segunda-feira, maio 19

E deu Pódio

Monte Carmelo, 10 km corrida rústica
Tempo em meu cronometro 1:03. Tempo segundo aferição da coordenação da prova  0:57 . Fico com o meu.

Percurso
 

Camiseta oficial da prova, parte das comemorações em louvor a Nossa Senhora de Fátima


Pódio  tristemente vazio, esperando quem o ocupasse


David e eu. Faltou Maria do Carmo e Luiz Mauro para completar o quarteto de tantas provas.


Quem corre conhece bem, quem não corre também. Jamais subestime o famoso "Dez" o cara  tem asas nos pés versão tropical do mitológico e veloz  Hermes poucos acompanham. Foi um prazer encontrá-lo em Monte Carmelo, simpatia e constante  incentivo para todos corredores.


 David no Pódio. Se ele que voa baixo ficou em quarto, na categoria, dá para imaginar o alto nível dos atletas. Tinha prêmio em dinheiro, olhas os cheques nas mãos dos 3 primeiros colocados. Choveu fera.


O meu Pódio, quarto também na categoria cabeça grisalha.


Um domingo  suado e bom e de muita diversão saudável. Fim corrida um belo e farto almoço na barraquinha da  igreja: Carne de panela com batata, feijão batido, arroz, frango caipira ao molho e salada farta e colorida.



Corpo e alma leve depois da corrida


Dois dos organizadores do evento



Na volta, vista à Basílica de Nossa Senhora da Abadia na cidade de Romaria



segunda-feira, maio 5

Circuito de Corridas Caixa

Circuito de Corridas Caixa - Etapa Uberlândia
Tempo: 31:38 - Rumo aos 28:00,  meta para 2014 !

Clique nas imagens, elas ampliam.


Fotos  Bia Stutz

Certificado de participação - Clique abaixo



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhU0xoUGJ0MVdac1k/edit?usp=sharing






quinta-feira, maio 1

Política na web

Lendo a coluna de 23/4 de Ivan Santos “Armados para lutar na web”, sobre partidos capacitando militantes para brigar por seus candidatos nas eleições que se aproximam, me pus a pensar. Será que esse “Exército Digital dos Partidos”, termo de Ivan, plural meu, vai mesmo conseguir dobrar alguém com a conversa fiada de blogues e redes sociais? Tenho minhas dúvidas.

Vamos usar alguns números, embora deteste isto. Como dizem alguns, os números, ou seriam as cartas, não mentem jamais. Desde que não manipulados, pois, neste caso, dois mais dois podem ser cinco, oito ou até quatro. As estatísticas aqui apresentadas são do Ibope Media – ai, Jesus Cristinho! Coletadas no site “To Be Guarany”. Mas vamos lá.

Mesmo sendo o nosso Brasil varonil um dos países mais conectados do mundo com mais de 103 milhões de internautas, 31% dos caras que navegam em mares de bytes pegam no timão virtual para enfrentar os mares cibernéticos nas famosas lan houses. Por todos os santos, não estou me referindo ao Corinthians.
Pense comigo. Você acha que esse sujeito que paga por hora para entrar em seu (dele) Orkut (é, ainda existe) e Facebook vai perder tempo lendo baboseiras políticas ou ataques grotescos a políticos? Nunca! Vai lá é para ver fotos novas da galera, compartilhar acontecimentos de seu cotidiano ou, no máximo, fazer alguma fofoca e marcar encontro. Entra também para realizar consultas digitais, procurar curas, já que quase sempre desconfiam de diagnóstico médico. A web é boa nisso. Deve haver milhões de doutores formados na Harvard University dando consultas de graça pela internet. Vá sonhando. Ah, compra-se muito também via conexões disparadas das lans. Ainda não entendi este fenômeno.

Tempo é grana e quem pensa que estes 31% estão a fim de gastar com apelos políticos rancorosos estão enganados. Eu não gastaria um centavo de meu tempo numa dessa.Ainda segundo a “To Be”, infelizmente, a desigualdade também impera no mundo de matrix: “Entre os 10% mais pobres, apenas 0,6% tem acesso à internet; entre os 10% mais ricos esse número é de 56,3%. Somente 13,3% dos negros usam a internet, mais de duas vezes menos que os de raça branca (28,3%). Os índices de acesso à internet das regiões Sul (25,6%) e Sudeste (26,6%) contrastam com os das regiões Norte (12%) e Nordeste (11,9%)”. Portanto, grande parte da massa de eleitores não será atingida como eles, pois imaginam estes soldados do ciberespaço carregados de um ódio inexplicável.

Temos também de levar em conta a preguiça de ler da maioria de nós brasileiros. Querem partir para o humor, charges políticas para desfazer desse ou daquele candidato. O problema é que muitos nem entender vão e a estratégia de tentar fixar no subconsciente mensagem subliminares remete a um tal de Goebbels, já ouvi falar? Mas o que preocupou muito foi o arremate do texto de Ivan Santos, quando cita a falta de moral e ética que vai rolar.

As sombras do anonimato permitem tudo, é nojento, imoral, covarde. Só afastam o eleitor, já cansado de tanta conversa fiada, promessas não cumpridas de gente desgastada, travestida de bonzinhos salvadores da pátria. Ora, se o cidadão já xinga quando a novela começa mais tarde por conta de um horário eleitoral obrigatório sem pé nem cabeça, imagine se vai gastar seu precioso tempo de internet lendo briga. Tem dó!

Publicado Jornal Correio em 1º de maio 2014





https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRHlES0t2Umhwdjg/edit?usp=sharing

sexta-feira, abril 25

Passarinhos


Pois não é de ver que quando criança, lá em Belo Horizonte, eu criava passarinho preso em gaiola! Não existia lei que proibisse nem educação ou informação sobre o mal que fazíamos. Eram muitos, de várias espécies e cores. Sabiás com seu triste cantar matutino, canários-da-terra sempre sozinhos, juntos a outros, briga certa. Luta até a morte, gladiadores em armaduras de puro ouro, um horror em sangue.
Papa-capins, coleiras, sanhaços multicoloridos que no seu esbanjar de frutas sujavam tudo. Nas paredes, ficavam quadros de respingos de laranja, mamão, goiaba, banana, melancia em pintura multicor, dignos de grandes mestres abstracionistas selvagens, se é que este movimento existiu.

Curiós e bicudos, nobres em posse e clássico canto.
Bicos-de-lacre miúdos em gaiolinhas que mais pareciam caixinhas para gafanhotos chineses. Certa feita, no mercado central, comprei uma araponga. Durou dois dias. Um para acostumar com o ambiente, outro para “cantar”. Na tarde do segundo dia, lá fui eu devolver a bela ave. Rebelião de todos da casa contra o ferreiro emplumado. Perdi.

Não criava passarinho por gosto, mas por imitação. Todos criavam. Então, para ser aceito, eu tinha os meus. Moleque, criado na rua, tinha limitações. Não sabia jogar bola na “graminha”. Só era escalado quando a bola era minha. Mesmo assim no gol. Nunca usei bodoque. Minha natureza não permitia matar bicho.
O único peão que tentei jogar me custou oito pontos na testa no Pronto Socorro da Bernardo Monteiro.
Era muito bom em Bentialtas, variação do beti daqui.

Gostava muito de ler. Coleção toda de Júlio Verne, Monteiro Lobato e todos os Tarzans de Edgar Rice Burroughs. Viajava longe lendo Delta Larousse e Britânica. Ficava meio deslocado das crianças de minha idade. Também não sabia namorar. Já adolescente, passei aos clássicos. Sem cronologia: Homero, Virgílio, Dante, Platão, Sun Tzu, Maquiavel, Tomás de Aquino, Cervantes, Joice, Thomaz Mann, Fernando Pessoa e tantos outros. Lembrança especial dos escritos de Mark Twain e Oscar Wilde. Claro que nossos imortais – oficiais ou não – não faltaram. Machado, Guimarães Rosa e Quintana, meus preferidos.
Fiquei mais esquisito ainda.

Meu gosto musical também destoava. Meu olhar já se desviava para os pequenos mundos. Acompanhava carreira de formiga por horas. Dias vendo tanajura cavar buraco. Colecionava casca de cigarras rompidas em muda final. Caçava vaga-lumes. Deitava no quintal para ver estrelas, ver nuvens se transformado em índios e elefantes. Inventava e contava para mim mesmo histórias imensas. Irrequietos pensamentos sempre a fervilhar. Em resumo, era um menino no mínimo estranho. Adquiri certa normalidade quando adolescente. Mesmo assim, quem me conhece sabe desta “normalidade”. Antes preocupado com as esquisitices, com o jeito diferente de ver as gentes e o mundo. Hoje, acostumado, sigo murmurando histórias e olhando estrelas.
Os passarinhos. Um dia, coloquei-os em duas imensas gaiolas, subi a até perto da torre da TV Itacolomy no alto da Serra do Curral, cortando caminho pela favela “Cabeça de Porco”, lá do alto, perto do céu, abri as portinholas. Foi, acredito eu, a mais linda e colorida revoada que Belo Horizonte já viu sem notar. Desci chorando alegria e, desde então, não prendi nem pensamento. Como os meus bichos, ganhei liberdade.




Publicado Jornal Correio em 25 /04/2013


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhVUYzZUZKUmphXzg/edit?usp=sharing

quarta-feira, abril 23

Velhos Amigos


"Velhos Amigos
Quando se encontram
Trocam notícias
E recordações
Bebem cerveja
No bar de costume
E cantam em voz rouca
Antigas canções

Os velhos amigos
Quase nunca se perdem
Se guardam para
Certas ocasiões

Velhos amigos
Só rejuvenescem
Lembrando loucuras
De outros verões
E brindam alegres
Seus vivos e mortos
E acabam a noite
Com novas canções

Conhecem o perigo
Mas fazem de conta
Que o tempo não ronda
Mais seus corações"

Almir Sater


domingo, abril 20

Palavras




O ano não foi dos melhores para chuva. Nunca vi tamanha sequidão em um janeiro e fevereiro. Enchente de São José só no norte do país. Em um Brasil desse tamanho, até a distribuição de chuva é desigual. Enquanto em algumas regiões cachorro anda tomando água de boca para cima, por nossas bandas o que se vê são represas secas, rachadas. Tablados de ranchos viraram galinheiros. Estaleiros ficaram tão altos que acrofóbicos devem evitá-los.

Em visita a amigo, este nos levou até beira d’água. Tivemos que andar um bom pedaço para lá chegar. Resolveu dar uma olhada em seu canto de pesca. Já tinha, a duras penas, empurrado o tablado para dentro do lago várias vezes. Agora não adiantava mais. Água pouca. Para represa voltar para perto do que um dia fora, serão anos. Isto se tiver fartura de chuva nas cabeceiras dos córregos e rios que formam a gigantesca lâmina, o espelho líquido que, faustuoso, faz fronteira com três Estados.

A continuar a toada e descontrole, dentro em pouco poderemos passar de Estado a outro sem canoa. Esquece ponte. Tem tempo? Aproveita, vai a pé.

Já que não tinha como pescar, o jeito era sentar à varanda e trocar prosa. Obviamente, o assunto não podia ser outro senão o desmazelo com as coisas da natureza e a vingança da terra.

Como um jogo de palavras, tentamos enumerar as tantas e quantas reuniões mundiais sobre o tema. Assim no susto vieram algumas: Convenção sobre Pesca no Atlântico Norte lá em 1959. Acordo sobre Poluição do Rio Reno, Cooperação entre países para prevenir a poluição e manter qualidade da água em 1963. Estocolmo 1972, Rio 1992, Rio +20. Paramos aí. A brincadeira ficou triste. Quantos tratados, princípios e compromissos foram assinados. Chefes de Estado saindo sorridentes nas fotos, mas, por dentro, já sabendo que nem em sonhos o acordado seria realizado.

Noite avançava lenta. Turma resolveu dormir. Decidi ficar ali mais um pouco. Lua jorrava luz sobre a curta lâmina sem marolas, mesmo com a brisa fria que soprava frequente. Fiquei imaginando quantas palavras foram gastas com questões ambientais e que, simplesmente, escorreram ralo abaixo. Desperdício sem conta.
Talvez aí estivesse a chave do insucesso. Como lagos, cachoeiras, rios e represas esgotaram-se ou estavam em nível crítico, reserva de palavras sinceras.

A politicagem com o meio ambiente, as mentiras embutidas em promessas eleitoreiras haviam consumido o repertório dos mandatários locais e mundiais. O termo “crescimento sustentável”, por exemplo, parou de ser produzido, estava fora de linha. Uso falso o havia consumido até os ossos. Não sobrara mais nada. Estava pálido, sem brilho/cor, escondido em algum recanto de cabeças ditas progressistas. Pediu aposentadoria compulsória. Palavras, assim como Anjos da Guarda de crianças, aposentam cedo, geralmente por invalidez ou periculosidade. Vernáculos e expressões tais como “prometo”, “farei”, “não vi”, “se eleito for”, estão perdendo viço à velocidade da luz. Estes são apenas alguns exemplos.

Estamos em ano eleitoral e, se você tiver a paciência que me falta para assistir ao teatro do horário político, preste atenção como essas e tantas outras palavras ditas soam tão fracas, cansadas, falsas, como que recauchutadas em oficina trambiqueira. Conhecem seu destino. Estão prestes a se transformar em língua morta.






Publicado Jornal Correio em 20/04/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhTDZiSE10TTVldjA/edit?usp=sharing

domingo, abril 13

Sombrinhas

O tempo rugia em pré-chuva. Aquela que não veio no tempo certo ameaçava desabar em cântaros. Seria muito bem-vinda. Choveu pouco, represas lá embaixo, risco de falta d’água. Os primeiros pingos bateram forte no telhado. Rufos como pratos de bateria, show de rock pauleira. Beleza. O calor poderia dar um descanso.
Bia resolveu, resolveu não, tinha que sair de casa. Sua tranquila agitação não lhe permitia ficar muito tempo em lugar só. Casa de mãe, acertar alguma conta, buscar João. Feliz muxoxo, pois gosta de andar, é a natureza dela, eu no meu sossego de bem parar acho bom. Fico no sorriso. No roncar das nuvens deu sapituca de resolver algum problema. Não sei bem qual, mas avisei pela milésima vez, evita a Rondon, ali é de pouco jeito. O rio encurralado, o excesso de asfalto, carreia tudo para lá. Vira rio como sempre. Não há quem dê jeito. A natureza sempre vence.

No preparar para sair, o corre e procura de sempre. Chave, cadê? E A bolsa? Outro canto. Celular, cadê o celular? Ah, ficou no carro (como sempre).
Certa feita ligaram de papelaria, havia deixado o celular no balcão. Aparelhinho antigo, quem iria querer? No Aeroporto de Viracopos, a mesma coisa. — Moça, esqueceu o celular!
A papelaria devolveria qualquer que fosse o modelo. Uberlândia, gente conhecida e boa. Porém, num aeroporto impessoal e internacional?

Recebe e liga, diz Bia. Não é para isso que foram feitos? Desdenha a tecnologia e vive muito melhor do que os obcecados.
Hora de sair. No bate rebate, toca de roda, uma lembrança: — Cadê minha sombrinha?
Procura por todo canto e nada. No carro! Nada. Juro que está aqui. Essa nunca mais.

Anos vendo esta cena em tempos de chuva. Claro, só lembramos de sombrinhas e guarda-chuvas nessa época.
Desconfio que desvendei o mistério. Sombrinhas e guarda-chuvas têm vida própria e são muito organizados. Possuem em sua composição algo que os faz desmaterializar após certo tempo. Prazo de validade metafísico, um arranjo transcendente.
É assim, desde o começo dos tempos, coisa de mais de 3.000 anos atrás. Contam que um imperador mesopotâmio mandou cortar cabeças de mil e duzentos súditos, só porque não encontrava sua sombrinha real. Mal sabia ele que a conspiração era da própria.

Em minhas pesquisas sobre o nada, descobri que o estoque inteiro de uma loja na 25 de março simplesmente desapareceu. Dono da loja chegou cedo para vender seus produtos pensando em faturar alto, garoava, novidade em Sampa… Qual foi sua surpresa ao levantar a porta da loja: nenhum guarda-chuva ou sombrinha lá estava. Prateleiras limpas. Assim como dizem existir cemitério de elefantes, deve existir um mundo paralelo habitado só por sombrinhas e afins. Lá o frevo corre solto, as “yangsan” colorem esse mundo fantástico. Milhões de sombrinhas que coloriram o show “Umbrella”, de Rihanna, se refestelaram em risos e arrepios, pois se desmaterializaram em apogeu de festa.

Não tem jeito. Ao comprar uma sombra artificial saiba que será temporário. Acostume-se com o fato. Dura pouco. Logo terá que comprar outra. É sina, predestinação. Contudo, sempre haverá loja em camelódromo louco para se desfazer de seu estoque, pois sabem que as peças tem dias contados.

Avisei Bia para não esquentar mais. Perdendo sobrinhas periodicamente lá se vão anos de um bem viver juntos. Só rindo.





Publicado Jornal Correio em 13/04/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOha1EtR3U0aFN6SGc/edit?usp=sharing

sábado, abril 5

Conspiração



Um amigo perdeu seu cão para a leishmaniose e contou sua triste saga aqui no Painel outro dia.
Doença estranha mostra nada no começo, bicho parece sadio, mas é uma das fases mais perigosas. Se tiver mosquito-palha perto pode levar à grave doença, por vezes fatal nas gentes se em forma grave, calazar.
Ainda não tem vacina aprovada e tratamento é proibido pelo Ministério da Saúde. Não é eficaz. Solução única e traumática: sacrifício do animal.

Só quem tem ou teve cão sabe o sofrimento, a dor de entregar companheiro para morte. Aqueles que possuem consciência cidadã sofrem, mas assim o fazem, não querendo colocar em perigo toda uma população. Meu amigo assim o fez. Compadecido, mas conhecedor dos riscos.

Só quem tem ou teve um cão pode mensurar tamanho carinho. Estima, afeição, mais milhões de adjetivos, compartilha-se com este milenar amigo canino.Só quem tem ou teve um cão pode descrever sofrimento de entregar amigo à imolação.

A caravana passa, os cães ladram. Muitos ficarão para trás, não verão mais caravanas.
Exercício conspiratório, fruto de mente atormentada com pequenos e gigantescos fatos. Certa feita mencionei suicídio das minhocas após chuva. Pulavam fora dos canteiros, se expondo ao tempo. Recolhidas à terra fofa, tornavam a minhocar até o chão de cimento e, ao sol torravam. Quando chove, fico a pensar no mundo das pequenas e seu entregar.

Produzir vacinas contra doenças causadas por vírus é relativamente fácil, mas quando se trata de protozoários, como é o caso das leishmanioses, da malária e da doença de chagas, só para citar algumas, aí complica.

Disse fácil? Ingenuidade. Pasteur, em final de longínquo 1881, conseguiu isolar o vírus da raiva. Dai à vacina protetora foi um pulo. É certo que a vacina de Pasteur mais matava do que salvava, pois a purificação desta era incipiente. Mas, estavam lançadas bases de uma vacina que salvaria milhões de humanos e animais de tão terrível doença. Hoje, a vacina é segura e quase não se tem relato de efeitos colaterais. Quer outra? A varíola. Causada por um vírus enorme para os padrões, o Shaquille O’Neal dos invisíveis patógenos.

Erradicou-se a doença. Temos muitas outras vacinas: Pólio, febre amarela, antitetânica. Esta última, um avanço, pois a vacina é contra uma neurotoxina produzida por uma bactéria. À lista: sarampo, gripe H1N1, catapora, rubéola, tantas outras e a mais recente oferecida pelo poder público contra o vírus HPV.
Pois bem, minha teoria da conspiração: se tão “fácil” é produzir vacinas contra vírus, qual a grande dificuldade em se desenvolver vacina contra dengue? Ora, os sorotipos bem são conhecidos e o genoma mapeado. O que se tem de concreto contra o HIV causador da Aids?

Controlar dengue através de vacina significa deixar de produzir milhões e milhões de litros de veneno e antitérmicos. Imunizar contra HIV vai quebrar muito laboratório. Setores da indústria farmacêutica e de venenos terão que mudar de ramo. Terror mental, o mais ligeiro pensar que grupos estejam visando lucro a troco de tanto sofrimento e morte. Não é isto que a indústria bélica faz?

Peço a todos os Anjos, Orixás e Divindades que seja apenas tormento e que tamanha ganância e frieza humana sejam frutos de paranoica imaginação Assim tanto sofrimento enfermo, quanto da dor da perda, seriam radicalmente amenizados.





Publicado Jornal Correio em 05/04/2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhWkpSeFAtaTl6Q00/edit?usp=sharing

terça-feira, março 25

Sinfonia




Maritacas gritam, joão-de-barro em bater de asas chama. Bem-te-vis em bandos. Periquitos em algazarra. Gavião passa piando, silêncio momentâneo. Riso de criança, grito de mulher. Alguém tosse engasgado. Só um susto. Cães sem educação ou serão seus donos os de difícil conviver? Latem emparedados. Sinto cheiro de churrasco. Mais crianças se juntam em alegre brincar. Folhas arranham o chão de pedra ao vento sabor. Foguetes do nada espocam. Tem futebol? Zumbido de abelha nativa, imensa. Confundo com o bater incessante de asas de varejeira que nem lá está ainda. O belo e o podre, convivência.

Alguém pula em uma piscina, ouço as braçadas. Calor tórrido de fim de tarde. Mais foguetes.
Conversas em altos brados. Não é desavença, é álcool. Filha grita mãe, mãe grita filha, mãe fala com neto. Vizinhança. Som eletrônico, longe, quebra equilíbrio. Civilidade afetada.

Um corta grama. Infeliz atrapalha a tarde com Makita. Rolinha caça ninho, escorrega desengonçada em galhada. Bater de asas aflito, busca de equilíbrio. Uma torneira de pia se abre. Água jorra abundante. Privilégio. Recolho as canelas, mosquitos. Repasto noturno e eu sou a presa. Coço desavisado. Gargalhar de maritacas agora bem sobre minha cabeça. Brejeiras e lindas. Ao longe, repicar de trovão em céu azul/cinza de poucas nuvens. Mais a noite vai chover. Cheiro de queimada; entristeço. Um franzir de testa esperançoso. Será apenas fogão de lenha? Madeira de reflorestamento?

Observo. Botões de flor emergem do negrume do tronco da jabuticabeira. Fartura em breve.
Silêncio absoluto. Escuto o nada, ranger da alma. Dura pouquíssimos segundos, mas tem forte impacto, basta por atenção. Nem brisa corre, nenhum movimento se percebe. A rotina da vida pede ligeiro descanso. É como suspiro profundo, um olhar entorno. Para todo lado vê-se verde. Ilha. Uberlândia, cada dia vencido, mais me encanta. Refúgio.

Avião em turbinas abertas chega a pouso seguro. Céu escarlate, de brigadeiro. Tempo exato cronômetro meteorológico. Céu num repente se fecha, vento surge para espantar calor de mais de semana. Chuva despenca. O bater de água no telhado convida a dormir embalado. Em sábado farto, abundante de vida, ressono baixo. Agora, sapos, grilos, corujas. Sinfonia. Os sons mudam devagar em vagar contínuo. Solidão prazerosa, paz e silêncios próprios.

O som eletrônico insiste em atrapalhar a normalidade. Só ele resiste. Pobres pessoas. Logo amanhece domingo. Outro dia sonoro. Liquidificador a mil tritura vitamina. Pão na chapa, perfume de café coado. Passarinhada acesa e assanhada sai em busca de comida, filhotada ávida aguarda.

Abro a janela e respiro o mais puro ar da manhã, ainda úmido da chuva e de orvalhos. Deixo sair ligeiros sonhos de noite bem dormida. Sonhos são como bichos, não podem viver presos. Deixe livres.
Hora de correr. Meu indicador de distância é barulho de cozinha, bater de panelas. Cheiro perfume de alho e cebola, arroz a fritar.

Lá no alto teco-teco rasteja céu afora. Barulho custa passar. Será assim? Uma garrafa despenca de algum lugar. Mil pedaços, estilhaços. Imagino sol refletindo topázios, diamantes, safiras, rubis. Vassoura e pá, recolhe-se os cacos, tesouro.

Amanhecer, entardecer, noite densa. Já parou para ouvir o dia? Toda a existência em sinfonia. Basta apurar ouvidos e agradecer.





Publicado em Jornal Correio de 23/03/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhcF9acWRNdG5EdTQ/edit?usp=sharing

quarta-feira, março 12

Aeroporto



Não tem aquele que, às voltas com viagem de avião, não tenha passado horas preso em saguão de aeroporto, completamente à toa, esperando conexão ou bom tempo para decolagem. Sempre carrego um livro. Assim, me ocupo em situações como essa. Recentemente, ganhei de especial amiga um presentão “1889” de Laurentino Gomes.
Bastidores da proclamação da república. Leitura saborosa. Companhia e tanto.

Por muito tempo, meu comparte de viagens foi Rosa e seu imbatível “Grande Sertão: Veredas”. Lembro bem, 3ª edição, capa onde predominava o verde. Ilustrado pelo também genial Poty. Esse livro quase se desfez em rodoviárias, aeroportos e outros lugares aborrecidos. Foi se acabando em anotações e marcação de trechos. Hoje se encontra remendado em fitas durex na estante, merecido descanso para quem tanto prazer e riqueza distribuiu.

Certa feita, voltando de Gramado, onde em Congresso fui contar nossa experiência com escorpiões, a convite do Ministério da Saúde, acabei pego em armadilha de conexão. Três horas em Porto Alegre, mais quatro em São Paulo. Como de costume, antes de sentar na praça em algum canto, tal qual passarinho a entrar em ninho ou cachorro esperto de tanto instinto, rodei lojas, lanchonetes, livrarias. Só olhar. Preços aqui voam tão altos quanto aviões que por lá passam. Distração, livros, esqueci meus companheiros de viagens.

Tormento. Nem de ponteiro de relógio pude reclamar vagareza, pois o meu nesse dia era digital. Nesse furdunço, tive bela e grata surpresa. Acho que já contei. Como sonho te pega em cochilo ligeiro, em colorida algazarra, o Corpo de Baile do Bolshoy Brasil invadiu o saguão a embarcar. Em devaneio dançavam para mim com seus passos 15 para as três, e posturas perfeitas. Esculturas. Voaram aqueles minutos. De volta à monótona espera.

Lembrei de história contada por minha filha: dois amigos, totalmente sem assunto, em longa espera de sala de embarque. O tédio faz coisas.

— Tá vendo aquele homem forte que nem lutador ali na frente?

— Tô, e daí?

Pago dez reais se você for até lá e meter tapa nas costas dele.

Pensou estratégia e lá foi!

Meteu um tapa tão forte nas costas do outro que pôde ser ouvido debaixo de turbina ligada.

Dois metros de puro músculo foram levantados devagar, já de punho cerrado.

Ligeiro:

— Ô Zé que coisa boa te encontrar aqui nesse mundão! Toca a abraçar o fortificado.

— O senhor deve esta enganado sou Zé não.

Pediu mil desculpas e voltou para junto do amigo.

— Dê cá esses 10 reais sô.

Passado um tempo o amigo investiu:

— Se for lá e der outro tapa com aquela força te dou 30 reais.

Sem titubear lá foi ele encarar a fera. Outro tapa bruto ecoou aeroporto a fora.

— Ara Zé, você está de gozação comigo? Não é possível que tenha esquecido de amigo de infância assim tão rápido.

O homem levantou com cara amarrada, mas acreditando na sinceridade do outro resmungou entre dentes:

— Meu senhor, eu não sou Zé, e esses tapas estão doendo. Por favor!

Embolsou os 30.
Não deu dez minutos, veio grande desafio.

— Cem reais se der outro tapa no cara.

— Quer me ver morto, né, seu filho de uma égua! Mas por cenzinho eu topo.

Foi.

Tapa dado e, antes que houvesse reação, abraçou o rapaz.

— Oi, Zé de Deus. Não é de ver que tinha um cara aqui perto que era a sua cara e dei dois tapas enganado no coitado!

Coisas de aeroporto. O fazer nada pode ser perigoso.






Publicado Jornal Correio em 12/03/2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhSW95NDYwM0U4YzA/edit?usp=sharing

sexta-feira, fevereiro 21

Ideias

Meu prezado e bom amigo, assim ainda te considero muito. Mesmo depois de ter me excluído de seu Facebook e Whatsaap e jogado para escanteio minhas mensagens. Poxa, até do Twitter me tirou! Não trocar 140 letras comigo mais? Como marcar aquele encontro de boteco ligeiro, geriátrico agora? Fiquei triste. Ainda não tentei o telefone, mas pelo que me consta também não atenderá minhas ligações. Por um lado concordo com você, também faço faxinas periódicas em contatos que não contatam, apenas usam as redes sociais para te vigiar, saber de sua vida, coisa de fofoqueiro baixo mesmo.

Tem muita gente que quer quantidade de seguidores. E lá sou algum mestre guru, líder de seita ou outra coisa que o valha para ter seguidores? Não quero números, queria e quero qualidade. Gente que sabe postar com sabedoria, troca mansa de sentimentos, belas fotos, sugestões de livros, lugares e ares, piadas de bom gosto, sarcasmo comedido e uma gozação ou outra principalmente sobre nossos times de coração. Você sabe que torço para dois times: O meu Galo vencer e o seu time perder. Mas sempre brincamos a vida toda com isso e sabemos que não foi a razão da fúria, da erupção que, como lava incandescente, levou a cinzas tão antiga amizade. Pompeia com seus corpos petrificados, apenas pó e nada mais?

Futebol não foi nosso caso. Raramente, uso as redes sociais para debates mais acirrados, seja o assunto qual for: cinema, teatro, televisão, futebol, política. Não uso e explico, não é o lugar mais adequado, a pena sempre será mais forte do que a espada. Imagine o poder destrutivo de dez dedos em teclado – particularmente só uso três ou quatro.

Política. Sempre ela. Veneno como religião quando elevamos cânticos ao que cremos. Nestes campos, tolerância zero. Ou está comigo ou contra mim. Que horror. Pensando assim é melhor ter um grupo só de seus partidários. Só quer aplausos? Escreva unicamente para os seus correligionários.
Te garanto, não contribuirá em nada para um mundo plural, pacífico e melhor.

O famoso “perco o amigo, mas não perco a piada”, não funciona comigo. Amigo é coisa rara e séria. Deixe de lado releve e vamos, em mesa, olho no olho conversar sobre nossas divergências em todas as áreas sem pressa e obrigação de conversão. Eu te respeito como é e você, como sou. Podemos sempre estar em lados opostos nas arquibancadas dos estádios, nos palanques e comícios, nas estantes de livrarias ou nas prateleiras de videotecas. Eu vou sempre preferir as morenas às loiras, nem sempre e você sabe disso. Cerveja a uísque. Rock a seu sertanejo. Churrasco a pizza. E daí? Quantas vezes rachamos uma meia marguerita e meia catupiry. Outras tantas enfiamos a cara em rodízio, esbórnia carnívora e, entre risos e conversa jogada fora, nunca relia houve.

Pelo menos temos muito para conversar e assunto não faltar. Vamos nessa? Discordar não é deixar de gostar. Um conselho: se beber não poste (do verbo postar). Pode não dar multa nem perder pontos na carteira. Pode não matar, ferir carne, mas magoa atinge-se alma. Perdem-se bens muito preciosos por um simples dedilhar.

O relato acima é ficcional, mas não imagina quanta gente me conta que, por uma simples discordância, apaga, expulsa e cria inimizades. As redes sociais são ótimas, desde que continuem sociais. Quer brigar? Treina MMA.



Publicado Jornal Correio em 21/02/2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhTlM3RjlTZ1NtYkk/edit?usp=sharing