quinta-feira, outubro 24

Escorpião

Longos 30 anos de experiência e quase nada sei do bicho. Sua inacreditável capacidade de adaptação aos mais hostis e estranhos ambientes torna-o uma obra-prima da evolução. Algumas espécies, nem se dão ao luxo de procurarem par. Não carece namoro, nem acasalamento. Passou da adolescência, chegou à idade adulta e pronto: do nada, ficam prenhas e parem montes de filhotes, duas, três vezes ao ano.

Em hipotético cálculo matemático: um único escorpião que fez de sua reprodução a partenogênese pode gerar em longeva vida aracnídea quase 7 milhões de descendentes se nenhum morrer ao longo dos anos. Hipotético, repito: alívio nosso. Com eles até o pescoço, caso feito procriador se realizasse à risca, seríamos forçados a viver nos polos, únicos lugares onde não são encontrados. Nesse mundão de tão variados ambientes. Assim, só teríamos que temer ursos polares e nossa fértil e fantasiosa imaginação, mestre em criar fobias, paranoias e divindades protetoras. Das frescas matas a tórridos desertos, do ponto mais alto de montanhas gigantescas, pilares da terrena celestial abóbada, a profundas fendas e cavernas, esbarraríamos com danado. O gênero humano estaria fadado a desaparecer com os Leões das cavernas e Quaggas.

Mas nem por isso nos dão paz. Corrijo. De tanto importuná-los com nossas mazelas de criaturas (des)humanas, os obrigamos, por total falta de opção, a buscar refúgio como sinal de vingança, exatamente junto a nossas moradas. Como animais de estimação os tratamos. Com carinho, fornecemos-lhes em abundância: alimento, abrigos seguros e água em profusão, para que se banqueteiem e saciem sua voraz necessidade por umidade.

Em velocidade hipersônica, bem acima de Mach 3 passaram-se 30 anos e, a cada dia, tenho surpresas com escorpiões. Em 2007, tive a honra de ser convidado pelo Ministério da Saúde (MS) a participar da elaboração de um manual, cujo objetivo era normatizar as condutas no Brasil de manejo desse bicho que a tantos assusta e a muitos mata. O fruto de esforço de um grupo foi lançado em 2009.

Desde então, sempre a convite do MS, passamos a girar mundo, capacitando Estados. Incontáveis encontros com profissionais de saúde e muita prática de campo. Municípios também solicitam nossa ajuda e, sempre que possível, atendemos, pois salvar vidas é nossa missão maior.

Embrutecidos com relatos sobre acidentes com esses bichos, achei que tinha sentido tudo nesta vida. Ledo engano. Em nossa última expedição de captura, após treinamento, em fazenda no interior de Goiás, ouvimos relato de uma avó, cujo netinho havia morrido vítima de ferroada de escorpião. Com riqueza de detalhes impressionantes, essa senhora nos narrou minuto a minuto sua via crucis, desde a pequena localidade até o fatal desfecho do acidente, onde encontrou não recurso, mas indiferença e maltrato por parte de quem deveria tratar, amparar e consolar.

Uma pequena plateia de profissionais calejados com lida de situações de risco, sempre fuçando onde não deve à cata de bichos estranhos e aprendizado, permaneceu imóvel e silenciosa durante todo desabafo de dor. Passarinhos cantavam no entorno. A varanda, o chão batido e o fogão à lenha: cenário. Todos nós, alguns copiosamente, outros disfarçadamente, choramos com alma e lágrimas.
Trinta anos, pouco sei do proceder dos escorpiões. Toda uma vida e nada sei do comportamento humano. Alguns em especial.















Publicado em Jornal Correio em 24/10/2013

terça-feira, outubro 22

segunda-feira, setembro 30

Déjà vu

Vazio

Dia vazio de palavras esse hoje.
Para ressaca de lexema, nem lexotan dá jeito.
Mas se tomar durmo. Ao dormir não lembro de escrever, tentaria não aborrecer. Mas como me furtar do prazeroso unir de letras?
Injusto. Se durmo e não sonho? Nada a contar.
Crio então restaurante de letras. Cada um com seu pedido.

Poemas? Sim senhor, mas ao ponto por favor.
Crônica do cotidiano? Agradeço andam um tanto quanto indigestas, ácidas.
Conto? Não conto, me falta tempo, quero algo mais breve, ligeiro.
Haikai? Torço o nariz. Nem de longe, oleosa e sem gosto. Oriental. Não acostumo com o jeito, distante de meu gosto tropical, colorido, rico. Falta música, vento e cheiro de terra.

Falta o perfume de minhas damas-da-noite. Cheiorosas a Misturar alfazema, leite de rosas, laquê. Química enjooativa a se juntar ao meu Lancaster, a meu Gumex. Cabelos duros em pasta incolor a fingir lisos.

Falta no cardápio da triste memória a Guaigurus de tempos longe, o Rosário e sua vitrola imensa movida a moedas. O jantar/amanhecer no Scotellaro. Última cerveja da noite antes de, macambúzio, pegar o Serra Capivari 44, rumo de casa. Casa?

Prosa? Claro que quero, mas a sua. Puxe uma cadeira, encha o copo, estale os dedos, chame o garçom. Vamos falar de um dia vazio de palavras como este. Vamos falar das damas-da-noite. O que  fazem à luz do dia?


Lady and the Tramp

quarta-feira, setembro 25

República


Fico prestando atenção nas conversas de meus filhos e seus amigos, que moram em repúblicas hoje em dia. Não consigo imaginar nem de longe como são de verdade. Um reclama que a televisão a cabo só pega 45 canais, veja que absurdo. A maioria mora sozinha ou são no máximo dois por apartamento, cada um com seu quarto e seus pertences, de modo geral novos e comprados em lojas de verdade.

Outro fala da lentidão da internet e reclama da faxineira que não apareceu na semana passada. Quanto luxo. Nos tempos de escola morávamos em uma casa na antiga Felisberto Carrijo, caindo aos pedaços, com paredes grossas de adobe e pintadas a cal. Éramos muitos. Dois a três em cada quarto. Quanto mais gente melhor, pois, assim, era possível baixar os custos. Nossos móveis eram comprados de outras repúblicas que fechavam ou em lojas de móveis usados. Tudo na base da “vaquinha”. Se aparecia um candidato novo para se juntar a nós pagava joia, cota utilizada em “melhorias”. Primeiro havia uma assembleia de apresentação e, quando possível, uma breve sindicância entre colegas que o conheciam. Se rolasse um não, uma bola preta, o cara estava fora. República era, acho que ainda é, coisa séria na medida do possível.

Contam, não sei se é verdade, que uma delas, quase vizinha, resolveu declarar desobediência civil e simplesmente parou de pagar conta de luz. Alguns meses depois, naquela época a companhia de luz era mais condescendente, a energia foi cortada. Isso não inibiu os nobres republicanos, que quebraram o lacre e religaram o relógio. Assim contam, foram meses sem pagar nada, até que, descobertos, a Cemig foi lá e levou o relógio inteiro. Resolvido? Nada disso. Estudante de nossa época era meio kamikaze. Chamaram um colega da Elétrica que simplesmente fez ligação direta e, assim, foi até a entrega do imóvel. Risco permanente e iminente de a casa pegar fogo. E alguém tinha juízo naquele tempo? Não sei se esta história aconteceu ou tornou-se mais uma lenda para o vasto e rico folclore mágico que envolvia as repúblicas de nosso tempo. As festas eram memoráveis e, coitado dos vizinhos, intermináveis, principalmente ao fim de cada semestre. Mas uma coisa é certa, todos estudavam para burro.

Queríamos formar juntos e isso era acordo firmado. A vida não era fácil. Íamos para a Escola de bicicleta. Eram quatro viagens por dia, pois não tinha a moleza de um RU. Nosso cardápio era sem risco de errar: arroz, feijão e carne moída ou um bife histologicamente cortado. Na falta dela, a saída era o ovo frito. De salada, o famoso 365, nome dado ao tomate, pois todo santo dia ele estava em nossa mesa.

Meio de cada mês começava a faltar uma coisa ou outra. O cinto apertava. Nestas horas, aparecia nossa fada madrinha, Dona Noêmia. Sabedora de nossos apuros gentilmente nos convidava para almoçar, nos presenteava com um tabuleiro de lasanha. Sempre atenta. Coração imenso e gentil, a ela devemos muito.
Tanta história para contar. Aos poucos, conto. Relembrar é viver. Quanta originalidade nessa expressão! Aguardem.





Publicado Jornal Correio em 25/09/2013




segunda-feira, setembro 23

Abuso

Risca o céu, queima a terra
Sobram escombros, ruínas, cinzas




Foto: w h stutz - Divisa de Goiás e Minas. 10 horas,  41ºC

Grande sertão: veredas?



Tomo emprestado de Guimarães Rosa título, a interrogação é minha. Li, estarrecido, na coluna Confidencial de nosso CORREIO de Uberlândia em 5/9/2013, a nota “Veredas em risco”, sobre a aprovação em segundo turno pela Assembleia de Minas, projeto que modifica a Lei Florestal Mineira. O jornalista Arthur Fernandes nos conta: “Um dos itens prevê a possibilidade de formação de barragens em áreas de vereda”. Trata-se da manutenção do artigo 13, inciso I, letra g, e artigo 12, parágrafo 3º.

Tenho quase certeza absoluta de que esses senhores e senhoras, deputados e deputadas, que votaram a favor dessa barbárie, nem ideia têm da importância das veredas para a região em que alguns nasceram.
A turma do ICMbio nos conta: “as Veredas exercem papel fundamental na manutenção da fauna do Cerrado pois atuam como local de pouso para a avifauna, de refúgio, de abrigo, de fonte de alimento e de local de reprodução, também para a fauna terrestre e aquática”. Vai além: “Também são comuns (as veredas) numa posição intermediária do terreno, próximo às nascentes (olhos d’água), ou na borda de matas de galeria. A concorrência da Vereda condiciona-se ao afloramento do lençol freático, decorrente de camadas de permeabilidade diferentes em áreas sedimentares”.

Beleza; contudo, ao mesmo tempo em que enaltecem a importância da vereda, será que se calarão diante desse descalabro, desse assassinato legalizado de mais um frágil bioma por um monte de gente de terno e gravata que se diz nosso representante? Será que estes deputados, acostumados a respirar ar-condicionado, têm noção de que a vida no Cerrado depende visceralmente dessas áreas em especial? Números, os números, isso eles provavelmente entendem: no Cerrado vivem 935 espécies de aves, entre as quais 148 são específicas dessa área, cuja maioria está simplesmente ameaçada de desaparecer.

Aqui deixo um agradecimento especial para Liza e Elismar Prado, que votaram contra tamanha violência. Faço isto, mesmo sem procuração e em nome dessa Arca de Noé tropical, repleta de emas, seriemas, jaós, nhambus, corujas-orelhudas e primas buraqueiras. Repleta também de delicados caburés, araras-azuis, canindés, bandos de papagaios, maritacas e periquitos, além de antas, guaribas, gatos-maracajás, jaguatiricas, lobos-guarás e onças-pintadas, entre centenas de outros bichos e plantas sem voz. Ainda existe gente humana falando pelo nosso acabrunhado e espoliado ecossistema, batendo de frente com poderosos lá na capital.

Se a situação não se reverter, daqui a pouco haverá só buritis a morrer em desespero com as raízes atoladas em águas de barragens, mais uma vez descaracterizando a face de nossos horizontes. Milhares de nascentes e olhos d’água simplesmente desaparecerão. Não bastassem plantações de cana com incêndios criminosos. Outro dia fui testemunha ocular de uma visão do inferno em Araporã. Ouvi nitidamente o grito da terra, o cheiro da morte, o voar desnorteado de aves chamuscadas, condenadas à lenta agonia da dor física e à perda de cria. Fogo e água a decretar o fim de mais um refúgio sagrado da natureza.

Cinco de setembro, por mal dos pecados, foi meu aniversário. Pode ter certeza, não era exatamente esse tipo de presente que gostaria de receber de políticos, que nem ao menos nos conhecem e enviam seus cartões impessoais cheios de cores e votos de muitos anos de vida.

Publicado Jornal Correio em 22 de setembro de 2013








terça-feira, setembro 17

Ninhal I

Achou mais um canto de varanda. Cadê coragem para não deixar ficar? Pois que fique e crie seus filhotes ! Clica na foto para ver de perto

segunda-feira, setembro 16

Lua de setembro

Lua a espiar o dia, clica para ampliar


Foto de Bia Stutz em 15 de setembro 2013

sábado, agosto 31

Uberlândia do cerrado 125 anos

Em longe 1977, desembarquei, vindo de Belo Horizonte, em tranquila e calma rodoviária. Ao lado, em praça de poucos bancos, senhores de chapéus surrados, pernas cruzadas à altura da dobra do joelho,
fumavam cigarros de palha. Com braços estendidos e apoiados ao corpo, trocavam prosas, certamente contando vantagens e mentiras inofensivas. Percebia-se nitidamente aroma de fumo curtido com lascas de mama-cadela.

Em canto, junto à sombra, preguiçosos cavalos mastigavam mansamente bridões bem talhados, à espera de carrear viajantes como eu.,Não me fi z de rogado, subi uma delas e o cocheiro, a passos lentos, batendo
salto de sua botina mateira, me dirigiu um breve “para onde?”. “Pensão na Duque de Caxias, entre
Rio Branco e Cesário Alvim.” Tinha de-corado o endereço para não parecer estrangeiro. “Segue por onde?”, perguntou, já seguro de que estava ali ao seu lado um genuíno forasteiro.

Abri o jogo: “Olha só, seu moço, faz seu caminho, chego hoje pela primeira vez. Não conheço nada.”. Ele deu sonora risada e, com a cara mais lerda do mundo, me olhando de rabo de olho, disse ladino: “Eu já sabia!”.

Ali, naquele exato momento, começava minha história com Uberlândia. No começo, reticente com tudo e
com todas, vivia entocado, chorando saudades de alguma coisa que nem sabia nome. Fui conhecendo devagar e, prazerosamente, meu novo espaço. Vi ao longo dos anos transformações de cenários cinematográfi cos. Prédios antigos e belos sendo demolidos, para lugar dar a modernas obras. Bares
tradicionais que sempre mantinham as portas abertas fecharam. Alto
preço para crescimento incomum. Sei que se hoje fosse, estes prédios aí estariam tombados e protegidos. Outros tempos.

Na pensão, escrevia cartas para família de peões que aqui estavam construindo fábrica imensa. Conheci a intimidade de gente simples, rude e sofrida, que, em um calouro de veterinária, viam um doutor letrado, capaz de falar com suas mulheres e fi lhos, em distante canto qualquer deste país.

Aos poucos, como muda de planta em lata d’água, fui soltando tênues raízes. Terra rica me abraçou por inteiro. Terminado período de escola, veio a dura hora de tomar outro rumo. Mas como? Aqui tinha se tornado chão meu. A dureza da vida, como sopro de tempestade, me arrancou daqui. Resisti. Foi breve. Voltei para respirar o ar do cerrado e sentir cheiro da terra molhada, que aqui é saborosamente diferente.

Trinta e sete anos se passaram. Antevejo na toada que vai, uma Uberlândia mais justa, mais humana, mais perfeita. Uma cidade onde todos poderão sorrir e voltar a se cumprimentar nas ruas.

Quem sabe daqui a 50 anos nossos netos poderão, novamente, subir numa charrete e, de alma lavada de tanto orgulho, ao carroceiro dizer: “Eu sou daqui”. E ele, sorrindo manso, responderá: “Eu sei, toca
para sua casa?”. Enfim nossa Uberlândia do cerrado, nossa mineira Pasárgada madura e pronta. Aqui encontrará o amor da sua vida. Aqui será verdadeiramente feliz





31/08/2013
Publicado na edição especial de aniversário de nossa Uberlândia no Jornal Correio

Para pdf do jornal clica abaixo




segunda-feira, agosto 26

3ª Corrida do Cerrado



Beija-Flor


Sempre pensei que os beija-flores fossem eternos. Cada um com sua roupagem única, pintura exclusiva, assinada por artista caprichoso. Dezenas de vezes topei com pardais, pombas, canários e até urubus estirados chão afora. Espalhados em monturos de plumagem e sangue, alguns achatados como se folha de papel fossem. Cães e gatos também. Em qualquer parte da cidade é possível, em algum momento, se deparar com carcaças estraçalhadas por desumanos pneus. Não se esquece daqueles olhos vidrados a fitar um nada.
Nas estradas que cortam nosso Brasil, já vi tamanduás, onças, capivaras, lontras, além de bois e cavalos, jogados como sacos para o acostamento.

Nunca, nunca tinha visto um beija-flor morto. Sempre os vi anjos e anjos não morrem.

Assim pensava e jurava de pés juntos: os beija-flores são eternos. Não, infelizmente não o são.

Nesta semana, do nada, deparei-me com uma pequena joia em canto de calçada. O sol bem à minha frente mostrava apenas estranha figura refletindo multicor. Frágeis arco-íris envolviam aquele pequeno amontoado de quase nada.

Dei alguns passos com palma da mão em viseira, ainda sem saber o que era. Parecia uma caixinha de joias tombada, mostrando suas riquezas; miúdas contas e pedras preciosas em perfeito corte lapidário. Coloquei-me contra o sol, só então entendi o tamanho da tragédia. Via, pela primeira vez, em toda minha vida, um colibri morto. Seu delgado e longo bico apontava para o céu. Era lá o seu lugar. Entre flores coloridas e perfumes transcendentes, a banhar-se em pequenas gotas de chuva de primavera sobre largas folhas, riscando o tempo e abrindo caminho ao vento. Nunca ali.

Olhos foscos agora em um nada ver. Sentei ao seu lado. Um pouco de mim ali morria. Clichê, lugar comum? Pode até ser, mas era a mais pura verdade. Para alguém que sonhava a certeza de que estas minúsculas estrelas vivas não morriam, foi um mais perder da infantil que teima em nos acompanhar pelo tempo.

Talvez o envelhecer seja isso: o perder das falsas verdades puerícias. A reserva destes fragmentos que, quando em vez manda recado, vai-se aos poucos esvaziando, esvaziando até quase nada restar, incrustado apenas em apagadas retinas. Ao mesmo tempo em algum canto, vai se acumulando a borra da vida. As frustrações, o não realizado tão forte de tempos atrás, que, resignados e exaustos, deixamos de lado. As utopias, sempre elas, perdidas. Abdicamos de tanto e, às vezes, descobrimos que foi por tão pouco.

Descobri, pois, de forma súbita que os beija-flores, infelizmente, morrem, assim como tudo mais. Mas disso fica lição e crescimento, os sonhos. Ah, os sonhos! Estes não envelhecem jamais mesmo, cantou a voz de anjo Milton. Não morrem e se multiplicam, ramificam, nos seguem/perseguem até o fim do caminho.

Resta consolo de que outros milhares de cuitelos continuarão saga da eternidade, pois não tem aquele, por mais sisudo, frio e insensível que seja, que não pare um segundo e, mesmo sem querer, deixe esboçar, ainda que ligeiro, sorriso de criança. Pode não demonstrar, mas sente.

Assim, trazendo paz também aos carrancudos e infelizes, recupero o meu devanear e torno a acreditar na imortalidade dos beija-flores, dos anjos e dos sonhos.

Dessa forma, “Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos/calmos, calmos, calmos/Lá se vai mais um dia”.





Publicado Jornal Correio em 26 de agosto 2013

quarta-feira, agosto 21

Prêmio Lobo Guará de Ouro

Cultura celebra aniversário da cidade lançando Prêmio Lobo Guará de Ouro
Concurso nacional premiará as melhores trilhas sonoras para a cinema, televisão e jogos eletrônicos

Portal da Prefeitura de Uberlândia - Agosto será um mês de grande festa cultural em Uberlândia. Para celebrar os 125 anos da cidade, a Secretaria Municipal de Cultura preparou uma programação especial, ancorada sobretudo no lançamento do Prêmio Lobo Guará de Ouro, uma iniciativa inédita que atrairá a atenção de todo o país dando visibilidade a trabalhos de trilha sonora para cinema, televisão e jogos eletrônicos.

Dentro do pacote comemorativo, está contemplada a diversidade de gêneros artísticos. As artes cênicas são representadas por meio do teatro, nos dias 29 e 30 de agosto, e por meio da dança, no dia 1º de setembro. Abre a programação, na quarta, dia 28, a mostra de fotografias “Um olhar sobre a cidade”, com curadoria do coordenador de Artes Visuais da Secretaria Municipal de Cultura, Afonso Lana.

Na quinta, 29, será oficialmente lançado o Prêmio Lobo Guará de Ouro, com solenidade oficial acompanhada de show do músico Antônio Pinto, que assina a trilha sonora de importantes filmes brasileiros, como “Central do Brasil” e “Cidade de Deus”, entre outros, e um dos mais requisitados compositores de trilhas sonoras da indústria do cinema em Hollywood. Além do lançamento do Prêmio Lobo Guará, no mesmo dia haverá a estreia do Memorial dos Artistas Locais. O Memorial será uma projeção permanente em uma das paredes do foyer de entrada do Teatro Municipal destacando artistas e grupos que fizeram história nas artes cênicas produzidas em Uberlândia.

O Prêmio Lobo Guará de Ouro é uma iniciativa que irá premiar trilhas sonoras em todo o país produzidas para cinema, televisão e jogos eletrônicos. Essa iniciativa, com a abrangência de gêneros à qual se propõe, é inédita no Brasil. No país, há um festival parecido em Conservatória, distrito do município de Valença (RJ) e, no mundo, apenas a Bélgica realiza evento similar, mas ambos com enfoque somente em cinema. Além de apresentar o projeto à comunidade, a Secretaria Municipal de Cultura lança concurso aos artistas visuais para a criação da estatueta do Lobo Guará de Ouro, abrindo, assim, as etapas que compõem o projeto. A primeira etapa se encerra em agosto de 2014 com a mostra dos filmes cujas trilhas foram selecionadas e as respectivas premiações.


segunda-feira, agosto 19

Pequi

Arroz com pequi em Goiás, sempre ao lado de bons companheiros.
Foto de Guilherme Carneiro Reckziegel

Quer sentir o aroma? Clica na foto!



sexta-feira, agosto 9

Sardinhas




Vi, outro dia, em programa de televisão. Não me venham censurar, assisto sim à televisão aberta e não tem essa de me recusar parar nesse ou naquele canal. Vejo quando me dá vontade. Até novela espio quando em vez e não me envergonho disso. Tenho amigos que assistem a tudo, fingem que não. Por quê? Vergonha?

Assisto a vários telejornais, dos oficiais aos que se dizem “isentos”. Não aceito mais patrulha ideológica, nem de esquerda, nem de direita. Sou o que sou e pronto. Como escreveu Roberto Carlos, “só vou gostar de quem gosta de mim”. Claro que tem que ser na voz de Adriana Calcanhotto ou de Caetano. Não, também não dou conta de Roberto Carlos cantando. Me dá arrepio ver aquele senhor de falso sorriso a cantar “Esse cara sou eu” e jogar rosas para as senhoras da plateia, fingindo beijar uma por uma das rosas. Sou mais Erasmo, o roqueiro. Questão de gosto.


Assistir a tudo não significa que deixo que façam minha cabeça. Televisão e internet têm muito em comum. Aproveita-se pouco de seu conteúdo, mas é ótimo entretenimento. É só botar atenção e aguçar senso crítico.

Às sardinhas. O programa era sobre a migração das sardinhas, considerada a maior movimentação de uma só espécie em todo planeta, batendo inclusive a dos gnus, segundo a reportagem. Indescritível beleza a sincronia daqueles milhões de peixes em balé sem ensaio, em que nenhum indivíduo perde o passo – ou o nado. Disseram que um cardume daqueles pode chegar a ter quilômetros de comprimento e largura. A razão da aglomeração é intimidar predadores parecendo um único organismo vivo. Parece que não funciona bem, pois um ataque de golfinhos, tubarões, pássaros em mergulhos famintos e finalmente uma bocarra de gigante baleia reduzem a trupe a poucas escamas brilhando ao sol na imensidão azul. Nos relatam que é exatamente a quantidade que garante a perpetuação da espécie.

A comparação me veio em lampejo. As manifestações recentes das ruas, os jovens em imensas passeatas em ondas crescentes de pessoas, pareciam um único organismo vivo, cujo resultado é bem parecido. Assustaram muitos predadores de ideias. Aqueles que não andam no caminho da retidão ficaram espertos. Até em programas na televisão os políticos atores parecem ter decorado a mesma fala: “Olha, nós estamos escutando vocês”.
Mais uma vez, os humanos imitando bichos. Horda de predadores começa a beliscar  passeatas, divide-as em grupos menores, na tentativa de pulverizar seu poder. Tubarões especialistas em sobrevivência atacam em carnificina ideológica e econômica. Destroem lentamente a beleza coreográfica da liberdade, o verde-amarelo das faces a escorrer, como a maquiagem do palhaço, misturando-se, transformando em profundo azul, porém, sem brilho de cintilantes escamas ou de confetes e serpentinas dignas da bela festa cívica. Sobram baderneiros organizados. Um pisar em escombros.

Fico a pensar, somado ao controle natural da cadeia alimentar, a intervenção humana a cercar esses cardumes e a fritinha acompanhando bom chope lá no Beco das Sardinhas, na Miguel Couto. Acho que vai faltar sardinha. Mas será que vai faltar gente na rua? Quanto aos peixes não sei, mas, nas ruas, confio em Gianfrancesco Guarnieri e seu teatro de resistência, no cantar de Toquinho: “Quem souber de alguma coisa / Venha logo me avisar. / Sei que há um céu sobre essa chuva / E um grito parado no ar”.






Publicado Jornal Correio - Sardinhas em 09/08/2013


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segunda-feira, agosto 5

Saúde


Depois de grande susto, há dois anos, resolvi tomar jeito e cuidar melhor desse invólucro que recebi para passar um tempo aqui na terra. Não que eu fosse de abusar dos prazeres da vida, mas devo dizer que era chegado a alguns dos pecados capitais, em particular: a gula. Comia de tudo e em demasia. Mesmo assim, nunca fui obeso, mas o tal do sobrepeso me incomodava excessivamente. Susto tomado toca a cuidar da saúde. Entrei de cara para trás no modismo das ervas e sementes milagrosas. Parecia canarinho de gaiola que passa a alpiste, painço, osso de siba e jiló. Couvezinha quando em vez.

Como era, digamos, semissedentário, comecei a caminhar. O “semi” fica por conta de minhas andanças de trabalho atrás de escorpião e morcego e do trato de jardim e casa. Devagar no começo, quilômetros poucos, hoje fico entre 10 km a 15 km seis vezes por semana, metade correndo, metade a passos apressados, como o coelho atrasado de Alice. Mas não é das carreiras diárias que quero falar, e sim dos meus alpistes, painços e complementos.

Comecei com linhaça, passei pela chia, tentei girassol, mas este sempre me lembrava um papagaio de minha infância que teve morte trágica, larguei logo. Entrei na onda do noni, até plantei pé da fruta em casa. Alimentação frugal e muito exercício. Tudo ia maravilhosamente bem. Emagreci em excesso e fiquei com cara de doente. Um dia, perguntaram se era anoréxico. Sem problemas, mas a minha bronca ficou com a ciência. Com a mesma rapidez que descobrem e indicam propriedades quase milagrosas de algum alimento, na semana seguinte, outro grupo, em outro lugar, cai de pau mostrando riscos de se consumir aquilo que era a bola da vez.

O ovo é o maior exemplo desse empurra-encolhe: ora faz bem e pode-se comer sem restrição, ora deve nem ser provado, pois mata mais do que formicida Tatu. E olha que nem descobriram quem veio primeiro, se ele ou a genitora galinha.
Noni, milagroso até outro dia, segundo estudos pode causar hepatite fulminante e a transplante de fígado, se usado em demasia. Anvisa pede cautela, o que não nos contam é quanto é o tal demasia. Os ômegas da linhaça não são tão eficientes como os do peixe, diz outro estudo. E a chia chia no bolso, chegando a preço astronômico, depois que virou moda.

Todo dia sai uma história nova. Quem não se lembra da casca de ipê-roxo para curar câncer? Quase levou a pobre espécie à extinção. Volta e meia nos pedem cascavel, pois dizem que a gordura dela cura artrite, artrose, picadas de insetos, gripe, frieira, chulé, caspa e até, se acompanhado de reza brava, tira mau-olhado ou encosto e, se perfumada, arruma casamento. Se começar a correr boato como o da suspensão do Bolsa Família, nossa pobre cobra corre risco de desaparecer de vez.
Larguei mão. Vou à nutricionista, mas, por ora, descobri que a melhor dieta é aquela que sempre comia: bom arroz, feijão, bife e salada. Pelo menos até a próxima publicação ou notícia de jornal provarem o contrário.

Quer saber, enquanto não resolvem se o ovo é mocinho ou bandido, vez por semana, bato um ou dois com arroz branquinho, mas tem que ser de gema mole. Deixo registro e agradecimento ao grande médico e imensidão de amigo/irmão de mais de 30 anos por me apresentar as delícias do caminhar/correr: Luiz Mauro, não é à toa que seu sobrenome é Coelho.





Publicado Jornal Correio em 03/08/2013

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terça-feira, julho 30

Corrida de Revezamento

Atenção sempre ao perigo de estrada corredores e romeiros. Olha onde esse caminhão realizou ultrapassagem ! Isso com escolta da Polícia Rodoviária.
O cara é doido!


160 atletas participaram da Corrida de Revezamento até Romaria

A 8ª edição da Corrida de Revezamento Uberlândia/Romaria, realizada no último sábado (27), teve a participação de 160 atletas entre profissionais e amadores que fizeram o percurso Uberlândia/Romaria, na distância de 90km pela BR-365. A prova não tem caráter competitivo e os atletas percorrem em grupos e percursos pré-definidos.

“É a primeira vez que participo da corrida. Foi muito organizada, o pessoal mais experiente me deu algumas dicas durante o percurso da corrida. Muito bom mesmo”, disse Felipe Marques Borges, de Catalão, que participou da corrida pela primeira vez.

“Foi muito boa a corrida. A sensação de chegar em Romaria, cumprir o objetivo da corrida, é uma sensação maravilhosa, indescritível”, comentou Wyara Cristina Neves, que participou pela terceira vez da prova.

“Estamos muito satisfeitos de termos realizado mais uma edição da corrida de revezamento. Muito obrigado aos corredores, aos funcionários da Futel, a prefeitura de Romaria, e as polícias Militar e Rodoviária Federal, além da Secretaria de Trânsito e Transportes pelo apoio”, comentou Zezinho Mendonça, diretor geral da Futel.

A Corrida de Revezamento Uberlândia/Romaria é uma realização da Fundação Uberlandense de Turismo Esporte e Lazer e destinada aos praticantes da modalidade “Corrida de Rua”, amadores ou profissionais.


Fonte: Portal da Prefeitura de Uberlândia

sexta-feira, julho 26

Reunião





Não tem situação mais estranha do que participar de reunião onde não se conhece ninguém. Reunião esta que pode até ser festiva, mas que, curiosamente, são as mais constrangedoras. Você recebe o convite de um grande amigo e sabe que não pode faltar. Pega mal. Lá chegando, meio que sem graça, dá uma volta por todo o ambiente e nada do tal amigo aparecer. Solução: busque uma mesa, a mais afastada possível de tudo e todos, de preferência encostada em alguma parede. Seu campo de visão é vasto e pouco se é notado. Arme-se de um meio sorriso sem graça e fica a observar o movimento. A ansiedade cresce a cada minuto que passa sem que nenhum rosto conhecido apareça, não precisa ser amigo, só conhecido.

Já encontrou com conhecido de Uberlândia em algum lugar do mundo durante viagem? Pode ser no litoral do Nordeste, em Orlando ou Viena. Essas pessoas, que nunca em tempo nenhum lhe dirigiram um aceno que fosse, fazem a maior festa, como se tivessem sido criadas na mesma rua e crescido juntas. Quem de longe observasse ficaria encantado com tanta gentileza e alegria. Pois bem, volte para cá e cruze com estas mesmas pessoas na rua, no clube, no teatro ou em algum restaurante. Baixam os olhos à sua passagem e você volta a ser o desconhecido de sempre, do qual querem a maior distância possível. Juro, nunca entendi esse comportamento bizarro. C’est la vie, penso eu, cada um com seus problemas e esquisitices.

Em reuniões, a situação é quase a mesma. Um rosto conhecido se aproxima e você lá, com sorriso suplicante, recebe um olhar, com certo pouco caso. O máximo! Sente-se em casa e aquele sujeito passa, por alguns segundos, a ser seu maior confidente, conhecedor de todos seus mais profundos segredos. O cara aproxima-se, o cumprimenta nem tão efusivamente e segue caminho. Seu olhar se dirige para o arranjo da mesa, cutuca uma flor, ajeita o vaso. A vontade é de se esconder atrás dele como se fosse moita.

Finalmente chega a bebida e o garçom passa a ser a bola da vez. Ele é o único que vem à sua mesa com
frequência, enche sua taça, troca algumas palavras. O esforço para tratá-lo bem é máximo. Não que queira prioridade em atendimento, mais fartura de bebidas, copo sempre cheio ou maior variedade de folhados e canapés. Nada disso. Você deseja apenas e unicamente companhia.

Aos poucos, a bebida começa a fazer seus loucos e relaxantes efeitos. Nada mais importa. A festa fica linda, onde até arriscar alguns passos na pista de dança acontece. A noite passa, finda e a volta para casa de táxi é doce e feliz. Valeu a pena.

Reuniões de trabalho são mais ou menos assim, quando poucos são os conhecidos. Olhares desconfiados sempre surgem: quem é esse cara a invadir nosso ambiente seguro?

Sou meio arredio para reuniões. Semana dessas, fui representar minha coordenadora em uma. Obviamente conhecia algumas pessoas lá presentes e tinha certo domínio sobre o assunto abordado. Fiquei encantado com a condução. Organização e timming perfeitos. Recado bem dado. Altamente produtiva. Único entrave foi que, marcada para tal hora, só começou bem mais tarde. Faltou pontualidade de alguns.

Mineiramente, já que ali estava como observador, tentei agir como a coruja do português comprada como sendo papagaio. Perguntado se o bicho falava, retrucou: olha, falar, fala não, mas presta uma atenção!





Publicado em Jornal Correio de Uberlândia em 26/07/2013


segunda-feira, julho 22

Galo forte



Nunca me imaginei escrevendo sobre futebol, mesmo nascendo em berço alvinegro, no bom e velho bairro dos funcionários em Belo Horizonte. Lá é assim: ou se é atleticano ou torce para aquele time que se veste de azul, cujo nome não pronunciamos tal qual um Voldemort, o “Você-sabe-quem” da saga de Harry Poter. Fica uma beirinha de gente para torcedores do América, geralmente mais erada e saudosa de histórico decacampeonato mineiro – 1916 e 1925 – só isso. Estranho, meu editor de textos insiste em sublinhar de vermelho a palavra “erada”. Não está nos dicionários online e, para espanto meu, nem no Google. Ora viva! O nosso falar do interior das Minas e Goiás não foi indexado na rede. Mas, para sossego, consta do “Aurélio” de papel. Como é bom folhear um bom dicionário, descobrir palavras, brincar de significados. Música de páginas passando, cheiro de verbetes e transcrições fonéticas.

Quarta-feira 10 de julho foi especial. Como aqui as emissoras de televisão ditam as cartas e eu tenho obrigatoriamente que acordar cedo, fica impossível até pensar em assistir a um jogo completo. Somos forçados a esperar até as 22h para começar. Como sou do dia, dormir tarde equivale a um porre de vinho de má qualidade. Mas esta ressaca valeu a pena.

Adorei sair de casa de óculos escuros para esconder as olheiras, troféus.

A ideia, como de costume, era ver um pedacinho do primeiro tempo e ir direto para a cama. Resultado só no dia seguinte. Como são poucos os atleticanos em Uberlândia não podia contar com foguetório para ir me dando placar. Se fosse time de São Paulo ou Rio daria para acompanhar apenas pelo espocar de
rojões.

A visão do Independência sacudido por uma massa linda e vibrante bateu forte. Daria muito para poder lá estar. As imagens dos rostos, da fé, os gritos de “Eu acreditoooo!!!” eram de fazer arrepiar o mais frio dos
humanos.

Aos dois minutos e meio, o pequeno Bernard recebe passe mágico de Ronaldinho e coloca a bola por entre as pernas do goleiro “hermano”. Tive que ver até o fim. Sozinho, sentado o tempo todo só com a ponta da bunda no sofá, tamanha a aflição. A espera do segundo gol que não vinha. Imagens de olhos rasos d’água por toda a torcida, apego e rezas a tantos santos, até para alguns que nem existam formalmente.

A resposta dos céus veio pelos pés de Guilherme. Meu grito deve ter acordado vizinhos. Cães da vizinhança latiram preocupados. Um ou dois foguetes lá longe. Tem pelo menos mais meia dúzia de atleticanos em algum lugar. A série de pênaltis também foi sofrida. Aliás, tudo na vida atleticana é sofrido e é por este motivo tão preciosa e valorizada. Jô e Richarlyson, o quê foi aquilo? Querem matar a maior torcida de Minas de susto? Ainda bem que “los hermanos” Casco e Cruzado retribuíram a gentileza. “São” Victor voou como ave pantaneira e despachou o Old Boys. “Hasta la vista, baby”!
Acordar no dia seguinte foi uma batalha. Mas valeu a pena a fala rouca dos gritos espontâneos e a difícil tarefa de conciliar sono profundo, pois a agitação não deixava. Valeu a pena mesmo. Alma lavada.

Galo cantou. No meu quintal, em meu coração. Galo cantou e seu grito ecoou por toda Minas Gerais. Galo forte vingador.
Pena, a decisão será no Mineirão. Se não fosse, já poderíamos levantar a taça da Libertadores, pois está mais do que comprovado: “caiu no Horto, está morto”.





Publicado Jornal Correio  em 21 de Julho de 2013

domingo, julho 14

Plebiscito




Agora mais essa, resolveu-se criar plebiscito. Assim do nada e em momento conturbado. Resolveram consultar o povo finalmente. Parece-me mais uma artimanha do que proposta de resolver qualquer coisa. Um decreto da plebe, pois é esse o significado de plebiscito. Serve para um monte de coisas, inclusive para tapar sol com peneira. O último que aconteceu por essas bandas foi para que nós povo escolhêssemos se queríamos monarquia parlamentar ou República; parlamentarismo ou presidencialismo. A consulta popular foi feita em 1993 e venceram a República e o Presidencialismo. Ninguém quis rei ou rainha de volta.

Bastava-nos Roberto Carlos e Xuxa. Depois, em 2005, toca-se referendo sobre desarmamento das pessoas de bem e esse recebeu um tremendo NÃO de quase 70% de população fatigada de ver arma só em mãos bandidas.
Atenção, plebiscito e referendo são atos distintos. Basta consultar um bom dicionário ou jogar no Google. Mas cuidado com o Wikipédia. O tal plebiscito de agora, a meu ver, já começa errado.
A parte interessada já propôs as perguntas.

O certo seria consulta ampla antes, para saber quais perguntas deveriam ser feitas. Primeiro seria feito um referendo para saber se nosso povo quer ou não o tal plebiscito.
Se a resposta for não, para por aí e segue o bonde. Se a resposta for sim, criar-se-iam comissões Brasil afora para decidir quais as perguntas ali seriam feitas, por região.

Feito isso, delegações se reuniriam em intermináveis assembleias e ali, por alguns meses, ficariam discursando em púlpito, bramindo e gesticulando em defesa de seus pontos de vista. Depois de todos cumprirem o ritual da gritaria, votariam as tais cinco perguntas e, novamente, levariam referendo ao povo. Tudo certo agora? Não. Desconsiderar-se-ia tudo, por entender que não foi assim tão democrático, mantendo-se as perguntas originais oferecidas pelo governo. Ou, como os Gauleses da aldeia de Abracurcix, recolhem-se os votos, atiram-se as urnas lacradas ao mar antes de sequer verificar conteúdo.

Para piorar, se tempo hábil houver, escolheram as eleições do próximo ano para o tal plebiscito. Já viu a dificuldade que grande parte da população tem em votar ao mesmo tempo para presidente, governador, deputado estadual, deputado federal e senador? Agora incluir mais cinco perguntas que se desdobram em outras tantas? Vai ser calamidade. Horário de pico em estação de metrô, congestionamento de marginal em São Paulo em dia de chuva, coisas que só vemos pela mídia. Estará mais para vestibular, Enem, do que para eleição.

Acredito que todo brasileiro minimamente informado já tenha suas perguntas formuladas. Tomo a liberdade de apresentar as minhas e levá-las à subcomissão de assuntos de plebiscito, assim que for criada. Aí vão elas:

Voto distrital, é claro; fim da remuneração de vereadores, edil apenas altruístas; fim do voto obrigatório; fim de qualquer espécie de financiamento de campanha; fim da reeleições em todos os níveis; criação do “recall” sugerido pelo ministro Joaquim Barbosa: Não trabalhou, quem elegeu demite.
Fim dos suplentes no Senado não vai nem listar, pois considero a existência parasitária destes de um surrealismo digno de Buñuel.

Tenho várias outras sugestões que certamente não serão acatadas, mas fazer o quê, aqui é Brasil, e tudo se resolve por intermédio de ardis. Já vi esse filme.

Publicado no Jornal Correio de Uberlândia em 13 de julho de 2013