é zumba, de tão ligeiro. Havia um tempo de toada de maria-fumaça, um tango, um bolero manso. Um arrastar gostoso das horas. Ficou longe. “Maria-fumaça não canta mais/ Para moças, flores, janelas e quintais”, cantou Bituca.

Pois sim, lá se vão quase dois anos a morar só. Totalmente adaptado a nova vida. Já não ocorrem os desperdícios de tudo. Não acontece mais o horror de ter que jogar coisas fora por estragarem ou por validade perdida. Achei o equilíbrio. Já assovio sem razão, canto no banheiro, dou risada sozinho. Outro dia pela manhã acordei com um zumbido forte. Será o quê? Pensei. Pernilongos, isso mesmo. Os danados estavam em turma. Parecia festa e o cardápio certamente seria eu. O “seria” é que, já sabendo dos visitantes noturnos (diurnos também para dar com pau), durmo de cortinado. Isto mesmo. Devo ter sangue tipo gourmet, pelo menos para o paladar voraz dos meus alados visitantes.

Se eu estiver no Mineirão lotado até a tampa, em uma final onde jogam Atlético Mineiro, meu Galo de coração, contra o Cruzeiro, seguramente aparecerá um pernilongo. Um só, desavisado, vindo da lagoa da Pampulha, trazido pelo vento direto para o gramado. Ele vai se recompor, aprumar as asas, dar uma olhada na massa alvinegra, obviamente maioria no estádio, e com seu olhar culicídeo vai me achar. Bem lá no meio, com a nossa tradicional charanga, há “mil anos”, entra na arquibancada tocando “Mamãe eu quero” e pimba! Logo estarei coçando. Ele me acha. Acha mesmo!

Certo dia, frente àquela infantaria pernilongal, saquei de minha já famosa raquete eletrônica e, depois de vários sets de luta, estalos e cheiro de mosquito queimado, postei-me no centro do campo de batalha. Centenas de corpos alados se espalhavam pelo chão. Senti-me o próprio Leônidas durante a Batalha de Termópilas. Não lembra? Tem o filme por nome “300: Rise of an Empire”.

Aquela batalha fora minha, mas a guerra, só rindo, nasceu perdida. Enquanto nós humanos continuarmos a criar esses bichos, não tem jeito, pois, para todos eles, fornecemos em fartura casa, comida e roupa lavada. Quem não quer tamanho aconchego? Leila Diniz: — “Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”.

O mundo é, e será sempre, dos sôfregos pequeninos.

A vida ligeira que só, me põe a pensar na maria-fumaça e nas estações que à frente estão. Não carece perder tempo em contar quantas ainda temos, mas a velocidade nos trilhos poderia bem reduzir para trote manso, deixando a paisagem passar sonolenta e bela. Um cochilo, vento de serra e perfume de terra molhada. Cada um aperta o maquinista de sua via como quer. Prefiro e assim. Sigo querendo amigo, que seja desse jeito. Mesmo com fornalha em ouro brasa, o resfolegar poderia ser manso, o ranger musical e a viagem bem demorada.






Jornal Correio em 09 de outubro de 2016

terça-feira, outubro 4

Pronto!


O gosto por carne assada e cerveja, muita cerveja, fazia da vida do amigo um eterno fim de semana. De família grande todos com gosto idêntico, mudavam apenas quanto ao time de futebol. Alguns eram fanáticos corintianos, outros flamenguistas e, dizem, meio que de olhos baixos, até são paulino e palmeirense tinha. Porém, não se estranhavam. Levavam tudo na esportiva e gozação, como deve ser quando se trata de futebol e política. Cada um tem o seu time e partido. Eu disse partido? Esquece. Quis dizer candidato, pois até eles, políticos, em sua maioria, andam a esconder o partido a que pertencem. Foi-se o tempo de se bater no peito e dizer com orgulho: Sou Democrata! Outro: Sou Republicano! Opa, acho que errei na geografia.

Não importa, a história é outra. Voltando ao amigo, como disse, de família grande, aniversário é que não faltava. Não importava o dia da semana, tinha que comemorar. Churrasco e cerveja, muita, muita cerveja. Batizado, casamento, começo de namoro, fim de namoro, time ganhou, time perdeu, time jogou, churrasco e cerveja, sempre muita. Isso em dias úteis. Nos inúteis, dos feriados e fins de semana, não carecia desculpa, pois já eram para tomar todas mesmo.

Não que o amigo não trabalhasse, longe disso, trabalhava e muito. Compromissado e bom de serviço. Mas venceu horário, pronto, disposto a tudo. Outra característica fantástica sua era o vício da leitura. De bula de remédio, revista velha, jornais de ontem aos grandes clássicos, nada passava batido aos seus olhos. Minto, ao seu olho. Só tinha uma vista. Da outra não enxergava. Curiosamente só descobriram sua cegueira aos 11 anos de idade. Acho que já falei disso. Vou conferir. Se não, depois conto.

Este saudável hábito de leitura, que aos poucos vem se perdendo, como milhões de pessoas, por conta do maldito smartphone e seus aplicativos, em particular o WhatsApp, não tirou sua rapidez de pensamento e outra mania: palavras cruzadas. Do nível mais alto àquelas mais simples detona todas em tempo ligeiro. Bom, isso quando não pegava uma, começada por outra pessoa, sem o trato com a coisa. Ao ponto. Não o churrasco, mas o contar.

Certa noite, acordou com dor lancinante no dedão do pé, irradiava para tornozelo. Tentou levantar-se. Desastre. Despencou sentado na cama. Não conseguia encostar o pé no chão. Apavorado, ligou para o irmão pedindo ajuda.

— Acode aqui mano. Acho que quebrei o pé dormindo.

— Como assim mano! Ninguém quebra pé dormindo!

— Não sei como, devo ter dado um chute na parede sonhando. Corre que o trem tá feio.
Urgência médica, lá se foi, apoiado e saltitando que nem saci. No hospital, depois da habitual longa espera, foi finalmente atendido por médico sonolento de longo plantão. Examinou, mexeu daqui, cutucou dali e ele, aos berros, a cada virada. Radiografia para tirar a teima do amigo, pois o diagnóstico estava fechado. Nada de fratura.

— Olha doutor, se não é chute na parede, o que é que eu tenho? Perguntou, já com água no olho.
— Gota meu filho. Seu problema é da gota serena.

— Você bebe?

— Socialmente, mas aceito um golinho só para acompanhar.

— Gosta de carne?

— Vixe!

Passou remédio e dieta. O remédio tomou. Quanto à dieta, filosofou:

Todo ser humano tem que escolher: fazer dieta ou ser feliz.

Ele, escolheu ser feliz. Não abriu mão de sua cerveja e churrasco. Vai ser feliz lá num rodízio!

Leia super rapidinho em um fôlego só:
Esta prosa não é recomendada em casos de suspeita de dengue e muito menos para menores de 18 anos.






Jornal Correio em 2 de outubro de 2016

segunda-feira, setembro 26

Irreflexão




Casamento de sobrinha. Linda cerimônia, a começar pela beleza natural dos noivos. Alegria contagiante, ar de felicidade ecoava pela igreja de imensa e sóbria nave, a acomodar com conforto família e convidados. A cerimônia transcorreu bela e em paz absoluta. Cantos e serena musicalidade.

Finda a solenidade o costumeiro e agradável zum -zum-zum de encontros entre gentes que há tempos não se viam, beijos, apertos de mãos e, claro, as repetitivas piadinhas dos mais próximos. As gozações de sempre de todos os encontros, casamentos, aniversários e tais.
Bora pra festa? Onde fica o local do rega-bofe? Putz, essa expressão é antiga. Juro, não é do meu tempo.”— Opa! Finalmente o pai da noiva colocou a mão no bolso!” Gracejo. Hoje vamos nos fartar às suas custas, brinca o primo.

Outro lado bom dos casamentos são exatamente esses reencontros, onde reina bom humor, companheirismo e obviamente muita gozação.
— Eu não sou daqui, sei chegar não. Vai à frente que sigo, decide outro.
Eu, mesmo daqui sendo não sabia direito como chegar. Conhecia bairro, ruas, caminhos, mas o exato não. Tentei apelar para o GPS, mas quem disse que ele, no caso ela, a voz, estava de bom humor. Queria nem marcar o trajeto. Outro sobrinho: — Me segue, te espero ali e aponta o dedo para um canto da praça. Beleza, respondo.

Alguns minutos imensos a caçar grana para o flanelinha, que nem estava lá quando cheguei. Vou ao lugar do encontro, para em caravana de dois seguir.
Encosto bem atrás do carro que fica alguns minutos parado. Esperando mais alguém, penso eu. Sem aviso prévio arranca e segue rua. Eu atrás. Vira à esquerda, sigo. Dobra em avenida larga, acompanho. Acelera, piso um pouco mais a imaginar o motivo de tanta pressa. Passa ponte, viaduto e eu ali grudado, em zig zag de fórmula 1.

Caramba, será que tem alguém passando mal ou com vontade louca de ir ao banheiro? Não posso perdê-lo de vista, piso também.
O caminho estava certo. Mas me pergunto, para que tanta volta? Do nada, parou quase em frente ao 36º Batalhão de Infantaria Motorizado, a Águia da Tubalina do EB.
Não entendi nada. Pus-me em parelha e baixei o vidro.
— Errou, a virada é para a esquerda, gritei. Ele nem se deu ao trabalho de baixar o vidro coberto com uma película tão escura, com a qual certamente seria parado em blitz.
Pensei comigo: sigo, viro e mostro o caminho. Assim fiz.

Dei o balão na rotatória e de lá ainda gesticulei meio sem paciência, pois o tempo ia encompridando.
Nada, ficou quieto. Bom, ele sabe o caminho sigo daqui.
Fui matutando, mas cisma do jeito que veio se foi. Depois de perguntar a duas, três pessoas no trecho se conheciam a rua e de constatar que ninguém conhece nada, nem o próprio endereço, parei numa farmácia e recebi direitinho a indicação do lugar.

E não é que para meu espanto o sobrinho já estava lá, sentando confortavelmente? Uai, disse eu, não entendi sua pressa e sua parada perto do quartel!
— Eu não parei no quartel, e você sumiu! — Sumi? Estava colado na rabeira do seu carro! Estava não! Que carro você seguiu? — Ora, um não sei das quantas branco.
Mas o meu carro é prata!
Não é que segui o carro errado o tempo todo! E se fossem malas preparando um malfeito? Poderia ter tomado um tiro!
Vai ser distraído prá lá. “Viver é muito perigoso”. Viraria estatística e pronto.






Jornal Correio 25 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 19

Correr






Longe de mim campear seara alheia, principalmente, quando se trata de corridas. O grande maratonista Nilson Lima, a quem todos admiramos, é o mestre na arte. Eu, um mero aprendiz.

Há menos de seis anos, fui contaminado pelo prazeroso esporte. Nada de competir com ninguém. Minha luta é comigo mesmo, baixar tempo, melhorar resistência e tais. Não, não sou a dedicação em pessoa, não me alimento como deveria, treino sozinho e sem muita técnica. Corro porque gosto, me dá prazer e porres “endorfináticos”. Corria todo dia e depois completava com uma malhação básica, para fortalecer, principalmente, panturrilha, joelhos e tornozelos.

Tudo ia muito bem obrigado, até que em check-up anual descobri que meu CPK estava nas alturas. Na verdade, até então, nem sabia que tínhamos esse tal de CPK, que para mim soava mais com formulação de adubo tipo NPK 4.14.8. A causa de tal elevação, segundo o meu nefrologista, um super e dedicado profissional, estava clara: excesso de esforço físico. Eram quatro dias de corrida e dois a puxar ferro por semana. Sentia-me bem no peso e me dava ao luxo de tomar minha cervejinha fim de semana, sem culpa. Bastou um descanso de cinco dias e o tal voltou aos níveis normais.

E agora, José? Como refazer uma rotina de atividades para que a tal “creatinofosfoquinase” (é esse o nome do trem), mantenha-se em níveis que não me prejudiquem? Como fazer para não parar com tão prazerosa atividade?

Sim, diminuí radicalmente os treinos, tanto em quantidade quanto em tempo. Se corria 15 km, hoje corro cinco. Se treinava seis dias por semana, tento me satisfazer com quatro. O body pump está suspenso até segunda ordem, viu Carlinha?

Quanto aos outros dias, aqueles parados, fico parecendo cavalo de corrida em brete de largada. Não que eu seja um grande corredor, longe disso. Para usar ainda a linguagem do turfe eu poderia ser chamado de matungo ou mesmo um erado redomão, que corre por instinto, sem muita doma.
Puro impulso espontâneo, repito. Correr é prazer e pronto. Se não fazemos nada somos preguiçosos sedentários. Já fui assim tempos atrás. Até pagava menino para correr para mim. Se nos exercitamos muito, aparecem indicadores que te colocam em risco.

O tal equilíbrio. Como encontrar o ponto certo, a medida que supre o prazer de fazer e não o ameaça com mal pior? Poderia culpar a idade. Conversa. Nosso grande José Gama, do alto de seus 81 anos, está aí firme, correndo todo dia e foi homenageado em 11 de setembro com uma corrida maravilhosa. Merecedor de toda honra e pompa. Foi uma grande festa. Nosso queridíssimo e fera “Dez” beira a faixa etária do Gama, assim como tantos outros na casa dos “enta”.

Não, queridos amigos, a idade não é culpada. Enganam-se aqueles que pensam que vou parar. Vou nada. Asfalto, terra, trilha e serra sigo correndo, trotando nem que seja como o velho Rocinante de Dom Quixote.

Mas isso me lembra uma história contada, ocorrida lá pelas bandas de Sacramento. Dois irmãos a colocar atenção em calçadão de parque, em final de tarde:

— Mano, cheguei à conclusão que correr ou caminhar engorda e envelhece.
— Como assim? É justamente o contrário, retrucou o mais moço.
— Ah é? Põe tento aí no parque! Quem você vê correndo ou caminhando? Só idoso e obeso!

É o horário amigos! E que bom que estejam lá buscando qualidade de vida.
Vamos correr moçada, pois só faz bem. CPK prá PQP !






Jornal Correio em 18 de setembro de 2016

sexta-feira, setembro 16

Lembrança



Lembrei tanto de você moça. Seu perfume contagiante impregnado na pele, vento morno em chamar chuva que não nos ouve.
Conto minutos. Até o escurecer, até o escurecer

E essa primavera que se aventura ninhos adentro sem nem ainda ter chegado
tem pressa no seu preguiçoso passar

15 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 12

Advogado



Caso contado, reconto. Sempre quis ser advogado. Desde muito miúdo não perdia filme que tivesse júri. Ficava em pé junto à televisão, imitava gestos, andar e expressões, tanto da defesa quanto da acusação. Reproduzia jeito sisudo de juízes prestando atenção às teses e argumentos que, por fim, levariam réu a liberdade ou sairia dali algemado.

Terminado o filme, corria juntar amigos e criava clima de um julgamento no quintal de sua casa. Tinha de tudo. Advogado de acusação, júri, juiz e claro, o réu. Ele sempre fazia o papel da defesa. Os crimes eram terríveis e geralmente reais.

— Senhores do júri, este cidadão sem o menor pudor, na calada da noite, escondido pelas sombras e com a cumplicidade de Laica, a cadelinha da casa, com a qual mantinha um relacionamento muito próximo de amizade, teve o despudor de assaltar a geladeira e devorar, sem o menor constrangimento, a última fatia de torta enquanto seus pais inocentemente dormiam, envoltos pelas asas de Hipnos, pai de Morfeu. Por tal ato ilícito eu peço aos senhores “data vênia”. Embora não soubesse o que isto significava, usava toda hora.

Outros crimes levados ao júri do quintal. Roubar beijo da menina mais bonita da rua, faltar à pelada e nem emprestar a bola, esconder em casa em pique-pega. Gravíssimos crimes, para os quais a pena pedida era geralmente prisão perpétua. Agora, meu amigo, você pode imaginar o enfado daqueles obrigados a participar da brincadeira. E ai deles se negassem. Era tunda na certa.

Foi nada não. Menino cresceu sempre estudioso. Formou advogado. Não satisfeito, prestou concurso para delegado. Foi aprovado com louvor. Cabeceira mesmo. Glória tanta que lhe deram o luxo de escolher comarca.

Sonhador como sempre, escolheu cidade miúda encravada para os lados da serra da Bocaina, um lugar lindo em paz e roças de Lavandas. Sentia que ali poderia ganhar experiência de ofício, para depois, quem sabe, tentar concurso para juiz. Apesar de sempre se lembrar dos filmes de sua infância e da série dos magistrados, ele gostava mesmo era do teatral da cena.

Inexoravelmente, como diria Caetano o “Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos”, o bom e velho tempo voava. A pacata e bela cidade em eterna paz, não tinha crime nem desarranjo, nem roubo de torta ou beijo roubado. Viu-se triste e inútil. Aproveitava a delegacia vazia para estudar, pois juiz seria.

Em um final de dia arrastado, em que o perfume das lavandas iluminava o ar, resolveu parar em um dos poucos bares da cidade para tomar uma cerveja, antes de rumar para hotel onde morava. Sentou-se perdido em si mesmo, via longe para dentro das lembranças, nada envolta existia naquele momento.

Distração perigosa para delegado, mesmo em cidade de paz. Até de costas para porta ficava, um desaviso. Foi quando um cabra, totalmente bêbado, começou a fazer troça dele. No começo ele até sorriu, ligou não. Mas todos conhecemos bebum. Sorriso dado é trela e o homem não parava. Debruçava-se por sobre a mesa do delegado, falava alto, cuspido. Desagrado.

Resolvido a por fim nessa passagem, o jovem delegado fingiu sério: — Toma rumo cabra, se ficar amolando mais um minuto eu te prendo.

O bêbado em falar pastoso, torcendo o pescoço e a mão, retrucou:
— Senhor me prende, mas eu saio. Disse meio cantado.
— Sai não! Eu sou o delegado!
— Eu sei, mas quando eu prender o senhor, “cê” num sai nunca mais!
— E não?
— Não senhor, nunquinha mais.
— Ora essa, quem você pensa que é seu atrevido?!
— Uai, sou o coveiro Dotô, o coveiro.

Nosso amigo hoje é juiz federal.






Jornal Correio em 11 de setembro de 2016

quinta-feira, setembro 8

Coluna Social

Pronto, saí na Coluna Social, já posso virar letra de música.   Brincadeiras à parte valeu Jadir Júnior. Faço por merecer tal destaque?






segunda-feira, setembro 5

Vetustade






— Oi, sim, conte. Lembra quando criança?
— E lá você foi criança algum dia? Já nasceu pronto, velho. E sorriu vazio de dentes.
— Não implica ara, criados juntos reconhece? Tu mais eu, Belenzinho, Choreu, quem mais?
 Lembra aí.
— Esse povo morreu quase tudo, sobrou nóis, sei.
— Pois me fale, qual a melhor brincadeira de fazer naqueles tempos? —  Humm, tudo era bom.
— Pescar no córrego? Longe. Nadar na cachoeira?
— Perdeu distância.
— Sei no certo – com brilho nos olhos – ver as moças tomar banho na cachoeira, escondido na moita de bambu que nem calango, só os olhos de fora.
— É, era bom de mais da conta, vixe se era, mas ainda não era a melhor. — Como assim? Moço, menina nuazinha em pelo, molhadinha de gotejamento d’água, era ruim?
— Ruim era não, endoidou?
—Era bom que só, mas longe de ser o melhor trem de fazer.
— Conte pois, velho gagá, não consigo lembrar melhor. Sorriso de canto de boca, levou pensamento para poção do véu de noiva. Mocinhas arrepiadas de frio. Ouviu direitinho a gritaria. O coração acelerado, o desejo ainda por nascer se fazendo notar. “Minha linda juventude, páginas de um livro bom”.
— Fale estrupício, cadê que tinha melhor?
— Roubar galinha.
—Como é que é? Deu de babar agora?
—Lembra Deuzivaldo.
— Ara – fungando - não gosto que assim me trate! O nome é meu, mas gosto de jeito nenhum.
— Deixa de ranzinzagem Valdo, mas vai levar para o túmulo. Pois é Valdo, sempre foi promessa sua colocar nome de Valdo no retrato da carneira. — Esquece homem, dia ainda vai longe!
— Sei não, sei não…
— Mas pensa Valdo, aqui mesmo. Não era esse o banco de cimento doado por venda, mas era justo aqui. Lembra? Tronco de aroeira cumprido, apoiado em tocos fazia as vezes. A trama nascia aqui. Escolher o quintal, pajear as galinhas, saber o pouso de dormir.
Chegado o dia combinado, era esperar anoitecer e rumar para o terreiro. Uns vigiavam, outro pulava pra dentro. Com galho de goiabeira cutucava pés da escolhida de manso até ela, aborrecida, trocar poleiro pelo galho. Ciência e vagareza. Trazia manso até o braço alcançar. Ligeiro era o agarrar pescoço e torcer. Nem um pio. O que sobrava de medo enroscava bem perto do papo. Ali ficava vazio. O feito estava feito. Suando a testa a gente corria longe, em alegria. Quanta saudade de poder correr com vento judiando da pele! Olho marejava em feliz tristeza.
Aí Valdo era acender fogo, depenar, sapecar, passar o canivete no bucho, e assar em fogueira nossa, sem sal ou pimenta.
— Não senhor eu sempre levei trouxinha de tempero roubado do pilão de mãe!
—Verdade, levava mesmo.
—No fim sobrava quase tudo para Futrica. Cadelinha esperta aquela.
Por fome nossa não era. Era o prazer. Coxa, sobrecoxa, peito. O resto era dela, Futrica. Dormia dois dias, repasto.
— Valdo, e se a gente roubasse uma galinha hoje?
—Endoidou? Perdeu razão e juízo? Imagina tu subindo em muro! Nem bombeiro com ambulância consertava.
— É, tem razão, não podemos. Mas se encomendar?
—E menino de hoje rouba galinha? Sabe não. Vai acabar preso ou levando coça.
—Tem razão Deuzivaldo – assim disse para provocar.
—Valdo! Cansado de saber: V-A-L-D-O.
Cutucou Valdo com a ponta romba do canivete. É brincadeira sô!
—Vamos comer uma pizza então.
— E não? Agora.
— Ó, que galinha com pena era bom era, mas pra mim ainda carrego fresquinho as moças da cachoeira. Cada uma.






Jornal Correio em 04 de setembro de 2016

segunda-feira, agosto 29

Domingo





“O soldado, no forte:
-Capitão, capitão, os índios estão vindo!!
– E são amigos ou inimigos?
– Devem ser amigos, porque estão todos juntos…
– E quantos são?
– Acho que uns mil e três.
– Como assim?
– Vêm três na frente e uns mil atrás…”



Bom dia, gente do bem. Nada como começar um domingo com uma boa risada, um sorriso que seja. A história aí no alto contado por amigo, pode ser ótimo desjejum. Até outro dia, achava domingo o pior dia da semana, principalmente, seu final de tarde. A expectativa da chegada de uma segunda-feira era terrível.

Já notaram que os sons, ou a falta de alguns, caracterizam muito bem um domingo? Explico. Amanhece domingo. Muitos acordam bem mais tarde, ressaca de sábado, noitada foi boa. Festa, show, serenata, pouco provável hoje em dia, assim como madrugar na porta da padaria para desfrutar da primeira fornada de pão quentinho com manteiga, existe mais não, aqui não.

O domingo amanheceu, quem ficou na cama perdeu metade do dia. Outros levantam cedo, juntam a tralha toda para clube, rua, pastel na feira, missa. Correr, caminhar, passear. Sentar na praça, deixar a manhã passar mansa em sua preguiça. Impossível ficar em casa em um domingo, a não ser quando há almoço com amigos ou família. A cozinha começa mais cedo, toca a preparar fartura. Cheiro de carvão no ar, churrasco anunciado.

Dia de bermuda e camiseta. Finalmente a pele do corpo vê o mundo. Os parques estão cheios.
Os sons. Somem os barulhentos carros e motos, é domingo. Se você mora perto de rua ou avenida movimentada e tem sono leve, imagino que teve que aguentar até altas horas o rugido e desenfreio daqueles voltando da farra. Puxadas firmes dos possantes motores, em clara demonstração de pequenez cerebral e educação zero. Mas domingo de manhã não. Os monstros metálicos estão escondidos em covis. Seus babacas condutores, escornados em algum canto em sono sem sonhos, acordarão tarde com uma puta dor de cabeça e gosto de corrimão de escada na boca. Esquece esses caras. Um violão acorda em algum quintal. Risos, criançada. Alegria!

A tarde chega marrenta, é domingo. A existência da perspectiva de segunda começa a dar as caras. Os sons mudam, luzes começam a piscar em um acender de cidade. Sons agora dos clássicos e deprimentes programas de televisão tradicionais. Antes, um longe aborrecido narrar de jogo de futebol. Também sentia isso, hoje não mais.

Sabe aquela brisa que desce narina abaixo e bate manso, refrescante, no peito, na boca do estômago? Os ouvidos buscam em um vazio de paz absoluta qualquer barulhinho, um existir plenitude. A paz, equilíbrio total.

Apenas a pele lhe mantém aqui no mundo físico. Momento único de superabundância, de contato com o universo. Um prazer inigualável.

Assim estão sendo meus finais de tarde de domingo. Pode ser o seu, se quiser. Quanto à chegada da segunda, que ótimo, se não achar nenhum motivo para dela gostar, o que é uma pena, te dou pelo menos um motivo como conforto, é o dia mais distante da próxima. Carpe diem.

Às segundas em particular a vida fica mais leve. No mais, Gerais.







Jornal Correio em 28 de agosto 2016

segunda-feira, agosto 22

Cidadão







Um bom dia de coração para todas as gentes do bem. Pois vejam queridos, ganhei identidade virei feliz, homem do cerrado. Terra que me abraçou como cria.
Engrossei couro, curti pele sob o sol mais bonito das paragens.
Meu peito em alegria pula dança de aleluias, revoada de tanajuras, maritacas, bicos-de-lacre, andorinhas da patagônia, migratórias como eu. Elas se vão eu, guardei pouso, fiquei
Posso assim agora responder firme: De onde seo moço? Por onde?
Uberlândia digo altivo olhar fincado em quem perguntou. O erre sai raspado como da origem, ligo não, Uberrrlândia, lá/ali na ponta das Minas, aqui bem dentro do peito. Alma acalmada por naturalidade possuir. Os filhos fazem as vezes do cantar a palavra nascidos/criados. De papel passado Uberlândia

Cá cheguei manso, não de paz de medo. Um novo grande por demais. Um vasto sem serras que me mostravam distâncias. Olhava, não via fim. O céu encostava em um lá longe, como mar fosse. Estranhamento.
A seca de secar com vontade, a temporada maravilhosa das chuvas, o renascer a olhos vistos. Descobri lento alguns de seus segredos. Outros ficarão para sempre em baús, caixas guardadas.
O sol nascia do pasto, olhar reto. Depois a lua. Não tem igual em grandeza e clarão-ouro. Outro vazio no começar. As gentes. Distantes desconfiadas, não era filho de ninguém, carregava sobre nome difícil, estrangeiro.
Morar em pensão, conhecer devagar o jeito daquele que tinha, sem maldade porém seco no começar. Conquistas
Tempo se vez marca. Conheci afinal as cozinhas e quintais. Vi o escondido, reservado para poucos. O jeito mineiro de ser dessa Minas que ainda não era minha. Portas e sorrisos se abrindo. Ganhei a confiança. Passei pra dentro.
Apaixonei, casei, descasei, nunca desapaixonei/desamorei, sentimento fraterno/eterno. Filhos lindos, da terra nova nascidos. Raiz profunda criada, A bruteza bela do cerrado. Me tornei pequizeiro, barbatimão, Buriti, Mangaba, mutamba, jatobá. Me tornei munguba, ipê de todas as cores, a aroeira - aqui não pica-pau. Posso peroba-do-campo, timbó sem veneno.

Me colori em penas e pelos me tornei um deles: onça, ema, sagui cobras cascavel, jiboia e jararaca.Solitário com lobo-guará, cachorro-do-mato, arredio que nem Bandeira.Me vejo tucano-rei, urubu-rei, perdiz. A arara-canindé, pato do mato, canarinho-da-terra.

Banhei em cachoeiras onde ninguém vê serra, parecendo brotar do chão. Aprendi vastidão. Saí de casulo apertado de maravilhosas montanhas, conheci chance de ter duas moradas. Dois sotaques, dois jeitos. Me tornei mais livre, de Barbatimão, Capim Gordura para fartura de Colonião, napié.
Me perfumei de tantas flores, êxtase de abelha jatái

O céu mais lindo me cobre, as noites mais iluminadas de estrelas e sons que só aqui existem. Urutau cantou em minha janela. Caburezinha em vigília, zela.

E as gentes. De tudo quanto é canto, recanto perturas/lonjuras. Um misturado de jeitos. Custa conhecer. as Minas aqui desconfiadas são, tem que ganhar confiança, provar a que veio. Se em paz para somar, logo vira de casa.
Agora com orgulho posso contar. Sou filho da terra, mãe de leite. Me deu sustento, base, referência. Meus amigos, de cá e de lá. Carrego a felicidade de não apenas me sentir, mas, mesmo por decreto, de ser agora uberlandense.






Jornal Correio em 21 de agosto de 2016

terça-feira, agosto 16

Passagem



Pois assim, tem cada coisa que acontece em nossas vidas que chegam a dar frio na espinhela. Os ritos de passagem, a ordem do tempo e o jeito que se apresenta é regra na vivência de humanos e não humanos. Bichos por exemplo. Passarinho nasce numa dependência danada de pai e mãe. Tem que comer. Abre imenso bico para chamar atenção e ganhar mais grilos, minhocas ou o que vier de longe, trazido no papo de seus guardiões. Passa tempo na preguiça. Empluma, muda pio. Chega hora, mesmo a contragosto, empurrado, tocado do ninho é. Primeiro voo solo despenca. Mas apruma, toma gosto e não para mais. Primeira passagem.

Depois, aulas de canto. Do desafinado piar a gorjeios insossos, desafinado num trocar de voz.
Torna-se tenor, barítono ou outro especialista. Segunda passagem. Aprende a namorar, conquista a parceira e leva a vida bem vivida, se não houver interferência de mão de gente a prendê-lo em gaiola, pedra de estilingue ou queimada assassina a lhe impor fim. Peguei passarinho, mas reparo em qualquer criatura. Taruíras, minhas preferidas, gatos, cães, morcegos e até escorpiões e borboletas. Todos têm ritmo, harmonia de vivência.

Poderia ser diferente com as gentes? Toca falar de rituais diferentes que nos são apresentados, bons e ruins, pouco naturais, mas presentes.

O estúpido aprender a fumar foi um deles, mas naquele tempo era assim, todos fumavam. O motivo? Fazer parte de um grupo, fingir de pavão para as moças e tantas outras bobagens importantes nas cabeças desmioladas de pré-adolescentes. Fazia-se a rodinha e os mais velhos acendiam o pito. Os iniciados tinham que botar a fumaça pra dentro, segurar e ainda falar o nome de cada um ali presente sem soltar um tiquinho que fosse da baforada. Isto feito soltava tudo de uma vez.

O mundo girava ao seu redor. Uma vontade de passar mal segurada para não fazer feio. Alguns caíam de bunda no chão e tossiam os bofes. Pronto, passou. Agora era treinar e fumar até dar picumã nas narinas. Felizmente todos de nosso grupo pararam logo e hoje fumar encanta cada vez menos gente. Fumar significa hoje uma grande caretice catinguda. Uma passagem.

Qual adolescente que não sonhou com os 18 anos para poder tirar habilitação? Carro tinha não, mas habilitação era um troféu a exibir. E entrar num bar e pedir uma cerveja? Tem dezoito? Perguntaria o garçom. Com ares de grande ator apresentava a identidade fingindo enfado. Assistir filme proibido para menores, conquista! Outra travessia.

Mil outras para mostrar, pois a vida é regrada por muitas. Porém, uma em especial me marcou. Um belo dia entrei na casa dos sessenta. Recente, mas aqui estou. Nada de lugar comum, do tipo “Sex-agenário” em demonstração clara de tentar gritar ao mundo “oh, eu dô conta viu!?”. Nada disso.

Ao colocar o pé em minha terceira juventude, corri para conseguir o cartão de estacionamento para idoso. Senti-me aquele menino da porta do cinema, pronto para assistir “Último tango em Paris”.
Orgulho de cabelos grisalhos e da vaga ali me esperando. Tudo ia muito bem, até que um belo dia um amigo me perguntou:
— Cara, você vem aqui todo dia, certo?

Acenei um sim desconfiado.
— Você vem fazer o quê mesmo?

Correr 5, 10, 15 Km, às vezes, dependendo da disposição.
— Então, me explica o motivo de ocupar vaga de idoso?

— Uai, é direito adquirido, tenho sessenta!

— Direito é, mas é justo? Você vem aqui correr 10 km e quer parar aqui? Deixa para idoso que mais precisa, aquele que tem dificuldade de se locomover. O que são mais 100, 200 metros para quem vai detonar duas, três ou mais léguas?

Pois olhe, não parei mais em tais vagas. Acima do direito adquirido, a consciência não permitia. Fico triste quando vejo um mundo de gente nova usando irregularmente vagas reservadas para idosos e/ou deficientes físicos na cara dura. Nada como um olhar de fora para te mostrar caminhos.

Uso mais não. Ali não. Obrigado amigo Otolini. Graças a sua sensata observação subi mais um degrau na escada do viver. Outro ritual interno. Bela passagem.






Jornal Correio 14 de agosto de 2016

segunda-feira, agosto 8

Capotraste



Nossa língua é uma viagem. Já observaram quantas palavras soam como uma coisa e na verdade é outra totalmente diferente? Pensei aqui algumas que sempre me levavam a outro lugar e as compartilho com você, que tem a paciência de ler minhas elucubrações. Pronto, aí já está uma das recolhidas na tarrafa da curiosidade. Tá certo que ela significa exatamente o que quer dizer, mas pense que louco, se você passou a noite estudando, você elucubrou pra caramba. Sabia? Porém essa é um nadinha de nada.

Ando com uma “osfresia” danada. Meu Jesus Cristim, já procurou um médico? Tenho um amigo que quase morreu disso. Ainda mais se for acompanhada de “iscnofonia”, aí, lascou. É, acho que você tem razão, vou ligeiro. Será que isso pega? Vou avisar o pessoal do laboratório, pois vai que passei isso para alguém, quero carregar culpa não. Ouvi contar que chá de “ginge” é bom para esse trem. Ponha umas gotinhas de “abléfaro” que passa em dois tempos.

Bom, estimo melhoras. Vou aproveitar o bom tempo e ver se aproveito o manso do rio para um “náfego” tranquilo. Cuidado com o “Zafimeiro”, dizem que em agosto ele anda solto pelos cantos, um perigo.
Vale puxar reza, senão novena. Esse agosto é de agouro marrento, redemoinho e sacis a solta, é de tomar cuidado, vigília.

Vou-me antes do acainhar dos cães no trecho e, se tiver sorte, ainda pesco meia dúzia de “arúspices”, já que é tempo delas. Dá uma moqueca de lamber beiço.

Pois não é? Cada palavra no seu galho. Só não entendo os motivos pelos quais elas me levam a pensar longe coisa que não é, mas lembrança faz nascer. Tem língua mais repleta de histórias e passagens de Marias-Fumaça do que a nossa? Querida e rica língua pátria. É “acontista” de nascença.

Outro dia, meu filho me apresentou uma. Ao sair apressado para buscar um capotraste, perguntou a passadas se eu queria alguma coisa. Pensei ligeiro, pois estava mesmo com fome e, ainda sentindo o vento de sua saída, respondi:

Traz um pra mim também. Pode ser mal passado! Atentei que ele parou. Quietou alguns segundos e voltou de fasto. Colocou só a cabeça pra dentro e, com sorriso armado, perguntou:

Como é que é? Aí, falei: uai, pode não? Estas coisas se não forem malpassadas perdem o gosto.

Pai, capotraste não é de comer, é para o braço do violão, como se fosse uma pestana.

Aí, parado fiquei eu. Certo, respondi, mas que tem som de comida e boa tem. Se não é, deveria ser. E outra, pestana pra mim é fio de cabelo da pálpebra ou, quando muito, é puxar uma palha, de preferência em rede depois do almoço, numa deliciosa preguiça mineira.

É cada uma!

Outras estranhices que mostrei vou contar significado não, deixo busca no dicionário, mas só vale o de papel, aquele livrão grosso e com aroma de muita coisa contatada. Fica de presente para você. Enquanto isso, tome um belo “Cabotino”, acompanhado de deliciosa “viscacha”, não há quem resista.