sexta-feira, agosto 19

Infância


"Um caminhão carregado de doces foi saqueado por volta das 23h desta quarta-feira (28), na BR-365, próximo ao km 644."
Jornal Correio caderno Cidade & Região de 07/2011
Infância difícil. Vivia na roça, rotina de adulto. Madrugava todo santo dia. Acordava não, era arrancado da cama pelo vozeirão do pai: — Bora menino, já faz hora!

O café requentado na chaleira dormitava sobre a chapa morna do fogão a lenha. Gole ligeiro, um biscoito frito da lata e pronto. Já estava calçado e vestido.

Rumo ao curral apartar bezerro e depois tirar leite. Não foi uma, nem duas vezes, que dormiu com a cabeça encostada no vazio das vacas magras pela seca prolongada. O pasto findo aumentava mais ainda o trabalho. Depois de secar as vacas era hora de picar cana e servir no cocho, capinar roça, preparar chão para a chegada, sabe-se lá quando, das águas. O pai passava perto, olhava, tomava a enxada de sua mão, encabava de modo certo, olhava torto, sem raiva, sem nada. Raramente trocavam palavra. Mas sabia que podia contar com ele para o que desse e viesse. Era o jeito dele, sisudo, cabisbaixo, um homem só em si mesmo.

Não conhecera a mãe, dizem que morreu quando nasceu, nas mãos de parteira. O pai o criou sozinho, filho único.

Se lhe perguntassem quando era seu aniversário não saberia dizer. O pai ainda não o tinha registrado e, portanto, não podia ir à escola, um dos seus grandes sonhos. Quando em vez criava coragem e perguntava olhando para o chão, nervoso, se ia poder estudar, riscando a poeira com graveto de goiabeira. O pai, monossilábico respondia sempre:
- Logo...

E assim seguia a vida. Ordenha, capina, cura de umbigo de bezerro novo, fruta no pé, banho de córrego, pesca de lambari, sono de jacaré.

Dia de matar porco era festa. Junto com uma tia que vinha visitá-los de quando em vez, fritavam carne, guardavam em lata com manteiga e faziam sabão de soda. O almoço nesse dia era farto de comida e até sobremesa. A tia fazia doces maravilhosos com tudo quanto é fruta que havia. O que ele mais gostava: doce de figo. Não se cansava nunca de raspar com caco de telha, um a um, a baciada de figos.

Um dia o pai chegou manso e chamou:
- Vamô pra cidade fazer registro, chegou hora de estudar.

Ele não sabia se ria ou chorava, de tamanha alegria, só não demonstrava nada para o pai não mudar de idéia. Por fora a mesma expressão, por dentro, explosão. A pressa foi tamanha que vestiu a camisa do avesso e as botinas trocadas, o que, surpreendentemente, arrancou sorriso breve de seu pai.Fez que nem, sorriu ligeiro. Na estrada para pegar ônibus topou com cena surreal:
No preto do asfalto só se via cor. Tapete deslumbrante de vermelho, azul, amarelo, verde ouro e prata. A estrada cintilava como se estrelas coloridas tivessem caído do céu e espalhado doce chuva de balas, chocolates, pirulitos e bombons por todo o caminho.

Aquilo não podia ser de verdade! Era mágico.

Sem pensar duas vezes agachou manso e tomou nas mãos uma balinha de papel dourado. Tremendo a colocou na palma da mão e admirado, fechou os olhos imaginando seu sabor. A boca encheu d’água. Apertou-a entre os dedos como se medo houvesse daquela jóia lhe escapar ou pior, ele acordar e descobrir que nada daquilo era real.

Um vozeirão familiar o trouxe de volta:
— Deixa aí, não é nosso.
Envergonhado largou a balinha, não sem antes cheirá-la com muita força, enchendo os pulmões com aquele cheiro doce que o acompanharia pelo resto de seus dias. Seguiu caminho sem olhar para trás.





quarta-feira, agosto 17

Copa de 2014

Frase que rola na web

"Contagem regressiva para Copa 2014: Faltam 3 anos, 12 estádios e 1 seleção"

terça-feira, agosto 9

Arca

Em revistapiaui.estadao.com.br

Recall de besouro





Deus fará recall de besouro

O Misericordioso fez questão de lembrar que, no mesmo dia em que criou o besouro, projetou também o vaga-lume. “A média é boa”, disse.


PARAÍSO – Em entrevista coletiva, Deus Pai admitiu que o besouro não deu certo. “Vocês precisam reconhecer que o Meu deadline era muito apertado”, disse, referindo-se aos sete dias da Criação. “Comecei do zero, nem business plan Eu tinha”, justificou-se. Depois de receber um relatório do departamento de marketing divino que indicava um alto índice de insatisfação com a performance do inseto, o Misericordioso usou o Seu dom de ubiqüidade para vistoriar todas as varandas e terraços do planeta. Em pouco tempo, constatou que mais de 50% dos besouros estavam de costas, agitando as patas em desespero, e decidiu pelo recall da espécie. “A idéia é introduzir uma manivelinha no exoesqueleto do bicho, para que ele possa se virar sozinho”, disse o Todo Poderoso, sem esclarecer como o animal acionará a manivela já que não possui polegar opositor. “Estamos atentos para o problema”, disse o vice-diretor de Criação, “e, se for o caso, podemos até dotar o besouro de um polegarzinho.”

O Céu também trabalha com a hipótese de extinção. Entretanto, Deus Pai esclareceu que isso não signfica que descontinuará toda a linha de insetos coleópteros. “São mais de 350 mil espécies, e nem todas deram errado”, disse, dando como exemplo a joaninha. Nosso Senhor pediu aos setores mais organizados da sociedade que ajam com responsabilidade e não aproveitem a situação para pressionar a burocracia celeste em defesa de seus interesses particulares. “Não vamos acabar com a barata”, sublinhou o Senhor, “ela é um dos meus melhores projetos.” Aquele Que Se Fez Carne encerrou a coletiva reclamando que a imprensa tem a tendência de só dar notícia ruim. “Por que vocês não falam da pantera, da águia ou do Roberto Justus?”, perguntou, “é tudo coisa minha.”

Publicado na [Revista piauí] pra quem tem um clique a mais

segunda-feira, agosto 8

Dona Joana



Domingo, dia 14 de agosto no Circo Voador a partir das 14hs (oficinas e palestras).
Programação musical a partir das 19hs.
Classificação Livre até as 19hs. após, 18 anos.

confirme sua presença pelo facebook e ganhe os parabéns, clicando AQUI

SAIBA MAIS EM www.circovoador.com.br/culturadigital

--
Gui Stutz

Conhece a DONA JOANA?
www.bandadonajoana.com.br (aqui você baixa o CD)
www.youtube.com/bandadonajoana (e aqui você vê nossos vídeos!)

sábado, agosto 6

Juízo Final


“Depois, disse o SENHOR a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de mim nesta geração.”
Gênesis 7

Nem tudo ia assim tão bem pelas bandas do grande irmão do norte. Talvez influenciados por esperteza tropical, em que se definiu que não haveria mais certo ou errado no ensinar língua pátria. Lá, foram mais longe ainda e resolveram abolir a escrita cursiva. Argumentos não faltaram, inclusive o hipócrita discurso de preservar florestas, pois deixaram de produzir papel e lápis. Pensou-se também em abolir matérias como Geografia e História, mas pesquisas demonstraram que estas já haviam sido extintas na prática há muito tempo. Para os “Brothers”, Buenos Aires sempre foi e sempre será a capital do Brasil, assim como, no inconsciente coletivo, eles derrotaram as tropas vietcongs com facilidade e só precisaram de um Rambo para tal.

“Bom dia, Vietnam” para eles é um hino de conquista. Quando perguntados o que achavam de outros países, a maioria, espantada, respondia com outra pergunta: “existem outros países?”

O que não se esperava era que, já acostumados a uma linguagem própria, o internetês crescesse vertiginosamente superando em anos luz o esperanto, que vinha tentando ganhar adeptos desde meados do século 17 d.C. A linguagem nas redes tomou conta do mundo em menos de duas décadas. Se uma risada era “lol”, “rss” ou “jajaja”, de uma hora para outra, o mundo inteiro passou a utilizar o “kkk” e assim foi com todas as outras palavras. Como microrganismos, foram entrando em todas as máquinas do mundo e, em pouco tempo, universalizou-se uma linguagem sem pé nem cabeça e, pior, sem som. Sem som, porque as pessoas pararam de conversar e os contatos passaram a ser feitos apenas por digitação.

Falar tornou-se obsoleto. Escrever partituras? Nunca! Os Loops Studio da vida davam conta de orquestras completas ao alcance dos dedos e de todos. E o homem passou a se sentir divinamente superior a tudo. De sua mesa, com seus fios, reinava soberano. De encomendar pizza a declarar guerras, a vida se tornou totalmente virtual e globalizada. Foi quando resolveram desenvolver um software livre, o Office_stairway_2_heaven 1.0, para chegar ao Criador. Assim, poderiam conversar de igual para igual com Ele, discutir alguns detalhes da condução da vida e fazer reivindicações.

Foi o estopim, a gota d’água que faltava. Deus ficou tão P da vida, tão de saco cheio com a desordem e presunção humana que resolveu dar um basta, pôr um ponto final naquilo tudo e desceu a mutamba.
Por séculos, observava aquele furdunço e, mesmo com toda a sua santa e infinita paciência, percebeu que até o próprio infinito tem limites. Com as mãos no teclado de onde fazia valer sua onipresença, pensou primeiro em dar um Ctrl+Z geral e desfazer todo processo evolutivo de sua obra. Analisando com calma, achou melhor implantar um vírus no sistema mundial e detonar tudo criado naquela nova Babel.
Não seria má ideia, mas, agindo desse modo, o Criador estaria muito próximo de imitar a própria criatura e isso não Lhe parecia correto. Resolveu, então, fazer à moda antiga. Mandou água com vontade por 40 dias e 40 noites, só que, desta vez, todos os homens e mulheres verdadeiramente justos e de fé estavam offline. Dessa forma, não houve um Noé a avisar nem arca a construir.




Publicado no Jornal Correio em 06/07/2011

sexta-feira, agosto 5

Gente

Sou mestre em apresentar pessoas e estas construirem laços forte.
Ao mesmo tempo, meu jeito, me faz mestre em perder pessoas assim do nada,
Acho que sou muito esquisito. Ser social cansa.
Mas os poucos e verdadeiros, que dominam a arte da leitora de alma conseguem entender.
Ficam eternos

Ver-te

Nem tão longe, nem tão perto
sigo ao lado, desperto
O silêncio lembra desprezo
É apreço

Me aquieto remoendo passado
Não acrescenta, só aumenta
vontade sentida de ver-te

suor orvalhado em colchas coloridas
O tremor de mãos, os arroubos, furacão,
Vontade sentida de ver-te,

Sinto imaginário, perfume Vert
Frutado, incorpado, floral
Vontade sentida de te ver

quinta-feira, julho 21

O cascateiro



O CORREIO publicou outro dia, crônica de autoria deste que vos fala: “Sofomania”. Após o ocorrido, recebi algumas tantas mensagens de pessoas que se deram ao trabalho de ler o texto. Alguns elogios, outras tantas criticas, questionando meu modo de escrever. Alguns foram diretos e logo avisaram que não entenderam nada, que eu estava meio metido a besta e usando palavreado complicado. Reli o dito. Sinceramente não achei assim tão não. Mas prometi; reescreveria o texto de maneira que pudesse ser, digamos, mais facilmente entendido seguindo a tendência da educação que busca caminho mais suave, sem trocadilhos, e até da televisão que vai simplificar a linguagem. Espero que nosso CORREIO não se incomode de publicar esta nova versão.

Sofômano é aquele sabe tudo, no argumento ou no grito. Se o assunto é carro, ele logo soltava seu palpite: se conseguir apertar a arruela, que fica debaixo do estufagador, o carro vai colar no chão nas curvas e derrapar menos.

Jamais discorde de um cascateiro, nem que a vaca tussa. É chover no molhado e a conversa acaba logo ou em briga.

Se a prosa for futebol, aí vira um Deus nos acuda. Seria o mesmo que convencer Atleticano a torcer para Cruzeiro, ou Colorado comemorar gol do Grêmio. Mas ele vai tentar, aposto. Entende de tudo que é esporte. Porque os técnicos não lhe dão ouvidos? Queixa-se.

Um dia falamos de física quântica, que é aquela que não estudamos no colégio e que depois ou se apaixona, meu caso, ou passa a considerá-la coisa de ficção, bruxaria.

Foi bolada por Max Planck que por uma dessas coincidências do destino, era físico. A “catástrofe do ultravioleta”, não é enredo de escola de samba, é uma teoria que mistura eletromagnetismo, tipo assim coisa de imã, e coisas térmicas, que nem garrafa de café. Não é bem isso, mas vá lá. E o senhor Raylegh-Jeans que criou a tal catástrofe, não inventou a calça Lee ou Levis, era também, outro físico. Povo danado esses físicos.

O único assunto que fazia o cara ficar quietinho era quando a conversa ia para o lado de nossos amores, nossas namoradas, nossas paixões. Podem notar, o cascateiro é via de regra um cara só, nunca tem ninguém. Também pudera já pensou casar com uma pessoa vacinada com agulha de vitrola? Se for homem vai querer ensinar médico fazer parto da companheira. Se for mulher vai virar o espeto do churrasco a todo momento e ainda tentar convencer que a carne boa é a esturricada e seca e que cerveja é amarga demais. Como se pode gostar disso?

Mas o que eu queria mesmo contar é que as eleições podem parecer distantes, mas estão aí beirando. Temos obrigação de pôr atenção em quem vamos votar. Cuidado com aqueles candidatos que, como o personagem da história, cantam de galo, dizem que sabem tudo e que no estalar de dedos os problemas estão resolvidos. Que se dizem competentes por serem jovens, ou que se dizem velhos e, portanto tudo sabem. Aqueles que prometem mundos e fundos, de férias na praia a vaga no paraíso, fuja deles. Atenção redobrada na história de cada um. Atenção! De resto era esta a ideia.

Se compliquei, desculpe, mas quando escrevo não domino meus dedos, nem meus pensamentos, não os policio, nem os censuro, sai o que sai. É isso. Ah! Charles De Coster foi um novelista belga. Manoel Bandeira um grande escritor brasileiro e sua Pasárgada, um sonho.




Publicado no Jornal Correio em 21/07/2011 - clique abaixo

sexta-feira, julho 8

Sofomania

Não havia assunto que não dominasse. Sabia de tudo, e muito. Se a prosa fosse sobre carros, não perdia tempo em descrever detalhes mecânicos, potências, cavalos e defeitos. Ah sim, defeitos. Para tudo que alguém mencionava havia um defeito que só ele percebera. Nem os técnicos mais experientes, projetistas mais renomados, podiam com seu olhar crítico e conhecedor:
— Se aquela manivela estivesse mais inclinada, a força do vento que entra pelas fissuras do chassi, deslocaria e a força centrípeta e aderência seria melhor.

Ninguém se atrevia a discordar; Primeiro que, ninguém, nem os especialistas entendiam bulhufas dos argumentos do cidadão e mais, se um olhar, uma expressão por menor que fosse desse a entender que discordava, aí sim virava bicho. Além da verborréia costumeira subia também o tom de voz, passava quase a gritar, como se o esbravejo pudesse impor vontade.
Conversa de suspiros. Cansativo monólogo.

Se o assunto era futebol, meu santo protetor de ouvidos maltratados, o cara conhecia tudo. Até hoje não sabemos como não foi escalado para técnico da seleção brasileira de futebol e também é claro, da seleção nacional de basquete, vôlei, pólo aquático, salto com vara e até nado sincronizado.

Era divertido. Quando não tínhamos absolutamente nada para fazer, logo vinha um e jogava a isca, puxava assunto mais sem pé nem cabeça para a hora. Certa vez foi física quântica. Pelo que dele ouvimos deu a entender que Max Plank poderia ser seu assistente, e que a “catástrofe do ultravioleta”, definida pela fórmula de Raylegh-Jeans, seria criação sua.

Mas havia sim um assunto em que se fazia calar. Quando falávamos de amor, de sentimento, do querer ao próximo, de beleza e simplicidade. Não vinha de lá um murmúrio, um rosnar, um comentário. O sofômano é solitário e infeliz.

Novo ano aproxima a galope e é de importância ímpar para nós munícipes. Temos um prefeito e vereadores a eleger. Posso parecer precipitado, afinal ainda se faz julho. Mas é desde agora que temos de prestar muita atenção nos sabe-tudo que aparecem como heróis salvadores da pátria. Muitos querendo se passar por sábios, donos de fórmulas mágicas para problemas crônicos da humanidade. Megalomaníacos de plantão, com projetos e soluções para tudo, de unha encravada a trem bala ligando Uberlândia à Disney, a Brasília, a Terra do Nunca, ou a outra imaginária Pasárgada. Não aquela de Manuel Bandeira, pois o objetivo é ser o rei e não amigo dele.

Atenção especial na sensibilidade, no caráter, na postura humana e no poder de doar, pois aí questionados, os sofômanos de plantão se calarão, não terão ação, opinião ou posição clara. Destes pelo menos poderemos nos esquivar, e fazer escolha certa, como no maravilhoso poema de Bandeira, seremos felizes para fazer ginástica, andar de bicicleta, montar burro brabo e subir em paus-de-sebo.

Não que queiramos ser amigos do rei. Queremos e merecemos que o “rei” seja justo e governe com clara firmeza para o bem comum. Não podemos nos deixar levar por embromações, em conversas sem fim, de gente que só escuta o ego, e olha apenas para o próprio umbigo “achando feio o que não é espelho”. Disse Charles de Coster: “Ó respeitáveis enganadores que troçais de mim! Donde brota a vossa política/Enquanto o mundo for governado por vós?” Escuta Zé, escuta.




Publicado no Jornal Correio em 08/07/2011, clique abaixo


terça-feira, julho 5

Ano do Morcego

Fundamentais para a natureza


Por meio de seu programade Meio Ambiente, a ONU se esforça para modificar o conceito que a maioria das pessoas temdos morcegos. Excelentes polinizadores e disseminadores de sementes, esses mamíferos são essenciais à preservação do ecossistema

Veja instrutiva e rica matéria sobre os morcegos no Correio Braziliense clicando AQUI

quinta-feira, junho 23

Educação pela dor

Imagem da web

Os enigmas impressos em uma obra ficcional, a afinidade com a temática e o estilo, acendem no leitor a curiosidade legítima por conhecer o homem por detrás da obra, sobretudo, as doenças, as neuroses, as inadequações que marcaram sua existência. Daí nasce o nosso gosto pela leitura de ensaios biográficos ou autobiográficos. Dessa forma, através de diários, cartas, esboços de textos, aproximamo-nos da intimidade de um Franz Kafka, por exemplo, homem escrupuloso, complicado e cheio de neuroses que, sendo judeu, viveu no contexto antissemita da cidade de Praga, onde nasceu e morou a maior parte de sua vida.

O sentimento de Kafka, revela-nos o romancista Louis Begley, um de seus biógrafos, era o de ser um intruso: na sociedade preconceituosa de sua época, na sua própria casa, onde vivia obcecado pelo medo do pai, na sua própria pele, descontente com sua imagem corporal. Diferentes suplícios o afligiam: era hipocondríaco, tinha dificuldades para dormir, pesavam-lhe as insatisfações com o próprio corpo, repugnava-o a intimidade sexual e o comer carne, literalmente, era-lhe odioso.

Nosso autor escrevia amiúde para Felice Bauer, uma jovem alemã com quem trocou copiosa correspondência e de quem chegou a ficar noivo, após cinco anos de namoro. Mas Kafka acaba rompendo o relacionamento, e desabafa: A vida é meramente terrível, sinto isso como poucos. Begley chega à conclusão de que a claustrofobia do mundo, tão bem retratada na ficção do autor, espelhava a de sua própria vida.

A existência atormentada de Kafka levou-o a refugiar-se na literatura, cujo impacto sobre o leitor é concreto, profundo, estranho e absurdo. Para o autor de “O Castelo” e ”O Processo”, um livro tinha que ser um machado para o mar congelado, existente dentro de cada um de nós. Esse era, verdadeiramente, o ideal literário de Kafka, cumprido à risca. Suas dificuldades na esfera sexual foram barreiras que ele nunca chegou a transpor. Embora obcecado pelo desejo sexual, os sentimentos de medo, a insegurança, a vergonha do próprio corpo, impediram-no de concretizá-lo. E a relação platônica com Felice Bauer, com quem trocou cerca de setecentas cartas, acabou rompendo-se.

Calcado no estilo de Kafka, no poder de sua narrativa singular, o adjetivo kafkiano ganhou vida própria. Para o psicanalista Enrique Mandelbaum, … kafkianas são situações que se dão em diversos níveis. É a burocracia que entrava e compromete a singularidade e a subjetividade, é o poder desumanizado… e por aí vai. O prezado leitor, certamente, já viveu algo kafkiano na própria pele. Não por acaso, Kafka baseou suas narrativas em parábolas, lendas e mitos – tudo isso constituindo um poderoso e contundente material de denúncia contra o absurdo e as armadilhas grotescas do poder e da burocracia. A nós, seus leitores, resta-nos persistir na resistência continuada, ainda que todas as vozes circundantes gritem aos nossos ouvidos que o caminho é longo, labiríntico, impossível.

O psicanalista Jacques Lacan já dizia que o ser humano é um efeito da linguagem e as formações do inconsciente são estruturadas e reguladas pela linguagem. O próprio Freud rendia uma homenagem especial à poesia, por percehttp://www.blogger.com/img/blank.gifber nela um instrumento de interpretação dos processos psíquicos, pela sua densidade, pelo seu alto poder significante. Os efeitos do trauma no psiquismo levam à produção de sintomas, cuja resolução vai depender da possibilidade de o sujeito representar (simbolizar) o traumático que, dessa forma, deixa de ser um “corpo estranho”, para ser mastigado, digerido, elaborado. Shakespeare (in Macbeth) afirma: …Ponha em palavras o seu sofrimento. A dor que não fala termina por sussurrar a um coração sobrecarregado, pedindo-lhe a explosão.

Shyrley Pimenta


Publicado no Jornal Correio em 21 de junho de 2011 (Aqui em pdf)

Texto publicado com autorização da autora

quarta-feira, junho 22

Explosão de vida

E assim como se nada desejasse,
silenciosa e discreta, se fez viva.
Retorcida e em camadas saiu de sua capa protetora.

Agora, livre colocada a meio sol
aguarda momento exato
de secar coloridas asas e voar

Jóia da criação
Leva nossos mais profundos desejos e sonhos
Leva para longe mau agouro e gordos olhos

Retorna esperança e bons fluídos
Retorna esperança e alegria
Viva vida livre e em paz
Vá ! Seja feliz

Veja mais fotos da nossa mariposa AQUI

Óculos ?

Qual é! Sem essa! Quem aqui precisa mudar de óculos ???

Na vista

Chega um período da vida que temos que reavaliar as coisas. Das mais complexas aos corriqueiros fatos do cotidiano. E, digamos, o uso de certos acessórios que de opcionais se tornam obrigatórios. Listando alguns: caderneta pequena e caneta para guardar lembretes do que se tem por fazer na manhã seguinte. Tipo: não esquecer de levar a máquina fotográfica para o laboratório, pois aquele escorpião diferente deu cria e o registro tem que ser feito. Fazer cópia da chave do portão, pois a minha deixei em algum lugar que, como não usei a caderneta, esqueci para sempre. E um item que jamais deve ser esquecido em hipótese alguma, seu bom e velho par de óculos. Aliás, nunca entendi bem por que par, sei que são duas lentes, mas o objeto em si é único, seria como dizer par de sutiã ou, como dizem os gringos, par de calças. Mas não vem a este caso.

Certa feita, fomos ao restaurante animados para provar algo diferente. Uma prosa antes e pedimos o cardápio. Aí começou o drama. Na pressa de sair, pois nem para jantar a princípio era, nenhum de nós levara óculos. E sem eles nem com o mais longo dos braços conseguiríamos ler letra que fosse. Ali, bem na nossa frente, uma profusão de cores e letrinhas embaçadas que mais pareciam carreiro de formigas, das pequeninas que assombram cozinhas, em confusão se faziam apresentar. Com certa ansiedade, olhamos em volta para ver se havia algum conhecido, portador de salvadores óculos, é claro. Nada. Nem para remédio. A cômica situação era encarada com bom humor, pois não havia nada o que fazer mesmo. Chorar e esbravejar não iria ajudar muito.

Tentei disfarçadamente usar o vidro do copo como lupa. Quem disse que adiantou um pouco que fosse? Fiquei de pé, deixando o cardápio aberto sobre a mesa, na tentativa de dar distância e ver alguma coisa. Sem chance, das letras, organização lógica não saía. Solução final? Chamei o garçom e, com ar de indiferença, pedi sugestão. É isso exatamente o que queremos, quanta coincidência! Podia ser feijoada em sol de 40 graus ou mousse gelado em noite de fondue. O que importava era comer.

Noite inesquecível de muitos risos e histórias para contar e, como sempre, tinha que ter final apoteótico: a hora mágica de pagar a conta e ter que digitar a senha do cartão de crédito. Quem disse que dava para ver algo naquele teclado, todo iluminado, mais parecendo trio elétrico? Foi confiar na posição dos números e clicar por rumo, torcendo para não errar. Dei graças ao uso frequente do computador, acertei na primeira.
Lembrei-me de antiga história. Contam que um cigano, durante catira, respondeu a comprador quando perguntado qual seria o defeito de bela égua.
— Está bem na vista, respondeu.

O comprador olhou, analisou, rodeou o animal atento. Nada encontrando, fechou negócio e levou o bicho pelo cabresto. Só mais tarde, quando tentou colocar a égua na lida é que percebeu o quanto o problema dela estava na vista: era cega de um dos olhos e do outro míope. Avisado foi. Foi uma das melhores noites de nossas vidas e ficou a certeza de que, nessa altura do campeonato, até para molhar a grama do jardim é sempre bom ir prevenido. Mas não tem jeito, o tempo de presbiopia, a nem tão velha vista cansada, acaba chegando um dia. O melhor é não deixar que isso o incomode tanto. Vai brincar de cabra-cega, vai!





Publicado no Jornal Correio em 22 de junho de 2011 - Veja em pdf

terça-feira, junho 21

Fim de mistério


Fim do mistério. Roberto Henrique Pinto Moraes Pesquisador Científico em Parasitologia/Entomologia do Instituto Butantan esclareceu tudo: A Crisálida pertence a uma Phlegothontius sp. (Lepidoptera, Sphingidae), ou simplesmente uma Mandruvá.

Mandruvá ou "Mandarová" com o chamam aqui no cerrado é o que tem para dar com pau. Haja folha de Coqueiro da Bahia ou pé de Gueroba para resistir ao ataque esfomeado delas.

Na roça e mesmo na cidade, curiosomante as mulheres morrem de medo delas, pois tem uma estranha lenda sobre esta lagartas e as pudicas senhoras e senhoritas. Hora eu conto
Agora é esperar o fim da metamorfose, para ver, fotografar e soltar.

Valeu Roberto e obrigado pelo retorno



segunda-feira, junho 20

Pergunta

Recebi as fotos abaixo de Beto, amigo de BH.
A primeira foi feita pouco depois da destruição de Nagazaki em 1945 pela bomba atômica americana. A segunda feita logo após o trágico terremoto e tsunami de 2011

Clique sobre elas para que ampliem, observe bem e se puder me responda:
De que raios de material são feitos aqueles arcos?


quinta-feira, junho 16

Crisálida

Em repouso aguarda o vento e as nuvens



TeleNutrição



Com frequência às vezes irritante, os programas de televisão abordam tema delicado e importante: alimentação. Raro o dia em que não aparece uma nutricionista. Difícil ver um homem, são sempre elas a nos dar conselhos sobre o que devemos ou não comer, quantas refeições a fazer por dia, o que nos faz bem e o que nos faz mal.

Cada dia surgem cardápios cada vez mais variados com ingredientes comuns aos nossos ouvidos por ouvir falar, mas totalmente estranhos ao nosso paladar, olfato e bolso.

Desde apresentadores de televisão domingueiros a “reprogramar” o corpo à senhora e papagaio a recitar receitas aparentemente saborosas, mas cujos ingredientes só são encontrados em armazéns de luxo, butiques de temperos de capitais, feiras livres ou em marchés, como a Marché couvert des Enfants Rouges, a mais antiga feira coberta de Paris.

Nomes como curry, garam massala, cardamomo parecem, para a grande maioria de nós, mais personagens de mangás ou quadrinhos japoneses do que coisa para se colocar em saladas, sopas ou carnes. Estes estão léguas de distância do sal, alho, cebola, Tio Joel e Cláudio vão me esconjurar por conta dessa cebola, e pimenta de cada dia da imensa maioria de brasileiras e brasileiros telespectadores.

Apresentadas as receitas e seus extraterrestres ingredientes, em flash nos atiram em algum supermercado ou mercadão onde a nutricionista do alto de seu perfeito manequim 38 ou menos, mais culpa ainda para nós, passa a dar dicas das vantagens e desvantagens de coisas e tais. E aí vem um rosário de mágicas propriedades terapêuticas, de temperos que nunca ouvimos falar: o afrodisíaco durião, a guaiabila riquíssima em vitamina C, o mangostão, que é a maior fonte de xantonas conhecida. Xantonas? Explico, pois como diriam Dani e Bento do Furo MTV: “você não pode dormir sem saber” que xantonas são importantes fitonutrinentes com poderosas propriedades. Todas possuem a mesma estrutura central. Seis átomos de carbono conjugados com múltiplas ligações, que as tornam mais estáveis. Viu como é simples? E pela descrição de bula de remédio deve fazer um bem danado. Tá tudo no Google.

É mais do que óbvio que não sou contra nutricionistas de televisão nem de suas entrevistas sofisticadas.
O foco é que poderia mudar de quando em vez. Falar mais da vantagem do maxixe, da taioba, do jiló, da abobrinha batidinha ou da pimenta bode.

Será que para fazer bem tem que ter nome de nobre e ser caro? Claro que não e sabemos disso. O curioso é que o personagem que mais explorou nossas riquezas gastronômicas e suas vantagens nutricionais e terapêuticas foi um chef francês. Vai entender!

Por outro lado, reverencio as e os profissionais da nutrição que fazem das tripas coração para elaborar cardápios saudáveis para escolas públicas, creches, idosos e enfermos, tendo como ingredientes apenas ou principalmente o regional, o que está ao alcance no sacolão popular mais próximo. Alquimistas da verdadeira saúde alimentar.
E tem gente que gosta de ração humana.

Enquanto isso:
— Maria cadê a fruta do café da manhã que a moça da televisão mandou comer?
— Uai Zé, até parece que esqueceu que não é tempo de manga e goiaba! No quintal hoje só tem jurubeba e tomate tapera, serve?

Somos o que comemos, não é assim? Então desce um PF com bastante arroz, feijão, bife e fritas. Se der, um ovinho de gema mole por cima cai bem. Está servido?






Publicado no Jornal Correio em 16/06/2011