sexta-feira, junho 6

quinta-feira, junho 5

Deu pódio




Foto David Rotelli

Lá estava eu em tranquilo, sabadão preguiçoso, cuidando da vida, das plantas, olhando canto de passarinho e recontado ninhos sabidos. Como a manhã mal se fazia anunciar, fui para rápido treino de tiro, não nada de arma, tiro de corrida, velocidade máxima em tempo marcado.

Dei-me por satisfeito. Podia começar almoço, tomar uma cervejinha sem culpa e aproveitar a melhor parte da semana, o fim dela. Bobagem isso, todo dia pode ser bom, vai da gente.
Lá pelas tantas, recebo telefone de amigo e companheiro de muitas e boas corridas de rua. Junto com Maria do Carmo, sua esposa, e Luiz Mauro compadre, formarmos um quarteto e tanto, pelas ruas de várias cidades, a correr pelo correr. Quarteto fantástico ou fanático? Simples prazer de testar limites. Nada de competição além daquela de tentar baixar tempo, e claro, participar e sorver a gigantesca quantidade de energia boa que rola em tais eventos. Revigorante.

“Tem corrida amanhã em Monte Carmelo. Só tem 10 km, vamos?”
Sair daqui para correr 10 km?" Sei não… Mas pensando bem, seria um passeio diferente, bora.
“Combinado! Passo aí lá pelas seis da manhã. Beleza?”

Passado um pouco, pensei no baita programa de índio que tinha arrumado. Quer saber, vai ser divertido. Vamos nessa. Sair com esse trio é sempre garantia de boas risadas. Ainda não sabia que Maria e Luiz Mauro não iriam. Relógio para despertar às cinco, levantei num escuro e num frio que há tempos não sentia.
Um relógio a despertar não. Como uso dois celulares, todos os programas de despertar estavam habilitados. Um toca às cinco. Cinco e trinta despertou outro. Às seis, um terceiro. Às sete, já no carro e a caminho de nossa aventura, disparou o do relógio de pulso. “Pra que tanto despertador em horas diferentes?”, perguntou David. Ia tentar explicar, mas a verdade é que nem eu sabia.
Viagem curta e tranquila, e lá estávamos nós entrando em uma cidade adormecida, ninguém pelas ruas. Custamos a encontrar alguém para nos indicar o local da prova.

Depois de um pouco mais rodar, chegamos. O clima contagiante de começo de prova estava no ar. O que, ou melhor, quem vimos nos assustou um pouco. Só tinha fera, gente conhecida de outras tantas, atletas de ponta. Povo ligeiro, super treinado. David matou a charada: tinha prêmios, e bons, em dinheiro. Aí, os feras vão mesmo. E eles estão certíssimos, são bons e sabem o valor que têm.
Já na largada deu para sentir o nível dos caras. Sumiu todo mundo! Lá fui eu na minha toada de sempre, quase em tour por Monte Carmelo, um sobe-desce sem fim. Fiquei literalmente na poeira. Fui incentivado pelas pessoas durante todo o percurso. Crianças corriam comigo para dar força: “Vai moço, você consegue!”.

E consegui! Uma hora e três minutos em meu cronômetro ou cinquenta e oito minutos na medição da organização. Cruzei a linha de chegada! Último dentre todos. Realizado e feliz.
E para coroar o divertido esforço, ainda fiquei em quarto lugar na categoria dos cabeças grisalhas. Último sim, mas quarto e com medalha. Valeu o domingo, valeu a diversão, valeu o almoço da quermesse à base de frango caipira, coisa de vó e de sogra, coisas da roça.
Ano que vem, estou de volta e, desta vez, espero, com quarteto completo.
Lembrando dos despertadores dos celulares e do relógio, desabilitei todos. Minto, ficou só o das cinco e trinta.





Publicado em Jornal Correio em 05 de junho de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhaElWa3c2a1RTWjQ/edit?usp=sharing






Texto completo também em PDF ( a versão acima para publicação no Correio possui apenas 3300 caracteres com espaço) AQUI

domingo, maio 25

Calçadas livres


Foto: Marcos Salles

Jornal CORREIO de 6 de maio 2014: “Promotor defende liberdade de locomoção dos pedestres nos passeios”. Parabéns ao Ministério Público. A ele, todo meu incondicional apoio e aplauso. A manifestação de donos de bares solicitando liberação de parte de nossas já tão estreitas calçadas beira o nonsense total. Vi foto no jornal onde aparecem donos de bares carregando cartazes de protestos com o objetivo de pressionar o legislativo a alterar o código de posturas e liberar geral os passeios, essa irregular, esburacada e desrespeitada faixa que separa o asfalto dos portões de nossas casas. Dois desses cartazes me chamaram especial atenção: “Pagamos muitos impostos” e “Temos família para sustentar”. Por todos os Orixás, serão apenas eles? Ou aquela multidão que é expulsa de relativa segurança no deslocar por mesas e cadeiras é apenas figurante? Talvez, por puro prazer, gostem de ficar pulando entre carros. Deve ser isto. Ninguém mais é extorquido por impostos de toda natureza nem possuem pessoas e pessoinhas que deles dependem. Apenas os que ali protestavam carregam o peso do mundo, revezando com o mitológico titã Atlas.

Se botarmos atenção, veremos que a maioria dessas pequenas faixas de mobilidade urbana, destinadas aos pedestres deveria se chamar pistas de cross, trilhas ou algo similar. Dignas são de prática de um esporte secular: o pedestrianismo como chamam a caminhada em Portugal. Só que lá, pode-se caminhar ou pedestrianar – horrível expressão, certamente inexistente – por belos jardins e praças. Ruas calcetadas (outra expressão lusitana) com primor, capricho artístico, seguras, educadas.

Já aqui em terras ultramar, o simples caminhar é radical total. Melhor usar equipamento apropriado de segurança.

Deixando de lado o estado de conservação das vias e os esportes perigosos, voltemos ao empachamento de vias públicas.

Um fenômeno estranho está a ocorrer há tempos no país. O público vem se tornando privado e o privado se tornando público em veloz frequência. Quando obstruo um passeio público com minhas mesas, churrasqueiras e altos sons estou me portando como transgressor, pois invado o que é de todos. Quando invado propriedade privada a situação é idêntica, já que tomo posse do que é de outrem. Transgressor outra vez. Tudo de cabeça para baixo.

Adoro boteco. O ambiente é agradável, descontraído e fico horas, desde que a companhia seja boa, ali a jogar conversa fora, falar de futebol, defender meu Galo mineiro. Falar de política, rir de piada velha. Mas não preciso sentar em mesa à rua. Já o fiz, confesso, mas ficava sempre sem graça a cada olhar de soslaio, a cada tropeço, esbarrão em cadeira. Não é certo, não é justo.

Espero que nossos promotores e nossa Prefeitura sejam rigorosos e não aceitem TACs ou coisas do gênero. A população agradece. Fica aqui, mais uma vez, minha admiração pelas ações do Ministério Público e nossa Prefeitura. Termino com fragmento do conhecido poema “No caminho com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa: “[...] Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor do nosso jardim./E não dizemos nada./Na segunda noite, já não se escondem;/pisam as flores,/matam nosso cão,/e não dizemos nada. Até que um dia,/o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,/rouba-nos a luz, e,/conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não podemos dizer nada [...]”






https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRVY2ME5vM2F6TUE/edit?usp=sharing





segunda-feira, maio 19

E deu Pódio

Monte Carmelo, 10 km corrida rústica
Tempo em meu cronometro 1:03. Tempo segundo aferição da coordenação da prova  0:57 . Fico com o meu.

Percurso
 

Camiseta oficial da prova, parte das comemorações em louvor a Nossa Senhora de Fátima


Pódio  tristemente vazio, esperando quem o ocupasse


David e eu. Faltou Maria do Carmo e Luiz Mauro para completar o quarteto de tantas provas.


Quem corre conhece bem, quem não corre também. Jamais subestime o famoso "Dez" o cara  tem asas nos pés versão tropical do mitológico e veloz  Hermes poucos acompanham. Foi um prazer encontrá-lo em Monte Carmelo, simpatia e constante  incentivo para todos corredores.


 David no Pódio. Se ele que voa baixo ficou em quarto, na categoria, dá para imaginar o alto nível dos atletas. Tinha prêmio em dinheiro, olhas os cheques nas mãos dos 3 primeiros colocados. Choveu fera.


O meu Pódio, quarto também na categoria cabeça grisalha.


Um domingo  suado e bom e de muita diversão saudável. Fim corrida um belo e farto almoço na barraquinha da  igreja: Carne de panela com batata, feijão batido, arroz, frango caipira ao molho e salada farta e colorida.



Corpo e alma leve depois da corrida


Dois dos organizadores do evento



Na volta, vista à Basílica de Nossa Senhora da Abadia na cidade de Romaria



segunda-feira, maio 5

Circuito de Corridas Caixa

Circuito de Corridas Caixa - Etapa Uberlândia
Tempo: 31:38 - Rumo aos 28:00,  meta para 2014 !

Clique nas imagens, elas ampliam.


Fotos  Bia Stutz

Certificado de participação - Clique abaixo



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhU0xoUGJ0MVdac1k/edit?usp=sharing






quinta-feira, maio 1

Política na web

Lendo a coluna de 23/4 de Ivan Santos “Armados para lutar na web”, sobre partidos capacitando militantes para brigar por seus candidatos nas eleições que se aproximam, me pus a pensar. Será que esse “Exército Digital dos Partidos”, termo de Ivan, plural meu, vai mesmo conseguir dobrar alguém com a conversa fiada de blogues e redes sociais? Tenho minhas dúvidas.

Vamos usar alguns números, embora deteste isto. Como dizem alguns, os números, ou seriam as cartas, não mentem jamais. Desde que não manipulados, pois, neste caso, dois mais dois podem ser cinco, oito ou até quatro. As estatísticas aqui apresentadas são do Ibope Media – ai, Jesus Cristinho! Coletadas no site “To Be Guarany”. Mas vamos lá.

Mesmo sendo o nosso Brasil varonil um dos países mais conectados do mundo com mais de 103 milhões de internautas, 31% dos caras que navegam em mares de bytes pegam no timão virtual para enfrentar os mares cibernéticos nas famosas lan houses. Por todos os santos, não estou me referindo ao Corinthians.
Pense comigo. Você acha que esse sujeito que paga por hora para entrar em seu (dele) Orkut (é, ainda existe) e Facebook vai perder tempo lendo baboseiras políticas ou ataques grotescos a políticos? Nunca! Vai lá é para ver fotos novas da galera, compartilhar acontecimentos de seu cotidiano ou, no máximo, fazer alguma fofoca e marcar encontro. Entra também para realizar consultas digitais, procurar curas, já que quase sempre desconfiam de diagnóstico médico. A web é boa nisso. Deve haver milhões de doutores formados na Harvard University dando consultas de graça pela internet. Vá sonhando. Ah, compra-se muito também via conexões disparadas das lans. Ainda não entendi este fenômeno.

Tempo é grana e quem pensa que estes 31% estão a fim de gastar com apelos políticos rancorosos estão enganados. Eu não gastaria um centavo de meu tempo numa dessa.Ainda segundo a “To Be”, infelizmente, a desigualdade também impera no mundo de matrix: “Entre os 10% mais pobres, apenas 0,6% tem acesso à internet; entre os 10% mais ricos esse número é de 56,3%. Somente 13,3% dos negros usam a internet, mais de duas vezes menos que os de raça branca (28,3%). Os índices de acesso à internet das regiões Sul (25,6%) e Sudeste (26,6%) contrastam com os das regiões Norte (12%) e Nordeste (11,9%)”. Portanto, grande parte da massa de eleitores não será atingida como eles, pois imaginam estes soldados do ciberespaço carregados de um ódio inexplicável.

Temos também de levar em conta a preguiça de ler da maioria de nós brasileiros. Querem partir para o humor, charges políticas para desfazer desse ou daquele candidato. O problema é que muitos nem entender vão e a estratégia de tentar fixar no subconsciente mensagem subliminares remete a um tal de Goebbels, já ouvi falar? Mas o que preocupou muito foi o arremate do texto de Ivan Santos, quando cita a falta de moral e ética que vai rolar.

As sombras do anonimato permitem tudo, é nojento, imoral, covarde. Só afastam o eleitor, já cansado de tanta conversa fiada, promessas não cumpridas de gente desgastada, travestida de bonzinhos salvadores da pátria. Ora, se o cidadão já xinga quando a novela começa mais tarde por conta de um horário eleitoral obrigatório sem pé nem cabeça, imagine se vai gastar seu precioso tempo de internet lendo briga. Tem dó!

Publicado Jornal Correio em 1º de maio 2014





https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRHlES0t2Umhwdjg/edit?usp=sharing

sexta-feira, abril 25

Passarinhos


Pois não é de ver que quando criança, lá em Belo Horizonte, eu criava passarinho preso em gaiola! Não existia lei que proibisse nem educação ou informação sobre o mal que fazíamos. Eram muitos, de várias espécies e cores. Sabiás com seu triste cantar matutino, canários-da-terra sempre sozinhos, juntos a outros, briga certa. Luta até a morte, gladiadores em armaduras de puro ouro, um horror em sangue.
Papa-capins, coleiras, sanhaços multicoloridos que no seu esbanjar de frutas sujavam tudo. Nas paredes, ficavam quadros de respingos de laranja, mamão, goiaba, banana, melancia em pintura multicor, dignos de grandes mestres abstracionistas selvagens, se é que este movimento existiu.

Curiós e bicudos, nobres em posse e clássico canto.
Bicos-de-lacre miúdos em gaiolinhas que mais pareciam caixinhas para gafanhotos chineses. Certa feita, no mercado central, comprei uma araponga. Durou dois dias. Um para acostumar com o ambiente, outro para “cantar”. Na tarde do segundo dia, lá fui eu devolver a bela ave. Rebelião de todos da casa contra o ferreiro emplumado. Perdi.

Não criava passarinho por gosto, mas por imitação. Todos criavam. Então, para ser aceito, eu tinha os meus. Moleque, criado na rua, tinha limitações. Não sabia jogar bola na “graminha”. Só era escalado quando a bola era minha. Mesmo assim no gol. Nunca usei bodoque. Minha natureza não permitia matar bicho.
O único peão que tentei jogar me custou oito pontos na testa no Pronto Socorro da Bernardo Monteiro.
Era muito bom em Bentialtas, variação do beti daqui.

Gostava muito de ler. Coleção toda de Júlio Verne, Monteiro Lobato e todos os Tarzans de Edgar Rice Burroughs. Viajava longe lendo Delta Larousse e Britânica. Ficava meio deslocado das crianças de minha idade. Também não sabia namorar. Já adolescente, passei aos clássicos. Sem cronologia: Homero, Virgílio, Dante, Platão, Sun Tzu, Maquiavel, Tomás de Aquino, Cervantes, Joice, Thomaz Mann, Fernando Pessoa e tantos outros. Lembrança especial dos escritos de Mark Twain e Oscar Wilde. Claro que nossos imortais – oficiais ou não – não faltaram. Machado, Guimarães Rosa e Quintana, meus preferidos.
Fiquei mais esquisito ainda.

Meu gosto musical também destoava. Meu olhar já se desviava para os pequenos mundos. Acompanhava carreira de formiga por horas. Dias vendo tanajura cavar buraco. Colecionava casca de cigarras rompidas em muda final. Caçava vaga-lumes. Deitava no quintal para ver estrelas, ver nuvens se transformado em índios e elefantes. Inventava e contava para mim mesmo histórias imensas. Irrequietos pensamentos sempre a fervilhar. Em resumo, era um menino no mínimo estranho. Adquiri certa normalidade quando adolescente. Mesmo assim, quem me conhece sabe desta “normalidade”. Antes preocupado com as esquisitices, com o jeito diferente de ver as gentes e o mundo. Hoje, acostumado, sigo murmurando histórias e olhando estrelas.
Os passarinhos. Um dia, coloquei-os em duas imensas gaiolas, subi a até perto da torre da TV Itacolomy no alto da Serra do Curral, cortando caminho pela favela “Cabeça de Porco”, lá do alto, perto do céu, abri as portinholas. Foi, acredito eu, a mais linda e colorida revoada que Belo Horizonte já viu sem notar. Desci chorando alegria e, desde então, não prendi nem pensamento. Como os meus bichos, ganhei liberdade.




Publicado Jornal Correio em 25 /04/2013


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhVUYzZUZKUmphXzg/edit?usp=sharing

quarta-feira, abril 23

Velhos Amigos


"Velhos Amigos
Quando se encontram
Trocam notícias
E recordações
Bebem cerveja
No bar de costume
E cantam em voz rouca
Antigas canções

Os velhos amigos
Quase nunca se perdem
Se guardam para
Certas ocasiões

Velhos amigos
Só rejuvenescem
Lembrando loucuras
De outros verões
E brindam alegres
Seus vivos e mortos
E acabam a noite
Com novas canções

Conhecem o perigo
Mas fazem de conta
Que o tempo não ronda
Mais seus corações"

Almir Sater


domingo, abril 20

Palavras




O ano não foi dos melhores para chuva. Nunca vi tamanha sequidão em um janeiro e fevereiro. Enchente de São José só no norte do país. Em um Brasil desse tamanho, até a distribuição de chuva é desigual. Enquanto em algumas regiões cachorro anda tomando água de boca para cima, por nossas bandas o que se vê são represas secas, rachadas. Tablados de ranchos viraram galinheiros. Estaleiros ficaram tão altos que acrofóbicos devem evitá-los.

Em visita a amigo, este nos levou até beira d’água. Tivemos que andar um bom pedaço para lá chegar. Resolveu dar uma olhada em seu canto de pesca. Já tinha, a duras penas, empurrado o tablado para dentro do lago várias vezes. Agora não adiantava mais. Água pouca. Para represa voltar para perto do que um dia fora, serão anos. Isto se tiver fartura de chuva nas cabeceiras dos córregos e rios que formam a gigantesca lâmina, o espelho líquido que, faustuoso, faz fronteira com três Estados.

A continuar a toada e descontrole, dentro em pouco poderemos passar de Estado a outro sem canoa. Esquece ponte. Tem tempo? Aproveita, vai a pé.

Já que não tinha como pescar, o jeito era sentar à varanda e trocar prosa. Obviamente, o assunto não podia ser outro senão o desmazelo com as coisas da natureza e a vingança da terra.

Como um jogo de palavras, tentamos enumerar as tantas e quantas reuniões mundiais sobre o tema. Assim no susto vieram algumas: Convenção sobre Pesca no Atlântico Norte lá em 1959. Acordo sobre Poluição do Rio Reno, Cooperação entre países para prevenir a poluição e manter qualidade da água em 1963. Estocolmo 1972, Rio 1992, Rio +20. Paramos aí. A brincadeira ficou triste. Quantos tratados, princípios e compromissos foram assinados. Chefes de Estado saindo sorridentes nas fotos, mas, por dentro, já sabendo que nem em sonhos o acordado seria realizado.

Noite avançava lenta. Turma resolveu dormir. Decidi ficar ali mais um pouco. Lua jorrava luz sobre a curta lâmina sem marolas, mesmo com a brisa fria que soprava frequente. Fiquei imaginando quantas palavras foram gastas com questões ambientais e que, simplesmente, escorreram ralo abaixo. Desperdício sem conta.
Talvez aí estivesse a chave do insucesso. Como lagos, cachoeiras, rios e represas esgotaram-se ou estavam em nível crítico, reserva de palavras sinceras.

A politicagem com o meio ambiente, as mentiras embutidas em promessas eleitoreiras haviam consumido o repertório dos mandatários locais e mundiais. O termo “crescimento sustentável”, por exemplo, parou de ser produzido, estava fora de linha. Uso falso o havia consumido até os ossos. Não sobrara mais nada. Estava pálido, sem brilho/cor, escondido em algum recanto de cabeças ditas progressistas. Pediu aposentadoria compulsória. Palavras, assim como Anjos da Guarda de crianças, aposentam cedo, geralmente por invalidez ou periculosidade. Vernáculos e expressões tais como “prometo”, “farei”, “não vi”, “se eleito for”, estão perdendo viço à velocidade da luz. Estes são apenas alguns exemplos.

Estamos em ano eleitoral e, se você tiver a paciência que me falta para assistir ao teatro do horário político, preste atenção como essas e tantas outras palavras ditas soam tão fracas, cansadas, falsas, como que recauchutadas em oficina trambiqueira. Conhecem seu destino. Estão prestes a se transformar em língua morta.






Publicado Jornal Correio em 20/04/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhTDZiSE10TTVldjA/edit?usp=sharing

domingo, abril 13

Sombrinhas

O tempo rugia em pré-chuva. Aquela que não veio no tempo certo ameaçava desabar em cântaros. Seria muito bem-vinda. Choveu pouco, represas lá embaixo, risco de falta d’água. Os primeiros pingos bateram forte no telhado. Rufos como pratos de bateria, show de rock pauleira. Beleza. O calor poderia dar um descanso.
Bia resolveu, resolveu não, tinha que sair de casa. Sua tranquila agitação não lhe permitia ficar muito tempo em lugar só. Casa de mãe, acertar alguma conta, buscar João. Feliz muxoxo, pois gosta de andar, é a natureza dela, eu no meu sossego de bem parar acho bom. Fico no sorriso. No roncar das nuvens deu sapituca de resolver algum problema. Não sei bem qual, mas avisei pela milésima vez, evita a Rondon, ali é de pouco jeito. O rio encurralado, o excesso de asfalto, carreia tudo para lá. Vira rio como sempre. Não há quem dê jeito. A natureza sempre vence.

No preparar para sair, o corre e procura de sempre. Chave, cadê? E A bolsa? Outro canto. Celular, cadê o celular? Ah, ficou no carro (como sempre).
Certa feita ligaram de papelaria, havia deixado o celular no balcão. Aparelhinho antigo, quem iria querer? No Aeroporto de Viracopos, a mesma coisa. — Moça, esqueceu o celular!
A papelaria devolveria qualquer que fosse o modelo. Uberlândia, gente conhecida e boa. Porém, num aeroporto impessoal e internacional?

Recebe e liga, diz Bia. Não é para isso que foram feitos? Desdenha a tecnologia e vive muito melhor do que os obcecados.
Hora de sair. No bate rebate, toca de roda, uma lembrança: — Cadê minha sombrinha?
Procura por todo canto e nada. No carro! Nada. Juro que está aqui. Essa nunca mais.

Anos vendo esta cena em tempos de chuva. Claro, só lembramos de sombrinhas e guarda-chuvas nessa época.
Desconfio que desvendei o mistério. Sombrinhas e guarda-chuvas têm vida própria e são muito organizados. Possuem em sua composição algo que os faz desmaterializar após certo tempo. Prazo de validade metafísico, um arranjo transcendente.
É assim, desde o começo dos tempos, coisa de mais de 3.000 anos atrás. Contam que um imperador mesopotâmio mandou cortar cabeças de mil e duzentos súditos, só porque não encontrava sua sombrinha real. Mal sabia ele que a conspiração era da própria.

Em minhas pesquisas sobre o nada, descobri que o estoque inteiro de uma loja na 25 de março simplesmente desapareceu. Dono da loja chegou cedo para vender seus produtos pensando em faturar alto, garoava, novidade em Sampa… Qual foi sua surpresa ao levantar a porta da loja: nenhum guarda-chuva ou sombrinha lá estava. Prateleiras limpas. Assim como dizem existir cemitério de elefantes, deve existir um mundo paralelo habitado só por sombrinhas e afins. Lá o frevo corre solto, as “yangsan” colorem esse mundo fantástico. Milhões de sombrinhas que coloriram o show “Umbrella”, de Rihanna, se refestelaram em risos e arrepios, pois se desmaterializaram em apogeu de festa.

Não tem jeito. Ao comprar uma sombra artificial saiba que será temporário. Acostume-se com o fato. Dura pouco. Logo terá que comprar outra. É sina, predestinação. Contudo, sempre haverá loja em camelódromo louco para se desfazer de seu estoque, pois sabem que as peças tem dias contados.

Avisei Bia para não esquentar mais. Perdendo sobrinhas periodicamente lá se vão anos de um bem viver juntos. Só rindo.





Publicado Jornal Correio em 13/04/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOha1EtR3U0aFN6SGc/edit?usp=sharing

sábado, abril 5

Conspiração



Um amigo perdeu seu cão para a leishmaniose e contou sua triste saga aqui no Painel outro dia.
Doença estranha mostra nada no começo, bicho parece sadio, mas é uma das fases mais perigosas. Se tiver mosquito-palha perto pode levar à grave doença, por vezes fatal nas gentes se em forma grave, calazar.
Ainda não tem vacina aprovada e tratamento é proibido pelo Ministério da Saúde. Não é eficaz. Solução única e traumática: sacrifício do animal.

Só quem tem ou teve cão sabe o sofrimento, a dor de entregar companheiro para morte. Aqueles que possuem consciência cidadã sofrem, mas assim o fazem, não querendo colocar em perigo toda uma população. Meu amigo assim o fez. Compadecido, mas conhecedor dos riscos.

Só quem tem ou teve um cão pode mensurar tamanho carinho. Estima, afeição, mais milhões de adjetivos, compartilha-se com este milenar amigo canino.Só quem tem ou teve um cão pode descrever sofrimento de entregar amigo à imolação.

A caravana passa, os cães ladram. Muitos ficarão para trás, não verão mais caravanas.
Exercício conspiratório, fruto de mente atormentada com pequenos e gigantescos fatos. Certa feita mencionei suicídio das minhocas após chuva. Pulavam fora dos canteiros, se expondo ao tempo. Recolhidas à terra fofa, tornavam a minhocar até o chão de cimento e, ao sol torravam. Quando chove, fico a pensar no mundo das pequenas e seu entregar.

Produzir vacinas contra doenças causadas por vírus é relativamente fácil, mas quando se trata de protozoários, como é o caso das leishmanioses, da malária e da doença de chagas, só para citar algumas, aí complica.

Disse fácil? Ingenuidade. Pasteur, em final de longínquo 1881, conseguiu isolar o vírus da raiva. Dai à vacina protetora foi um pulo. É certo que a vacina de Pasteur mais matava do que salvava, pois a purificação desta era incipiente. Mas, estavam lançadas bases de uma vacina que salvaria milhões de humanos e animais de tão terrível doença. Hoje, a vacina é segura e quase não se tem relato de efeitos colaterais. Quer outra? A varíola. Causada por um vírus enorme para os padrões, o Shaquille O’Neal dos invisíveis patógenos.

Erradicou-se a doença. Temos muitas outras vacinas: Pólio, febre amarela, antitetânica. Esta última, um avanço, pois a vacina é contra uma neurotoxina produzida por uma bactéria. À lista: sarampo, gripe H1N1, catapora, rubéola, tantas outras e a mais recente oferecida pelo poder público contra o vírus HPV.
Pois bem, minha teoria da conspiração: se tão “fácil” é produzir vacinas contra vírus, qual a grande dificuldade em se desenvolver vacina contra dengue? Ora, os sorotipos bem são conhecidos e o genoma mapeado. O que se tem de concreto contra o HIV causador da Aids?

Controlar dengue através de vacina significa deixar de produzir milhões e milhões de litros de veneno e antitérmicos. Imunizar contra HIV vai quebrar muito laboratório. Setores da indústria farmacêutica e de venenos terão que mudar de ramo. Terror mental, o mais ligeiro pensar que grupos estejam visando lucro a troco de tanto sofrimento e morte. Não é isto que a indústria bélica faz?

Peço a todos os Anjos, Orixás e Divindades que seja apenas tormento e que tamanha ganância e frieza humana sejam frutos de paranoica imaginação Assim tanto sofrimento enfermo, quanto da dor da perda, seriam radicalmente amenizados.





Publicado Jornal Correio em 05/04/2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhWkpSeFAtaTl6Q00/edit?usp=sharing