segunda-feira, agosto 28

Presente divino

Presente divino
William H. Stutz

carregada da raiz ao céu
jabuticabeira agradece
primeira chuva das flores

28.08.2006
(Com dedo da amiga Ly, organizadora de idéias)

Não ao voto nulo




Por que não anulo meu voto.
Muitos pregam aos quatro ventos o voto nulo.
Sei por convivência que são em sua grande maioria pessoas boas, íntegras e que até acreditam, acho, no que dizem. Algumas mais pragmáticas do que as outras é claro.

Penso bem diferente deles. O voto nulo se transforma numa eterna mordaça, um tapa-boca moral que, a meu ver impede o cidadão que tal prática adota de, por pelo menos quatro anos, reclamar, queixar, de viver plenamente sua cidadania.
“Cala-te omisso, a ti não é dado nem o direito de suspirar!”

O voto nulo não contribui em nada para o crescimento democrático e para o estado de direito. Jamais anularei um voto.

É óbvio que enojado estou com as maracutaias, com as negociatas, com o descaso com um povo inteiro, que vejo acontecerem diariamente. É claro que não abono (aliás abomino) a postura de “monarcas federais” de plantão, ávidos para se perpetuarem no poder, aqueles que se auto-intitulam donos de nosso destino. E por essas e outras é que meu voto nunca será nulo. Nem nulo nem útil. Nós temos o poder de mudar o rumo de nossa história.

Voto sempre por mudanças, com esperança. Voto sanitário. Limpeza.
Honra, compromisso, altruísmo; isso espero, com isso conto quando voto. Não, não votaria em branco nem por decreto.
Ingênuo? Posso até ser, mas fazer o quê.
Continuo acreditando no homem.
Não voto NULO.

Tremo em pensar que nada fiz para, pelo menos tentar mudar o que aí está. Tomo em minhas mãos o destino de meu solo pátrio. Pelo voto me manifesto, busco transformação.

Mesmo quando todas as pesquisas me garantem que já perdi, (perdi? Se participo não perco nunca!) e no primeiro turno, não me entrego, voto porque não compactuo, voto porque sou livre, voto porque por esse momento muitos lutaram, muitos morreram, nas praças, nas ruas e nos púlpitos, homens se expuseram por este ideal, pelo direito voto direto. Voto porque acredito que podemos vencer sim, eu, você, cada cidadão faz a diferença. A vitória será sempre da liberdade, da democracia, do nosso povo.




Senhores de nosso destino tremei,ele, o povo, mesmo que vocês não acreditem, existe e se fará presente.
NÃO ao voto nulo.

Ouso encerrar com magistral verso do Romanceiro da Inconfidência de 1953, uma lição, uma reflexão:

“Liberdade – essa palavra
que o sonho humano alimenta:
que não há ninguém que explique,
e ninguém que não entenda".
(Cecília Meireles)


William Henrique Stutz
médico veterinário sanitarista
Cidadão Livre

sexta-feira, agosto 25

Ciberespaço


Hoje pensei no computador, tenho praticado.
A idéia vem forte, assim à toa
até que ele liga, pronto a idéia já é outra
Ciberespaço, o que faço?
Tristeza.

Animal




Ando meio esquisito, sem paciência.
Caso cumprido conto mais não,
Perco o fôlego, suspiro sem tristeza.
Corto frase no meio, espero entendimento,
Quase nunca vem, sobra desacordo, desavenças.

Ando de prosa curta
Estou ficando monossilábico.
De tanta lida passo a parecer com eles.
Meus bichos.Todos silenciosamente barulhentos, noturnos.
Escorpiões e morcegos, minha vida, minha rotina.

Ando meio esquisito, monossilábico.
Paina ao vento; assim deveriam ser as prosas,leves ligeiras, rumo? Incerto.
Bicho fala pouco, observa.

Ando de prosa curta.
Monossilábico. Velhice?

William H. Stutz
Agosto/setembro 2006

quarta-feira, agosto 23

Lua virada


Na virada da lua entre minguante e nova tenho sempre curto interstício de vida
fenda profunda entre real e imaginário

A reclusão e o silêncio sempre me acompanham
No fundinho da gaveta, junto ao mais perfumado sache , jasmim, me aquieto

Pensamentos atormentam meu cotidiano
Pensamentos alimentam meus sonhos
Como voltar?
Lembro dos amigos

Quando voltar?
quando me sentir confortável, quando me sentir afável.

Por que voltar?
Porque amigos de verdade sempre esperam Pacientes, compreensivos

Na virada da lua entre minguante e nova existe sempre a expectativa da Clara luz da cheia,
não só lua , mas vida cheia, completa plena, repleta

Tudo isso na virada da lua
na virada da lua
na virada da lua
da lua
da lua

William H. Stutz agosto/2006
Baseado na " Na virada da lua" de Clarice Villac

quinta-feira, agosto 10

Bilhete



Sentado no canto mais escuro do bar, coçava a barba por fazer. Daquele ponto podia observar todo o ambiente. O entre e sai das gentes. O apressado engolindo cafezinho, que pelo cheiro que emanava da cafeteira prateada mergulhada em cuba d'água sempre aquecida devia ser requentado, feito há dias talvez.

Outro, a comer lambuzado pão com molho de almôndegas vindas de travessa onde ficavam a boiar em vermelho caldo na vitrina de salgados, como estranhos seres alienígenas que ainda não foram pescadas. Ali também havia ovos cozidos de cascas azuis e vermelhas, pastéis ressecados, e claro, moscas, muitas moscas.

Do seu canto observava também uma parte da movimentada rua. A porta do bar, uma moldura. Enorme boca parecia tentar engolir carros e pessoas que ao seu alcance passavam. Um quadro em movimento, mutável, tristemente dinâmico, vazio. Cinza.

Fazia um calor insuportável. Abaixou os olhos para o seu copo de cerveja, estava quente. Com as costas da mão conferiu a temperatura da garrafa, sentiu a umidade do vidro suado, mas pressentiu que o que ainda lá restava também já não estava gelado, nem fresco.

Assim mesmo tornou a encher o copo, espuma branca e abundante tomou quase o copo inteiro, uma pequena cachoeira escorregou alva pela borda e derramou pela mesa de lata, virou amarelo líquido rapidamente. Com a ponta do dedo ensaiou um desenho sem sentido com a cerveja derramada. Um círculo, algumas letras, um rio e suas curvas.

Bateu a mão no bolso da camisa procurando o maço de cigarros. Mania, parara de fumar havia muito tempo. Tamborilou no encosto da cadeira do lado uma música que nem conhecia. Ansiedade .

Buscou com os olhos alguém conhecido.
— Mais uma cerveja, por favor, tem torresmo? - Ia ficar ali um bom tempo.
Procurou no bolso o guardanapo de papel rabiscado. Era o bilhete que havia recebido no dia anterior. Entregue por um menino vendedor de flores, aquelas rosas mumificadas embrulhadas em papel celofane.
— Moço, mandaram entregar. Baixou os olhos para a encomenda um segundo e quando outra vez os ergueu o pequeno mensageiro havia sumido, mágica, não tinha para onde ir tão rápido, estranho.

Além da caligrafia bonita, do perfume que já não mais se podia sentir, o que mais encantava era o beijo de batom. Vermelho vivo. Um convite ao desejo. Prometia encontro naquela mesa, na proteção da tarde quando poucos ao bar se aventuravam. Não conhecia a dona daquela caprichosa mão e de tão perfeita boca. Sonhava.

As horas avançavam, o entre sai aumentava, a moldura da porta adquiria tons escuros, faróis agora acesos cruzavam seu campo de visão. Ninguém. Com paciência sofrida, colou o bilhete no casco da última cerveja, o vermelho do batom escorreu papel abaixo em contato com água condensada. Observou a cena sem emoção especial.
Quem sabe amanhã? A solidão ainda permite sonhos.

William H. Stutz
Uberlândia, Minas, agosto, 2006

quinta-feira, junho 29

Longa estrada



Contam as más línguas, e aqui só repasso pois nem sei se verdade é, estranha história ocorrida em meados do século passado.
Com o intuito de diminuir o isolamento em que se encontrava a cidade de Manaus, governador do estado e prefeito municipal resolveram deixar as querelas políticas de lado e unirem forças na construção de um estrada internacional que ligaria a capital do Amazonas ao mar do Caribe.

O traçado já estava feito, pelo menos na cabeça dos políticos. Saindo da capital seguiria direto para Novo Airão, de lá em reta linha cortaria mata fechada rumo a São Miguel do Rio Negro e de onde embicaria para Tupuruquara, depois São Miguel da Cachoeira e por fim chegaria em Cucui já na divisa com a Venezuela.

Acreditavam aqueles senhores que, uma vez cumprido o trecho em pátrio território as autoridades diplomáticas federais, confortavelmente instaladas em Brasília se incumbiriam dos trâmites legais para prosseguimento da empreitada através do país vizinho até o desemboque da rodovia nas cálidas praias caribenhas.

Idéia e "projeto" feitos, correr a contratar engenheiro e peões para início das obras.

Depois de muitos editais convocatórios publicados em jornais de todo Brasil, apenas um pretendente ao serviço apareceu. Era um jovem engenheiro paulista, recém formado em conceituada universidade, possuidor pois de boa formação além de ser de primorosa estirpe.

Apesar da má impressão inicial quando da entrevista com o oficial de ordens do governador, foi aceito por ser, como já dito, candidato único.

Mãos à obra e toca a abrir a sonhada estrada.
Já no primeiro quilômetro eis que encontram exatamente bem no traçado do mapa um gigantesco e centenário Mogno, majestoso, com sua copa tomada por pássaros e ninhos. Sensível às belezas naturais o jovem engenheiro de pronto decidiu por um pequeno desvio de forma a poupar aquela jóia da criação.

Pouco mais adiante lindo e cristalino córrego, em suas margens revoadas de borboletas multicoloridas, samambaias e orquídeas de rara beleza enfeitavam todo seu entorno. Com os olhos marejados de emoção diante de tanta beleza o engenheiro se recusa terminantemente a aterrar o local para construção da primeira ponte — obra de arte como chamada em linguagem técnica — pois sim obra de arte de verdade era aquela que à sua frente despontava. Novo desvio.

E assim as belezas de nossas verdes matas, de nossa exótica e deslumbrante riqueza natural, iam se sucedendo quase que metro a metro e a cada espetáculo, aos olhos do jovem construtor de caminhos, cada vez mais lembravam as antigas expedições de pesquisa como a do zoólogo da Academia Real de Ciências da Alemanha, Johann B. von Spix ou do também gringo alemão o botânico Karl Friedrich, pura e imensa emoção, sempre aperto na garganta, sempre novo desvio.

Não demorou muito, minto,demorou bastante, meses de incansável trabalho, de desvio em desvio, contorno em contorno, não deu outra — a estrada aberta na mata a duras penas e muitas malárias retornou a Manaus.
E assim, contam, esta maravilha da engenharia passou a ser conhecida para desencanto e fúria política como a famosa estrada Manaus-Manaus.

Quanto ao destino do jovem e virtuoso engenheiro, essa já é outra história, mas a boca miúda, desconfiados sussurram os poucos que dele ainda lembram:
— Dizem que virou Caipora.
E desconversam ligeiros.


William H. Stutz / junho 2006
( a bela imagem foi presente da amiga Clara Clarice Villac)



No jornal Correio AQUI

quarta-feira, junho 21

Tocaia


Ansiedade assumida, suor a escorrer pela testa.
Arapuca armada – quirela amarelinha como a encantar e colorir a festa.
Por de trás da moita nas mãos a linha grossa, já suja e remendada – o gatilho da espreita, da tocaia.
Horas a fio vendo a bela trocal a pastar perto, rodeia/arrulha mineira, desconfiada.

Um sem ciscar de busca pelo milho na sombra, vem devagar, observa. Aos poucos perde o medo, a mão do barbante se retesa, joelho raspa a terra molhada, está quase de pé. Só mais um pouco, paciência. O suor agora embaralha a vista, em cachoeira passa pela sobrancelha e corre solto por sobre os olhos. Coração bate na garganta, é hora.

Arapuca-algoz pronta, quase treme, cordão teso.
Pomba passa rente, esbarra na taboca que estala, um súbito parar, bico para o alto olhos aflitos como a procurar.

Um leve bater de asas sem voar, procura, pressente.
Moleque fica pálido sente arrepio e dor de posição. Já não agüenta segurar a própria mão, geme, arfa baixinho. A correia da sandália de plástico parece querer cortar seu pé que já formiga adormecido.

A trocal ainda parada olha de soslaio a quirela na sombra da arapuca. Determinada com seu jogar de cabeça avança, estica o pescoço para dentro, assunta.

Futrica chega esbaforida e em espalhafatosa busca acha o dono, pula/late/lambe, irresponsável, é só o tempo de um olhar por sobre a planta para ver a trocal em assobiado vôo se ir barulhenta.

Menino e cão rolam pelo chão, raiva passa rápida, aos risos brinca de outra coisa.
Criança é assim por natureza – feliz.



William H Stutz/ junho 2006

(Imagem acima: "Meninos brincando com arapuca - Candido Portinari)

No Jornal Correio AQUI

segunda-feira, junho 12

Melancolia





Lua cheia ontem nasceu amarelo ouro, beleza tensa - imensa - suaviza noite adentro.
Solos inflamados de violino em fogo traçam seu musical e celeste caminho seguro.

Torna-se clara, mansa, flutua entre estrelas jóias. Sempre só – solitária nobreza. Pausa breve, descansa.

Lenta busca a proteção do horizonte, melancólica se deita – se faz tarde.

Nascerá minguante sedenta agonizante brilho a enfraquecer até se tornar nova
bancos de pedra, úmidas tatuagens a combinar com a trilha escura,

outra vez cumprindo sina, se torna crescente como a ter pressa se transforma rapidamente melancólica de tão cheia,
Reluzente ciclo - aplausos - eternamente.

William H. Stutz
Junho/2006

Força da amiga

Canto dos pássaros
brisa calma, mar perfeito
lindas luas, noites frias
Lareira acesa - vinho a aquecer.
Sem amigos - qual a graça - nada disso poderia acontecer.

William H. Stutz
junho junino de 2006 para uma amiga

terça-feira, maio 30

Poema para uma poesia




(para "As três" de Ly Sabas)

As pedras têm o curioso hábito de permanecerem caladas.
Pacto.
São cúmplices de momentos únicos
Sempre fechadas em si mesmas.
Confidentes
não se oculta segredos das pedras,
compartilha


William H. Stutz/ maio 2006

sábado, maio 27

Plantio

Quisera eu entender das gentes, pois olhe
Colhi viçosas mudas de grama nascidas em brita, pedra seca e rude
grama cuiabana
plantei em chão fértil, fofa terra de cultura
Morreram todas.
Tem gente que é assim, árida


william h. stutz

quarta-feira, maio 24

Prosa com Ly


Beijos frios
cerrado quente de gente
coração
morno de vida
frio de solidão

Will/maio 2006

quarta-feira, maio 10

Dois mundos




Dois mundos

Caminhos os há, difícil é saber qual seguir.
Terra batida, atoleiros ou asfalto.

Caminho cósmico – estrelas.
Via Láctea sinalizada – estrada de sonhos.
Misteriosa magia. Aquecia por dentro de prazer só de pensar.

Deitada no telhado frio do curral vigiava o mover dos astros.
Encantada com a viagem anunciada.

Trecho infinito a percorrer.
Belo luminoso. Volta e meia uma luz mais agitada cortava seu campo de visão, de vigília a devaneio.

Visitantes estelares ou um simples balão meteorológico a espiar nuvens, mares e ventos?
Um paranóico avião espião em busca de novas ameaças imaginárias?

Balança a cabeça como a espantar a idéia.
Quanta falta de poesia. Eram com certeza alienígenas vestindo impecáveis uniformes prateados. Raça evoluída com ânsia de dividir conhecimento. Gente do bem, vindos de muito longe.

Já os havia visto em ocasiões diversas.
Em sonhos, durante enfadonhas preleções matinais na igreja. Durante as aulas de matemática, nos intermináveis almoços e jantares familiares. Principalmente quando tias e primos desconhecidos por lá aportavam – vinham da cidade. Chatos. Principalmente os primos com seus tênis de grife e palavreado entrecortado, meias e preguiçosas palavras sem nexo. Eles cheiravam ar condicionado e sanduíche de shopping.
Debochavam em silêncio de suas roupas e de sua botina mateira.

Mas a presença deles era mais comum à noite, logo depois de seu pai desligar o motor da energia. Eles gostavam muito do escuro ou da fraca luz do candeeiro. Visão acostumada à escuridão do cosmo, devia ser isso.

Uma estrela cadente cruzou o céu, passou raspando a copa da mangueira, iluminou o pasto.
Mãe do ouro.
Caminhos os há. E em breve teria que escolher o seu. Não queria a cidade – traçou o dos céus, para lá é que ia longe, bem longe.
Breve, muito em breve.



William H. Stutz/ maio 2006

terça-feira, maio 9

Janela


Mundo cinza, sem cor, sem brilho mundo mudo sem som ou vento fechado em quarto escuro sem janela.
Apenas o caos o silêncio e muito, muito sofrimento


Mundo cinza sem vida, sem amor.
Áspero sem cânticos ou simples canção.
Sem céu, sem estrelas ou lua, escuro.
Apenas amarga, profunda e inimaginável solidão.

Não meu mundo
Meu mundo é brando e leve é alvo
é límpido como a mais recente e fresca neve.


Janela de um estonteante azul céu, límpido e musical
por ela, sempre a adentrar o aconchegante aclarar matinal.


O meu mundo? Meu mundo é a janela!
Sempre aberta, sem paredes ou quarto.
Hoje sobre o mar amanhã sobre a terra.

Janela multicolorida sem dono, dolo ou fechadura
Meu mundo minha janela, está sempre pronto a se abrir.
Bastando amiga, é simples, um sincero afago ou a mais leve candura

sexta-feira, maio 5

quinta-feira, maio 4

Consolo



Para uma amiga em dor certa feita escrevi, sê Fênix.
Usufrui do direito quem tens ao sofrimento real, ele é teu e único.
Necessário.

Mas lembra-te, a vida segue inexoravelmente seu curso. Atropela os incautos, deslumbra os afoitos, premia os justos e corajosos.

Após amarguras sentidas transforma-te, sê a grega e mitológoca ave, que além de seu eterno retorno das cinzas é capaz de suportar pesadas cargas. Ressurge exuberante e mais sábia, mais serena.

Desvenda os mistérios que regem nosso universo, eterno, possível, prazeroso.
Sê feliz querida amiga, sê feliz.

William H. Stutz/ abril 2006

quarta-feira, abril 26

Dengue


Há vários meses tenho acompanhado opiniões de gente abordando o tema Dengue por esse Brasil a fora. Se é a dengue ou o dengue não vem ao caso, pois como bem disse certa feita, há anos e anos atrás, um antigo colega de trabalho: melhor seria  the  dengue – assim pelo menos esta polêmica estaria resolvida.

Entre tantos comentários enviados a jornais, revistas, e matérias de televisão e rádio, alguns em particular me despertaram especial atenção, é a partir deles que gostaria de colocar minha colher de pau nessa prosa sem fim. Gostaria de falar aqui como especialista em saúde coletiva, na prática e na gramática, afinal são quase 24 anos dedicados a esse ofício, que ainda é mais conhecido como saúde pública.

Então vamos lá, ou como diria o amigo e ex-secretário municipal de saúde de Uberlândia,
Dr. Paulo Salomão: "Vamos comer o boi aos bifes".

A maioria das pessoas usa termos como "erradicação", “guerra”, “combate”, "ataque" quando se referem a doenças endêmicas. Estes termos remontam aos tempos de chumbo e da extinta e militarizada SUCAM, eficaz na maioria das vezes graças quase sempre aos seus valorosos “guardas” ou “malárias” como eram chamados, porém esta instituição era historicamente centralizadora e não admitia dividir estratégias nem informação – portanto inviável nos dias atuais. Deixou saudades? Tenho minhas dúvidas. Os termos adequados seriam “controle” e “manejo”.

Um eterno questionamento diz respeito à eficácia dos venenos utilizados pelos "fumacês" e sua aplicação, e quem sempre quem paga o pato são as prefeituras. Aqui cabe esclarecer que esta atribuição é do Ministério da Saúde e dos órgãos de saúde dos estados, não dos municípios uma vez que a normatização de técnicas e uso de produtos (leia-se sempre venenos) a eles pertence, cabendo ao município acatá-las, sob o risco de até perder recursos. Ditatorial? Injustificável? Concordo, mas é lei.

Outrossim o uso do "fumacê" é restrito a situações especiais, tecnicamente definidas, afinal está se jogando veneno nas ruas e milhões de outros bichos inofensivos e importantes para o ecossitema também irão morrer.
Outro dia li a sugestão de um cidadão sobre o uso do helicóptero da polícia para localizar caixas d'água destampadas. A ele pergunto: faz idéia do custo de uma hora de vôo de helicóptero? Garanto que se mais este recurso fosse disponibilizado para as Secretarias Municipais de Saúde ele seria muito mais racionalmente aplicado no controle da doença. Além do mais nossa nobre e corajosa polícia já tem afazeres demais numa sociedade como a nossa, concordam?


A repetitiva e cansativa história de que a população não tem informação suficiente foi a tônica um outro comentário. Particularmente não acredito que a população seja desinformada em relação à dengue, a mídia nos bombardeia sem parar todo dia e toda hora - dengue é assunto nacional permanente. Façamos uma pesquisa em qualquer lugar, garanto que 99% das pessoas abordadas, de mamando a caducando, sabem muito bem como evitar a proliferação do mosquito, só não o fazem! É cultural, simples assim, o problema é que mudanças de comportamentos, de postura, levam gerações! E olha que algumas já se passaram desde o surgimento da dengue no país.

Um outro recomenda mão de ferro e a utilização das multas, onde, vejam só, os mosquitos forem "encontrados".Multar os donos de imóveis onde o “mosquito for encontrado” seria multar todo mundo, pois um bom pé de vento espalha o bicho para longe e para todos os lados. Não seria mais adequada uma ação intensificada onde fossem encontrados criadouros persistentes? Inclusive com a aplicação de multas para os casos onde soluções não fossem tomadas?

Uma bem-intencionada sugestão apresentada foi a de se criar a obrigatoriedade de murar terrenos baldios. Minha opinião:

Murar terreno é esconder problema.
Rima rica, mas que se explica.

Justifico, experiência própria: alguns continuarão a jogar lixo por cima dos muros, e criadouros de tudo quanto há ficarão escondidos dos agentes de saúde, que impossibilitados até por força de lei a adentrar locais fechados, não terão chance alguma de evitar que, aí sim, se espalhem incólumes pragas piores do que aquelas sete apocalípticas.


Saudável e bom debate, que através dele possamos contribuir para a construção de um país melhor, mais agradável e mais tranqüilo de se viver.


William H. Stutz
Médico Veterinário Sanitarista
Uberlândia - Minas Gerais
Abril - 2006

quinta-feira, abril 20

Sétimo selo

"Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.
Então vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas. (..)"

Livro das Revelações

Trôpego tento alcançar o corrimão de minha existência.
Encontro o vazio.
A mão trêmula se apóia em vento, lembranças vagas giram por minha mente carcomida; dor e martírio.

Olhar turvo, ofuscado.
Apenas sombras. Manchas coloridas como autênticos Monets: As Escarpas de Etretat, as Amapolas, a Ponte de Argenteuil estão todos lá, visões, porém amargas e sem luz. Manchas.

A morte assusta, perturba.
Como na parábola do cavaleiro medieval - preparo meu tabuleiro para derradeira partida.
O medo avança, já não sou senhor de mim e de meus atos.


Sete anjos, sete trombetas.
Separadamente, irremediavelmente sós - viveremos cada um, nosso próprio apocalipse.


abril 2006

sexta-feira, abril 7

Nocturnal sounds

William H. Stutz
(Translated by Mike Stutz)


I wake up at the end of the night just before daybreak. Incidentally this has been happening to me frequently. Nothing I do helps me to go back to sleep.

The sounds of the night were no different. The dawn is sometimes noisy.

This evening there were no crickets and not even Benjamin the frog that lives in a pipe amplifying its froggy sounds his living wanting to appear bigger; the eco can terrify other animals.

The first to sing was the chalk-browed mockingbird sadly alone. It seemed like a small bird in the cage, but not so, only alone. Melancholic.

Longing for the dawn, is worse. There is no remedy, nor consolation; it does not pass; it becomes larger, grows with the night and greatly enlarges. Spectral and cosmic longing. Grim memories.

A sound far off of a bus on its first trip makes the background to the darkness. The mockingbird still sings alone.

A little later young birds famished in their nest sing out of tune with much commotion in their nests pleading the mother to break the fast – infinite hunger.

The sound of little parrots arriving in bands covering themselves in the honey of arapuá bees in the shade of the tree in the garden. Every dawn this green/feathers repast is repeated and the bees pass the rest of the day rebuilding what the parrots destroyed. If it was September other kinds of parrots with there colors and songs would be in bands in the guava tree.

No sound from the roosters. Happily the noise of humans is always rare for these bands, even though always from far off and later.

The urban sparrows in idleness cheep in confusion. Red lights can be seen behind the trees, a weak light enters the room.

Finally the day begins. Children, showers, the smell of fresh coffee, sleep smiling faces of a good morning. The beloved kiss in tender and reinvigorating passion ritual.

The dawn is sometimes noisy, a divine sign, straightens that we are alive, emotions/ passions/ loves, enchanted unique, our eternal feelings.

quinta-feira, abril 6

Era uma vez um carnaval

Blocos barrocos
carnavais de tapetes coloridos
lanternas em báculos enfeitados,
lanternas de vime,
fitas e mais fitas além de belas chitas
no sobe e desce das ruas, fria chuva,
Zé Pereira.

num carnaval de pedras
paixão estonteante
amor adolescente, imaturo, de repente
busca por amor puro utópico, alucinante paixão proibida, banida, expurgada

tribunal tendente, pérfido, sem alma
juiz leviano, inconfidente,
quadrilha
sentimentos machucados, corações sofridos
nobre e plebeu- história repetida
final previso, sórdida armadilha.

amor perpetuado na memória
dias de infindável alegria, para os enamorados sentimento encantatório da mais linda e impossível vitória
sumariamente julgados, friamente afastados

num carnaval de frias pedras
choro e tristeza
paixão agonizante
para um degredo, para os dois, eterno e puro segredo

o tempo,
felizes se fizeram, outros amores, outras e abrasadas quimeras.

Cristalizado na memória, entre confetes, serpentinas, chitas e multicoloridas fitas:
muito carinho, lembrança terna de um carnaval de pedras.

Green fragrance

William H Stutz
Translated by Mike Stutz


"Nights of silence/ Voices cry out into endless space/
Silence of man Silence of God’’
Frei Tito

Reveal my life,Choices, attitudes, afflictions

Trying to remember strong regrets, not found

Wanting to live on the beach, at the seashore,
Something deep from my soul,
Something of the evolution of the species.
Daydreaming.

From the sea we came, To it we wish to return.

Today here in the woods I feel the fragrance of rain and green.
Turning over in my high hanging bed Waiting for the animals of the night.

From far seeing the bright lights of the city Alive/ stirring/ empty.
Rude.

I like the night. The clouds lower each time are white in the black night.
Almost touching.
Waiting for my animals,
Those come as always to keep me company.

Hearing their sounds, silent wings arriving and blowing delicious words - that only I understand - close to my ears.

So good to be alive And I answer to them with prayers and tears.
Grateful every day to the Almighty for giving me moments only mine.