terça-feira, fevereiro 20

Pescador de estrelas

Imagem NASA/ESA

Já falei para vocês da nossa mesa 15.
Da confraria ali formada há alguns anos. Dela participam as mais variadas pessoas. Citando alguns nessa salada multi profissional e cultural: temos advogados, comerciantes, juízes, promotores, professoras, contadores, DJ. Poetas, escritores, veterinária, produtora cultural, Dentistas, médicos e até, vejam este que vos fala, um misto de escritor, poeta e também veterinário de estranhos bichos
Passamos por poucas e boas. Viajamos juntos para ver a história de perto, em lugares "nunca dantes navegados" para muitos de nós. Brigamos, forte expressão, briga não, discutimos muito.

Temos gente de direita, esquerda, centro e muro. Defendemos nossos pontos de vista com fervor pátrio pouco visto.
Se dependesse da mesa quinze eleições acabariam sempre empatadas. Resolvidas talvez no par ou ímpar mas se preferir, no cara ou coroa.

Sim, temos cada pega pra capar, que nem te conto. Nem por isso nos tornamos inimigos. Depois do pau muita risada e é como se nada tivesse acontecido. Política, política, amizades a parte.
Respeito absoluto pelo livre pensar e manifestar.
E no futebol? Temos aqui atleticanos até debaixo d'água, corintiano, palmeirense, vascaíno, flamenguista. botafoguense e até cruzeirense. Mesma história, gozação não pára, amizade sólida.
Uns gritam suas ideias outros sussurram pacientes. O tom de voz não impõe vontades, sempre em tranquila paz terminam as prosas ou trovas

Gosto musical? Deus nos acuda, temos roqueiros, jazzistas, bluezeiros, MPB pura, do qual faço parte, afinal meu aprendizado vem da época em que se fazia boa música. Tem sambista, confesso sou ruim da cabeça, tem pagodeiro e até quem goste de sertanejo, mas nossas afeições não desafinam, seguem harmônicas.

Agora estamos passando pela primeira vez pela perda de um dos nossos. O querido Alcides alçou vôo. Partiu sem avisar.
Particularmente não o conheci muito, quando cheguei à mesa 15 ele ainda se fazia sempre presente, mas depois de breve tempo teve que se afastar. Continuamos a trocar prosa em nosso grupo virtual. E conheço de cor e salteado suas histórias e façanhas em barrancas de rios Brasil afora contatadas pelos amigos mais próximos e companheiros de pescada. Sim, era um apaixonado por uma boa pescaria.
Alcides companheiro, foi pescar lá no céu. Posso sentir sua paz e alegria ao ferroar um imenso e belo cometa da cauda imensa e brilhando, vejo o baita saltar como Dourado na imensidão do cosmos, rabear em tentativa vã de escapar de suas experientes mãos no trato com o molinete/carretilha . Estrelas menores de afastando, abrindo espaço, em susto com a celestial batalha. Fim de linha, Sorriso aberto nos lábios recolhe a cansada e valente presa. Mansa encosta, não é embarcada, com ligeiro afago a liberta, assim, sai lentamente a vagar no infinito procurando retomar seu eterno trajeto. Alcides, se tornou um feliz e iluminado Pescador de Estrelas e Sonhos. 

Vai fazer falta aqui, mas suas histórias cristalizadas, serão contadas sempre. Vá em paz meu amigo, vá em paz. Algum dia estaremos todos nessa beira de eternidade a navegar na mesma canoa, onde prevalecerão sempre rios piscosos e imensos em beleza e lonjura , risos e amizade. Ai posso sim, lhe pedir ensino no manejo de tanta tralha e, como em felicidade pescar tantas estrelas e tão belos sonhos. Até!

William H. Stutz
Veterinário e escritor


Jornal Voz Ativa - Ouro Preto

Jornal Uberlândia Hoje 

quinta-feira, fevereiro 15

Caça-palavras

Começou outra vez e não é de hoje. O contar novamente me some. Ideias e vontades brincam de começar e sumir esconde-esconde de impacientar. Exatamente como palavras cruzadas de revista/jornal de nível considerável. Não. Parece mais caça-palavras daquelas de circular com caneta e a maioria está de fasto ou de lado em curva. Aí fico em mato sem cachorro, acho não. Procuro as histórias e elas fogem ligeiro, não me dando tempo de rabiscar papel. Conheço bem meu sistema. A história nasce miúda, vinda de um sussurro perdido, de um ver de canto de olho, de um observar quieto. Andando meio a tais, atento sem por atenção, pois não carece, vem sozinho.

Conto o fato que de uns dias pra cá parece orquestra em afinação antes de concerto, cada um ouvindo seu próprio instrumento atento às notas. Violinos, trompete, metais em desarmonia até batuta de maestro bater desconfusão. Os sussurros se transformam em algazarra de maritacas estridentes em pé de goiaba carregado, o observar confuso de quem anda desatento, o ouvir pouco, meio que fechado. Sinto cheiro de pólvora no ar. Os assuntos andam televisivos. Todos repetindo como papagaios, que me desculpem os lindos emplumados repetidores de sons, como se lessem cartilha de alguém.

Vai tentar manifestar em público opinião bem sua, criada do seu pondero, influência alheia nenhuma, fruto seu por atenção, sem interesse de partido tomar. Um Deus nos acuda de contra-pontos e censuras, a diversidade, a pluralidade, o simples pensar. O respeito é da boca pra fora. Outro dia um amigo colocou um videozinho na rede com dizeres tipo assim: "O que acontece quando você expõe sua opinião na internet". O vídeo mostra a antológica cena de Piratas do Caribe, onde Johnny Depp na pele do capitão Jack Sparrow aparece correndo em uma praia, perseguido por centenas de nativos dispostos a jantá-lo. Hilária a participação de um solitário cachorro que se limita a latir para Sparrow e depois para a caterva enfurecida.

Aí, meu amigo, como planta sem rega vamos murchando. As palavras que deveriam compor casos vamos engolindo. Cortadas quase sempre ao meio por algum suspiro salvador. Resultado? Hoje as palavras se escondem por todo canto a me olhar, em um desafiador "vem me pegar".

Teimosia não me falta e sei que é passageiro. Acho que acontece com todo atrevido que resolve bater chapéu em caixa de letras, em cutucar pensamentos e ideias com vara curta. Hora elas revoltam e lhe dão um sumiço.

Mas a faxina já começou, saibam. Vassoura e basculho a percorrer quinas e as mais altas e escuras quinas. Depois aspirador emprestado, recolho as fujonas e em comum acordo voltamos as pazes, ao um bem querer cálido e harmônico.

Vivo de contar o vivido/sentido/passado. Sem isso flutuo em vácuo desconecto. Sinto falta de compartilhar estrelas, infinito olhar de paisagens, de trocar olhar sisudo por sorriso largo de quem perde tempo com meus rabiscos e de tentar tirar a cabeçada e o freio das convenções. E olha que tenho viajado muito, chão rodado mesmo, não só aqui dentro. Com meu livre pensar, acender velas e soltar vaga-lumes, cobrir novamente cabelos longos maravilhosamente revoltos e longos de margaridas.

Perfumes meu amigo, perfumes em letras exalar. Estou voltando, ressaqueado de super dosagens de crueldade humana, mas estou logo ali com minha tralha cheia de letras e histórias. Voltando com toda força e verdades escondidas a serem escancaradas. A porteira entreaberta me dá um sinal

Em paz, tranquilo, mas com toda disposição no falar.







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sexta-feira, fevereiro 2

Bárbaros


Praia lotada, sol a pino. Pouco se vê da faixa de areia. Um tapete multicolorido de guarda-sóis como uma plantação de cogumelos gigantes se esparrama em semicírculo sufocando a orla. O barulho infernal de rádios e toca fitas abafa o murmúrio delicado do vento e o infindável quebrar das ondas, que, aparentemente assustadas com a multidão se apressam em maré baixa, quanto maior a distância melhor. Não resolve. A cada palmo de areia produzido pelo recuo inevitável das águas, nova semeadura de cogumelos de pano e gente, muita gente.

O ensurdecedor som eletrônico, numa mistura intolerável de estilos e gostos, mau gosto, é alucinante, de sertanejo a reggae, brega chic e sambinhas, funk quebra-barraco e falcões latinos. Tudo misturado e alto.

As aves por falta de árvores se apinham, lado a lado em pânico silencioso em parapeitos de prédios. Mães à milanesa aos berros com crianças com baldinhos e bóias. Pais sonolentos de calção e camisa pólo. Cerveja e churrasquinho murmuram palavrões irritados.

No mar jet skis manobram perigosamente entre humanos de narizes brancos de pomada. Os corais submersos escondem peixes de olhos arregalados e paralisados de medo.

Volta e meia dentre os panos redondos despontam estandartes bizarros alguns com camarões mumificados espetados cheirando a fumaça e cebola sempre seguidos por bando de moscas a lutar contra as poucos e raras rajadas de vento que milagrosamente conseguem romper a barreira humana e seus acampamentos de lazer. Outros desfilam por sobre a falsa sombra melosos chumaços de melados algodões doce.

O perfume da maresia é substituído por impensável fusão de colônias, cremes protetores, bronzeadores, suor e álcool.

Algazarra de um dia inteiro. Invasão destruidora, nociva. O vermelho da tarde anuncia uma debandada geral, como decompositores saciados a horda se retira rumorosa. Bêbada, cansada, ardendo em rubra pele.

Aos poucos novamente se ouve a brisa e as ondas, um guruça de olhos em pé lentamente se aventura para fora de sua toca, hoje particularmente fez jus a seu apelido, caranguejo fantasma, passou um dia inteiro invisível. Ensaia tímidos passos em direção à água, estica o pescoço que não possui, observa. Montanhas de destroços espalhados ao longo de toda a praia, restos de um saque ou de um banquete dantesco. Silêncio e breu. Com repugnância o pequeno estica as patas para o mar/óleo ainda gelatinoso. Sinais dos tempos, sinais dos ventos. Mergulha prendendo a respiração.








Publicado Jornal Voz Ativa - Outro Preto

sexta-feira, janeiro 19

Quem quer ser um milionário?





O título aí no alto e aao lado faz menção ao deslumbrante filme “Slumdog Millionaire”, do diretor Danny Boyle, laureado com dez indicações para o Oscar de 2009. Faturou oito. Em português o título ficou igual aos medíocres programas televisivos que prometem, mas ninguém leva a bolada prometida. Não posso reclamar, pois assim consegui o que considero mais difícil para meus pobres e humildes escritos: Título.

Deixemos, pois, em paz, a cinéfila, esporte que pratico solitário e sem aventurar em críticas e análises. Deixo missão para os especialistas.

Não sei se vem acontecendo com você, mas de um tempo para cá minha caixa de e-mail vem sendo bombardeada por mensagens, com promessas mirabolantes de como se tornar um milionário e sem participar das “gags” televisivas. Isso mesmo, e-mail, pasme, ainda uso este velho recurso. Não me deixei seduzir pelas mensagens instantâneas de Whatsapp, mensseger, Instagran e afins. Claro que uso todos, mas e-mail não saiu de moda. Tenho saudades até do idoso ICQ!

Recebo mensagens oferecendo fundos de renda fixa, mesmo com a inflação em baixa (será?), a taxa SELIC miúda, o INPC negativo, o PIB crescente (hummm) e PNB sendo maior do que esse último. Se entendo de economia? Absolutamente nada, mas de tanto receber tais propostas milagrosas pus atenção e pesquisa. Bitcoins, CDBs, IGP-M, CDIs e muitas outras siglas e expressões invadem meu cotidiano, meu vocabulário macro econômico está em alta. Então vende! Grita um. Compre na baixa, venda na alta.

Eu hein, Rosa!

Outro dia um email me conta que posso fazer meu primeiro milhão aplicando cem contos por mês  em “apenas” 30 anos. Cara, eu não tenho trinta anos para esperar como a história, na gamela sobram poucos pequis para roer, e, mesmo que tivesse, o que iria fazer com essa fortuna naquela altura de minha vida?

Gostei da Bitcoins. Não pelo investimento em si, pois não sei cuidar nem de finanças domésticas. Mas o nome impõe e me alegra saber que ela é sem ser. Não existe de verdade, não tem como juntar no porquinho de barro ou debaixo do colchão. A sonoridade do nome encanta por si só, fale baixinho e devagar BIT (respira) COIN. Pronto já me sinto milionário. Essa não tem banco te sugando, não tem gerente te vendendo sonhos, não tem nada. Ela não existe, mas é. Literalmente um “Bit”. Dizem que quem comprou um desses impulsos binários há três anos ficou muito rico. Muito legal.

Porém, o que eu queria entender é simples. Se esses caras que te enviam mensagens e, como disse, são muitas vendendo sonhos de riqueza fácil, têm a infalível fórmula mágica de alcançar o pote de ouro, deveriam então ser todos magnatas. Concorda? Então pra que ficar espalhando a notícia? Altruísmo, filantropia? No mundo mesquinho das finanças onde até coelho engole lobo? Aqui “procês” ó!

O mineirinho de cá, escaldado está até com coisinha pequena. Já perdeu amigo por emprestar merreca. O cara sumiu. Mal sabia ele que nem cobrar eu iria. Envolveu dinheiro fica o ditado: “Confia no amigo, mas amarra o camelo”. Sábia placa do saudoso Barari, lá na beira do mar capixaba onde guardo minhas mais belas e também as mais tristes lembranças.

Se você meu amigo estiver recebendo mensagens de fortuna fácil fique esperto. Amarre-se no mastro, pois o canto da sereia é suave e encantador, mas a realidade é outra bem diferente. Ulisses rei da ilha de Ítaca, em sua Odisséia que o diga.

Tem a história do moço que morreu e foi para o céu. Chegou lá uma onça de bravo. Quis audiência de pé de ouvido com Deus. Depois de muito esperar foi atendido. Afinal, Ele é super ocupado, mas já que o moço não queria despachar com santo nem anjo…

Já entrou esbravejando: – Pô Seo Deus, eu fiz tudo direitinho lá embaixo, segui à risca seus mandos, nunca pequei. Bom, desejei a mulher de um próximo hora ou outra, mas sempre confessei arrependimento. A única coisa que pedia era para ganhar na mega-sena, e olha que coisa, o Senhor nunca, nunquinha me atendeu. O peito arfava e tremia, com os olhos parecendo de maritaca de tão vermelhos.

Ele, sereno, coçou a longa barba branca e com candura respondeu. – Meu filho, sabe que recebi seus pedidos sim e até queria que você ganhasse, mas você nunca jogou! Aí não teve jeito!

Quer saber, vou ali fazer uma fezinha na mega-sena, pois vai que uma hora dá certo. Tá escutando Altíssimo?






Publicado em  Janeiro de 2018

 Diário do Comércio Olha no Diário  - Uberlândia

Jornal Voz Ativa - Ouro Preto

Uberlândia Hoje

quinta-feira, janeiro 11

Bem-vindos

Então passou. Passou Natal, Virada do ano/ Reveillon. Pipocaram milhares de foguetes, em uma comemoração bárbara a matar milhares de pássaros do coração. Cães e gatos em pânico horror não sabiam para onde correr. Aqueles que têm sorte de ter dono presente ainda encontraram colo, proteção e aconchego. Os pobres que ficaram trancados em casa enquanto seus donos vestidos de branco, amarelo, ou calcinha vermelha, cada um com seu sonho, saiam em saltitante alegria brindar paz e prosperidade, devem ter se enfiado em algum canto a tremer de pânico. Cada um vivendo sua Alepo particular, corpo e mente em frangalhos. Em tormento, para onde irão seus pensamentos em tais horas?

Mas é ano novo, tudo pode. Não meus queridos, não quero que me tomem por um protetor fanático dos animais e inimigos dos homens. Apesar de manter minha máxima de gostar mais de bicho do que de gente, aprendi a conviver com ambos. Passou forte por minha mente o sofrimento dos enfermos em seus leitos de hospital, dos berçários repletos de recém-nascidos e dos acamados terminais em casa. O bebê que nunca dorme em cólica ou febre. O idoso, um homem, uma mulher, em solidão, olhos a lacrimejar, sobressalto a cada rojão, memória a vagar longe caçando lembranças que teimam em não ficar e companhia fazer. Consegue pintar o quadro?

Ah, esquece, é ano novo que avança madrugada adentro, eu quero mais é festar. Suar minhas frustrações/decepções. Quero mais é deitar fora a tristeza e pequenez de um ano sem muito o que comemorar, pois sim, o seu final merece regozijo e justificam o espocar de medo. Os animais? Ora são apenas os animais, descartáveis como as árvores que mutilamos, como os rios que poluímos, como as vozes que calamos, como ar que impregnamos com nossa grosseria e falta de respeito.

Não, não vivemos uma Paris em guerra. Nos faltam puras crianças como Paulette e Michel a roubar cruzes para o seu pequeno cemitério de animais. Não temos “Brinquedos proibidos”. “Não existe pecado do lado de baixo do equador”. Tudo é festa, apenas festa.

Acabou, passou, pronto. Restam as contagens de não sobreviventes e retrospectivas repetitivas chatas que mais parecem reprises. Mas qual, ” tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Perai, acabou nada, tem carnaval logo ali, tem copa do mundo e mais foguetes e piseiro. Aí, quando menos se espera, pipocam as eleições, a “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”. Assim esperamos.

Apesar dos pesares, das tristezas a cada foguete, dos terremotos humanos, Voltaire me fez Cândido, sigo Panglós, o otiminista.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. […] Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”

Bem-vindos a dois mil e dezoito.






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Jornal Uberlândia Hoje
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Jornal Voz Ativa  - Ouro Preto

Bem-vindos - Diário do Comércio





quinta-feira, janeiro 4

Cantada


Adoro rádio. Nada melhor para dormir do que um rádio à válvula, daqueles que custam a esquentar e ficam zumbido em estática o tempo todo. Ganhei um assim do grande amigo Júlio Penna. Este, sim, entende de rádio, tem dezenas. Fuça, busca peça, conserta, ajeita e os deixa prontos para quem gosta de viajar nas ondas longas, médias, curtas e frequência modulada. O presente apresentou um pequeno problema ao regular volume e ele o levou para arrumar.

Alguns preferem som remasterizado, livre de ruídos e outros atrapalhos. Particularmente, os tais atrapalhos é que me fascinam.

Ouvir uma Nina Simone em um ensaio em plena Nova York e, ao fundo, ouve-se o telefone tocar, carros buzinam lá fora. Quem ligou em pleno ensaio? Algum diretor de teatro da Broadway? Um restaurante na 150 West 57th Street? O Russian Tea Room, por exemplo, confirmando reservas? Ou simples nightclub onde ela poderia soltar a voz e beber em paz? E as buzinas, qual a marca dos carro? Um tradicional Ford preto? Um Oldsmobile imponente? E a causa de tanta aflição? Mulher em trabalho de parto, alguém ferido a bala por algum gangster? Ou simples impaciência com um trânsito já caótico da Grande Maçã nos distantes anos 30 do século passado?

Tudo isso e muito mais se pode criar com a cabeça no travesseiro, ouvindo rádios e suas estáticas. São viagens infinitas a cada mexida no seletor de estação.

Antes de ganhar joia rara de Júlio, comprei um rádio moderninho. Não queria aqueles que tocam CD, queria um rádio e pronto. Na pressa, levei para casa o bicho.

Para meu espanto, o danado só toca rádio FM, nem AM tem. Uma tristeza. Tive que me conter com o danado.
Achar estação do agrado à noite é que era complicado. Ou era rádio de igreja exaltando pecados e castigos aos quatro ventos ou era música sertaneja universitária – vai ser chato pra lá. Bom, vai ver que o chato eu sou. Nada de noticiários, nada de preamar, aviso aos navegantes, nada dito em voz suave de locutor tipo Eldorado de São Paulo – “Artes e entretenimento” seu lema. Saudades do “Varig é dona da noite” ou de “Um instrumento dentro da noite”, aqui não pega.

Resignado, me deixei levar, colocando atenção às letras das músicas e se conseguiria me soltar em pensamentos. Dou exemplo de duas estações, sem citar nomes para não magoar ninguém, que tocavam músicas com letras que poderiam parecer cantadas a uma linda mulher.
Uma de muito bom gosto tocava um gentil Caetano: “Fonte de mel/ Nos olhos de gueixa/ Kabuki, máscara/ Choque entre o azul/ E o cacho de acácias/ Luz das acácias/ Você é mãe do sol (…) Você é linda/ Mais que demais/ Você é linda sim/ Onda do mar do amor/ Que bateu em mim” e seguia.

Outra estação tocava algo assim: “É bonita/ Você sabe que é bonita/ Mas eu sei que é bandida (…) Você com essa cara de santa/ Mas a falsidade é tanta/ Só eu mesmo sei dizer (…)”

Não sabia se ria ou chorava. Me conte você, moça, mas com sinceridade, qual das duas cantadas você gostaria de receber?

Júlio, querido amigo, que falta está fazendo o velho e bom Vintage Crosley anos 50, culpa minha, eu enrolando para buscar. Ando preguiçoso.






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Olha no Diário
Uberlândia hoje
Jornal Voz Ativa (Ouro Preto)

domingo, dezembro 24

Carta a Papai Noel









Foto arquivo pessoal

Querido Papai Noel, eu sei e imagino seu espanto. Tem muito tempo que não penso no senhor. Afinal deixei de acreditar em sua existência. Também, sua imagem estava associada apenas ao comércio e consumo. Judiaram. Como acreditar em conversa de garoto propaganda vendendo de pernil a carro de luxo?
Tormento de vitrines cheias de “neve” e musiquinhas chatas pra caramba, tocando sem parar. Isto, em um país como o nosso. E ainda pensar que o Natal “era festa pagã, Natalis Solis Invicti ou “nascimento do sol invencível”, em homenagem ao deus persa Mitra e as comemorações aconteciam durante o solstício de inverno, o dia mais curto e frio do ano”. Aqui cai em pleno verão escaldante tipo Rio 40º.
O cientista da religião, Carlos Caldas, nos conta que “Na Bíblia, o evangelista Lucas afirma que Jesus nasceu na época de um grande recenseamento, que obrigava as pessoas a saírem do campo e irem às cidades se alistar. Só que, em dezembro, os invernos na região de Israel são rigorosos, impedindo um grande deslocamento de pessoas.
Também por causa do frio, não dá para imaginar um menino nascendo numa estrebaria. Mesmo lá dentro, o frio seria insuportável em dezembro”

Assim a coisa se transforma em conversa pra boi dormir.

Mas, deixa isso pra lá, meu negócio é com o senhor.
Deixei sim de acreditar. Porém, não se sinta só. Deixei de acreditar em um monte de outras coisas e não estou me referindo a fadinha dos dentes, ao coelho da páscoa ou ao Tutu Marambá ( aquele do “…não venha mais cá que o pai da criança manda te matar…”).

Perdi crença em gente humana, conto nos dedos aqueles que trazem confiança. Passei a desacreditar na bondade das gentes, na gratidão, no companheirismo, na benevolência. Bicho gente benfazejo, compassivo, na maioria quase absoluta dos que se diziam amigos. Passei a duvidar , em amores eternos. Tornei-me cético e infeliz, estou em fase de convalescença, quase curado pode apostar de algumas dessas descrenças.
Salvaram-me os bichos em particular os miúdos, as árvores, os ventos, as chuvas e outras tantas demonstrações do Criador. Os cantos suaves colorindo amanhecer e fim de dia. Restaram poetas, margaridas, seresteiros, contistas, girassóis.
Jóias raras beija-flor, corujas atentas, canarinhos-da-terra. Manifestações estas de que nem tudo está absolutamente perdido.
Papai Noel, me desculpo pela longa ausência, mas a vida é assim e nosso Guimarães, o Rosa lá de de Cordisburgo esculpiu em letras com maestria:

“O correr da vida embrulha tudo./A vida é assim: esquenta e esfria, /aperta e daí afrouxa,/sossega e depois desinquieta./ O que ela quer da gente é coragem”.

O ano foi difícil 2017 não vai ser bem lembrado, além do assédio moral sofrido e doído sem precedentes na minha vida profissional que deve continuar no ano vindouro, foi um ano de malvadezas sem fim. Mas acho até que mesmo assim me comportei bem, não maltratei ninguém como é de minha criação, relevei as maledicências e até os acontecidos pois sei que, eita que hoje estou para citações dos mestres, nas palavras do engenhoso e Mario Quintana: "Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão…/ Eu passarinho!”. Retribui o mal com perdão, quase sempre, pois não sou santo nem rapadura nem de ferro.

Assim já que fui quase bonzinho vou deixar minha botina mateira do lado de fora na noite de Natal e, se pela manhã, ao acordar, encontrá-la molhada de um sereno perfumado/colorido terei certeza de que meus pedidos foram ouvidos. Quanto a atendê-los, não se preocupe, sei o quanto é uma pessoa ocupada. Faça no seu tempo. Só quero de volta a crença nos homens e o renascimento da fraternidade. Apenas, e tão só, um mundo mais justo, mais perfeito para todo ser vivente. Sorrisos, abraços, beijos apaixonados. Que Ele e seu Pequeno Menino sejam a nova Estrela que tanto esperamos para curar o planeta e deixar viver em plenitude tudo e todos que aqui se entrelaçam, em generosa conexão harmônica. Um dividir sem fim de seiva pura e vital.

Todos os dias botarei reparo e pelo resto de minha vida, a cada pequeno sinal de mudança, avistarei feliz seu dedo e o Dele mudando para melhor o rumo da vida.

Antes que me esqueça, desejo a você e a todos viventes Boas Festas e muitos anos de realizações, principalmente muita paz, harmonia e serenidade.








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Uberlândia Hoje

Jornal Diário do Comércio

sexta-feira, novembro 24

Beija-flor


 Sempre pensei que os beija-flores fossem eternos. Cada um com sua roupagem única, pintura exclusiva, assinada por artista caprichoso. Dezenas de vezes topei com pardais, pombas, canários e até urubus estirados chão afora. Espalhados em monturos de plumagem e sangue, alguns achatados como se folha de papel fossem. Cães e gatos também. Em qualquer parte da cidade é possível, em algum momento, se deparar com carcaças estraçalhadas por desumanos pneus. Não se esquece daqueles olhos vidrados a fitar um nada.

Nas estradas que cortam nosso Brasil, já vi tamanduás, onças, capivaras, lontras, além de bois e cavalos, jogados como sacos para o acostamento.

Nunca, nunca tinha visto um beija-flor morto. Sempre os vi anjos e anjos não morrem.

Assim pensava e jurava de pés juntos: os beija-flores são eternos. Não, infelizmente não o são.

Nesta semana, do nada, deparei-me com uma pequena joia em canto de calçada. O sol bem à minha frente mostrava apenas estranha figura refletindo multicor. Frágeis arco-íris envolviam aquele pequeno amontoado de quase nada.

Dei alguns passos com palma da mão em viseira, ainda sem saber o que era. Parecia uma caixinha de joias tombada, mostrando suas riquezas; miúdas contas e pedras preciosas em perfeito corte lapidário. Coloquei-me contra o sol e só então entendi o tamanho da tragédia. Via, pela primeira vez, em toda minha vida, um colibri morto. Seu delgado e longo bico apontava para o céu. Era lá o seu lugar. Entre flores coloridas e perfumes transcendentes, a banhar-se em pequenas gotas de chuva de primavera sobre largas folhas, riscando o tempo e abrindo caminho ao vento. Nunca ali.

Olhos foscos agora em um nada ver. Sentei ao seu lado. Um pouco de mim ali morria. Clichê, lugar comum? Pode até ser, mas era a mais pura verdade. Para alguém que sonhava a certeza de que estas minúsculas estrelas vivas não morriam, foi um mais perder da infantil que teima em nos acompanhar pelo tempo.

Talvez o envelhecer seja isso: o perder das falsas verdades puerícias. A reserva destes fragmentos que, quando em vez manda recado, vai-se aos poucos esvaziando, esvaziando até quase nada restar, incrustado apenas em apagadas retinas. Ao mesmo tempo em algum canto, vai se acumulando a borra da vida. As frustrações, o não realizado tão forte de tempos atrás, que, resignados e exaustos, deixamos de lado. As utopias, sempre elas, perdidas. Abdicamos de tanto e, às vezes, descobrimos que foi por tão pouco.

Descobri, pois, de forma súbita que os beija-flores, infelizmente, morrem, assim como tudo mais. Mas disso fica lição e crescimento, os sonhos. Ah, os sonhos! Estes não envelhecem jamais mesmo, cantou a voz de anjo Milton. Não morrem e se multiplicam, ramificam, nos seguem/perseguem até o fim do caminho.

Resta consolo de que outros milhares de cuitelos continuarão saga da eternidade, pois não tem aquele, por mais sisudo, frio e insensível que seja, que não pare um segundo e, mesmo sem querer, deixe esboçar, ainda que ligeiro, sorriso de criança. Pode não demonstrar, mas sente.

Assim, trazendo paz também aos carrancudos e infelizes, recupero o meu devanear e torno a acreditar na imortalidade dos beija-flores, dos anjos e dos sonhos.

Dessa forma, “Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos/calmos, calmos, calmos/Lá se vai mais um dia”.






Publicado em Jornal  Olha no Diário  (Uberlândia)

quarta-feira, novembro 22

Gênero


Vivemos um momento de overdose de "politicamente correto" (PC). Já brinquei seriamente sobre isso em outro escrito e olha que faz muito tempo. Por incrível que pareça o PC evolui em velocidade cósmica, não havendo um dia sequer em que não apareça uma nova imposição e torcer de narizes para aqueles que não seguem as regras doutrinárias de alguns que se acham vanguarda, mas na realidade são uns chatos caretas. Cabelo comprido ou roupas diferentes não fazem ninguém ser "cabeça". No primeiro caso temos um exemplo singular bem perto de nós.

Os falsos doutos em comportamento às vezes me lembram mais Black blocs sem causa definida do que mestres capazes de modificar léxico. Olha só, modificar para uso em suas tribos e guetos tudo bem, mas impor é outra coisa.

Não que eu seja adepto fervoroso da gramática normativa, basta levar em conta que na maioria de minhas crônicas, prosas ou poemas uso e abuso da linguagem coloquial. Vejo-me peão, prostituta, dono de venda, matuto, andarilho louco varrido, anjo, santo ou rapadura. Perco-me em minhas frases longas sem ponto, nem vírgula. Busco a sonoridade dos viventes bicho ou gente, ar, mar, vento. Tudo isso para desespero de revisores. Aqueles que bem me conhecem já se acostumaram e tiram de letra as letras que faltam e falas que contam. Contudo, a imposição moralista de uma vanguarda pouco ousada me aflige/agride. Não me imponham nada, pois farei o contrário.

Aqui a história é deliciosamente outra. Uma amiga me deu um puxão de orelha por algum dito. Brincou, acredito eu, com frase usada e reforçou o que tinha tomado conhecimento por meio de grande amigo, médico e pródigo escritor cuiabano. Sinto que os mato-grossenses, assim como nós mineiros e paraibanos, já nasceram com este "defeito" no juntar letras. Não digo que seja bom ou ruim o resultado, pois é como jogar futebol. Uns nascem com o dom, outros, como este que vos fala, vêm ao mundo por acaso. Nunca acertei um chute e só fiz gol batendo bola sozinho.
Não é o caso de meu querido amigo, que, repito, domina a escrita como poucos. Foi ele que me contou pela primeira vez a história do "X" como igualador de gênero (não tem igualador no dicionário, me dou ao direito). Assim, Senhor e Senhora são substituídos por Senhorex. Nesta toada temos também artitex, veterinarex e meninex, que substitui numa boa menino e menina.

Em reunião ou comício muitos canditatex dirão: Companheirex! Aos brados ou em reunião solene: Senhorex, autoridadex, meu povex, bom dia... e segue o discurso. Em bom português, lá se foi o boi com a corda.

Lógico, claro e límpido que o simples uso de um X não vai reduzir o famigerado preconceito, as fobias, o ódio pelas opções individuais. O respeito à diversidade de gênero é base de tudo. Basta de caretice, de hipocrisia. Para os ou ox que ainda se sentem perturbados com tantas e boas mudanças, sugiro leitura de “Livres & Iguais”, da Organização das Nações Unidas (ONU). A desinformação é uma das principais fontes do preconceito.

O mundo mudou e, repito, não são sinais ou letras que vão ajudar a acabar com a essência da intolerância, da cegueira moral. Tenho fé que tanto ódio se desvaneça de uma vez por todas. Pois se ainda tivermos que usar de subterfúgios estaremos contribuindo cada vez mais para o distanciamento e segregação. Assim, deixemos o x para as palavras que o utilizam, tais como Xerox, Jontex, Fax, Climax, Fênix, Ônix, Tórax, Durex ...

Dura lex, sed lex







Publicado em Uberlândia Hoje em 22 de novembro de 2017

quinta-feira, novembro 16

De árvores e fakes




A Noruega se tornou o primeiro país do mundo a se comprometer com o fim desmatamento em todo o território nacional, após decisão do Parlamento na semana passada. Para cumprir com a meta, o governo proibiu o corte de árvores e baniu a compra e a produção de qualquer matéria-prima que contribua para a destruição de florestas no mundo.”
Fonte: Revista Veja

Assim, com espanto e alegria e muita mineira desconfiança recebi a notícia pelas redes sociais. Afinal quase tudo que se torna viral na rede não passa de grande bobagens e pior, tem sempre um mundo de gente que acredita e compartilha, bom se não o fizesse não seria tornaria viral ará!
Entendo a tão conhecida preguiça de ler das gentes que vivem coladas em aplicativos, redes sociais e agora, super felizes, passam grande parte de suas vidas caçando Pokemons. Caçada esta até admissível para crianças e adolescentes, com parcimônia é claro. Sobriedade e caldo de galinha nunca são demais. Mas velho barbado? Moça feita com carteira de motorista, matriculada em curso superior e de namorado a tiracolo? Tem dó, usem esse tempo para ler um bom livro, uma revista que não seja de futilidades por favor. Aprende outra idioma, tocar um instrumento musical e ainda sobrar tempo para se exercitar e sair dessa mândria crônica.

Todos estamos sujeitos a pagar mico com as armadilhas das redes. Outro dia, (já tem tempo, mais de ano, assim como a notícia vinda da península escandinava), leio sobre a morte do genial escritor Ariano Suassuna ,adjetivo bem empregado viu mestre esteja onde estiver, achando tratar-se de homenagem de sua partida – ele nos deixou em 2014 – não pestanejei e compartilhei preito. Sem ler, criatura, sem ler o link da postagem!
Só depois fui conferir fonte, postei sem ler, não tinha mais volta, a meada estava feita, algum babaca tinha postado ou compartilhado a velha matéria do passamento do grande escritor. Não demorou segundos, tenho amigos antenados e felizmente cultos em minha lista, veio a gozação cética.
Tentei apelar para o famoso “morreu para você filho (leitor) ingrato, pois continua vivo em meu um coração” do folclórico ministro de JK, José Maria Alkmin.

Não teve jeito, cai feito um patinho ou um alienado “webiano” da vida.
Esclarecimento: Quando reforcei o “Genial” relembrei fantástica entrevista onde, ao ler em jornal guitarrista da banda Calypso Chimbinha ser chamado de genial.
O mestre Suassuna disparou: “Se gasto adjetivo “genial” com Chimbinha, o que vou falar de Beethoven?”
E assim vamos levando a vida. Infelizmente os fakes, as mentiras sinceras ou não, os Pokemons, Chimbinhas e as novelas são mais palatáveis do que o duro cotidiano individual do ganhar o pão de cada dia.

Quantos realmente se interessam em saber que a Noruega proibiu corte de arvores? Qual a importância disso para a grande maioria das pessoas – não,"grande maioria", não é pleonasmo:
“A metade, juntada a mais um, constitui a maioria; a grande maioria seria muito mais que isso, portanto a expressão não pode ser considerada um pleonasmo”

Quem se importa? O que vejo todo santo dia são milhões de pedidos de corte de árvores, seja na rua ou nos quintais.
E assim minha gente, por estas e outras , o velho e centenário óleo perto do DMAE, lá no alto, de tamanha tristeza e desgosto, inconformado com a gente humana, secou e morreu.






Publicado em Uberlândia Hoje e no Jornal Voz Ativa de Ouro Preto em14 de novembro de 2017

quarta-feira, novembro 8

Timeo hominem unius libri



Falar da ocupação do cerrado em uma época onde a palavra ecologia soaria mais para algo como os “estudo dos ecos” é maniqueísta demais, perigosa simplificação de um tempo. E como toda simplificação, segundo o psicanalista Raymundo de Lima, “geralmente nasce da intolerância ou desconhecimento em relação à verdade do outro e da pressa de entender e reagir ao que lhe apresenta como complexo”, corre-se o risco de ser injusta.

Seria algo como condenar os descobridores por levar Pau-Brasil daqui na então colônia ou reprimir o naturalista Charles Darwin por ter arrancado de seu habitat natural milhares de plantas e animais. Ou ainda crucificar Marco Pólo por trazer a pólvora para a Europa, ou pior, execrar os chineses por terem inventado o papel, algo tão politicamente incorreto do ponto de vista das árvores.

Uma discussão destas carece de profunda avaliação histórica.

Quando daquela ocupação do cerrado, nada ou muito pouco se sabia sobre aquecimento global, de emissão de gases poluentes, de efeito estufa ou camada de ozônio. Como também o termo “agrobusiness”, cunhado por Davis e Goldberg em Harvard, até onde sei não havia ainda chegado ao Brasil.

A visão ecológica da sustentabilidade veio bem mais tarde.
Segundo a ONG Amazônia-Brasil “O movimento ecológico surgiu no Brasil nos anos 1970 denunciando os efeitos ambientais do modelo de desenvolvimento da época e os riscos de usinas nucleares, o que influenciou a criação de novas áreas protegidas. O principal marco é o Manifesto Ecológico de 1976, liderado pelo gaúcho José Lutzemberger”.

Voltando ao cerrado. Inicialmente foi o interesse por ouro e pedras preciosas que levou à sua exploração, isso ainda no século XVII. Contudo, historiadores afirmam: “Somente a partir da década de 1950, com o surgimento de Brasília e de uma política de expansão agrícola, por parte do Governo Federal, que iniciou-se uma acelerada e desordenada ocupação da região do cerrado, baseada em um modelo de exploração feita de forma fundamentalmente extrativista e, em muitos casos, predatória.”

Numa época em que o cerrado era desprezado tanto do ponto de vista econômico quanto poético (algumas raras e maravilhosas exceções), tudo que pudesse ser feito para atrair investimentos e principalmente fixar gente era bem-vindo. É duro? Com certeza o é.

Mas era a realidade de uma época. Muito diferente das ações descomedidas dos dias de hoje onde a falta de informação não pode ser desculpa para a destruição de nosso ecossistema, de nosso planeta. Todos, hoje, sabem muito bem o que estão fazendo.

O ex-governador Rondon Pacheco foi sem sombra de dúvidas um visionário. Com as informações disponíveis à época fez o que deveria fazer para o desenvolvimento da região, e o fez por amor à sua terra. Tenho plena convicção que hoje, municiado tecnicamente pensaria duas vezes, e com certeza encontraria opções outras para o desenvolvimento regional, mas encontraria! Bem diferente de alguns hoje que mesmo de posse de todas as informações e de todo conhecimento disponível, simplesmente fecham os olhos e atropelam a razão e a sensatez e destroem, sem critério ou visão de sustentabilidade mínima e sentimento por sua terra, sua gente.

Tomaz de Aquino, o santo, estava coberto de razão: “Timeo hominem unius libri”, ou “Temo o homem que só conhece um livro”.
Se estiver enganado estendo minha mão à palmatória de bom grado.





Publicado em Uberlândia Hoje em 08 de novembro de 2017 ( Angústia de uma década)

quarta-feira, novembro 1

Estranheza




Noite encalorada, nem brisa mansa para balançar folhas de árvores havia. O sol de verão esquenta tudo, jardim e horta murcham rápido. Uma tarde sem aguar planta já mostra sinal de tristeza, baixa/encolhe. Terra racha que nem leito de rio seco.
Noite estranha. Deitado, buscando sono que não vinha, olhos virados para o céu de janela aberta até onde dava, vontade de nem parede ter. Sem camisa, sem lençol. O cortinado não tem como tirar, pois aliado de primeira hora de calor, mesmo no seco vem hordas de pernilongos cantadores. Dorme não, desassossego fica imenso.

Ponho a escutar o silêncio quente. Nada, só zumbido pregado no véu protetor. Calor. Dou o dedo para mosquito sugar, quando sinto a voracidade e pressa dela afasto. Parece que ouço o seu xingar nervoso. Carece de meu sangue para amadurecer ovos e por cria no mundo. Então, só elas usam sangue no comer. Eles não. Vivem de seiva mesmo quente em dia como hoje. Elas não! O sangue nosso é seu buscar para perpetuar. Eles é que cantam zoada em nossos ouvidos. Dizem que é para distrair incauto enquanto fêmeas se banqueteiam na outra ponta, lá nas canelas. Só se dá conta quando vem a coceira. Nada de sono. Suor aumenta. Ligo ventilador em busca de refresco. O cortinado, como vela de barco de pesca, como saveiro, se joga em um mar de pensamentos. Melhora um pouco, a quentura.

Do nada um canto triste e forte de pássaro preto rompe a noite vestida com sua cor. Boto atenção no não normal do feito. Pia/canta uma, duas, três vezes. Sinto agonia nesse cantar noctívago a campear tarde assim. Penso em levantar e buscar saber. O abafamento me põe preguiça e me deixo ficar, mas alerta. O canto volta a fazer-se ouvir. Estranheza.
Será filhote perdido? Será mãe a buscar cria que não encontrou ninho? Talvez. Penso o pior: será gente humana sempre carregando fardo de maldade, ruindeza, que roubou filhote para amansar em gaiola? Este sentimento me tira de vez o dormir. Têm tantos assim, que acham motivo para prender cantos como se deles fossem senhorios.

Não consigo me levantar, a noite será longa em pios/cantos, tristeza.
Lá adiante um frescor e, sem perceber, fadiga me leva a sono curto, repleto de pesadelos, cantos tristes. Sonho com gaiolas e prisão.
Acordo em trapos.

No caminho da lida vejo de canto de olho gato sair ligeiro de moita e em certeiro bote levantar em penas uma rolinha carijó. Desjejum farto este terá.
Virando a esquina, a um braço de meu rosto, casal de beija-flores dança em namoro. O aprender a ver e ouvir o que rodeia tem um triste/alegre integrar. Avanço com sono bruto para encarar um nada fazer. Ando sem serventia para uns. Não é meu querer, mas sigo a cumprir tabela.
Será predição aquele pio triste? Acredito nisso não. Só as gentes premeditam o mal e sinal não mandam.







Publicado Jornal Uberlândia Hoje em 01 de Novembro de 2017


Escorpiões




Como já mostramos na última edição, moradores de vários bairros de Sabará estão sofrendo com a infestação de escorpiões. Os artrópodes foram encontrados principalmente nos bairros Águas Férreas, Villa Real e Morada da Serra, tendo inclusive invadido a Escola Municipal José Rodrigues da Silva, Morada da Serra, levando pânico a pais, alunos e funcionários.

Nesta edição conversamos com um especialista sobre o tão temido animal, William H. Stutz é médico veterinário sanitarista especialista em animais peçonhentos da Secretaria de Saúde de Uberlândia e Colaborador da Coordenação Nacional de Controle de Animais Peçonhentos do Ministério da Saúde. Ele esclarece qual o ambiente propício para o aparecimento, o que devemos evitar e como se proceder caso aconteça algum acidente e destaca ainda os benefícios do escorpião. Estranho? Não, por incrível que pareça esse bicho tão rejeitado tem suas qualidades.

O médico explica que os escorpiões se adaptam muito bem ao ambiente humano, pois ali encontram tudo que necessitam: água (umidade), abrigo (entulho, jardins exuberantes, quintais sujos, caixas de passagem e gordura quebradas) e alimento (principalmente baratas).

Logo, ele destaca que para impedir o aparecimento de escorpiões as pessoas devem evitar as situações citadas, mantendo os imóveis limpos e livres de baratas e ainda vedar o possível acesso deles às casas, fechando as caixas de passagem e gordura e também os ralos de banheiros e áreas de serviço, utilizando ralos giratórios ou equipamento de vedação próprio. É importante acondicionar o lixo adequadamente e entregá-lo para o lixeiro nos horários de coleta. “Somos donos do lixo que produzimos. Nunca devemos jogar lixo em terrenos baldios, pois este atrairá insetos e consequentemente escorpiões”, ressalta.

Segundo relatos dos moradores, a infestação na cidade é do escorpião amarelo (Tityus serrulatus) que de acordo com o especialista é o que oferece maior gravidade em seus acidentes e, é o que predomina em Minas. Ele explica que é a espécie que se espalha mais rapidamente pelo Brasil posto que sua reprodução se dá por partenogênese ou seja, só existem fêmeas nesta espécie. A maioria das aproximadamente 160 espécies do Brasil apresenta dimorfismo sexual, ou seja, existem machos e fêmeas, diferente do escorpião amarelo. Outro dado preocupante, Minas é o estado campeão de acidentes e óbitos por escorpião do país, sinal que devemos ficar mais alertas.

William Stutz diz que em caso de acidente com escorpião deve-se procurar orientação médica imediatamente, pois somente ele poderá avaliar a necessidade ou não da utilização do soro antiveneno. Ressalta ainda que não se deve passar nada no local e que uma bolsa com água morna ajuda um pouco aliviar a dor, até chegar ao socorro. O hospital referência na região é o João XXIII, em Belo Horizonte, para onde a pessoa deve ser encaminhada imediatamente. O veterinário destaca também que crianças, idosos e enfermos com baixa imunidade são os grupos menos resistentes ao veneno do escorpião, tornando o acidente ainda mais grave, porém, todo caso deve ser avaliado.

Embora o veneno do escorpião possa matar em poucas horas, ele tem suas vantagens. Segundo o especialista, o veneno do escorpião tem uma série de propriedades terapêuticas, além do uso de seu próprio veneno para produzir o soro que salva. Porém, por ser um animal sinantrópico (aqueles que colonizam habitações humanas e seus arredores retirando vantagens em matéria de abrigo, acesso a alimentos e a água) a convivência se torna impossível com gente humana. A captura desses animais vivos e o envio para instituições de pesquisa deve ser objeto de atenção dos órgãos públicos. Ação esta que, além de ajudar na pesquisa, diminui expressivamente a população dos animais em áreas habitadas, reduzindo o risco de acidentes. Os órgãos de saúde devem realizar sistematicamente captura, busca ativa de escorpiões como preconizado no Manual de Controle de Escorpiões do Ministério da Saúde (disponível para download no site do Ministério).

Para finalizar, o médico veterinário salienta mais uma vez que limpeza, acondicionamento e destinação adequada de lixo significam pouquíssima chance de presença de escorpiões.


Publicado em Jornal Folha de Sabará em 31 de outubro de 2017

quarta-feira, outubro 25

Questão de química





Levanto cedo, lavo as mãos com sabonete perfumado, vou à cozinha e ponho água a ferver para o café.

Tomo banho também com sabonete, lavo os cabelos com shampoo com cheiro de frutas, não resisti e provei, o gosto é horrível.
Após o shampoo vem o condicionador, antes chamado de creme rinse, lembram? Na ducha mesmo faço barba e para tal uso creme específico para que as lâminas bem deslizem: a primeira faz “cham”, a segunda faz “chum”. Saio do banho, escovo os dentes com pasta dental tricolor, não sei o que representam aquelas cores: Fraternité, Egalité, Liberté, em bom francês poderia ser? A liberdade é azul.

Ia esquecendo, creme pós-barba,afinal ninguém é de ferro.
Um creme hidratante de rápida absorção, pois aqui é o cerrado e a umidade anda pela casa dos 12%. Saara, dizem.
Desodorante sem cheiro, e antes de me vestir um perfume.
Para a rua, não sem antes aplicar um protetor solar fator trinta pois o buraco na camada de ozônio não nos permite facilitar.

Alguém já parou para imaginar a quantidade e a variedade de produtos que foram usados apenas em uma manhã, num pós-despertar? Overodose química de procedências várias — claro, todos com a devida chancela da ANVISA, mas será que a mistura, a combinação já foi testada alguma vez?
Dizem que manga com leite, pepino com cachaça fazem mal, e aquilo tudo pode também?
Detalhe importante, as senhoras e senhoritas ainda acrescentam à sopa de cheiros e nomes, batons e maquiagens variadas. Céus.

Um coquetel molotov de moléculas e princípios ativos vários. Além das infinitas trilhas sonoras das propagandas, até que ponto nossa pele, essa que é o maior órgão do corpo humano, pode aguentar?
Será mesmo o céu o limite? Questão de química ou de saúde pública? Com a palavra, senhores dermatologistas. Deixa eu correr, a água do café já ferveu.






Publicado em Uberlândia hoje em 25 de outubro de 2017

Maria De Maria

 Foto: Ninguém dos Campos/Divulgação

Antes de mais nada grito aos ventos: não sou crítico de arte, não entendo de arte, não sou arte. Faço arte no sentido lúdico e infantil da palavra. Lanço-me em aventuras, algumas inconsequentes, sem trema ou trama, mas sempre inofensivas.
Sou espectador que põe atenção. Se me agrada gosto, se não me agrada me aquieto.

"Amou daquela vez como se fosse a última".

Tive o lampejo de ir ao teatro em uma quente quinta-feira, na qual a maioria gostaria de estar em um bar ou à beira de piscina ou, quem sabe, caminhando no parque. A peça, uma produção independente da até então para mim desconhecida Maria De Maria, cativou logo nos primeiros instantes.

“Beijou sua mulher como se fosse a última"

Bom, posso dizer que os longos primeiros minutos de silêncio e breu poderiam ter sido mais curtos. Criou um certo incomodo, proposital talvez.
O denso texto de Claudia Eid Asbun inspira. Impressionante a coragem de produzir e encenar Mulher de Juan.
Em árido cenário de obra, Maria De Maria se move com leveza bruta, contracena com o maravilhoso e fantasticamente harmônico e pontualíssimo violoncelo de Laura Millya.

“E cada filho seu como se fosse o único"

"O tempo não para/ Disparo contra o sol/
Sou forte, sou por acaso"
, cantou Cazuza.

A plateia em silêncio absoluto. Se bem que, quando chegamos no esperar do escuro, duas tagarelas palreavam ao som de saquinhos de o que me parecia batatas chips. Mudamos de lugar e a paz voltou a reinar.

A direção de Adriana Capparelli é sóbria e libertadora para a atriz (acho eu, foi para mim é certo).

Se era crítica que  Elena,  mulher de Juan, buscava, eis a de um simples espectador, que em muito se viu no espetáculo.
Vi-me em suas falas e coreografias. Fui mulher, fui celo, fui Juan, fui você. Como é bom em plena quinta quente ser parte de uma peça tão envolvente. Mil vezes recomendo. Quem viu viajou, quem não viu não perca a próxima apresentação. Quando a peça chegar a Ouro Preto, e tenho certeza que vai rodar mundo, peço: não perca.

Só me resta dizer Bravo! Bravíssimo Maria de Maria! Espero te ver sempre em palco. Usando modernos tempos: curti e te sigo.

"E flutuou no ar como se fosse um pássaro"

(*) Intervenções grifadas da obra "Construção" de Chico Buarque não são meras coincidências







Publicado em Olha no Diário ( Diário do Comércio ) em 25 de outubro de 2017

quarta-feira, setembro 27

(Des) ordem

Passam em bando num cantarejo sem fim. A força de suas asas é tamanha que criam vento, fazendo repicar meus sinos da felicidade, seguem em algazarra para árvore próxima.
Peitos estufados a cortejar namoro. Vêm filhotes por aí.
Primavera anunciada. Vão nascer com o chegar das primeiras chuvas.
Tudo em sincronia, nada fora do lugar, do tempo, da vida.
Minto, tem muita desordem mundo afora, no nosso entorno, dentro da gente. Em esforço de sobrevida fingimos nada ver, mesmo tanto olhando. Árvores são arrancadas por conta de um portão sem sentido. O lixo maquiado de luxo que nunca existiu.
Ah, mas em troca, você mata três e planta outro tanto. Pensou se justiça humana assim pendesse?

A seca castiga como de costume nesse inverno sem frio ou neve. E como de costume, por costume, ateia-se fogo por toda cidade. Um matinho seco, um roçado, arde em frieza, morte.

As corujas buraqueiras, do alto de postes de inanimado concreto, observam em agonia suas tocas serem devoradas, suas crias fadadas a horrível martírio. Pequenas Joanas d’Arc na morte, às avessas em vida. Aqui família empoleirada presencia sacrifício estúpido, sem soldados ingleses, sem canonizações póstumas.

A primavera se aproxima arrastada em poeira e cinza. Logo a chuva protetora trará vida, verde, cantos. As corujas terão outra chance. Escondidas de olhos humanos poderão ver filhotes voarem mudas em pios e bater de asas.

O bando de Pássaros Pretos, Canarinhos da Terra, Joões-de-barro em gritos, cantos e algazarra, pousam em nossa primavera. Fizemos ceva com quirera amarela/doce e farinha de pão. Tocamos o sino duas vezes, só duas vezes, eles vêm de longe buscar sustento. A cantoria encanta. Passamos horas a ver/ouvir. Nem goiaba deu. Árvore mutilada custa dar fruto outra vez.
A seca castigou forte este ano. Não secou apenas plantas e córregos, secou alma humana. Muitos que por perto circulam estão secos para um eterno sempre. Como deserto em suas entranhas nada mais vingará em vida e paz.
Nos conta Dante: ” […] cruzam rio pantanoso e cinzento rio Aqueronte, conduzidos por Caronte – o barqueiro dos mortos na mitologia grega. Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! […], anuncia, descendo o remo nos que hesitam em embarcar. Começa a descida pelos nove círculos infernais!”

Bicho homem! Apenas de ti tenho receio.

Busquemos nos encantos, que por vir estão, alento para nossas vidas. O Criador nos deu as costas ou apenas virou olhar? Talvez nem exista como o concebemos/acreditamos. Ainda há tempo. Rogai por nós.
Ordem e o que mesmo?


27 de setembro de 2017

Publicado em



quarta-feira, setembro 6

Mentiroso

Imagem capturada na web


Sem tem uma coisa que me impressiona absurdamente é o talento do mentiroso. Sério, não que eu concorde com essa nefasta atitude, pelo contrário odeio mentiras. Elas me cheiram a traição, covardia e tudo de ruim que acompanham estas palavras.
Não me refiro ás mentirinhas inocentes tipo “True Lies” ou “mentiras sinceras”, expressão cunhada por compadre. Exemplo clássico deste grupo, me remeto ao Barão de Münchhausen. Falo do mentiroso com M maiúsculo, que faz da prática meio de vida, com o objetivo de tirar proveito próprio em tudo. Perverso e degradante, passa por cima de qualquer um para obter seus objetivos, tendo como principal arma a mentira.
Perdoo quando o compulsivo sofre de impulso patológico. Apesar de difícil conviver, o melomaníaco carece é de tratamento, pois é um doente.

Mesmo com tudo que disse, uma coisa não dá para negar: o mentiroso crônico é um cara especial. Posso falar de cadeira, pois conheço vários. Já convivi com estes mestres do engodo, da enganação.
A fertilidade de imaginação desses caras é de fazer inveja aos aprendizes da arte de juntar palavras. Quer um exemplo? Qual aquele que escreve regularmente não passou por períodos curtos ou longos de estiagem criativa? Pois olhe, tempos em tempos acontece comigo.

Sento para meu exercício diário de buscar um contar e nada. As ideias correm de mim como bicho miúdo fugindo de onça. No alto das serras, matas ou em fundo de rio ou mar. As letras teimam em se esconder no topo de árvores, em caravelas naufragadas ou em grutas profundas e silenciosas. Aprendi lidar, apavora mais não. Depois de um tempo elas voltam pedindo lugar. Não há letra ou palavra que queira viver só. Querem companhia. Bem ou mal as amarro em filas imensas e viram isso, prosa, caso, histórias.
Voltando ao cascateiro, ao aldravão, ao trampolineiro. Além de imaginação ilimitada o cara tem que ter uma memória de elefante – sei lá eu se isso é verdade ou força de expressão – mas pensa bem, se ás vezes é duro lembrar-se das verdades, imagine lembrar os detalhes de uma mentira? Cara, o negócio é que as cascatas costumam ser recheadas de detalhes, de bordados tão fartos, que só um gênio para lembrar-se de tudo e tantas. Sofrimento sem fim, pois volta e meia cai em uma armadilha por ele mesmo criada. Jeito de viver não. O doente deve buscar ajuda. O cretino, além de desculpas por existir, deve buscar vergonha na cara e, se tiver, renascer o caráter.

Caso acontecido, Mestre contou, eu reconto com fé e você julgue em qual grau o peão deve ser classificado.
Morava em cidade até grandinha e tinha por gosto reunir com amigos em finais de tarde para cerveja gelada e jogar conversa fora. Naquele dia a conversa girou em torno de pescaria. Cada um tinha um caso de peixe maior do que outro. De Jurupoca a Dourado, de Matrinchã a gigantescas Piraibas de trezentos e tantos quilos.
Não podia ficar de fora da prosa, assim contou de seu rancho onde dava de tudo quanto há. Tinha ceva que para pescar e tinha que afastar peixe com a mão.

Animação geral, pois pesqueiro era não muito longe, marcaram encontro para fim de semana seguinte.
Assim passou semana de ansiedade e o dia chegou. Partiram leves.
O recanto era simples e agradável, uma represa na porta da casa e o rio, de pouca água e correnteza mansa, mais afastado.
Todos com muita disposição e vontade se puseram logo pescar.
E vai tempo e nada. Nada e mais tempo gastando. Olhe, disse um, vamos deixar varas em espera, assar uma carne e tomar uma, afinal ninguém é de ferro. Peixe que é bom, sei não. Já desconfiado que enganados foram.
Enquanto se divertiam sob sombra generosa de imensa gameleira, um deu sinal. Uma das varas de espera puxava emborcada como a mostrar peixe grande fisgado.

Desceram todos, afinal seria o primeiro depois de muito tempo ali.
Um puxa estiva sem fim, briga e tanto, daquelas de sangrar mão de pescador calejado.
O bicho finalmente mostrou o lombo escuro na flor d’água. Não dava para saber que peixe era ainda.
Algazarra infantil dos marmanjos. Olha que vem chegando!
Foi aí que o silêncio baixou. Para espanto de todos o que estava fisgado no anzol era peixe não, era um tatu peba dos criados.
Antes que qualquer um pudesse tossir, respirar ou fechar a boca de tanto queixo caído, o dono do rancho vociferou ligeiro:
— Num falei que aqui dava de tudo? Esse ai  é o terceiro tatu que pegam aqui.
Para lá ninguém voltou mais.







Em  6 de setembro de 2017