segunda-feira, novembro 7

Aranha



Domingo quente esse. Parecia Palmas, no Tocantins, onde cada um tem um sol só para si, dizem. Estive lá e conferi. O meu sol estava guardado em caixa reluzente e me foi dado assim que desci do avião. Sorte que ao partir ele, o sol particular, me foi delicadamente recolhido. Acredito que, após passar por recarga, fica ali a espera do próximo visitante.
Domingo quente. Já havia corrido, nadado. Sentei à mesa imensa para almoço convidado. Olhava o tempo sem ver, quando movimento mínimo me atraiu atenção. Uma micro aranha papa-mosca passou aos pulos sobre minha mão, na maior falta de cerimônia. Passei a segui-la.

Displicentemente chegou à borda do copo. Em sucessivos giros observou o ambiente. Mexia-se aos pequenos trancos, erguendo a cabeça como buscar foco e escorregou até o fundo, rodopiando em passos de balé contemporâneo.
Dei leve toque no cristal, senti sua vibração, diapasão.

Ela pareceu me olhar aborrecida, afinal a imobilidade em que se pôs lembrava tocaia. Cara, se não pode ajudar não atrapalha! Pensei ter ouvido em sussurro amplificado pelo bojo do cristal. Pedi desculpas baixinho. Vai quê!
Subiu a parede gigantesca de vidro resmungando, acredito.

Lá do alto mirou o infinito. Estava com fome e os insetinhos miúdos não andavam por perto.
Uma mosca pousou ao alcance de seu bote. Mirou bem, deu uma dançadinha de lado. Desistiu. Muito grande. Se pego me leva, avaliou. Tomou rumo naquele mundo de panos, garfos, facas, taças, garrafas e pratos. Não eram obstáculo para seus olímpicos saltos. Foi até ao final da mesa, distancia considerável para tão minúsculo animal. Calculei a relação com a gente. Umas duas maratonas, talvez três. Não me pareceu cansada ao chegar à borda do abismo. Parecia irritada de fome. Ligeiro, peguei em fruteira uma banana nanica, já pintadinha. Esta atrairia mosquinhas de fruta, ou Drosophilas, para os que dominam as ciências dos bichos e seus nomes horrivelmente científicos. E isto é nome para se dar a uma mosca em miniatura? Quer outro exemplo? Didelphis marsupialis.

Sabe o quê é? Nada mais do que um gambá de terno e gravata. Imagine só em festa de muita pompa o anunciar:
Senhoras, senhores, o conde Sir Didelphis marsupialis e Lady Lutra longicaudis. Todos se viram em curiosidade e me entra um gambá e uma lontra na maior das prosas, falando alto e às gargalhadas. É pra acabar de vez com o pequi de Goiás e com a jabuticaba de Sabará.

Voltando à nossa amiguinha. A isca de banana não funcionou. Ninguém a visitou além de moscas verdes e uma maritaca sem medo, que pousou no respaldar de uma cadeira da mesa e ficou olhando gulosa.
O mar não estava pra peixe para a pobre aranhinha, pelo menos ali. Não pensou duas vezes. Em salto acrobático atirou-se ao infinito. Assustado ajoelhei para acompanhar a queda. Quase que encosto nariz na pequena. Ao pular lançou seu mais perfeito fio de seda e como trapezista ficou a balançar elegante. Teceu, teceu e chegou ao chão com classe. Tentei tocar o fio na tentativa de trazê-la junto, mas ela já tinha desaparecido entre pés de cadeira, mesa e os desenhos do piso.
Suspirei triste. Perdi minha companhia de fim de tarde.

Colocando o queixo entre as mãos, tornei a matutar e me disse em segredo, baixinho: domingo quente esse.






Jornal Correio em  23 de outubro de 2016

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