segunda-feira, fevereiro 22

Fantasia



Foto da protagonista da cronica por William H Stutz
Meu já conhecido hábito de observar as “insignifitudes”, para mais uma vez abusar de palavras de um dos maiores gênios da literatura brasileira, o mestre Manoel de Barros, me fez seu seguidor e com ele me sentir um “Apanhador de desperdícios.” Continuo a recitar mantra de Manoel: “Tenho em mim esse atraso de nascença./ Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos./ Tenho abundância de ser feliz por isso.”

Como bom cristão que reza, como bom pastor que pastoreia, pescador que lança rede ou simples/complicado como ser vivente que vive, esta terça de Carnaval existiu para me provar crença no belo que poucos enxergam, olham, veem (ortografia nova horrorosa, sem acento tipo chapéu Deerstalker). Tem dia que existe só para nos mostrar algo especial, que a vida vale o respirar.

Ando a sofrer com excesso de passado. Digo sofrer, pois é assim mesmo, “dilorido”/lamentoso atoleiro de lembranças. Areia movediça mental, quanto mais mexe mais fundo se vai. Quando dei por mim estava tão longe que até preguiça de voltar deu. Foi quando faceira ela borboletou casa a dentro. Quietou meu debater e a segui com a alma. Imaginei chegando das festas ou saindo para acompanhar bloco. Não, era novinha de roupagem e vida. Tinha acabado de sair de hibernação transformadora. Como sei? Ora, ela deitou pouso em parede branca e vagarosamente se pôs num abrir/fechar de asas. Tinha que secá-las para poder alçar voo de verdade.

Seu tempo de beleza é curto. Algumas poucas semanas. Se tiver sorte, um mês. Diferente dos humanos, se torna bela e assim se vai. As marcas do seu tempo não se dão em rugas ou casmurrices, mas em uma perda ligeira de brilho, imperceptível ao olhar comum, posto que poucos vão por atenção nela mesmo. Esta pequena joia me arrancou do mar de pensamentos e me trouxe de volta. Como “Quasimodo” de Victor Hugo ou Ferdinando, o touro de “Munro Leaf”, popularizado pelo desenho animado de Disney, me deixei levar pela miúda e estonteante beleza. O melhor antidepressivo é a contemplação. Me acode muito.

A propósito, o termo “excesso de passado” foi garimpado em publicação do Face. Garimpado sim, pois a grande maioria do que se vê ali segue a linha da falta de fonte, do “diga amém e compartilha”. Visito o Face como leria um antigo almanaque do Biotônico. Pouca ciência muita tolerância, muita informação desnecessária.

Carnaval. Concordo, sou ruim da cabeça e doente do pé, mas tento ser um bom sujeito. Não fico por aí a maldizer o ritmo. Gosta? Aproveite e se esbalde em “chuva suor e cerveja.” Não gosto de Carnaval plastificado, de camelô. Não consigo me imaginar vendo um desfile na televisão. Vi um, há vários anos atrás. Pelo que contam, vi todos. Muda nada.

Minha pequena visita aprumou e voou rumo a goiabeira. Foi procurar amor de sua existência. Tinha pressa de perpetuar a espécie. Sofria de “excesso de presente”. Tinha o que fazer. Desejei-lhe boa sorte, cantarolei marchinha que Tavinho Moura puxou um dia em Carnaval de praia, em um Espírito Santo de águas frias e limpas: “A minha fantasia ninguém muda. Esse ano vou sair de Buda, vai ser Buda prá lá, vai ser Buda pra cá (…)”

Penso agora em “excesso de futuro”.








Em Jornal Correio 21 de fevereiro 2016




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