sábado, março 10

Amanhecer sábado

Um lindo amanhecer hoje. Fica o registro. Acordar cedinho tem muitas vantagens.


Sábado eu vou à festa
Vou levar meu violão
Vou cantando uma canção
Que eu decorei
Sábado eu vou à festa
Numa nuvem de algodão
E entre estrelas vou abrir meu coração
E vou encher de vagalumes teu cabelo,
Respirar o ar do céu, vou
Eu quero o céu e vou com guizos nos sapatos
Minha roupa em farrapos coloridos vou rasgar
E vou dançar entre os cristais azuis do tempo e esquecer
A terra longe, longe, longe
A se perder













quinta-feira, março 8

Um amigo

"Um amigo é uma pessoa com quem se tem prazer em compartilhar idéias de forma tranqüila e mansa. Não é preciso estar de acordo. O rosto do meu amigo não é igual ao meu rosto. E essa diferença me dá alegria. Se convivemos bem com nossos rostos diferentes, porque haveríamos de querer que nossas idéias fossem iguais? Experimentar a diferença de idéias mansamente é uma das evidências da amizade. Assim, se você deseja saber se uma pessoa é sua amiga, pergunte-se: Temos prazer e gastamos tempo compartilhando idéias? Acho que os casais – namorados ou casados de papel passado – deveriam se propor esse teste. Não existe amor que sobreviva só de sentimentos, sem a conversa mansa."

Rubem Alves
A casa de Rubem Alves
Quarto de badulaques (XXXV)

Dia Internacional da Mulher

A todas as guerreiras, Amazonas da vida. Carregadoras de piano e latas d'água vida à fora. Esteio da humanidade. Divindades em forma de gente.
Um beijo especial neste 8 de Março

sexta-feira, março 2

Censo

Contagem de bichos: 156 T. serrulatus e 1 T. fasciolatus acabam de chegar do Prata. Cidade parceira em projetos, pesquisa e modelos de campo. Estaremos lá no final de março para avaliar nossos sítios de trabalho. Pesquisa aplicada que se transforma em métodos de trabalho em nossa Uberlândia


Foto acima
Com Sara durante contagem dos
recém chegados ao laboratório

quinta-feira, março 1

Dentista

Foto: Tecnologia a favor da Vida

Das dores conhecidas parece que a de dente é uma das piores; corre pareada com a dor de parto e pedra nos rins. Passei certa feita por crise de vesícula. Forte assim, com conhecimento de causa, incluo-a na lista das dores físicas bravas. Outras dores insuportáveis são as dores da alma, de consciência e de amor, mas estas deixo para outra oportunidade.

Aquele que nunca passou pelo sufoco de uma sala de espera de dentista levante a mão. Cheiros e sons que só ali existem. Tem coisa mais medieval do que alguns instrumentais odontológicos? O boticão parece coisa inventada na Inquisição. Passou pelos porões da Redentora, ocupando lugar de destaque nas mãos de torturadores.

Chega a pleno século 21 com todo seu vigor e, pior, aperfeiçoado anatomicamente para que os seus usuários tenham maior conforto.
Tanto avanço tecnológico e não conseguiram abolir outro instrumento de horror: aquela broquinha de alta rotação e o seu inconfundível barulho.

Na sala de espera, só de ouvir aquele zuimmmm, percebe-se inquietação geral. A velha e conhecida arte de folhear revista sem ver é o que mais rola. Às vezes, a tensão é tanta, que, não raro, o que passa é folha de revista voando para os lados, arrancadas, tamanho pânico. Agora, se o zumbido da canetinha sádica for acompanhado de um som gutural de dor vindo lá de dentro, vira um Deus nos acuda aqui fora. Muitos pacientes, verdadeiramente impacientes e de olho no relógio, se levantam de pulo e saem, às vezes, sem aviso. Uma vez lá dentro, você é recebido pelo dentista, geralmente acompanhado por uma técnica em saúde bucal, vestidos de impecável branco, máscaras e sorriso nos olhos.

Com o coração a mil, senta-se na hodierna cadeira inquisitorial para seção particular de tortura. Mãos a suar frio, a perna fica dormente, os olhos arregalados e começa se.

A mania de dentista conversar com você e ainda fazer perguntas? Você lá, com a boca travada, com aparelho que parece bridão, além da boca recheada de algodão.
Se doer, me avisa! Uma lagriminha escorre no canto do olho como resposta, mas ele continua futucando sem dó. A mão sobe e desce em velocidade inacreditável, nada de parar.

A maioria sai do consultório parecendo que saiu de uma sauna. A blusa ensopada de suor e um olhar de sofrimento tão grande que, normalmente, chegam em casa esgotados a ponto de apagar no sofá ou à mesa de jantar, com garfo na mão.
Adrenalina pura.

Alguns nascem com medo de barata ou de cobra. O medo de dentista também é de nascença, deve vir das tais vidas passadas. Em outros tempos, bruxos, feiticeiros ou, simplesmente, inimigos da Santa Sé, pessoas cujos bens a Igreja cobiçava, acabavam quase sempre nas mãos de um carrasco munido de quê? De um tataravô do atual boticão.

A maioria das crianças de hoje quase não tem cárie, quero assim acreditar.
São programas de prevenção que começam nas escolas: bocas roxas, flúor, tanto da água de consumo quanto bochechos periódicos, selantes e por aí afora. Governos, profissionais, escolas e famílias mais conscientes.

Apesar de tudo, tenho os profissionais da odontologia, imprescindíveis à saúde coletiva, em alta conta e respeito, mesmo causando tanto medo em alguns como eu. A eles peço apenas um favor: inventem novos barulhos e cheiros ou, pelo
menos, dividam comigo os honorários do terapeuta.

segunda-feira, fevereiro 27

sexta-feira, fevereiro 24

Fé cega


Estive recentemente com tristeza em velório de mãe de grande amigo em Uberaba. Fomos todos pegos de surpresa. A morte sempre traz sensação de impotência, de perda de domínio sobre tudo.

Como parte do ritual fúnebre, padre paramentado, coisa rara, disse palavras belas de conforto e paz.
Não sendo propriamente católico, não sabia acompanhar a preleção e entoar cânticos de resposta às orações ali apresentadas. Explico: sendo filho de judeu e católico, tive a felicidade de ter contato com ambas as religiões, ou seja, além de dupla nacionalidade, mãe mineira, pai do Brooklyn NY, fui exposto a processo de aculturação religiosa, um privilégio que, apesar de saudável, perigoso, pois bagunça a cabeça de qualquer jovem.

Frequentei quando bem criança a igreja católica. Saía de lá sempre com medo das chamas do inferno. Depois passei a frequentar a Associação Israelita e nunca me senti tão bem. Não que tenha me tornado judeu praticante a ponto de respeitar o Shabat, alimentar apenas de comida kosher ou comemorar o Rosh Hashaná, nosso ano-novo. Mas me dedico, permanentemente, a estudos do Tanakh e me atualizo permanentemente por meio da Morashá, além, é claro, de ter sido circuncidado.

Mas o que me deixou pensativo foi uma frase dita pelo padre, algo mais ou menos assim:
— Serás recebida às portas do Céu pelos anjos do Senhor.
Se o céu como pintado existe, não tenho a menor dúvida de que para lá ela foi. Mas o que ficou a martelar minha cabeça foi o porquê de se levar pessoa tão boa e deixar tanta gente ruim entre nós.

Imagino que a adolescência em relação ao Pai Eterno comece aos 50 anos. Tornamo-nos cheios de por quês, de dúvidas em relação a tudo que se diz divino. Em minha busca ouvi prelação de rabino cínico, sermão de padre homofóbico e comício de evangélicos irados. Na doutrina espírita e no zen budismo, uma tranquilidade excessivamente conformista e morna. Na umbanda, encontrei alegria e beleza, cores e música a cultuar divindades, em belo sincretismo religioso, como bem definiu Milton Nascimento, para a entrada mágica de maravilhosa madona e seu andor em preciso e brilhante esplendor azul. Passagem no lindo Maria, Maria encenado à exaustão pelo Grupo Corpo. Obra-prima da dança brasileira. Primeira peça do grupo que, felizmente, soube sempre criar trabalhos à altura da estreia nos palcos. Começar do ótimo nunca é fácil.

Que fique aqui bem claro que não estou emitindo nenhum juízo de valor sobre religião que seja. Tenho profundo respeito por todas que buscam o bem. Estou agindo como o adolescente descrito acima, em difícil fase dos por quês. Talvez buscando um rumo. O famoso do tal “de onde viemos, para onde vamos”. Para um paraíso místico de mel e deleite? Ou enfrentar Cérbero, o guardião das portas do inferno, após cruzar o rio Aqueronte, onde fica a entrada do reino de Hades?

Depois de muito matutar, a uma conclusão cheguei. Hoje posso finalmente me definir e os por quês tendem a amainar. Sou mesmo é um judeu devoto de Nossa Senhora, encantado com a Umbanda, na qual, com prazer, troco areia de terreiro, na virada do ano. Sem se esquecer de, no dia 2 de fevereiro, acender velas para Iemanjá. Ainda me remetendo a Maria, Maria e que Deus abençoe o jeito bem nosso de nos dirigir a Ele, para sempre uma saborosa e divina farofa de religiões. Sou tudo, sou nada. Saravá, Amém, Shalom.


Publicado no Jornal Correio em 24/02/2011










quarta-feira, fevereiro 15

domingo, fevereiro 12

Pássaros


Foto: Roseane Cence Lopes

Pior cego é aquele que se recusa a ver. Começo com esse clichê para tentar entender o comportamento humano frente a fatos, às vezes, tão óbvios, tão claros. Alguns teimam em olhar apenas para o próprio umbigo. Sentem-se tão Cuzco(umbigo do mundo) que chegam a enfeitar esta pequena cicatriz que, dizem, Adão e Eva e a moça da propaganda de sandália não tinham, com piercings e joias para se sentirem sempre com brilho e maiores do que o restante da humanidade.

Gente assim costuma não dar atenção aos pequenos e importantes fatos ao redor. Não dão a mínima.
Perdem oportunidades únicas de registrar beleza e perigo. Sobre perigo quero contar.

De alguns dias para cá ando a observar fato no mínimo intrigante. Encontro pelo bairro a fora passarinhos de várias espécies, cores, tamanhos e idades, mortos sem motivo aparente. Não se observa sinais de pedradas, nenhuma lesão externa, o que torna o fato ainda mais misterioso. Semana passada, um bem-te-vi desmanchou-se em penas bem no meu quintal. Seu amarelo-ouro vivo não combinava com a morte. Segurei-o na palma das mãos e sua cabeça inerte pendeu no vazio. O rigor mortis já havia passado e, assim, pelo tempo, não haveria possibilidade de necropsia, sílaba tônica na segunda vogal, e não na terceira, como insistem alguns pouco chegados a leituras e dicionários.

Para por fim à pendenga, um alento: segundo o professor Sérgio Nogueira, “a última edição do Vocabulário Ortográfico, publicada pela Academia Brasileira de Letras, registra duas formas: necropsia e necrópsia”.

Ao observar o belo pássaro morto, fui tomado por profunda angústia só de imaginar que alguém no bairro estaria usando veneno tipo “chumbinho” – cujo uso é restrito e de venda proibida ao público – por algum injustificável motivo e as aves, acidentalmente, ingerindo. E, mais, matar passarinho? Quem seria a besta absoluta a cometer tamanha barbaridade?

O belo Bem-te-vi foi apenas um dos muitos que encontrei pelo bairro. Rolinhas, pombas-do-bando, garrinchinhas e até sanhaços. Sabemos pela prática de trabalho que estamos em plena temporada de nascer de morcegos, muitos dos quais ou caem acidentalmente das costas da mãe ou despencam em queda livre ao tentarem seu primeiro voo. Recolhemos dezenas deles por mês em situações assim. Quando não nos acionam, os pequenos morrem abandonados. Aí não existe intervenção humana, é a seleção natural atuando em sua plenitude. Mas passarinhos caindo do céu e agonizando?

É claro, os pássaros também morrem, assim como as baleias e os elefantes. Morrem de susto, doenças e velhice. Alguns, como as araras e papagaios cativos, em sua maioria têm morte trágica. Quando criança, em pleno bairro Funcionários, vi uma arara vermelha em ataque de desespero, talvez por não poder mais tocar o céu, se atirar em voo suicida à frente do ônibus Serra Capivari 44. Asas atrofiadas pela prisão, não suportou mais a solidão. Vi também um papagaio morto pelo cão da casa. Anos de espreita até conseguir a façanha e calar aquele assobio imitando o dono que o enganava. Vingança canina? Não acredito. Vingança é coisa de gente (des)humana.

Torço para que estas mortes sejam obras do acaso, da natureza em curso. Caso contrário, o pouco que me resta de credibilidade nas gentes chegará a nível crítico. Uma Chernobyl interna prestes a desastre anunciado.





Publicado no Jornal Correio em 12/02/2012

quarta-feira, fevereiro 8

Passarinho II

Agora é só esperar passarinho encontrar e ver se funciona direitinho






Passarinho

Comedouro para passarinhos, cevando a beleza livre em seu quintal. Recebi a ideia de Clara Clarice, especial amiga. Em breve mostro se deu certo em casa. Colheres de pau e ração, criei um mix de alpiste painço e quirela de milho, chef de passarinho, eu já tenho.

Passarim
Tom Jobim

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Me diz o que eu faço da paixão?
Que me devora o coração..
Que me devora o coração..
Que me maltrata o coração..
Que me maltrata o coração..





quarta-feira, fevereiro 1

Cabides




Essa vida volta e meia nos apresenta cada mistério. É tanto fato estranho que até Deus duvida. E olha que não estou me referindo a fantasmas, gnomos ou fadas, não. Observo fatos do cotidiano. O sobrenatural nosso de cada dia, acontecidos que se repetem bem debaixo de nossos narizes. Um desses grandes arcanos domésticos diz respeito aos cabides. Isso mesmo, cabides, esses de pendurar roupas.

Certa feita sugeri em um conto que, volta e meia, os inanimados ganham vida própria. Tive uma máquina de lavar roupas que era assim, nós a chamávamos carinhosamente de Daiane dos Santos, pois tinha complexo de ginasta, e até o duplo carpado twist esticado, especialidade de nossa querida atleta, ela, a máquina, aprendeu a dar.

Depois dela, passei a observar os objetos de casa com outros olhos e tenho a convicção de que, como nos desenhos, em alguma hora do dia ou da noite, longe de olhos, eles ganham vida e aprontam das suas.

Minha mais recente experiência diz respeitos aos tais cabides. Estes, como todos sabem, mesmo possuindo as mais variadas formas e serem compostos por materiais diversos têm, é claro, o mesmo objetivo e função. Lá em casa, além dessa finalidade são largamente usados para abrir janelas de banheiro, uma vez que alguns não foram agraciados com estatura muito elevada. Temos cabides de várias, digamos, castas e cada uma se comporta à sua maneira. Temos aqueles mais frágeis que, à primeira vista, quando são comprados, detêm aparência de robustos. Ledo engano, à primeira calça jeans mais pesada literalmente abrem o bico e a pega do guarda-roupa deixa de existir, desmontam como pipas rasgadas por vento forte bagunçando e amarrotando tudo.

Temos aqueles cujo plástico imita vidro ou cristal, são mestres em quebrar a haste do meio e, aí, passam a servir para dependurar camisas.

Quando morávamos na roça, um mestre oficial em marcenaria italiano, Seu Pedro Talarico, caprichosamente fez, a nosso pedido, vários cabides de madeira. Pequenas obras de arte, pois eram entalhados em peça única de madeira, sem emendas. O único defeito, se é que assim se pode chamar, eram os ganchos que colocamos, com o peso perdiam a rosca e despencavam. Na realidade dever-se-ia utilizar tiras de trapos para amarrá-los ao cabideiro, a ideia dos ganchos foi nossa. Até hoje guardamos essas raras e belas peças.
Os cabides passaram a fazer parte daqueles que têm vida própria.

Já notaram que, sempre que alguém precisa de cabides, eles desaparecem? Na hora de passar ou lavar roupa, sempre que você precisa não os encontra em número suficiente? E não adianta comprar mais não. Ao chegar em casa com dois ou três pacotes de cabides novos, temos a sensação de que nunca mais vamos ter que nos preocupar. Mas qual, uma semana depois para desespero nosso, onde por Deus se meteram esses monstrinhos? Sempre faltam e muitas peças de roupa ficam aguardando vaga, tal e qual restaurante em São Paulo ou estacionamento em zona azul.

Esse é um mistério que guardo para quando aposentar. Descobrir o destino, o rumo que esses caras tomam. Infelizmente, em nosso querido Brasil, o único tipo de cabide que não acaba, nem some, aliás, como ratos se multiplicam, são os nefastos cabides de emprego. Estes, para tristeza da nação, por mais que queiramos, não damos conta de fazê-los desaparecer. Não é incrível?






Publicado no Jornal Correio
Domingo, 05 de Fevereiro de 2012


domingo, janeiro 29

Presente


Foto Next page, new day...

Chegou à minha porta, um mensageiro para a entrega de um pacote embrulhado para presente. Papel de um cinza brilhante com listras brancas em uma das beiradas. O sol alto o fazia brilhar intensamente como se fosse luz refletida em espelho.

Já perceberam a sensação de quando chega uma encomenda inesperada? Se for via Correios, acredito que não tem aquele que consegue assinar o comprovante de recebimento sem certa ansiedade e sem desgrudar os olhos do pacote, seja ele grande ou pequeno, envolto em papel ou plástico amarelo e azul. De quem será? O que contém? Para quem da casa? Quando o encarregado da entrega é um mensageiro então, a sensação é ainda mais forte por pressupor-se que seja de alguém conhecido, principalmente se não lhe pedem para nada assinar. Geralmente apenas um curto comentário:

— Pediram para entregar.

Agradecemos meio sem jeito já com as mãos na encomenda, afoitos para saber quem é o destinatário. Todo mundo que está em casa vem espreitar para saber o que e para quem é. Desta feita, para minha surpresa, o escolhido fui eu. Quase não chega encomenda em meu nome. Contas, promoções de supermercados, imãs de venda de água e gás, estes chegam aos montes a mim endereçados. Neste ano então, vai chover santinho de candidato, vou me sentir “tão importante”. Temporada política tem dessas coisas. Mas encomenda, presente mesmo, raramente.

— É para você! E me entregaram aquele reluzente regalo.

Abri com o cuidado místico quase ritualístico: o momento assim exige, saboreando cada segundo. Antes apalpei cada pedaço na tentativa de adivinhar o que poderia conter. A cada presente nos tornamos outra vez criança, até o cheiro do papel é deliciosamente diferente e prazeroso.

A expectativa toma conta de todos que estão ali à sua volta

— Abre logo pai! Quem mandou?

Os filhos são sempre apressados. De propósito só para me divertir, faço tudo mais devagar ainda.
Era um livro. Maravilha. Adoro ganhar livros. Este me foi enviado por um grande amigo, de longa data, desde a época de escola. Ele estudando Medicina e eu Veterinária.

Conhecemo-nos há mais de 30 anos e, com uma série histórica dessa é fato que se pode traçar o perfil de uma pessoa que, mesmo não a encontrando todos os dias, os laços de amizade e admiração permanecem infatigáveis.

O que nos aproximou inicialmente foram nossas esposas que, como alguns números, são primas entre si. Hoje, Luiz Mauro se tornou renomado médico em Uberlândia e também embrenhou pelos difíceis mistérios dos estudos da sexologia o que, atesto, provavelmente, seja uma das causas que o leva a ver seus pacientes de maneira mais holística. O estudo do comportamento das gentes em área tão delicada, rica e profunda, humaniza sobremaneira o conhecimento técnico.

“Ostra feliz não produz pérola” de Rubem Alves, este foi o livro com o qual fui brindado. Na dedicatória, uma referência à lembrança de minha pessoa a cada releitura que fizera.

Começo com curiosidade mais aguçada a saborear este livro me procuro em cada dizer. Às vezes lisonjeado, às vezes cabreiro, olha eu lá.

Leitura cativante e direta, autor que consegue ser, prazerosamente, repetitivo sem entediar.

Ao final, certamente, muito teremos a prosear, Lula, e assim entender por meio de quais fragmentos e lentes caleidoscópicas você vê e avalia a alma desse velho amigo.




Publicado Domingo, 29 de Janeiro de 2012 no
Correio de Uberlândia



quinta-feira, janeiro 26

Crise na Grécia


Conseqüências: ( Recebi de Íris )

Zeus vende o seu trono para uma multinacional coreana.

Narciso vende seus espelhos para pagar a sua dívida do cheque especial.

Aquiles vai tratar o seu calcanhar no SUS.
Eros e Pan inauguram um prostíbulo.
Hércules suspende os seus 12 trabalhos por falta de pagamento.

Medusa transforma pessoas em pedra e vende na Cracolândia.

O Minotauro está puxando carroça para ganhar a vida.

Acrópole é vendida e em seu lugar é inaugurada uma Igreja Universal do Reino de Zeus.

Afrodite teve que montar uma banquinha de produtos afrodisíacos para pagar as contas.

Eurozona rejeita Medusa como negociadora grega: "ela tem minhocas na cabeça".

Sócrates inaugura Cicuta's Bar para tentar ganhar uns trocados.

Dioniso vende seus vinhos na beira da estrada de Marathónas.

Lula recomenda demissão de Zeus e indica Zéus Dirceu para o cargo.

Hermes está entregando o currículo para trabalhar nos correios. Especialidade: entrega rápida.

Caronte anuncia que a partir da próxima semana passará a aceitar o bilhete único.

Afrodite aceitou posar para a Playboy.

Sem dinheiro pra pagar os salários, Zeus libera as ninfas pra trabalharem na Eurozona.

Ilha de Lesbos abre resort hétero.

Para economizar energia, Diógenes apaga sua lanterna.

Oráculo de Delfos vaza números do orçamento e provoca pânico nas Bolsas.

Vênus de Milo promete dar uma mãozinha a desempregados.

Áries, deus da guerra, foi pego em flagrante desviando armamento para a milícia carioca.

Sócrates, Aristóteles e Platão negam envolvimento na rebelião da USP: "Estamos na pindaíba, mas ainda não descemos a esse ponto"

A caverna de Platão está abrigando milhares de sem teto.

Descobri o porquê da crise: os economistas estão falando grego !!!

domingo, janeiro 22

Contemplação


Vocês devem ficar a imaginar porque tanto falar de pôr de sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhos. De uns tempos para cá resolvi ir a pé para o trabalho. Não que tenha levado em conta, pelo menos conscientemente, o aquecimento global, campanhas do tipo deixe seu carro em casa ou aquelas do transporte solidário. Mas, pensando bem, ponto indireto para mim.

Na realidade, dois motivos me levaram a tomar essa decisão. O primeiro e mais importante é que, em casa, estão todos de férias, menos eu. Não seria justo alguém acordar só para me trazer ao laboratório. O outro, é que acordo cedo demais, com o primeiro canto de sabiá ou grito de curicaca. Faço o café e, nos dias de coleta, coloco o lixo para fora.

Até hoje, não me acostumei com o péssimo costume de muitos aqui. Colocam o lixo nas lixeiras em dia que o caminhão não passa a recolher. Considero isso uma falta de civilidade absoluta. Resultado, cães conseguem rasgar sacos, catadores mal-educados vasculham de qualquer jeito e o que se vê é lixo espalhado pelas ruas, horror.

Mais uma vez, a velha ladainha: somos donos do lixo que produzimos e, assim sendo, ele deve obrigatoriamente ficar sob nossa guarda e responsabilidade em casa, para ser entregue à coleta nos dia em que ela passa. Mas essa é prosa para outra crônica.

Café tomado e lixo entregue, pego rumo do trabalho.
Outro detalhe, minha CNH venceu e para renová-la tenho que fazer o tal curso de primeiros socorros, legislação e não sei o que mais. Estou atrás das apostilas, vou estudar em casa e fazer a prova, apesar de não gostar nem um pouco de dirigir. Lá em casa, todos adoram seus carros, eu gosto mesmo é do banco do carona, assim posso apreciar pôr do sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhar.

Assim, impedido de dirigir, vindo a pé, me liberto de dependência de outrem e, ao mesmo tempo, meus horizontes ficam maiores.

A caminhada é curta, coisa de meia légua de distância aproximadamente, mas já é suficiente para começar o dia desperto e pronto.

O frescor do ar matinal aguça nossos sentidos para as boas coisas e as ruins também. No trajeto, não raro, deparo com trechos sem calçada que me obrigam ou a pular mato adentro ou a tomar o asfalto, onde, com cuidado, tenho que bailar para não ser atropelado por incauto motorista ou motoqueiro que parecem mirar a gente. Acordaram de mau humor, penso cá com meus botões. Muitas calçadas obstruídas por material de construção também são um desafio. Relevo é cedo e quero manter o astral alto. Motivos não me faltam. Pelo caminho encontro canários-da-terra aos casais em festa de trinados e as curicacas da madrugada em terrenos a ciscar desjejum. Uma placa de escola reflete brilho intenso do sol nascendo às minhas costas como se tivesse luz própria. Cheiro de pão fresco. Sorrisos passam por mim. Volta e meia um terrível odor de fumaça de cigarro. Um carro com som a toda altura. Um cidadão aperta a buzina apressado assim que um sinal abre. Tento ignorar e boto reparo em bando de maritacas que voam rumo leste.

Descobri mais esse prazer, ir a pé para o trabalho. Cobrem-me a história do velhinho com as rolinhas, encontro diário que durou anos.
Estes são alguns motivos pelos quais, como de costume, me levam a falar de pôr do sol, amanhecer, passarinho, céu e sonhos.
E haveria razões mais óbvias?








Publicado no Jornal Correio em 22 de janeiro de 2012


quarta-feira, janeiro 11

Deus me proteja de mim

Deus me proteja de mim
Chico César



Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim


Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer

domingo, janeiro 8

Profissão: Ladrão

Imagem abaixo: Parte da capa brasileira de DVD do filme Sindicato de Ladrões
(On the Waterfront, 1954)
com Marlon Brando, Karl Malden, Lee J. Cobb, Rod Steiger.





Já que a situação de segurança chegou a ponto extremo, talvez a única saída ou uma delas, seja regulamentar a profissão de ladrão. Assim, eles se organizariam, teriam código deontológico que regeria toda a classe e um código de conduta que respeitaria os cidadãos.

Para obter o registro permanente, os pretendentes a esta carreira deveriam passar por rigorosa avaliação psicológica, exame psicotécnico, prova teórica e prática, além de exame físico para saber se está apto ao “pernas para que te quero”. Tipos violentos, psicopatas, pedófilos, criminosos do colarinho branco, agentes públicos corruptos, não seriam aceitos de forma alguma e sua eliminação seria imediata.

A violência seria totalmente proibida e seu uso, motivo de perda de registro, mediante sindicância que apuraria os fatos.

Educação e compostura seriam primordiais. Cursos de inglês, francês e claro, espanhol, pontuariam na obtenção da carteira profissional para que se pudesse atuar credenciado entre cidadãos do Mercosul e obviamente de olho na Copa do Mundo e nos Jogos Olímpicos. Isso sem esquecer as altas temporadas do turismo internacional. Os cursos intensivos de línguas, para que os visitantes estrangeiros não levassem uma má impressão de nossos larápios, seriam do tipo EaD.

Aparência é tudo e andar bem vestidos, com roupas de grife, seria de suma importância.
Teriam FGTS, seguro-desemprego e, em caso de sinistro ou de recolhimento aos costumes durante o trabalho, teriam direito ao auxílio-funeral e a família do finado passaria a receber pensão vitalícia ou bolsa-ladrão.

O sindicato disponibilizaria um 0800 ou 0171 para reclamações.

Caso furtassem em local ermo e não obtivessem resultado, poderiam usar o SAC. A denúncia seria apurada, afinal, nenhum pobre gatuno pode ser exposto ao ridículo de trabalhar de graça.

Haveria preços regulamentados que teriam que ser afixados em locais públicos e divulgados em pelo menos dois jornais de circulação regional ou nacional, dependendo da categoria do larápio, estipulando os valores de resgates e extorsões

Subfaturar com intuito de ganhar mercado pode levar à advertência verbal e, em caso de reincidência, à perda definitiva de registro de meliante. Formação de cartel ou de quadrilha, mesmo fora de época de festas juninas, seria inadmissível.

Se for usar máscara, que não sejam aquelas de Jaison, Freddy Krueger, Justin Bieber ou de algum membro do Restart. Assustam demais crianças e adultos levando a traumas às vezes irreparáveis. O ideal é usar máscara do Mickey, dos Smurfs ou Teletubbies. São mais simpáticas.

Caso fossem flagrados pela polícia jamais deveriam resistir. Os policiais estão fazendo o serviço deles. Perdeu? Então se entregue sem resistência, pois, como é sabido, ninguém fica preso mesmo. Daí a pouco estará livre para seguir carreira, e ainda sai da cana pós-graduado.

Aposentadoria compulsória, além de umas belas férias de muitos anos em colônia penal a escolher, é direito adquirido. Basta requerer.

Caros amigos, só nos resta rir para não chorar. Enquanto a impunidade se mantiver à solta e nosso código penal não for refeito, funcionando de verdade, nossas polícias usando tacapes contra AK 47, só legalizando o ilegal. Só rindo, como todo bom brasileiro, de nossa desgraça, para não perder o juízo e assim engolir a revolta.




Publicado no Jornal Correio em 08/01/2012


sexta-feira, janeiro 6

Coca-Cola em Israel

Recebi de Henrique




Um desanimado vendedor de Coca-Cola volta de uma frustrada temporada em Israel.

Seu amigo lhe pergunta:

- Por que você não conseguiu ter sucesso com os israelenses?

O vendedor lhe disse:

- Quando eu fui designado para o Oriente Médio, eu estava confiante de que conseguiria vender muito bem nas áreas rurais. Mas havia um problema, eu não sei falar hebraico. Então, pensei em criar uma sequência de três cartazes para transmitir minha mensagem de vendas.

Primeiro cartaz:
- Um homem caído na areia do deserto... totalmente exausto, a ponto de desmaiar.

Segundo cartaz:
- O homem está bebendo Coca-Cola.

Terceiro cartaz:
- Nosso homem, agora completamente recuperado.

Então, mandei afixar estes cartazes em todos os lugares.

- Bem, me parece que isso deveria ter funcionado muito bem - disse-lhe o amigo.

O vendedor respondeu :

- Eu só não sabia que os judeus lêem da direita pra esquerda ...!!!

terça-feira, janeiro 3

Neblina

Uberlândia hoje bem cedinho cobriu-se de pálida/densa névoa. A pé para o trabalho enchi os pulmões com ar perfumado. Prenuncio de dia claro. Daqui a pouco céu limpo/sol forte, pelo menos nessa manhã esplêndida. As imensas miudezas à nossa volta fazem o dia, a vida, valer a pena.







segunda-feira, janeiro 2

Sofrimento não

Recebi de Helô lá Sampa

Dá-lhe Ferreira Goulart

"Não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Uma vez, discuti feio sobre determinada situação. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste pra cacete. Então, pra que querer ter sempre razão? Não quero ter razão, quero é ser feliz!"

Faça sua parte

De minha amiga Monik Bats via Facebook

Caso seja míope ou padece do sindrome do braço curto, presbiopia, clique na tira para melhor visualização