segunda-feira, outubro 7

Prelúdio



Amanheço primavera. O calor da madrugada avisava mudança, que poucos percebem. O céu empoeirado escondia o azul único, só visto no cerrado, vasto de olhar. O ver longe, sem as molduras de pedra lá do coração de Minas, encanta quem chega.

Amanheço primavera, tempo embruscado, vento morno. Tudo ia mudar, quem conhece sente. Meio da noite, do nada brisa leve dançou nas cortinas recém colocadas. Anos dormindo sem elas, ainda não acostumei fechar. Ontem à noite imensa coruja de torre, em seu voo silencioso, passou perto de mim. Senti o vento de suas asas. Ela já sabia das mudanças e saiu à caça mais cedo. Filhote para cuidar.

Mesmo em vigília sorri feliz. Estiagem estava com dias contados. Dia demorou um pouco mais para passarinhos e angolas, que observavam em silêncio a virada do tempo. Nem um pio, nem um cantar. Previam. Guardar quietude em poleiro, precaução. O céu desceu cérceo, ficou ali a imaginar.

No clarear, os urbanos pardais como executivos engravatados e aflitos rumo aos seus escritórios vazios de vida, começaram a piação mocha e lamentosa, tal qual trabalhadores sonolentos, calejados de descaso empilhados em lotação. Logo um ligeiro trovão se fez. Chuva mansa a tamborilar em cobertura do quintal.

Ainda aprendendo os novos sons da morada recém ocupada. Nossos cheiros não dominam plenamente tamanho espaço que, apesar de pequeno, para nós é tudo. Coisa de mineiro, casa é porto seguro. Pássaros pretos, agora em feliz algazarra, mostrando peito e bico para o céu. As maritacas, mais discretas nesse tempo, ficaram no crá-crá sem piscar e a roer coquinhos de palmeiras. Tô-fraco, tô-fraco, tô-fraco… cocar começa a ladainha. Época de criar para todos, os ninhos passariam pela primeira provação. O vento e a chuva.

A carreira de formigas cortadeiras apressou o passo, pois cada pingo era como um bombardear ruidoso. Atingidas, rodopiavam, perdiam a carga e em rápido recuperar corriam a seguir caminho de volta na busca de tarefa. Os gatos buscam abrigos, qualquer cobertura serve. Um lamento humano me chega aos ouvidos: Ô merda de chuva! Quase não acreditei. Deve ter estragado penteado. O espelho deve ser seu oratório, Narciso.

Rezei baixinho, para que todos os santos e orixás se apiedassem da criatura. A alegria das plantas, dos bichos e da maioria dos humanos me faz esquecer o injuriar da triste figura – perdoe a audácia Cervantes. Muitos moinhos de vento a combater para uns tantos, para outros, apenas na cabeça, vento.

Logo chuva aquietou. Recolheu-se rápida. Talvez apenas um ensaio geral, uma marcação de palco, acerto em sons e luz. Senti-me um solitário na plateia vazia, sentado na melhor poltrona do teatro. As luzes do dia se acenderam de vez. Só me restou levantar e ver o mundo lá fora. Não gritei Bravo!

As poucas poças secaram em movimento de sombra, rápidas. O céu e suas nuvens permaneceram de prontidão. Quem sabe a estreia, a avant-première se fará perfeita? Trovões em sonoplastia afinada, relâmpagos à perfeição de todos os holofotes, ventos bailarinos a rodopiar por sobre nossas cabeças como acrobatas de circo em palco largo, boca de cena rica em personagens e história. Nossos riachos, rios e represas, em agradecimento correrão ricos em vida. O palco cerrado se tornará verde deslumbrante, o fogo destruidor se apagará ficando apenas cinzas e cheiro azedo, que logo dará lugar a floradas inimagináveis, ao nascer de milhões de novos pios e cantos. Tocas repletas de carinho. Mães a lamber crias.

Mais um ciclo de morte dando lugar a plena vida. E o nosso pequeno espaço de mundo, nosso cerrado, acordará Prima Donna. O espetáculo não pode parar. Nasci primavera. Espero como admirador em fila longa e demorada. Sem pressa. Enfim chegou! Tomem seus lugares e aplaudam o renascer de um novo tempo. No mais, Gerais!



Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 06 de outubro de 2019

segunda-feira, agosto 26

Dois pesos duas medidas




Simplesmente andar pela cidade, adoro e sempre faço a pé. Porém, tive que usar o carro, pois havia cantos distantes e opostos a percorrer. Confesso, o dia foi um sufoco enfrentando o trânsito maluco. A falta de educação, agressividade e desobediência à simples regras, como setas, por exemplo, me lembraram um blindado pelas ruas de uma Bagdá arruinada por guerra. O parar em fila dupla é martírio. Tente sair de trás do folgado enraizado à sua frente para ver onde vai parar!

Ninguém, ou quase ninguém, para e com gesto educado lhe permite sair da armadilha. Fiscalização zero. E os tais que colam na traseira de seu carro? Podemos vê-los pelo retrovisor, identificando apenas um capô a bater queixo em fúria como se fosse morder a lataria. As caminhonetes são mestres nisso. Gente urbana com carro de trabalho rural. Ostentação pura. Carros que foram feitos para as estradas de terra passam vida sem nunca ver poeira de verdade.



Sejamos justos, os pedestres não ajudam muito. Desconhecem a tal faixa a eles reservada para passarem de uma calçada a outra em segurança, a despeito de motoristas que quase não param para quem ousa atravessar em sua frente e a pé! Quanta ousadia! E as motos? Para estas, um observar especial. Costuram entre os carros, ultrapassam pela direita, aceleram o que podem e se aglomeram como enxame à frente de todos em sinais fechados. No amarelo, alheios, partem em nervosa revoada por ruas que já não comportam tamanho transitar de máquinas e gente. Saí de casa com pressão 11/7, no meio da manhã 13/9 e na volta do dia 14/9. Claro que são estimativas criadas por minha cabeça confusa diante de tanto desatino. Ou você acha que ando com um esfigmomanômetro no carro? Se bem que hoje em dia temos relógios de pulso que podem fazer o papel do MAPA. Não, não é o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, hoje comandado por ninguém menos do que a líder da Bancada Ruralista. Pode isso Diretor? Pode tudo hoje em dia. Isso não é assunto para agora, pois não quero ficar mais estressado outra vez. O MAPA ao qual me refiro é Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial e que, em meu humilde entender, de ambulatorial não tem nada. Você sai dia adentro com aquele trem pendurado no braço e caixinha na cinta que, de tantos em tantos minutos, te faz lembrar que tem coração.

E por falar em estresse, tecnicamente o tal, de acordo com o IPCS, Instituto de Psicologia e Controle do Stress Marilda E. Novaes Lipp, “é uma reação do organismo que ocorre quando ele precisa lidar com situações que exijam um grande esforço emocional para serem superadas. Quanto mais a situação durar ou, quanto mais grave ela for, mais estressada a pessoa pode ficar.” Ou mais claramente, “o estresse é fundamental para nossa existência. Situações tensas desencadeiam uma reação imediata do corpo, que libera mais adrenalina, hormônio que acelera o coração, e cortisol, substância que eleva a pressão e aumenta o aporte de energia aos músculos.”

Mesmo não estando na selva a fugir de predadores. Ou estamos? Meu amigo, o que tem de aperto por aqui mesmo, haja adrenalina, vem de balde. No dia seguinte, escaldado, deixei o carro em casa. Fui de ônibus até ao terminal central e de lá bati perna para acabar de resolver os por fazer. Pendengas poucas, mas que tomam tempo.

Como nossa cidade pode ser linda vista da rua e não da janela de um carro! As pessoas devolvem sorrisos e bons-dias. Uma ou outra baixa os olhos, mas é exceção. Sentei na calçada de esquina movimentada a observar casal de malabares exercendo seu belo e secular ofício. Depois de um tempo sentaram-se ao meu lado e conversamos muito. Contaram-me histórias de suas aventuras Brasil afora, dos apertos e alegrias de serem mambembes sem destino certo. Fiquei feliz perto de tanta liberdade. Felicidade do outro é um bálsamo para a alma. Sem essa de “inveja boa”. Se for inveja carrega ressentimento. Senti felicidade e leveza.

Findas as tarefas, diminui o passo. Vi-me em avenida onde um maravilhoso desfile de noivas se fazia. Noivas sem pares, em um alegre bailar com vento fresco e seco de um agosto em fim de manhã. O céu, pano de fundo para tanta beleza, tornava o branco ainda mais belo e luminoso. Noivas em fileira. O tapete, o começo do fim da linda florada.






Diário de Uberlânda  25 de agosto de 2019

quarta-feira, agosto 14

Sonhos




A escuridão abriu com força minha porta da sala. Não que fosse violenta, agressiva, intimidatória. Nada disto. Apenas estabanada em seu manifestar, talvez preocupada em saber que logo teria que dividir território com as estrelas e uma imensa lua cheia que, no camarim, se enfeitava para subir ao palco. Arrastou-se lenta pelos ladrilhos brancos do piso. Subiu paredes. Mansa, encostou-se nos rodapés. Ali ficou parada como se a espreitar terreno. Seguiu marcha parede acima. Sem cerimônia cobriu com seu negrume meu pálido Sclair, meu Viviaine Santos tão gentil. Os anjinhos barrocos esculpidos à perfeição de Antônio Francisco Lisboa, sempre olhar perdido, enfim se entreolharam, bochechas rosadas em um quase sorrir.

Seguiram de modo simultâneo sobre o abstrato de Nando Fiuza, espalharam sombras pelas vielas e telhados da bela aquarela de Jorge dos Anjos. Ali engoliram obra de Ana Abdalla, um lindo galo colorido da roça. Pensei ouvi-lo cantar a chegada da noite.

As sombras tinham padrão a seguir. Na parede oposta esconderam o lindo cerrado desnudo, também de Ana. Anoiteceu escuridão. Finalizou seu entrar em fotografia perfeita de cerejeira, parque de Washington DC, perpetuada pelo olhar de Eugênia Rodrigues. Sem saber, a sombra era abençoada por São Francisco de Helvio Lima e abraçada com amor por bela escultura de Adélia, sua esposa, ambas obras regalos do Mestre Queiroz, amigo especial, apreciador contumaz da boa arte.

Só percebi realmente o que estava acontecendo quando o espectro da paz, em fim de dia, pousou levemente as mãos em meus ombros. Levantei o olhar com certo cansaço. Princesa, a gata, levantou cabeça e orelhas em atenção virando-se para mim com seus assustados olhos verdes.

Fonte de luz agora apenas o brilho do computador. Nova tentativa de leitura digital. Dos corredores infinitos em impulsos eletrônicos da Biblioteca Nacional, garimpei um velho conhecido, Machado de Assis. A mão e a luva:

“- Mas que pretendes fazer agora?

- Morrer.
- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco (…). O pouco mais foi uma flor, não colhida do pé em toda a original frescura, mas já murcha e sem cheiro, e não dada, senão pedida.”

As vistas doem, sinto tanta falta dos livros, do papel…

A escuridão, fora o monitor, dominava tudo. A ouvi subindo as escadas sem cerimônia em busca de meus segredos mais íntimos. Deixa, pensei. A noite é companheira discreta, não alardeia, não grita. Os sons, estes ainda abafados pelo frenético e último centrifugar de máquina de lavar, nem se fazia notar mais. Acostuma-se com quase tudo.

A “Mão” me deu um pensar. Queria eu escrever uma carta a todos os amores que tive em minha vida. Lembranças que teimam em aflorar de um nada. Sinapses inesperadas atiram a corda com balde no mais profundo dos poços da memória e, devagar, vem trazendo pesado à tona lembranças carcomidas pelo tempo.

Amores traídos, amores abandonados, amores perdidos por maltrato. Algum não soube cuidar. Péssimo jardineiro fui muitas vezes. A outros, zelo em quantia sobrante sufocou e matou. A vontade do escrever seria o contar que tudo se foi sem amargura, agora sem dor nem saudade. Talvez um pedido de desculpas pelo pouco ou pelo demais.

Hoje vivo a calma. Como Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, tenho agora minha Marilia para todo o sempre, um amor resgatado, bordado por décadas em alvas almas de pura paixão separado por tropeços, reencontrado por obra do destino (existe destino?). Tudo foi aprendizado.

Ser jovem há muito tempo tem suas vantagens, acabam-se as mentiras, as lembranças magoadas. Tudo vira um vazio recheado que em momentos de ficar só teimam em aparecer mas não trazem aflições, são apenas lembranças de um longe, talvez sonhar.

“- Morrer? Que idéia! Deixa-te disso, Estêvão. Não se morre por tão pouco...
- Morre-se. Quem não padece estas dores não as pode avaliar.”

Ah, Machado! A murcha flor em suas Mãos tão significativa. Morre-se disso não! A lua rompe esvoaçante de seu nicho, séquito de estrelas serelepes a seguem e se posicionam no palco celestial. Braços, pezinhos luz em primeira posiçao bailarina. Um leve endireitar de postura, um balançar suave de cabeça. Silêncio.

Faz-se hora. O breu se encolhe um pouco aborrecido. Silêncio na platéia. As “pancadas de Molière” se fazem ouvir. E eu? Vou correr a colocar a roupa no varal. “Deve-se entrar na sala”, “Ocupe seu lugar”, “O espetáculo vai começar”


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Diário de Uberlândia ( Dia dos Pais) 11 de agosto de 2019

segunda-feira, julho 29

Coração



Pois é, fui ao cardiologista. Nada de mais, pois se tratava apenas de meu check-up anual. Chega certo ponto da vida em que temos de pedir benção aos doutores, para saber se podemos continuar na mesma toada do ano anterior. Tomar tento se podemos manter a mania ou vício de, literalmente, correr todo dia, pois meu passatempo preferido é caminhada puxada ou corrida a mil. Se passo dois dias sem colocar o tênis na trilha ou no asfalto, fico que nem bicho preso. Uma sofrência sem fim.

Como bom paciente, pacientemente esperei minha hora em uma sala cheia de gente, também aguardando por sua consulta. Não era pouca não. O telefone, em um tocar sem parar, avisava que tinha mais um tanto querendo consulta.
O coração de nossa gente anda frágil. Arrítmico crônico. Um ar de tristeza parece que tomou conta das pessoas. Um manto pesado a apagar brilhos de almas.

O nosso Brasil também anda doente, coração pronto a explodir. A televisão, os jornais e rádios nos jogam toneladas de tristezas diariamente. Custa uma notícia boa: Japão retoma matança de baleias. E a falsa pureza norueguesa, parceira dos nipônicos nos assassinatos de um dos mais belos e inteligentes seres marinhos, empenhada em “proteção” de nossas matas, mas destruindo e saqueando como fizeram os portugueses colonizadores, vorazes em depredação. Porém, agora as proporções são incomparáveis, com tecnologia a serviço da destruição.

Tudo isso com a anuência de um ministro do meio ambiente que não suporta verde. Ainda recebemos quilos de informação sobre educação e cultura ou antieducação e anticultura, de um ministro que não detesta educação. A única cultura que vemos protegida é a dos grandes produtores. Estes sim mandam e desfazem. Raposa chefe do galinheiro, o diretor da Funai é ruralista. Surreal Brasil.

Um chef renomado rouba especiarias de nossa floresta, de nossos quilombolas e as transformam em marca de grife. Aos donos da mata? Talvez migalhas em lugar de miçangas coloridas e espelhos lusitanos. No consultório lotado o telefone não pára. Corações apertados em gritos de socorro. Ao meu lado, suspiros e angústia. Sinto-me em pleno século V. O Império Romano ruindo Constantinopla é novamente tomada pelos otomanos. Os humanistas, sim como agora existiam, viviam a Idade das Trevas.

Não muito diferente do que estamos passando globalmente. Loucos no poder, manipuladores das mídias se fazem em pura propaganda, doutrinários alunos aplicados da escola de Goebbels.

Meus exames? Passei com louvor. Sabe-se lá até quando o bronze aguenta. Andei a pensar que vou tentar uma embaixada em uma ilha deserta. Sei contar estrelas-do-mar e da noite, sei sentir brisa, maresia, confidencio com vaga-lumes e morcegos, identifico cantos de pássaros, voo com borboleta. Sei cantar em prece para Iemanjá.

Não, não seriam requisitos para fazer jus a tamanho posto e no mais, longe de mim compactuar com essa gente miúda dos poderes manipuladores da informação, seja lá ou cá. Peço distância. Vou cuidar de meu bronze e, de alguma janela, com olhar altaneiro, esperar ansioso o fim da escuridão. A luz de nova Renascença.

E o “ser humano foi revestido de uma nova dignidade e colocado no centro da Criação”, e que da escuridão, surjam luzes como faróis fincados em sólidos rochedos, a nos guiar e aliviar cansados corações.
Os homens sabidos/ E sabedores /Garantem que surgiu uma nova estrela/
É o tempo da nova estrela/Há quem diga que Cristo retorna
E sua marca é um dente dentro da garganta/A estrela dita um novo tempo/E convoca pensadores a tecer novos pensamentos
E convoca lutadores a novas batalhas/Nada sabemos ainda/Sabemos apenas do novo corpo/ Que brilha igual ou diferente dos corriqueiros corpos celestes/ Do chão de nosso litoral apenas olhamos(…)”

(A Nova Estrela - Som imaginário 1971)
Fredera e Wagner Tiso me representam.

Pronto, vão dizer que sou petista, comunista, ou outro “ista” qualquer, pois falei de estrela. E olha que nem tomo cerveja Heineken. As pontas da holandesa estrela representam “terra, ar, fogo, água e um quinto elemento que acreditavam ser mágico e até hoje é desconhecido”.

Ninguém tem o direito de se apoderar dos astros, cores e bichos. São a expressão máxima da beleza/ pureza. E sonhos, não envelhecem jamais (Obrigado Bituca). Agora só falta fazer como na Hungria, onde querem banir a estrela da cerveja, porque na cabeça de alguns mandatários idiotas ela remete ao comunismo. Jesus amado! Bom, para quem perde tempo com tomada de três pinos nada é impossível.

Enquanto isso, corações machucados em doença ou paixão aguardam (in)pacientemente, aos montes em corredores de consultórios,

No mais, Gerais!





Diário de Uberlândia - 28 de julho 2019

segunda-feira, julho 15

Carroças - Parte I e II





Feche os olhos e imagine a cena: hora do rush. Não, essa palavra não combina com nossa cidade, não temos um rush de verdade, temos tumulto e pressa de sair do trabalho e correr para casa ou para o boteco. Rush é coisa para São Paulo, Belo Horizonte, Nova York. Por falar na capital em BH, há pouco tempo estávamos por lá a ministrar curso em manejo de escorpiões. Compondo equipe de instrutores levei especial amigo e profissional de primeira linha da cidade do Prata.

Acostumado com a tranquilidade pratense, certa tarde, ao tentarmos, sem sucesso, cruzar a avenida Getúlio Vargas em plena Savassi na faixa de pedestre esperamos mais de 40 minutos na boca da noite rumo ao hotel. Ele, depois de dezenas de tentativas, desce da calçada, volta correndo, pula para trás, dois passos a frente, em coreografia digna de fina academia de ginástica, me saiu com essa:

— Esse pessoal daqui não trabalha, não? Será que não tem nada melhor para fazer do que andar o dia inteiro de carro?

Não restou, além de rir e concordar, o trânsito de Belo Horizonte é caótico, lá tem rush, e como tem.

Mas voltando à vaca fria. Imagine a cena: hora do aranzé das seis da tarde aqui em nossa Uberlândia. Todo mundo apertado em nossas vielas estreitas e despreparadas para o atual volume de carros a circular agressivamente pelo Centro.

À sua frente, caro leitor, segue em toada tranquila nada mais, nada menos do que uma carroça, e, obviamente, o carroceiro e seu cavalo. Para desespero do condutor, seu animal é, como todos os outros, por natureza, pouco dado a controle de esfíncter e regras sociais, resolve, na pureza de sua existência, como uma criança ou um cão de madame, durante seu harmonioso trotar, fazer suas necessidades.

O carroceiro, cidadão cumpridor de suas obrigações e muito bem informado, puxa as rédeas, para a condução, calmamente busca tateando sob o banco um saquinho de plástico. Não encontra. Puxa da memória e dá um empurrão com as costas da mão no chapéu, como a ventilar as ideias. As primeiras irritadas buzinas já se fazem ouvir na fila que rapidamente se formou bem coladinha na traseira do velho coche de trabalho.

Ah! Deixei na caixa de ferramentas – pensa com seus botões. Totalmente indiferente ao buzinaço que agora se faz ouvir a quilômetros, desce, pega o saquinho, procura a pazinha e calmamente recolhe o montinho de estrume que poderia infectar de pragas bíblicas a nossa cidade.

O cavalo, aparentemente indiferente, se mantém impávido a mastigar distraidamente o bridão. Obrigação cumprida, tão comprida quanto a fila, que, a essa altura, já faz curva lá pelas bandas da Nicomedes. Aqueles lá no final do congestionamento e que não fazem a menor ideia do cinematográfico e jamais visto congestionamento, já fora dos carros, se põem a perguntar angustiados o motivo de tamanha confusão. Será que aconteceu um grave acidente com direito a ônibus em chamas, carros de bombeiros e ambulâncias? Não, acho que foi um assalto a banco com cerco policial e tiroteio.

Um bicicleteiro sacana, vindo na contramão do fluxo, da cabeceira da fila comenta entre dentes: foi um atentado a bomba, tem até esquadrão especializado lá; abaixa a cabeça para evitar ser flagrado em seu cínico sorriso frente ao atônito olhar dos imobilizados motoristas.
(continua)






 Diário de Uberlândia 14 de jullho 2019 






Carroças parte II

Nota deste modesto missivista: Seria legal passada d’olhos na Parte I aqui no Diário de domingo passado. Segue a prosa.

O boato vai crescendo, a história toma rumos surreais: a Tubal Vilela afundou, resultado de falha geológica até então imperceptível.
Nosso carroceiro salta ligeiro para seu carrinho ganha-pão, estala a língua, e o cavalo, adestrado a alguns poucos comandos, retoma sua marcha tranquila. Isso na Tubal Vilela.

A puxar gigantesco cortejo ao som irritante de buzinas mal-educadas e xingamentos impublicáveis, segue seu caminho. Na primeira esquina, bem perto do fórum, não é que seu bicho me resolve dar outra descarregada? Também com tanto pizeiro a gerar stress no animal, não podia dar outra. E a ladainha começa outra vez.

Compromissos, aulas de pilates e novelas perdidas, amigos deixados sozinhos em mesa de bar, filhos na porta da escola, humores em baixa, ataques cardíacos, crises de pânico. Tinha que ser numa sexta-feira! Esconjura outro. Só sendo cremnóbata ou praticante de pacur, para vencer tamanho obstáculo urbano.

E por quê? Tudo por um monte ou dois de cocô.

Céu estrelado, tarde engolida por sombras de prédios. Aos poucos a normalidade.

Nem um vestígio do estrume ficou para contar a história. No entanto, por toda a avenida de ponta a ponta, um mar de papéis, de palitos de sorvete, sacos plásticos, de latas de refrigerante e até jornais e revistas, como se furacão ali tivesse deixado rastro. Tudo fruto da impaciente espera e da falta de educação e postura cívica de tantos diante de importante missão do carroceiro cumpridor da lei.

Proíbem-se os irracionais animais a não sujar vias públicas com material que logo se desfaz em inócuo pó verde e segue inofensivo bueiro abaixo, e humanos continuam a jogar seus restos entupidores de esgoto e redes pluviais ao léu e nem por isso incomodados são.

Já o carroceiro, nesse momento a trotar rumo à sua casa e merecido descanso, olha para um lado, olha para outro e displicentemente, sem maldade, por puro hábito e costume, joga seus embrulhos de merda na primeira sarjeta ou terreno baldio que encontra, longe de olhares

fiscalizadores da lei. Fezes embrulhadas para presente ganharão rumo de nossas galerias ou ficarão escondidas no mato a chamar moscas e baratas. Ali pode?

Somos uma cidade de origem rural, mesmo que muitos disso não gostem. Ainda podemos nos dar ao luxo de ter honestos cidadãos que da carroça tiram sustento.

Quando aqui cheguei, em época que os bichos ainda falavam como diz um compadre, as carroças se concentravam ao lado da antiga rodoviária na praça Cícero Macedo.

Não foi uma nem duas vezes que usei desse transporte como táxi para chegar até a pensão lá na Duque de Caxias na qual morava.
Vim da já naquela época aprendiz de caótica Belo Horizonte. Este bucólico meio de locomoção compôs a porção mágica de sedução por Uberlândia. Com raras exceções, reclamações estrumicas, vinham talvez apenas de algumas pudicas senhoras às portas de igrejas que viam no ato fisiológico conotações pecaminosas.

Claríssimo para qualquer um que os tempos mudaram e que as carroças carecem de alguma regulamentação, acho que já li algo a respeito em nosso código de posturas. Mas daí a obrigar carroceiro a catar excremento cavalar, me parece outra lei para jamais ser cumprida. A intenção pode até ter sido das melhores, mas não seria melhor apenas determinar horários de circulação? É esperar para ver.

Diário de Uberlândia  21 de julho 2018


 

segunda-feira, junho 17

Gente estranha I e II





Esta não é uma crônica política nem ideológica. Ė uma constatação nefasta.

A vida vai levando nossas emoções, paciência, tolerância e mais algumas coisas em banho-maria, em quentura de fogo baixinho. Braseiro de fogão de lenha em amanhecer. Parece só cinza, um calorzinho vai saindo leve que nem a chapa esquenta. Mas bastam alguns gravetos, uma palha de milho e um sopro ligeiro de quem mal acordou, para que as brasas virem fogo e logo, no calor de manhã fria, água entre em fervura para café coar.

Andava eu assim, em cinza morna, observando, observando.

Quando criança, filho de oficial da marinha americana, morávamos em uma das cidades mais frias dos EUA, na divisa com o Canadá, às margens dos Grandes lagos. Próximo à nossa casa havia um pequeno pântano que, claro, éramos proibidos de cruzar, embora fosse um atalho dos bons para chegarmos à escola. Como toda criança normal seguíamos nosso irmão mais velho pelo short cut, Ele pra variar sempre nos xingava e nos ameaçava de afogamentos, areia movediça e pé-grande ferozes. E adiantavam as ameaças? Eu e minha irmã mais nova o seguíamos à distância e ele fingia não nos ver. Numa dessas consegui, à custa de uma boa surra posterior, capturar uma linda rãnzinha verde, de olhos imensos e coraçãozinho disparado na palma de minha mão.

A tunda valeu, pois minha mãe me deixou ficar com o bichinho, contanto que cuidasse dele com carinho e o soltasse junto à sua família uma semana depois. Mesmo com todo o zelo que tive dois dias depois a rãnzinha morreu. Entrei em choque devido à culpa que senti. Copiosamente chorei e fiz seu enterro em nosso jardim. Coloquei até cruzinha na sepultura, apesar de minha família judia. Foi a única cara feia que vi meu pai fazer e não era pela morte do bicho. Até hoje sonho com isso.

Por motivos de doença de meus avós maternos tivemos que voltar para o Brasil. Minha mãe era mineira de Teófilo Otoni. Como conheceu e se casou com meu pai já é outra deliciosa história. Hora conto.
Chegamos nas asas da PANAIR em um reluzente Constellation, depois de mil escalas, incluindo uma em Havana. Opa, já sei! Vão me chamar de comunista, pois pisei em solo cubano. Contudo, aviso que não almocei com Fidel. Ah, para aqueles que detestam história, a época era a do ditador sanguinário Fulgêncio Batista.
Já no Galeão, mais uma demonstração de que os bichos seriam minha vida. Enquanto todos passavam pela alfândega e migração, eu corria de um lado para outro com uma caixinha pegando moscas. Nunca tinha visto aqueles “passarinhozinhos” na vida!

Assim, fui cuidar da vida, reaprender português, criar passarinho de pena e canto, galinha e pato, como era moda entre os meninos em Belo Horizonte, onde nasci e retornava para morar. Ah, meu querido Manoel de Barros, o meu quintal era maior do que o mundo!
Possuía uma infinidade de espécies de saíras coloridas, canarinhos, bicos-de-lacre, sabiás e outras tantas espéciestodosem gaiolas.

Cuidava deles com carinho e admiração. Cores e cantos, minhas jóias. Enquanto outros meninos usavam estilingues e bodoques, eu os criava e não admitia matar bicho em meu reino/quintal.

Um domingo de brilho indescritível amanheceu naquele céu de 1965. O entorno era cinzento e negro. Meu país sofria horrores.
A criança de nada sabia. Via mas não entendia.

Domingo de luz. Tinha acabado de tratar de todos os passarinhos. Sentei-me à sombra de frondosa goiabeira, minha morada preferida em meu pequeno domínio. Ouvia meus passarinhos em canto, que soava naquele dia mas pareciam clamores de tristeza como grito de sofrimento e morte. Um estalo! Em grande gaiola coloquei quase todos juntos e com ajuda de amigo subimos até as torres da TV Itacolomy, passando pela favela do Pindura-saia.

Às minhas costas Belo Horizonte, à minha frente a mata do Jambreiro. Naquele tempo era do povo, hoje uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), de ninguém menos do que a assassina Vale. Abri as portas das gaiolas, o céu se pintou em milhões de cores e pios, o bater asas a fazer vento em rosto de menino que, sem saber motivo, chorava. Contraditoriamente, foi um dos dias mais felizes da minha vida. Tinha descoberto meu fado. Cuidar de bicho e de planta, zelar pela vida por menor que fosse.

Desci a Serra do Curral correndo e chorando a rir. Sentia-me o mais feliz dos seres. Assumi essa missão, que tento a duras penas seguir. Passei décadas a defender os mais estigmatizados dos bichos, briguei por corte de árvore, plantei e vou plantar muito ainda. Salvei centenas de colméias de abelhinhas dos fornos de carvoeiras. Esparramei abelhas e sementes. Assim vou ser até o fim. Acredito nos bichos e nas plantas, em gente muito pouco.

Gente estranha II

Agora, nos últimos meses, fecho o tempo a contar, coração acelera em raiva, sangue nos olhos de tristeza e revolta.
Não dá mais. Sobre leve graveto ou palha de milho o fogo veio alto. Se não houver válvula de segurança vai explodir. Juro, nunca vi tanta besteira em tão pouco tempo. Sei que vai virar aquela polêmica chata, tipo Atlético versus Cruzeiro. Podem espernear, recitarem receitas de bolo pronto, culparem os anteriores e o escambau. Aviso que não terão resposta de minha parte. Dessa forma, podem ofender com gosto e com toda estupidez que lhes é particular. Minha intenção não é polarizar mais essa política nefasta que andamos a viver. Nada de direita versus esquerda. A discussão fica muito pequena. É reducionismo em excesso (podem chamar de circunlóquio ou até de pleonasmo, mas quem não sabe definir comunismo com imparcialidade não vai saber nem do que estou a falar). Eu não aguento mais!

O país está divido entre os defensores de Darth Vader, nascido Anakin Skywalker e o resto. Aliás, para aqueles o “resto” é comunista. Para mim nenhum conseguiu definir “comunismo” de maneira convincente e de fato nem sabem o que significa. Há também o socialista, cujos primeiros o consideram um perigo. Alimentam a ideia de que irão entrar em suas casas e “socializar” tudo que é seu. Misericórdia Divina, quanta ignorância!
Não dá mais para segurar a bronca. Entre as muitas besteiras vou naquelas que me diretamente me irritam com força, como se aquela criança lá do começo fosse atacada na alma e sóme refiro ás mais recentes, O espaço é pouco. Dá para aguentar? Logo de cara tentou-se acabar com o Ministério do Meio Ambiente, levando em conta quem lá está até que poderia se pensar nisso novamente.

Reproduzo aqui parte de texto de João Lara Mesquita de 24 de maio de 2019, publicado no Estadão sob o título “Cancun em Angra dos Reis, nova bobagem de Bolsonaro”. Disponível em https://marsemfim.com.br/cancun-em-angra-dos-reis-bolsonaro/:

Ele está no poder há apenas cinco meses. Cinco meses de confusões, bate- cabeça entre a cúpula do governo; discursos desconexos, trocas de ministros, etc. Na área ambiental não foi diferente. Exoneração do fiscal que flagrou Bolsonaro pescando na ESEC de Tamoios; abertura da área do banco de corais Abrolhos para prospecção de petróleo; ameaças infantis de abandonar o protocolo de Paris; de transformar o MMA em apêndice do ministério da Agricultura; acusação sem provas ao Fundo Amazônia cujos parceiros estranharam; ameaças de acabar com as multas do Ibama; creditar o aquecimento global a um plano orquestrado por comunistas e mais. Não por acaso, o desmatamento na Amazônia explodiu este ano. Agora vem a estapafúrdia ideia de importar a cafonice brega, criando uma Cancun em Angra dos Reis, justamente nos 5% da baía de Angra formada pela unidade de proteção integral, ESEC de Tamoios! Simplesmente, para um site especializado em meio ambiente marinho, não há como não repercutir mais esta idiotice.”

Gonzaguinha, onde estiver: “Não dá mais prá segurar, explode coração”.





Diário de Uberlândia dias 9 e 16 de junho 2019

terça-feira, junho 11

O trecho - outra parte



Volto às luzes. Movimento rápido outra vez, sem ser brusco voltava a sumir para agora brilhar no meio do pasto. Riscava um oito imenso e com rastro no alto céu e sumia, agora só amanhã. Hora era uma sozinha, hora eram muitas. Ficavam perto, muitas ficavam longe muito longe lá no contorno do vale. Luz de carro dizia uns – mas como se lá nem estrada tinha, nem atalho, e até hoje não tem.

Uma feita eu mais Vilson Gato – nome de batismo mesmo Gato, não era por assim chamado apelido não – coisa de Padre Dázio? Ninguém afirma – resolvemos correr atrás delas.

Brincou conosco, corremos mais de quilómetro e ela arteira na frente. Sumiu outra vez, zombeteira, já estava lá junto de Bia, e ela não via, só Vilson e eu cá de longe.

Carece sei eu de falar mais da aparência das luzes, difícil contar. Um diamante com luz dentro. Pronto descrevi, era assim. Ou quase, tem coisa sem jeito de contar, palavras faltam, estão aqui as lembranças não saem recontadas – difícil.
Tento: acende luz dentro do puro cristal, vai ver o que víamos toda noite no céu, na estrada, no pasto no mato – um brilho sem calor – suave e vivo. Era assim. Maravilhoso.

Gente estudada por lá esteve observando, vieram da capital. Aparelhamentos e muito observar. Ficaram uma semana – a luz só deu o ar da graça duas vezes – e rapidinho, acho que não gostou da cátedra – os professores se foram frustrados mas crédulos pois viram e filmaram, não contaram mais nada para nós da vila. Arrogância de doutor de papel, só, conhecedor nada da vida das gentes. Levou muito, nada, as luzes ficaram nossas.

Um dia, nem te conto, mas tenho que contar. Era um sábado – tarde da noite para nossa vila já dormindo. Fomos buscar a companhia mágica de nossas luzes. Nossas sim, todo mundo via, conhecia, mas não punham o reparo merecedor. Acostumaram e pronto – as luzes? Ah as luzes, sei estão lá fim de prosa, virou cerca, virou cobra, virou árvore, mas novidade não, nem te ligo. Perdeu o encanto para os quase todos.
Seguimos a acompanhar o bailado de luz por hora ou pouco. Depois nos colocamos a ir – surpresa – uma acompanhou o batido. Seguiu de longe. Entrou na vila desconfiada. Passou rente a farmácia fechada a anos, desceu a rua. Cruzou a outra rua. Na esquina o bar do Jorginho japonês, meia dúzia com as cabeças presas no dominó. Não adiantou gritar por nome, ninguém olhava.

Cruzou conosco, a meio trote a frente da escola e da igreja, à esquerda desceu rumo ao campo onde o circo ficava. A direita no fim do campo, a esquerda no corredor de gado onde morávamos. Não seguiu mais. Parou no moirão da cerca. Brilhava-brilhava. Descemos até o portão – e ela lá a vigiar. Não sabemos até quando ali ficou. Sentimos estranha proteção.

Por muito passar de tempo com as luzes compartilhamos. Segredos e mágica. Mudamos para cidade, as luzes, minhas luzes, as luzes de São Sebastião do Pontal. Se continuam lá não sei. Talvez falte platéia, talvez falte companhia. Hora vou lá de visita. Depois conto. O trecho ainda é longo, tem muita história, acabou não.





Diário de Uberlândia

O trecho - Uma parte


A vila não tinha padre, assim fixado, morando. Vez ou outra aparecia um na vila, coisa de espaço grande. Quando vinha fazia tudo no atacado, casamento, batizado, crisma, confissão: perdoava uns, penitenciava outros. Se o pecado era grande demais e a procuração de Deus não cobria, ai era aguardar o destino. Até extrema-unção atrasada o padre dava. Sem presença do moribundo, esse havia a tempos partido, mas a alma mesmo tarde era encomendada.

Morando lá apenas três irmãs missionárias, cuidando das coisas das coisas do espírito. Certa feita teve festa. Fartura de comida e bebida, uns mataram tatu atropelado e fizeram farofa outro trouxe carneiro para assar. As irmãs comeram enganadas achando que era frango e vaca. No dia seguinte mesmo depois de elogiar a comida passaram mal ao saberem da procedência. Coisa da cabeça, guia em tudo até no gosto.

O padre por nome Dázio, este sim, gostava de carne de caça. Dia daqueles ganhei um rabo de jacaré, de tanta dó do bicho, cozinhou mal, ficou com gosto de couro, de baixeiro velho até Tupã o cão das caçadas fez pouco, quis não. Jogar fora nem pensar. Veio a lembrança, toca a oferecer para Padre Dázio, ele estava na vila. Que maldade, será pecado?

Cobri a tigela com o mais alvo dos panos de prato da casa, linho branco com pequenas flores bordadas em azul e rosa, um primor de beleza. Cheguei à tardinha na casa paroquial, já escurecendo, o padre nos recebeu com um sorriso maroto, sentiu o cheiro do tempero – pouco via era ruim das vistas, pois não é que comer com os olhos não podia, minha salvação. O padre comeu ao enfaro – lambeu até osso, fazia gosto de ver. E eu, livre fiquei do jacaré de má sina, pelo menos morreu por causa uma – alimentou padre. Tomei o caminho de volta, Futrica e Tupã a correr junto rolando no pó – alegria de bicho.

As tardes e as noitinhas na vila não eram de passar. O vento ficava quieto, ofegante e cansado. O sol teimava em aquietar-se na distância, mas não sumia de todo rápido, era manso o seu sumir. Carregava de tinta e cor o céu, as matas e os pastos. Dava uma vontade e de não-sei-o-que-dava-de-vontade, era uma meia tristeza longe, amarro de boca de estomago – triste tristeza que vinha com a tarde finzinha. Doía. De certo era portanto que as gentes mais se matam nessa hora. Choro preso.

Depois o breu. A noite enfeitaitada, estrelas adoeciam o céu de tantas que tinham. Nas noites sem lua então, dava sombra na terra-pó. Sombra de estrela. Era nessas noites que vinham as luzes. Gostava de ir até fora da vila – em estrada que seguia rumo ao posto de leite, laticínio resfriador, um ermo.

Tinha um mata burro. Ficava no tope do trecho que rumava para o rio lá longe. Sentava lá quase sempre no silêncio. Criava sonhos, criava um mundo meu, meuzinho de fantasia, belo/lindo, puro sonho de tão bem sonhado.

Na calma dos contos ela devagar se anunciava. Tímida, primeiro brilhava rente ao chão quase sempre no meio da estrada. Parecia se oferecer. Candura. Flutuava com ainda pouco brilho prata-vermelho-azul palmo ou dois do chão. Como a buscar atenção aumentava o brilho, bailava em curvas rápidas para bem alto.

Sumia. No repente aparecia a poucos passos de mim já grande e agitada corria em rapidez de passarinho pela estrada, veloz. Sem aviso se atirava ao céu em frenética dança: rodopiava, parava se fazia vir/ir. Parava, parava. Apagava um pouco e outra vez vinha devagar para mim. Sem medo, sem som, sem vento. Só luz e movimento. Sumia. Cansou de gente sussurrei. Quando apercebía seu brilho em minhas costas na entrada da vila antes do limite criado, que era a sombra, a iluminação vermelha da lâmpada do primeiro poste. De lá ainda não tinha passado. Ainda.





Diário de Uberlândia

quinta-feira, maio 9

Piri piri piri!!!!! Ratatatata!!!!






Uma onda branca toma conta da Ponte Seca. A concentração atrai a atenção de turistas e nativos. Apesar de acostumados com essa invasão, que já dura 47 anos, é impossível passar sem parar para dar uma espiadinha, que carece de horas, pois encanta. Sempre dá uma pontinha de inveja de não estar ali no meio de tanta gente alegre. Velhos, moços, idosas, lindas meninas. Impressiona a seriedade de todos. Cada um sabe seu papel, seu lugar, sua nota. Aos poucos se vai colocando certa ordem na confusão séria, mas alegre e emanando alegria contagiante. O comandante com sua jaqueta azul, botões dourados e calça de linho de um branco impecável, pede silêncio. A ordem custa a correr as colunas e a falação não pára. De mão em mão alguns carotes de boa cachaça circulam faceiras. Latas e mais latas de cerveja, embalam o clima.

Depois de berros e mais gritos, o comandante consegue algum silêncio. Reza a cartilha para os novatos. Pede minuto de silêncio para antigo membro que deixou saudades, partiu para as estrelas. Lembra solene as vítimas de Brumadinho e Mariana. Neste minuto o silêncio é total. Canta bem-ti-vi em árvore bem próxima. Lágrimas brotam em rostos rudes, queimados de sol pela lida. As gotas seguem caminhos entre profundas rugas, escavadas pela erosão do tempo. Perdeu alguém muito amado para a lama criminosa da Vale. Passa ligeiro a manga da camisa, sussura: − Sai tristeza. Essa tarde é para você que nos deixou em tragédia.

Pessoal do sopro vai na fente, percussão ao fundo. Põe-se em marcha e logo imensa serpente branca toma conta das ruas: O sopro, Piri piripiripiri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Piri piripiri piri, ratatatata!!!! A serpente branca sobe a rua Antônio de Albuquerque até a Igreja do Pilar, contorna a Praia do Circo e rapidamente chega ao Largo do Rosário. A linda Igreja dos pretos parece aprumar suas torres barrocas, para agradecer a homenagem a receber. Ali todos ficam de frente para ela e o refrão soa mais alto, repicando em casas coloridas, janelas repletas de gente alegre. Piri piripiri piri!!!!! Ratatatata!!!! Piri piripiri piri!!!! Ratatatata!!!!

Segue rumo ao Largo da Alegria. Ali em ligeira e suave curva à esquerda, avança pela Rua São José. Aplausos, gritos e dança. Puxa centenas de pessoas com sua força.

No Largo do cinema, apenas o nome permanece. O cinema se foi para sempre. Só lembranças. Também, Manteiga o pipoqueiro, tratou de buscar estourar seu milho bem longe lá, no alto para onde vão as boas pessoas. As ladeiras vão se tornando mais íngremes. Não, não precisam de cordão de isolamento ou segurança. As cabeças brancas de verdade impõem respeito e a rua se abre em passarela. Sobe-se a rua Direita. Piri piripiri piri!!!!! Ratatatata!!!!!!!!! Ratatatata!!!! O suor cola camisas de algodão, mas nada que atrapalhe a marcha. Lá no alto a Praça Tiradentes lotada a esperar. O som já avisa que estão chegando. Apoteose! Rompe-se praça adentro sob aplausos. Banhos de confete, serpentina e espuma colorida. Há sempre uma mão na multidão a estender uma cerveja, uma garrafa de água gelada. Jogam-se beijos que, como borboletas parecem pousar em cada rosto. Sopro Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Contorna-se a praça, passando primeiro pelo palco erguido bem em frente ao Museu da Inconfidêndia, circula a estátua de nosso herói maior, marcha cadenciada pela Escola de Minas. Outra volta e desce a Rua do Ouvidor, rumo ao Largo de Marília, já na Antônio Dias. Se você olhar à sua direita no Largo de Coimbra, vê a belíssima Igreja de São Franciso. Mandarim a lhe sorrir. Depois, parada geral para recompor as energias. Leia-se xixi, mais pinga e cerveja à vontade. Estão todos enxarcados, mas apenas cansados. Aproveito e descanço, descrevo os trajes. Tem que ser impecável e, na falta de algum item, corre-se o risco de não poder participar.

A calça obrigatoriamente preta, assim como o sapato, gravata e meias. Camisa branca social para fora e o cinto abraçando a camisa. No cinto um rolo de papel higiênico. Na cabeça, um pinico branco esmaltado. Se for a primeira vez que vai sair, este pinico será batizado. Não com o que normalmente se coloca dentro dele, como na cabeça de muitos que se dizem poderosos que aí estão. Nada de merda. O batismo é jogar o dito no meio da turma, onde é chutado, amassado em calçamento de pedras seculares, que ainda trazem o pisar de cavalos, de portugueses, escravos e artistas eternos. Assim lhe é devolvido já com a tarja oficial. Agora, você iniciante, faz parte de uma ordem desordenada e prestigiada. Você ostenta o título de membro da maravilhosa, tradicional e mágica BANDALHEIRA.

Sopros, Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Piri piripiri piri!!!!! Percussão, ratatatata!!!! Saiu uma vez, vai viajar dias para sair novamente! Viva a Bandalheira! Viva o carnaval de Ouro Preto!







Diário de Uberlândia em 17 de março de 2019

Bicharada II




Aluga-se lindo imóvel. Vende-se ou aluga. Tratar direto com proprietário. Essa foi minha vida por bom tempo. Podia identificar um imóvel apenas pelas letras e cores das placas. Só relembrando meu périplo contado outro dia. Deu no que deu. Achei uma casa minúscula, unha de dedinho, fria e sem vida que, como já contei, tratei de lhe dar jeito de lar. Pode parecer mentira, mas hoje já a acho grande demais, menos o quase zero quintal, que é o "coração das pessoas". Não é Bituca? Esse poderia ser bem maior.

Parei meu contar na semana passada no miado do gato, que acabou ficando e me adotou de fato. Durou pouco nosso convívio. Gente do mal o querendo fora do condomínio. Pela mansidão e inocência de filhote, entrava em casa de gente ruim sem alma. "Quem não gosta de bicho dificilmente vai gostar de gente". Vi na prática. Certo, passei o gatinho para uma amiga especial. Lá cresce livre, leve, solto e muito feliz e eu ainda tenho a oportunidade de visitá-lo sempre. De lá para cá, se foram riscos no calendário, marcadores de nossa vida ao passar.


Perdi a esperança de voltar a ter companhia animal, a melhor de todas. Comecei a pensar que essa dádiva não me seria concedida. Ledo engano. O destino me reservava boas surpresas. E não é que em tranquilo fim de semana, me aparece outro gato! Este erado e bem desconfiado. Gato de rua, certamente tinha sofrido um bocado em mãos de humanos. Chegou como quem não queria nada, entrou, roçou pescoço pelos pés de bancos e tamboretes. O olhar sempre firme em mim, como a esperar um grito ou um chute. Neste dia não deixou nem passar a mão em sua cabeça, arredio que era. Ainda tinha resto da ração do que foi expulso do condomínio. Servi um tanto. Ele comeu ávido e ligeiro, como se estivesse saindo de um campo de concentração. Raro em gatos. Logo conto. Com os dias, já subia no sofá, onde passava a tarde toda dormindo. Baixou a guarda. Dormia de pernas para cima. Em posição totalmente vulnerável, aceitava carícias e já pedia comida aos mios. Ronronava tranquilo ao meu lado. Não deixava que ele ficasse só dentro de casa. Fiz macia cama na varandinha do cafofo - no dizer de pessoa querida, mas que não quis mais de mim. Ali ficava até eu chegar. Porém, o destino nos reserva boas surpresas. E não há de ver que ao chegar de um dia especial, escuto outro miado à minha porta? Pensei comigo que não poderia ser o Chaninho. Velho como era, só se engasgado estivesse. Ligeiro desci a abrir a porta e dou com o quê? Gatinha filhote, do pelo feio de cor e sem brilho. Ela não teve cerimônia. Na inocência dos pequenos já foi entrando, roçando na minha perna aos ronronares de frio e fome. Peguei no colo, olhou-me fundo e triste. Dia seguinte, castrada, vacinada, deslumbrigada, ganhou casa, comida e dono. Pretensão ser dono de gato. Eles nos escolhem, eles sãos donos, nós os seus animais de estimação. Ganhou nome de Princesa. Faz literalmente gato e sapato do velho Chaninho que, por vez, perde a paciência e ralha forte com ela. Mas a rotina é assim. Onde um está, está a outra, que vem ligeiro. Toma a ração dele, mordisca o rabo, mas no fim acabam os dois dormindo o dia inteiro na caixa da varandinha. Depois, somem no negrume da noite para fazerem sabe-se lá o que.

Ração, como já disse, só Premium.Vai ficando caro, quase o preço de minha marmita. E olha que essa dá para almoço e janta.

O pior, como sabem, é que gato come devagar, mordisca e larga o resto ali para outra hora. Por menos que se coloque, sempre sobra e muito. Deu no esperado. Aquele restinho de ração começou a cevar casal de gambás que, na maior tranquilidade, da goiabeira passavam para o tronco de minha amoreira e desciam em rota segura bem à frente de minha janela. Ainda tratavam de dar um sorriso calmo para nós e seguiam para os comedouros, onde se banqueteavam com as sobras dos gatos. Assim estava difícil. Tratar gambá a ração especial é osso.

Resolvi fazer sérias mudanças. Contenção de despesas moaçada! De agora em diante ração a granel! Com um quilo da outra comprava cinco desta.

A resposta veio no primeiro dia que a servi. Os gatos vieram em rodeios e miados, chegaram com a costumeira fome de mordiscos, cheiraram uma vez, olharam em sincronia para mim. Cheiraram outra vez, levantaram as cabeças juntinhos, firmaram as vistas como a me dizerem: — Ô cara, que que isso? Baixou o nível? Perdeu o emprego? Sem essa, pode parar, cadê nosso comer de verdade! Isso? Queremos não!

Pensei, deixa a fome apertar que logo vêm comer. Deu certo não. Jejum de dias. E olha que eu tirava a ração e só colocava no dia seguinte.
Certa noite coloquei a ração e esqueci de tirá-la. Estava a ler bom livro, quando vi de canto de olho os gambás descerem tranquilos. Bom, pelo menos estes comem e ficam numa boa.

Que o quê! Não passaram cinco minutos e os dois filões foram na carreira árvore acima. Parece que ouvi um resmungo do tipo:
— Quem esse cara pensa que somos? Somos gambás de respeito e estirpe nobre! Acha que vamos comer sobras? Assim tá é doido!

Nenhum sorriso me deram. Passaram-se cinco dias de greve geral felina e didelphiana. Sem negociação, sem carinhos e companhia. Dei-me por vencido. Voltei a oferecer ração dentro dos "requerimentos nutricionais mínimos estabelecidos pelo Conselho de Nutrição Animal do NRC (National Research Council)" e recomedados pela AAFCO (Association of American Feed Control Official). Bicho sindicalizado e organizado tem meu respeito e eu sou péssimo negociador. Gatos e gambás unidos jamais serão vencidos.






Publicado em Diário de Uberlândia em 10 de março de 2019

Bicharada I



Já faz um tempo. Depois de uma relação de três décadas, esta chegou ao fim, como acontece com quase tudo em minha vida. Não, não estou a me queixar, nem me colocando em posição de vítma. O mestre Vinicius tinha toda razão: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”. Assim foi. Não é o caso de expor minha intimidade e tais, mas a verdade é que fiquei sem chão, sem céu, sem rumo. Estranho seria se não ficasse. Recomeçar é sempre difícil, doído, mas ao mesmo tempo é como novo nascer. É chance de fazer uma avaliação do caos interno e jurar nunca mais repetir erros do passado. A verdade é que não é fácil, principalmente quando se vive a segunda juventude ou a “envelhescência”. Os sonhos sonhados derretem como degelo glacial sob efeito de mudanças climáticas, e olha, tem gente que não acredita no aquecimento global. Coisa de comunista. Passado o impacto você começa a pensar se realmente compartilhava sonhos ou os vivia sozinho em uma clausura mental, fantasiosa. É impactante.

Além do chão e coisas mais, tem o hábito. Este é custoso. As manias, o jardim a cuidar, os passarinhos que lhe são tão familiares, quase já comendo em sua mão. Não se despede apenas de gente humana. Despede-se de móveis, cheiros, plantas, bichos, rituais do coditiano, o dormir na rede, a feijoada no fogão do quintal e dos morcegos amigos sempre em disputa pelas belas jabuticabas. Enfim, chega de lamúrias. O cantar de Chico já se foi e não existe mais, virou pó: “Se me faltares, nem por isso eu morro / Se é pra morrer, quero morrer contigo (…)” Que nada, viver é preciso, ser feliz mais ainda.

O mais importante e única coisa que agora faz sentido são os filhos. Estes, amores eternos, sinceros, maravilhosos. E gratidão por tê-los tido, uma amizade fraterna sem ranços, gritos de gansos, apenas o manso.

Ah, Leminsky “Viver é super difícil/ o mais fundo/ está sempre na superfície.” Introito feito, vida maravilhosa que segue.

Depois de muito procurar, achei pouso para alugar. Não que fosse difícil, pelo contrário, nunca tinha passado por minha cabeça a infinidade de casas e apartamentos que aqui existentes. Imagino que, se todos os imóveis estivessem ocupados a população de nossa cidade triplicaria. O complicado foi encontrar morada do agrado. Acostumado com a vastidão de quintais e ruas calmas, arborizadas, fica complicado não comparar.

Achei enfim algo nem perto do que buscava, mas meio longe do que não queria. Minúscula casa, com quintal menor ainda, nua de plantas. Sem alma ou brilho. Mas era ali. Tratei de fazer dali um canto agradável. Plantei árvores e o fiz verde. Defendi com ferocidade jurídica um lindo pé de goiaba. Hoje, sua sombra e frutos são a alegria de centenas de passarinhos, maritacas, sanhaços, pássaros-pretos, cambaxirras e seu gorgeios que nos levam a viagens no tempo. Uma festa do amanhecer ao fim de tarde.

Do quintal de cimento quente, brotou horta em vasos. Alfaces, tomates, almerões de várias espécies, temperos exóticos, flores coméstíveis, além das básicas salsa e cebolinha. Morangos, pitangas, romãs e também laranjas Kinkan (laranja fruta, que fique bem entendido). As plantas cresceram tanto que a casinha ficou agradavelmente fresca e acolhedora. Certo dia duas crianças passaram à porta e apontaram para nossa entrada. Olha a casinha dos Smurfs! Quer elogio maior?

Por muito tempo minhas únicas companhias eram plantas e bichos. Fiz cevagem com quirera de milho. Virou “point” da passarada. Levantar para trabalhar cedo. Saudade desse tempo. Não do cedo, do trabalho, mas essa é outra história, guardada e pronta para contar. Levantava junto com frescor do sereno. Um mundo de cores e sons me esperava, ávido por desjejum. A passarada se misturava rapidamente com o amarelo do milho, me deixava aquietar em uma paz. Difícil descrever.

Certa feita, em um sábado bem cedinho, miaram à porta. Se já contei, reconto assim mesmo, peço desculpas, pois me perco em tantos escritos. Abri a porta intrigado. Pequeno gato preto, noite sem lua, sem estrelas, negro balandrau, me olhava pidão. Minha relação com gatos era distante. Sempre tive desconfiança deles. Criava cães de grande porte. Deixei a porta aberta, tratei da passarada no cocho e fiquei a observar. Se ele atacasse os de pena, não haveria a menor chance de mantê-lo comigo. Qual foi minha surpresa, não deu a menor para os canores do meu jardim. Neste dia, fui às compras como fazia sempre aos fins-de-semana. Morar sozinho é doido, tem que acostumar a pequenas porções. Nossa cidade não vive essa cultura. Vivia de um desperdício involuntário e isso me doía forte. Ao passar por uma gôndola colorida, avancei alguns passos, mas em ré voltei.
Comprei uma super ração premium. O gato fica. Por excesso de letras e espaços aviso: essa prosa continua.

Bom domingo.






Publicado em Diário de Uberlândia em 3 de março de 2019

Compadres



 Eles eram de uma amizade e cumplicidade pouco vista. Moravam em pequena cidade em um longe, no meio do nada. Para lá chegar só estrada de chão e se formasse chuva, nem carecia sair, pois só passava de carro de boi ou trator. Essas caminhonetes de propagandas, que sobem e descem barranco, andam dentro de córrego e, em falta de educação total, correm por praias esmagando ovos de tartarugas, por lá não valiam nada, faziam fila no massapé grudento da terra de cultura.

A vila era que nem tantas que visitei e descrevi aqui mesmo neste espaço. A igreja numa ponta, lupanar na outra. Este, também chamado de zona, casa de tolerância ou puteiro. Bem que tentei ser educado. Lupanar em primeiro momento me pareceu, digamos, mais discreto, nobre. Não funciona em certas ocasiões, melhor o popular mesmo. Dois moleques a correr descalços por toda banda. Sempre juntos, pareciam irmãos bem apegados. Assim, eram amigos de cortar dedo e juntar sangue como nos filmes de faroeste. Corte no pulso não tiveram coragem. Viram corpo de Seo Sinobelino mergulhado em poça de sangue, por conta de pulsos cortados. Contam que estrebuchou que nem frango, até morrer em suspiro de arrependimento. Não teve tempo de desdizer e se foi com olhos abertos e tristes. O motivo nem se sabia direito. Não devia a ninguém, tinha sítio bem zelado, pomar farto, galinhas, patos e até um peru imenso que dizia guardar para quando casasse. O peru andava velho, com as canelas grossas e escamosas pela era. Não respondia nem a assovio. Matou-se de solidão, disse o padre na missa de corpo presente. Contrariando as leis da Santa Madre Igreja, foi enterrado em campo santo. E quem ia saber disso? Contei, ali era o fim do mundo redondo ou plano, mas era o final.

Uma gota de sangue do dedão, furado com espinho de macaúba, resolveu o problema do ritual. Irmãos de sangue se tornaram de fato e de direito.

Cresceram, namoraram, casaram e filhos tiveram. Além de amigos se tornaram compadres, pois pegaram filhos um do outro para batizarem.

Trabalhão. Um montou venda com tudo quanto há. Aquietou bem na praça, onde recebia, vendia e trocava prosa. O outro tinha alambique famoso pela delícia de sua cachaça. Fornecia ao amigo em garrafões de cinco litros. Gente andava léguas para comprar.

Punha preço que fosse, vendia tudo. Tudo não, sempre guardava uma ou duas garrafas da mais fina porção de destilar. Uma para uso próprio e dos amigos, outra selava bem com rolha e cera de abelha e enterrava bem escondida. Único que sabia dos lugares de segredo era seu compadre/irmão de sangue. Nesse podia confiar. Dizia sempre:

− Compadre, essas pingas especiais vamos tomar no casamento de nossas filhas. A primeira que casar, seja sua ou minha, nós abrimos uma por uma. Combinado?

− Certim compadre, certim! Assim será feito!

A vida pastosamente foi passando. Corria em calma e preguiça.

Num amanhecer murmurante como sempre, aquele dia abriu diferente. Ninguém sabia explicar o ar pesado, difícil de atravessar, mesmo com tanta brisa fresca. Para bom observador um notar ficava. Galo não cantou naquela madrugada, cachorrada não latiu para a lua, que se fazia cheia deixando tudo em prata. Gatos sumiram e nem miado de paixão se fez ouvir. Urutau mãe da lua se aquietou e não assustou cavalo em pasto. A Caburezinha tão chegada a quintais e praças não piou seu canto gargarejado,

O funesto estava anunciado e ninguém percebia.

Acontece que um dos compadres, não o das pingas, o da venda, tinha saído de madrugada para pescar e, como estava demorando demais a voltar, a venda não abria, criou-se desconfiança. Toca as gentes a procurar. A canoa acharam emborcada na margem do rio, do compadre nem aviso nem avisto. A procura levou semanas. Nada. Assim, foi dado como morto pelo delegado da comarca vizinha, que comandava buscas.

A tristeza tomou conta. Em luto a vila ficou por semanas a fio.

O tempo. Passaram-se anos e mais anos. E depois desse tanto, mais um muito de tempo se passou.

O fato caiu no esquecimento, ficando aceso apenas na viúva, que nunca mais se casou e só de preto se vestia, nos filhos que agora tinham netos e, claro, no peito do único amigo de verdade sobrevivente a tudo. Não abriu as pingas enterradas para casamento de filha. Esperou em paciência. Acreditava que do nada o amigo iria voltar, de meio de picada na mata.

Foi nada não. Quando inteirou trinta anos do desaparecimento, e decidido a por fim naquilo tudo, resolveu fazer baita festa em homenagem ao desaparecido. Convidou a vila toda, armou torda com mesa farta, muita comida, cerveja a ufa e, para completar, com os filhos e mapa na mão, saiu a catar as tantas garrafas de pinga enterradas.

Colocou tudo em mesa de toalha branquinha e em discurso contou a história da cachaça para todos, que agora iam em cerimônia brindar ao parceiro que se foi.

Serviram-se e após o levantar de braços deram talagada, para apreciar o gosto de pinga tão especial envelhecida por três décadas.
Depois do gole fez-se silêncio barulhento por dentro. Ninguém deu um pio. O dono da festa, de bochecha cheia, cuspiu com força a bebida, no que foi seguido por todos. O velho deu uma gargalhada tão forte que tremeu a lona. E ainda quase explodindo de tanto rir gritou para a multidão:

− Esse compadre fdp era um moleque dos infernos. E não é que nesses anos todos que lhe mostrava minhas pingas especiais ele, na calada, corria lá, bebia e colocava água no lugar! Sacanagem com trinta anos de frente!

Adiantava xingar? A festa durou a noite inteira. E o velho amigo, agarrado a uma de suas pingas de verdade, sentado em tronco beirando mato, ria e chorava. Chorava muito de saudade.







Publicado em Correio de Uberlândia em 24 de fevereiro de 2019

terça-feira, fevereiro 19

Longevidade




Acho que todos querem viver mais do que merecem ou estão fadados a isto. A história da morte anda me rondando há muito. Ando a perder para o tempo amigos queridos. O ciclo da vida é assim. Imponente, não existe forma de fazer a roda parar.

Nesta fase involuntária de pouco fazer, de não ser produtivo para a comunidade na qual estou inserido, acaba sobrando muito tempo para o pensar, ler e claro, rabiscar o produto embruscado de meu refletir. Na toada que vou, entre livros, jornais e discos (leia-se Spotify), crio minhas listas de ouvir misturando tatu com cobra. Emendo o Overture da ópera Tommy, do The Who, com um Chico Buarque, Caetano, Elis, Milton, The Dave Brubeck Quartet ou com a trilha sonora de Morte em Veneza, adaptação genial da novela de Thomas Mann. Esta, tendo à frente ninguém menos do que um dos grandes mestres da sétima arte, Luchino Visconti.

A trilha sonora tinha que ser Gustav Mahler. Não falo mais. Sei que é pedir muito às pessoas que leiam um pouco mais, que "percam" seu tempo com filmes de qualidade, deixando de lado o encantamento pelo 3D que, em minha humilde opinião, é diversão de criança, de parque de diversões, sem poesia arte zero.

Imagine você que começou nas redes sociais, com o ICQ, Orkut, ou voltando ainda mais no tempo, os bate-papos via DOS. Tela negra, letras verdes e cursor piscando à frente da última letra digitada, eram o máximo em tecnologia. Eu e meu 386 viajamos muito mundo afora. Hoje, dizem, é terra abandonada, por onde trafegam livremente hackers e crackers.

Bom, o Orkut com todos seus recursos, lapidando o modo de contatar gente foi breve. Explodiu o Facebook, porém demanda escrever muito. As abreviações foram sendo inventadas e criou-se uma linguagem própria, mas ainda assim cansativa. Escrever cansa não é? Foi então que um gênio resolveu o assunto, reduzindo o mundo a 140 caracteres. Nasceu o Twitter e com ele o microblogging. A maioria dos humanos se satisfez com ele. De celebridades a presidentes bons e maus.

Mas você acredita que tem gente que se desgasta e apresenta enxaquecas horríveis para criar frases com tão pouco? Pois saiba que tem sim e, com o novo modelo de escola que se pretende, vai aumentar mais ainda. Adeus haicais com seus três versos e métrica de 4-7-5 silabas.
Aí, como um passe de mágica, nasceu o Instagram. Nada de escrever. Apenas fotos. Dirão alguns: "mas uma palavra vale mais do que mil palavras". Se você sabe viajar nas imagens eu concordo. Porém, cá pra nós, esse tanto de caras e bocas, beicinhos. bundinhas arrebitadas e olhares lânguidos forçados não contam muita história não.

Voltando à vaca fria. Entremeando todas essas redes sociais estão os famigerados anúncios de todas as espécies. Com eles os programadores têm a cara de pau de colocar posts patrocinados como se fossem recomendados por amigos. Tenha a santa paciência! Aí começa o desespero.
Uns dizem que quem bebe muito café tem grandes chances de passar dos cem anos, outros trocam o café pela cerveja. Transformam bananas, feijão preto e algas marinhas em um caminho triunfal dos centenários. Cara, até o ovo, considerado perigoso por muitos para a saúde, está na lista dos alimentos milagrosos para uma vida longa.

Contam uma história, não sei se é totalmente verdadeira, mas que dá o que pensar. Ah, isso dá! Dizem que os Estados Unidos obtiveram certa feita uma supersafra de espinafre. O governo havia fomentado o plantio da erva. Sim, espinafre é uma erva rasteira. Não tirem conclusões apressadas, por favor, esqueçam as goiabas.

Resumo da opereta: tinham que vender a produção, se não quebrava todo mundo. Espertos, entraram com campanha publicitária gigante e assim nasceu o Marinheiro Popeye. A criançada caiu matando. Nos conta a Redação de Mundo Estranho que, " na década de 30, a verdura conquistou a criançada americana e seu consumo cresceu 33% nos Estados Unidos."

Será que está sobrando ovo nas granjas? Há banha de porco estocada? Pois agora tudo condenado agora faz um bem danado. Antes matava. Será que existe alguma jogada comercial nos prometendo os cem anos por puro interesse econômico? As teorias da conspiração, sempre elas.
Agora cá pra nós, no sério. Quantos realmente querem chegar aos cem? Tá, se for com cabeça e corpo numa boa, independente, produtivo, até eu quero. Mas só para virar estatística mórbida da previdência e ser acusado de quebrar o país por viver mais, quero não! Um século é tempo para danar. Dá para fazer bom uso dele sem chegar tão longe.

Uma coisa é importante, só não podemos desperdiçar tempo, pois este, meus caros, se vai em lampejo!

Carpe diem.






Publicado em Diário de Uberlândia em  27 de Janeiro de 2019

quarta-feira, fevereiro 13

Sem pé nem cabeça






Tem dias que nem o cotidiano te mostra caminho de contar. Tudo parece igual, nada digno de nota ou de por atenção. Imagino que são dias assim que determinam o vazio do existir. Claro que tudo está em movimento ao seu redor. Os céus com seus aviões de carreira a cruzarem um azul de beleza inconteste, alguns soltando aqueles riscos de gelo, que sempre pensei ser fumaça. Mas não, é gelo mesmo. E pensar que enquanto aqui estamos assando como frango em vitrine, lá, onde o rastro se mostra, a temperatura tem obrigatoriamente de estar por volta dos trinta e cinco negativos. Atenção, atenção urgente! Inutilidade pública:

"O vapor d´água que sai de suas turbinas congela na hora, transformando-se em cristais de gelo suspensos na atmosfera. Isso, porém, não acontece sob qualquer circunstância. O ar precisa estar a uma temperatura de pelo menos 35ºC negativos, ou seja: o avião tem que voar a pelo menos 10 quilômetros de altura, se estiver nas regiões equatorial ou temperada, ou a 5 quilômetros, nas de clima mais frio. Além disso, a umidade relativa do ar deve estar em torno de 65%."
Fonte: Super Interessante / Redação Mundo Estranho, publicado em 18 abril 2011.

Pois não viu? Dias assim nos voltamos para a cultura inútil, mas que pode terminar em caloroso (fala mais de calor não...) debate em mesa de boteco, sobre a resposta final a questão tão perturbadora de como é formado aquele rasto deixado por aviões no céu. Como pode alguém viver e nunca saber disso?
Emocionante não é? Ainda bem que a terra não é plana como querem alguns. Já pensou que manobra estranha o tal avião com seu rabo de gelo teria que fazer para chegar ao Japão, debaixo da pizza Terra?
Caraca! Olha só, o castigo imposto por Zeus a Atlas, o mitológico titã, seria o de entregador de pizza e não de sustentar os céus para sempre. "Desceu a estrada subiu na vida" ao contrário.

Tem dias que nem o cotidiano te mostra caminho de contar. Sinto que foi em dia assim que o grande Monteiro Lobato concebeu sua obra Reforma da Natureza. Muito ócio e um olhar para dentro, onde ocorrem os absurdos em que tudo é possível. Preenche o momentâneo despejado existencial.
Se dê ao direito a loucura do pensar. Terra plana, dragões dóceis. Fadas a pirilampear casa adentro. E, ufa, ainda bem que hoje, mas só hoje, a terra é o centro do universo. Somos muito importantes para girar entorno de algum astro. Ou vai querer discutir com Aristóteles e Ptolemeu?
Tapem bem os ouvidos. Galileu Galilei e Copérnico são hoje um fake day. Fadas e elfos, amigos imaginários? Coisa alguma, tenho uns tantos. Li outro dia: "Tenho um monte de gente os quais jurava amigos."

Hoje nesse brincar com palavras e escrever abobrinhas busco recompor de, como disse, um vazio que anda a me perseguir.
Na verdade me pego em diálogo ligeiro entre Calvin e Harold, do genial cartunista Bill Watterson:
— O seu problema Harold, é que você nunca tem o que dizer.
— Isso é muito útil para preservar certas amizades.
Isso aí gente, tem dias que de noite é assim.
Cá em meus devaneios, só me preocupo em receber uma jaca na cabeça ao invés de inofensiva jabuticaba.






Publicado em Diário de Uberlândia em 10 de fevereiro de 2019

segunda-feira, fevereiro 4

Até breve


No assustar de uma manhã recebo a notícia da perda de mais um amigo. Se outro dia ainda trocávamos alfinetadas inofensivas, coisas de futebol e política sem a menor importância, mas que aproximam as pessoas pelo menos no brincar, num repente recebo telefonema de um compadre que mora em São Paulo para compartilhar o susto e o medo de amanhã aqui nesse plano já não mais estar.

Não meu amigo, minha amiga, não é nem de longe medo da morte! Essa é nossa por direito. E o dia em que nosso CPF for para alguém, ou algo lá no alto, ou lá embaixo puxar, não há quem segure. O medo é de não poder mais compartilhar de um mundo tão louco, tão confuso, mas dependendo de quem e do quanto é maravilhoso de se viver. "Morrer deve ser tão frio".

Talvez por isso criamos as religiões, para nós eximirmos da culpa da morte como destino inelutável. Alguns querem ser eternos. Nós somos eternos em nossos atos, em nossos filhos, nas árvores que plantamos, nas luas que admiramos, nas canções que cantamos, no amor a todo ser vivente que compartilhamos e, principalmente, no mal que não fazemos.

Um céu como prêmio ou um inferno como castigo, sinto muito, não dá para engolir. Somos pura energia e ai sim, quando energia que se finda nos juntamos a bilhões e bilhões de outras fontes de luz, somos feito de pó das estrelas como assim um dia disse Carl Sagan e, quando o corpo físico para seja de "susto, bala ou vício" voltamos para nossa verdadeira casa, as próprias estrelas. Sorte nossa que acreditamos no Grande Arquiteto do Universo e sua infinita criação, sem castigo ou prêmio, apenas o puro e calmo amor.

Não apenas nós, mas todo ser vivente, do mais escondido Peripatus do alto dos seus meros 1,5 cm de comprimento, ou a mais primitiva das criaturas como a velha Lampreia, ou o erado pinheiro a “árvore Matusalém” e seus 4.800 anos tem sua hora de voltar ao lar definitivo: o universo. Ilimitada fonte de energia.
Perdemos mais um amigo, bonachão, irreverente, teimoso, criador de casos, mas sempre generoso e dentro daquele imenso corpo físico uma alma do bem. Tudo defesa, tudo timidez, da teimosia à falsa arrogância. Claro, felizmente nunca foi unanimidade. E quem de nós o é? Esse misto de dor e alegria é que nós faz diferentes, alguns como nós nascemos para ironizar e debochar do establishment. Se assim não for nos algemam e nos tornamos criaturas rastejantes em lama criminosa como a de Mariana e agora de Brumadinho.

Engessados ficamos e não criamos, não contribuímos nem mesmo forma miúda para a construção de um ser humano melhor, mais caridoso, mais criativo. Nos deixem livres e voaremos ao ponto mais alto - a primeira das condições do pássaro solitário no contar de San Juan de la Cruz.

Neste particular, eu e meu querido amigo de poucos encontros físicos, mas frequentes em redes sociais, nos parecemos. Difícil colocar peia e bridão em gente como a gente. Ele mais no grito, eu mineiramente mais calado. Ambos observadores e espectadores atentos. Sentamos na mesma arquibancada ou na geral da vida. Vou sentir falta de nossas relias, nossas discordâncias em milhões de aspectos, da nossa amizade.

Lembro de você dentro de um fusca de uma rádio fazendo reportagens ao vivo! Era você e outro repórter quase do seu tamanho, a memória me fez tropeçar, não lembro o nome do cujo, era muito engraçado ver vocês tentarem entrar e sair do fusquinha. Não tinha entrevista por mais séria que fosse que não me dava acesso de riso e você ficava uma onça! Putz, foram tantas entrevistas, não foram? O tempo passou apressado e agora se achou no direito de te levar de volta ao céu. Pelo tamanho e energia, uma supernova vai explodir em intenso brilho em algum canto da imensidão.

Leva brilho aí para as galáxias, desequilibra as leis cósmicas, hora nos encontramos. Vai cara, vai bagunçar a calma do céu careta! Até um dia meu grande em todos sentidos amigo Alaor Barbosa Jr.

Não me canso de ver a sua caricatura feita pelo mestre Ziraldo e a dedicatória bem dele mesmo, sua cara, seu jeito.

Alá la ôr ô ô ô ô ô !!! Alá la ôr ô ô ô ô ô !!!






Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 03 de fevereiro de2019