segunda-feira, junho 20

Dedo meu



Sou um entusiasta por novas tecnologias, apesar de preferir mato, cachoeiras e bichos a gentes. Mesmo me deixando ficar horas deitado olhando estrelas, a espera de que alguém ou alguma coisa venha me buscar lá dos confins do universo, como no niilista e gnóstico filme “Matadouro 5”, que acredito quase ninguém viu, “estou solto no tempo”. As possibilidades que as modernidades nos mostram todos os dias, também me encantam. Outro dia, brincando com um iPhone, demos boas gargalhadas ao mantermos um diálogo sério com esse aparelho. No caso ela, pois a voz era feminina. Ponto para a língua inglesa, já que, neste caso, poderíamos usar um simples “it”. Nada de “he” ou “she”.

Disca para fulando, como está o tempo no Nepal, qual a cor de Rocinante, montaria do cavaleiro da triste figura? Perguntas feitas até chegarmos a outras do tipo “pessoais”: você é feia? Você é burra? Ela, a voz, apela, fica uma onça e ainda te dá respostas malcriadas. É cômico.

Respostas a perguntas mais “complexas” são hilárias. Faça o teste e passe bons momentos.
Agora, estranho mesmo são os tiques que desenvolvemos com o uso constante destas máquinas. Permitam-me sussurrar para que meu celular não escute. Chamá-lo de máquina, aparelho, autômato ou coisa que o valha, para ele pode ser ofensa.

Acho que todos, frutos do mundo do copiar/colar já copiaram algum texto ou mensagem da tela de um celular. Aquele ato de segurar o dedo, geralmente, o indicador sobre uma palavra, faz aparecer aquele sinalzinho que escorregamos para marcar em azul o que queremos reproduzir. Até, aí, normal, estranho é o que vem depois. Quando clicamos em “copiar”, vem a sensação de que o texto está grudado em nosso dedo. E o medo de encostar em qualquer coisa e apagar ou transcrever o copiado na pele, parede, panela ou copo?

A impressão que dá é que, se coçar a orelha, prega lá o texto. E pode ter certeza, uma coceira vai aparecer em algum ponto para seu pânico. E lá se vai, com dedo meio levantado para não gastar o copiado. No meu caso, é pior, pois só uso um dedo para escrever no celular. Nunca consegui destreza de gente que escreve com velocidade taquigráfica.

Meu indicador já está criando calo. Logo terei que mudar de dedo ou mão, pois ele já começa a dar sinais de exaustão. Eventualmente crônicas inteiras são assim digitadas. Isto acontece muito quando meu caderninho fica longe ou em situações especiais, como em avião e sala de espera por exemplo. Assim, a visão está cada vez pior e o dedo nem se fala.

Sou catador de milho naquele miniteclado que, para piorar, tem a mania de mudar as palavras por conta e risco. Um desaforo sem tamanho. Imagine se fosse real. Fazer cola seria manha. Todos poderiam tirar o relógio, passar por revista geral para ver se tem papelzinho ou escrito na perna. Mas e o dedo?
É, mas os caras são espertos. Antes de entrar em sala de aula, diriam:
— Bota o dedo aqui na folha branca! Pronto, mais uma técnica de cola frustrada.

Agora, posso entender bem o significado do termo “Não aponta esse dedo para mim!”. Viva a tecnologia. Pode não fazer bem, mas que a gente se diverte, isto é fato.







Em Jornal Correio 19 de junho de 2016

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