domingo, janeiro 27

Raios




Nada mais estranho do que o comportamento humano. O novo ano começou com gosto amargo de alívio e sufoco, e isso já vinha de longe. O tal fim do mundo marcado pelos maias não ocorreu. Pelo menos por aqui. Correu à solta nas redes sociais que, mesmo acontecendo em data e hora previstas, não nos afetaria e seria cancelado na última hora, pois “o Brasil não teria estrutura para um evento desse porte”. Ainda mais enquanto os recursos escoam ralo abaixo em preparação para copas de futebol. Nem se quiséssemos sobraria dinheiro para financiar a hecatombe derradeira.

Alguns se mobilizaram em aguardo do juízo final, buscando conversão em religião ou seita. Outros se enfiaram em dívidas, tipo assim, eu vou, mas vou devendo. Imagino a frustração e sufoco dos dois grupos. Deve ter muito pregador pregado de tanto correr e devedor correndo para não ser pregado.

O medo dá asas, já dizia Goscinny e Uderzo em uma de suas geniais histórias – “Asterix e os Normandos”-, em que um grupo de vikings desembarca na Gália com o objetivo de conhecer o medo por pensar que este os faria voar. O medo ou um energético, se asas criam, é na imaginação de quem os sente ou ingere. E, assim, milhares de pessoas, por receio ou deboche, só falavam de 21/12/2012.

Aliás, o fatídico dia deu as caras com um belo amanhecer, mas que logo virou para chuva, branda, é fato, entremeando o céu com seu azul anil.

Pois não é que nesse dia começou um pequeno calvário particular, mas que logo se tornaria coletivo?
Em férias, sem muito que fazer, cedo acordo. Talvez para ficar mais tempo à toa, talvez o costume tenha me puxado da cama mesmo ainda no escuro horário de verão.

Férias sem viajar. Não se desliga da rotina. Os telefones te chamam, os problemas de trabalho rondam sua porta e espiam por sobre seu ombro, não se tem descanso verdadeiro, fadiga companheira.

Por volta das oito e pouco, do nada, em imenso estrondo e clarão. Poderosa descarga elétrica proveniente de um raio se fez ver/ouvir. Quem estava na rua viu correntes em luz percorrer fiação de postes. Alguns a viram em tomadas. Uma vizinha, da janela de sua cozinha, se espanta com a intensidade da luz emanada por sobre as copas das árvores.
Começou o fim do mundo. Bem que podia ser a preliminar do tal, mas qual, foi em nosso humilde entender um raio que na rede elétrica caiu, percorreu caminhos à procura de terra e achou trajeto em inúmeras casas. Televisores, portões eletrônicos, aparelhos de DVD, centrais de alarme, liquidificadores, roteadores e outros tantos, em coisa de milésimo de segundos, fritaram placas e fios.

Segui cartilha. Liguei para a companhia elétrica, notifiquei o ocorrido, pelo menos em parte, pois, como não sabia os modelos de alguns equipamentos, a “simpática” atendente simplesmente negou registro. Foi o assunto da rua. Mesmo contabilizando prejuízos, a descrença nas instituições em um primeiro momento, fez muitos não registrarem o fato. A empresa elétrica dias depois enviou carta dizendo que não teve culpa no cartório, não é problema dela. Mobilizei vizinhos a registrarem o sinistro e com ajuda de empresa virtual de defesa do consumidor, a “Reclame aqui”, estamos reunindo dezenas de casos como o nosso. Vamos longe com isso. Depois conto o resultado. Exercer cidadania pode ser cansativo, mas se não o fizermos, quem por nós fará?


Publicado no Jornal Correio em 27/01/2013










sábado, janeiro 26

Tempo

E meu tempo vai se desfazendo em voos noturnos
Será hora de recolher os cacos e buscar rumo?
Estou oco de tanto não saber.






Uberlândia  26/01/2013







segunda-feira, janeiro 21

Fundo do baú

Essa é do fundo do baú, recebi de Marcão. Éramos tão jovens, cabelos pretos, energia. Sonhos e mais sonhos. Assim tudo começou. O Ano? Talvez 1983 ou final de 1984...
Mudamos da Duque de Caxias para a Góias, dona da fachada ai na foto

"Minha linda juventude/páginas de um livro bom..."



Linda Juventude
Flávio Venturini


Zabelê, zumbi, besouro, vespa fabricando mel
Guardo teu tesouro, jóia marrom, raça como nossa cor
Nossa linda juventude, página de um livro bom
Canta que te quero cais e calor, claro como o sol raiou
Claro como o sol raiou

Maravilha, juventude, pobre de mim, pobre de nós
Via Láctea, brilha por nós, vidas pequenas da esquina

Fado, sina, lei, tesouro, canta que te quero bem
Brilha que te quero luz andaluz, massa como o nosso amor
Nossa linda juventude, página de um livro bom
Canta que quero cais e calor, claro como o sol raiou
Claro como o sol raiou.

Maravilha, juventude, tudo de mim, tudo de nós
Via Láctea, brilha por nós, vidas bonitas da esquina.

domingo, janeiro 20

Consumidor





Gisele, Miriam, Joelma (essa é fogo), Carla, Graça, Deisarina. Estas foram apenas algumas das autointituladas “consultoras” de certa companhia de telefonia com as quais falei, em apenas um dia, para não resolver meu problema. Conto. Tinha eu um telefone celular normal, desses que você usa e, no fim do mês, vem a conta, simples assim. Um belo dia recebo carta de que corria o risco de ter meu nome incluído na lista do Serasa ou coisa que o valha, caso não pagasse certa fatura supostamente atrasada.

Como tento ser bom pagador, fiel aos meus compromissos, corri procurar a tal conta. Caixas de sapato, pastas reviradas e achei a dita-cuja. Muito bem paga por sinal, com carimbo de banco e tudo mais. Toquei a ligar para as “consultoras”. Depois de muita musiquinha e digite isso e aquilo, recebi como resposta um: — senhor, o engano foi nosso!

Quem paga o estresse, a vergonha de passar por mau pagador? Bacia das Almas. Imediatamente, cancelei o tal plano e migrei para o pré-pago. Agora quem controla meus gastos sou eu, pensei lá com minhas plantas enquanto delas zelava.
Ledo engano, caro amigo, ledo engano.

E não é que, ao tentar fazer uma ligação de feliz Ano-Novo me vem lá mensagem: “O seu saldo é insuficiente para efetuar chamadas”.
Como assim? Coloquei alguns tantos outro dia mesmo, uma quantidade razoavelmente alta para não ter exatamente esse tipo de problema! Passei por isso, explico: em certa viagem a trabalho com grupo multi-institucional, ministrando capacitação em manejo de escorpiões no Rio Grande do Norte, fiquei sem os tais créditos. Também não sabia da cobrança de deslocamento ou rooming para usar o linguajar técnico. Pronto. Algumas poucas chamadas e zerei. No próprio hotel, com cartão de crédito poderia fazer recarga. Poderia. Quem disse que conseguia conexão com a operadora?

Fiquei literalmente a ver navios, jangadas e outras embarcações de minha janela.
Voltando à vaca fria. Lá vou eu para minhas Giseles, Mirians, Joelmas (essas são fogo), Carlas, Graças e Deisarinas, junto a mais um alfabeto de “consultoras”.
— Senhor, em que posso ajudá-lo?
Juro por tudo quanto há de sagrado, me senti em país de primeiro mundo. Fui muito bem atendido e depois de passar inúmeros dados, faltando apenas os números do tênis e da camisa polo, a resposta:
— Senhor, a falha foi da operadora, houve cobrança indevida, seus créditos serão estornados em 30 minutos.
Agradeci emocionado, elogiei atendimento. Em avaliação dei nota máxima de satisfação. Orgulho. Ainda temos instituições sérias. Passados os minutos, corri verificar saldo, nada. Bom deve ser por conta do volume de serviço, deixa quieto, amanhã verifico outra vez. Assim fiz e nada. Já amigo das moças, retornei a ligação me sentido em casa, até que ouço estarrecido:
— Senhor, o saldo está correto, o saldo foi gasto.

Mas será possível? Trabalho de encruzilhada, mandinga. Os créditos evaporaram?
Um Brasil de todos, mas não como na Bahia, não de todos os Santos.
“Quero mostrar a quem vem aquilo que o povo diz/ Posso falar, pois eu sei, eu tiro os outros por mim”. Fico com Gil.

Depois conto da descarga elétrica que caiu perto de casa, queimou aparelhos de muitos. Cemig com seu batalhão de Giseles, Mirians, Joelmas (essas são fogo), Carlas, Graças, e Deisarinas. Deixaram-me a ver faíscas, raios e trovões. Haja!





Publicado no Jornal Correio em 20/01/2013



quarta-feira, janeiro 16

sexta-feira, janeiro 11

Aviões


Foto web

Uberlândia cresce a passos largos. Se isso é bom ou ruim vai de cada um. Se dependesse de minha vontade, ficaria do tamanho que está ou, talvez, até menorzinha um pouco. Menos carros, mais sossego, mais paz.
A passagem por essas bandas de mundo é rápida e seria bom curti-la com qualidade de vida invejável e muita tranquilidade.

Um sinal claro e barulhento desse crescimento desenfreado são os aviões. Isso mesmo, aviões. Estamos acostumados ao aranzé, ao furdunço das nossas avenidas em horário de pico, mas poucos se dão conta da movimentação que há sobre nossas cabeças. Crescimento ruidoso, mas invisível à percepção quase geral.

Gradualmente aumentam pousos e decolagens em nosso humilde aeroporto. Beleza. Mais e mais pessoas estão aprendendo e, principalmente, podendo desfrutar de um dos melhores, mais rápidos e seguros meios de transporte do mundo, depois do elevador é claro. O problema são as rotas e os horários.

Hora do jornal, você aí atento esperando aquela notícia importante, matéria pela qual passou o dia ansioso pelo desfecho prometido para aquela edição. O jornal vai rolando, desfiando um monte coisas desinteressantes, como casamentos de celebridades e a nomeação da rainha da bateria de uma escola de samba. As tragédias vêm em seguida. Mortes nas estradas, assaltos, caixas eletrônicos em explosão. Bonnies and Clydes em versões patropi. Sonolência. O apresentador finalmente anuncia a esperada notícia, claro, após os comerciais.

Anunciantes aos gritos vendem geladeiras, guarda-roupas, máquinas de lavar. Nunca entendi o porquê de tanta gritaria em propagandas. Pensam-nos surdos?

Volta o jornal. Como abaixamos o volume em função da gritaria de mercado persa dos anúncios, fica um pouco baixo, mas perfeito aos ouvidos. A notícia. Mal o jornalista abre a boca um estrondo; ruidoso e nervoso avião passa exatamente naquele instante. Parece que o céu vai cair sob nossas cabeças. Da matéria, só o mover de lábios do apresentador. Não se reconhece palavras sequer. Quando o último assobio da turbina se faz longe, ouve-se o irritante “Boa noite” e sobem os caracteres. E você, com cara de tacho, com o controle remoto na mão ainda perplexo, sem ação. Tenho que fazer curso de leitura labial, pensa resignado.

Outra situação. As tais das novelas e seus capítulos finais. Meses acompanhando aquela lenga-lenga, o disse me disse de alguma Doralice e um assassinato inexplicável. Na hora crucial da revelação, adivinhem! Imenso, em estalos de lata, quase roçaga a cumeeira de seu telhado, rugindo. Corre a ligar para parente que mora longe para saber o esperado desfecho ou aguarda os horrorosos, pouco criativos e enchedores de linguiça “Vale a pena ver de novo”.

“A praça é do povo! Como o céu é do condor.” Escreveu Castro Alves. Caetano trocou condor por avião e deu frevo. Ele não mora em rota de avião.

Tenho sugestão a dar. Se fizemos um rodoanel, por que não um aeroanel? Assim, os aviões fariam uma volta longe de nossas casas e pousariam silenciosamente ao longe, ficando para nós apenas o apreciar de suas luzes piscando.

As aerovias sobre nossas cabeças já começam a ficar congestionadas. Barulho só. Alguns em regozijo dirão: “Isso sim é progresso, incomodados que se mudem!”.

Para roça não, mas vou-me embora para Pasárgada, desde que lá não seja rota de avião. Combinado, Manoel Bandeira?






Publicado Jornal Correio em 11/01/2013



quarta-feira, janeiro 9

Invocação à Yemanjá

Olhos com brilho de bicho
Banho de descarrego nos primeiros segundos 1º de janeiro 2013. Sem mar desta vez, mas sempre na água.

"Oh! Iemanjá, sereia do mar.
Canto doce, acalanto dos aflitos.
Mãe do mundo, tenha piedade de nós.

Benditas são as benções
que vem do teu reino.
Meu coração e minha alma se
abrem para receber as suas bênçãos.
Mãe que protege, que sustenta,
que leva embora toda dor.
Mãe dos Orixás, mãe que cuida
e zela pelos seus filhos
e os filhos de seus filhos.
Iemanjá, tua luz
norteia meus pensamentos
e tuas águas lavam minha cabeça"




quinta-feira, janeiro 3

Estorninhos em festa

Foto garimpada na web, não descobri o autor, se souberem me contem para conferir os devidos créditos


quarta-feira, janeiro 2

Descaminhos




Foto: Olhares

Nunca tinha saído da roça. Mudava de fazenda em fazenda sempre embarcado, sentindo-se o próprio boia-fria, escravidão. Chegando aos novos destinos, o povo punha-se a gritar com ele e com seus companheiros de sina. Como se não estivessem todos acostumados com aquele corriqueiro ritual. Fingia paciência para não sofrer agressões. A maioria, mesmo, assim descia em azáfama agonia.

Pelo menos água e comida estavam sempre lá a esperá-los e, curiosamente, em abundância, como se quisessem compensar todo o estrago feito em seus corpos durante as jornadas. As viagens, em algumas circunstâncias, eram terríveis. Estradas mal cuidadas, muitos atalhos perigosos para fugir de fiscalização. Asfalto, muito pouco. Terra, poeira, lama, predominavam. Dias e mais dias mal acomodados, às vezes, agarrados em atoleiros gigantescos. Terra massapé, quem conhece sabe, é chuviscar e a armadilha está pronta. Visgo puro, às vezes, nem trator passa. Mas é só abrir um tempinho, sol fraco mesmo, poeira brota do nada. Terra de cultura, rica e cobiçada, hoje mais pelos donos da cana.

Já se sentia meio velho, sem forças para tantas idas e vindas. Queria quietude.

A fazenda em que morava agora era pequena, sítio mesmo. Mas bom pasto havia, fartura de água e o pessoal era aparentemente mais tranquilo. O serviço mais maneiro.

Na madrugada sofria com isso, mal dormia, as noites eram tormentos recheados de pesadelos e agitação. Ouvia miados da besta e sentia com intensa realidade a pele sendo cutucada com ferrões, estalar de chicote. Lembranças de uma infância doida.

A mãe perdera para uma onça e viu o pai aos berros ser levado para nunca mais.

Naquela noite de lua clara, em suas andanças, topou com porteira alta aberta. Empurrou leve. Dobradiças velhas chiaram que nem morcego em forro de tapera. Tomou coragem de moleque, resolveu aprontar uma e saiu a meio trote, rompendo estrada afora. Ao longe, brilho de cidade. Como mariposa em transe, seguiu direto para as luzes.

Andou muito, a serra dava voltas, muitas cercas a furar.

Passado muito tempo, chegou aonde queria.

O primeiro susto foi o barulho ensurdecedor. Música sertaneja às alturas em cada esquina, sentiu-se em casa, mas desconfortável; conhecia bem aquela toada. O chão preto e duro o conduzia a lugar algum tantas eram as opções de caminhos. Bateu arrependimento. Onde fora se meter? E pior, como sair disso? Como voltar? Sentiu saudades dos grilos, da harmônica cantoria dos sapos e rãs, o piado do urutau, os sons de suas noites.
Perdeu o norte, não sabia que rumo tomar. Foi invadido por súbito ataque de ansiedade, pânico mesmo. Calma, pensou. Aqui cheguei, daqui saio.

Tanto fuçou que, como miragem bem à sua frente, surgiu, como passe de mágica, o que lhe pareceu ser as plataformas com as quais estava acostumado a lidar. Certo, era mais moderna, muito iluminada e limpa, mas não custava tentar. Os cheiros lhe eram estranhos.

Subiu a rampa meio confuso, desconfiado. As pessoas dele se afastavam como se doente fosse. Botou a cara dentro do embarcadouro high tech, era ali o caminho ou estava danado.

Alguém gritou ao fundo: “A vaca quer pegar o ônibus!”.

Ofendido deu de lado e se foi perdido.

Vaca? Cara doido, macho que era de pura linhagem! Cobridor oficial de novilhas escolhidas a dedo! Genética apurada, pedigree disputado. Vaca?

“Ora, seu moço, tem dó. Vai amolar o boi!”.

Inspirado em vídeo publicado no Correio Online, caderno Cidade e Região em 11/12/2012:
Boi é flagrado “passeando” por estação do transporte coletivo de Uberlândia.













segunda-feira, dezembro 31

Choca barrada

Tem aos montes em casa, seu canto parece uma risada. Aqui tratamos por carijózinho, além de Choca-borrada, também é conhecida por maria-cocá e gata-véia. Nome científico é Thamnophilus doliatus




Fêmea

Macho



Fonte: Aves no quintal

quarta-feira, dezembro 26

Procissão



Longa e silenciosa procissão. Em silêncio oratório seguem com seus coloridos estandartes escarlates, outros tantos de vivo amarelo marcavam cordão a um canto da imensa fila. Alguns empunhavam o que parecia ser bastões. A formação militar espantava. Organizados e objetivos abriam caminho pelo asfalto quente como se este não os incomodasse em nada, tamanha a concentração e objetividade.

À distância segura acompanhei penitente aquele desfile. Não porque me sentisse ameaçado ou coisa parecida, pelo menos de imediato mal fazer não parecia estar nos planos deles. Não queria interferir e menos ainda ser responsável por algum desacerto naquele penitente caminhar. Olhar me bastava. A rigidez de comportamento assustava. Não havia perdão, misericórdia para com aquele, qualquer lá fosse o motivo; exaustão, distraimento, tropeçasse ou deixassem cair por terra seu estandarte. Passavam por cima, pisoteavam. Parecia que o indivíduo isolado nada representava, o todo sim era importante, o serpenteado movimento daquelas imensas filas, ao botar mais atenção notava-se nitidamente que eram duas, uma ladeando a outra, mas em movimentos militarmente sincronizados, como se ligação visceral entre ambas existisse. Aquele deslocamento sincrônico era mágico e vivo por inteiro.

Longa e dupla fila virava esquinas, imensos quarteirões, gigantesca multidão. Nem o menor barulho se fazia ouvir. O pisar, apesar de ligeiro, era leve e calculado, objetivo não era chamar atenção. Acostumada a vista à observação, notava-se ao largo, em vários pontos outros empunhando imensas bandeiras como velas de jangadas ao sabor de um mar pouco amigável. O vento as fustigava sem piedade e não raro as fazia tombar. Rápidas, como que receosas de repreenda, aprumavam e deslizantes seguiam caminho.

Lembrou cortejo preparando colorido tapete como os de Ouro Preto e santa sexta-feira. Cantarolei baixinho Milton: “Velejar, velejei/No mar do Senhor/Lá eu vi a fé e a paixão/Lá eu vi a agonia da barca dos homens”…

Quietude e prece.

A falta de tolerância com os tropeços alheios tirou a fé de questão. Troupe guerreira em busca de novas conquistas – assim as vi por minutos.

O avanço era descomunal, o amarelo e vermelho pintavam o asfalto. Aquarela em permanente movimento. Acácias e flamboyant aos poucos esquartejados seguiam para preparo de banquete. Haveria festa e dança para os vencedores?

A frase “ou o Brasil acaba com a Saúva ou a Saúva acaba com o Brasil” demonstrou mais uma vez ser descabida. Muito antes das cidades de ouro dos nossos índios, dos estes sim invasores portugueses; muito antes das capitanias hereditárias e de gritos de uma independência que nunca chega que elas aqui estão. Cumprem sim dever cívico de manter o que resta de nossas terras férteis e adubadas. Prejuízo? Não, chamo de desforra.

Se pragas são, então aqui estão duas a conviver em harmônica inimizade. Homem e saúva. A saúva não acabou com o Brasil, nós humanos, todos os dias, aos poucos, mas metodicamente, nos esforçamos ao máximo para cumprir o papel creditado às pequenas formigas. E, se o objetivo é esse, fiquem (in)tranquilos . Estamos conseguindo. Vorazes gente-saúva, insensíveis a pisotear sem piedade qualquer que cruzar nosso caminho. Egoísmo.

Sem acácias, flamboyant ou cores. Não haverá festa de fartura coletiva.

Solidão.






Publicado no Jornal Correio em 26/12/2012





domingo, dezembro 2

Progresso?


Eu aqui no quintal em meio a um silêncio de feriado. O sossego aqui é normal, pois nossa rua liga nada a lugar nenhum e por ela só passa quem mora, visita ou está perdido, mas em dias de semana sempre tem uma conversa ao longe, uma famigerada makita ou betoneira fazendo algum conserto, já contei a implicância que tenho desses barulhos. Me trazem péssimas lembranças. Leio aqui no CORREIO que haverá mudança no zoneamento do uso e ocupação do solo pra os nossos lados. 

Leio também que alguns moradores estão felicíssimos com as modificações, pois tais alterações “valorizarão” seus imóveis. Quanta pobreza de espírito. Trocam a paz de seus lares por alguns dinares. O bom é ter carro novo financiado em 60 meses, morar no fim do mundo e depois reclamar em programas de televisão e rádio que pautam tragédias que os serviços públicos ainda não chegaram à rua de terra onde conseguiu comprar casa. Reivindicam unidade de saúde, asfalto para ontem, escola, creche, posto policial, pois o tráfego de drogas manda e desmanda na região. E a culpa será de quem? Claro, do prefeito em exercício, obviamente.

E aqueles mesmos vereadores que decretaram as mudanças nos bairros de origem dessa gente aparecerão como moscas em carniça para tirar algum proveito político da miséria alheia, lançar sobre aqueles que diretamente traçaram o destino seus cabrestos e prometer mundos e fundos em troca de votos. E de novo, conto do vigário.

Descrença com os políticos que, a seu bel-prazer, mudam leis sem consultar os principais envolvidos. E eu que pensei que tudo estava restrito a uma lei estúpida que mudava as características apenas da rua da Paz ali na Morada da Colina.

Logo muitos não terão mais vista para a cidade, perderão o sol do amanhecer e sua suave brisa.
Os problemas não tardarão a aparecer. Imagine você uma face de quarteirão projetada para, por exemplo, dez casas. As redes de esgoto, a largura das ruas, dos passeios é dimensionada para aquele número de imóveis.

Rufem os tambores, soltem fogos de artifícios. Do nada, como passe de mágica, surgem gigantes edifícios de dezenas de andares, condomínios verticais aparecem como que plantados como os feijões mágicos de João e alcançam as nuvens. É o tal progresso a qualquer preço. As ruas não comportarão mais tantos carros e estacionar será um problema e, para piorar, é bom lembrar que cada módulo residencial terá em sua maioria mais de um carro. As ruas ficarão obstruídas e o movimento, o barulho transformarão a vida de quem por ali nasceu, viveu quando ainda existia quietação em um inferno. Pardais e pombas europeias dominarão os beirais. Não haverá mais canto de passarinho.

Sustentabilidade e qualidade de vida? Papo de bicho-grilo. Outro dia recomendaram a um especial amigo que, se não estava satisfeito, fosse morar em um condomínio fechado. Desaforo incomentável. Na verdade, não era nada disso que eu queria falar quando comecei no quintal a ouvir o silêncio profundamente reconfortante de um feriado. Queria mesmo é compartilhar o canto de mil passarinhos, o cheiro de churrasco que aqui me chega e a delicada voz de Billie Hollyday no vinil.

Mas não consigo deixar de imaginar a cena dantesca que poderá ocorrer se, em algum momento naquele cenário descrito, todos resolverem dar descarga ao mesmo tempo. Canos de 50 para vazão de 200. Vai dar caca.
William H. Stutz
Veterinário Sanitarista
whstutz@gmail.com







Publicado no Jornal Correio em 1º de dezembro 2012 em

Clique abaixo para a publicação no jornal











 

terça-feira, novembro 6

Proscênio

Foto: Elidiane Oliveira
@elidiane_oliveira





Sol vermelho envolto em pó buscava pouso em liso horizonte
Sombras imponentemente tortas de Jatobás, Mutambas e Saputás emolduram o fim da tarde de um agosto
Bandos de araras, emas, barulhento voar/tropel busca pouso.
Céu em fogo derrama último clarão bem em um lá longe.

Um silêncio curto se faz ouvir. O cair da noite assim o exige
Aos poucos, em meio a um ver-não-ver onde o que existe não está no lugar
e sonhos perambulam fora da alma, a nitidez do breu.
Escura noite se abre em palco.

Vespertina D'alva em brilho farol sem mar, mostra seu fulgor como a chamar milhares de estrelas e constelações.
Céu adoece/enfeita em luz estrela.
Urutau, disfarçado de galho, sacode penas e voa raso
Em sinfonia, bichos. Cerrado fervilha em vida e sons.

Devagar, imensa lua aponta imperiosa, solista, sobrepondo corpo de baile estelar
Em outro extremo, luzes brotam do nada, uma a uma, formam imenso avião em fulgor único.
Curvas flutuam em jogos de cores e formatos
Cidade única, regozijo, de gentes e espaços, renasce a cada anoitecer.

Sinos espanhóis ao último bronze repique de Pilarica, anunciam riso e alegre alvoroço;
Seco ar regado a encontros, sacode o pó da tarde em noite intensa, aventura porvir.
Lua e céu em espelho Paranoá, se juntam coniventes.
Há perfume de jasmim e manacá-de-cheiro no ar.



segunda-feira, novembro 5

Pé d'água


Clica na imagem para sentir a ferocidade



Ameaçadora, se mostrou no horizonte. Como horda bárbara prestes a invadir pequena aldeia. Rodeou, se mostrou feroz.
Roncos/rugidos/relâmpagos, lanças de luz e estrondos.
Nem muito vento. Apresento-se mansa e calma.
Abençoada chuva a apagar calor e seca.
A vida agradece tamanho presente
 

sábado, novembro 3

Morte





Assunto delicado, poucos gostam de passar olhos sobre o tema. Medo do certo, do que a todos espera? Ter medo da morte, ponto de vista meu, é ter medo mesmo é da vida.

Raro o poeta ou escritor que deixou de falar, em muitos casos apaixonadamente, sobre ela e seus desígnios. Fernando Pessoa nos encanta em “Cancioneiro”: “A Morte Chega Cedo A morte chega cedo, /Pois breve é toda vida /O instante é o arremedo /De uma coisa perdida”.

Vinícius de Moraes em “Poética”: “A oeste a morte/ Contra quem vivo/Do sul cativo/O este é meu norte”. E assim vai. Shakespeare, Kant, Neruda, Guimarães Rosa. Todos eles deixaram tributos ou menções a ela, a senhora do tempo, a morte. Muito me marcou no cinema “O Sétimo Selo” do diretor sueco Ingmar Bergman, onde um cavaleiro ao retornar das Cruzadas, se depara com a morte, mas curioso e descrente propõe a ela uma partida de xadrez que definirá sua partida ou não, mas a busca mesmo é pelo significado da vida. Um épico.


Outro que muito me chamou atenção foi “Meet Joe Black”, com os geniais Anthony Hopkins e Brad Pitt o título em português me saiu como “Encontro Marcado”. Uma pausa. Nunca entendi a lógica ou a falta total dela, na tradução de títulos de filmes no Brasil. Imaginação zero, beira ao ridículo. Quer um exemplo do absurdo? Se você estuda inglês deve imaginar que para dizer “Os brutos também amam” basta um “Shane”. Como é simples a língua de Allan Poe e Mark Twain! Só vendo. Títulos não deviam ser travestidos apenas para ganhar público, deviam criar uma lei contra tal prática.

O que imagino e ouço é que o esqueleto envolto em mortalha, armado de foice apavora muita gente.

Ao longo da vida, ufa enfim dela falamos, perdi muitos para aquela magra senhora. Minha mãe se foi há poucas semanas, por favor não compadeçam, ela viveu muito e como sempre quis, voou feliz, podem acreditar. Grandes amigos, e não foram poucos partiram cedo demais, deixaram saudades doídas. Esta precocidade é que me incomoda. Tanto ainda para dar, para ver, para compartilhar e, por algum mistério pegam o rumo antes da hora.

Mas existe outro tipo de morte e este é o pior de todos, é a morte em vida. Esta é a mais terrível delas. E ela se apresenta de várias formas.


Ultimamente tenho acompanhado com assombro uma de suas piores formas. A falta de caráter, a covardia, o egoísmo estão no mesmo pacote do fim de tudo.

Com a mudança de governo municipal, muitos que se diziam fiéis até a morte aos que saem, assim do nada pularam como cabritos montanheses para o outro lado e do nada cantam odes e louvores aos vencedores, e atacam e desprezam aqueles aos quais juravam fidelidade. Obviamente não são bons profissionais, não dominam o conhecimento mínimo para cumprirem as missões que a eles foram confiadas e, imagino, só se sustentaram em seus cargos vampirescamente sugando o conhecimento alheio, pela bajulação e se aproveitando das benesses do poder. Para estes qualquer poder serve, nômadas sempre sequiosos por novas pastagens... no popular? Traíras mesmo. Hoje empoleiram aqui, amanhã no quintal vizinho. Onde acham que tem lucro, lá estão como sanguessugas.
Infelizmente não são homens livres, e muito menos dados aos bons costumes

De longe observo, espero envergonhado por tais pessoas a missa de sétimo dia.

É por essas e outras que me apego à vida mas, sem medo, susto e de cabeça erguida repito Milton Nascimento :“Nasci com minha morte e dela não abro mão”, com honra e firmeza. Procuro a cada segundo de minha existência o justo e, trabalho minha alma em busca da inatingível perfeição.



Publicado no Jornal Correio em 3 /11/2012