quarta-feira, junho 22

Na vista

Chega um período da vida que temos que reavaliar as coisas. Das mais complexas aos corriqueiros fatos do cotidiano. E, digamos, o uso de certos acessórios que de opcionais se tornam obrigatórios. Listando alguns: caderneta pequena e caneta para guardar lembretes do que se tem por fazer na manhã seguinte. Tipo: não esquecer de levar a máquina fotográfica para o laboratório, pois aquele escorpião diferente deu cria e o registro tem que ser feito. Fazer cópia da chave do portão, pois a minha deixei em algum lugar que, como não usei a caderneta, esqueci para sempre. E um item que jamais deve ser esquecido em hipótese alguma, seu bom e velho par de óculos. Aliás, nunca entendi bem por que par, sei que são duas lentes, mas o objeto em si é único, seria como dizer par de sutiã ou, como dizem os gringos, par de calças. Mas não vem a este caso.

Certa feita, fomos ao restaurante animados para provar algo diferente. Uma prosa antes e pedimos o cardápio. Aí começou o drama. Na pressa de sair, pois nem para jantar a princípio era, nenhum de nós levara óculos. E sem eles nem com o mais longo dos braços conseguiríamos ler letra que fosse. Ali, bem na nossa frente, uma profusão de cores e letrinhas embaçadas que mais pareciam carreiro de formigas, das pequeninas que assombram cozinhas, em confusão se faziam apresentar. Com certa ansiedade, olhamos em volta para ver se havia algum conhecido, portador de salvadores óculos, é claro. Nada. Nem para remédio. A cômica situação era encarada com bom humor, pois não havia nada o que fazer mesmo. Chorar e esbravejar não iria ajudar muito.

Tentei disfarçadamente usar o vidro do copo como lupa. Quem disse que adiantou um pouco que fosse? Fiquei de pé, deixando o cardápio aberto sobre a mesa, na tentativa de dar distância e ver alguma coisa. Sem chance, das letras, organização lógica não saía. Solução final? Chamei o garçom e, com ar de indiferença, pedi sugestão. É isso exatamente o que queremos, quanta coincidência! Podia ser feijoada em sol de 40 graus ou mousse gelado em noite de fondue. O que importava era comer.

Noite inesquecível de muitos risos e histórias para contar e, como sempre, tinha que ter final apoteótico: a hora mágica de pagar a conta e ter que digitar a senha do cartão de crédito. Quem disse que dava para ver algo naquele teclado, todo iluminado, mais parecendo trio elétrico? Foi confiar na posição dos números e clicar por rumo, torcendo para não errar. Dei graças ao uso frequente do computador, acertei na primeira.
Lembrei-me de antiga história. Contam que um cigano, durante catira, respondeu a comprador quando perguntado qual seria o defeito de bela égua.
— Está bem na vista, respondeu.

O comprador olhou, analisou, rodeou o animal atento. Nada encontrando, fechou negócio e levou o bicho pelo cabresto. Só mais tarde, quando tentou colocar a égua na lida é que percebeu o quanto o problema dela estava na vista: era cega de um dos olhos e do outro míope. Avisado foi. Foi uma das melhores noites de nossas vidas e ficou a certeza de que, nessa altura do campeonato, até para molhar a grama do jardim é sempre bom ir prevenido. Mas não tem jeito, o tempo de presbiopia, a nem tão velha vista cansada, acaba chegando um dia. O melhor é não deixar que isso o incomode tanto. Vai brincar de cabra-cega, vai!





Publicado no Jornal Correio em 22 de junho de 2011 - Veja em pdf

2 comentários:

Maria disse...

Divertida a história do restaurante.

Para mim que tenho miopia o cardápio não seria problema, mas se alguém acena de uma mesa um pouco distante...hehehe

Marthayza Ferreira disse...

Eu estou começando a entender essa vida de dependência dos óculos... Tudo bem sair de casa e esquecer de colocar o celular, ou o batom (sou uma moça vaidosa) na bolsa. Mas quando percebo que me esqueci dos óculos, dá uma tristeeeza...