"Se for falar mal de mim me chame, sei coisas horríveis a meu respeito" (Clarice Lispector)
domingo, março 30
terça-feira, março 25
Sinfonia
Maritacas gritam, joão-de-barro em bater de asas chama. Bem-te-vis em bandos. Periquitos em algazarra. Gavião passa piando, silêncio momentâneo. Riso de criança, grito de mulher. Alguém tosse engasgado. Só um susto. Cães sem educação ou serão seus donos os de difícil conviver? Latem emparedados. Sinto cheiro de churrasco. Mais crianças se juntam em alegre brincar. Folhas arranham o chão de pedra ao vento sabor. Foguetes do nada espocam. Tem futebol? Zumbido de abelha nativa, imensa. Confundo com o bater incessante de asas de varejeira que nem lá está ainda. O belo e o podre, convivência.
Alguém pula em uma piscina, ouço as braçadas. Calor tórrido de fim de tarde. Mais foguetes.
Conversas em altos brados. Não é desavença, é álcool. Filha grita mãe, mãe grita filha, mãe fala com neto. Vizinhança. Som eletrônico, longe, quebra equilíbrio. Civilidade afetada.
Um corta grama. Infeliz atrapalha a tarde com Makita. Rolinha caça ninho, escorrega desengonçada em galhada. Bater de asas aflito, busca de equilíbrio. Uma torneira de pia se abre. Água jorra abundante. Privilégio. Recolho as canelas, mosquitos. Repasto noturno e eu sou a presa. Coço desavisado. Gargalhar de maritacas agora bem sobre minha cabeça. Brejeiras e lindas. Ao longe, repicar de trovão em céu azul/cinza de poucas nuvens. Mais a noite vai chover. Cheiro de queimada; entristeço. Um franzir de testa esperançoso. Será apenas fogão de lenha? Madeira de reflorestamento?
Observo. Botões de flor emergem do negrume do tronco da jabuticabeira. Fartura em breve.
Silêncio absoluto. Escuto o nada, ranger da alma. Dura pouquíssimos segundos, mas tem forte impacto, basta por atenção. Nem brisa corre, nenhum movimento se percebe. A rotina da vida pede ligeiro descanso. É como suspiro profundo, um olhar entorno. Para todo lado vê-se verde. Ilha. Uberlândia, cada dia vencido, mais me encanta. Refúgio.
Avião em turbinas abertas chega a pouso seguro. Céu escarlate, de brigadeiro. Tempo exato cronômetro meteorológico. Céu num repente se fecha, vento surge para espantar calor de mais de semana. Chuva despenca. O bater de água no telhado convida a dormir embalado. Em sábado farto, abundante de vida, ressono baixo. Agora, sapos, grilos, corujas. Sinfonia. Os sons mudam devagar em vagar contínuo. Solidão prazerosa, paz e silêncios próprios.
O som eletrônico insiste em atrapalhar a normalidade. Só ele resiste. Pobres pessoas. Logo amanhece domingo. Outro dia sonoro. Liquidificador a mil tritura vitamina. Pão na chapa, perfume de café coado. Passarinhada acesa e assanhada sai em busca de comida, filhotada ávida aguarda.
Abro a janela e respiro o mais puro ar da manhã, ainda úmido da chuva e de orvalhos. Deixo sair ligeiros sonhos de noite bem dormida. Sonhos são como bichos, não podem viver presos. Deixe livres.
Hora de correr. Meu indicador de distância é barulho de cozinha, bater de panelas. Cheiro perfume de alho e cebola, arroz a fritar.
Lá no alto teco-teco rasteja céu afora. Barulho custa passar. Será assim? Uma garrafa despenca de algum lugar. Mil pedaços, estilhaços. Imagino sol refletindo topázios, diamantes, safiras, rubis. Vassoura e pá, recolhe-se os cacos, tesouro.
Amanhecer, entardecer, noite densa. Já parou para ouvir o dia? Toda a existência em sinfonia. Basta apurar ouvidos e agradecer.
Publicado em Jornal Correio de 23/03/2014
quarta-feira, março 12
Aeroporto
Não tem aquele que, às voltas com viagem de avião, não tenha passado horas preso em saguão de aeroporto, completamente à toa, esperando conexão ou bom tempo para decolagem. Sempre carrego um livro. Assim, me ocupo em situações como essa. Recentemente, ganhei de especial amiga um presentão “1889” de Laurentino Gomes.
Bastidores da proclamação da república. Leitura saborosa. Companhia e tanto.
Por muito tempo, meu comparte de viagens foi Rosa e seu imbatível “Grande Sertão: Veredas”. Lembro bem, 3ª edição, capa onde predominava o verde. Ilustrado pelo também genial Poty. Esse livro quase se desfez em rodoviárias, aeroportos e outros lugares aborrecidos. Foi se acabando em anotações e marcação de trechos. Hoje se encontra remendado em fitas durex na estante, merecido descanso para quem tanto prazer e riqueza distribuiu.
Certa feita, voltando de Gramado, onde em Congresso fui contar nossa experiência com escorpiões, a convite do Ministério da Saúde, acabei pego em armadilha de conexão. Três horas em Porto Alegre, mais quatro em São Paulo. Como de costume, antes de sentar na praça em algum canto, tal qual passarinho a entrar em ninho ou cachorro esperto de tanto instinto, rodei lojas, lanchonetes, livrarias. Só olhar. Preços aqui voam tão altos quanto aviões que por lá passam. Distração, livros, esqueci meus companheiros de viagens.
Tormento. Nem de ponteiro de relógio pude reclamar vagareza, pois o meu nesse dia era digital. Nesse furdunço, tive bela e grata surpresa. Acho que já contei. Como sonho te pega em cochilo ligeiro, em colorida algazarra, o Corpo de Baile do Bolshoy Brasil invadiu o saguão a embarcar. Em devaneio dançavam para mim com seus passos 15 para as três, e posturas perfeitas. Esculturas. Voaram aqueles minutos. De volta à monótona espera.
Lembrei de história contada por minha filha: dois amigos, totalmente sem assunto, em longa espera de sala de embarque. O tédio faz coisas.
— Tá vendo aquele homem forte que nem lutador ali na frente?
— Tô, e daí?
Pago dez reais se você for até lá e meter tapa nas costas dele.
Pensou estratégia e lá foi!
Meteu um tapa tão forte nas costas do outro que pôde ser ouvido debaixo de turbina ligada.
Dois metros de puro músculo foram levantados devagar, já de punho cerrado.
Ligeiro:
— Ô Zé que coisa boa te encontrar aqui nesse mundão! Toca a abraçar o fortificado.
— O senhor deve esta enganado sou Zé não.
Pediu mil desculpas e voltou para junto do amigo.
— Dê cá esses 10 reais sô.
Passado um tempo o amigo investiu:
— Se for lá e der outro tapa com aquela força te dou 30 reais.
Sem titubear lá foi ele encarar a fera. Outro tapa bruto ecoou aeroporto a fora.
— Ara Zé, você está de gozação comigo? Não é possível que tenha esquecido de amigo de infância assim tão rápido.
O homem levantou com cara amarrada, mas acreditando na sinceridade do outro resmungou entre dentes:
— Meu senhor, eu não sou Zé, e esses tapas estão doendo. Por favor!
Embolsou os 30.
Não deu dez minutos, veio grande desafio.
— Cem reais se der outro tapa no cara.
— Quer me ver morto, né, seu filho de uma égua! Mas por cenzinho eu topo.
Foi.
Tapa dado e, antes que houvesse reação, abraçou o rapaz.
— Oi, Zé de Deus. Não é de ver que tinha um cara aqui perto que era a sua cara e dei dois tapas enganado no coitado!
Coisas de aeroporto. O fazer nada pode ser perigoso.
Publicado Jornal Correio em 12/03/2014
sexta-feira, fevereiro 21
Ideias
Meu prezado e bom amigo, assim ainda te considero muito. Mesmo depois
de ter me excluído de seu Facebook e Whatsaap e jogado para escanteio
minhas mensagens. Poxa, até do Twitter me tirou! Não trocar 140 letras
comigo mais? Como marcar aquele encontro de boteco ligeiro, geriátrico
agora? Fiquei triste. Ainda não tentei o telefone, mas pelo que me
consta também não atenderá minhas ligações. Por um lado concordo com
você, também faço faxinas periódicas em contatos que não contatam,
apenas usam as redes sociais para te vigiar, saber de sua vida, coisa de
fofoqueiro baixo mesmo.
Tem muita gente que quer quantidade de seguidores. E lá sou algum
mestre guru, líder de seita ou outra coisa que o valha para ter
seguidores? Não quero números, queria e quero qualidade. Gente que sabe
postar com sabedoria, troca mansa de sentimentos, belas fotos, sugestões
de livros, lugares e ares, piadas de bom gosto, sarcasmo comedido e uma
gozação ou outra principalmente sobre nossos times de coração. Você
sabe que torço para dois times: O meu Galo vencer e o seu time perder.
Mas sempre brincamos a vida toda com isso e sabemos que não foi a razão
da fúria, da erupção que, como lava incandescente, levou a cinzas tão
antiga amizade. Pompeia com seus corpos petrificados, apenas pó e nada
mais?
Futebol não foi nosso caso. Raramente, uso as redes sociais para
debates mais acirrados, seja o assunto qual for: cinema, teatro,
televisão, futebol, política. Não uso e explico, não é o lugar mais
adequado, a pena sempre será mais forte do que a espada. Imagine o poder
destrutivo de dez dedos em teclado – particularmente só uso três ou
quatro.
Política. Sempre ela. Veneno como religião quando elevamos cânticos
ao que cremos. Nestes campos, tolerância zero. Ou está comigo ou contra
mim. Que horror. Pensando assim é melhor ter um grupo só de seus
partidários. Só quer aplausos? Escreva unicamente para os seus
correligionários.
Te garanto, não contribuirá em nada para um mundo plural, pacífico e melhor.
O famoso “perco o amigo, mas não perco a piada”, não funciona comigo.
Amigo é coisa rara e séria. Deixe de lado releve e vamos, em mesa, olho
no olho conversar sobre nossas divergências em todas as áreas sem
pressa e obrigação de conversão. Eu te respeito como é e você, como sou.
Podemos sempre estar em lados opostos nas arquibancadas dos estádios,
nos palanques e comícios, nas estantes de livrarias ou nas prateleiras
de videotecas. Eu vou sempre preferir as morenas às loiras, nem sempre e
você sabe disso. Cerveja a uísque. Rock a seu sertanejo. Churrasco a
pizza. E daí? Quantas vezes rachamos uma meia marguerita e meia
catupiry. Outras tantas enfiamos a cara em rodízio, esbórnia carnívora
e, entre risos e conversa jogada fora, nunca relia houve.
Pelo menos temos muito para conversar e assunto não faltar. Vamos
nessa? Discordar não é deixar de gostar. Um conselho: se beber não poste
(do verbo postar). Pode não dar multa nem perder pontos na carteira.
Pode não matar, ferir carne, mas magoa atinge-se alma. Perdem-se bens
muito preciosos por um simples dedilhar.
O relato acima é ficcional, mas não imagina quanta gente me conta
que, por uma simples discordância, apaga, expulsa e cria inimizades. As
redes sociais são ótimas, desde que continuem sociais. Quer brigar?
Treina MMA.
Publicado Jornal Correio em 21/02/2014
sexta-feira, fevereiro 7
Academia
Imagem São Carlos, História e Cultura
Comecei academia. Carecia musculação para segurar o tanto de caminhadas e diários trotes. A curva agora é descendente, e perda de massa magra inevitável, então toca puxar ferro para fortalecer e facilitar o gosto do correr. A avaliação inicial mostrou-se satisfatória, quase nada de gordura, peso legal e a tal massa magra beleza. Senti-me um espaguete ao ponto.
Dia seguinte, cheguei para o primeiro treino. Aula? Sei não como chamar. Acabrunhado, mineiro desconfiado cheguei manso. Sorriso sem graça e sensação de que todos estão te olhando. Preferia olhar o chão, me aquietava. Logo, instrutora simpática e tranquila me abordou: - Primeira vez? Acho que corei. Afirmativo só com gesto de cabeça.
Vem comigo, vamos passar por todos os aparelhos para conhecer funcionamento. Vamos lá, três séries de doze em cada um. Fui correndo todo o espaço, com esforço de principiante.
Aos poucos e graças à simpatia de os todos instrutores, fui ficando mais à vontade. A moça não me deu trégua. De longe reparava que havia terminado uma série e só com o dedo mostrava outro aparelho. Fazia demonstração, me observava nos primeiros movimentos e corria acudir outros.
Paro aqui por minutos. Vou buscar repelente. Os Aedes estão devorando meus pés descalços. Todo ano, há muitos deles (anos), assim tem sido. Não tem quem dê conta de encontrar os focos de nossa região.
Houve ano que não aguentei e implorei UBV pesada (fumacê) e a tal Hatsuta, aquela bomba costal motorizada. Não peço mais. Morre muito bicho do bem. Só em casa tenho vários cachimbinhos de abelhas Jataí. Fico com dó. Passo a repelente e mosquiteiros, pois Aedes aqui em casa é boêmio, tem hora de atacar não. Mas como só as fêmeas nos atacam, presume-se que na espécie a liberdade feminina seja total. Toda noite tem repasto, e os machos nem ligam.
Gente, gente, vigiem seus quintais.
Toca a fazer um exercício com grau de dificuldade cinco, para um iniciante como eu. Suo a camisa. Dei conta. Boto reparo na moçada bonita a malhar. Todos saudáveis e sorriso no rosto. Fortes. Tanto eles quanto elas, mas nada descomunal lapidado à esteróides e bombas. Músculos e corpos adquiridos por esforço próprio. Sem a estupidez das químicas. Gente saudável preocupada com saúde.
Os ruídos e gemidos dos aparelhos, ainda novos para mim, às vezes assustam. Alguns parecem saídos de masmorras inquisitórias. Penso logo com fértil imaginação que surgira à porta ser imenso e musculoso com capuz preto. Que nada,“Carrascas” e “carrascos” são joviais, simpáticos e bonitos em suas camisetas verdes ou pretas. Ao contrário dos torturadores, só querem nos ajudar. Se bem que já vi pequenos sorrisos diante de meu sofrimento. Devo ser desengonçado, faço por merecer.
Vou me empenhar. Acredito que em alguns meses pego o jeito dos aparelhos e passo a dominá-los. Pelo menos não irão mais me dar trancos. Estarei preparado. Não quero me transformar em um Schwarzenegger – esse sobrenome ganha do meu – em seu tempo de The Terminator.
Quero mesmo é ficar de bem comigo, buscar qualidade de vida e um envelhecer tranquilo. O mais saudável possível, sem abrir mão de alguns gostos.
Ainda não começou a se mexer? Está esperando o quê? Garanto, vale cada gota de suor. Como diz uma das instrutoras lhe dando animo ao fim de muita malhação: “Beijo na bunda e até segunda”.
Publicado Jornal Correio em 07/02/2014
quinta-feira, janeiro 30
quarta-feira, janeiro 29
terça-feira, janeiro 28
sexta-feira, janeiro 24
Poema na praça
Praça
Cel. Carneiro
brotando mais que flores
também poemas
com cheiro de gente
gente simples
gente nossa.
EA
Cel. Carneiro
brotando mais que flores
também poemas
com cheiro de gente
gente simples
gente nossa.
EA
O Bode
E assim, mais um ano faz a curva e deixa para trás momentos bons e ruins. Alguns destes, como galhadas e lixo em enxurrada, ficam presos na curva e teimam em nos acompanhar novo ano adentro. Faz parte. Ciclos não encerrados devem seguir seu curso, desencalhar e chegar a algum belo e vasto delta em resolução.
Vamos pensar com calma. Se você está lendo esta crônica significa que sobreviveu a 2013, para o curso da vida, fato por si só, um milagre. Quantos não tiveram o prazer ou a solidão acompanhada de ouvir os fogos anunciando o novo que, em vários aspectos, já nasce velho.
Tive o privilégio de ter sido criado sob égide de duas religiões. A cristã e a judaica. Ambas deixaram marcas muitas boas, outras, nem tanto. Do lado judeu, aprendi que devemos sempre rir de nós mesmos, alegria garantida para vida toda. As histórias cômicas sobre mães judias são famosas, assim como são de conhecimento geral as piadas versando sobre o judeu rico e o judeu pobre, assim como aquelas que relacionam os judeus ao dinheiro, à avareza.
Jacques Attali em “Os Judeus, o Dinheiro e o Mundo” nos conta:
“Numa e noutra (judeus e cristãos), acredita-se nas virtudes da caridade, da justiça e da oferenda”. “Mas, para os judeus, é desejável ser rico, ao passo que, para os cristãos, é recomendável ser pobre. Para uns, a riqueza é um meio de melhor servir a Deus; para os outros, ela só pode ser nociva à salvação. Para uns, o dinheiro pode ser um instrumento do bem; para os outros, os efeitos são desastrosos. Para uns, todos podem usufruir do dinheiro bem ganho; para os outros, ele não deve ser acumulado em nossas mãos. Para uns, morrer rico é uma bênção, desde que o dinheiro tenha sido adquirido com moralidade e que a pessoa tenha cumprido todos os seus deveres em relação aos pobres da comunidade; para os outros, morrer pobre é a condição necessária da salvação”.
Particularmente gosto muito da história do judeu que foi se queixar a seu rabino sobre o tamanho de sua casa. Acredito que muitos a conheçam. Segundo ele, era uma casa minúscula, que mal dava para comemorar o Rosh Hashaná como determinado. Após a queixa, o Rabi coçou a barba e disse ao homem:
— Compre um bode e deixe-o morando dentro de sua casa por sete semanas! Feito. O novo hóspede aprontou todas. Subiu em móveis, roeu livros e jornais, fez suas necessidades por todo canto. E como fedia! Não havia banho que tirasse o peculiar cheiro caprino. E o balido insuportável, ritmando, noite após noite? Enlouquecedor.
Já na quarta semana, o homem voltou desesperado:
— Rabino, por favor, não aguento mais, a casa está uma sujeira. Minha amada Ethel ameaça me abandonar! O que faço?
— Certo, tire o bode de lá e o presenteie para alguém, respondeu o rabino. Feito isso, ao chegar em casa, o homem sentiu inimaginável alegria. Seu lar tornara-se imenso, parecendo o maior palacete do mundo, sobrava espaço e alegria.
Não seja o bode do novo ano gregoriano que aí está novinho. Tire o bicho de dentro de você, deixe-o partir, respire aliviado. Alma imensa e livre. Todos temos muito a comemorar. Feliz 2014 para nós. Ria mais de si mesmo, divirta-se, produza, compartilhe. A vida é bela. As adversidades sempre existirão. Façamos delas empurrões proativos de um viver harmônico. Sejamos felizes. Depende apenas de cada um de nós. Mazal Tov.
segunda-feira, janeiro 20
Corrida Maluca
@Maria Do Carmo Rotelli:
" Olha só : quem foi prá correr 5km , correu 6,5km ; 10km correu 8km e os 21km quase morreu desidratado por falta de água. É mole???!"
Assim foi a 1ª Maratona Internacional de Goiás - realizada em Caldas Novas. A corrida mais doida de minha vida. Desorganização total.
Fotos Bia Stutz
quinta-feira, dezembro 19
Coruja
Tenho fascínio por animais estigmatizados. Carregam em si mitos e lendas. Não bastassem escorpiões, morcegos serpentes e aranhas, parte de meu dia a dia de trabalho, tenho paixão por corujas. Talvez pelo fato de eu mesmo, de vez em quando, ser um outsider. As mães-coruja, estas eu admiro com reservas, pois, normalmente, são dominadoras e acabam criando pestinhas. Cabem exceções. Jamais incorreria em injusta generalização. Pode-se muito bem ser mãe ou pai-coruja no amor, no cuidado, no carinho, sem deixar filho com manhas e sem norte. Pensando bem, as que estragam seus filhos são minorias. Minha paixão é pelas corujas. Estas aves de rapina imponentes que, além de seres viventes especiais, carregam o peso de forte simbologia, perdendo para poucos representantes do reino animal. Em minhas redes sociais, posto fotos, lá estão sempre presentes. Talvez percam para escorpiões e insetos, com suas cores, formas e belezas escondidas, às vezes, só detectadas por lentes macro, capazes de expor caprichos da natureza em detalhes deslumbrantes.
Como mascotes da divindade grega Athena, corujas conquistaram título de símbolo da sabedoria. Além disso, meu quase homônimo Willian Meng – diferença de uma letra – nos conta: ”Os gregos consideravam a noite como o momento do pensamento filosófico e da revelação intelectual e a coruja, por ser uma ave noturna, acabou representando essa busca pelo saber.” Para outros tantos, coruja é sinal de mau agouro, de azar e morte. Pio de coruja então, morte certa por perto. Na idade média, eram vistas como bruxas disfarçadas e, quando davam o azar de serem capturadas, eram amarradas e deixadas presas sem água ou alimento, para morrer em sofrimento.
Cada cultura via a coruja de uma maneira. Os romanos como sinal de derrota em batalha, já os gregos prenunciavam vitórias quando na sua presença. Não existe caracterização de Merlin sem poleiro dela em seu laboratório. Edwiges era o nome da coruja de Harry Potter, que de ruim nada tinha.
Gosto de corujas. Seu canto acalma e embalou anos a fio o sono de meus filhos. Toda noite, minúscula Caburé pousa no telhado de casa e lá fica a piar horas a fio. O dia que não vem, fico apreensivo com seu bem-estar. Sinal de chuva forte ou frio bravo.
Ganho tempo precioso observando corujas buraqueiras cuidando de toca e cria. As acompanho à caça. Certeiras no voo, dificilmente um rato foge de seu ataque. Quando em vez, vejo uma tomando couro de passarinho miúdo em defesa de seus próprios pequeninos. Certa feita, durante captura de escorpiões, descobri toca de coruja em cemitério, jazido abandonado. Quase me matou de susto. Cabeça baixa, cuidando de meu trabalho. Quando levantei o olhar, lá estava a palmo e meio de meu nariz. Arrepiada, asas abertas se fazendo o dobro em tamanho. Cai sentado, coração a mil. Depois, recuperado, apreciei e fotografei a bela em plenitude.
Discretas, silenciosas, fiéis. Assim são as corujas. No Brasil, existem 24 espécies de corujas, muitas ameaçadas. Não carece nem apontar culpados. Pesquisadores em corujas brasileiras relatam: “Um casal de corujas-buraqueiras consome de 12,3 mil a 26,2 mil insetos, e de 540 a 1,1 mil ratos por ano”. Muitos deveriam se espelhar nas corujas. Mais discrição, atenção, préstimo e lealdade.
Publicado Jornal Correio em 19 de dezembro de 2013
quarta-feira, dezembro 11
Do lar
Logo Blog Donos de casa
Novembro partiu e, daqui a alguns dias, completaremos oito anos em casa sem ajudante. Tudo começou num belo dia em que tivemos um feriado prolongado e, querendo ser justos, resolvemos estender essa folga para nossa auxiliar.
Ao retornar, ela pediu conta e ainda tripudiou, de forma cínica, sobre nossas cabeças. Com sorriso de canto de boca, nos disse que, graças à folga recebida, tinha conseguido emprego melhor. Deixou-nos a ver navios em momento crítico em meio à correria de horários malucos e falta absoluta de tempo. Em nenhum momento sentimos raiva ou rancor, ao contrário, sabemos muito bem que todos podem e devem procurar melhoras na vida, nesse palco selvagem de competição e puxadas de tapete. Ela agiu com o justificável instinto de preservação. Faz parte do jogo. Ficou, na época, apenas um resquício de tristeza, pois saiu sem aviso e não carecia troça. Passou, pronto. Se ela precisar de carta de recomendação estamos aqui para fornecê-la, boa trabalhadora. Bom, lá se foram oito anos e agora mais nada dela sabemos, nem por onde anda. Esperamos que esteja bem e feliz. É de coração.
Daquele momento em diante, resolvemos conquistar alforria, acertar horários e, nós mesmos, cuidarmos de tudo. Do lavar ao cozinhar, do arrumar, varrer, jardinar e tudo mais. Sempre tive comigo que empregada é luxo. Filho de americano do Brooklyn, NY, e tendo morado por lá bom tempo, só vim a conhecer empregada doméstica no Brasil. Lá, tínhamos faxineira no máximo uma vez por mês. E olha, o carro dela, um Cadillac rabo de peixe, dava de mil na Station Wagon de meu pai, com laterais em detalhes de madeira.
Todos em casa fazendo sua parte. Crianças arrumando o próprio quarto. A lei do “sujou, lavou” começou cedo em casa. O caçula com 10 anos fazia muito bem sua parte. A irmã, pouco mais velha, também. Foi pedagógico. Alguma lição de liberdade deve ficar para o futuro deles.
Harmonia e economia. Claro, sempre entreveros existem, até hoje. Quem não tem dia de preguiça? Em relação à economia, lembro-me de caso contado.
Dois amigos, já por volta dos 50, ex-namorados de infância, se encontraram num bar. Há muito não se viam. Sentaram-se. A primeira coisa que um faz é acender um cigarro. Meio espantada:
— Fumando até hoje?
— Quase dois maços, acredita!?
— Sabe que, se tivesse economizado essa grana durante esses anos todos, você hoje poderia comprar uma Ferrari zero?
Ele pensou um pouco, bateu levemente os nós dos dedos com mão sobre a mesa e na lata e perguntou:
— Você nunca fumou, não é?
— Claro que não! E você bem sabe disso.
Olhada entorno, testa franzida:
— Uai, então cadê sua Ferrari?
Sabemos que, sempre que se economiza, pode-se planejar outros destinos para o não gasto. Mas isto não é o principal. O grande aprendizado foi redescobrir que podemos viver plenamente, sem dependência visceral de alguém para fazer por nós as entediantes e repetitivas tarefas domésticas. Põe tédio nisso. Vencer a preguiça e lá vamos nós. Existe vida plena sem ser patrão. E tempo, nós fazemos o nosso.
Com disciplina e participação de todos ninguém fica sobrecarregado e, detalhe passa-se a conhecer e valorizar cada cantinho da casa. Prazer ao terminar faxina, é imensurável. Sensação imensa de bem-estar.
Não compramos Ferrari, mas apostem suas fichas, ganhamos prazer, cumplicidade e união. Vale muito mais do que o carro.
Publicado Jornal Correio em 11 de dezembro de 2013
segunda-feira, dezembro 9
Rua da Paz em guerra
Projeto lei tramita na câmara municipal propondo transformar a Rua da Paz no Bairro Morado da Colina, para mim ainda Patrimônio, em rua de comércios mil. Nada demais se esta rua estivesse em bairro colado no centro ou em lugar estratégico e, principalmente, não se tratasse de bairro iminentemente residencial por natureza e tradição. É certo que por lá já funcionem algumas atividades diferentes das que se enquadram no plano diretor de nossa cidade.
Tem uma academia de não sei o quê, tem uma outro não sei o quê tipo zen com portais de madeira e tudo mais, tem inclusive uma de nossas Unidades Básicas de Saúde funcionando em casa alugada.
Tem uma simpática igrejinha, Nossa Senhora do Bom Parto, que todos os anos festeja na rua sua festa de São João
E lá na esquina com a Nicomedes um centro comercial muito bem instalado, esteticamente bonito e que, na realidade está virado para a Avenida Nicomedes Alves dos Santos, portanto nada tem haver com a Rua da Paz.
Não quero nem entrar na seara das manobras políticas para que tal lei seja aprovada nos estertores finais da atual configuração da Câmara Municipal. Mas, se eu fosse edil em um momento desses faria como a nossa Prefeitura. Ficaria em "standby" para fatos polêmicos, porém trabalhando muito como pode ser observado cidade à fora. Empenhado-se com o que ai está para fazer, não criando controvérsias à esta altura do campeonato.
Tem uma academia de não sei o quê, tem uma outro não sei o quê tipo zen com portais de madeira e tudo mais, tem inclusive uma de nossas Unidades Básicas de Saúde funcionando em casa alugada.
Tem uma simpática igrejinha, Nossa Senhora do Bom Parto, que todos os anos festeja na rua sua festa de São João
E lá na esquina com a Nicomedes um centro comercial muito bem instalado, esteticamente bonito e que, na realidade está virado para a Avenida Nicomedes Alves dos Santos, portanto nada tem haver com a Rua da Paz.
Não quero nem entrar na seara das manobras políticas para que tal lei seja aprovada nos estertores finais da atual configuração da Câmara Municipal. Mas, se eu fosse edil em um momento desses faria como a nossa Prefeitura. Ficaria em "standby" para fatos polêmicos, porém trabalhando muito como pode ser observado cidade à fora. Empenhado-se com o que ai está para fazer, não criando controvérsias à esta altura do campeonato.
Um bairro residencial que aos poucos está se tornando uma ilha, cercado de comércios por todos os lados. Um perigo pois aos poucos estes vão, devagar e sempre, contaminando ruas laterais, subindo, subindo, tomando os espaços e nada agregando de saudável ao bairro.
Falo com conhecimento de causa. Nasci e me criei no bairro Funcionários em Belo Horizonte, mais exatamente entre as Avenida Afonso Pena e Rua Ceará.
Vi de perto o rápido domínio das áreas comerciais e o crescimento vertical esmagarem um dos recantos da minha infância/adolescência.
Se antes brincávamos de bente altas mas ruas, explico: Bente altas parece com o Bate daqui, só que lá jogamos com bola de meia, casinha de graveto e usa-se os pés – Joga no Google, aposto que encontra. Se as ruas de pedra eram nosso espaço de diversão naquele tempo, passa lá hoje. Horror cinza fuligem e concreto. Barulho horrível de carros e motos. Para minha tristeza, golpe de misericórdia: A casa em que nasci foi derrubada e virou pouso de veículos: estacionamento.
Passo pela Rua da Paz, de carro, a pé ou bicicleta a caminho da horta do japonês lá na beira do rio Uberabinha, na verdade acho que tem japonês nenhum, mas acostumou-se a assim ser chamada.
Querem acabar antes que comece com o pé de guerra que vai gerar a Rua da Paz? Façam consulta aos moradores do bairro Morada da Colina ou Patrimônio. Deixa quem por lá mora decidir se quer continuar em paz ou abafados por comércios e movimento. A escolha deveria ser unicamente deles e não cair como uma bomba em seus colos e noites de desassossego - palavra sibilante essa - diz em som exatamente seu significado. Decisões nesses moldes costumam só, somente só desagradar muitos em prol da alegria de uns poucos.
Assim, do nada em futuro próximo e sendo tal lei aprovado me vejo desviando de carros em pleno sábado pela manhã. Eu hein, vou é comprar verduras é na feira, pelo menos lá aproveito para um pastel com café.
quarta-feira, dezembro 4
Bebum consciente
Quatro horas da manhã, um homem com andar meio cambaleante caminha pela rua escura. Um carro da polícia se aproxima e os policiais resolvem averiguar a situação:
- Onde vai o cidadão a uma hora destas?
- Estou indo assistir uma palestra.
- Palestra?! A esta hora? Sobre o quê?
- Sobre os efeitos do álcool e das drogas no corpo humano. Os danos causados pela esbórnia. A farra na degradação da vida amorosa conjugal. Os impactos negativos sobre o sistema nervoso central eperiférico advindos dessa vida desregrada. Dos malefícios aos órgãos internos e também externos devastados pela ingestão desenfreada de fumo, álcool e drogas ilícitas. E a vida sem Deus no coração.
- Ô meu, fala sério! E quem vai dar uma palestra desta abrangência e relevância científica a esta hora da madrugada?
- Minha esposa, quando eu chegar em casa.
( Via Facebook de Mardones da Costa )
Férias
Depois de um ano de muito trabalho, entro em férias. Boas festas para todos e até 2014. São os votos de toda equipe do Laboratório de Animais Peçonhentos e Quirópteros da nossa SMS.
Parabéns a todos nosso grupo pelo empenho, compromisso e valentia para vencer adversidades inerentes ao trabalho e ainda brilhar como nunca como Servidores Públicos que somos, com muito orgulho.
Algumas fotos de nossa (minha) última ação do ano antes das férias. A convite do Ministério da Saúde, mais uma vez atuando como monitor em Capacitação de Manejo de Escorpiões desta vez em Palmas Tocantins.
Parabéns a todos nosso grupo pelo empenho, compromisso e valentia para vencer adversidades inerentes ao trabalho e ainda brilhar como nunca como Servidores Públicos que somos, com muito orgulho.
Algumas fotos de nossa (minha) última ação do ano antes das férias. A convite do Ministério da Saúde, mais uma vez atuando como monitor em Capacitação de Manejo de Escorpiões desta vez em Palmas Tocantins.
domingo, novembro 17
Calçadas
Às vezes, somos apresentados ao óbvio para nos convencermos de que nem tudo está perdido, pelo menos em nossas cabeças e convicções.
Outro dia, a professora Ludmila Sandoval, em lúcido comentário, aqui mesmo no CORREIO, expressou o que acredito ser o sentimento coletivo. Ela nos conta que “o Ministério Público, baseado nos códigos de posturas municipal e federal recomendou que os bares de Uberlândia disponibilizem espaço de 1m75 livre de mesas e cadeiras nas calçadas, para passagem de pedestres”. E ainda: “Calçada não é extensão de bar, nem lugar para mesas e cadeiras.” E não é mesmo. Aquela cadeira onde podemos preguiçosamente esticar as pernas e trocar dedo de prosa com vizinhos pode: sinal de cidade tranquila, será? Ah! e me mostra uma calçada com mais de 1m75 aqui em Uberlândia!
Invasão de área pública é antiga e não é desprivilégio apenas de Uberlândia. Lembro bem de antigo bar na Rio Branco que todos frequentávamos à época (põe tempo nisso), no qual lá estavam as mesas na calçada. E olha que o bar era constantemente frequentado por servidores públicos, inclusive da Divisão de Posturas. Não é que faziam vista grossa, nada disso. Aquilo era considerado comum, normal. Portanto, legal, pelo menos aos olhos do clamor geral.
Ninguém nunca reclamava, desviava e pronto. Felizmente, os tempos são outros. Pessoas passam a conhecer seus direitos, questionam mais e querem respostas. Saudável é aquele que, além de saúde, detém informação.
Em cidades litorâneas, em muitos casos, foi necessária ação rigorosa do poder público para disciplinar barracas e bares. Em Salvador, a medida chegou ao extremo com derrubada dos quiosques invasores que teimaram em não se adequar às novas normas. Em Natal, Fortaleza e Maceió também houve intervenção pública. Mas sabe-se bem que as faixas de areia de praia são infinitamente maiores do que nossas calçadas. São Luís que não me deixa mentir.
Já aqui para nossas bandas parece que as cidades foram programadas para carros, não para gente. As já estreitas calçadas não poderiam, em hipótese alguma, permitir que áreas ditas públicas fossem tomadas por comércios de qualquer espécie. Temos bares que funcionam há anos em áreas públicas imensas, obstruindo o ir e vir das gentes, dificultando o livre direito de transitar por elas. Se for portador de necessidade especial, nem se fala.
O perigo de tragédia anunciada, descrita pela esclarecida professora, é apenas uma das facetas deste descalabro que se tornou um fenômeno cultural aqui.
Calçada é para caminhar. Não é lugar de mesa, cadeira, painel de propaganda, nem banca de venda de seja lá o que for. Queremos educação no trânsito, concorda? Pois nós, pedestres, estamos mais do que incluídos nessa confusão urbana. Portanto, para não invadir espaço de bólidos ameaçadores, criadores de tristes estatísticas, temos obrigação de atravessar sobre faixa de pedestre e direito de uma calçada livre de empachamentos. Mas não apenas.
Conhecemos bem a conservação da parte que nos cabe. Em muitos pontos parecem trilhas com obstáculos intransponíveis até para atletas experientes em “trekking”. Medalhista aquele que, em casa, chega sem torção ou queda. Antigo problema merecedor de solução imediata. Fim de mesas e outros obstáculos, e calçadas conservadas. Aí, sim, uma cidade educadora para cidadãos educados.
Publicado Jornal Correio em 17/11/2013
quinta-feira, novembro 14
Virtualidades
O mundo virtual se torna cada vez mais real e eloquente em nossas vidas. Difícil algo em normal cotidiano no qual não se faz presente. Não lembro a última vez que enviei carta escrita à mão pelos Correios. Um de meus maiores prazeres era escrever longas cartas. Usava caneta Parker 51, herança de Vô. Tinteiro em forma de losango durava pouco. O cheiro da tinta, lembrança olfativa, volta em vez, o sinto em algum lugar. Agora, simplesmente abro uma folha branca virtual e dedilho cartas, ofícios, bilhetes, contos, poemas e prosas. Passei antes, é claro, pela boa e velha Remington, não a arma que, apesar de que, bem poderia ser considerada como tal. Pena e espada, duas poderosas formas de ferir, atacar, mas principalmente defender. Confesso, fui aluno relapso em aulas de datilografia e nunca passei do a, s, d, f, g – ç, l, k, j, h. Me viro com dois dedos, os indicadores. Às vezes, peço ajuda a um polegar ou ao médio, vulgo maior de todos, para os íntimos e as crianças. Erro todo tempo, exatamente a facilidade de usar um backspace e corrigir o que nos torna preguiçosos e desatentos. Lembro quando surgiu uma fitinha branca que colocávamos sobre a letra errada na máquina mecânica e, depois na elétrica, apertávamos a tecla, cobrindo o que queríamos esconder. Aí surgiu o Errorex.
Pincelavam-se os enganos. Os ofícios e memorandos mais pareciam filhotes de paca, tamanha a quantidade de pintas brancas saídas das mãos de datilógrafos ligeiros, mas fracos na língua-pátria. Só conheci um exímio e veloz mestre dos teclados e do domínio da gramática ao mesmo tempo. Tio Fábio Borges, escrivão do crime. Fera como poucos. Não creio que ele se acostumaria com a fragilidade dos teclados de plástico dos computadores de hoje. Saudade gigante dele. De seu bom humor, de seu coração de ouro, sempre preocupado com todos. Não se fazem mais tios Fábios como antigamente. A essas alturas, ele deve estar a reorganizar em alta velocidade os arquivos de São Pedro, colocando ordem na casa celestial. Pouco duvido que esteja empunhando sua velha companheira de tantos anos no Fórum, uma Olivetti Línea. Seu veloz dedilhar pode ser ouvido em dias de chuva, basta por atenção. Tantos recursos, novas tecnologias. Mas por mais incrível que pareça alguns destes, ao invés de ajudar a vida do cidadão, parecem tormento.
Quer um exemplo? Aquelas famigeradas letrinhas e números que temos que digitar para provar que somos seres viventes e não robôs alienígenas invasores. Sério, conte, você consegue mesmo ler com tranquilidade aquele emaranhado de garranchos onde um “R” misturado a um “N” mais parece hieróglifo? Letra “L” se colada a um “G” não tem decifrador de códigos secretos que a desvende. E, para piorar, alguns sites, depois de uma hora de tentativas, quando finalmente você consegue enviar, apresentam mensagem bem sacana: “acho que você já falou sobre isso”. Outros, em artimanha, bloqueiam qualquer envio após três tentativas erradas. Deveria haver outra forma de resolver isso. Tantas mentes brilhantes por aí. Se o pessoal do Obama desse com um reCAPTCHA, palavra esquisita em si mesma, não haveria espionagem mundial. Os caras iriam se suicidar de desgosto. Acho que, muito em breve, desenferrujo minha Parker 51 e compro pote “Super Quink” em formato de doce de leite de venda. Passarei a retomar os manuscritos e o lamber de selos. Sofre-se menos.
Publicado em Jornal Correio em 14/11/2013
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