quarta-feira, dezembro 4

Férias

Depois de um ano de muito trabalho, entro em férias. Boas festas para todos e até 2014. São os votos de toda equipe do Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros da nossa SMS.

Parabéns a todos nosso grupo pelo empenho, compromisso e valentia para vencer adversidades inerentes ao trabalho e ainda brilhar como nunca como Servidores Públicos que somos, com muito orgulho.

Algumas fotos de nossa (minha) última ação do ano antes das férias. A convite do Ministério da Saúde, mais uma vez atuando como monitor em Capacitação de Manejo de Escorpiões desta vez em Palmas Tocantins.








domingo, novembro 17

Intervenção urbana


Calçadas




Às vezes, somos apresentados ao óbvio para nos convencermos de que nem tudo está perdido, pelo menos em nossas cabeças e convicções.

Outro dia, a professora Ludmila Sandoval, em lúcido comentário, aqui mesmo no CORREIO, expressou o que acredito ser o sentimento coletivo. Ela nos conta que “o Ministério Público, baseado nos códigos de posturas municipal e federal recomendou que os bares de Uberlândia disponibilizem espaço de 1m75 livre de mesas e cadeiras nas calçadas, para passagem de pedestres”. E ainda: “Calçada não é extensão de bar, nem lugar para mesas e cadeiras.” E não é mesmo. Aquela cadeira onde podemos preguiçosamente esticar as pernas e trocar dedo de prosa com vizinhos pode: sinal de cidade tranquila, será? Ah! e me mostra uma calçada com mais de 1m75 aqui em Uberlândia!

Invasão de área pública é antiga e não é desprivilégio apenas de Uberlândia. Lembro bem de antigo bar na Rio Branco que todos frequentávamos à época (põe tempo nisso), no qual lá estavam as mesas na calçada. E olha que o bar era constantemente frequentado por servidores públicos, inclusive da Divisão de Posturas. Não é que faziam vista grossa, nada disso. Aquilo era considerado comum, normal. Portanto, legal, pelo menos aos olhos do clamor geral.

Ninguém nunca reclamava, desviava e pronto. Felizmente, os tempos são outros. Pessoas passam a conhecer seus direitos, questionam mais e querem respostas. Saudável é aquele que, além de saúde, detém informação.

Em cidades litorâneas, em muitos casos, foi necessária ação rigorosa do poder público para disciplinar barracas e bares. Em Salvador, a medida chegou ao extremo com derrubada dos quiosques invasores que teimaram em não se adequar às novas normas. Em Natal, Fortaleza e Maceió também houve intervenção pública. Mas sabe-se bem que as faixas de areia de praia são infinitamente maiores do que nossas calçadas. São Luís que não me deixa mentir.

Já aqui para nossas bandas parece que as cidades foram programadas para carros, não para gente. As já estreitas calçadas não poderiam, em hipótese alguma, permitir que áreas ditas públicas fossem tomadas por comércios de qualquer espécie. Temos bares que funcionam há anos em áreas públicas imensas, obstruindo o ir e vir das gentes, dificultando o livre direito de transitar por elas. Se for portador de necessidade especial, nem se fala.

O perigo de tragédia anunciada, descrita pela esclarecida professora, é apenas uma das facetas deste descalabro que se tornou um fenômeno cultural aqui.

Calçada é para caminhar. Não é lugar de mesa, cadeira, painel de propaganda, nem banca de venda de seja lá o que for. Queremos educação no trânsito, concorda? Pois nós, pedestres, estamos mais do que incluídos nessa confusão urbana. Portanto, para não invadir espaço de bólidos ameaçadores, criadores de tristes estatísticas, temos obrigação de atravessar sobre faixa de pedestre e direito de uma calçada livre de empachamentos. Mas não apenas.

Conhecemos bem a conservação da parte que nos cabe. Em muitos pontos parecem trilhas com obstáculos intransponíveis até para atletas experientes em “trekking”. Medalhista aquele que, em casa, chega sem torção ou queda. Antigo problema merecedor de solução imediata. Fim de mesas e outros obstáculos, e calçadas conservadas. Aí, sim, uma cidade educadora para cidadãos educados.







Publicado Jornal Correio em 17/11/2013



https://www.dropbox.com/s/mpo36jh6y1838rb/Cal%C3%A7ada%20JC.pdf

quinta-feira, novembro 14

Virtualidades

O mundo virtual se torna cada vez mais real e eloquente em nossas vidas. Difícil algo em normal cotidiano no qual não se faz presente. Não lembro a última vez que enviei carta escrita à mão pelos Correios. Um de meus maiores prazeres era escrever longas cartas. Usava caneta Parker 51, herança de Vô. Tinteiro em forma de losango durava pouco. O cheiro da tinta, lembrança olfativa, volta em vez, o sinto em algum lugar. Agora, simplesmente abro uma folha branca virtual e dedilho cartas, ofícios, bilhetes, contos, poemas e prosas. Passei antes, é claro, pela boa e velha Remington, não a arma que, apesar de que, bem poderia ser considerada como tal. Pena e espada, duas poderosas formas de ferir, atacar, mas principalmente defender. Confesso, fui aluno relapso em aulas de datilografia e nunca passei do a, s, d, f, g – ç, l, k, j, h. Me viro com dois dedos, os indicadores. Às vezes, peço ajuda a um polegar ou ao médio, vulgo maior de todos, para os íntimos e as crianças. Erro todo tempo, exatamente a facilidade de usar um backspace e corrigir o que nos torna preguiçosos e desatentos. Lembro quando surgiu uma fitinha branca que colocávamos sobre a letra errada na máquina mecânica e, depois na elétrica, apertávamos a tecla, cobrindo o que queríamos esconder. Aí surgiu o Errorex.

Pincelavam-se os enganos. Os ofícios e memorandos mais pareciam filhotes de paca, tamanha a quantidade de pintas brancas saídas das mãos de datilógrafos ligeiros, mas fracos na língua-pátria. Só conheci um exímio e veloz mestre dos teclados e do domínio da gramática ao mesmo tempo. Tio Fábio Borges, escrivão do crime. Fera como poucos. Não creio que ele se acostumaria com a fragilidade dos teclados de plástico dos computadores de hoje. Saudade gigante dele. De seu bom humor, de seu coração de ouro, sempre preocupado com todos. Não se fazem mais tios Fábios como antigamente. A essas alturas, ele deve estar a reorganizar em alta velocidade os arquivos de São Pedro, colocando ordem na casa celestial. Pouco duvido que esteja empunhando sua velha companheira de tantos anos no Fórum, uma Olivetti Línea. Seu veloz dedilhar pode ser ouvido em dias de chuva, basta por atenção. Tantos recursos, novas tecnologias. Mas por mais incrível que pareça alguns destes, ao invés de ajudar a vida do cidadão, parecem tormento.

Quer um exemplo? Aquelas famigeradas letrinhas e números que temos que digitar para provar que somos seres viventes e não robôs alienígenas invasores. Sério, conte, você consegue mesmo ler com tranquilidade aquele emaranhado de garranchos onde um “R” misturado a um “N” mais parece hieróglifo? Letra “L” se colada a um “G” não tem decifrador de códigos secretos que a desvende. E, para piorar, alguns sites, depois de uma hora de tentativas, quando finalmente você consegue enviar, apresentam mensagem bem sacana: “acho que você já falou sobre isso”. Outros, em artimanha, bloqueiam qualquer envio após três tentativas erradas. Deveria haver outra forma de resolver isso. Tantas mentes brilhantes por aí. Se o pessoal do Obama desse com um reCAPTCHA, palavra esquisita em si mesma, não haveria espionagem mundial. Os caras iriam se suicidar de desgosto. Acho que, muito em breve, desenferrujo minha Parker 51 e compro pote “Super Quink” em formato de doce de leite de venda. Passarei a retomar os manuscritos e o lamber de selos. Sofre-se menos.





Publicado em Jornal Correio em 14/11/2013
Clique no Dropbox abaixo para versão pdf do Jornal


https://www.dropbox.com/s/bswn7iifzzpraic/Virtualidades%20JC.pdf

segunda-feira, novembro 11

Garden Run 2013

Fui mal, tempo líquido 36:17 confira aqui.  Meta baixar dos 30'. Domingo passado cheguei a 32' nas Milhas de Uberlândia. Devagar chego lá.
Dia 1º tem a Corrida das Cores, essa é uma festa ! Tô dentro !!!!!


Fotos: Bia Stutz




sexta-feira, novembro 8

Disseminando ideias

Não importa a simplicidade das acomodações. Fomos muito bem recebidos e, em Água Limpa impossível descrever a maravilha da comida desse hotel feita com capricho em fogão a lenha.
Clica nas fotos para ampliá-las


Hotel em Água Limpa GO






Hotel em Araporã MG


segunda-feira, novembro 4

Deus existe?

Deixar de acreditar em Deus

Pode parecer amargura, acúmulo de tristeza e decepções. Pode parecer chão perdido. Agulha de bússola não acha meu norte magnético, nem emocional. Pode parecer um monte de coisas e um monte de coisas é. Olhos sem brilho ofuscam o mais belo nascer do sol. Dias atrás, deitado em rede, noite em claro passando a vida a limpo, do nada, em esplendor, o sol me aparece preguiçoso. Não consegui ver poesia ou encanto maior. Normalmente, ficaria a admirar os primeiros raios entre árvores, ganharia o dia. Banal demais, me pareceu desta vez. Todo dia a mesma coisa. Chatura. Tanto faz a Kepler e suas leis ou Galileu atormentado pela inquisição. Passarada começa a cantar. E daí? Passarinho foi feito para cantar o mesmo e repetitivo gorjeio, dia após dia. Não canta para nós. Canta a procurar fêmea e perpetuar seus genes.

Estou mais propenso a me apegar ao caos determinístico de Einstein e Langevin.

Sempre busquei beleza em tudo. Nas insignificâncias de Manoel de Barros, nas infinitudes, suas belezas da natureza. Um paraíso de vida à nossa volta. Meus olhos se tornaram opacos.

Não foi da noite para o dia. Foi a observação. A maldade humana explícita. Roubos e desvios de dinheiro que deveria ser aplicado em saúde e educação. Fome e miséria por toda parte, enquanto alguns se banqueteiam até implodir. Crianças morrendo envenenadas por bichos por falta de assistência e negligência médica. Os que acreditava bons, altruístas, humanos, deixando-se corromper pela ganância, pelo dinheiro. Guerras, desamores.

Distancio-me cada vez mais da raça humana.

Armas químicas na Síria eliminam com dor inimaginável inocentes civis, crianças, mulheres e idosos. Jovens com uma aquarela de vida por vir, queimam em chagas abertas garganta abaixo. Morte brutal. Sofrimento. Senhores e senhoras do mundo, da guerra, discutem se devem tomar atitude. Alguém resolve espionar todos. Paranóico povo em sua solidão e isolamento

Sempre acreditei na paixão eterna, no amor sem fim. Se alguém mais caiu nessa é hora de reconstrução. Rever dogmas, inverter paradigmas. O amor aqui não existe.

Alguém disse que Deus criou aqui um experimento e nunca mais voltou.

Se Ele não acredita na sua criação, me dê um motivo para acreditar Nele!?

Ah, as religiões. Outra perversa invenção humana. Cada uma com sua certeza absoluta de que só através dela se chegará ao almejado paraíso. Assim sendo e se tantas religiões existem, vários deuses devem estar de plantão. Ou desconectados. Quer Deus? Procure no Face, no Twitter.

Dirão que é questão de fé. Então, ao mesmo tempo em que deixei de acreditar em Deus, também perdi a fé. Um pequeno substantivo feminino, definido como “adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro”.

A vida um jogo. Sem regras ou manual de instrução. Os tropeços nos desgostos vão se acumulando de tal forma que o fardo se torna pesado demais a suportar. Recorre-se a Deus e ele, infalível, não dá as caras. Sem historinhas de anjo retirando água do mar com dedal e jogando em buraco de areia com intuito de secar o mar. Não cola mais.

Ando amargo. Penso no reencontro com o Altíssimo e rezo, exatamente, rezo em conversa com Ele, para tentar entender tamanho desprezo divino.

Converso como se conversa com um pai. Amargura e dúvida.

Amargo? Amargo é jurubeba. Cansei. Agora Serei ateu, graças a Deus.






Publicado Jornal Correio em 3/11/2013

quinta-feira, outubro 24

Escorpião

Longos 30 anos de experiência e quase nada sei do bicho. Sua inacreditável capacidade de adaptação aos mais hostis e estranhos ambientes torna-o uma obra-prima da evolução. Algumas espécies, nem se dão ao luxo de procurarem par. Não carece namoro, nem acasalamento. Passou da adolescência, chegou à idade adulta e pronto: do nada, ficam prenhas e parem montes de filhotes, duas, três vezes ao ano.

Em hipotético cálculo matemático: um único escorpião que fez de sua reprodução a partenogênese pode gerar em longeva vida aracnídea quase 7 milhões de descendentes se nenhum morrer ao longo dos anos. Hipotético, repito: alívio nosso. Com eles até o pescoço, caso feito procriador se realizasse à risca, seríamos forçados a viver nos polos, únicos lugares onde não são encontrados. Nesse mundão de tão variados ambientes. Assim, só teríamos que temer ursos polares e nossa fértil e fantasiosa imaginação, mestre em criar fobias, paranoias e divindades protetoras. Das frescas matas a tórridos desertos, do ponto mais alto de montanhas gigantescas, pilares da terrena celestial abóbada, a profundas fendas e cavernas, esbarraríamos com danado. O gênero humano estaria fadado a desaparecer com os Leões das cavernas e Quaggas.

Mas nem por isso nos dão paz. Corrijo. De tanto importuná-los com nossas mazelas de criaturas (des)humanas, os obrigamos, por total falta de opção, a buscar refúgio como sinal de vingança, exatamente junto a nossas moradas. Como animais de estimação os tratamos. Com carinho, fornecemos-lhes em abundância: alimento, abrigos seguros e água em profusão, para que se banqueteiem e saciem sua voraz necessidade por umidade.

Em velocidade hipersônica, bem acima de Mach 3 passaram-se 30 anos e, a cada dia, tenho surpresas com escorpiões. Em 2007, tive a honra de ser convidado pelo Ministério da Saúde (MS) a participar da elaboração de um manual, cujo objetivo era normatizar as condutas no Brasil de manejo desse bicho que a tantos assusta e a muitos mata. O fruto de esforço de um grupo foi lançado em 2009.

Desde então, sempre a convite do MS, passamos a girar mundo, capacitando Estados. Incontáveis encontros com profissionais de saúde e muita prática de campo. Municípios também solicitam nossa ajuda e, sempre que possível, atendemos, pois salvar vidas é nossa missão maior.

Embrutecidos com relatos sobre acidentes com esses bichos, achei que tinha sentido tudo nesta vida. Ledo engano. Em nossa última expedição de captura, após treinamento, em fazenda no interior de Goiás, ouvimos relato de uma avó, cujo netinho havia morrido vítima de ferroada de escorpião. Com riqueza de detalhes impressionantes, essa senhora nos narrou minuto a minuto sua via crucis, desde a pequena localidade até o fatal desfecho do acidente, onde encontrou não recurso, mas indiferença e maltrato por parte de quem deveria tratar, amparar e consolar.

Uma pequena plateia de profissionais calejados com lida de situações de risco, sempre fuçando onde não deve à cata de bichos estranhos e aprendizado, permaneceu imóvel e silenciosa durante todo desabafo de dor. Passarinhos cantavam no entorno. A varanda, o chão batido e o fogão à lenha: cenário. Todos nós, alguns copiosamente, outros disfarçadamente, choramos com alma e lágrimas.
Trinta anos, pouco sei do proceder dos escorpiões. Toda uma vida e nada sei do comportamento humano. Alguns em especial.















Publicado em Jornal Correio em 24/10/2013

terça-feira, outubro 22

segunda-feira, setembro 30

Déjà vu

Vazio

Dia vazio de palavras esse hoje.
Para ressaca de lexema, nem lexotan dá jeito.
Mas se tomar durmo. Ao dormir não lembro de escrever, tentaria não aborrecer. Mas como me furtar do prazeroso unir de letras?
Injusto. Se durmo e não sonho? Nada a contar.
Crio então restaurante de letras. Cada um com seu pedido.

Poemas? Sim senhor, mas ao ponto por favor.
Crônica do cotidiano? Agradeço andam um tanto quanto indigestas, ácidas.
Conto? Não conto, me falta tempo, quero algo mais breve, ligeiro.
Haikai? Torço o nariz. Nem de longe, oleosa e sem gosto. Oriental. Não acostumo com o jeito, distante de meu gosto tropical, colorido, rico. Falta música, vento e cheiro de terra.

Falta o perfume de minhas damas-da-noite. Cheiorosas a Misturar alfazema, leite de rosas, laquê. Química enjooativa a se juntar ao meu Lancaster, a meu Gumex. Cabelos duros em pasta incolor a fingir lisos.

Falta no cardápio da triste memória a Guaigurus de tempos longe, o Rosário e sua vitrola imensa movida a moedas. O jantar/amanhecer no Scotellaro. Última cerveja da noite antes de, macambúzio, pegar o Serra Capivari 44, rumo de casa. Casa?

Prosa? Claro que quero, mas a sua. Puxe uma cadeira, encha o copo, estale os dedos, chame o garçom. Vamos falar de um dia vazio de palavras como este. Vamos falar das damas-da-noite. O que  fazem à luz do dia?


Lady and the Tramp

quarta-feira, setembro 25

República


Fico prestando atenção nas conversas de meus filhos e seus amigos, que moram em repúblicas hoje em dia. Não consigo imaginar nem de longe como são de verdade. Um reclama que a televisão a cabo só pega 45 canais, veja que absurdo. A maioria mora sozinha ou são no máximo dois por apartamento, cada um com seu quarto e seus pertences, de modo geral novos e comprados em lojas de verdade.

Outro fala da lentidão da internet e reclama da faxineira que não apareceu na semana passada. Quanto luxo. Nos tempos de escola morávamos em uma casa na antiga Felisberto Carrijo, caindo aos pedaços, com paredes grossas de adobe e pintadas a cal. Éramos muitos. Dois a três em cada quarto. Quanto mais gente melhor, pois, assim, era possível baixar os custos. Nossos móveis eram comprados de outras repúblicas que fechavam ou em lojas de móveis usados. Tudo na base da “vaquinha”. Se aparecia um candidato novo para se juntar a nós pagava joia, cota utilizada em “melhorias”. Primeiro havia uma assembleia de apresentação e, quando possível, uma breve sindicância entre colegas que o conheciam. Se rolasse um não, uma bola preta, o cara estava fora. República era, acho que ainda é, coisa séria na medida do possível.

Contam, não sei se é verdade, que uma delas, quase vizinha, resolveu declarar desobediência civil e simplesmente parou de pagar conta de luz. Alguns meses depois, naquela época a companhia de luz era mais condescendente, a energia foi cortada. Isso não inibiu os nobres republicanos, que quebraram o lacre e religaram o relógio. Assim contam, foram meses sem pagar nada, até que, descobertos, a Cemig foi lá e levou o relógio inteiro. Resolvido? Nada disso. Estudante de nossa época era meio kamikaze. Chamaram um colega da Elétrica que simplesmente fez ligação direta e, assim, foi até a entrega do imóvel. Risco permanente e iminente de a casa pegar fogo. E alguém tinha juízo naquele tempo? Não sei se esta história aconteceu ou tornou-se mais uma lenda para o vasto e rico folclore mágico que envolvia as repúblicas de nosso tempo. As festas eram memoráveis e, coitado dos vizinhos, intermináveis, principalmente ao fim de cada semestre. Mas uma coisa é certa, todos estudavam para burro.

Queríamos formar juntos e isso era acordo firmado. A vida não era fácil. Íamos para a Escola de bicicleta. Eram quatro viagens por dia, pois não tinha a moleza de um RU. Nosso cardápio era sem risco de errar: arroz, feijão e carne moída ou um bife histologicamente cortado. Na falta dela, a saída era o ovo frito. De salada, o famoso 365, nome dado ao tomate, pois todo santo dia ele estava em nossa mesa.

Meio de cada mês começava a faltar uma coisa ou outra. O cinto apertava. Nestas horas, aparecia nossa fada madrinha, Dona Noêmia. Sabedora de nossos apuros gentilmente nos convidava para almoçar, nos presenteava com um tabuleiro de lasanha. Sempre atenta. Coração imenso e gentil, a ela devemos muito.
Tanta história para contar. Aos poucos, conto. Relembrar é viver. Quanta originalidade nessa expressão! Aguardem.





Publicado Jornal Correio em 25/09/2013




segunda-feira, setembro 23

Abuso

Risca o céu, queima a terra
Sobram escombros, ruínas, cinzas




Foto: w h stutz - Divisa de Goiás e Minas. 10 horas,  41ºC

Grande sertão: veredas?



Tomo emprestado de Guimarães Rosa título, a interrogação é minha. Li, estarrecido, na coluna Confidencial de nosso CORREIO de Uberlândia em 5/9/2013, a nota “Veredas em risco”, sobre a aprovação em segundo turno pela Assembleia de Minas, projeto que modifica a Lei Florestal Mineira. O jornalista Arthur Fernandes nos conta: “Um dos itens prevê a possibilidade de formação de barragens em áreas de vereda”. Trata-se da manutenção do artigo 13, inciso I, letra g, e artigo 12, parágrafo 3º.

Tenho quase certeza absoluta de que esses senhores e senhoras, deputados e deputadas, que votaram a favor dessa barbárie, nem ideia têm da importância das veredas para a região em que alguns nasceram.
A turma do ICMbio nos conta: “as Veredas exercem papel fundamental na manutenção da fauna do Cerrado pois atuam como local de pouso para a avifauna, de refúgio, de abrigo, de fonte de alimento e de local de reprodução, também para a fauna terrestre e aquática”. Vai além: “Também são comuns (as veredas) numa posição intermediária do terreno, próximo às nascentes (olhos d’água), ou na borda de matas de galeria. A concorrência da Vereda condiciona-se ao afloramento do lençol freático, decorrente de camadas de permeabilidade diferentes em áreas sedimentares”.

Beleza; contudo, ao mesmo tempo em que enaltecem a importância da vereda, será que se calarão diante desse descalabro, desse assassinato legalizado de mais um frágil bioma por um monte de gente de terno e gravata que se diz nosso representante? Será que estes deputados, acostumados a respirar ar-condicionado, têm noção de que a vida no Cerrado depende visceralmente dessas áreas em especial? Números, os números, isso eles provavelmente entendem: no Cerrado vivem 935 espécies de aves, entre as quais 148 são específicas dessa área, cuja maioria está simplesmente ameaçada de desaparecer.

Aqui deixo um agradecimento especial para Liza e Elismar Prado, que votaram contra tamanha violência. Faço isto, mesmo sem procuração e em nome dessa Arca de Noé tropical, repleta de emas, seriemas, jaós, nhambus, corujas-orelhudas e primas buraqueiras. Repleta também de delicados caburés, araras-azuis, canindés, bandos de papagaios, maritacas e periquitos, além de antas, guaribas, gatos-maracajás, jaguatiricas, lobos-guarás e onças-pintadas, entre centenas de outros bichos e plantas sem voz. Ainda existe gente humana falando pelo nosso acabrunhado e espoliado ecossistema, batendo de frente com poderosos lá na capital.

Se a situação não se reverter, daqui a pouco haverá só buritis a morrer em desespero com as raízes atoladas em águas de barragens, mais uma vez descaracterizando a face de nossos horizontes. Milhares de nascentes e olhos d’água simplesmente desaparecerão. Não bastassem plantações de cana com incêndios criminosos. Outro dia fui testemunha ocular de uma visão do inferno em Araporã. Ouvi nitidamente o grito da terra, o cheiro da morte, o voar desnorteado de aves chamuscadas, condenadas à lenta agonia da dor física e à perda de cria. Fogo e água a decretar o fim de mais um refúgio sagrado da natureza.

Cinco de setembro, por mal dos pecados, foi meu aniversário. Pode ter certeza, não era exatamente esse tipo de presente que gostaria de receber de políticos, que nem ao menos nos conhecem e enviam seus cartões impessoais cheios de cores e votos de muitos anos de vida.

Publicado Jornal Correio em 22 de setembro de 2013








terça-feira, setembro 17

Ninhal I

Achou mais um canto de varanda. Cadê coragem para não deixar ficar? Pois que fique e crie seus filhotes ! Clica na foto para ver de perto

segunda-feira, setembro 16

Lua de setembro

Lua a espiar o dia, clica para ampliar


Foto de Bia Stutz em 15 de setembro 2013