segunda-feira, maio 28

Prá casar




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Abriu os classificados de seu jornal matinal por acidente, nunca olhava aquele caderno, "perda de tempo", pensava ele. Como estava com tempo deu uma passada d'olhos naqueles quadradinhos anunciando desde armários usados a promessas de desfazer feitiços, curas contra mau olhado, terrenos no paraíso e até prazeres inimagináveis:

"Louro, um metro e noventa, musculoso, inteligente, atende a domicílio ou em motel homens, mulheres ou casal. Completo."

Ficou a imaginar o que seria o tal de completo, talvez a garantia que não faltaria no moço algum pedaço? O "inteligente" também chamou a atenção. A vida anda dura mesmo, com tantas qualificações e ainda tem que colocar um anúncio de três por três em meio a outros milhões daquelas páginas? Alguém chegaria a ler? Bom certamente, pois ele o fez. Por puro acidente que fique bem claro, justificou para si mesmo.
Passou o dedo sobre tantos outros: "Morena, olhos verdes, universitária, pele bronzeada, corpo escultural, atende executivos, total sigilo." O título do anúncio era "Morena fogosa". Endireitou-se na cadeira, curiosidade aguçada pelas ofertas daquele mercado de carnes e almas.


"Vendo máquina usada de overlock, ótimo estado procurar..." Pulou esse, que diabos seria overlock? Vai saber...

"Procura-se homem de bem para casar". Parou o dedo, levantando a sobrancelha:
"Mulher de meia idade, nem muito bonita, nem muito feia, situação financeira remediada, porém com emprego fixo, tímida, sem atrativos físicos especiais, procura homem honesto para compromisso sério, para casar. Ligar para ..."

A primeira reação foi de riso: "só pode ser gozação", pensou com seus botões. Ou quem sabe seria algum daqueles códigos secretos que só poderiam ser entendidos pelos que de alguma trama ou conspiração participassem, como se vê no cinema? Matutou. Chegou a mudar de página, mas a curiosidade o fez voltar. Procurou o estranho anuncio até de maneira afobada, ansioso. Custou a encontrá-lo perdido entre tantas bicicletas velhas, balcões frigoríficos em bom estado, jogo de panelas semi-novos, aluguéis e vestidos de noiva e claro outras máquinas de overlock - o que seria aquilo? Não podia esquecer de perguntar para alguém de sua confiança, não queria parecer um idiota desinformado.

Com o auxilio de uma régua recortou o anúncio procurado e instintivamente guardou-o no bolso da camisa.

Seu dia passou como sempre, arrastado. Parecia que nada de novo acontecia em sua vida. Telefonemas aborrecidos, reuniões entediantes, conversas sem graça e sentido com os colegas sobre futebol, que ele detestava, ou fofocas de todo tamanho sobre os ausentes, odiava assuntos assim até mais do que futebol.

Olho no relógio a cada dois minutos, aguardando o fim do expediente, o tempo não passa no trabalho.

Entre um bocejo e outro ou um espreguiçar disfarçado, mais um telefonema chato, um ou outro memorando escrito através de modelo já pronto - daqueles que só se mudam as datas para não se dar ao trabalho nem de criar algo novo, lá se foi levando de rastos, aos barrancos e trancos o dia.


Despediu-se mudo de todos e seguiu para casa, não sem antes parar em um bar e estalando os dedos e apontado a geladeira a pedir sem som uma cerveja gelada. Seu único prazer em dias de trabalho era esperar os fins de semana, não sabia por que, motivo especial não havia, a não ser pela glória de não ter que ver ou ouvir aqueles do escritório, no mais todos eram iguais: café da manhã na padaria, o jornal na praça, o bar, as cervejas, almoço sozinho, cochilo, ressaca suportável, lanche leve, banho, televisão ou um livro e cama.

Bebeu o primeiro copo de um gole só, o amargo da bebida desceu suavemente doce. Bateu a mão no bolso em busca de um invisível maço de cigarros que já não o acompanhava há mais de dez anos, parara de fumar.

Os dedos porém repicaram naquele pedaço de papel de jornal amarrotado que já havia até esquecido. Curioso, tornou a observá-lo.

"Para casar" leu e releu atento. Já havia sido casado, um fiasco, foram poucos anos e nada sobrou, nem filhos, e por incrível que pareça nem mágoas ou fotos ficaram. O quê levaria alguém a publicar anúncio assim em épocas de tanta violência e pessoas mal-intencionadas? Um perigo, um perigo.

Cerveja quase no fim. Pediu outra, coisa rara em dia de semana.

Ligaria. O que tinha a perder? Pelo menos ouviria uma voz diferente daquelas que estava acostumado em seu vazio dia-a-dia.

Com certo desconforto teclou em seu celular o número do anúncio - quem sabe dá ocupado e tiro essa ideia maluca da cabeça? - Sinal de chamada se fez ouvir com força em seu ouvido. Tocou uma, duas, três vezes. Aflito desligou. "Que bobagem, olha a que ponto cheguei!"

Saboreou mais um pouco da sua cerveja pensativo. Ouviu passar às suas costas um grupo de colegas de seu trabalho em normal e antipático estardalhaço, vociferando como se fossem os únicos, os donos no mundo. Encolheu-se ao máximo, e em mimetismo instantâneo virou parte do balcão para que não o notassem, sentiu mais antipatia ainda de sua vidinha.

Com raiva dedilhou novamente o número: tímida, ela assim se descreveu, talvez da voz mansa e baixa, era tudo que ele queria.

Desta feita o telefone tocou até a ligação cair. Tentou outra vez, de novo e de novo. Nada.

Frustrado foi para casa. Morava sozinho em pequeno apartamento quarto/sala. Sua janela sem vista alguma dava sim para gigantesco e iluminado relógio de algum banco. Ali também contava cadenciadamente os minutos de sua existência.

Tentou comer alguma coisa, mas a fome não passava na garganta apertada.

Sentado na cama tentou o discar novamente.

Desta vez uma voz masculina rugiu na outra ponta. Meio assustado conseguiu sussurrar:

- Estou ligando pelo anúncio.

- Anúncio? Que anúncio, mano?

- O do jornal, sobre o casamento.

- Casamento? Jornal? Olha aqui cara, não sei qual é a sua, mas deve ser engano.

- Mas o número...

- Olha aqui, comprei essa merda de telefone não tem nem dois meses e já me arrependi desse mico, esta não é a primeira ligação esquisita que recebo e pelo visto não vai ser a última. E quer saber, sai fora meu.

- Mas o que... de quem você...

De lá agora o sinal de ocupado.

Desolado, se jogou no chão frio e encolhido como criança em fetal posição chorou um amor que nem existira.

Acordou suando em bicas no meio da madrugada. Em sonhos, agora determinado encontrara a solução:

- Classificados boa noite!
- Gostaria de publicar um anúncio.
- O texto, por favor.

- Homem de meia idade, nem muito bonito, nem muito feio, situação financeira remediada, porém com emprego fixo, tímido, sem atrativos físicos especiais, procura mulher honesta para compromisso sério, para casar. Ligar para ..."






Jornal Diário de Uberlândia em 27 de maio de 2018

William Stutz
Veterinário e escritor

segunda-feira, maio 21

Carona



No jornal clique AQUI


Moço novo, primeiro emprego. Tinha promessa de trabalhar fora do Brasil, aprendizado seria sem tamanho. Daí a conquistar o mundo um pulo. O giro do viver o tirou da rota. O lá fora virou aqui dentro, em escritório enfumaçado de tanto cigarro que seu chefe queimava. Era um atrás do outro, sem trégua para os pobres bofes. O pigarro, os acessos de tosse, o chiar da voz, eram fundo musical de sua aborrecida rotina de fazer contas e mais contas. Elaborava fórmulas de comida de bicho. Era ração para tudo quanto é bicho de criação. Odiava! Queria o campo aberto, o cheiro de terra depois da chuva, o vento a carregar pólen e passarinho. Estradas de terra tinhosas, poeira com pouco sol, atoleiro com um quase nada de água, massapé onde tudo brota fácil. Queria banho de rio com a namorada, riso fácil. Queria conhecer mesmo era o interior bravo onde ainda havia caçadas de onça e “almoncas” de capivara guardadas na lata. Queria sumir desse inferno urbano, desse chefe defumado. Queria distância da louca ambição que treinamentos e conversas com graúdos e colegas de trampo lhe enfiavam na cabeça, dia após dia. Pink Floyd estocava em sua mente como tortura de Laranja Mecânica:
“Money, get away./Get a good job with more pay and you're okay./Money, it's a gas./Grab that cash with both hands and make a stash. (…)”.
 
Queria ser estradeiro, à conquista agora de seus próprios caminhos. Ali plantaria milhões de árvores, margaridas a ladear seus trechos. Não haveria atalhos, pois o caminho era sempre prazeroso. Córregos com mil borboletas a enfeitar os cabelos de sua amada, pé no chão, vestido de chita, descalço. Sombra boa para cochilar olhando nuvens e passarinhos, lá bem no alto quase sumindo, pequenos pontinhos rodopiantes em fundo de um azul, azul.

Acordou do pensar com a tosse do chefe. Tosse gosmenta, asquerosa. O pulmão hora estoura.
Atrás de morro tem morro, como sempre disse amigo antigo, que sumiu no mundo.
Sentindo que o rapaz não aguentava mais o ali ficar, o mandaram para o campo, vender ração e ideias. Aceitou em um já tão ligeiro, que assustou as gentes. Ia embora dali e isso bastava. Escolheu região pouco aberta para a empreita, a ponta de Minas, Goiás e um longe Maranhão. Pelo menos até Carolina, com esticadas a São Raimundo das Mangabeiras e, vez ou outra, a Benedito Leite, já na divisa com o Piauí. Ganhou o mundo, esqueceu de tudo de ruim. De lembrança carregou por bom tempo um pigarro de fumante passivo.
A estrada virou sua fiel companheira. Asfalto, chão ou pedra pouco lhe importava. Ria e cantava sozinho. Chorava às vezes, mas não sabia se era felicidade ou algum vazio que nunca acabava. Estranhava, pois tinha tudo e mesmo assim, de vez em quando, sentia que nada tinha.
Quantas vezes deitou-se no capô do fusca da tal empresa, parado em pátio de posto de gasolina para dormir. Um dia viraria estrela.

Conheceu gente de tudo que era jeito e tipo, do bem, do mal, ricos e pobres, andou por cidades grandes, currutelas, fazendas sem fim e muitos sítios miúdos. Vendas e praças de todos os jeitos e formas. Andava muito, vendia pouco. Não tinha o menor jeito para empurrar produto que vendia a quem dele não carecia. Chegou a tirar de cabeça de produtor que queria comprar, pois provava no riscado que não ia ser de valia nenhuma para ele. Ia perder o emprego, ligava não. O que importava era o que estava vivendo. Aprendizado que carregaria para o resto de sua vida, mas o vazio também iria sempre junto.

Certa feita, saindo de uma fazenda, pronto para visitar outra estrada de muito pó, topou com velhinho a pedir carona, carregando embornal. Tempo bom aquele, podia-se dar carona sem medo.
Parou beirando o barranco.
− Vai prá onde senhor?
− Pra onde Deus manda, mas nesta hora sigo para meu sítio duas légua adiante.
− Entra aí, é o meu caminho, levo o senhor de bom grado.
− Ô meu filho, não sabe a caridade que me faz. Estas pernas eradas já não comandam o trote, canso fácil. Toda semana é essa latumia de passar na vila para comprar coisinha ou outra. Aí tomo uma canjebrina da boa na venda do Seo Canveco e toco caçar carona. Quase não passa carro essas horas por aqui, foi São Cristovão que lhe mandou.
Já iam de prosa solta caminho afora, quando o velhinho pousou a mão no braço do moço e meio sem jeito falou baixo, como se tivesse mais gente no carro:
− Pode parar um instantezinho, é que a bexiga está carregada, coisa de velho.
− O que é isso, é prá já!

O homem desceu com a peculiar dificuldade de quem anda de fusca e encostou-se numa bela cerca paraguaia esticadinha. Os mourões todos com a cabeça sextavada, pintadas de branco. Ao fundo se via maravilhosa alameda bem arborizada, árvores centenárias a fazerem guarda por todo caminho até a sede. Uma sombra só. A sede um primor, varanda ampla, janelas azuis enormes, jardim bem cuidado, um grande lago ladeado por pomar de dar inveja. Mais ao fundo, um bosque dava a impressão de que aquela casa jamais seria quente no verão mineiro. Uma brisa balançava suave a copa das árvores e lambia cálida a lavoura de milho ainda baixinha.
O moço estava em êxtase admirando tanta beleza. Saiu do transe com o bater da porta do carro e o velhinho entrou com cara alegre de alívio.
− Menino nem te conto, como é bom fazer um belo xixi no que é nosso!
O moço tomou um susto danado, olhando a beleza da aquarela que se abria diante deles e perguntou quase engasgado:
− Essa maravilha é toda sua!?
O velho olhou pela janela e num sinal de “toca prá frente” respondeu sem muito pensar.
− Não sô, estava falando da minha botina!






Publicado em Diário de Uberlândia em 20 de maio de 2018

segunda-feira, maio 14

Improviso




Crônica  no Jornal, clique AQUI


Antes de perguntar conto um fato acontecido, de fato. Convém lembrar que a chance do “jeitinho brasileiro” dar certo, por certo vai dar merda. Escute o que conto.
Não, não estou a repetir palavras por falta de vocabulário. Tenho por mania buscar sonoridade canora quando escrevo, pois sinto o escrever como composição musical. Mania e não improviso.

Quem se deliciou com o“Tigre e a Neve” dirigido pelo genial Roberto Benigni e estrelado por ele e Nicoletta Braschi, percebe que o improviso ali deu certo sempre, ma prego, são tutti buona gente italiana e no mais é filme. Ainda assim convém lembrar do triste final de “A vida é bela”, com o mesmo Benigni. Ali morava um improviso, Toscano na verdade, mas presente.

O contar: Fim de semana em fazenda de compadres. Lá pelas tantas o compadre sugere um passeio de lancha. Não uma lancha qualquer. Refiro-me a uma super marítima, gigante, com cabine, sonar e tudo mais. Faltava uma coisa só. Marcador de combustível. Bom, havia um. Era um cabo de vassoura com riscos a canivete, por meio dos quais se adivinhava mais ou menos quanto tinha no tanque. Toca a andar. Não foi nada não, quando deu na barra do Tejuco, no meio da represa, apagou geral. Breve resumo: saímos lá pelas 10 da manhã e só conseguimos voltar à fazenda na volta da meia noite. Não me alongo por conta do espaço, mas prometo a história com detalhes para breve.

Aí, agora pergunto, diante do acontecido, já sabendo resposta. Quem nunca passou por situação de ter que improvisar? Surpresas do inesperado em que se tem que dar um jeito. Seja no trabalho, nas relações pessoais, cotidiano mesmo. Assim, no repente, se vira rapaz, a bola não pode cair.
Você está andando na rua e do nada aparece um microfone quase dentro de sua boca:
- O quê o senhor acha do aumento do combustível de jato supersônico?
- Qual sua opinião sobre o aquecimento global na salinidade do mar e conseqüentemente na menopausa das baleias jubarte?

Você está tranqüilo no teatro, a peça acaba e alguém lá do palco resolve escolher uma pessoa da platéia para falar sobre as emoções que sentira durante o espetáculo. Advinha onde o spot clareia? Exatamente, em pleno brilho de fogo-fátuo! Logo você, que entediado dormiu quase o tempo todo. Ah! E tem a chata da moça a seu lado, que toda empolgada te agarra pelo braço e te coloca bem no meio do palco, batendo palmas, animando a todos. Ela foge pela coxia e você fica lá.
Balbucia um terrível improviso e sai de fininho amaldiçoando a hora em que resolveu acordar naquele dia.
Improviso não pode dar certo.

Lembrei de história muito contada do bebum que, sem norte, entrou em uma igreja e foi sentar-se na primeira fileira, bem diante do padre. Era hora da homilia. Atento, bom, na medida do porre, prestava atenção. O padre falava da passagem em que Madalena fora salva do apedrejamento. Na empolgação comum aos sacerdotes recém-ordenados, abriu os braços e teatralmente exclamou:
-“Aquele que nunca errou que atire a primeira pedra!”
O bebum olhou para um lado, olhou para o outro e não encontrando pedra, arrancou a velha botina jogando-a com força total, acertando o peito do padre em cheio. Este, assustado, caiu de costas com o impacto e com olhos de espanto perguntou:
- Meu filho, você nunca errou!?
- Dessa distância não seu padre!

Pronto. Puro improviso. Não tem pedra, caça com botina mesmo. Óbvio que não poderia dar certo.
Certa feita, dia de meu aniversário, resolvi não avisar ninguém e não fazer comemoração alguma. Tinha em casa uma dúzia de latinhas de cerveja fora da geladeira, um bolinho de padaria de meio quilo para comemorar com meus filhos, uma vela a assoprar e só.
Nem te conto. Quando deu na volta das dez da noite, parecia procissão de carros a chegar. A turma saiu de um casamento em igreja onde festa não haveria e alguém teve o lampejo de meu aniversário. Toca todo mundo pra minha casa. Não sabia o que fazer. Aflição tomou conta, a começar pelo tamanho da casa, que não iria caber aquele mundaréu de gente.

Mesmo na carreira a pedir desculpas, adiantou não. Um pegou as cervejas colocando-as no freezer e logo, ainda mornas, as dividiu em copos da Cica, dando meio copo para cada um. O bolo magicamente foi dividido, não sem antes um sonoro cantar de parabéns. Abraços fraternos e foram todos embora. Emocionante demonstração de amizade, mas a “festa” de improviso, fiasco total.
Se você for um Eric Clapton, um B. B. King, astro do jazz, da guitarra ou outro instrumento qualquer, pode até ser. Mas na vida real tenho que concordar com um amigo, que outro dia com convicção e acertiva nos disse:
A única coisa que tem que funcionar de improviso mesmo é velório.
Sai fora!






Publicado em Diário de Uberlândia em 13 de maio de 2018




segunda-feira, maio 7

Diário de Viagem


https://cerradodeminas.blogspot.com.br/2018/05/diario-de-viagem.html



Beira de pasto, dia abrasador, à distância recém-conhecida Morada do Sol. O que me impressiona é a cordialidade das pessoas e a fartura, a generosidade da terra. Não há quintal sem pimentas várias: malaguetinhas, redondas bodes, cores e formatos diferentes, muitas.

Frutas o que há: carambolas, tamarindos, cajueiros, mexerica enredeira/corriqueira, maracujá a cobrir o todo. Árvores centenárias. Mangueiras, largos e viçosos troncos, vestidas de musgo verde-aveludado, jabuticabeiras, cajás-manga. Apesar da aparente pobreza, o sorriso é fácil e sincero. Em todo canto galinhas de canelas secas. Pilhas infindáveis de telhas de barro antigas, provavelmente vindas de roça distante, aguardam anos a fio serventia outra vez.
Vem não, ficam assim largadas sem nada a cobrir.

Ali bamburramos, é por elas que começa sempre nosso trabalho, é lá que se encontram nossos escorpiões.

Vingança das telhas pelo abandono? Criam, albergam e protegem escorpiões. Centenas. Sol escaldante, as costas logo doem, o suor encharca rosto e roupa, tudo magicamente desaparece, some. Olhares apenas para o fazer, começa nossa caçada. Pé-de-vento, sombra e tento, do miúdo vermelho olho preto. As folhas dos bacuris fazem chover em céu sem nuvens, o barulho da chuva é eterno. Expedição de trabalho em algum lugar Minas afora. Ao fundo sempre brejo, os quintais seguem mata adentro, são infinitos.

As acerolas intrusas decoram de vermelho os mandiocais, sempre carregadas, sem pragas a fazer frente, seguem em doce azeda fartura, ao lado tapetes rosados sob espinhentas paineiras parecem esperar procissão da paixão santa. Sento cansado à sombra de imensa ameixeira. Aqui tudo é superlativo. Retomo o fôlego.

Fogo-apagou pia mansa. Bandos e mais bandos de tucanos, canários da terra, saíras de mil cores. Saracuras: os potes, sempre três. Magnólias floridas perfumam um Brasil colonial. Felizmente o tempo, aqui parou. As casas construídas ao acaso, adobe, tijolo novo, telha comum. Madeira lavrada, outra roliça, bruta. Mistura do que se tem. Faz-se. No escuro da casa devagar se acostuma a vista. Janelas sempre fechadas, a luz fica lá fora. Escuro sem tristeza. Quadros nas paredes irregulares enfeitam. Fotos retocadas à mão, molduras redondas. Os portais baixos obrigam reverência. Abaixa-se para transpô-los, sempre em respeitoso silêncio: - Dá licença?

O fogão de lenha sempre aceso - seus cheiros atiçam cedo a fome. Na varanda do fundo a água dos batedouros corre quintal abaixo. Os patos se fartam no lodo. O rego é ladeado de taiobas. Longa e pesada semana. Os escorpiões são muitos, centenas. Prática de uma vida. Aqui se busca, se aprende os mistérios de tão antiga e bem-sucedida sobrevivência. Voltando, tentamos aplicar o que a terra nos ensina calada. Expedições pelo Brasil, um repassar do pouco saber, nosso trabalho.
Adorava o que fazia, saudade doída.


 


Publicado em Diário de Uberlândia em 06 de maio 2018

terça-feira, maio 1

Coisas de Minas




A venda era igual a outras tantas espalhadas por esse mundo de meu Deus. Duas portas de dobrar, madeira de lei surrada, gasta de tanta chuva e sol. Pintura desbotada mostrava camada por camada as tantas cores do passado de uma árvore que fora grande na mata, até tombar em estrondo e virar tábua em alguma serraria. Um bom observador diria que a primeira tinta foi azul, com muitas demãos em óleo grosso. As outras cores vieram cada vez mais ralas. Preguiça ou falta de recurso, vai saber.

Do lado de fora três mesinhas também de madeira, gastas e manchadas de tanto cotovelo e marcas de rodelas de garrafas de cerveja. Algumas traziam escritos e desenhos feitos a maioria com canivete. Em uma delas destacava um coração em linhas tortas: Adelano Carlos e, sob monte de arranhados aparentemente feitos com raiva ou desgosto, um nome ilegível. Amor frustado ou ciúmes incontrolado. A data ainda aparecia: 1967


Ano curioso. Bom, acho que todos os anos o são, principalmente vistos de longe. Mas, o que aconteceu de tão especial nesse ano? Tinha a guerra do Vietman, Guevara foi morto no vilarejo de La Higuera, na Bolívia e Dr. Barnard fez o primeiro transplante do coração, que poderia ser do pobre em sofrimento que rabiscou a mesa do boteco. Contudo, este paciente morreu alguns dias depois. O micro-ondas foi lançado em 1967, Os Beatles lançaram o genial e imbatível álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band e, do nada, estourou a guerra dos seis dias. Ano louco. Mais de meio século e os anos, todos eles, continuam loucos. Corações continuam a ser rabiscados em mesas, troncos de árvores e bancos de praça.

Dentro do boteco um balcão imenso de madeira, também sofrida pelo passar dos anos, envelhecia em silêncio. Abaixo de sua tampa, como uma vitrine, mostrava doces misturados com maços de cigarro, lâminas de barbear, pilhas Raiovac, marias- moles cor-de-rosa, paçoquinhas, chiclestes e caixas de ramonas, que conviviam pacificamente. De resto, sacos de arroz, feijão e quirera. Sementes e saquinhos, venenos para todos os “males”. Sobre o balcão um cabo de vassoura amarrado com arame, de onde pendiam gordas linguiças. Na prateleira do fundo, garrafas com bebidas de todas as cores, sabores e teores. Pinga de engenho no carote era de graça. Uma cabacinha de pescoço ficava pendurada na torneirinha, era só chegar e servir, cortesia da casa.



Ia-me esquecendo que, beirando as mesas, duas imensas árvores jogavam sua fresca sombra bar adentro. Calor lá não tinha graças a elas. E o resto das cidades matando suas árvores. Estupidez sem fim.

Em cada árvore uma gaiola. Em uma um canarinho muxoxo das penas engrenhadas, na outra um pássaro preto cantador que só.

O dono da venda, ou boteco se quiser assim, dormitava a espera de fregues.

O arrastar da pesada cadeira na calçada o tirou de um sonho agradável que só.

Pegou o pano de secar, sempre aninhado no ombro, passou-o no balcão e nos olhos. Sem pressa pegou uma cerveja bem gelada e copo para o freguês conhecido. Mas quem não era, naquela pequena vila nos confins das Gerais?

- Ô Seo Samuel, tudo em paz?

- Tudo meu filho. Tudo na mais santa paz.

Seo Samuel arrastou outra cadeira da mesa e como de costume sentou-se com o freguês. Ficaram os dois a admirar o canto do Pássaro Preto. Tempo passando, segunda, terceira cerveja e o bicho numa cantoria sem fim.

O freguês encantado tentou o senhor:
- Seo Samuel, quanto o senhor me vende esse danado de tanto canto?

Coçando a barba por fazer, pensou, pensou e manso respondeu - Ah sô, uns duzentos contos a gente pode fazer negócio.

- Sei - murmurou o rapaz
- E o canarinho feio e caladão?
- Eita, esse por menos de oitocentos não começo nem a negociar!
- Mas que história é essa? Mais sem lógica! Um canta sem parar e tu quer 200 contos. Para o outro emburrado, triste e feio, me pede 800. Endoidou de vez?

Samuel matreiro, olhou para um lado, olhou pra outro, passou o pano na marquinha deixada pela cerveja, olhou fundo no olho do frêgues.

- Sabe o que que é, se quiser vai ter que levar os dois.
Não há de ver que quem compõe pro pássaro preto é o canarinho!

Ê Minas;

“Minas, são muitas. Porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais." Guimarães Rosa






Veterinário e escritor
Publicado em Diário de Uberlândia em 29 de Abril de 2018



quarta-feira, março 21

Datas



Neste 14/3 o universo perde um de seus maiores físicos teóricos que por essas bandas passou. Stephen Hawking com toda sua genialidade e mesmo preso a doença progressiva, sem cura por enquanto, esclerose lateral amiotrófica (ELA), foi sem dúvida depois de, ou junto com Albert Einstein, uma das mentes mais admiráveis que se tem notícias. Morre o homem fica o legado, a fama não importa. Curiosamente ou propositalmente Hawking resolve partir exatamente no aniversário de morte de Einstein e no de dia do Pi (aqui ó para tamanhas coincidências), “constante deste, um número infinito que é representado pela 16ª letra do alfabeto grego” – dicionário de simbolos.com.br – seu valor 3,14 é data para inglês ver. Para nós 14/3 não significa nada, apenas uma quarta-feira chata como outras, modorrento como todo meio de semana se apresenta. Se você gosta de futebol então é um dia especial para você. Caso contrário, é um meio de nada. 
Foi-se a preguiça da segunda e terça, mas não nasce a expectativa do fim de semana. Bom, quartas são quartas e esta em particular comemora o tal dia do Pi. Aposto que isso agora muda sua vida para sempre.

Física/matemática não me pertencem, assim como muitas outras datas criadas num à toa de dar dó. Vereadores adoram este expediente e criar uma data é projeto digno de deliberação por semanas. Quanta riqueza de pensar!

Pois olhe, fico mesmo é espantado com a imaginação das gentes. O ócio criativo junto com alta remuneração cria pérolas. Após longa e exaustiva pesquisa (uns 15 minutos talvez), e sem receber um centavo (como sou altruísta), trago para você algumas datas muito importantes, as quais, com toda certeza, mudarão sua vida para sempre. Espero que esta pequena contribuição de conhecimentos inúteis lhe seja útil algum dia.
Vamos a elas:

03 de janeiro – Dia do Juizado de Menores. Tem mais de 18? Então esquece.
08 de janeiro – Dia da Rotação da Terra. Ébrios talvez se interessem pela data.
14 de janeiro – Dia do Treinador de Futebol. Estes coitados merecem canonização, pois pulam de emprego em emprego.
15 de janeiro – Dia do Adulto. Que dia é esse?
18 de janeiro – Dia Internacional do Riso. Só rindo.
30 de janeiro – Dia da Saudade. E tem dia para senti-la?
14 de fevereiro – Dia Mundial do Amor. Amor com dia marcado.
23 de fevereiro – Dia da Escrita à mão. Essa já dançou, pois escrever hoje em dia é ato de bravura, principalmente usando-se palavras inteiras.
02 de fevereiro – Dia Mundial das Zonas Úmidas. Duplo sentido. E as zonas secas, perfumadas e com cortinas de veludo vermelho?
28 de fevereiro – Dia do Engolidor de Espadas. Meu Deus, mude o cardápio!
10 de março – Dia do Sogro.
14 de março – Dia dos Carecas. Criado provavelmente por em, movimento contra fabricantes de perucas,
17 de março – Dias dos Fãs de Séries de TV e Cinema.
Não dá para comentar todos, deixo para sua imaginação. Aproveite e envie e-mail, telefone, faça manifestações nas ruas, crie o dia que te agrada sobre qualquer coisa. Aposto que seu político de estimação vai adorar. E segue a lista:
31 de março – Dia Mundial do Backup.
13 de abril – Dia do Beijo.
26 de abril – Dia do Goleiro.
28 de abril – Dia da Sogra.
03 de maio – Dia do Sol.
12 de maio – Dia do Silêncio.
20 de maio – Dia do Humorista.
22 de maio – Dia do Esclarecimento sobre os malefícios do trote telefônico. Este é especial, adverte o Ministério da Saúde.
27 de maio – Dia do Vendedor Lotérico. São tantos assim? Ah, tem os anões do orçamento, esqueceram?
31 de maio – Dia do Aeroporto.
05 de junho – Dia do Pedestre. ¨Morreu atropelado atrapalhando do transito”.
22 de junho – Dia do Orquidófilo.
27 de junho – Dia do Quadrilheiro Junino.
08 de julho – Dia Mundial da Alegria.
13 de agosto – Dia Mundial do Canhoto – Dia da Esquerda?
20 de agosto – Dia do Vizinho. Esse é duro de aguentar.
23 de agosto – Dia da Injustiça. É justo?
09 de setembro – Dia do Alcoólico Recuperado. Um brinde!
17 de setembro – Dia da Compreensão Mundial. Patrono Trump.
22 de setembro – Dia dos Amantes.
25 de setembro – Dia da Tia Solteirona. Aqui estão de sacanagem.
22 de setembro – Dia da Banana- Engorda e faz crescer.
12 de outubro – Dia do Torcedor Corintiano. Juro que existe. Quem criou? Vicente Mateus provavelmente.
10 de novembro – Dia da Pizza – Em Brasília todo dia.
11 de novembro – Dia do Origami.
12 de novembro – Dia do Supermercado.
13 de novembro – Dia da Gentileza no Trabalho.
19 de novembro – Dia do Tênis de Mesa.
21 de novembro – Dia da Saudade do Jornalista Falecido.
10 de dezembro– Dia do Palhaço. Todos nós Brasileiros deveríamos vestir luto nesse dia.
Ah, fica a sugestão. Dê trabalho para seu parlamentar de estimação e envie sugestões, pois ele irá adorar ter o que fazer.
Que tal Dia do Chulé, Dia da Dobradinha, Dia da Preguiça, Dia do Ovo Frito, Dia da dor de Calo, Dia do Quiabo, Dia do Mingau de Milho verde, Dia do…

Post Scriptum:

Para não ser como tantos oportunistas da web, aí vão as fontes pesquisadas: Wikipédia pt.wikipedia.org/wiki/Datas_comemorativas, Mega Curioso www.megacurioso.com.br/, Superinteressante , super.abril.com.br/ www, dicionariodesimbolos.com.br.





Veterinário e escritor


Publicado em Uberlândia Hoje 

quarta-feira, março 14

Olha o trem




Posso te garantir meu caro amigo e hoje, em particular, minhas amigas, dedilho esse contar em pleno 8 de março, passou eu sei mas assim foi, dia internacional da mulher. Particularmente e sendo bem lugar comum, acho que todos os dias pertencem a vocês. Pode acreditar, não é lamechice de minha parte não, é constatação. Assim através de amores passados, esquecidos e principalmente pelo iluminado amor que junto a mim está, companheiro, escudeiro “amiga para todas as horas, várias faces de uma só pessoa” e de minha filha maravilhosa, envio meu carinhoso abraço a todas as mulheres guerreiras desse vasto mundo. O mundo é de vocês Marianas, Marílias, Marias que não vão com as outras.

Há assunto ainda fervilhando aqui em minha cabeça de vontade de contar. Quase passo o meu espaço falando de vocês o que seria ótimo, mas não posso perder o fio da meada, senão como poeira de estrada quando passa caminhão, levanta dispersa e some nas palhadas, nos pastos, nas manchas de mato. Chuvisco fino que não chega a molhar.

História que aqui reconto me foi contatada, não carrego os créditos do caso nem posso dá-los pois ao mundo pertencem, talvez até conheça, mas o registro tem que ficar.
Em pequena cidade em pé de serra, vazia de barulhos e de gente, três meninos cresceram juntos, claro que havia mais crianças no pequeno grupo onde ainda se usava “Caminho Suave” e à vezes até palmatória. Mas esse trio era diferente, amizade siamesa, xifópaga. Podia contar, onde um estava era só passar olho e achavam-se os outros. Se por acaso um era pego roubando fruta em quintal castigo para os três. Cresciam pé no chão alegres e pregados. Frango caia de maduro de poleiro, direto na panela ou fogueira. Os pais dividiam e pagavam o vizinho enfezado com a traquinice.

Adolescentes, hormônios à flor da pele, suavam frio/quente, êxtase ao espiar as meninas nuas em banho de cachoeira. Exaustos, pernas bambas, seguiam em alegre silêncio até se prostrarem em gramado e bancos de praça. Nenhum pio, apenas as estrelas como companheiras. Logo, recompostos a algazarra de sempre. Três que valiam mil em contar detalhes e fechar de olhos.

O tempo. “Medida arbitrária da duração das coisas”.
A pequena cidade não os cabia mais. Buscar rumo, não tinha jeito. Resolveram fazer concurso do Banco do Brasil, carreira promissora, futuro certo. Bota um estudar sem fim.
Vendas, botecos e zona. Tinha sim. Era pequena mas como manda a tradição a zona lá estava e sempre cheia, inclusive em dias de semana. Um terror das matronas.

Dizem que foi lá que nasceu a história do vendedor de panelas que, ao ser surpreendido pela noite em suas andanças, buscou pouso no único hotel da cidade. Banho tomado resolveu sair para aventura. Perguntou ao porteiro do hotel onde ficava a igreja. Com sorriso de mineiro cordial indicou direção. O mascate pegou o oposto: — Uai moço, a igreja é prá lá!
Maroto, respondeu em cochichos — Eu vou é pra zona sô, pelo que sei é sempre do lado contrário das igrejas. Padre ia deixar ser diferente?

Pois nem tempo tinham os três. Era um estudar que só. Montanhas de apostilhas chegavam quase todo dia pelo correio.
A prova foi na Capital. Belo Horizonte os recebeu barulhenta e com seu trânsito agarrado de sempre.
Exame feito, agora era esperar resultado.

Meses de agonia depois e pronto toca a comemorar. Fecharam todos os bares e vendas da cidade. No último, vendo que não iam embora o dono proclamou: – Toma a chave dos fundos. Vocês vão marcando o que beberem no caderno e depois acertam, vou dormir, o, leiteiro passa cedo. Só não vão me botar fogo na venda!

A luz tinha caído como sempre e lampião de querosene iluminava o ambiente. Naquela noite o gato do armazém dormiu em paz sobre seu saco de arroz preferido e nem camundongo ousou botar bigode fora da toca, tamanho furdunço.

Dia amanhecendo, abraçados seguiram para a estação de trem, cada um ainda com uma garrafa de Fernet pela metade.
Tontos se jogaram no banco da velha estação se deixando ficar. Passou hora e mais hora. Num sobressalto o rapaz acordou. Cabeça doía que só. A luz do amanhecer entrava por seus olhos como zagaias afiadas. Na ponta do banco o cabo da polícia estava sentado com as mãos entre pernas e dedos entrelaçados. Sem nem olhar para o rapaz que conhecia desde molecote, com voz paternal lhe murmurou:
— Tá vendo, estudou tanto e agora que ia assumir o posto perdeu o trem. Seus amigos embarcaram tontos, mas foram. Tem vergonha não?
O moço aprumou, coçou cabeça e assim, do nada, começou com risada miúda, que foi crescendo, crescendo até transbordar em gargalhada de rolar no chão. A cabeça doía, mas o riso era impossível de segurar.
Sem entender nada o cabo já ia ficando era assustado.
Enlouqueceu rapaz? Eu vou é chamar o doutor e seu pai.
O moço ainda no chão de tanto rir, que doía corpo inteiro:
— Carece não cabo, carece não. É que na verdade só eu passei. Só eu é que ia viajar, os amigos vieram foi me trazer aqui na estação.
Levou semana para os outros voltarem.








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Jornal Uberlândia Hoje
Jornal Voz Ativa Ouro Preto - MG
Diário de Uberlândia


quinta-feira, março 1

Paranormal

Chegou em casa esgotado, dia estafante de pouco fazer, mas a cabeça não parava. Como sempre abriu as janelas para que o doce ar da tarde empurrasse o cheiro de casa fechada. Cheiros de madeira dos poucos móveis, do incenso queimado na noite anterior. Sonhos e lembranças ainda presos fugiam com a brisa leve e tomavam rumos desconhecidos. Jogou-se preguiço em sofá pequenino. Só então se deu conta dos latidos chorosos vindos do quintal e do arranhar de porta. Tão detonado estava que não pôs atenção que seu companheiro cão o aguardava ansioso. Já sem a botina, só de meia, correu abrir porta da cozinha. Festa assim, de poucos ou de ninguém recebia. O vira-lata puro, de nome Pistache, ficava eufórico toda vez, por menor que fosse a sua ausência. Ao voltar era sempre recebido como um deus.

Pistache entrou feito um foguete casa adentro, subia e descia as escadas que levavam ao quarto como um louco. Latia, quase falava pedindo carinho e atenção. Aquela bagunça durava alguns longos minutos e só parava depois de muito afago e coçar de barriga.
Companheiro aquietado, segue-se a rotina solitária. Abre a geladeira sem procurar nada, só costume. Confere a marmita do almoço e vê que vai dar para a janta tranquilamente, pois sobrou muito.
O tempo se fechava para chuva. Resolveu ficar quieto em casa. Subiu de dois em dois os degraus rumo ao banheiro.

Já no chuveiro, pensou ouvir vozes no andar de baixo. Fechou a torneira e pôs atenção. Nada, imaginação apenas.
Retornou ao revigorante banho cantarolando. Poucos segundos, vozes novamente.
Tem alguma coisa errada, se fosse gente estranha Pistache daria sinal. O vira-lata dava notícias de tudo, mas o bicho estava quieto…

Enxugou rapidinho e de pulo vestiu uma bermuda larga e confortável.
Nesse meio tempo escurecera. As sombras delicadas da noite tomavam conta de toda a casa. Luz agora só no quarto onde se vestia.
Ao apagar o único brilho luz percebeu um clarão a piscar embaixo. A luz fazia movimentos e se espalhava por toda sala. Que estranho. Nada de tenebroso lhe passou pela cabeça, tipo fenômeno sobrenatural, um poltergeist da vida. Nada do tipo, mas que era estranho era.

Desceu com mais cuidado do que de costume e, por precaução, não acendeu luz alguma.
Qual foi sua surpresa. Ao entrar na sala de televisão, a mesma estava ligada e Pistache super atento a olhar a luz de um canal sem sinal. Pronto, agora só me falta sair alguém daí de dentro e arrastar o cão. Sorriu. Bateu a mão sobre a cama que lhe servia de sofá a procurar o controle remoto, mas foi só virar as costas e entrou na tela um programa de televisão, desses de pregação e tira-capeta, com o som nas alturas! Tomou um susto louco. O coração veio à boca. Olhou Pistache e este continuava a olhar firme para a tela, desconfiado.

Mas cadê esse danado de controle que não acho? Aí sim acendeu luzes, revirou tudo, quando novamente o canal mudou para uma novela qualquer por si só. Eita, que tem muita coisa esquisita aqui! Manualmente abaixou o volume que ainda estava no máximo, ensurdecedor. Não suportava barulho. Outra vez canal mudou sem explicação, filme antigo agora.
Não tá certo. Sentou no improvisado sofá e botou reparo no ambiente. Pistache a seus pés, olhos vidrados na tela. Ele não era disso, aqui tem coisa.
Não conseguia fazer ligação com nada. Os canais mudavam, o som aumentava e diminuía sozinho, como se a televisão tivesse ganhado vida própria.

Foi quando resolveu atentar para o cachorro e sua seriedade ali. Mexia a orelha direita o som aumentava. Bobagem, pura coincidência, mas ficou velhaco, o bicho mexeu a orelha esquerda o som diminuiu de sumir. Epa!
Passou a mão no lombo do danadinho e esse destampou a abanar o rabo, aí ele viu, os canais começaram a passar em incrível velocidade, no ritmo certinho do abanar.

Era demais, mas só tinha uma explicação. Pistache comeu o controle remoto e de alguma forma agora seus movimentos comandavam a TV. As orelhas o som, o rabo os canais. Olhe, levou um bom tempo para assimilar tudo isso e ensinar o cão a se concentrar, para não atrapalhar um programa ou filme a ser visto. A paz voltou a reinar e hoje, além de latir carinhosamente em amores quando o dono chega em casa costumeiramente esgotado, Pistache já coloca a televisão em seu canal preferido. O amor é lindo. Repito, por conta desta e outras, prefiro bicho a gente.
Tá rindo de quê? Acha que é gozação? Não está acreditando no ocorrido? Te levo lá para ver. Só não pode ser na hora em que passa filme da Lessie, aquela Rough Collie, no Telecine Cul, pois democraticamente a prioridade é dele, o cão. Fica o convite, mas traz o vinho.






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segunda-feira, fevereiro 26

Flores (uma crônica margarida)

Era uma vez uma linda e serelepe margarida. Leve e solta vivia a cantar e a escrever lindos e doces poemas. Adorava se deixar ao vento, onde suas pétalas coloridas eram por ele acariciadas. Ali, com as gotas de orvalho, se banhava em versos e seu bom dia era como uma prece, onde agradecia a beleza da vida. Cada dia vestia uma cor. Ora branca, ora amarela ou um reluzente laranja. As cores vinham de seus pensamentos, de seus sonhos e, transparente que era, se deixava assim enfeitar.

Um sorriso lindo a deixava mais e mais bonita. Seu sonho sempre foi vestir chita e correr vereda, acompanhada de borboletas formosas, abelhas com seu perfume de mel e beija-flores em bater de asas, abrindo caminho entre o dourado capim fresco da manhã. Mesmo impedida, não se sentia triste, pois todos os seu lindos sonhos a conduziam por este caminho de formosura e ela, com seu vestido de chita rodopiava feliz.

Era a margarida mais bonita entre tantas, e sua inimaginável beleza não vinha apenas de suas cores, de seu pólen mágico de Pirlimpimpim. Possuía uma energia inesgotável de bem fazer, de alegrar crianças, velhos e gentes que passavam por seu caminho. Em meio a tantas, se destacava, sua energia podia ser sentida de um longe ver. As noites eram de muita prosa e cantar, as estrelas brilhavam enciumadas: como pode uma simples Margarida brilhar mais do que nós? Perguntavam amuadas.

Seus amigos vaga-lumes formavam colares e em seu entorno, como enfeites de Natal, pequenas aranhas teciam toda noite seu vestido de chita com a mais pura seda que eram capazes de produzir. Ali a lua em seu nova/cheia se deixava ficar a escutar a cristalina voz da Margarida que também se punha a contar histórias de lonjuras, de mistérios de amores perdidos.

Um belo dia a Margarida conheceu um rude, triste, confuso e mal-humorado espécie de flor. Não tinha cor nem brilho, suas poucas pétalas pareciam queimadas por frio intenso de geada, chamuscadas de alguma queimada.

Sem perfume, quase sem vida, o tal suspirava abafado e compulsivamente. Tinha muitos espinhos, com caule áspero e seco.

Incomodada com tamanha melancolia, a mágica Margarida tentou um ligeiro aproximar. Estendeu gentil folhinha do mais puro verde, quase tristeza em forma de planta.

Para seu espanto, recebeu em troca um cálido sorriso e um afastar ligeiro.

Quis saber o motivo de tamanha amargura. Soube assim:

Fora belo sem ser narciso, feliz um dia. Não, muitos dias. Vivia com outra flor de fortes cores e perfumes deslumbrantes e pensava que o simples gostar, o amor de seu jeito seriam suficientes. Era rude e mal-humorado quase sempre. Vivia a buscar o que sempre teve e nunca percebeu. Não regou, não cuidou como deveria. Assim, merecidamente, perdeu seu então bem mais precioso, por puro não saber zelar.

A tristeza agora vinha do luto do naufrágio em tempestade por ele mesmo criado. Não haveria colheita futura.
A margarida condoída lhe ofereceu seu coração, suas cores, seu sorriso, suas canções.
Em impulso e sem saber bem se entregou a ela. Viveram intensa paixão e encanto. Suas folhas ganharam brilho novamente, o sol a brilhar o aquecia em carinho.
Precipitou, no pensar de amar poder outra vez.

Não era hora nem destino, pois o peso da perda ainda batia forte. Novamente em defesa, não querendo sofrer, se possível assim fosse, outra vez rude e amargo se tornou.

Assim, perdeu para sempre a bela Margarida. Novamente não soube cuidar. A felicidade lhe escorreu entre os dedos mais uma vez.

O tempo, professor em voo constante lhe ensinou.
Não sofre mais por passado, sorri sozinho tamanha tristeza sentida, livre para sempre, sem amarras, sem poita.
Hoje de penosa flor a caprichoso jardineiro pronto a zelar com carinho de sua planta.
Para as flores que um dia magoou só resta pedir desculpas por tanto sofrer. Nada será como antes, mas a primavera sempre trará flores, perfumes, amores, refúgio.
Assim Margarida seu dito muito me serve:

Se Margaridas florescerem na sua rua e isso lhe trouxer saudades minhas, a culpa é sua…
Saudade e culpa, sem remédio, sem cura?

Publicado em Voz Ativa - Ouro Preto 
Em 24/02/2018

quarta-feira, fevereiro 21

Cultura


Reunião com Secretaria de Cultura PMIC (Programa Municipal de Incentivo a Cultura) Projeto de Primeiro Livro aprovado tanto no programa municípal quanto pela Lei Rouanet a luta agora é pela captação de recursos. Aceitamos ajuda de bom grado.

Ah pela lei municipal podem ser captados recursos via  IPTU ou ISS
Pela Lei Rouanet - Renuncia Fiscal de Imposto de Renda.

terça-feira, fevereiro 20

Pescador de estrelas

Imagem NASA/ESA

Já falei para vocês da nossa mesa 15.
Da confraria ali formada há alguns anos. Dela participam as mais variadas pessoas. Citando alguns nessa salada multi profissional e cultural: temos advogados, comerciantes, juízes, promotores, professoras, contadores, DJ. Poetas, escritores, veterinária, produtora cultural, Dentistas, médicos e até, vejam este que vos fala, um misto de escritor, poeta e também veterinário de estranhos bichos
Passamos por poucas e boas. Viajamos juntos para ver a história de perto, em lugares "nunca dantes navegados" para muitos de nós. Brigamos, forte expressão, briga não, discutimos muito.

Temos gente de direita, esquerda, centro e muro. Defendemos nossos pontos de vista com fervor pátrio pouco visto.
Se dependesse da mesa quinze eleições acabariam sempre empatadas. Resolvidas talvez no par ou ímpar mas se preferir, no cara ou coroa.

Sim, temos cada pega pra capar, que nem te conto. Nem por isso nos tornamos inimigos. Depois do pau muita risada e é como se nada tivesse acontecido. Política, política, amizades a parte.
Respeito absoluto pelo livre pensar e manifestar.
E no futebol? Temos aqui atleticanos até debaixo d'água, corintiano, palmeirense, vascaíno, flamenguista. botafoguense e até cruzeirense. Mesma história, gozação não pára, amizade sólida.
Uns gritam suas ideias outros sussurram pacientes. O tom de voz não impõe vontades, sempre em tranquila paz terminam as prosas ou trovas

Gosto musical? Deus nos acuda, temos roqueiros, jazzistas, bluezeiros, MPB pura, do qual faço parte, afinal meu aprendizado vem da época em que se fazia boa música. Tem sambista, confesso sou ruim da cabeça, tem pagodeiro e até quem goste de sertanejo, mas nossas afeições não desafinam, seguem harmônicas.

Agora estamos passando pela primeira vez pela perda de um dos nossos. O querido Alcides alçou vôo. Partiu sem avisar.
Particularmente não o conheci muito, quando cheguei à mesa 15 ele ainda se fazia sempre presente, mas depois de breve tempo teve que se afastar. Continuamos a trocar prosa em nosso grupo virtual. E conheço de cor e salteado suas histórias e façanhas em barrancas de rios Brasil afora contatadas pelos amigos mais próximos e companheiros de pescada. Sim, era um apaixonado por uma boa pescaria.
Alcides companheiro, foi pescar lá no céu. Posso sentir sua paz e alegria ao ferroar um imenso e belo cometa da cauda imensa e brilhando, vejo o baita saltar como Dourado na imensidão do cosmos, rabear em tentativa vã de escapar de suas experientes mãos no trato com o molinete/carretilha . Estrelas menores de afastando, abrindo espaço, em susto com a celestial batalha. Fim de linha, Sorriso aberto nos lábios recolhe a cansada e valente presa. Mansa encosta, não é embarcada, com ligeiro afago a liberta, assim, sai lentamente a vagar no infinito procurando retomar seu eterno trajeto. Alcides, se tornou um feliz e iluminado Pescador de Estrelas e Sonhos. 

Vai fazer falta aqui, mas suas histórias cristalizadas, serão contadas sempre. Vá em paz meu amigo, vá em paz. Algum dia estaremos todos nessa beira de eternidade a navegar na mesma canoa, onde prevalecerão sempre rios piscosos e imensos em beleza e lonjura , risos e amizade. Ai posso sim, lhe pedir ensino no manejo de tanta tralha e, como em felicidade pescar tantas estrelas e tão belos sonhos. Até!

William H. Stutz
Veterinário e escritor


Jornal Voz Ativa - Ouro Preto

Jornal Uberlândia Hoje 

quinta-feira, fevereiro 15

Caça-palavras

Começou outra vez e não é de hoje. O contar novamente me some. Ideias e vontades brincam de começar e sumir esconde-esconde de impacientar. Exatamente como palavras cruzadas de revista/jornal de nível considerável. Não. Parece mais caça-palavras daquelas de circular com caneta e a maioria está de fasto ou de lado em curva. Aí fico em mato sem cachorro, acho não. Procuro as histórias e elas fogem ligeiro, não me dando tempo de rabiscar papel. Conheço bem meu sistema. A história nasce miúda, vinda de um sussurro perdido, de um ver de canto de olho, de um observar quieto. Andando meio a tais, atento sem por atenção, pois não carece, vem sozinho.

Conto o fato que de uns dias pra cá parece orquestra em afinação antes de concerto, cada um ouvindo seu próprio instrumento atento às notas. Violinos, trompete, metais em desarmonia até batuta de maestro bater desconfusão. Os sussurros se transformam em algazarra de maritacas estridentes em pé de goiaba carregado, o observar confuso de quem anda desatento, o ouvir pouco, meio que fechado. Sinto cheiro de pólvora no ar. Os assuntos andam televisivos. Todos repetindo como papagaios, que me desculpem os lindos emplumados repetidores de sons, como se lessem cartilha de alguém.

Vai tentar manifestar em público opinião bem sua, criada do seu pondero, influência alheia nenhuma, fruto seu por atenção, sem interesse de partido tomar. Um Deus nos acuda de contra-pontos e censuras, a diversidade, a pluralidade, o simples pensar. O respeito é da boca pra fora. Outro dia um amigo colocou um videozinho na rede com dizeres tipo assim: "O que acontece quando você expõe sua opinião na internet". O vídeo mostra a antológica cena de Piratas do Caribe, onde Johnny Depp na pele do capitão Jack Sparrow aparece correndo em uma praia, perseguido por centenas de nativos dispostos a jantá-lo. Hilária a participação de um solitário cachorro que se limita a latir para Sparrow e depois para a caterva enfurecida.

Aí, meu amigo, como planta sem rega vamos murchando. As palavras que deveriam compor casos vamos engolindo. Cortadas quase sempre ao meio por algum suspiro salvador. Resultado? Hoje as palavras se escondem por todo canto a me olhar, em um desafiador "vem me pegar".

Teimosia não me falta e sei que é passageiro. Acho que acontece com todo atrevido que resolve bater chapéu em caixa de letras, em cutucar pensamentos e ideias com vara curta. Hora elas revoltam e lhe dão um sumiço.

Mas a faxina já começou, saibam. Vassoura e basculho a percorrer quinas e as mais altas e escuras quinas. Depois aspirador emprestado, recolho as fujonas e em comum acordo voltamos as pazes, ao um bem querer cálido e harmônico.

Vivo de contar o vivido/sentido/passado. Sem isso flutuo em vácuo desconecto. Sinto falta de compartilhar estrelas, infinito olhar de paisagens, de trocar olhar sisudo por sorriso largo de quem perde tempo com meus rabiscos e de tentar tirar a cabeçada e o freio das convenções. E olha que tenho viajado muito, chão rodado mesmo, não só aqui dentro. Com meu livre pensar, acender velas e soltar vaga-lumes, cobrir novamente cabelos longos maravilhosamente revoltos e longos de margaridas.

Perfumes meu amigo, perfumes em letras exalar. Estou voltando, ressaqueado de super dosagens de crueldade humana, mas estou logo ali com minha tralha cheia de letras e histórias. Voltando com toda força e verdades escondidas a serem escancaradas. A porteira entreaberta me dá um sinal

Em paz, tranquilo, mas com toda disposição no falar.







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sexta-feira, fevereiro 2

Bárbaros


Praia lotada, sol a pino. Pouco se vê da faixa de areia. Um tapete multicolorido de guarda-sóis como uma plantação de cogumelos gigantes se esparrama em semicírculo sufocando a orla. O barulho infernal de rádios e toca fitas abafa o murmúrio delicado do vento e o infindável quebrar das ondas, que, aparentemente assustadas com a multidão se apressam em maré baixa, quanto maior a distância melhor. Não resolve. A cada palmo de areia produzido pelo recuo inevitável das águas, nova semeadura de cogumelos de pano e gente, muita gente.

O ensurdecedor som eletrônico, numa mistura intolerável de estilos e gostos, mau gosto, é alucinante, de sertanejo a reggae, brega chic e sambinhas, funk quebra-barraco e falcões latinos. Tudo misturado e alto.

As aves por falta de árvores se apinham, lado a lado em pânico silencioso em parapeitos de prédios. Mães à milanesa aos berros com crianças com baldinhos e bóias. Pais sonolentos de calção e camisa pólo. Cerveja e churrasquinho murmuram palavrões irritados.

No mar jet skis manobram perigosamente entre humanos de narizes brancos de pomada. Os corais submersos escondem peixes de olhos arregalados e paralisados de medo.

Volta e meia dentre os panos redondos despontam estandartes bizarros alguns com camarões mumificados espetados cheirando a fumaça e cebola sempre seguidos por bando de moscas a lutar contra as poucos e raras rajadas de vento que milagrosamente conseguem romper a barreira humana e seus acampamentos de lazer. Outros desfilam por sobre a falsa sombra melosos chumaços de melados algodões doce.

O perfume da maresia é substituído por impensável fusão de colônias, cremes protetores, bronzeadores, suor e álcool.

Algazarra de um dia inteiro. Invasão destruidora, nociva. O vermelho da tarde anuncia uma debandada geral, como decompositores saciados a horda se retira rumorosa. Bêbada, cansada, ardendo em rubra pele.

Aos poucos novamente se ouve a brisa e as ondas, um guruça de olhos em pé lentamente se aventura para fora de sua toca, hoje particularmente fez jus a seu apelido, caranguejo fantasma, passou um dia inteiro invisível. Ensaia tímidos passos em direção à água, estica o pescoço que não possui, observa. Montanhas de destroços espalhados ao longo de toda a praia, restos de um saque ou de um banquete dantesco. Silêncio e breu. Com repugnância o pequeno estica as patas para o mar/óleo ainda gelatinoso. Sinais dos tempos, sinais dos ventos. Mergulha prendendo a respiração.








Publicado Jornal Voz Ativa - Outro Preto

sexta-feira, janeiro 19

Quem quer ser um milionário?





O título aí no alto e aao lado faz menção ao deslumbrante filme “Slumdog Millionaire”, do diretor Danny Boyle, laureado com dez indicações para o Oscar de 2009. Faturou oito. Em português o título ficou igual aos medíocres programas televisivos que prometem, mas ninguém leva a bolada prometida. Não posso reclamar, pois assim consegui o que considero mais difícil para meus pobres e humildes escritos: Título.

Deixemos, pois, em paz, a cinéfila, esporte que pratico solitário e sem aventurar em críticas e análises. Deixo missão para os especialistas.

Não sei se vem acontecendo com você, mas de um tempo para cá minha caixa de e-mail vem sendo bombardeada por mensagens, com promessas mirabolantes de como se tornar um milionário e sem participar das “gags” televisivas. Isso mesmo, e-mail, pasme, ainda uso este velho recurso. Não me deixei seduzir pelas mensagens instantâneas de Whatsapp, mensseger, Instagran e afins. Claro que uso todos, mas e-mail não saiu de moda. Tenho saudades até do idoso ICQ!

Recebo mensagens oferecendo fundos de renda fixa, mesmo com a inflação em baixa (será?), a taxa SELIC miúda, o INPC negativo, o PIB crescente (hummm) e PNB sendo maior do que esse último. Se entendo de economia? Absolutamente nada, mas de tanto receber tais propostas milagrosas pus atenção e pesquisa. Bitcoins, CDBs, IGP-M, CDIs e muitas outras siglas e expressões invadem meu cotidiano, meu vocabulário macro econômico está em alta. Então vende! Grita um. Compre na baixa, venda na alta.

Eu hein, Rosa!

Outro dia um email me conta que posso fazer meu primeiro milhão aplicando cem contos por mês  em “apenas” 30 anos. Cara, eu não tenho trinta anos para esperar como a história, na gamela sobram poucos pequis para roer, e, mesmo que tivesse, o que iria fazer com essa fortuna naquela altura de minha vida?

Gostei da Bitcoins. Não pelo investimento em si, pois não sei cuidar nem de finanças domésticas. Mas o nome impõe e me alegra saber que ela é sem ser. Não existe de verdade, não tem como juntar no porquinho de barro ou debaixo do colchão. A sonoridade do nome encanta por si só, fale baixinho e devagar BIT (respira) COIN. Pronto já me sinto milionário. Essa não tem banco te sugando, não tem gerente te vendendo sonhos, não tem nada. Ela não existe, mas é. Literalmente um “Bit”. Dizem que quem comprou um desses impulsos binários há três anos ficou muito rico. Muito legal.

Porém, o que eu queria entender é simples. Se esses caras que te enviam mensagens e, como disse, são muitas vendendo sonhos de riqueza fácil, têm a infalível fórmula mágica de alcançar o pote de ouro, deveriam então ser todos magnatas. Concorda? Então pra que ficar espalhando a notícia? Altruísmo, filantropia? No mundo mesquinho das finanças onde até coelho engole lobo? Aqui “procês” ó!

O mineirinho de cá, escaldado está até com coisinha pequena. Já perdeu amigo por emprestar merreca. O cara sumiu. Mal sabia ele que nem cobrar eu iria. Envolveu dinheiro fica o ditado: “Confia no amigo, mas amarra o camelo”. Sábia placa do saudoso Barari, lá na beira do mar capixaba onde guardo minhas mais belas e também as mais tristes lembranças.

Se você meu amigo estiver recebendo mensagens de fortuna fácil fique esperto. Amarre-se no mastro, pois o canto da sereia é suave e encantador, mas a realidade é outra bem diferente. Ulisses rei da ilha de Ítaca, em sua Odisséia que o diga.

Tem a história do moço que morreu e foi para o céu. Chegou lá uma onça de bravo. Quis audiência de pé de ouvido com Deus. Depois de muito esperar foi atendido. Afinal, Ele é super ocupado, mas já que o moço não queria despachar com santo nem anjo…

Já entrou esbravejando: – Pô Seo Deus, eu fiz tudo direitinho lá embaixo, segui à risca seus mandos, nunca pequei. Bom, desejei a mulher de um próximo hora ou outra, mas sempre confessei arrependimento. A única coisa que pedia era para ganhar na mega-sena, e olha que coisa, o Senhor nunca, nunquinha me atendeu. O peito arfava e tremia, com os olhos parecendo de maritaca de tão vermelhos.

Ele, sereno, coçou a longa barba branca e com candura respondeu. – Meu filho, sabe que recebi seus pedidos sim e até queria que você ganhasse, mas você nunca jogou! Aí não teve jeito!

Quer saber, vou ali fazer uma fezinha na mega-sena, pois vai que uma hora dá certo. Tá escutando Altíssimo?






Publicado em  Janeiro de 2018

 Diário do Comércio Olha no Diário  - Uberlândia

Jornal Voz Ativa - Ouro Preto

Uberlândia Hoje

quinta-feira, janeiro 11

Bem-vindos

Então passou. Passou Natal, Virada do ano/ Reveillon. Pipocaram milhares de foguetes, em uma comemoração bárbara a matar milhares de pássaros do coração. Cães e gatos em pânico horror não sabiam para onde correr. Aqueles que têm sorte de ter dono presente ainda encontraram colo, proteção e aconchego. Os pobres que ficaram trancados em casa enquanto seus donos vestidos de branco, amarelo, ou calcinha vermelha, cada um com seu sonho, saiam em saltitante alegria brindar paz e prosperidade, devem ter se enfiado em algum canto a tremer de pânico. Cada um vivendo sua Alepo particular, corpo e mente em frangalhos. Em tormento, para onde irão seus pensamentos em tais horas?

Mas é ano novo, tudo pode. Não meus queridos, não quero que me tomem por um protetor fanático dos animais e inimigos dos homens. Apesar de manter minha máxima de gostar mais de bicho do que de gente, aprendi a conviver com ambos. Passou forte por minha mente o sofrimento dos enfermos em seus leitos de hospital, dos berçários repletos de recém-nascidos e dos acamados terminais em casa. O bebê que nunca dorme em cólica ou febre. O idoso, um homem, uma mulher, em solidão, olhos a lacrimejar, sobressalto a cada rojão, memória a vagar longe caçando lembranças que teimam em não ficar e companhia fazer. Consegue pintar o quadro?

Ah, esquece, é ano novo que avança madrugada adentro, eu quero mais é festar. Suar minhas frustrações/decepções. Quero mais é deitar fora a tristeza e pequenez de um ano sem muito o que comemorar, pois sim, o seu final merece regozijo e justificam o espocar de medo. Os animais? Ora são apenas os animais, descartáveis como as árvores que mutilamos, como os rios que poluímos, como as vozes que calamos, como ar que impregnamos com nossa grosseria e falta de respeito.

Não, não vivemos uma Paris em guerra. Nos faltam puras crianças como Paulette e Michel a roubar cruzes para o seu pequeno cemitério de animais. Não temos “Brinquedos proibidos”. “Não existe pecado do lado de baixo do equador”. Tudo é festa, apenas festa.

Acabou, passou, pronto. Restam as contagens de não sobreviventes e retrospectivas repetitivas chatas que mais parecem reprises. Mas qual, ” tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Perai, acabou nada, tem carnaval logo ali, tem copa do mundo e mais foguetes e piseiro. Aí, quando menos se espera, pipocam as eleições, a “volta do cipó no lombo de quem mandou dar”. Assim esperamos.

Apesar dos pesares, das tristezas a cada foguete, dos terremotos humanos, Voltaire me fez Cândido, sigo Panglós, o otiminista.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. […] Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”

Bem-vindos a dois mil e dezoito.






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quinta-feira, janeiro 4

Cantada


Adoro rádio. Nada melhor para dormir do que um rádio à válvula, daqueles que custam a esquentar e ficam zumbido em estática o tempo todo. Ganhei um assim do grande amigo Júlio Penna. Este, sim, entende de rádio, tem dezenas. Fuça, busca peça, conserta, ajeita e os deixa prontos para quem gosta de viajar nas ondas longas, médias, curtas e frequência modulada. O presente apresentou um pequeno problema ao regular volume e ele o levou para arrumar.

Alguns preferem som remasterizado, livre de ruídos e outros atrapalhos. Particularmente, os tais atrapalhos é que me fascinam.

Ouvir uma Nina Simone em um ensaio em plena Nova York e, ao fundo, ouve-se o telefone tocar, carros buzinam lá fora. Quem ligou em pleno ensaio? Algum diretor de teatro da Broadway? Um restaurante na 150 West 57th Street? O Russian Tea Room, por exemplo, confirmando reservas? Ou simples nightclub onde ela poderia soltar a voz e beber em paz? E as buzinas, qual a marca dos carro? Um tradicional Ford preto? Um Oldsmobile imponente? E a causa de tanta aflição? Mulher em trabalho de parto, alguém ferido a bala por algum gangster? Ou simples impaciência com um trânsito já caótico da Grande Maçã nos distantes anos 30 do século passado?

Tudo isso e muito mais se pode criar com a cabeça no travesseiro, ouvindo rádios e suas estáticas. São viagens infinitas a cada mexida no seletor de estação.

Antes de ganhar joia rara de Júlio, comprei um rádio moderninho. Não queria aqueles que tocam CD, queria um rádio e pronto. Na pressa, levei para casa o bicho.

Para meu espanto, o danado só toca rádio FM, nem AM tem. Uma tristeza. Tive que me conter com o danado.
Achar estação do agrado à noite é que era complicado. Ou era rádio de igreja exaltando pecados e castigos aos quatro ventos ou era música sertaneja universitária – vai ser chato pra lá. Bom, vai ver que o chato eu sou. Nada de noticiários, nada de preamar, aviso aos navegantes, nada dito em voz suave de locutor tipo Eldorado de São Paulo – “Artes e entretenimento” seu lema. Saudades do “Varig é dona da noite” ou de “Um instrumento dentro da noite”, aqui não pega.

Resignado, me deixei levar, colocando atenção às letras das músicas e se conseguiria me soltar em pensamentos. Dou exemplo de duas estações, sem citar nomes para não magoar ninguém, que tocavam músicas com letras que poderiam parecer cantadas a uma linda mulher.
Uma de muito bom gosto tocava um gentil Caetano: “Fonte de mel/ Nos olhos de gueixa/ Kabuki, máscara/ Choque entre o azul/ E o cacho de acácias/ Luz das acácias/ Você é mãe do sol (…) Você é linda/ Mais que demais/ Você é linda sim/ Onda do mar do amor/ Que bateu em mim” e seguia.

Outra estação tocava algo assim: “É bonita/ Você sabe que é bonita/ Mas eu sei que é bandida (…) Você com essa cara de santa/ Mas a falsidade é tanta/ Só eu mesmo sei dizer (…)”

Não sabia se ria ou chorava. Me conte você, moça, mas com sinceridade, qual das duas cantadas você gostaria de receber?

Júlio, querido amigo, que falta está fazendo o velho e bom Vintage Crosley anos 50, culpa minha, eu enrolando para buscar. Ando preguiçoso.






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