quinta-feira, março 22

Eternamente

Assim não dá, aí é sacanagem, e não vem com esse papo de olha quem está aqui te esperando. Pô, estamos falando de eternidade, cara.

E t e r n i d a d e, entendeu? Skilja? Verstehen? Capito? Fui clara, agora?

O combinado, o trato, se bem me lembro, foi só até que a morte nos separe, e pronto. Hellouoooo, até que a morte nos o que mesmo? Morte, SEPARE. Fim, The End, É Finito!

Pronto, morreu, separou, acabou! Nem vem que não tem, seus anjinhos do pau oco, isso sim é o que vocês são.

Eternamente que eu saiba só a Yolanda caraca, e aposto, duvi-de-o-dó que o Pablo Milanês e ou Chico nem a conheceram. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, né! Sei.

Quero falar com quem resolve, chama o líder, ou seja lá quem for. Tá bom, o chefe está ocupado? Ah, mas deve estar mesmo, aposto que nem Ele tem paciência de ficar inventando desculpas esfarrapadas para todos que chegam aqui de bobeira.

Dá para imaginar o trabalhão d’Ele. Então faz o seguinte, me arranja o número do SAC daqui para ligar, um Procon ou seja lá o que vocês tiverem nessa bagunça. Ou, se não for pedir muito, pelo menos alguém do sexo feminino, aposto que ela vai me entender. Se é que sobrou alguma, né! Com essa conversa mole de tirar o sexo de quem vem dar nessa porta e vira anjo…

Não, não falei que não foi bom. Não começa a fazer joguinho nem colocar palavras em minha boca.
E depois dizem que só chefão de vocês pregou no deserto. Parece que estou falando pras nuvens!

Foi ótimo, passou de bom. Valeu cada segundo. Mas é que nem produto de supermercado, cara, aqueles do setor de frios, aliás em tudo hoje em dia. Tem composição, modo de usar, tabela nutricional e prazo de validade. Ouviu bem esse último? Prazo de va-li-da-de! Soletrando, às vezes, vocês entendem. Que coisa mais chata!

Depois só pode fazer é mal, adoece, se é que me entendem. Não estou nervosa! Não estou nervosa coisa nenhuma! Detesto quando falam que estou nervosa! Aliás, quer saber, estou sim, agora fiquei P. da vida, nervosa pra caramba.

E xingo sim! Não me peçam para não xingar. Passei a vida toda me segurando, me contendo para não falar palavrões, pudica ao extremo. Politicamente correta uma vida toda e para que mesmo? Ser engambelada agora? Sai fora, quero o prometido. O combinado não é caro. Cumpra-se e fim. Olha só, vamos resolver isso logo, ou vocês acham que tenho todo o tempo do mundo? E não me faz essa cara de cínico, não! Pode tirar esse sorrisinho da cara.

Olha atrás de mim, olha o tamanho da fila de reclamação. O pessoal está começando a ficar nervoso e isso vai dar rolo, estou avisando, vai dar rolo. Depois vão colocar no B.O. que a culpa é minha.

Ah sei, estou começando a achar que esse papo de céu é pura embromação, propaganda enganosa, isso sim. Sacanagem da grossa.

Pode conferir outra vez esses registros, aposto que tem coisa errada. Alguém anotou coisa fora do lugar, mas também, numa desorganização dessa! Informatiza esse trem pelo amor do Sagrado, o Cara deixa os outros criarem, mas Ele mesmo não usa?

Valha-me Deus! Bom, valha-me se resolver esse caso, senão vou atrás de meus direitos!
Vocês são engraçados, a gente faz tudo direitinho, cumpre fielmente nossa parte do trato e agora vocês mesmos, os donos do contrato, os donos da verdade, da Palavra, querem roer a corda? Na-na-ni-na não! Agora é minha vez, mano velho, sem essa .

Tá certo, tá certo, uma vez ou outra chegamos até a dizer que queríamos ficar juntos para todo sempre. Mas foi meio assim, me deixa ver, metafórico, sabe como, coisa de momento, palavras soltas e pronto.
Ao pé da letra? Que papo é esse de que levaram nossas juras ao pé da letra? E você quer que eu engula essa? E o monte de outras coisas que dissemos, planejamos, pedimos? Cadê? Onde foram parar a casa na praia, as viagens para a Europa. O aumento de salário, a Ferrari zero? Aposentar e mudar para a Polinésia francesa e morar numa ilha vizinha do Marlon Brando ou da Zeta Jones, dependendo de quem puxava o assunto… Cadê, cadê? E o tanto de coisa menor que também não rolou, mas não vou nem perder tempo em listar, pois aí, sim, iria durar uma eternidade e meia.

E querem que eu acredite que só levaram a sério umas jurinhas de amor feitas no calor do ímpeto? Tenho cara de imbecil, por acaso?

Faça-me o favor outra vez! E um DESSE tamanho.

Teste drive? Que papo é esse de teste drive de eternidade para ver se acostumo? Em que parte do contrato que estava escrito essa besteira? Nem em letrinha miúda.

De jeito nenhum que quero essa sua “generosa” oferta. Generosa o caramba, conheço bem o tipo.
Isso tá me cheirando a esculhambação, falta de gerência, de mando. Depois ficam choramingando pelos cantos dizendo que estão perdendo a freguesia para os outros. Também, trabalhando desse jeito. Quando um ou outro consegue voltar só tem pra contar da desorganização!

E ainda vêm aqueles malas falando de vidas passadas. De vida de princesa e coisas e tal. Se vocês não estão dando conta de uma vida, já estão querendo avacalhar até com essa umazinha, imagina com outras. Só se estão dando outras para todo mundo que reclama, aí mano, vai faltar espaço lá embaixo ou sei lá onde.

Ninguém merece, quer saber? Parei de brincar, minha paciência estourou, me leva de volta agora mesmo antes que eu arrume o maior pampeiro aqui. Se é para ser assim prefiro lá embaixo onde já estava acostumada.

Compensação pelo engano? Ah tá! Agora vocês querem negociar? Não tem negociação coisa nenhuma, combinado é combinado. Se vocês não têm a mínima competência para cumprir a parte de vocês, eu estou fora. Me mande de volta agora. Eu e ele também. Sei lá se ele arruma um rabo de saia eterno por essas bandas! Ciúme? Você ficou besta? Eu estou achando que esse lance aqui é muito machista. Vai todo mundo às favas, ô palavra boa de falar depois de uma vida inteira me controlando! Queremos voltar e pronto.

Não senhor, não vou perguntar para ele se ele quer voltar, ele vai e pronto, era assim lá e por que iria mudar agora.

Olha, me faz um grande favor, tá. Chega de papo, me devolve nossos prontuários, ou seja lá o nome que vocês dão e manda a gente de volta ligeirinho. Volto aqui mais nunca e quer saber por quê? Vamos virar budistas, assim quando passar daquela que vocês vão nos devolver, para outra, voltamos grama, árvore, passarinho ou qualquer outra coisa. Pelo que sei, eles ainda cumprem seus tratos. Tem dó, tenha a santa paciência. Aqui para vocês, ó. Não me pegam mais nunca! Essa vocês podem escrever. E não precisa fazer essas caras de zonzos, de purinhos, não. Cara de santo não me comove hoje, não. Tô fora.






Publicado no Jornal Correio em 22/03/2012 - Parte 1

Publicado no Jornal Correio em 22/03/2012 - Parte 2

domingo, março 18

Domingo no parque

Parabéns à cunhada LÍLLIAN LÚCIA SANCHES MARTINS, pela organização da 1ª Caminhada Fraterna realizada no Parque do Sabiá

Abraço freterno

A .·. R .·. L .·. M .·. Cláudio da Neves




Foto: Bia Stutz

sexta-feira, março 16

Chuvas de Março



De nosso Laboratório encanto com suave chuva. Mansa, constante, se despedindo. Prenúncio de enchente de São José dia 19 ?
Acho que não, essa antecipou, caiu ontem à noite, arrastou galhos e alagou baixadas, mostrou sua força contra o lixo que nós humanos jogamos em qualquer lugar. Não tem bueiro que aguente

quinta-feira, março 15

terça-feira, março 13

Tempo

Parece que foi outro dia, mas é tão bom relembrar. Faria tudo exatamente com fiz, claro pulando alguns contratempos e tropeços e muitos erros que obviamente, não repetiria. Foi e ainda é muito bom.
A placa oficial, a grandona fica no CCZ esta pequena fica no Laboratório








sábado, março 10

Amanhecer sábado

Um lindo amanhecer hoje. Fica o registro. Acordar cedinho tem muitas vantagens.


Sábado eu vou à festa
Vou levar meu violão
Vou cantando uma canção
Que eu decorei
Sábado eu vou à festa
Numa nuvem de algodão
E entre estrelas vou abrir meu coração
E vou encher de vagalumes teu cabelo,
Respirar o ar do céu, vou
Eu quero o céu e vou com guizos nos sapatos
Minha roupa em farrapos coloridos vou rasgar
E vou dançar entre os cristais azuis do tempo e esquecer
A terra longe, longe, longe
A se perder













quinta-feira, março 8

Um amigo

"Um amigo é uma pessoa com quem se tem prazer em compartilhar idéias de forma tranqüila e mansa. Não é preciso estar de acordo. O rosto do meu amigo não é igual ao meu rosto. E essa diferença me dá alegria. Se convivemos bem com nossos rostos diferentes, porque haveríamos de querer que nossas idéias fossem iguais? Experimentar a diferença de idéias mansamente é uma das evidências da amizade. Assim, se você deseja saber se uma pessoa é sua amiga, pergunte-se: Temos prazer e gastamos tempo compartilhando idéias? Acho que os casais – namorados ou casados de papel passado – deveriam se propor esse teste. Não existe amor que sobreviva só de sentimentos, sem a conversa mansa."

Rubem Alves
A casa de Rubem Alves
Quarto de badulaques (XXXV)

Dia Internacional da Mulher

A todas as guerreiras, Amazonas da vida. Carregadoras de piano e latas d'água vida à fora. Esteio da humanidade. Divindades em forma de gente.
Um beijo especial neste 8 de Março

sexta-feira, março 2

Censo

Contagem de bichos: 156 T. serrulatus e 1 T. fasciolatus acabam de chegar do Prata. Cidade parceira em projetos, pesquisa e modelos de campo. Estaremos lá no final de março para avaliar nossos sítios de trabalho. Pesquisa aplicada que se transforma em métodos de trabalho em nossa Uberlândia


Foto acima
Com Sara durante contagem dos
recém chegados ao laboratório

quinta-feira, março 1

Dentista

Foto: Tecnologia a favor da Vida

Das dores conhecidas parece que a de dente é uma das piores; corre pareada com a dor de parto e pedra nos rins. Passei certa feita por crise de vesícula. Forte assim, com conhecimento de causa, incluo-a na lista das dores físicas bravas. Outras dores insuportáveis são as dores da alma, de consciência e de amor, mas estas deixo para outra oportunidade.

Aquele que nunca passou pelo sufoco de uma sala de espera de dentista levante a mão. Cheiros e sons que só ali existem. Tem coisa mais medieval do que alguns instrumentais odontológicos? O boticão parece coisa inventada na Inquisição. Passou pelos porões da Redentora, ocupando lugar de destaque nas mãos de torturadores.

Chega a pleno século 21 com todo seu vigor e, pior, aperfeiçoado anatomicamente para que os seus usuários tenham maior conforto.
Tanto avanço tecnológico e não conseguiram abolir outro instrumento de horror: aquela broquinha de alta rotação e o seu inconfundível barulho.

Na sala de espera, só de ouvir aquele zuimmmm, percebe-se inquietação geral. A velha e conhecida arte de folhear revista sem ver é o que mais rola. Às vezes, a tensão é tanta, que, não raro, o que passa é folha de revista voando para os lados, arrancadas, tamanho pânico. Agora, se o zumbido da canetinha sádica for acompanhado de um som gutural de dor vindo lá de dentro, vira um Deus nos acuda aqui fora. Muitos pacientes, verdadeiramente impacientes e de olho no relógio, se levantam de pulo e saem, às vezes, sem aviso. Uma vez lá dentro, você é recebido pelo dentista, geralmente acompanhado por uma técnica em saúde bucal, vestidos de impecável branco, máscaras e sorriso nos olhos.

Com o coração a mil, senta-se na hodierna cadeira inquisitorial para seção particular de tortura. Mãos a suar frio, a perna fica dormente, os olhos arregalados e começa se.

A mania de dentista conversar com você e ainda fazer perguntas? Você lá, com a boca travada, com aparelho que parece bridão, além da boca recheada de algodão.
Se doer, me avisa! Uma lagriminha escorre no canto do olho como resposta, mas ele continua futucando sem dó. A mão sobe e desce em velocidade inacreditável, nada de parar.

A maioria sai do consultório parecendo que saiu de uma sauna. A blusa ensopada de suor e um olhar de sofrimento tão grande que, normalmente, chegam em casa esgotados a ponto de apagar no sofá ou à mesa de jantar, com garfo na mão.
Adrenalina pura.

Alguns nascem com medo de barata ou de cobra. O medo de dentista também é de nascença, deve vir das tais vidas passadas. Em outros tempos, bruxos, feiticeiros ou, simplesmente, inimigos da Santa Sé, pessoas cujos bens a Igreja cobiçava, acabavam quase sempre nas mãos de um carrasco munido de quê? De um tataravô do atual boticão.

A maioria das crianças de hoje quase não tem cárie, quero assim acreditar.
São programas de prevenção que começam nas escolas: bocas roxas, flúor, tanto da água de consumo quanto bochechos periódicos, selantes e por aí afora. Governos, profissionais, escolas e famílias mais conscientes.

Apesar de tudo, tenho os profissionais da odontologia, imprescindíveis à saúde coletiva, em alta conta e respeito, mesmo causando tanto medo em alguns como eu. A eles peço apenas um favor: inventem novos barulhos e cheiros ou, pelo
menos, dividam comigo os honorários do terapeuta.

segunda-feira, fevereiro 27

sexta-feira, fevereiro 24

Fé cega


Estive recentemente com tristeza em velório de mãe de grande amigo em Uberaba. Fomos todos pegos de surpresa. A morte sempre traz sensação de impotência, de perda de domínio sobre tudo.

Como parte do ritual fúnebre, padre paramentado, coisa rara, disse palavras belas de conforto e paz.
Não sendo propriamente católico, não sabia acompanhar a preleção e entoar cânticos de resposta às orações ali apresentadas. Explico: sendo filho de judeu e católico, tive a felicidade de ter contato com ambas as religiões, ou seja, além de dupla nacionalidade, mãe mineira, pai do Brooklyn NY, fui exposto a processo de aculturação religiosa, um privilégio que, apesar de saudável, perigoso, pois bagunça a cabeça de qualquer jovem.

Frequentei quando bem criança a igreja católica. Saía de lá sempre com medo das chamas do inferno. Depois passei a frequentar a Associação Israelita e nunca me senti tão bem. Não que tenha me tornado judeu praticante a ponto de respeitar o Shabat, alimentar apenas de comida kosher ou comemorar o Rosh Hashaná, nosso ano-novo. Mas me dedico, permanentemente, a estudos do Tanakh e me atualizo permanentemente por meio da Morashá, além, é claro, de ter sido circuncidado.

Mas o que me deixou pensativo foi uma frase dita pelo padre, algo mais ou menos assim:
— Serás recebida às portas do Céu pelos anjos do Senhor.
Se o céu como pintado existe, não tenho a menor dúvida de que para lá ela foi. Mas o que ficou a martelar minha cabeça foi o porquê de se levar pessoa tão boa e deixar tanta gente ruim entre nós.

Imagino que a adolescência em relação ao Pai Eterno comece aos 50 anos. Tornamo-nos cheios de por quês, de dúvidas em relação a tudo que se diz divino. Em minha busca ouvi prelação de rabino cínico, sermão de padre homofóbico e comício de evangélicos irados. Na doutrina espírita e no zen budismo, uma tranquilidade excessivamente conformista e morna. Na umbanda, encontrei alegria e beleza, cores e música a cultuar divindades, em belo sincretismo religioso, como bem definiu Milton Nascimento, para a entrada mágica de maravilhosa madona e seu andor em preciso e brilhante esplendor azul. Passagem no lindo Maria, Maria encenado à exaustão pelo Grupo Corpo. Obra-prima da dança brasileira. Primeira peça do grupo que, felizmente, soube sempre criar trabalhos à altura da estreia nos palcos. Começar do ótimo nunca é fácil.

Que fique aqui bem claro que não estou emitindo nenhum juízo de valor sobre religião que seja. Tenho profundo respeito por todas que buscam o bem. Estou agindo como o adolescente descrito acima, em difícil fase dos por quês. Talvez buscando um rumo. O famoso do tal “de onde viemos, para onde vamos”. Para um paraíso místico de mel e deleite? Ou enfrentar Cérbero, o guardião das portas do inferno, após cruzar o rio Aqueronte, onde fica a entrada do reino de Hades?

Depois de muito matutar, a uma conclusão cheguei. Hoje posso finalmente me definir e os por quês tendem a amainar. Sou mesmo é um judeu devoto de Nossa Senhora, encantado com a Umbanda, na qual, com prazer, troco areia de terreiro, na virada do ano. Sem se esquecer de, no dia 2 de fevereiro, acender velas para Iemanjá. Ainda me remetendo a Maria, Maria e que Deus abençoe o jeito bem nosso de nos dirigir a Ele, para sempre uma saborosa e divina farofa de religiões. Sou tudo, sou nada. Saravá, Amém, Shalom.


Publicado no Jornal Correio em 24/02/2011










quarta-feira, fevereiro 15

domingo, fevereiro 12

Pássaros


Foto: Roseane Cence Lopes

Pior cego é aquele que se recusa a ver. Começo com esse clichê para tentar entender o comportamento humano frente a fatos, às vezes, tão óbvios, tão claros. Alguns teimam em olhar apenas para o próprio umbigo. Sentem-se tão Cuzco(umbigo do mundo) que chegam a enfeitar esta pequena cicatriz que, dizem, Adão e Eva e a moça da propaganda de sandália não tinham, com piercings e joias para se sentirem sempre com brilho e maiores do que o restante da humanidade.

Gente assim costuma não dar atenção aos pequenos e importantes fatos ao redor. Não dão a mínima.
Perdem oportunidades únicas de registrar beleza e perigo. Sobre perigo quero contar.

De alguns dias para cá ando a observar fato no mínimo intrigante. Encontro pelo bairro a fora passarinhos de várias espécies, cores, tamanhos e idades, mortos sem motivo aparente. Não se observa sinais de pedradas, nenhuma lesão externa, o que torna o fato ainda mais misterioso. Semana passada, um bem-te-vi desmanchou-se em penas bem no meu quintal. Seu amarelo-ouro vivo não combinava com a morte. Segurei-o na palma das mãos e sua cabeça inerte pendeu no vazio. O rigor mortis já havia passado e, assim, pelo tempo, não haveria possibilidade de necropsia, sílaba tônica na segunda vogal, e não na terceira, como insistem alguns pouco chegados a leituras e dicionários.

Para por fim à pendenga, um alento: segundo o professor Sérgio Nogueira, “a última edição do Vocabulário Ortográfico, publicada pela Academia Brasileira de Letras, registra duas formas: necropsia e necrópsia”.

Ao observar o belo pássaro morto, fui tomado por profunda angústia só de imaginar que alguém no bairro estaria usando veneno tipo “chumbinho” – cujo uso é restrito e de venda proibida ao público – por algum injustificável motivo e as aves, acidentalmente, ingerindo. E, mais, matar passarinho? Quem seria a besta absoluta a cometer tamanha barbaridade?

O belo Bem-te-vi foi apenas um dos muitos que encontrei pelo bairro. Rolinhas, pombas-do-bando, garrinchinhas e até sanhaços. Sabemos pela prática de trabalho que estamos em plena temporada de nascer de morcegos, muitos dos quais ou caem acidentalmente das costas da mãe ou despencam em queda livre ao tentarem seu primeiro voo. Recolhemos dezenas deles por mês em situações assim. Quando não nos acionam, os pequenos morrem abandonados. Aí não existe intervenção humana, é a seleção natural atuando em sua plenitude. Mas passarinhos caindo do céu e agonizando?

É claro, os pássaros também morrem, assim como as baleias e os elefantes. Morrem de susto, doenças e velhice. Alguns, como as araras e papagaios cativos, em sua maioria têm morte trágica. Quando criança, em pleno bairro Funcionários, vi uma arara vermelha em ataque de desespero, talvez por não poder mais tocar o céu, se atirar em voo suicida à frente do ônibus Serra Capivari 44. Asas atrofiadas pela prisão, não suportou mais a solidão. Vi também um papagaio morto pelo cão da casa. Anos de espreita até conseguir a façanha e calar aquele assobio imitando o dono que o enganava. Vingança canina? Não acredito. Vingança é coisa de gente (des)humana.

Torço para que estas mortes sejam obras do acaso, da natureza em curso. Caso contrário, o pouco que me resta de credibilidade nas gentes chegará a nível crítico. Uma Chernobyl interna prestes a desastre anunciado.





Publicado no Jornal Correio em 12/02/2012

quarta-feira, fevereiro 8

Passarinho II

Agora é só esperar passarinho encontrar e ver se funciona direitinho






Passarinho

Comedouro para passarinhos, cevando a beleza livre em seu quintal. Recebi a ideia de Clara Clarice, especial amiga. Em breve mostro se deu certo em casa. Colheres de pau e ração, criei um mix de alpiste painço e quirela de milho, chef de passarinho, eu já tenho.

Passarim
Tom Jobim

Passarim quis pousar, não deu, voou
Porque o tiro partiu mas não pegou
Passarinho, me conta, então me diz:
Por que que eu também não fui feliz?
Me diz o que eu faço da paixão?
Que me devora o coração..
Que me devora o coração..
Que me maltrata o coração..
Que me maltrata o coração..





quarta-feira, fevereiro 1

Cabides




Essa vida volta e meia nos apresenta cada mistério. É tanto fato estranho que até Deus duvida. E olha que não estou me referindo a fantasmas, gnomos ou fadas, não. Observo fatos do cotidiano. O sobrenatural nosso de cada dia, acontecidos que se repetem bem debaixo de nossos narizes. Um desses grandes arcanos domésticos diz respeito aos cabides. Isso mesmo, cabides, esses de pendurar roupas.

Certa feita sugeri em um conto que, volta e meia, os inanimados ganham vida própria. Tive uma máquina de lavar roupas que era assim, nós a chamávamos carinhosamente de Daiane dos Santos, pois tinha complexo de ginasta, e até o duplo carpado twist esticado, especialidade de nossa querida atleta, ela, a máquina, aprendeu a dar.

Depois dela, passei a observar os objetos de casa com outros olhos e tenho a convicção de que, como nos desenhos, em alguma hora do dia ou da noite, longe de olhos, eles ganham vida e aprontam das suas.

Minha mais recente experiência diz respeitos aos tais cabides. Estes, como todos sabem, mesmo possuindo as mais variadas formas e serem compostos por materiais diversos têm, é claro, o mesmo objetivo e função. Lá em casa, além dessa finalidade são largamente usados para abrir janelas de banheiro, uma vez que alguns não foram agraciados com estatura muito elevada. Temos cabides de várias, digamos, castas e cada uma se comporta à sua maneira. Temos aqueles mais frágeis que, à primeira vista, quando são comprados, detêm aparência de robustos. Ledo engano, à primeira calça jeans mais pesada literalmente abrem o bico e a pega do guarda-roupa deixa de existir, desmontam como pipas rasgadas por vento forte bagunçando e amarrotando tudo.

Temos aqueles cujo plástico imita vidro ou cristal, são mestres em quebrar a haste do meio e, aí, passam a servir para dependurar camisas.

Quando morávamos na roça, um mestre oficial em marcenaria italiano, Seu Pedro Talarico, caprichosamente fez, a nosso pedido, vários cabides de madeira. Pequenas obras de arte, pois eram entalhados em peça única de madeira, sem emendas. O único defeito, se é que assim se pode chamar, eram os ganchos que colocamos, com o peso perdiam a rosca e despencavam. Na realidade dever-se-ia utilizar tiras de trapos para amarrá-los ao cabideiro, a ideia dos ganchos foi nossa. Até hoje guardamos essas raras e belas peças.
Os cabides passaram a fazer parte daqueles que têm vida própria.

Já notaram que, sempre que alguém precisa de cabides, eles desaparecem? Na hora de passar ou lavar roupa, sempre que você precisa não os encontra em número suficiente? E não adianta comprar mais não. Ao chegar em casa com dois ou três pacotes de cabides novos, temos a sensação de que nunca mais vamos ter que nos preocupar. Mas qual, uma semana depois para desespero nosso, onde por Deus se meteram esses monstrinhos? Sempre faltam e muitas peças de roupa ficam aguardando vaga, tal e qual restaurante em São Paulo ou estacionamento em zona azul.

Esse é um mistério que guardo para quando aposentar. Descobrir o destino, o rumo que esses caras tomam. Infelizmente, em nosso querido Brasil, o único tipo de cabide que não acaba, nem some, aliás, como ratos se multiplicam, são os nefastos cabides de emprego. Estes, para tristeza da nação, por mais que queiramos, não damos conta de fazê-los desaparecer. Não é incrível?






Publicado no Jornal Correio
Domingo, 05 de Fevereiro de 2012