segunda-feira, setembro 12

Advogado



Caso contado, reconto. Sempre quis ser advogado. Desde muito miúdo não perdia filme que tivesse júri. Ficava em pé junto à televisão, imitava gestos, andar e expressões, tanto da defesa quanto da acusação. Reproduzia jeito sisudo de juízes prestando atenção às teses e argumentos que, por fim, levariam réu a liberdade ou sairia dali algemado.

Terminado o filme, corria juntar amigos e criava clima de um julgamento no quintal de sua casa. Tinha de tudo. Advogado de acusação, júri, juiz e claro, o réu. Ele sempre fazia o papel da defesa. Os crimes eram terríveis e geralmente reais.

— Senhores do júri, este cidadão sem o menor pudor, na calada da noite, escondido pelas sombras e com a cumplicidade de Laica, a cadelinha da casa, com a qual mantinha um relacionamento muito próximo de amizade, teve o despudor de assaltar a geladeira e devorar, sem o menor constrangimento, a última fatia de torta enquanto seus pais inocentemente dormiam, envoltos pelas asas de Hipnos, pai de Morfeu. Por tal ato ilícito eu peço aos senhores “data vênia”. Embora não soubesse o que isto significava, usava toda hora.

Outros crimes levados ao júri do quintal. Roubar beijo da menina mais bonita da rua, faltar à pelada e nem emprestar a bola, esconder em casa em pique-pega. Gravíssimos crimes, para os quais a pena pedida era geralmente prisão perpétua. Agora, meu amigo, você pode imaginar o enfado daqueles obrigados a participar da brincadeira. E ai deles se negassem. Era tunda na certa.

Foi nada não. Menino cresceu sempre estudioso. Formou advogado. Não satisfeito, prestou concurso para delegado. Foi aprovado com louvor. Cabeceira mesmo. Glória tanta que lhe deram o luxo de escolher comarca.

Sonhador como sempre, escolheu cidade miúda encravada para os lados da serra da Bocaina, um lugar lindo em paz e roças de Lavandas. Sentia que ali poderia ganhar experiência de ofício, para depois, quem sabe, tentar concurso para juiz. Apesar de sempre se lembrar dos filmes de sua infância e da série dos magistrados, ele gostava mesmo era do teatral da cena.

Inexoravelmente, como diria Caetano o “Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos”, o bom e velho tempo voava. A pacata e bela cidade em eterna paz, não tinha crime nem desarranjo, nem roubo de torta ou beijo roubado. Viu-se triste e inútil. Aproveitava a delegacia vazia para estudar, pois juiz seria.

Em um final de dia arrastado, em que o perfume das lavandas iluminava o ar, resolveu parar em um dos poucos bares da cidade para tomar uma cerveja, antes de rumar para hotel onde morava. Sentou-se perdido em si mesmo, via longe para dentro das lembranças, nada envolta existia naquele momento.

Distração perigosa para delegado, mesmo em cidade de paz. Até de costas para porta ficava, um desaviso. Foi quando um cabra, totalmente bêbado, começou a fazer troça dele. No começo ele até sorriu, ligou não. Mas todos conhecemos bebum. Sorriso dado é trela e o homem não parava. Debruçava-se por sobre a mesa do delegado, falava alto, cuspido. Desagrado.

Resolvido a por fim nessa passagem, o jovem delegado fingiu sério: — Toma rumo cabra, se ficar amolando mais um minuto eu te prendo.

O bêbado em falar pastoso, torcendo o pescoço e a mão, retrucou:
— Senhor me prende, mas eu saio. Disse meio cantado.
— Sai não! Eu sou o delegado!
— Eu sei, mas quando eu prender o senhor, “cê” num sai nunca mais!
— E não?
— Não senhor, nunquinha mais.
— Ora essa, quem você pensa que é seu atrevido?!
— Uai, sou o coveiro Dotô, o coveiro.

Nosso amigo hoje é juiz federal.






Jornal Correio em 11 de setembro de 2016

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