quinta-feira, abril 19

Beto




E Beto morreu. Calma, sem maiores traumas. Beto era o peixe de meu fi lho. Na realidade
era o peixe da casa, de todos. Desde que nossa cadela Laica morreu, a palavra “pet” lá em casa estava proibida. A bela rottweiler ficou com a gente 14 anos. Morreu de velha, calmamente e sem sofrimento. Um belo dia, simplesmente resolveu partir, assim sem aviso prévio, sem escândalos. Ficou sim um vazio silencioso em todos nós. Passados alguns meses sugeri que era hora de ter outro cão. Quase caí de costas com o uníssono NÃO saído de três bocas. Sugeri primeiro um terrier americano ou um bom e fiel viralatas, mostrei fotos e sites de criadores.

A beleza e tenacidade da raça não sensibilizou ninguém. Cachorro grande nunca mais. Senti que havia abertura, era só diminuir o tamanho.

Com jeito e devagar trouxe a ideia de adquirir um bull terrier. Era menor, ótimo cão de guarda e companhia. Torceram o nariz. Que tal um dachshund, um jack russel, um fox paulistinha? Apelei para um bichon frisé, de 30 cm. Certo, um ramster, uma iguana? Família irredutível era mais fácil eu sair do que entrar outro bicho. Foi aí que, em belo sábado, em loja de produtos agrícolas, vi, encarcerado em ínfimo aquário com planta de plástico, um belo e agitado betta, também conhecido como “peixe de briga”.

Originário da Tailândia, carregava consigo a beleza das cores orientais, movimentos graciosos de imensa cauda. Parecia levitar em seu cubo. Mágico. Não deu outra, comprei-o e, alegre, levei-o para meu filho. Ele, às vezes, era meu cúmplice no que se referia a cães.

O impacto inicial foi geral. O não a pets mantinha-se irredutível como cláusula pétrea de um código não escrito. Sobre protesto lá ficou o peixe. Aos poucos todos foram chegando. Não raro alguém lá estava a admirar as manobras silenciosas em câmera lenta do bicho. De betta a Beto foi um pulo. E lá betta é nome? Batizou- se em suas próprias águas. Virou Beto. Ganhou todos nós. Já deu comida para o Beto? Já trocou a água de Beto? Tadinho, esse aquário é pequeno demais!

E assim Beto entrou para a família. Tempo passando inelutável. Belo dia, a notícia:
Beto morreu. Assim do nada, virou barriga para o céu e fim. Como todo bom peixe de aquário que se preze, Beto teve enterro digno e comum aos seus. Foi ritualisticamente colocado no vaso sanitário, e assim, dividido em milhares de pequenas partículas, pode iniciar viagem retorno, cruzando cósmicos oceanos, até um dia chegar à imensa barreira de corais, onde finalmente será filtrado por um deles e lá se fixará para todo o sempre, feliz em águas tailandesas, maternalmente cálidas e acolhedoras.

Um dia todos nós faremos viagem assim, rumo ao mesmo oriente, entre estrelas de brilho luz/diamante. Destino: para ponto de luz seguirá nossa energia até, quem sabe, ser absorvida por buraco negro e lá permanecer por todo sempre em total repouso, descanso e segurança.

Não sosseguei. Chego em casa com colorido casal de lebistes, sem falar nada com ninguém e antes que se instalasse novo luto animal. Ter bicho em casa por menor que seja harmoniza e alegra.

Assim, fica a passarada e micos soltos alegres no quintal, nas árvores com seus ninhos cantos/chios e cores, e, dentro, nossos novos moradores hipnotizam e acalmam com seu constante nado sincronizado em um ir e vir sem fim. Parecem felizes e isso basta.







Publicado no Jornal Correio em 19 de abril de 2012

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3 comentários:

Eduardo disse...

muito bom!

Clarice Villac disse...

Adorei a história !

Amor, Ternura, bom humor !

Lebistes, em casal, são muito lindos e criam família, é uma alegria ver nascer os filhotinhos !

Ver como vão misturando as cores !...

Felicidades pra vocês todos !

w h stutz disse...

Eduardo
Obrigado pelo gentil comentário

Clarice,

E não é que já nasceram filhotes? Ela veio prenha e os pequenos são ligeirose afoitos, tem que separar senão os pais os comem.