domingo, julho 13

Papa Chico

Será que dou conta?





Meio de tarde cheirando à queimada. Não me acostumo nunca. Humanos vão queimar todo o mato roçado do mundo até explodir em tosse seca. Porém não é sobre fumaça que escrevo hoje.

Recebi telefonema que me fez tremer. Assim na lata, sem rodeios, convite para escrever no espaço em que mestre Clarimundo ficou por tantos anos. Na hora, me veio um lampejo: mal chegou lá no alto e já aprontou mais uma das suas. Sei que tem o dedo de Clarimundo nisso. Tenho plena convicção de que nada é por acaso. Vejamos: ele agrônomo, eu veterinário. Nós dois sempre falamos de observações do movimentar da vida.

Miramos onde poucos prestam atenção. Tenho aqui comigo que ele queria que o espaço ficasse com gente ligada a terra, às miudezas dos seres viventes que poucos olham. Passou uma empreitada sem nem pedir. Não sei se mereço ou se vou dar conta.

Nunca tal grandeza havia passado sequer em pensamento por minha cabeça. Escrevo por prazer e senso de liberdade. Escrevendo, ganho asas que, normalmente, não possuo. Só e, raramente, em sonhos, consigo alçar vôo alma humana adentro e visitar cantos que nunca foram abertos.

Clarimundo Campos é insubstituível. Jamais chegarei perto de seus escritos e de suas lições de vida. Peço, portanto, permissão por aqui estar. Se não agradar, me conte logo, pego minha tralha e sigo caminho. Contudo, se gostarem um pouquinho, saibam que tirarei leite de pedra para tentar ser boa companhia aos domingos.

Nunca escrevi com hora marcada e tem dia que travo. Vem o tal vazio de palavras. Quando isso acontece, encolho em canto mais longe de meu quintal e falo com formigas, corujas e gambás que teimam em morar na cidade. Muitas vezes, eles sopram uma história antiga ou algo que viram na cidade lá embaixo. Rabisco correndo para não esquecer.

Clarimundo de onde estiver me conte: por que eu? Tantos bons escritores bem perto. A responsabilidade de utilizar um espaço que foi, e continua sendo seu, por tantos anos, é grande. Prometo que vou tentar fazer de tudo para honrá-lo. Agora um pedido meu: quando tiver tempo me conte, daí, que escrevo daqui. Vamos tentar essa parceria em segredo. Desejem-me sorte. Não me vejam como intruso, sou apenas mais um contador de casos, um observador de gente, de bichos e do mundo.

Fecho meu primeiro dia com Manoel de Barros, pois tanto ele quanto o Sr. e Guimarães Rosa, ocupam espaço idêntico em meu pensar. “Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.”








Jornal Correio de 13 de Julho de 2014 -  Página B8 - Revista




Será que dou conta?


segunda-feira, julho 7

Reposição hormonal

Homens também precisam da reposição hormonal; veja dica de especialista

Os problemas de saúde que surgem com o passar dos anos, como a redução dos hormônios, não é exclusividade das mulheres. A popularmente conhecida “andropausa” – na verdade um termo incorreto faz analogia a menopausa – afeta os homens a partir dos 40 anos e é denominada Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) ou Hipogonadismo Senil. Os sintomas, segundo o urologista Luiz Mauro Coelho Nascimento, vão desde a diminuição do desejo sexual a piora da qualidade das ereções, e assim como nas mulheres, pode causar depressão, osteoporose , alteração de humor e insônia.

Para o médico, mesmo a queda dos hormônios masculinos sendo lenta e progressiva em relação às mulheres, o crescente aumento da expectativa de vida fará com que a “andropausa” chegue a todos os homens em idade mais ou menos avançada. “Nos últimos anos o interesse em estudos envolvendo o homem idoso aumentaram significativamente, trazendo uma relação muito forte entre hormônios masculinos e função sexual, osteoporose, depressão e qualidade de vida”, disse o especialista.

A redução da testosterona pode ainda estar associada a algumas doenças como obesidade, estresse, diabetes, Aids, alcoolismo e insuficiência renal, hepática e respiratória. Para o diagnóstico em pacientes com suspeita de hipogonadismo senil, recomenda-se procurar um especialista e fazer uma avaliação laboratorial, com a dosagem da testosterona biodisponível. “Se diagnostica a DAEM, poderá ser realizada a reposição hormonal. O tratamento é contra-indicado para pacientes com de câncer de próstata ou mama, obstrução urinária grave e apnéia do sono”, afirmou Luiz Mauro.


Fonte: Jornal Correio


domingo, julho 6

Heróis



Hora do almoço. Meio-dia em ponto. Garis param a varrição e buscam suas marmitas. No canteiro da avenida, sob a sombra generosa de belos oitis, em silêncio de templo budista, cabeças baixas, calados comem. Um faz o sinal da cruz ao amassar a quentinha vazia. Agradecimento sincero. Aos poucos vão, um a um, terminando a refeição. Talvez a primeira do dia após o café puro, solitário do madrugar.

Alguns se estendem à sombra, jogam o boné sobre os olhos em busca de cochilo reparador. Outros conversam baixinho. Disciplina. Dura pouco. Logo um começa a brincar com outra. São garis e garis. Ou seriam garis masculinos e garis femininos? Hoje, tudo tem que ser pontuado, risco do politicamente incorreto. Não mais sussurram. O volume da voz toma conta da rua e ouve-se de qualquer canto as provocações brincalhonas. Casam um com outro, “coretam” – concordo, esta palavra não existe, é inventada, faz parte de nosso vocabulário regional e, deliciosamente, expressa o que sonoriza. Um sinônimo? Gozação, troça, zombaria. Coretam uns aos outros em alegria infantil.

Passado um tempo aquele que parece ser o chefe da turma, bate palmas e grita: “Bora gente, vamos mexer o doce!”. A alegria com que voltam às suas vassouras e pás é contagiante. Quem não gostaria de ter um grupo assim, motivado, feliz no dia a dia de trabalho duro e, acredito, de remuneração nada convincente?
Penso em gente engravatada e triste. Pena que os garis são invisíveis. Passamos por eles como se fossem inanimados seres; postes, calçadas. Mal sabemos que aqueles possuem o MBA da vida. Certa feita foram humilhados ao vivo, na televisão, por um jornalista. Microfone estava aberto. Me nego até hoje a assisti-lo. O que ele falou com até certa raiva é que é uma vergonha!

A vida urbana seria impossível sem a presença deste batalhão de profissionais. Houve época em que o trabalho de varrição e coleta de lixo era atribuição direta do município.

Quando se ventilava algum movimento de greve ou paralisação no setor público, a grande preocupação dos mandatários de plantão era a adesão ou não da limpeza urbana.

E do outro lado, os sindicatos torciam e rezavam para que a moçada aderisse aos movimentos. Eram o fiel da balança. A população parecia não sentir a mínima falta do restante dos servidores. Mas do pessoal do lixo, a história era outra. Deu no que deu, terceirizaram o serviço para alegria de uns e desmobilização de outros.

Conheço por nome os que varrem minha rua. Os admiro. Não levam suas frustrações para a linha de frente, cuidam da maquiagem da cidade, reduzem consideravelmente o risco de doenças das gentes. Fazem-nos sentir orgulho de mostrar nossa cidade.

Uma grande pena que o trabalho destes heróis passe despercebido da maioria de nós.

Rua limpa hoje não demora muito a receber outra carga da formação do caráter e educação de muita gente fina. Não demoram os papéis, as pontas de cigarros, garrafas e coisas que até Deus duvida, serão novamente lançados despudoradamente em nossas vias. Como formiguinhas, tão logo amanhece, lá estão eles e elas. Novamente, a rua se enche de sons de vassouras, de risadas e “coretos”. As vassouras não param nunca. Com tanta sujeira, varre-se também a falta de educação, a civilidade, a falta de vergonha na cara daqueles que, como monarcas, atiram seus restos ao vento.






Publicado Jornal Correio em  6 de Julho de 2014








quarta-feira, julho 2

O contador de casos











Foto Paulo Augusto - Jornal Correio

Prezado Clarimundo Campos, me tornei íntimo, não vou chamá-lo de “senhor” nem “doutor”, pois esta intimidade nasceu da companhia domingueira de suas crônicas. Podia sentir formas e cheiros em seus escritos. Sua ironia sutil me fascina. Assim dito, peço: Caro Clarimundo, puxe um banquinho e vamos levar um dedo de prosa. É claro que você notou que algumas mangueiras estão floridas em pleno junho. Deu a louca no mundo. As paineiras e os ipês conseguiram misturar suas flores a formar tapetes daqueles feitos para dias santos. Sei que grandes jornalistas, escritores, mestres e afins saberão muito melhor do que eu contar de você. Mas, se me permite, deixa esse simples veterinário criador de sacis, aprendiz de escriba, com meus arremedos de crônicas, prestar tributo a quem merece.

Nunca vou me esquecer do dia em que me telefonou para falar de escorpiões e morcegos. Foi conversa longa e saborosa. Depois nossos contatos se deram por meio de palavras escritas. Você, generoso, me citou por algumas vezes concedendo-me títulos maiores do que o de monarcas e grão-duques. Os recebi com justas e explicadas ressalvas. Nunca fui merecedor de tanto. Contudo, o simples fato de ser lembrado teve o peso de medalha de honra ao mérito. As carrego invisíveis no peito para que todos vejam pelo resto de minha vida.

Talvez, meu caro Clarimundo, o motivo da florada temporã das mangueiras, junto com os ipês e primaveras, tenha sido proposital. Acontecido a mando de anjos e santos, colorindo assim, os caminhos para sua passagem até as portas de grande jardim metafórico, onde tudo são cantos de passarinhos, sol suave, cachoeiras imensas despencando das rochas maciças de um Espírito Santo majestoso. Onde também, a Mata Atlântica com seus bichos e orquídeas ainda existe intocável como você sempre sonhou. Segue feliz o trilheiro Clarimundo. Sua presença está por essas bandas perpetuada em seus casos e saborosos escritos.
Os domingos ficarão menos aprazíveis sem suas prosas, jornal em luto. Literatura perde um desenhista de pensamentos da mais elevada linhagem. A pena se deita, o tinteiro pelo meio se aquietada sem leves cutucadas. Fica um vazio.

Mas alegremo-nos, também há motivos de sobra para tal. Retorna você às estrelas, pois, como elas, somos feitos do mesmo pó, da mesma matéria. Aproveita a viagem. A jornada por esses rincões foi boa, repleta de carinho e amor. Aproveita Clarimundo, meu amigo, para perguntar a idade de São Tomé. Assim, quando sabido em noite de muita estrela e lua escondida, me sopra em sonhos esse segredo. Juro, não conto para mais ninguém. Vá feliz e em paz sabendo que seu clamor permanente em defesa dos bichos e das matas deu muitos frutos.

Fico triste em perder a companhia certa de seus casos, sua crônica inteligentemente republicada nos alertou que nada é para sempre, só acreditamos quando o sempre acontece. Até algum dia mestre Clarimundo Campos. Chegará a hora de novo encontro ao pé de uma serra, com cheiro de mata e chuvisco de cachoeira. Aí, nesse paraíso, baterá a palma da mão na curva da perna e daremos risadas daquelas de dar lágrimas de espremidos olhos e que ecoarão infinitas, atingindo lonjuras. Então, caro amigo, todos saberão de verdade que, em suas palavras, “Tudo é eterno…”






Publicado Jornal Correio em 2 de Junho de 2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhWmgzV1k1VFZoYkU/edit?usp=sharing

segunda-feira, junho 16

Era uma vez…




Cedo deslizar sonolento para o trabalho, me deparo com cena de Fellini. Em meio a gramado ainda verde em plena seca, balões coloridos em arranjos delicados, dançavam ao sabor do vento. O sol ainda baixo lhes conferia uma luminosidade surreal. Devem ter fugido de festa de criança.

O resto do caminho segui matutando. Tempo não via sinal de festa de aniversário em casa. Andam preferindo casas especializadas em eventos onde se pode escolher enfeites temáticos, cardápio de doces e até bolos com os formatos mais estranhos. Tudo ao gosto do freguês mirim. Isto quando o presente de dois ou três anos não é uma viagem à Disney, pois semana inteira, lá, fica mais em conta do que fim de semana no Beach Park em Fortaleza.

O primeiro presente que criança ganha é um aparelhinho eletrônico com dois botões; um de pânico para, em caso de perigo, acionar os pais à distância, uma vez que raramente em casa estão e o outro, caso leve palmada, acionar a polícia, resultando em prisão e processo. Agora é lei. O segundo presente, um Smartphone.

Pensamento é ligeiro ou o caminho é longo. Peguei-me nas bobagens que querem mudar na vida dos pequenos. Comecemos pelas histórias infantis.

Não vou nem comentar a nova moda de resumir clássicos para que fiquem palatáveis e criem leitores toscos em imaginação e vocabulário. Fica para outra oportunidade. Vai criar polêmica inútil e não é o foco agora.
Cantar “Atirei o pau no gato” virou apologia aos maus-tratos aos animais. Pois cantaram para mim e para filhos assim cantei. Não me tornei nem criei monstros assassinos de bichos. Pelo contrário, ainda sou daqueles que preferem bicho à gente e meus filhos, além de admiradores contumazes da natureza e tudo que nela há, são incapazes de matar formiga. Barata voadora sim, mas formiga ou outro vivente jamais.
O lobo mau está sendo taxado de pedófilo. Querem mudar a abordagem ocorrida em ermo local para floresta movimentada, repleta de tratores e motosserras barulhentas, madeireiros ilegais aos montes para todo lado, felizes e corados em saúde, com suas camisas xadrez, heróis a proteger a pequena Chapeuzinho Vermelho.
Os três porquinhos, coitados, passando de ameaçados a obstinados comedores de carne de outro lobo, parente daquele pedófilo da história anterior. Mas que família problemática essa dos Canis lupus! Será o infausto genético?

A Bela Adormecida, afirmam alguns, era viciada em ansiolíticos pesados, daí, seu profundo sono sem sonhos. Branca de Neve, insinuam outros, era uma degenerada insaciável que mantinha um relacionamento pelo menos suspeito com os sete anões. Irmãos Grimm devem estar a sacudir ossos.

Festa no céu virou sinônimo de rave, onde tudo rola. Laudatória aos pecados da carne e às drogas. Tarja preta dos puritanos sem assunto. Sabe quem foi o autor desta bela fábula? Foi o brasileiríssimo potiguar Luís da Câmara Cascudo. Esta, como tantas outras de nosso folclore, também estão passando pelo crivo de censura velada e requerem releituras por “deseducarem” nossos pequenos. A lenda do boto cor-de-rosa. Pedem que seja vendida apenas para maiores de dezoito e lacrada. Quanta bobagem.

No mais, gerais. Deixem em paz nossa literatura infanto-juvenil, sem hífen.
Vamos viver felizes para sempre, sem neuras exacerbadas ou problemas maiores do que o cobertor que nos foi dado a usar.




Publicado Jornal Correio em 14 de junho de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhX2dOTnhUSENIVk0/edit?usp=sharing

Nota:

Achei essa horrorosa versão "politicamente correta" do Atirei o pau no gato. Como diz um comentário postado abaixo da bagaceira: "O politicamente correto já beira a chatice extrema". Isso para pegar leve, para ser educado.


"Versão Politicamente Correta" (Que horror! Vamos criar crianças imbecis desse jeito)

Não atire o pau no gato-to
Porque isso-so
Nao se faz-faz-faz
O gatinho-nho
É nosso amigo-go
Não devemos maltratar os animais
Miau!

sexta-feira, junho 6

O delicioso controle dos pombos

Com o atraso de dois anos, acabo de receber um livrete da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia, intitulado “Pombos Urbanos – Uma Questão de Saúde Pública”. É muito bom. Deve ser obra do Centro de Controle de Zoonoses.

Vi, naquela esmerada publicação, o dedo do doutor William Stutz, médico veterinário sanitarista, o maior especialista do mundo em escorpiões. Como as columbas são protegidas, de todos os modos, inclusive por leis ambientais, a população das pombas aumenta rapidamente, com sérios transtornos ao meio ambiente e à saúde pública. “Uma colônia de pombos não controlada pode duplicar de tamanho a cada ano.”

Já que as pombas são tão nocivas ao meio ambiente e à saúde pública, só nos resta controlar o aumento da sua população. Mas, como? É comendo-lhes os peitos. São deliciosos, de- pois de fritas ou assados. Bem passados, podemos comê-los sem medo das bactérias e dos fungos.

Tenho experiência. Já comi muitas pombas. Foi muito antigamente. Infelizmente, não voltarei a papar os deliciosos peitos das pombas: não tenho mais condição física para pegá-las. Se você tiver um lugar recôndito no fundo do quintal, poderá contribuir para evitar o aumento das pombas urbanas. Seria bom se elas contribuíssem com a biodiversidade, mas nos campos, cerrados e matas.

Para pegar as pombas, faça assim: avezá-las num canto do quintal com resto de comida. Em seguida, no lugar da comida arme um laço, que é bem mais eficiente que arapuca. Você poderá colher uma pomba ou mais todos os dias, devidamente enforcadas. Aí, com uma pomba morta nas mãos, que vale mais que um bando voando, você depena-lhe apenas o peito e o retire do corpo de bichinha. Jogue este para os gatos ou no lixo.

Ao papar peitos de pombas, estará prestando um inestimável serviço ao meio ambiente urbano e à saúde pública. Não pode haver autoridade alguma capaz de empombar com você.

Clarimundo Campos Engenheiro 
Agrônomo aposentado
Jornal Correio de 11 de maio de 2014

Clarimundo Campos em foto do Jornal Correio
 

Um comentário ao generoso Clarimundo.

Caro Clarimundo,
 agradeço o elogio e o citar-me como "o maior especialista do mundo em escorpiões". Feliz, aceito o título mas como licença poética apenas. Na verdade sou um aprendiz de conhecer esse bicho antigo e tinhoso. Todo santo dia ele me ensina um pouquinho mais e chego à conclusão que como Sócrates o filósofo, e não o médico jogador de futebol que deixou esse mundo ainda novo, só posso parafraseá-lo no tocante aos escorpiões "Só sei que nada sei".

Em tempo: Não tive participação na elaboração do livrete. Me atenho aos meus escorpiões, serpentes, aranhas e morcegos que já  me dão muito mas revigorante trabalho diário.



Romaria

Foto de David Rotelli

Nossa Senhora da Abadia em Água Suja


quinta-feira, junho 5

Deu pódio




Foto David Rotelli

Lá estava eu em tranquilo, sabadão preguiçoso, cuidando da vida, das plantas, olhando canto de passarinho e recontado ninhos sabidos. Como a manhã mal se fazia anunciar, fui para rápido treino de tiro, não nada de arma, tiro de corrida, velocidade máxima em tempo marcado.

Dei-me por satisfeito. Podia começar almoço, tomar uma cervejinha sem culpa e aproveitar a melhor parte da semana, o fim dela. Bobagem isso, todo dia pode ser bom, vai da gente.
Lá pelas tantas, recebo telefone de amigo e companheiro de muitas e boas corridas de rua. Junto com Maria do Carmo, sua esposa, e Luiz Mauro compadre, formarmos um quarteto e tanto, pelas ruas de várias cidades, a correr pelo correr. Quarteto fantástico ou fanático? Simples prazer de testar limites. Nada de competição além daquela de tentar baixar tempo, e claro, participar e sorver a gigantesca quantidade de energia boa que rola em tais eventos. Revigorante.

“Tem corrida amanhã em Monte Carmelo. Só tem 10 km, vamos?”
Sair daqui para correr 10 km?" Sei não… Mas pensando bem, seria um passeio diferente, bora.
“Combinado! Passo aí lá pelas seis da manhã. Beleza?”

Passado um pouco, pensei no baita programa de índio que tinha arrumado. Quer saber, vai ser divertido. Vamos nessa. Sair com esse trio é sempre garantia de boas risadas. Ainda não sabia que Maria e Luiz Mauro não iriam. Relógio para despertar às cinco, levantei num escuro e num frio que há tempos não sentia.
Um relógio a despertar não. Como uso dois celulares, todos os programas de despertar estavam habilitados. Um toca às cinco. Cinco e trinta despertou outro. Às seis, um terceiro. Às sete, já no carro e a caminho de nossa aventura, disparou o do relógio de pulso. “Pra que tanto despertador em horas diferentes?”, perguntou David. Ia tentar explicar, mas a verdade é que nem eu sabia.
Viagem curta e tranquila, e lá estávamos nós entrando em uma cidade adormecida, ninguém pelas ruas. Custamos a encontrar alguém para nos indicar o local da prova.

Depois de um pouco mais rodar, chegamos. O clima contagiante de começo de prova estava no ar. O que, ou melhor, quem vimos nos assustou um pouco. Só tinha fera, gente conhecida de outras tantas, atletas de ponta. Povo ligeiro, super treinado. David matou a charada: tinha prêmios, e bons, em dinheiro. Aí, os feras vão mesmo. E eles estão certíssimos, são bons e sabem o valor que têm.
Já na largada deu para sentir o nível dos caras. Sumiu todo mundo! Lá fui eu na minha toada de sempre, quase em tour por Monte Carmelo, um sobe-desce sem fim. Fiquei literalmente na poeira. Fui incentivado pelas pessoas durante todo o percurso. Crianças corriam comigo para dar força: “Vai moço, você consegue!”.

E consegui! Uma hora e três minutos em meu cronômetro ou cinquenta e oito minutos na medição da organização. Cruzei a linha de chegada! Último dentre todos. Realizado e feliz.
E para coroar o divertido esforço, ainda fiquei em quarto lugar na categoria dos cabeças grisalhas. Último sim, mas quarto e com medalha. Valeu o domingo, valeu a diversão, valeu o almoço da quermesse à base de frango caipira, coisa de vó e de sogra, coisas da roça.
Ano que vem, estou de volta e, desta vez, espero, com quarteto completo.
Lembrando dos despertadores dos celulares e do relógio, desabilitei todos. Minto, ficou só o das cinco e trinta.





Publicado em Jornal Correio em 05 de junho de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhaElWa3c2a1RTWjQ/edit?usp=sharing






Texto completo também em PDF ( a versão acima para publicação no Correio possui apenas 3300 caracteres com espaço) AQUI

domingo, maio 25

Calçadas livres


Foto: Marcos Salles

Jornal CORREIO de 6 de maio 2014: “Promotor defende liberdade de locomoção dos pedestres nos passeios”. Parabéns ao Ministério Público. A ele, todo meu incondicional apoio e aplauso. A manifestação de donos de bares solicitando liberação de parte de nossas já tão estreitas calçadas beira o nonsense total. Vi foto no jornal onde aparecem donos de bares carregando cartazes de protestos com o objetivo de pressionar o legislativo a alterar o código de posturas e liberar geral os passeios, essa irregular, esburacada e desrespeitada faixa que separa o asfalto dos portões de nossas casas. Dois desses cartazes me chamaram especial atenção: “Pagamos muitos impostos” e “Temos família para sustentar”. Por todos os Orixás, serão apenas eles? Ou aquela multidão que é expulsa de relativa segurança no deslocar por mesas e cadeiras é apenas figurante? Talvez, por puro prazer, gostem de ficar pulando entre carros. Deve ser isto. Ninguém mais é extorquido por impostos de toda natureza nem possuem pessoas e pessoinhas que deles dependem. Apenas os que ali protestavam carregam o peso do mundo, revezando com o mitológico titã Atlas.

Se botarmos atenção, veremos que a maioria dessas pequenas faixas de mobilidade urbana, destinadas aos pedestres deveria se chamar pistas de cross, trilhas ou algo similar. Dignas são de prática de um esporte secular: o pedestrianismo como chamam a caminhada em Portugal. Só que lá, pode-se caminhar ou pedestrianar – horrível expressão, certamente inexistente – por belos jardins e praças. Ruas calcetadas (outra expressão lusitana) com primor, capricho artístico, seguras, educadas.

Já aqui em terras ultramar, o simples caminhar é radical total. Melhor usar equipamento apropriado de segurança.

Deixando de lado o estado de conservação das vias e os esportes perigosos, voltemos ao empachamento de vias públicas.

Um fenômeno estranho está a ocorrer há tempos no país. O público vem se tornando privado e o privado se tornando público em veloz frequência. Quando obstruo um passeio público com minhas mesas, churrasqueiras e altos sons estou me portando como transgressor, pois invado o que é de todos. Quando invado propriedade privada a situação é idêntica, já que tomo posse do que é de outrem. Transgressor outra vez. Tudo de cabeça para baixo.

Adoro boteco. O ambiente é agradável, descontraído e fico horas, desde que a companhia seja boa, ali a jogar conversa fora, falar de futebol, defender meu Galo mineiro. Falar de política, rir de piada velha. Mas não preciso sentar em mesa à rua. Já o fiz, confesso, mas ficava sempre sem graça a cada olhar de soslaio, a cada tropeço, esbarrão em cadeira. Não é certo, não é justo.

Espero que nossos promotores e nossa Prefeitura sejam rigorosos e não aceitem TACs ou coisas do gênero. A população agradece. Fica aqui, mais uma vez, minha admiração pelas ações do Ministério Público e nossa Prefeitura. Termino com fragmento do conhecido poema “No caminho com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa: “[...] Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor do nosso jardim./E não dizemos nada./Na segunda noite, já não se escondem;/pisam as flores,/matam nosso cão,/e não dizemos nada. Até que um dia,/o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,/rouba-nos a luz, e,/conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não podemos dizer nada [...]”






https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRVY2ME5vM2F6TUE/edit?usp=sharing





segunda-feira, maio 19

E deu Pódio

Monte Carmelo, 10 km corrida rústica
Tempo em meu cronometro 1:03. Tempo segundo aferição da coordenação da prova  0:57 . Fico com o meu.

Percurso
 

Camiseta oficial da prova, parte das comemorações em louvor a Nossa Senhora de Fátima


Pódio  tristemente vazio, esperando quem o ocupasse


David e eu. Faltou Maria do Carmo e Luiz Mauro para completar o quarteto de tantas provas.


Quem corre conhece bem, quem não corre também. Jamais subestime o famoso "Dez" o cara  tem asas nos pés versão tropical do mitológico e veloz  Hermes poucos acompanham. Foi um prazer encontrá-lo em Monte Carmelo, simpatia e constante  incentivo para todos corredores.


 David no Pódio. Se ele que voa baixo ficou em quarto, na categoria, dá para imaginar o alto nível dos atletas. Tinha prêmio em dinheiro, olhas os cheques nas mãos dos 3 primeiros colocados. Choveu fera.


O meu Pódio, quarto também na categoria cabeça grisalha.


Um domingo  suado e bom e de muita diversão saudável. Fim corrida um belo e farto almoço na barraquinha da  igreja: Carne de panela com batata, feijão batido, arroz, frango caipira ao molho e salada farta e colorida.



Corpo e alma leve depois da corrida


Dois dos organizadores do evento



Na volta, vista à Basílica de Nossa Senhora da Abadia na cidade de Romaria



segunda-feira, maio 5

Circuito de Corridas Caixa

Circuito de Corridas Caixa - Etapa Uberlândia
Tempo: 31:38 - Rumo aos 28:00,  meta para 2014 !

Clique nas imagens, elas ampliam.


Fotos  Bia Stutz

Certificado de participação - Clique abaixo



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhU0xoUGJ0MVdac1k/edit?usp=sharing






quinta-feira, maio 1

Política na web

Lendo a coluna de 23/4 de Ivan Santos “Armados para lutar na web”, sobre partidos capacitando militantes para brigar por seus candidatos nas eleições que se aproximam, me pus a pensar. Será que esse “Exército Digital dos Partidos”, termo de Ivan, plural meu, vai mesmo conseguir dobrar alguém com a conversa fiada de blogues e redes sociais? Tenho minhas dúvidas.

Vamos usar alguns números, embora deteste isto. Como dizem alguns, os números, ou seriam as cartas, não mentem jamais. Desde que não manipulados, pois, neste caso, dois mais dois podem ser cinco, oito ou até quatro. As estatísticas aqui apresentadas são do Ibope Media – ai, Jesus Cristinho! Coletadas no site “To Be Guarany”. Mas vamos lá.

Mesmo sendo o nosso Brasil varonil um dos países mais conectados do mundo com mais de 103 milhões de internautas, 31% dos caras que navegam em mares de bytes pegam no timão virtual para enfrentar os mares cibernéticos nas famosas lan houses. Por todos os santos, não estou me referindo ao Corinthians.
Pense comigo. Você acha que esse sujeito que paga por hora para entrar em seu (dele) Orkut (é, ainda existe) e Facebook vai perder tempo lendo baboseiras políticas ou ataques grotescos a políticos? Nunca! Vai lá é para ver fotos novas da galera, compartilhar acontecimentos de seu cotidiano ou, no máximo, fazer alguma fofoca e marcar encontro. Entra também para realizar consultas digitais, procurar curas, já que quase sempre desconfiam de diagnóstico médico. A web é boa nisso. Deve haver milhões de doutores formados na Harvard University dando consultas de graça pela internet. Vá sonhando. Ah, compra-se muito também via conexões disparadas das lans. Ainda não entendi este fenômeno.

Tempo é grana e quem pensa que estes 31% estão a fim de gastar com apelos políticos rancorosos estão enganados. Eu não gastaria um centavo de meu tempo numa dessa.Ainda segundo a “To Be”, infelizmente, a desigualdade também impera no mundo de matrix: “Entre os 10% mais pobres, apenas 0,6% tem acesso à internet; entre os 10% mais ricos esse número é de 56,3%. Somente 13,3% dos negros usam a internet, mais de duas vezes menos que os de raça branca (28,3%). Os índices de acesso à internet das regiões Sul (25,6%) e Sudeste (26,6%) contrastam com os das regiões Norte (12%) e Nordeste (11,9%)”. Portanto, grande parte da massa de eleitores não será atingida como eles, pois imaginam estes soldados do ciberespaço carregados de um ódio inexplicável.

Temos também de levar em conta a preguiça de ler da maioria de nós brasileiros. Querem partir para o humor, charges políticas para desfazer desse ou daquele candidato. O problema é que muitos nem entender vão e a estratégia de tentar fixar no subconsciente mensagem subliminares remete a um tal de Goebbels, já ouvi falar? Mas o que preocupou muito foi o arremate do texto de Ivan Santos, quando cita a falta de moral e ética que vai rolar.

As sombras do anonimato permitem tudo, é nojento, imoral, covarde. Só afastam o eleitor, já cansado de tanta conversa fiada, promessas não cumpridas de gente desgastada, travestida de bonzinhos salvadores da pátria. Ora, se o cidadão já xinga quando a novela começa mais tarde por conta de um horário eleitoral obrigatório sem pé nem cabeça, imagine se vai gastar seu precioso tempo de internet lendo briga. Tem dó!

Publicado Jornal Correio em 1º de maio 2014





https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRHlES0t2Umhwdjg/edit?usp=sharing