segunda-feira, junho 28

Domingo, palco azul

 



— O medo que tens— é que faz, Sancho, que nem vejas, nem ouças às direitas, porque um dos efeitos do medo é turvar os sentidos, e fazer que pareçam as coisas outras do que são. Se tão medroso és, retira-te para onde quiseres, e deixa-me só, que basto eu para dar a vitória à parcialidade a quem ajude.

Dom Quixote de la Mancha - Miguel de Cervantes

 

Se fosse minha velha Remington, o inexistente cesto de papéis e seu entorno estariam cheios de folhas amassadas, rasgadas, arrancadas à força do carro da máquina e atiradas longe junto com a falta de inspiração.

A ideia demora a se fazer vista em sua plenitude e ficarem devidamente alinhadas como linha de papagaio bem esticada deixando suas cores da ave de papel a tremular pairando em um céu azul de tempos de inverno que acabou de chegar. Mas não. Mais uma vez a linha se faz em barrigada perigosa. Presa fácil para uma laçada. E eu chorando “de cara suja/ Meu papagaio o vento carregou/ E lá se foi pra nunca mais/ Linha nova que pai comprou…” a espera de uma Maria Solidária a me salvar.

Fico a imaginar se todos que escrevem passam por isso. O dia da folha totalmente branca. Ideias são muitas, porém nem sempre se consegue arrancá-las do fundo da alma e deixá-las expostas em sua nudez pura. Sim, as ideias, assim como os pensamentos, estão eternamente despidos à espera de que você, eu, ou alguém os vista da forma imaginada. Podem ser fantasticamente coloridos, risonhos bailarinos ou artistas de circo, onde podemos preencher o palco e a plateia conforme nossa vontade. Hoje tem marmelada !???? Tem sim senhor!!! Ou podemos deixá-los às escuras, puras sombras sem movimento, sem risos, sem aplausos. Hoje tem goiabada!? Agora em murmúrio. Tem não senhor... em coro de vozes tristes e sussurradas das coxias: Tem não senhor... Tem não senhor...

Luzes! Cores! Música! Que entrem os mais belos e ricos pensamentos em forma de lindos cavalos brancos enfeitados de ouro e prata a contornar um picadeiro repleto de gritos e aplausos! Que entrem os palhaços com suas cambalhotas e brincadeiras, que atirem baldes de pétalas de flores ao respeitável público! Acrobatas lindas com seus cabelos em cachos negros e vestes reluzentes a cortar os céus com perícia e delicadeza, arrancando suspiros apaixonados ou gritos de medo! Sei bem que muitos torcem pela queda, pela tragédia. Mas eles que vistam os seus pensamentos ruins com a roupagem que lhes aprouver. No meu circo, meu palco de sonhos não tem lugar para o assim pensar. Sim, pode como já disse, ficar escuro e sem goiabada em alguns momentos. Mas sempre haverá esperança de sons, risos e cores...

Se me propusesse a falar apenas sobre um tema toda semana, ficaria mais simples. Não apenas seria extremamente maçante e sem graça, seria triste e vazio. Mesmo em momentos tão confusos e de pouca esperança como estes que estamos vivendo, mesmo frente a tanta discórdia e inimizades surgindo a cada dia por um nada. Acredite, cada um tem seu palco, seu jardim, sua estrada e o caminho e as peças que quiser ali colocar são sempre aquelas que você escolher por companhia. Nem todos os dias serão de sol e céu de pleno azul. As tormentas e tempestades tem sua hora e lugar. Elas passarão. Assim, não tenha medo jamais do trovão, pois ele e seu rugido/rolar significam que o raio já caiu em outro lugar longe e você venceu mais um dia. Recolha as bolas de papel atiradas no seu cesto, remende as folhas rasgadas. Para seu espanto, a até então folha em branco mostrará o quanto pode existir felicidade e criação a partir do vazio. Sonhos são para ser não apenas sonhados, viva-os intensamente. Avante, sempre.

 

“À força de tanto ler e imaginar, fui me distanciando da realidade ao ponto de já não poder distinguir em que dimensão vivo.” — Dom Quixote







Diário de Uberlândia - Junho 2021