segunda-feira, setembro 26

Irreflexão




Casamento de sobrinha. Linda cerimônia, a começar pela beleza natural dos noivos. Alegria contagiante, ar de felicidade ecoava pela igreja de imensa e sóbria nave, a acomodar com conforto família e convidados. A cerimônia transcorreu bela e em paz absoluta. Cantos e serena musicalidade.

Finda a solenidade o costumeiro e agradável zum -zum-zum de encontros entre gentes que há tempos não se viam, beijos, apertos de mãos e, claro, as repetitivas piadinhas dos mais próximos. As gozações de sempre de todos os encontros, casamentos, aniversários e tais.
Bora pra festa? Onde fica o local do rega-bofe? Putz, essa expressão é antiga. Juro, não é do meu tempo.”— Opa! Finalmente o pai da noiva colocou a mão no bolso!” Gracejo. Hoje vamos nos fartar às suas custas, brinca o primo.

Outro lado bom dos casamentos são exatamente esses reencontros, onde reina bom humor, companheirismo e obviamente muita gozação.
— Eu não sou daqui, sei chegar não. Vai à frente que sigo, decide outro.
Eu, mesmo daqui sendo não sabia direito como chegar. Conhecia bairro, ruas, caminhos, mas o exato não. Tentei apelar para o GPS, mas quem disse que ele, no caso ela, a voz, estava de bom humor. Queria nem marcar o trajeto. Outro sobrinho: — Me segue, te espero ali e aponta o dedo para um canto da praça. Beleza, respondo.

Alguns minutos imensos a caçar grana para o flanelinha, que nem estava lá quando cheguei. Vou ao lugar do encontro, para em caravana de dois seguir.
Encosto bem atrás do carro que fica alguns minutos parado. Esperando mais alguém, penso eu. Sem aviso prévio arranca e segue rua. Eu atrás. Vira à esquerda, sigo. Dobra em avenida larga, acompanho. Acelera, piso um pouco mais a imaginar o motivo de tanta pressa. Passa ponte, viaduto e eu ali grudado, em zig zag de fórmula 1.

Caramba, será que tem alguém passando mal ou com vontade louca de ir ao banheiro? Não posso perdê-lo de vista, piso também.
O caminho estava certo. Mas me pergunto, para que tanta volta? Do nada, parou quase em frente ao 36º Batalhão de Infantaria Motorizado, a Águia da Tubalina do EB.
Não entendi nada. Pus-me em parelha e baixei o vidro.
— Errou, a virada é para a esquerda, gritei. Ele nem se deu ao trabalho de baixar o vidro coberto com uma película tão escura, com a qual certamente seria parado em blitz.
Pensei comigo: sigo, viro e mostro o caminho. Assim fiz.

Dei o balão na rotatória e de lá ainda gesticulei meio sem paciência, pois o tempo ia encompridando.
Nada, ficou quieto. Bom, ele sabe o caminho sigo daqui.
Fui matutando, mas cisma do jeito que veio se foi. Depois de perguntar a duas, três pessoas no trecho se conheciam a rua e de constatar que ninguém conhece nada, nem o próprio endereço, parei numa farmácia e recebi direitinho a indicação do lugar.

E não é que para meu espanto o sobrinho já estava lá, sentando confortavelmente? Uai, disse eu, não entendi sua pressa e sua parada perto do quartel!
— Eu não parei no quartel, e você sumiu! — Sumi? Estava colado na rabeira do seu carro! Estava não! Que carro você seguiu? — Ora, um não sei das quantas branco.
Mas o meu carro é prata!
Não é que segui o carro errado o tempo todo! E se fossem malas preparando um malfeito? Poderia ter tomado um tiro!
Vai ser distraído prá lá. “Viver é muito perigoso”. Viraria estatística e pronto.






Jornal Correio 25 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 19

Correr






Longe de mim campear seara alheia, principalmente, quando se trata de corridas. O grande maratonista Nilson Lima, a quem todos admiramos, é o mestre na arte. Eu, um mero aprendiz.

Há menos de seis anos, fui contaminado pelo prazeroso esporte. Nada de competir com ninguém. Minha luta é comigo mesmo, baixar tempo, melhorar resistência e tais. Não, não sou a dedicação em pessoa, não me alimento como deveria, treino sozinho e sem muita técnica. Corro porque gosto, me dá prazer e porres “endorfináticos”. Corria todo dia e depois completava com uma malhação básica, para fortalecer, principalmente, panturrilha, joelhos e tornozelos.

Tudo ia muito bem obrigado, até que em check-up anual descobri que meu CPK estava nas alturas. Na verdade, até então, nem sabia que tínhamos esse tal de CPK, que para mim soava mais com formulação de adubo tipo NPK 4.14.8. A causa de tal elevação, segundo o meu nefrologista, um super e dedicado profissional, estava clara: excesso de esforço físico. Eram quatro dias de corrida e dois a puxar ferro por semana. Sentia-me bem no peso e me dava ao luxo de tomar minha cervejinha fim de semana, sem culpa. Bastou um descanso de cinco dias e o tal voltou aos níveis normais.

E agora, José? Como refazer uma rotina de atividades para que a tal “creatinofosfoquinase” (é esse o nome do trem), mantenha-se em níveis que não me prejudiquem? Como fazer para não parar com tão prazerosa atividade?

Sim, diminuí radicalmente os treinos, tanto em quantidade quanto em tempo. Se corria 15 km, hoje corro cinco. Se treinava seis dias por semana, tento me satisfazer com quatro. O body pump está suspenso até segunda ordem, viu Carlinha?

Quanto aos outros dias, aqueles parados, fico parecendo cavalo de corrida em brete de largada. Não que eu seja um grande corredor, longe disso. Para usar ainda a linguagem do turfe eu poderia ser chamado de matungo ou mesmo um erado redomão, que corre por instinto, sem muita doma.
Puro impulso espontâneo, repito. Correr é prazer e pronto. Se não fazemos nada somos preguiçosos sedentários. Já fui assim tempos atrás. Até pagava menino para correr para mim. Se nos exercitamos muito, aparecem indicadores que te colocam em risco.

O tal equilíbrio. Como encontrar o ponto certo, a medida que supre o prazer de fazer e não o ameaça com mal pior? Poderia culpar a idade. Conversa. Nosso grande José Gama, do alto de seus 81 anos, está aí firme, correndo todo dia e foi homenageado em 11 de setembro com uma corrida maravilhosa. Merecedor de toda honra e pompa. Foi uma grande festa. Nosso queridíssimo e fera “Dez” beira a faixa etária do Gama, assim como tantos outros na casa dos “enta”.

Não, queridos amigos, a idade não é culpada. Enganam-se aqueles que pensam que vou parar. Vou nada. Asfalto, terra, trilha e serra sigo correndo, trotando nem que seja como o velho Rocinante de Dom Quixote.

Mas isso me lembra uma história contada, ocorrida lá pelas bandas de Sacramento. Dois irmãos a colocar atenção em calçadão de parque, em final de tarde:

— Mano, cheguei à conclusão que correr ou caminhar engorda e envelhece.
— Como assim? É justamente o contrário, retrucou o mais moço.
— Ah é? Põe tento aí no parque! Quem você vê correndo ou caminhando? Só idoso e obeso!

É o horário amigos! E que bom que estejam lá buscando qualidade de vida.
Vamos correr moçada, pois só faz bem. CPK prá PQP !






Jornal Correio em 18 de setembro de 2016

sexta-feira, setembro 16

Lembrança



Lembrei tanto de você moça. Seu perfume contagiante impregnado na pele, vento morno em chamar chuva que não nos ouve.
Conto minutos. Até o escurecer, até o escurecer

E essa primavera que se aventura ninhos adentro sem nem ainda ter chegado
tem pressa no seu preguiçoso passar

15 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 12

Advogado



Caso contado, reconto. Sempre quis ser advogado. Desde muito miúdo não perdia filme que tivesse júri. Ficava em pé junto à televisão, imitava gestos, andar e expressões, tanto da defesa quanto da acusação. Reproduzia jeito sisudo de juízes prestando atenção às teses e argumentos que, por fim, levariam réu a liberdade ou sairia dali algemado.

Terminado o filme, corria juntar amigos e criava clima de um julgamento no quintal de sua casa. Tinha de tudo. Advogado de acusação, júri, juiz e claro, o réu. Ele sempre fazia o papel da defesa. Os crimes eram terríveis e geralmente reais.

— Senhores do júri, este cidadão sem o menor pudor, na calada da noite, escondido pelas sombras e com a cumplicidade de Laica, a cadelinha da casa, com a qual mantinha um relacionamento muito próximo de amizade, teve o despudor de assaltar a geladeira e devorar, sem o menor constrangimento, a última fatia de torta enquanto seus pais inocentemente dormiam, envoltos pelas asas de Hipnos, pai de Morfeu. Por tal ato ilícito eu peço aos senhores “data vênia”. Embora não soubesse o que isto significava, usava toda hora.

Outros crimes levados ao júri do quintal. Roubar beijo da menina mais bonita da rua, faltar à pelada e nem emprestar a bola, esconder em casa em pique-pega. Gravíssimos crimes, para os quais a pena pedida era geralmente prisão perpétua. Agora, meu amigo, você pode imaginar o enfado daqueles obrigados a participar da brincadeira. E ai deles se negassem. Era tunda na certa.

Foi nada não. Menino cresceu sempre estudioso. Formou advogado. Não satisfeito, prestou concurso para delegado. Foi aprovado com louvor. Cabeceira mesmo. Glória tanta que lhe deram o luxo de escolher comarca.

Sonhador como sempre, escolheu cidade miúda encravada para os lados da serra da Bocaina, um lugar lindo em paz e roças de Lavandas. Sentia que ali poderia ganhar experiência de ofício, para depois, quem sabe, tentar concurso para juiz. Apesar de sempre se lembrar dos filmes de sua infância e da série dos magistrados, ele gostava mesmo era do teatral da cena.

Inexoravelmente, como diria Caetano o “Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos”, o bom e velho tempo voava. A pacata e bela cidade em eterna paz, não tinha crime nem desarranjo, nem roubo de torta ou beijo roubado. Viu-se triste e inútil. Aproveitava a delegacia vazia para estudar, pois juiz seria.

Em um final de dia arrastado, em que o perfume das lavandas iluminava o ar, resolveu parar em um dos poucos bares da cidade para tomar uma cerveja, antes de rumar para hotel onde morava. Sentou-se perdido em si mesmo, via longe para dentro das lembranças, nada envolta existia naquele momento.

Distração perigosa para delegado, mesmo em cidade de paz. Até de costas para porta ficava, um desaviso. Foi quando um cabra, totalmente bêbado, começou a fazer troça dele. No começo ele até sorriu, ligou não. Mas todos conhecemos bebum. Sorriso dado é trela e o homem não parava. Debruçava-se por sobre a mesa do delegado, falava alto, cuspido. Desagrado.

Resolvido a por fim nessa passagem, o jovem delegado fingiu sério: — Toma rumo cabra, se ficar amolando mais um minuto eu te prendo.

O bêbado em falar pastoso, torcendo o pescoço e a mão, retrucou:
— Senhor me prende, mas eu saio. Disse meio cantado.
— Sai não! Eu sou o delegado!
— Eu sei, mas quando eu prender o senhor, “cê” num sai nunca mais!
— E não?
— Não senhor, nunquinha mais.
— Ora essa, quem você pensa que é seu atrevido?!
— Uai, sou o coveiro Dotô, o coveiro.

Nosso amigo hoje é juiz federal.






Jornal Correio em 11 de setembro de 2016

quinta-feira, setembro 8

Coluna Social

Pronto, saí na Coluna Social, já posso virar letra de música.   Brincadeiras à parte valeu Jadir Júnior. Faço por merecer tal destaque?






segunda-feira, setembro 5

Vetustade






— Oi, sim, conte. Lembra quando criança?
— E lá você foi criança algum dia? Já nasceu pronto, velho. E sorriu vazio de dentes.
— Não implica ara, criados juntos reconhece? Tu mais eu, Belenzinho, Choreu, quem mais?
 Lembra aí.
— Esse povo morreu quase tudo, sobrou nóis, sei.
— Pois me fale, qual a melhor brincadeira de fazer naqueles tempos? —  Humm, tudo era bom.
— Pescar no córrego? Longe. Nadar na cachoeira?
— Perdeu distância.
— Sei no certo – com brilho nos olhos – ver as moças tomar banho na cachoeira, escondido na moita de bambu que nem calango, só os olhos de fora.
— É, era bom de mais da conta, vixe se era, mas ainda não era a melhor. — Como assim? Moço, menina nuazinha em pelo, molhadinha de gotejamento d’água, era ruim?
— Ruim era não, endoidou?
—Era bom que só, mas longe de ser o melhor trem de fazer.
— Conte pois, velho gagá, não consigo lembrar melhor. Sorriso de canto de boca, levou pensamento para poção do véu de noiva. Mocinhas arrepiadas de frio. Ouviu direitinho a gritaria. O coração acelerado, o desejo ainda por nascer se fazendo notar. “Minha linda juventude, páginas de um livro bom”.
— Fale estrupício, cadê que tinha melhor?
— Roubar galinha.
—Como é que é? Deu de babar agora?
—Lembra Deuzivaldo.
— Ara – fungando - não gosto que assim me trate! O nome é meu, mas gosto de jeito nenhum.
— Deixa de ranzinzagem Valdo, mas vai levar para o túmulo. Pois é Valdo, sempre foi promessa sua colocar nome de Valdo no retrato da carneira. — Esquece homem, dia ainda vai longe!
— Sei não, sei não…
— Mas pensa Valdo, aqui mesmo. Não era esse o banco de cimento doado por venda, mas era justo aqui. Lembra? Tronco de aroeira cumprido, apoiado em tocos fazia as vezes. A trama nascia aqui. Escolher o quintal, pajear as galinhas, saber o pouso de dormir.
Chegado o dia combinado, era esperar anoitecer e rumar para o terreiro. Uns vigiavam, outro pulava pra dentro. Com galho de goiabeira cutucava pés da escolhida de manso até ela, aborrecida, trocar poleiro pelo galho. Ciência e vagareza. Trazia manso até o braço alcançar. Ligeiro era o agarrar pescoço e torcer. Nem um pio. O que sobrava de medo enroscava bem perto do papo. Ali ficava vazio. O feito estava feito. Suando a testa a gente corria longe, em alegria. Quanta saudade de poder correr com vento judiando da pele! Olho marejava em feliz tristeza.
Aí Valdo era acender fogo, depenar, sapecar, passar o canivete no bucho, e assar em fogueira nossa, sem sal ou pimenta.
— Não senhor eu sempre levei trouxinha de tempero roubado do pilão de mãe!
—Verdade, levava mesmo.
—No fim sobrava quase tudo para Futrica. Cadelinha esperta aquela.
Por fome nossa não era. Era o prazer. Coxa, sobrecoxa, peito. O resto era dela, Futrica. Dormia dois dias, repasto.
— Valdo, e se a gente roubasse uma galinha hoje?
—Endoidou? Perdeu razão e juízo? Imagina tu subindo em muro! Nem bombeiro com ambulância consertava.
— É, tem razão, não podemos. Mas se encomendar?
—E menino de hoje rouba galinha? Sabe não. Vai acabar preso ou levando coça.
—Tem razão Deuzivaldo – assim disse para provocar.
—Valdo! Cansado de saber: V-A-L-D-O.
Cutucou Valdo com a ponta romba do canivete. É brincadeira sô!
—Vamos comer uma pizza então.
— E não? Agora.
— Ó, que galinha com pena era bom era, mas pra mim ainda carrego fresquinho as moças da cachoeira. Cada uma.






Jornal Correio em 04 de setembro de 2016

segunda-feira, agosto 29

Domingo





“O soldado, no forte:
-Capitão, capitão, os índios estão vindo!!
– E são amigos ou inimigos?
– Devem ser amigos, porque estão todos juntos…
– E quantos são?
– Acho que uns mil e três.
– Como assim?
– Vêm três na frente e uns mil atrás…”



Bom dia, gente do bem. Nada como começar um domingo com uma boa risada, um sorriso que seja. A história aí no alto contado por amigo, pode ser ótimo desjejum. Até outro dia, achava domingo o pior dia da semana, principalmente, seu final de tarde. A expectativa da chegada de uma segunda-feira era terrível.

Já notaram que os sons, ou a falta de alguns, caracterizam muito bem um domingo? Explico. Amanhece domingo. Muitos acordam bem mais tarde, ressaca de sábado, noitada foi boa. Festa, show, serenata, pouco provável hoje em dia, assim como madrugar na porta da padaria para desfrutar da primeira fornada de pão quentinho com manteiga, existe mais não, aqui não.

O domingo amanheceu, quem ficou na cama perdeu metade do dia. Outros levantam cedo, juntam a tralha toda para clube, rua, pastel na feira, missa. Correr, caminhar, passear. Sentar na praça, deixar a manhã passar mansa em sua preguiça. Impossível ficar em casa em um domingo, a não ser quando há almoço com amigos ou família. A cozinha começa mais cedo, toca a preparar fartura. Cheiro de carvão no ar, churrasco anunciado.

Dia de bermuda e camiseta. Finalmente a pele do corpo vê o mundo. Os parques estão cheios.
Os sons. Somem os barulhentos carros e motos, é domingo. Se você mora perto de rua ou avenida movimentada e tem sono leve, imagino que teve que aguentar até altas horas o rugido e desenfreio daqueles voltando da farra. Puxadas firmes dos possantes motores, em clara demonstração de pequenez cerebral e educação zero. Mas domingo de manhã não. Os monstros metálicos estão escondidos em covis. Seus babacas condutores, escornados em algum canto em sono sem sonhos, acordarão tarde com uma puta dor de cabeça e gosto de corrimão de escada na boca. Esquece esses caras. Um violão acorda em algum quintal. Risos, criançada. Alegria!

A tarde chega marrenta, é domingo. A existência da perspectiva de segunda começa a dar as caras. Os sons mudam, luzes começam a piscar em um acender de cidade. Sons agora dos clássicos e deprimentes programas de televisão tradicionais. Antes, um longe aborrecido narrar de jogo de futebol. Também sentia isso, hoje não mais.

Sabe aquela brisa que desce narina abaixo e bate manso, refrescante, no peito, na boca do estômago? Os ouvidos buscam em um vazio de paz absoluta qualquer barulhinho, um existir plenitude. A paz, equilíbrio total.

Apenas a pele lhe mantém aqui no mundo físico. Momento único de superabundância, de contato com o universo. Um prazer inigualável.

Assim estão sendo meus finais de tarde de domingo. Pode ser o seu, se quiser. Quanto à chegada da segunda, que ótimo, se não achar nenhum motivo para dela gostar, o que é uma pena, te dou pelo menos um motivo como conforto, é o dia mais distante da próxima. Carpe diem.

Às segundas em particular a vida fica mais leve. No mais, Gerais.







Jornal Correio em 28 de agosto 2016

segunda-feira, agosto 22

Cidadão







Um bom dia de coração para todas as gentes do bem. Pois vejam queridos, ganhei identidade virei feliz, homem do cerrado. Terra que me abraçou como cria.
Engrossei couro, curti pele sob o sol mais bonito das paragens.
Meu peito em alegria pula dança de aleluias, revoada de tanajuras, maritacas, bicos-de-lacre, andorinhas da patagônia, migratórias como eu. Elas se vão eu, guardei pouso, fiquei
Posso assim agora responder firme: De onde seo moço? Por onde?
Uberlândia digo altivo olhar fincado em quem perguntou. O erre sai raspado como da origem, ligo não, Uberrrlândia, lá/ali na ponta das Minas, aqui bem dentro do peito. Alma acalmada por naturalidade possuir. Os filhos fazem as vezes do cantar a palavra nascidos/criados. De papel passado Uberlândia

Cá cheguei manso, não de paz de medo. Um novo grande por demais. Um vasto sem serras que me mostravam distâncias. Olhava, não via fim. O céu encostava em um lá longe, como mar fosse. Estranhamento.
A seca de secar com vontade, a temporada maravilhosa das chuvas, o renascer a olhos vistos. Descobri lento alguns de seus segredos. Outros ficarão para sempre em baús, caixas guardadas.
O sol nascia do pasto, olhar reto. Depois a lua. Não tem igual em grandeza e clarão-ouro. Outro vazio no começar. As gentes. Distantes desconfiadas, não era filho de ninguém, carregava sobre nome difícil, estrangeiro.
Morar em pensão, conhecer devagar o jeito daquele que tinha, sem maldade porém seco no começar. Conquistas
Tempo se vez marca. Conheci afinal as cozinhas e quintais. Vi o escondido, reservado para poucos. O jeito mineiro de ser dessa Minas que ainda não era minha. Portas e sorrisos se abrindo. Ganhei a confiança. Passei pra dentro.
Apaixonei, casei, descasei, nunca desapaixonei/desamorei, sentimento fraterno/eterno. Filhos lindos, da terra nova nascidos. Raiz profunda criada, A bruteza bela do cerrado. Me tornei pequizeiro, barbatimão, Buriti, Mangaba, mutamba, jatobá. Me tornei munguba, ipê de todas as cores, a aroeira - aqui não pica-pau. Posso peroba-do-campo, timbó sem veneno.

Me colori em penas e pelos me tornei um deles: onça, ema, sagui cobras cascavel, jiboia e jararaca.Solitário com lobo-guará, cachorro-do-mato, arredio que nem Bandeira.Me vejo tucano-rei, urubu-rei, perdiz. A arara-canindé, pato do mato, canarinho-da-terra.

Banhei em cachoeiras onde ninguém vê serra, parecendo brotar do chão. Aprendi vastidão. Saí de casulo apertado de maravilhosas montanhas, conheci chance de ter duas moradas. Dois sotaques, dois jeitos. Me tornei mais livre, de Barbatimão, Capim Gordura para fartura de Colonião, napié.
Me perfumei de tantas flores, êxtase de abelha jatái

O céu mais lindo me cobre, as noites mais iluminadas de estrelas e sons que só aqui existem. Urutau cantou em minha janela. Caburezinha em vigília, zela.

E as gentes. De tudo quanto é canto, recanto perturas/lonjuras. Um misturado de jeitos. Custa conhecer. as Minas aqui desconfiadas são, tem que ganhar confiança, provar a que veio. Se em paz para somar, logo vira de casa.
Agora com orgulho posso contar. Sou filho da terra, mãe de leite. Me deu sustento, base, referência. Meus amigos, de cá e de lá. Carrego a felicidade de não apenas me sentir, mas, mesmo por decreto, de ser agora uberlandense.






Jornal Correio em 21 de agosto de 2016

terça-feira, agosto 16

Passagem



Pois assim, tem cada coisa que acontece em nossas vidas que chegam a dar frio na espinhela. Os ritos de passagem, a ordem do tempo e o jeito que se apresenta é regra na vivência de humanos e não humanos. Bichos por exemplo. Passarinho nasce numa dependência danada de pai e mãe. Tem que comer. Abre imenso bico para chamar atenção e ganhar mais grilos, minhocas ou o que vier de longe, trazido no papo de seus guardiões. Passa tempo na preguiça. Empluma, muda pio. Chega hora, mesmo a contragosto, empurrado, tocado do ninho é. Primeiro voo solo despenca. Mas apruma, toma gosto e não para mais. Primeira passagem.

Depois, aulas de canto. Do desafinado piar a gorjeios insossos, desafinado num trocar de voz.
Torna-se tenor, barítono ou outro especialista. Segunda passagem. Aprende a namorar, conquista a parceira e leva a vida bem vivida, se não houver interferência de mão de gente a prendê-lo em gaiola, pedra de estilingue ou queimada assassina a lhe impor fim. Peguei passarinho, mas reparo em qualquer criatura. Taruíras, minhas preferidas, gatos, cães, morcegos e até escorpiões e borboletas. Todos têm ritmo, harmonia de vivência.

Poderia ser diferente com as gentes? Toca falar de rituais diferentes que nos são apresentados, bons e ruins, pouco naturais, mas presentes.

O estúpido aprender a fumar foi um deles, mas naquele tempo era assim, todos fumavam. O motivo? Fazer parte de um grupo, fingir de pavão para as moças e tantas outras bobagens importantes nas cabeças desmioladas de pré-adolescentes. Fazia-se a rodinha e os mais velhos acendiam o pito. Os iniciados tinham que botar a fumaça pra dentro, segurar e ainda falar o nome de cada um ali presente sem soltar um tiquinho que fosse da baforada. Isto feito soltava tudo de uma vez.

O mundo girava ao seu redor. Uma vontade de passar mal segurada para não fazer feio. Alguns caíam de bunda no chão e tossiam os bofes. Pronto, passou. Agora era treinar e fumar até dar picumã nas narinas. Felizmente todos de nosso grupo pararam logo e hoje fumar encanta cada vez menos gente. Fumar significa hoje uma grande caretice catinguda. Uma passagem.

Qual adolescente que não sonhou com os 18 anos para poder tirar habilitação? Carro tinha não, mas habilitação era um troféu a exibir. E entrar num bar e pedir uma cerveja? Tem dezoito? Perguntaria o garçom. Com ares de grande ator apresentava a identidade fingindo enfado. Assistir filme proibido para menores, conquista! Outra travessia.

Mil outras para mostrar, pois a vida é regrada por muitas. Porém, uma em especial me marcou. Um belo dia entrei na casa dos sessenta. Recente, mas aqui estou. Nada de lugar comum, do tipo “Sex-agenário” em demonstração clara de tentar gritar ao mundo “oh, eu dô conta viu!?”. Nada disso.

Ao colocar o pé em minha terceira juventude, corri para conseguir o cartão de estacionamento para idoso. Senti-me aquele menino da porta do cinema, pronto para assistir “Último tango em Paris”.
Orgulho de cabelos grisalhos e da vaga ali me esperando. Tudo ia muito bem, até que um belo dia um amigo me perguntou:
— Cara, você vem aqui todo dia, certo?

Acenei um sim desconfiado.
— Você vem fazer o quê mesmo?

Correr 5, 10, 15 Km, às vezes, dependendo da disposição.
— Então, me explica o motivo de ocupar vaga de idoso?

— Uai, é direito adquirido, tenho sessenta!

— Direito é, mas é justo? Você vem aqui correr 10 km e quer parar aqui? Deixa para idoso que mais precisa, aquele que tem dificuldade de se locomover. O que são mais 100, 200 metros para quem vai detonar duas, três ou mais léguas?

Pois olhe, não parei mais em tais vagas. Acima do direito adquirido, a consciência não permitia. Fico triste quando vejo um mundo de gente nova usando irregularmente vagas reservadas para idosos e/ou deficientes físicos na cara dura. Nada como um olhar de fora para te mostrar caminhos.

Uso mais não. Ali não. Obrigado amigo Otolini. Graças a sua sensata observação subi mais um degrau na escada do viver. Outro ritual interno. Bela passagem.






Jornal Correio 14 de agosto de 2016

segunda-feira, agosto 8

Capotraste



Nossa língua é uma viagem. Já observaram quantas palavras soam como uma coisa e na verdade é outra totalmente diferente? Pensei aqui algumas que sempre me levavam a outro lugar e as compartilho com você, que tem a paciência de ler minhas elucubrações. Pronto, aí já está uma das recolhidas na tarrafa da curiosidade. Tá certo que ela significa exatamente o que quer dizer, mas pense que louco, se você passou a noite estudando, você elucubrou pra caramba. Sabia? Porém essa é um nadinha de nada.

Ando com uma “osfresia” danada. Meu Jesus Cristim, já procurou um médico? Tenho um amigo que quase morreu disso. Ainda mais se for acompanhada de “iscnofonia”, aí, lascou. É, acho que você tem razão, vou ligeiro. Será que isso pega? Vou avisar o pessoal do laboratório, pois vai que passei isso para alguém, quero carregar culpa não. Ouvi contar que chá de “ginge” é bom para esse trem. Ponha umas gotinhas de “abléfaro” que passa em dois tempos.

Bom, estimo melhoras. Vou aproveitar o bom tempo e ver se aproveito o manso do rio para um “náfego” tranquilo. Cuidado com o “Zafimeiro”, dizem que em agosto ele anda solto pelos cantos, um perigo.
Vale puxar reza, senão novena. Esse agosto é de agouro marrento, redemoinho e sacis a solta, é de tomar cuidado, vigília.

Vou-me antes do acainhar dos cães no trecho e, se tiver sorte, ainda pesco meia dúzia de “arúspices”, já que é tempo delas. Dá uma moqueca de lamber beiço.

Pois não é? Cada palavra no seu galho. Só não entendo os motivos pelos quais elas me levam a pensar longe coisa que não é, mas lembrança faz nascer. Tem língua mais repleta de histórias e passagens de Marias-Fumaça do que a nossa? Querida e rica língua pátria. É “acontista” de nascença.

Outro dia, meu filho me apresentou uma. Ao sair apressado para buscar um capotraste, perguntou a passadas se eu queria alguma coisa. Pensei ligeiro, pois estava mesmo com fome e, ainda sentindo o vento de sua saída, respondi:

Traz um pra mim também. Pode ser mal passado! Atentei que ele parou. Quietou alguns segundos e voltou de fasto. Colocou só a cabeça pra dentro e, com sorriso armado, perguntou:

Como é que é? Aí, falei: uai, pode não? Estas coisas se não forem malpassadas perdem o gosto.

Pai, capotraste não é de comer, é para o braço do violão, como se fosse uma pestana.

Aí, parado fiquei eu. Certo, respondi, mas que tem som de comida e boa tem. Se não é, deveria ser. E outra, pestana pra mim é fio de cabelo da pálpebra ou, quando muito, é puxar uma palha, de preferência em rede depois do almoço, numa deliciosa preguiça mineira.

É cada uma!

Outras estranhices que mostrei vou contar significado não, deixo busca no dicionário, mas só vale o de papel, aquele livrão grosso e com aroma de muita coisa contatada. Fica de presente para você. Enquanto isso, tome um belo “Cabotino”, acompanhado de deliciosa “viscacha”, não há quem resista.







quarta-feira, agosto 3

Quintais



Tenho mania de lua, sempre tive, desde pequeno. Cresci em quintal grande, cresci em vários quintais. Conto. Apesar dos muros que separavam as casas, eles, os muros, não delimitavam espaço para nós. Sempre havia árvore a ser escalada e buracos nos tijolos que nos servir de apoio. Era pulo só e já estávamos na continuação de nossos quintais. Alguns eram hostis. Contei do galo que dava carreira em quem se aventurasse por seu terreiro. Outros, donos, ruins em tristeza e péssimo humor, nos rogavam pragas e atiravam caquis maduros quando, como bando de micos, cruzávamos “seu território”.

Nem podiam imaginar que suas moitas de bananeiras, há muito, se tornaram nossos banheiros. Para que correr apertado para casa se ali em “nosso” pedaço existiam tantos banheiros desocupados? É fato que, de quando em vez, um de nós saía correndo com as calças arriadas escorraçado por alguma galinha no choco. Ninhos espalhados pelas moitas eram mais temidas armadilhas dos cães bravos.

Aliás dos cães. Alguns infelizes que detestavam crianças, bem dizer não éramos exatamente santos, pelo contrário nos faziam miúdos de verdade, com toda coragem e molecagem que nossas pernas e imaginação permitissem.

Logo que corria notícias de cachorro novo em nossos quintais começava estratégia de conquista.
Deitado sobre o muro deixava o bicho latir grosso sem parar. O dono chegava na varanda, via cena e sorria satisfeito a pensar : um menino que aqui não entra mais, frutas e galinhas seguras. Qual!
O bicho latia até ficar rouco e, cansado de em pé ficar, soltava o quarto traseiro, sentava. Bom sinal. O latido ia ficando fraquinho, murmúrio, até se trasnformar em bocejo canino. Largava o corpo com as patas da frente esticadas, parecendo a desnarizada esfinge egípcia e deitava em leve rosnar. Era o sinal para o segundo estágio da conquista.

Todos nós carregávamos bolinhas miúdas de carne, do tamanho de bolinhas de gude, surrupiadas de geladeiras de casa. Hora em vez rendia coça, pois um tinha levado a mistura do almoço. Chinelo cantava. Sinal respeitado por todos. Aquela marca vermelha de sandália havaiana pregada nas costas era um troféu, cicatriz de uma guerra de paz. E, acredite, ninguém virou bandido por conta disso.

As bolinhas de carne iam sendo atiradas junto ao cachorro que, depois de bom cheirar, catava uma a uma com o canto da boca, comia ainda deitado, focinho rente ao chão. Umas jogadas mais um pouquinho em nossa direção. Com preguiça, levantava. Uma espriguiçada de dobrar lombo para frente, outro bocejo e lá vinha o bicho. Assim acontecia durante alguns dias. Logo já fazia parte da turma, acompanhava pulando e aí não tinha jabuticaba que chegasse. O dono do bicho em feliz maldade, achando agora que era maritaca, preparava espingarda de sal.

Tenho mania de lua. Sei suas fases, acompanho seu brilho, seu silêncio. Os bichos me ajudam a lembrar. Morcegos em particular. Se é lua cheia, o movimento é menor, começa tarde. Na nova é aquele fantástico aranzé.

Um piseiro no céu. Triste aquele que não olha o céu com paixão verdadeira. O resto é falsa poesia.









Em Jornal Correio de 31 de julho de 2016

segunda-feira, julho 25

Sinal fechado


PS: As letrinhas publicadas em vermelho... bom as letrinhas vermelhas...



"– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?"


– Oi moça, sumiu!
− Nossa quanto tempo, que bom te encontrar. Fazendo compras?
− Não, só olhando o movimento, cores de vitrinas. Observando gente, pensando na morte da bezerra, como sempre.
"– Tudo bem! Eu vou indo, correndo para pegar meu lugar no futuro… E você?"

− Sumida daquele tanto, onde anda escondida?
− Nada, quase não saio. Ando por aí, no Facebook e tais.
− Que legal, vou solicitar amizade. Você aceita, pode ser?

"– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!"

− Claro, vamos ter mil encontros que nem te conto. Tanta coisa para conversar e por em dia.
− O que anda fazendo?
− Nada demais, o de sempre. Muita prosa boa no Twitter. Sabe como é. E você?
− Fazendo minhas corridinhas, vigiando passarinho, pôr do sol, nascer de lua. Estrelas e tons de verde…

"– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!"

− Olha me dê seu telefone.
− Pô, que legal, vai me ligar? Poderíamos aproveitar o frio e saírmos para tomar um caldo.
− Não vai dar, agradeço, fica para uma próxima vez. Agora que tenho seu telefone, vou te adicionar no Whatsapp. Vai ser bom retomarmos nossos contatos.
− É mesmo. E se a gente marcasse um chopinho?
− Difícil, pois tenho encontros com amigos que estão longe e até com alguns aqui da cidade pelo Skype quase toda noite, mas quem sabe não é?
− Nem um cineminha um dia?
− Você tem Netflix? Estou acompanhando cada série fantástica. Já assistiu Game of Thrones?
− Pensei na telona.
− Ah não, dá muito trabalho! Além do mais tem que sair de casa.
− Podíamos marcar um vinho então e ouvir boa música, que tal? Tenho uma coleção…
− Aí é legal. Tenho cada playlist no Spotify e do Youtube que você vai horrizar.
−… de vinil…

“- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!”

− Bom, tenho que ir. Foi maravilhoso te ver e nos veremos muito mais agora que temos nossos contatos. Vou ver umas coisas ali na frente.
− Nossa, será que nessa galeria tem wifi?
− Claro que tem.
− Sabe a senha?
−Sei… haja saco.
− Tudo junto?
− Acho que sim, sempre é.

"– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…
– Adeus! – Adeus!
– Adeus!”

Muito obrigado Paulinho da Viola, na voz de Chico, por seu “Sinal Fechado”. Saiba que, por mal dos pecados, os sinais andam fechando e abrindo ligeiros demais. As gentes se fechando em bites, gigas e games. Prosa anda rara e a calma pressa interiorana substituída por guerra, pressa, sobrevivência. “Viver anda cada vez mais perigoso” (Rosa/ Riobaldo)

"Gentes tão escondidas. Reclusas, se negam ao perdão. Descrença que entristece. Sigo viagem.
Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é saber definir o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

"– Pra semana…
– O sinal…
– Eu procuro você…
– Vai abrir, vai abrir…
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…"







Correio de Uberlândia 25 de julho de 2016 - quase fim de férias

quinta-feira, julho 21

Bezerro





Foto Trilha dos Tucanos

Desespero de fazendeiro, só criava gado à larga, solto no pasto, no mato. Era bicho prá todo lado, embrenhado em grotões onde cavalo nenhum conseguia chegar. Reconto essa história sem tirar nem por. Foi um acontecido longe, pelas bandas da Serra do Cipó, coladinho em Conceição do Mato Dentro, que um dia foi da Comarca de Sabará, depois de Serro Frio e chegou a chamar Conceição do Serro.

Quem disse que ele conseguia peão que ficasse? Na primeira hora do dia, já se via desespero, num aqui não fico não homi. Como juntar gado brabo desse jeito, de investir em arreio de montaria? Assim foi. Tinha que vacinar o rebanho. Fiscalização avisou. Suava desespero. Fazer o quê da vida?

Estava assim na varanda, sentado em banco comprido de madeira jacarandá, lustroso de tanta bunda alisar, quando chega a pé homenzinho miúdo, franzino que só. Calça na canela e sandália de couro cru. Camisa amassada indicava viagem longe. De bagagem um quase nada. Parou assim parado, olhando chão. Observado foi sendo.

Passado o tempo de timidez, murmurou:
— Há de ser aqui que andam de precisão de vaqueiro? Me contaram lá em Conceição, me ponho na sua vontade, que trabalhar careço.

Olhou aquela figura pequenina, dos braços fraquinhos, pensando se ria ou chorava. Dá conta nunca da empreitada, sofismou. Mas tinha solução que outra fosse?

Contou o serviço de juntar o gado para o curral. Tinha que ser todos. Rês nenhuma poderia ficar para trás perdida.
— Vou lhe arrumar cavalo bom e se quiser começar amanhã está contratado, pois já é hora de almoço e seu dia não ia render.

— Agradeço patrão, mas almoço fica prá quando voltar. Quero cavalo não. Vou a pé mesmo. É só apontar direção da bicharada.

— Sem cavalo ou mula? Endoidou? Contaram a braveza dos bichos?

— Contaram patrão. Ligo não. Sigo assim mesmo e se não chegar todos nem paga aceito.
Sendo assim, apontou o caminho.

Fazendeiro balançou a cabeça. Deve ser doido varrido, mas quer, deixa tentar. Assim, faço ao menos caridade em dar de comer quando voltar triste.

Eu não vi, pois é história repicada, mas contam que esse moço miúdo ficou emprenhado a correr dia todinho. Correu mato, cerrado, serra e grotão, açodando um por um dos bichos. De mamando a caducando trouxe todos.

Fazendeiro ainda triste na varanda levantou os olhos, esfregou para ver e não pensar desverdade das vistas. Descendo a serra vinha manada rumo ao curral. Correu sentar no varão da porteira a contar, apontador.

Todos estavam ali, faltava nada.
— Moço de Deus, mas conseguiu feito nunca produzido, e a pé! Conta, deu muito trabalho?

— Olha patrão, trabalho, trabalho, os grandes e os sobre ano deram não. Mas aquele bezerrinho amarelo me deu suador, pois o bichinho é ligeiro e esperto, conhece caminho.

Bezerro amarelo? Uai seu moço, tem vaca aí não! Só macho. Mostra o tal. Subiu na cerca e apontou o canto mais longe: Olha lá ele!

Olhou seguindo o dedo e arregalou os olhos em espanto. O bezerro que o cabra tinha tangido, no seu correr sem parar, era um veadinho-campeiro, veio no afoito, no engano. Vai correr assim lá em Minas, seo moço!









Jornal Correio em 17 de janeiro de 2016

terça-feira, julho 12

Sonho realizado

Mais um sonho profissional realizado. Orgulho de fazer parte de  equipe tão fantástica.
Caminhos escolhidos, abraçados com paixão.


Clica na imagem que amplia

Para baixar o Manual em PDF seguem os links 

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/publicacoes-svs  (página “Publicações da SVS”, na aba “Zoonoses”)

http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/julho/08/manual-zoonoses-normas-2v-7julho16-site.pdf  (link direto)

segunda-feira, julho 11

Moletom





Frio que não quer ir embora força a gente a fazer cada uma! Roupa de frio de ruar (ato de ir para rua, bater pernas, cair no mundo). Frase muitas e muitas vezes gritada por mães ou avós aflitas: Já vai ruar outra vez menino!! Já é rara. Agasalho de ficar em casa, de dormir, então, nem se fala. Tomar banho e vestir o quê para, confortavelmente, se deixar ficar em sofá a ler, ouvindo boa música ou mesmo vendo televisão? Não tinha. Criei coragem e fui a lojas garimpar algum do meu agrado.A falta de costume me fez espantar com o tamanho das lojas visitadas. Imensas, cheias. De roupa, gente pouca.

Funcionários sem identificação seguindo tendência, se misturam a potenciais fregueses, ao que ficamos com cara de boi sonso, olhando para ver se dão sinal de vida de vendas ou se são outros clientes. Achei que cliente era só de consultório, não é não. De freguês a cliente em um dia de compras. O jeito foi me virar sozinho e procurar o departamento de moletons. Tinha que existir um, ora.

Depois de muito andar, já sentia o frio diminuir. Achei o tal lugar onde os moletons se escondiam, um sobre o outro, parecendo dizer em triste murmúrio: — Me leva não! Olhei um, olhei outro e revirei a pilha tentando não desorganizar. Cáspita! Qual seria meu tamanho? Acostumado com números 38, 40 e tais, aqui eram letras, como nas camisetas.

O jeito era experimentar. Agarrei um de cada cor e, outra luta, foi achar um provador, que agora se chama “trocador”. Trocador pra mim é de ônibus. Segui busca. Até aqui não havia sido abordado por ninguém da loja. Nem alma penada chegou, com sorriso ou cara feia, para perguntar que raios estava fazendo ali. Achei! Não só o provador, como também um alguém que, rapidamente, contou as peças que carregava e me deu uma ficha, além de seco olhar.

Cabine de experimentar roupa consegue ser menor do que banheiro de ônibus ou avião. Alguns ganchos, um espelho, e banquinho, cortina que mal fecha. Ginástica de contorcionista para desamarrar o tênis, equilibrar em uma perna só, cabeça encostada na parede de compensado, três pulinhos para um lado e quase me vi no corredor aos gritos de “Abrem-se as cortinas”! Celular cai chapado, carteira some e chaves do carro se escondem como coelho ligeiro em meio a tanto pano. Comecei a suar, o calor só aumentando.

As medidas. Meu manequim é um quase nada. O tamanho P fica curto na canela. O comprimento M faz a barra arrastar no chão. Jesus Cristinho, o G fica uma marmota! Mais acrobacia para vestir a calça e calçar tênis. Um serviu, mas a cor não era a que eu queria.

Recolho tudo, saio de cadarço desamarrado, entrego para a moça roupas e ficha. Retorno ao canto dos moletons e pego mais um tanto de modelo diferente. O trocador fica longe dos moletons, fiz umas tantas viagens. Suor já brotando nas têmporas e testa. A moça me estende outra ficha e as chaves do carro, que ficaram no monte. Primeiro sinal de humanidade. Acho que ela estava ficando com dó de mim. O calor que sentia lembrava o de um bom treino de academia. Quase não conseguia tocar o tecido quente do experimentado.

Exausto, me dei por vencido, pois nada me servia. Com um calor desses, que moletom que nada! Comprei, sem experimentar, um calção de corrida. Saí feliz da vida.






Em Jornal Correio 10 de julho de 2016

segunda-feira, julho 4

Cometa




Foto  Comet  Lovejoy :  Sky and telescope

Valdelândio, por todos nomeado Vau, era sonhador incorrigível. Vau, por facilidade no chamar, já que seu nome de batismo era difícil de pronunciar, principalmente depois de noitada no boteco da vila. Vau ficou. Não era de raso de córrego, de água nas canelas, nem sujeito pouco profundo. Nas ideias e nas gentilezas era cabra de muito conteúdo, muita história, vivência. Quando pegava a contar, até mosquito se aquietava a ouvir, desprotegido, das taruíras que perdiam fome e instinto, e paravam a balançar cabeça escutando. Pois me conte, se lagartixa é dita surda? Ali elas conseguiam ouvir e bem escutado.
Dava conselho para criança e gente erada, sabia.

Tanto sabia e não guardava nada, generoso que só. Vau um sonhador sem limites. Gostava de uma caninha de engenho, pelo sabor conhecia até variedade da cana. Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta e sabe-se lá qual mais. Porém gostava mesmo era de aguardente produzida da cana caiana, planta nobre das antigas. Costumava contar: Cana de setembro gosto não, pinga aguada sem sabor, a de novembro começa a mostrar espírito, alma, mas ainda não convence. Já as plantas de dezembro, chegam carregadas de sumo doce, prontas para festança de fim de ano. Estas sim dão bebida boa. Pois olhe e apure, nem o garapão dessa tem azedume malcheiroso daquele tanto.

Mesmo com discurso conhecedor, não provia desfeita a ninguém e se, em visita, toca-se pinga de indústria, não se fazia rogado. Bebia com gosto e ainda elogiava. Homem bom esse Vau. Inimigo não tinha, mas amigos de fato. Poucos, mas bons. Conhecidos? de manada.

Trabalhava o suficiente para tocar vida, não tinha de posse um passarinho para dar água, mas os tinha aos bandos em quintal de sua pequena tapera. Tanta árvore de fruta e sombra tinha plantado que havia pelo chão só folha a enriquecer e alimentar minhocas e caramujos. Grama ali nascia não.

Vau tinha cisma única de como seria o outro lado, como seria a volta, o morrer. Não entendia a graça nisso. Essa coisa de céu e inferno ele nem de longe acreditava, pois até o padre de cabeça lhe tinha tirado isso. Era que nem bicho-papão para moleque miúdo. Era para assustar, aprumar comportamento. O mistério era maior.

Ideia o seguia. Era só deitar a olhar estrelas e vinha a preocupação. Teria lá uma pinguinha boa para abrir apetite? Tinha que ter, ah isso tinha! Os bons e justos iam misturar com os desalmados trapaceiros, fazedores de coisa ruim? Tinha que ter um lugar apartado, senão ia ser um aranzé. O que não se desentendeu aqui ia sobrar só para a eternidade em algum canto do universo? Então era o inferno! Padre balançava cabeça num desisto.

Foi nada não. Dia desse, passando olhos em revista, leu manchete: “Cientistas descobrem que o cometa libera álcool etílico e açúcar”. Deu de interessar. Ficou sabendo que tinham descoberto um cometa que atendia por Lovejoy e que ele estava “soltando uma quantidade de álcool relativa a de 500 garrafas de vinho por segundo durante sua atividade de pico”.

Relaxou. Pronto, agora sabia até quando iria dessa para outra. Seria na passagem do alegre cometa etílico. Levantou sorrindo felicidade, bateu o chapéu na perna, olhou com gosto noite estrelada. Tomou caminho do boteco cantarolando: “Pegar carona nessa cauda de cometa…”







segunda-feira, junho 27

Clima de sonhos



“Você já foi a Bahia? Não? Então, vá”. Pois então, não é que  Caymmi, propositalmente ou não, vai se lá saber, vendeu e muito bem os encantos das terras que serviram como porta de entrada para os lusitanos nos descobrirem, ora pois.

Contam que Pedro, o Cabral, procurando as Índias se perdeu na confusão de placas de sinalização espalhadas mar adentro, errou o caminho e veio parar em nossas costas. Talvez o vento tenha virado a placa indicativa “Índia a cinco mil quilômetros, reduza a velocidade, cuidado com o quebra-mar, respeite a sinalização e boas descobertas pá”.

Se foi assim sei não, mas entre tempestades, calmarias e muito tédio, aqui chegaram. Missas e tais, depois só gandaia. Belas índias, a rodo, foram penas para todo lado. Assim foi e assim permaneceu, a fama pelo menos. Até os dias de hoje, a Bahia é uma festa, um fim de semana que começa na passagem de ano e termina no Natal. Imagine se os portugueses tivessem chegado pelo sul e no inverno? Das duas uma, ou teriam dado meia volta, tipo: — Ô, Vaz escreva nada não, estamos a voltar, isso cá não tem nada de Índia, vamos pegar o primeiro retorno, erramos em algum trevo.

Mas não é sobre isso que quero falar. A pródiga e maravilhosa Bahia fica para outro dia, tenho muito de lá a contar.

Há tempos não sinto tanto frio aqui em Uberlândia. Fico encarapinhado, que nem passarinho. Falta gosto até de conversar. Quero mesmo é cama. Como anda a escurecer muito cedo, chego de minha corrida diária e tomo um belo banho, inicialmente, frio. Ô vontade de gritar um belo e alto palavrão quando a água bate nas costas. Passo a morno e encerro em “departure” galope.

Contudo, mudei muito o pensamento sobre frio em junho. Quanto à chuva, que tanto me apaixona em época qualquer, descobri que é chuva verde criada longe, em região de mistérios e belezas escondidas, a espera de curioso encontrar lugar de Matinta Perera com seu assobio. Da Boiúna, a cobra grande, do Piripirioca, aquele cuja alma passeia pelo céu, entre as estrelas quando canta. Terra do Uirapuru e seu canto belíssimo, a chamar sua paixão destruída. Do boto e suas seduções. Pois conto, a Amazônia chove em mim. Mesmo trazendo frio, ligo não. Sinto cheiro da mata quando chove. Forte, doce superlativo, como tudo por lá eu vi. Conheci o paraíso.

Vem a pergunta: você já foi a Amazônia? Não? Então, saiba que ela vem até você dezenas de vezes ao ano. Não acredita, pois saiba, outra vez afirmo, que a Amazônia chove em mim e em você constantemente. Os climatologistas sempre nos dão esta maravilhosa notícia.

“São os ventos úmidos vindos da Amazônia, que trazem chuva para o Sudeste do País, em contato com as frentes frias secas que vêm do Sul. A tendência desse encontro é ocasionar queda na temperatura”. Palavras do xará William César Borges, do Instituto de Climatologia da UFU, outro dia.

As frentes frias vêm do Sul. Sim, misturo a mística floresta com belos tangos da Argentina, que tentam gelar minhas noites, mas são sempre bem aquecidas por belos vinhos de Mendonza.









Jornal Correio em 26 de junho de 2016

segunda-feira, junho 20

Dedo meu



Sou um entusiasta por novas tecnologias, apesar de preferir mato, cachoeiras e bichos a gentes. Mesmo me deixando ficar horas deitado olhando estrelas, a espera de que alguém ou alguma coisa venha me buscar lá dos confins do universo, como no niilista e gnóstico filme “Matadouro 5”, que acredito quase ninguém viu, “estou solto no tempo”. As possibilidades que as modernidades nos mostram todos os dias, também me encantam. Outro dia, brincando com um iPhone, demos boas gargalhadas ao mantermos um diálogo sério com esse aparelho. No caso ela, pois a voz era feminina. Ponto para a língua inglesa, já que, neste caso, poderíamos usar um simples “it”. Nada de “he” ou “she”.

Disca para fulando, como está o tempo no Nepal, qual a cor de Rocinante, montaria do cavaleiro da triste figura? Perguntas feitas até chegarmos a outras do tipo “pessoais”: você é feia? Você é burra? Ela, a voz, apela, fica uma onça e ainda te dá respostas malcriadas. É cômico.

Respostas a perguntas mais “complexas” são hilárias. Faça o teste e passe bons momentos.
Agora, estranho mesmo são os tiques que desenvolvemos com o uso constante destas máquinas. Permitam-me sussurrar para que meu celular não escute. Chamá-lo de máquina, aparelho, autômato ou coisa que o valha, para ele pode ser ofensa.

Acho que todos, frutos do mundo do copiar/colar já copiaram algum texto ou mensagem da tela de um celular. Aquele ato de segurar o dedo, geralmente, o indicador sobre uma palavra, faz aparecer aquele sinalzinho que escorregamos para marcar em azul o que queremos reproduzir. Até, aí, normal, estranho é o que vem depois. Quando clicamos em “copiar”, vem a sensação de que o texto está grudado em nosso dedo. E o medo de encostar em qualquer coisa e apagar ou transcrever o copiado na pele, parede, panela ou copo?

A impressão que dá é que, se coçar a orelha, prega lá o texto. E pode ter certeza, uma coceira vai aparecer em algum ponto para seu pânico. E lá se vai, com dedo meio levantado para não gastar o copiado. No meu caso, é pior, pois só uso um dedo para escrever no celular. Nunca consegui destreza de gente que escreve com velocidade taquigráfica.

Meu indicador já está criando calo. Logo terei que mudar de dedo ou mão, pois ele já começa a dar sinais de exaustão. Eventualmente crônicas inteiras são assim digitadas. Isto acontece muito quando meu caderninho fica longe ou em situações especiais, como em avião e sala de espera por exemplo. Assim, a visão está cada vez pior e o dedo nem se fala.

Sou catador de milho naquele miniteclado que, para piorar, tem a mania de mudar as palavras por conta e risco. Um desaforo sem tamanho. Imagine se fosse real. Fazer cola seria manha. Todos poderiam tirar o relógio, passar por revista geral para ver se tem papelzinho ou escrito na perna. Mas e o dedo?
É, mas os caras são espertos. Antes de entrar em sala de aula, diriam:
— Bota o dedo aqui na folha branca! Pronto, mais uma técnica de cola frustrada.

Agora, posso entender bem o significado do termo “Não aponta esse dedo para mim!”. Viva a tecnologia. Pode não fazer bem, mas que a gente se diverte, isto é fato.







Em Jornal Correio 19 de junho de 2016

quarta-feira, junho 8

Constatação

"A dificuldade humana de gostar de gatos está diretamente ligada
 a incapacidade de amar sem dominar."
 
 
 

Desabafo

(…) Amanhã não gosta de ver ninguém bem. Hoje é que é o dia do presente (…). Impossível fugir a essa dura realidade. Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios (…)

Dia da criação – Vinícius de Moraes


Boas coisas, boas gentes, amores, parecem que duram pouco ou não foram feitos para mim, não é meu destino. Sina. Tive longa paixão, mas só eu acreditava nela. Diziam impossível paixão longeva. Pois tinha. Sou um desastre no relacionar, gênio ruim, estopim curto, um humor que sobe e desce. Não há quem aguente. Mudei muito. As perdas nos mudam. Pena que quem se feriu não acredita. Dou toda razão. Fui custoso. Fui, no sozinho pensar, refazendo meu pesar. Meu jeito de carinhar e gostar.

Tenho muito que provar, mas também não tenho pressa. De meu gato muito falei. Jurei falar mais não, nem que fosse por prazo. Mas hoje carece, me digam se não. Como um bicho pode ensinar. Confesso que conversei muito com ele. Bicho confidente e, gato, desconfiado que só, respondia com olhares/miados. Cumplicidade consolidada. Dois viventes livres e aventureiros.

Veio o desgosto. Morar em condomínio, prédio, casa que seja, pois ter vizinho é um exercício de paciência e tolerância. Criaram caso com meu gato. Queixa me chegou. Sou mineiro das alterosas e, como tal, sistemático. Pago minhas contas e nunca atrasei dia sequer. Não tenho dívidas, tenho compromissos e estes honro no dia e hora. Devo ninguém. Quieto mas fácil de fazer amizade sincera. Gosto de mentira nem de falsidade não. Sempre me mantive arredio e na minha. Cumprimento com sorriso e poucos lá com um bom dia/tarde/noite de voz. Ouço música baixa para não incomodar. Tento permanecer invisível.

Pois não é que desalmado, mal-amado, infeliz, se queixou do simples existir de meu gato!? Gato do bem, adorado pela criançada e vários adultos. Socializado ao extremo. Conto minha rotina nesse minúsculo condomínio de casas. Convivo com cachorro latindo dia todo, barulho de música alta em festa. Nunca reclamei, nem vou. Pois todos têm um dia ou outro de ligar o foda-se.

Ser feliz não é doença. Pois assim acharam. Meu gato, tranquilo e do seu jeito conquistou muitos. As crianças principalmente e adultos do bem, felizes. Tem gente que não merece o mundo, devia pedir desculpas pelo espaço que ocupa. Para a coisa não ficar feia, pois repito, estopim é curto, e por mais que exercite tolerância fico preocupado que hora me falte, principalmente frente a tanta mesquinhez de vida, levei meu gato para uma pessoa muito especial. Coração enorme, apaixonada com a vida e com o viver. Casa de verdade, nada de meias paredes sufocantes/confessionárias. Quintal belo, florido e arborizado. A morada mais linda do bairro. Sempre disse isto. Gato está lá muito bem, obrigado. Cercado de gente feliz, almas claras, de bem com a vida.

Fico pouco por essas bandas, queria viver entre pessoas resolvidas. Ao coitado que queixou, fique em paz, mesmo que esta jamais o alcance. O que não duvido. A vida é, mesmo que não acreditemos em alguns momentos, justa. Não o quero mal, o quero longe. Tento e sou paciente. Mas execraram meu gato, uma companhia e amizade a alegrar solidão, e eu, quero mais é ir embora. Se souber de cantinho, meia água com plantas e gente do bem, me avise via e-mail.


"And in the end the love you take is equal to the love you make"
The Beatles







Jornal Correio - Opinião em 08 de junho de 2016



".

segunda-feira, junho 6

Recuerdos: Beijo





Sentado no canto mais escuro do bar, coçava a barba por fazer. Daquele ponto podia observar todo o ambiente. O entre e sai das gentes. O apressado engolindo cafezinho, que pelo cheiro que emanava da cafeteira prateada mergulhada em cuba d’água sempre aquecida devia ser esquentado, feito há dias talvez.

Outro, a comer lambuzado pão com molho de almôndegas vindas de travessa onde ficavam a boiar em vermelho caldo na vitrina de salgados, como estranhos seres alienígenas que ainda não foram pescados. Ali também havia ovos cozidos de cascas azuis e vermelhas, pastéis ressecados, e claro, moscas, muitas moscas.

Do seu canto observava também uma parte da movimentada rua. A porta do bar, uma moldura. Enorme boca parecia tentar engolir carros e pessoas que ao seu alcance passavam. Um quadro em movimento, mutável, tristemente dinâmico, vazio. Cinza.

Fazia um calor insuportável. Abaixou os olhos para o seu copo de cerveja, estava quente. Com as costas da mão conferiu a temperatura da garrafa, sentiu a umidade do vidro suado, mas pressentiu que o que ainda lá restava também já não estava gelado, nem fresco.

Assim mesmo tornou a encher o copo, espuma branca e abundante tomou quase o copo inteiro, uma pequena cachoeira escorregou alva pela borda e derramou pela mesa de lata, virou amarelo líquido rapidamente. Com a ponta do dedo ensaiou um desenho sem sentido com a cerveja derramada. Um círculo, algumas letras, um rio e suas curvas.

Bateu a mão no bolso da camisa procurando o maço de cigarros. Mania, parara de fumar havia muito tempo. Tamborilou no encosto da cadeira do lado uma música que nem conhecia. Ansiedade.

Buscou com os olhos alguém conhecido.

— Mais uma cerveja, por favor, tem torresmo? - Ia ficar ali um bom tempo.

Procurou  guardanapo de papel rabiscado. Era o bilhete que havia recebido no dia anterior. Entregue por um menino vendedor de flores, aquelas rosas mumificadas embrulhadas em papel celofane.

— Moço, mandaram entregar. Baixou os olhos para a encomenda um segundo e quando outra vez os ergueu o pequeno mensageiro havia sumido, mágica, não tinha para onde ir tão rápido, estranho.

Além da caligrafia bonita, do perfume que não mais se podia sentir, o que mais encantava era o beijo de batom. Vermelho vivo. Um convite ao desejo. Prometia encontro naquela mesa, na proteção da tarde quando poucos ao bar se aventuravam. Não conhecia a dona daquela caprichosa mão e de tão perfeita boca. Sonhava.

As horas avançavam, o entra e sai aumentava, a moldura da porta adquiria tons escuros, faróis agora acesos cruzavam seu campo de visão. Ninguém. Com paciência sofrida, colou o bilhete no casco da última cerveja, o vermelho do batom escorreu papel abaixo em contato com água condensada. Observou a cena sem emoção especial. Quem sabe amanhã? A solidão ainda permite sonhos.







Jornal Correio 06 de Junho de 2016