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quinta-feira, janeiro 11

Bem-vindos

Então passou. Passou Natal, Virada do ano/ Reveillon. Pipocaram milhares de foguetes, em uma comemoração bárbara a matar milhares de pássaros do coração. Cães e gatos em pânico horror não sabiam para onde correr. Aqueles que têm sorte de ter dono presente ainda encontraram colo, proteção e aconchego. Os pobres que ficaram trancados em casa enquanto seus donos vestidos de branco, amarelo, ou calcinha vermelha, cada um com seu sonho, saiam em saltitante alegria brindar paz e prosperidade, devem ter se enfiado em algum canto a tremer de pânico. Cada um vivendo sua Alepo particular, corpo e mente em frangalhos. Em tormento, para onde irão seus pensamentos em tais horas?

Mas é ano novo, tudo pode. Não meus queridos, não quero que me tomem por um protetor fanático dos animais e inimigos dos homens. Apesar de manter minha máxima de gostar mais de bicho do que de gente, aprendi a conviver com ambos. Passou forte por minha mente o sofrimento dos enfermos em seus leitos de hospital, dos berçários repletos de recém-nascidos e dos acamados terminais em casa. O bebê que nunca dorme em cólica ou febre. O idoso, um homem, uma mulher, em solidão, olhos a lacrimejar, sobressalto a cada rojão, memória a vagar longe caçando lembranças que teimam em não ficar e companhia fazer. Consegue pintar o quadro?

Ah, esquece, é ano novo que avança madrugada adentro, eu quero mais é festar. Suar minhas frustrações/decepções. Quero mais é deitar fora a tristeza e pequenez de um ano sem muito o que comemorar, pois sim, o seu final merece regozijo e justificam o espocar de medo. Os animais? Ora são apenas os animais, descartáveis como as árvores que mutilamos, como os rios que poluímos, como as vozes que calamos, como ar que impregnamos com nossa grosseria e falta de respeito.

Não, não vivemos uma Paris em guerra. Nos faltam puras crianças como Paulette e Michel a roubar cruzes para o seu pequeno cemitério de animais. Não temos “Brinquedos proibidos”. “Não existe pecado do lado de baixo do equador”. Tudo é festa, apenas festa.

Acabou, passou, pronto. Restam as contagens de não sobreviventes e retrospectivas repetitivas chatas que mais parecem reprises. Mas qual, ” tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Perai, acabou nada, tem carnaval logo ali, tem copa do mundo e mais foguetes e piseiro. Aí, quando menos se espera, pipocam as eleições, a “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”. Assim esperamos.

Apesar dos pesares, das tristezas a cada foguete, dos terremotos humanos, Voltaire me fez Cândido, sigo Panglós, o otiminista.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. […] Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”

Bem-vindos a dois mil e dezoito.






Publicado em
Jornal Uberlândia Hoje
Jornal Diário do Comércio - Olhe no Diário (PDF) ou link direto AQUI
Jornal Voz Ativa  - Ouro Preto

domingo, dezembro 24

Carta a Papai Noel









Foto arquivo pessoal

Querido Papai Noel, eu sei e imagino seu espanto. Tem muito tempo que não penso no senhor. Afinal deixei de acreditar em sua existência. Também, sua imagem estava associada apenas ao comércio e consumo. Judiaram. Como acreditar em conversa de garoto propaganda vendendo de pernil a carro de luxo?
Tormento de vitrines cheias de “neve” e musiquinhas chatas pra caramba, tocando sem parar. Isto, em um país como o nosso. E ainda pensar que o Natal “era festa pagã, Natalis Solis Invicti ou “nascimento do sol invencível”, em homenagem ao deus persa Mitra e as comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, o dia mais curto e frio do ano”. Aqui cai em pleno verão escaldante tipo Rio 40º.
O cientista da religião, Carlos Caldas, nos conta que “Na Bíblia, o evangelista Lucas afirma que Jesus nasceu na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo e irem às cidades se alistar. Só que, em dezembro, os invernos na região de Israel são rigorosos, impedindo um grande deslocamento de pessoas.
Também por causa do frio, não dá para imaginar um menino nascendo numa estrebaria. Mesmo lá dentro, o frio seria insuportável em dezembro”

Assim a coisa se transforma em conversa pra boi dormir.

Mas, deixa isso pra lá, meu negócio é com o senhor.
Deixei sim de acreditar. Porém, não se sinta só. Deixei de acreditar em um monte de outras coisas e não estou me referindo a fadinha dos dentes, ao coelho da páscoa ou ao Tutu Marambá ( aquele do “…não venha mais cá que o pai da criança manda te matar…”).

Perdi crença em gente humana, conto nos dedos aqueles que trazem confiança. Passei a desacreditar na bondade das gentes, na gratidão, no companheirismo, na benevolência. Bicho gente benfazejo, compassivo, na maioria quase absoluta dos que se diziam amigos. Passei a duvidar , em amores eternos. Tornei-me cético e infeliz, estou em fase de convalescença, quase curado pode apostar de algumas dessas descrenças.
Salvaram-me os bichos em particular os miúdos, as árvores, os ventos, as chuvas e outras tantas demonstrações do Criador. Os cantos suaves colorindo amanhecer e fim de dia. Restaram poetas, margaridas, seresteiros, contistas, girassóis.
Jóias raras beija-flor, corujas atentas, canarinhos-da-terra. Manifestações estas de que nem tudo está absolutamente perdido.
Papai Noel, me desculpo pela longa ausência, mas a vida é assim e nosso Guimarães, o Rosa lá de de Cordisburgo esculpiu em letras com maestria:

“O correr da vida embrulha tudo./A vida é assim: esquenta e esfria, /aperta e daí afrouxa,/sossega e depois desinquieta./ O que ela quer da gente é coragem”.

O ano foi difícil 2017 não vai ser bem lembrado, além do assédio moral sofrido e doído sem precedentes na minha vida profissional que deve continuar no ano vindouro, foi um ano de malvadezas sem fim. Mas acho até que mesmo assim me comportei bem, não maltratei ninguém como é de minha criação, relevei as maledicências e até os acontecidos pois sei que, eita que hoje estou para citações dos mestres, nas palavras do engenhoso e Mario Quintana: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão…/ Eu passarinho!”. Retribui o mal com perdão, quase sempre, pois não sou santo nem rapadura nem de ferro.

Assim já que fui quase bonzinho vou deixar minha botina mateira do lado de fora na noite de Natal e, se pela manhã, ao acordar, encontrá-la molhada de um sereno perfumado/colorido terei certeza de que meus pedidos foram ouvidos. Quanto a atendê-los, não se preocupe, sei o quanto é uma pessoa ocupada. Faça no seu tempo. Só quero de volta a crença nos homens e o renascimento da fraternidade. Apenas, e tão só, um mundo mais justo, mais perfeito para todo ser vivente. Sorrisos, abraços, beijos apaixonados. Que Ele e seu Pequeno Menino sejam a nova Estrela que tanto esperamos para curar o planeta e deixar viver em plenitude tudo e todos que aqui se entrelaçam, em generosa conexão harmônica. Um dividir sem fim de seiva pura e vital.

Todos os dias botarei reparo e pelo resto de minha vida, a cada pequeno sinal de mudança, avistarei feliz seu dedo e o Dele mudando para melhor o rumo da vida.

Antes que me esqueça, desejo a você e a todos viventes Boas Festas e muitos anos de realizações, principalmente muita paz, harmonia e serenidade.








Publicado em
Uberlândia Hoje

Jornal Diário do Comércio

sexta-feira, novembro 24

Beija-flor


 Sempre pensei que os beija-flores fossem eternos. Cada um com sua roupagem única, pintura exclusiva, assinada por artista caprichoso. Dezenas de vezes topei com pardais, pombas, canários e até urubus estirados chão afora. Espalhados em monturos de plumagem e sangue, alguns achatados como se folha de papel fossem. Cães e gatos também. Em qualquer parte da cidade é possível, em algum momento, se deparar com carcaças estraçalhadas por desumanos pneus. Não se esquece daqueles olhos vidrados a fitar um nada.

Nas estradas que cortam nosso Brasil, já vi tamanduás, onças, capivaras, lontras, além de bois e cavalos, jogados como sacos para o acostamento.

Nunca, nunca tinha visto um beija-flor morto. Sempre os vi anjos e anjos não morrem.

Assim pensava e jurava de pés juntos: os beija-flores são eternos. Não, infelizmente não o são.

Nesta semana, do nada, deparei-me com uma pequena joia em canto de calçada. O sol bem à minha frente mostrava apenas estranha figura refletindo multicor. Frágeis arco-íris envolviam aquele pequeno amontoado de quase nada.

Dei alguns passos com palma da mão em viseira, ainda sem saber o que era. Parecia uma caixinha de joias tombada, mostrando suas riquezas; miúdas contas e pedras preciosas em perfeito corte lapidário. Coloquei-me contra o sol e só então entendi o tamanho da tragédia. Via, pela primeira vez, em toda minha vida, um colibri morto. Seu delgado e longo bico apontava para o céu. Era lá o seu lugar. Entre flores coloridas e perfumes transcendentes, a banhar-se em pequenas gotas de chuva de primavera sobre largas folhas, riscando o tempo e abrindo caminho ao vento. Nunca ali.

Olhos foscos agora em um nada ver. Sentei ao seu lado. Um pouco de mim ali morria. Clichê, lugar comum? Pode até ser, mas era a mais pura verdade. Para alguém que sonhava a certeza de que estas minúsculas estrelas vivas não morriam, foi um mais perder da infantil que teima em nos acompanhar pelo tempo.

Talvez o envelhecer seja isso: o perder das falsas verdades puerícias. A reserva destes fragmentos que, quando em vez manda recado, vai-se aos poucos esvaziando, esvaziando até quase nada restar, incrustado apenas em apagadas retinas. Ao mesmo tempo em algum canto, vai se acumulando a borra da vida. As frustrações, o não realizado tão forte de tempos atrás, que, resignados e exaustos, deixamos de lado. As utopias, sempre elas, perdidas. Abdicamos de tanto e, às vezes, descobrimos que foi por tão pouco.

Descobri, pois, de forma súbita que os beija-flores, infelizmente, morrem, assim como tudo mais. Mas disso fica lição e crescimento, os sonhos. Ah, os sonhos! Estes não envelhecem jamais mesmo, cantou a voz de anjo Milton. Não morrem e se multiplicam, ramificam, nos seguem/perseguem até o fim do caminho.

Resta consolo de que outros milhares de cuitelos continuarão saga da eternidade, pois não tem aquele, por mais sisudo, frio e insensível que seja, que não pare um segundo e, mesmo sem querer, deixe esboçar, ainda que ligeiro, sorriso de criança. Pode não demonstrar, mas sente.

Assim, trazendo paz também aos carrancudos e infelizes, recupero o meu devanear e torno a acreditar na imortalidade dos beija-flores, dos anjos e dos sonhos.

Dessa forma, “Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos/calmos, calmos, calmos/Lá se vai mais um dia”.






Publicado em Jornal  Olha no Diário  (Uberlândia)

quarta-feira, outubro 25

Maria De Maria

 Foto: Ninguém dos Campos/Divulgação

Antes de mais nada grito aos ventos: não sou crítico de arte, não entendo de arte, não sou arte. Faço arte no sentido lúdico e infantil da palavra. Lanço-me em aventuras, algumas inconsequentes, sem trema ou trama, mas sempre inofensivas.
Sou espectador que põe atenção. Se me agrada gosto, se não me agrada me aquieto.

"Amou daquela vez como se fosse a última".

Tive o lampejo de ir ao teatro em uma quente quinta-feira, na qual a maioria gostaria de estar em um bar ou à beira de piscina ou, quem sabe, caminhando no parque. A peça, uma produção independente da até então para mim desconhecida Maria De Maria, cativou logo nos primeiros instantes.

“Beijou sua mulher como se fosse a última"

Bom, posso dizer que os longos primeiros minutos de silêncio e breu poderiam ter sido mais curtos. Criou um certo incomodo, proposital talvez.
O denso texto de Claudia Eid Asbun inspira. Impressionante a coragem de produzir e encenar Mulher de Juan.
Em árido cenário de obra, Maria De Maria se move com leveza bruta, contracena com o maravilhoso e fantasticamente harmônico e pontualíssimo violoncelo de Laura Millya.

“E cada filho seu como se fosse o único"

"O tempo não para/ Disparo contra o sol/
Sou forte, sou por acaso"
, cantou Cazuza.

A plateia em silêncio absoluto. Se bem que, quando chegamos no esperar do escuro, duas tagarelas palreavam ao som de saquinhos de o que me parecia batatas chips. Mudamos de lugar e a paz voltou a reinar.

A direção de Adriana Capparelli é sóbria e libertadora para a atriz (acho eu, foi para mim é certo).

Se era crítica que  Elena,  mulher de Juan, buscava, eis a de um simples espectador, que em muito se viu no espetáculo.
Vi-me em suas falas e coreografias. Fui mulher, fui celo, fui Juan, fui você. Como é bom em plena quinta quente ser parte de uma peça tão envolvente. Mil vezes recomendo. Quem viu viajou, quem não viu não perca a próxima apresentação. Quando a peça chegar a Ouro Preto, e tenho certeza que vai rodar mundo, peço: não perca.

Só me resta dizer Bravo! Bravíssimo Maria de Maria! Espero te ver sempre em palco. Usando modernos tempos: curti e te sigo.

"E flutuou no ar como se fosse um pássaro"

(*) Intervenções grifadas da obra "Construção" de Chico Buarque não são meras coincidências







Publicado em Olha no Diário ( Diário do Comércio ) em 25 de outubro de 2017