quinta-feira, julho 21

Bezerro





Foto Trilha dos Tucanos

Desespero de fazendeiro, só criava gado à larga, solto no pasto, no mato. Era bicho prá todo lado, embrenhado em grotões onde cavalo nenhum conseguia chegar. Reconto essa história sem tirar nem por. Foi um acontecido longe, pelas bandas da Serra do Cipó, coladinho em Conceição do Mato Dentro, que um dia foi da Comarca de Sabará, depois de Serro Frio e chegou a chamar Conceição do Serro.

Quem disse que ele conseguia peão que ficasse? Na primeira hora do dia, já se via desespero, num aqui não fico não homi. Como juntar gado brabo desse jeito, de investir em arreio de montaria? Assim foi. Tinha que vacinar o rebanho. Fiscalização avisou. Suava desespero. Fazer o quê da vida?

Estava assim na varanda, sentado em banco comprido de madeira jacarandá, lustroso de tanta bunda alisar, quando chega a pé homenzinho miúdo, franzino que só. Calça na canela e sandália de couro cru. Camisa amassada indicava viagem longe. De bagagem um quase nada. Parou assim parado, olhando chão. Observado foi sendo.

Passado o tempo de timidez, murmurou:
— Há de ser aqui que andam de precisão de vaqueiro? Me contaram lá em Conceição, me ponho na sua vontade, que trabalhar careço.

Olhou aquela figura pequenina, dos braços fraquinhos, pensando se ria ou chorava. Dá conta nunca da empreitada, sofismou. Mas tinha solução que outra fosse?

Contou o serviço de juntar o gado para o curral. Tinha que ser todos. Rês nenhuma poderia ficar para trás perdida.
— Vou lhe arrumar cavalo bom e se quiser começar amanhã está contratado, pois já é hora de almoço e seu dia não ia render.

— Agradeço patrão, mas almoço fica prá quando voltar. Quero cavalo não. Vou a pé mesmo. É só apontar direção da bicharada.

— Sem cavalo ou mula? Endoidou? Contaram a braveza dos bichos?

— Contaram patrão. Ligo não. Sigo assim mesmo e se não chegar todos nem paga aceito.
Sendo assim, apontou o caminho.

Fazendeiro balançou a cabeça. Deve ser doido varrido, mas quer, deixa tentar. Assim, faço ao menos caridade em dar de comer quando voltar triste.

Eu não vi, pois é história repicada, mas contam que esse moço miúdo ficou emprenhado a correr dia todinho. Correu mato, cerrado, serra e grotão, açodando um por um dos bichos. De mamando a caducando trouxe todos.

Fazendeiro ainda triste na varanda levantou os olhos, esfregou para ver e não pensar desverdade das vistas. Descendo a serra vinha manada rumo ao curral. Correu sentar no varão da porteira a contar, apontador.

Todos estavam ali, faltava nada.
— Moço de Deus, mas conseguiu feito nunca produzido, e a pé! Conta, deu muito trabalho?

— Olha patrão, trabalho, trabalho, os grandes e os sobre ano deram não. Mas aquele bezerrinho amarelo me deu suador, pois o bichinho é ligeiro e esperto, conhece caminho.

Bezerro amarelo? Uai seu moço, tem vaca aí não! Só macho. Mostra o tal. Subiu na cerca e apontou o canto mais longe: Olha lá ele!

Olhou seguindo o dedo e arregalou os olhos em espanto. O bezerro que o cabra tinha tangido, no seu correr sem parar, era um veadinho-campeiro, veio no afoito, no engano. Vai correr assim lá em Minas, seo moço!









Jornal Correio em 17 de janeiro de 2016

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