"Se for falar mal de mim me chame, sei coisas horríveis a meu respeito" (Clarice Lispector)
terça-feira, outubro 9
Gente das leis
Conhece profissão mais ardilosa do que a de advogado? Quando o cara é bom, é bom mesmo e não tem aperto em situação alguma. O interessante é que não apenas em defesa de alguma causa, ele leva sua esperteza e poder de convencimento para sua vida, seu cotidiano na prosa mais simples com os amigos, nas calorosas discussões sobre qualquer assunto, política ou futebol.
Claro que há alguns que são um desastre, mas toda profissão os tem. Convivo muito com advogados, em suas mais diversas especialidades do Direito, tais como os mais tradicionais do Direito Civil, Comercial, Direito do consumidor, Direito tributário, Direito trabalhista, Previdenciário e Penal. Há também alguns bem à frente no tempo do que a maioria, que se embrenharam por novas áreas como o Direito virtual, eletrônico e o Biodireito. Este é louquíssimo e deve ser fantástico, pois tenta responder a perguntas tipo "Até que ponto devem ser utilizados recursos médicos e tecnológicos para o prolongamento da vida? Os transgênicos são realmente uma ameaça ao homem?"( Fonte: "Advogado"; Editora: Publifolha).
Ia me esquecendo: Com a dinheirama que rola não só pelos gramados, mas por todas as quadras e tabuleiros, aparece o Direito desportivo, um verdadeiro e intrincado jogo.
Ai de mim se não cito a fonte. O Direito autoral devora meu fígado.
Além dessas áreas fazem parte de meu círculo de relações, Juízes, Promotores e Defensores. Tenho na família que muito amo.
Admiro a profissão e pensei um dia em cursá-la, depois de formado em Medicina Veterinária. Porém, ficou só no querer, como muita coisa em minha vida. Muitos projetos e vontades. Estou tentando resgatar algumas antes impensáveis. Mas, o assunto aqui não sou eu, com minhas querências e pesares, são os advogados.
Ricos em histórias, muitas divertidas, outras nem tanto, em nossas longas prosas me municiam com material raro. Faço uso com a devida vênia dessa matéria prima recontando-as.
Já contei a história do bêbado que atormentou um delegado em pequena vila. Reconto o final para aqueles que já leram ou para aqueles que não. No bar, em pleno fim de semana, esse nosso amigo delegado resolveu tomar uma cerveja na única venda da currutela. Um senhor já de idade, totalmente embriagado, pegou a mangar do delegado: ─ O senhor pode me prender que eu saio, mas se eu prender o senhor sai não.
Paciencioso foi deixando. O velho ria que ria, com aquele olhar pastoso de todo bêbado (conhece algum que não o possui?).
Na tentativa de encerrar a conversa o Delegado falou firme ─ Mas afinal quem é o senhor que me prende e eu não saio!?
─ O Coveiro doutor, o coveiro. E destampou a rir que só. Foi o dia da caça, mas até o advogado delegado riu daquele tanto e trouxe a história.
Entretanto, deixaram outra que não poderia levar só comigo.
Vinha um advogado pela MS 240, beiraninho Porto Alencastro, quando do nada, em uma ligeira curva, viu um tatu prancheado no asfalto. Buscou acostamento e pegou o pobre bicho num morre não morre. Despejou água de sua garrafa companheira na cabeça do pequeno. Era um tatu galinha e esse logo virou o focinho e sorveu com sede de andarilho o litro todo.
Preocupado, colocou o bicho dentro carro e seguiu rumo. Pelo retrovisor observava que ele foi melhorando, ficando esperto daquele tanto. Foi nada não, alguns quilômetros a frente deu com bloqueio da polícia rodoviária que, lógico, o mandou parar.
─ Boa tarde senhor. Seus documentos.
─ Pois não, aí estão. Sua cabeça estava a mil por conta do bicho e do suposto crime ambiental cometido.
O policial ao contornar o carro viu o danado a pular no banco traseiro e endureceu.
─ E esse tatu? Sabe que é crime inafiançável carregar tais animais? Por favor, desça do carro.
O advogado desceu com um posso explicar já pronto. O guarda foi direto:
─ Conte a história. Se me convencer eu te libero.
─ É o seguinte seu guarda, tenho esse tatu há muito tempo e ele é até treinado.
─ Tá de sacanagem comigo?
─ Não, é verdade. É o seguinte, eu solto o bicho, ele vai longe e ai eu assobio, ele vem direto para minha mão.
─ Conversa! Isso não existe.
─ É a mais pura e sagrada verdade!
─ Bom, vamos fazer o seguinte, me prove e se for verdade te deixo ir. Combinado?
O Dr. advogado mansamente abriu a porta traseira do carro. O tatu vendo a liberdade guardou na capoeira que nem um risco, levantando poeira e embrenhou-se na mata fechada atrás de uma cerca de arame liso.
─ Muito bem, agora assobia para o tatu voltar.
O advogado, fazendo cara de paisagem, abriu os braços se fazendo de desentendido:
─ Você tá doido? Que tatu?
Publicado em Diário de Uberlândia em 07 de outubro de 2018
segunda-feira, outubro 1
Famosos
Há quem pense que a vida de famosos seja fácil. Glamour, festas de segunda a segunda. Flashes, sempre cercados de gente bonita e sorrisos. Portas sempre abertas. Vai nessa! Pense cá comigo, sinta-se no lugar e imagine que é de você que estou a falar. Me dê algumas palavras e depois conte.
Cai o pano, fecham-se as cortinas, a plateia volta para casa, o teatro fica vazio, som de passos miúdos se agigantam dentro de imenso espaço. Ouve-se agora apenas o barulho de vassouras e rodos. Nos botecos, quando nos querem para fora, aquela última mesa que fica e vai ficando, garçons já sem uniformes, levantam as cadeiras e jogam água no chão, repleto de espuma de detergente. No teatro é diferente. Após o espetáculo, o zum zum zum na coxia, comentários sobre peça/show, marcação, público. Não jogam água para expulsar os tranquilos artistas. Apagam as luzes.
Resta pálida luzinha que leva aos camarins. Aí a vida volta a ser. O personagem é desmontado devagar para não se ferir. Maquiagens, perucas, roupas. Ali, jogado em cadeiras, cabides, araras, vai ficando o sonho, o imaginário, parte da alma.
A casca sai, mas a criação sai junto. Leva tempo para se desfazer. Talvez solidão e vazio possam ser os únicos companheiros naquele instante. Tira-se a máscara, veste-se um sorriso.
Lá fora ainda se ouve sons de fãs à espera de ficar bem perto ou tocar o artista. Quem sabe uma foto, talvez uma "selfie"? Mas, se é "selfie", não pode ter outra pessoa. Vá lá, deixe de ser chato, literal demais! Pronto, uma selfie em grupo ou um sozinho com muitos. Talvez ali se expresse com força sentimento de isolamento. Rompe-se salão adentro, novamente luzes, flores, brindes, beijinhos à distância, apertos de mãos. Entrevistas aborrecidas. O cansaço escondido atrás de ar de satisfação. Afinal, é atriz e sabe atuar. Jantares sonolentos, amanhã o dia começa cedo. Dormir será pouco. O corpo doendo, a cabeça a mil. Contas a pagar. Será que o borderô foi legal essa noite? Bom, a casa estava cheia. Pensamentos entrecortados por brindes, mastigares, movimento de pratos. A comida sem gosto certo. O que foi que pediram mesmo? Dez vozes a responder e explicar o prato. Finge que entende. Come sem prazer. Um banho e uma cama é tudo que deseja.
O diretor ainda se perde em detalhes do espetáculo de amanhã. Alguns se deixam encantados. Se alguém se atrever a me cantar vai ter barraco, pensa com aquele sorriso plástico ainda preso no rosto. Sente pequena câimbra no canto do lábio. Percebe que começa a tremer. Aproveita o gole de vinho para relaxar os músculos da face.
Então você quer glamour de estrela? Se prepare, pois talvez seu trabalho anônimo em algum canto de escritório seja mais tranquilo e recompensador. Já pensou que pode se dar ao luxo de comemorar a chegada de um fim de semana? E se houver feriado na segunda ou na sexta? Alegria dobrada. Pense na paz de espírito de ter apenas um chefe sacana. Ele também tem seus podres e você os conhece. Se apertar o assédio moral ou qualquer outro, você o expõe. Simples assim. Atriz/ator não pode, mas deveria. E o sossego de não ser reconhecida nas ruas, sem multidões a lhe pedir autógrafos e posses? Quer fechar a cara? Que feche. Ninguém vai te censurar. Não será vigiada por espiãs/espiões, por bando de paparazzis, que jamais te darão trégua, escondidos em bancos traseiros de carros, latas de lixo ou na copa das árvores. Ah! Se for em Uberlândia, não se preocupe, pois as árvores não tem copas e geralmente possuem pouquíssimos galhos, já que foram mutiladas por quem as deveria proteger.
Um amigo contou história de certa cantora "sertaneja universitária", em turnê aqui no cerrado. Fã lhe pediu quase chorando que ela autografasse seu chapéu de peão urbano. Assim ela fez. Escreveu romântica: "Com amor e um beijo”. Graciosa D’alho (nome artístico fictício para não contar a santa, só o milagre).
O cara olhou a dedicatória e completou:
─ Pode por meu nome aí?
─ Claro querido, como se chama?
─ Washington da Silva - respondeu estufando o peito.
Nossa Graciosa fez que ia começar a escrever, parou, pensou e percebeu que não iria dar conta. Arrematou brejeira:
─Tem apelido não?
─ Claro! Fica melhor assim. Mais íntimo né? Bota aí me tratam por Schumacher! Lascou de vez
Viu só? Acha que é mole? Agradeça todo dia a vida aparentemente normal que tem sô!
Publicado Jornal Diário de Uberlândia em 30 de setembro de 2018
segunda-feira, setembro 24
Arrastão
Não é surpresa para ninguém que, com o passar do tempo, a gente fica quando em vez melancólico, com saudade de uma coisa que não sabe o que é. Um trem que fica lá dentro remoendo com vontade de sair de alguma gaveta empoeirada, perdido fundo no guarda-treco da memória. Estranhamente as tais gavetas não tem etiquetas, numeração ou qualquer coisa que identifique seu conteúdo. Tem que ser busca ao acaso. Quando ando pelos labirintos de minhas cômodas repletas de lembranças, a primeira coisa que faço é soprar o pó do tempo ali acumulado por distrações frequentes.
Sigo a miúdo passo levando a mão em carinho sobre elas. Algum toque na qual busco e ela vai se fazer presente.
Noto longe, no profundo corredor, pequena luz. É ali que está o que me vem, mas não posso ficar ansioso, nem correr atrás com muita gana, pois a luz pode perceber minha aflição e, ciente de que não saberia saboreá-la com o devido cuidado, simplesmente sumiria, me deixando no escuro do "como era mesmo?"
Hoje desde cedo assim acordei. Não chegava a tristeza, nem a nada em busca arômata conhecida, mas sem identificação. Não era melancolia na acepção da palavra. Era sem nada ser. Era só isso.
Como estou em clausura forçada, ócio imposto por gente repleta de invídia gratuita - talvez nem tão gratuita assim - resolvi me deixar levar pelo silêncio e abrir as portas do corredor de gavetas. Bem ali perto, uma tênue luz mostrou a direção a seguir. Manso, segurei o puxador e mergulhei em seu conteúdo.
Durante minha infância até a adolescência passávamos pelo menos quatro meses por ano na praia. No começo, casa alugada, família junta e estrada de terra em gena de trecho até chegar ao Atlântico. A areia era minha segunda morada.
Com o passar do tempo, resolvi que ir só ou com pouca companhia era melhor ainda. Barraca, mochila, pouca grana e o mundo era nosso.
Assim foi por muito tempo.
Preocupados com as mudanças do tempo e não me refiro a chuva e vento, mas a uma escuridão malévola, que cobriu todo um país, trevas da "redentora", quando gente sumia para nunca mais, meus pais resolveram construir uma casinha simples. Delicioso abrigo a cinquenta metros da praia, em rua de pura areia e sem carros.
Mineiro de Belo Horizonte, não é necessário ser, nem consultar Oráculo de Delfos, para saber em qual estado ficava nossa casinha. Na mosca, no Espírito Santo, uai!
A esta altura a gaveta transbordava em luz e lembranças límpidas, perfumadas e repletas de sons. O quebrar das ondas em seu eterno lamber areia, as gaivotas ávidas por alguma sobra do arrastão matinal.
O dono do arrastão era Cabo Afrodísio, homem da cara amarrada, mas sempre pronto a sorriso aberto. Nossas pequenas mãos ajudavam a puxar toda manhã aquela corda imensa. Pelo peso tentávamos adivinhar a pecaria do dia. Quando dava na rede, mãos hábeis e ligeiras dos pescadores retiravam os peixes, caranguejos e camarões. Mas a grande espera era pelo bolsão final. Quando este se abria na praia era uma festa de gente e bichos.
Nós pequenos ficávamos agora de lado, para não atrapalhar os mais velhos. Em movimentação o de valor era colocado em imensos jacás feitos de corda. O que não era ali mesmo comercializado com turistas seguia para o mercado de peixe do arraial. Redes embarcadas eram levadas para outra ponta da praia, ainda havia tempo para mais um arrastão.
Nós crianças, ali parados a ver os barcos quebrados por ondas de ponta, corríamos com nossos baldes a salvar os pequenos peixes e siris abandonados na areia para morrerem sob sol escaldante ou serem comidos pelas gaivotas e guruçás famintos que, mesmo com o pisar de gente, se arriscavam fora das tocas. Todos os miúdos eram levados de volta à água.
O maior prazer estava em salvar as estrelas do mar. As recolhíamos uma a uma com especial cuidado. Mar adentro, com água até na cintura, as colocávamos de volta uma a uma, em ritual. Dava para sentir um perfume doce de flores a nos soprar, Yemanjá, tenho comigo, agradecia sorrindo o retorno de suas criaturinhas.
Dou parada no contar em respeito ao espaço, mas continuo. A gaveta estará aberta por um longo tempo, pois há muito a dizer sobre este meu paraíso.
Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 23 de setembro de 2018
terça-feira, setembro 18
Camafeu (Reminiscência)
Talvez os mais jovens – putz, me senti um velho agora –, aqueles que não conheceram bonde – o de Santa Tereza RJ não vale –, que não têm a mínima idéia ou no máximo ouviram falar de vídeo K7, máquina, monóculo com foto, câmara fotográfica com rolo de filme Agfa de doze, vinte quatro ou quarenta e oito poses... E principalmente, o que é pior e vem se tornando infelizmente cada vez mais comum, nunca se deram ao prazer de ler clássico de nossa e da literatura mundial... Estes talvez também não devam ter a mínima idéia do que seja um camafeu.
Vamos lá então. Camafeu vem de longe, pra lá de séculos antes de Cristo. Encontrado em escavações arqueológicas, pelo visto sempre foi um enfeite. A realeza egípcia era vaidosa ao extremo, nunca entendi o motivo de só serem pintados de perfil. Bons em invenções e construtores audazes, eram ruinzinhos em perspectiva. Ou então pediam para crianças pintarem tumbas e pirâmides como parte do ensino para se tornarem futuros arquitetos. Se foi assim, enganaram a todos que profanaram seus santuários. Doce deboche.
Geralmente camafeus são feitos em pedra preciosa, trazem delicada escultura em alto relevo. Já foi pingente, mas nossas avós os usavam em seus xales cheirando a água de lavanda como prendedores. Existem peças maravilhosas em museus mundo afora ( museu...palavra de que só de ouvir dá aperto de tristeza e nó na garganta, as cinzas já assentaram, pouco se fala do assunto mas o cheiro de fumaça ficou impregnado na memória) .
Pois não é que tempos atrás, década de oitenta ou comecinho dos noventa, em jeep emprestado da Secretaria de Estado da Saúde, cinza, ,(lá vem museu à lembrança novamente) capota de lona rasgada, queimando óleo quarenta, ao passarmos pela então tranquila Praça Tubal Vilela avistamos sujeito vendendo filhote de tamanduá, assim na cara dura. Naquela época as leis de proteção de fauna, se existiam, ninguém dava a menor bola. Hoje muita gente ainda caça e pesca ilegalmente, mas já faz com medo pois sabe que se pego for vai se dar muito mal. Naquele tempo não. Pedi para parar o projeto de sucata e desci cuspindo fogo pelas ventas. Dei uma danada de uma bronca no sujeito que ainda teve a pachorra de contar assustado me olhando que matou a mãe para comer e queria vender o filhote, tinha família com fome, vinha de um longe nordeste.
Me bateu uma vergonha sem tamanho, a pobreza levou aquele homem a um ato que para ele era normal, só queria como qualquer um sobreviver e salvar os seus.
Comprei o bichinho, ganhei um problema. Como todo bom tamanduá miúdo, acostumado estava em ficar agarrado com a mãe. Não deu outra. Já no pegar o pequenino se agarrou a mim em busca de proteção, carinho e calor. Aninhou mesmo.
Adotamos o tamanduá e passamos a revezar no carregar e alimentar.
Tereza, colega de trabalho, não demorou a batizá-lo de Camafeu.
Camafeu ficou conosco muito tempo, cresceu forte, às vezes gripava, e não tinha cerimônia em correr aquela língua gelada em quem o pegasse no colo.
Mas como tudo tem um the end, dia chegou de deixá-lo ganhar mundo. Debaixo de tempestade de choro das meninas e muito nó na garganta e falta de coragem de verter lágrimas choro nosso, entregamos Camafeu para a Florestal, esta seguramente o soltou em local apropriado. Hoje já deve ser avó ou avô, tanto trato e nunca olhamos se era macho ou fêmea, curioso isso.
Quanto à máquina mencionada lá no alto, a minha é uma Remington, não o revólver ou rifle, a máquina de escrever, sabendo que palavras são bem mais poderosas do que armas, para não perder a chance de usar um lugar-comum. Vi charge genial onde o pai escrevia em uma máquina e o filho tipo geração Y observava fascinado, certa altura não aguentou e eufórico disse: “Pai, que doido, esta máquina é tudo de bom, é só escrever que ela já imprime!”
Sinal dos tempos...
Veterinário e escritor
Republicado em Diário de Uberlândia em 16 de setembro de 2018
terça-feira, setembro 11
Setembro em cinzas
Em pleno domingo, 2 de setembro, acompanhei tudo sobre o incêndio no Museu Nacional que consumiu grande parte de nossa memória já tão pobre e desprezada. A essa altura do campeonato muito já deve ter rolado, uma semana já se passou e sei que nesse domingo 9 de setembro, dia do Médico Veterinário, quase tudo já foi dito sobre o trágico acontecimento. Me perdoem mas não posso me furtar a tocar no assunto.
Escrevi este meu desabafo no dia seguinte, pois não pude deixar de relatar a estranha dor que me incomoda tanto, como pesadelo a se repetir.
Ontem, dois de setembro, ventou muito e todo o acumulado de agosto foi gasto com força. O vendaval trouxe consigo não apenas pó/poeira, folhas secas em redemoinhos e pânico aos pequeninos emplumados, agarrados a seus ninhos e ao carinho de pais e mães passarinhos.
Vento de setembro espalhou por todo país, por nossas consciências, para nosso horror, cinzas de nossa memória. O Museu Nacional ardeu em chamas. Pedra cantada. Em tristeza acompanhei tudo pelo rádio. Não tive coragem de ver as cenas. Senti-me um pouco culpado, como quase todo brasileiro que sabe o inestimável valor de nossa história, de nossas vidas, do aço que deveria ter nos forjado gente humana.
Esse dia entrará para a triste história do Brasil. Um país que, como está, deveria ser interditado, tamanhas as mazelas assistidas em nosso cada vez mais pobre cotidiano. Um setembro que se propôs amarelo, dedicado à prevenção do suicídio, do nada assassina sua memória, sem dó nem piedade.
Viajo à Alexandria 642 a.C., quando esta foi incendiada pelo governador geral do Egito. A história joga toda culpa da tragédia em um homem só. Porém, de acordo com Ana Freitas, "O declínio da Biblioteca de Alexandria foi gradual e se deveu a algo que, infelizmente, a gente conhece bem: um corte de gastos públicos e burocracia."
O Brasil perdeu seu maior museu de história natural e poucos lastimam. Ando pela cidade e não vejo um grupo sequer comentar a tragédia. O assunto continua: futebol, eleição, dólar e mais futebol.
Penso em perguntar se alguém ouviu contar do incêndio ocorrido na antiga residência real, onde nasceu D. Pedro II, na Quinta da Boa Vista no Rio de Janeiro. Resposta única recebida: "No Rio? Ah, então foi na favela. Aposto que foi guerra entre traficantes!"
Suspiro profundamente. Não sinto vontade de conversar. Memória? Para que lembrar? História? Para que contar? Educação? Para que educar?
Educa e perde-se o cabresto. Senhores de engenho não querem colher sua própria safra.
Ouço ao longe um cantarolar:
Se essa rua/ Se essa rua fosse minha/ Eu mandava/ Eu mandava ladrilhar/ Com pedrinhas/ Com pedrinhas de brilhante/ Para o meu/ Para o meu amor passar.
Estranhamento. Quem em dia tão triste cantaria melancólica canção? Alguém, em algum lugar, externa sua tristeza com a pirotecnia pavorosa, com gentileza e carinho. Saio à rua procurando origem. Acho não.
Literatura (arte & história) seria propagadora da infelicidade, como vaticinou Truffaut em seu Fahrenheit 451, com seus bombeiros do fogo.
O que dizer dos nazistas na Alemanha e do Partido Bolchevique de Lênin e Stalin durante a revolução russa?
A história, sempre ela, a nos lembrar dos absurdos.
Recentemente Cláudia Fusco nos relatou como o Estado Islâmico destruiu o Templo de Baal-Shamin, construído na cidade síria de Palmira, no século II a.C.
Não parou por aí. O Templo de Baalshamin e o Mosteiro de
Mar Elian, construídos há mais de 1500 anos, na cidade síria de Al Qaryatain, também vieram abaixo. E mais algumas dezenas de monumentos entraram na lista destes "libertadores".
Nós não precisamos de grupos religiosos para que nosso patrimônio cultural seja destruído. Temos a infelicidade da destruição oficial, governamental. Somos autosuficientes na matéria.
Importante contar que nas comemorações dos duzentos anos do Museu Nacional nenhum, repito, nenhum ministro de estado se dignou a comparecer. Ato este que deixa claro o que podemos esperar desses senhores do poder.
Outubro teremos eleições e sou obrigado a dizer que não vejo em nenhum candidato à presidência da república a mínima possibilidade de mudança. Estamos reféns de uma política nefasta, egoísta e covarde.
Em dois de setembro de 2018, em um estertor de um moribundo agosto, os céus do Brasil literalmente choraram cinzas de nossa história, de nosso passado, dificultando ainda mais a possibilidade de criar um futuro melhor e mais belo para todos. Eu jogo a toalha, desisto de vez. Que os céus se apiedem de nós, estúpidos humanos.
Publicado em Diário de Uberlândia em 09 de setembro de 2018
quinta-feira, setembro 6
Turismo
Muita gente brinca que o brasileiro deveria ser estudado pela NASA. Acredito que na maioria das vezes o dito em tom de brincadeira toma ares de verdade nua e crua. Temos bons e terríveis exemplos para justificar uma análise mais aprofundada de nossas condutas e fazeres. Ouvi de amigo que em um estudo científico ficaria difícil a decisão em qual tabela nos encaixar.
Contam que, em uma viagem de férias pela região das vinícolas da serra gaúcha, seguiam casal e filho miudinho em cadeirinha de segurança e tudo, em conformidade com a lei.
Visitaram os vinhedos tradicionais de Gramado, Bento Gonçalves, Canela, Caxias do Sul e Garibaldi. Como ainda tinham tempo de sobra, se aventuraram pelas belas paisagens de Flores da Cunha, Farroupilha, Pinto Bandeira e a pequena, e repleta de histórias, Entre-Ijuís.
Seria ufanismo querer comparar essa região com a Toscana, na bela Itália, mas mesmo assim as belezas naturais e o estilo europeu de ser sobrevivem fortemente aqui em nosso Brasil sul. Claro que em tour como este, turistas não conseguem ficar sem provar em cada pousada, restaurante ou recanto, o vinho da casa, produzido ali mesmo, preservando costumes ancestrais. Uva pisoada ritmicamente em tanques de pedra, contam que o bom vinho depende dos calcanhares de quem pratica a "pisa". Ali mesmo onde os cachos são espremidos o mosto é fermentado. Cada um com seu jeito e gosto. O tempo se encarrega de dar o toque final. Guardados em imensos tonéis, geralmente de carvalho, descansam em sonho tranquilo até o momento do envasilhar.
Nosso incauto se esquece de que está dirigindo e depois de algumas boas taças não tem como não ficar um pouco mais, digamos, alegre.
Numa estrada exuberante, fechada em túneis de belas árvores, que faziam do sol caleidoscópio por entre as folhas, surge ligeira curva. Pronto! No virar dá de encontro com barreira policial. Obedeceu imediatamente o sinal de parar. Encostou, abrindo o vidro, dando uma de duro:
─ Bom dia Sêo guarda!
─ Bom dia meu senhor, por favor, documentos do carro e carteira de motorista! Uma educação pouco vista.
─ Pois não, aqui estão.
O policial rodoviário, com os documentos na mão, contornou o carro, verificou placa e com sorriso sincero no rosto comentou:
─ Bá, tchê vieram de longe, apreciando o belo Rio Grande?
─ O senhor não tem ideia o quanto. Pretendemos voltar sempre.
─ Ficamos felizes. Temos muito orgulho de nossa terra. Aproveitando a parada e não querendo tomar muito tempo de seu passeio, o senhor se incomodaria de soprar em nosso etilômetro, ou bafômetro, como dizem em tua região? É simples como tomar um baita chimarrão ao contrário tché.
─ Claro, sem problema sêo guarda, com prazer - já sabendo que ia levar bronca.
Soprou com força e não deu outra. Pequena, mas significante alteração. Nada que classifique o motorista como embriagado, mas acima de 0,5 miligramas deu.
O Guarda:
─ Meu senhor, acho que temos um problema aqui. Acredito que o senhor andou provando muito de nossos vinhos. Teremos que deter o senhor.
─ Peraí - em retruco calmo. Este aparelho foi aferido pelo Inmetro? Se foi, onde está o selo e a data da avaliação?
─ Olha senhor, não sei lhe dizer, mas estes equipamentos não costumam falhar.
─ Então vamos fazer um teste. Está vendo meu bebê dormindo no banco de trás? Autorizo o senhor a fazer o teste com ele e aí vamos ver no que dá. Tudo bem?
─ Sem dúvida. Vamos sim fazer com o piá!
E assim foi. Com cuidado danado e sem acordar a criança o guarda conseguiu que o sopro fosse capturado.
─ Bá e não é que deu positivo também! Em susto, observou o rodoviário. Tens razão, este aparelho deve estar com defeito. Desculpem-me e sigam em paz. Boa viagem. Voltem sempre. O Rio Grande do Sul vos abraça.
Com pequeno aceno de despedida seguiram trecho. Até aquele momento a mulher manteve um silêncio absoluto, não muito normal em tais situações, mas ficou em um balançar de cabeça sem fim.
─ Ô mulher fica brava assim não. Eu estava tão errado em dar um pouquinho de vinho para nosso filho dormir? Iria ajudar! E não ajudou?
NASA, mande gente. Fast!
Publicado em Diário de Uberlândia em 02 de setembro de 2018
segunda-feira, agosto 27
Faz de conta
Fazia-se tarde. Final de dia calmo, sem muita novidade. Um dia comum, mas vencido com muito sossego. A tristeza é que era domingo e que quando novamente o sol mostrasse seu dourado ouro de inverno seco, sem muito frio, começaria uma segunda-feira. Ainda não entendo a birra que tenho com uma segundona.
Acho que quase todo mundo tem. Talvez pelo fato de levantar mais cedo, ter compromisso riscado, alguma ressaca, ou algum desamor de fim de semana. A verdade é que, segundo pesquisa não realizada, nem registrada no TSE ou em cartório algum, noventa por cento dos humanos preferem ardorosamente que a semana comece em uma terça. Há até um projeto lei enviado ao congresso, que talvez venha a ser submetido à consulta pública pelo fim das segundas-feiras.
O problema é que nossos políticos lá na capital desconhecem as segundas-feiras e já a aboliram de seus calendários de mesa. E tem mais. Riscaram também as sextas. Fica complicado para eles entenderem o que é uma segunda. Talvez fazer passeatas, bater panelas, acender e apagar luzes, mobilizar a imprensa, pintar a cara e realizar carreatas país afora, consiga sensibilizar a classe política. Lembrando que o ano é de eleições, se algum candidato colocar em seu programa de governo a extinção do triste dia, tem meu voto. Duro é que sabemos que uma vez eleito, adeus promessas.
O domingo escorria entre as árvores, horizontes e dedos. O recolhimento se fazia em ritmo de mosteiro. Cada um buscando sua clausura interna. O ciclo se fechava mais uma vez. Nem passarinho queria piar um boa noite. Nosso gato sem dono miou baixo, pedindo a derradeira refeição do longo dia.
Os grunhidos estridentes e horríveis de apresentadores de programas de televisão dominicais se faziam ouvir em janelas a piscar luzes em flashes, criando clima ainda mais deprimente para o fim de tarde. Busquei o som de Aretha Franklin, "I Say a Little Prayer". Tinha que ser. Uma das vozes mais lindas do planeta se calou semana passada.
"The moment I wake up/ Before I put on my makeup/I say a little pray for you/ While combing my hair now/ And wondering what dress to wear now/ I say a little prayer for you (...) "
Seguramente ela não se referia a um acordar na segunda-feira. Em voz murmúrio, me dirijo ao gato. Este, mais preocupado com a ração do que com a razão de minhas viagens mentais.
Atento à musica, com tristeza me lembrando Aretha, sinto um frio percorrer o corpo. Olhos embaçam com poça de lágrimas que ali se formam. Olhos d'água. Reze por nós rainha, reze por nós.
Um som me chama atenção. Na quadra começam a jogar bola. O som do couro no cimento. Começo a narrar o jogo sem nada ver:
E as equipes entram em campo! As torcidas vão a loucura, o som de foguetes é alucinante! Fumaça colorida toma conta de todo gramado! Vem-me Elis cantando Wilson Simonal: "Brasil está vazio na tarde de domingo, né? Olha o sambão, aqui é o país do futebol".
Continuo a narração da peleja. O zagueiro avança com a bola para o meio campo! Ataque perigoso, chute forte e a bola explode na rede de arame atrás do gol. Tiro de meta! O goleiro rapidamente coloca a pelota no meio de campo. Um chute certeiro e a bola tinhosa entra na gaveta, ali onde a coruja dorme (termo que ouvi no rádio e gostei). É goooooolaço!!!!!
Desligo o pensamento e resolvo ir até a quadra assistir um pouco do bate bola.
Apenas um dos holofotes estava aceso, projetando fantasmagórica sombra sobre o espaço. De um lado escuro, de minha posição quase nada se via. Percebi um pequeno movimento saindo da penumbra, um arrastar de bola. Um menino, sozinho, estava a jogar. Os adversários eram imaginários como os meus em minha narração de longe. Senti novamente aperto. Um sentimento sem nome. O garoto tocou a bola com desenvoltura, passou por um, por dois, deu chapéu no terceiro, em um faz de conta. Craque magnífico, driblou o goleiro invisível e chutou forte para as redes. Virou como a abraçar seu time, pulou, se fez estátua com braço erguido e punho cerrado com Reinaldo do Galo fazia e em silêncio gritou seu gol.
Saí manso, sem que ele me percebesse. Não queria matar aquele sonho, como tantos mataram os meus. Comemorei o gol com sorriso triste. A solidão tem mil faces. Uma criança não deveria brincar só.
Publicado em Diário de Uberlândia em 26 de agosto de 2018
quarta-feira, agosto 22
Tutubarão
Outro dia vazio de vontade de sair e ver gente. Sem nada absolutamente para fazer, comecei a avaliar minhas opções. Faxinar a casa? Ah não, outra vez não! Serviço de casa não tem fim, pois tudo que fizer hoje, logo e rápido vem repetição. Como dono de casa sei bem disso e entendo perfeitamente os motivos que levam as(os) donas(os) de casa profissionais a surtarem, depois de pouco tempo de rotina chata e sem criatividade. A repetição leva à perfeição, dizem alguns. Quando se trata de afazeres domésticos acho que cabe mais: a repetição leva à piração.
Dispensei a faxina e literalmente deixei de pensar nela. Fica para outro dia. Ler um bom livro, taí uma ideia. Passei o olhar pela estante, corri o dedo entre meus companheiros. Não, sem essa de ler! Hoje iria dar muito trabalho. Cabeça preguiçosa, já sabia o que aconteceria. Iria ler a mesma página duas, três vezes e lá na frente teria que voltar, pois a sensação de ter perdido alguma coisa ficaria me atazanando. Deixa pra lá, os livros não iriam fugir mesmo! Bom, aí não posso afirmar com tanta certeza, pois tenho observado fatos estranhos em minha estante. Na quietança da noite, lá bem de madrugada, não foi uma, nem duas vezes, que percebo um burburinho, um conversar em cochicho, lá pelas bandas da estante. Tenho comigo que os livros trocam ideias entre si em momentos assim. Ponho atenção, mas pesco poucas palavras. Não consegui flagrar esse alegre convescote literário, porém suspeito do cardápio.
O que sei é que nas manhãs que precedem tais encontros tudo fica fora do lugar. A maioria dos livros já não está onde os coloquei e muitos se encontram espalhados pelo chão, dando a entender que o porre foi homérico. Não raro, às vezes encontro páginas rasgadas ou amassadas. Alguma desavença de conteúdo?
Enfim, resolvi deixar meus livros em paz.
Fazer o quê? Do nada, num silêncio próprio dele, o gato entra sem pedir licença, a miar um nãooo, nãooooo, comprido e sempre em negativa.
Bicho de rua nos adotou, aparentemente por puro interesse. Como o gato anterior que também me adotou e que foi ameaçado por ser manso, esse é tal e qual, só que mais arisco. Por ser um bicho erado sabe bem distinguir quem lhe gosta e foge das gentes de má índole. É um ótimo juiz da malvadeza humana.
Já comeu hoje gato? Responde um sonoro nãoooooo.
Coloco a ração com um bom sache de peixe misturado. Ele come feito onça que um dia sonhou ser. Depois, sem a mínima cerimônia, refastela-se no sofá e dorme o sono dos justos. Protegido do perigo e ameaças é só paz. Quando a noite pega a cair, boceja feito leão, que também sonhou ser, dá uma pandilhada daquelas que começam no focinho e em ondas chegam à pontinha do rabo. Deixa um nãoooooo para trás e desaparece entre moitas e sombras, Agora, só amanhã.
Gato tratado, horta cuidada, fui buscar companhia das piores: televisão.
Até que o tempo pedia, já que um friozinho se fazia sentir e o sol com sono, não estava mais com jeito de bons amigos.
Assim, me aventurei pela televisão. O cara que inventou o controle remoto merecia um Nobel. Aparelhinho bem mais importante do que muita coisa inventada. Não trocaria um controle remoto por uma batedeira de bolo, uma faca elétrica, ou por um Sputnik novinho.
Pronto, acomodado entre almofadas e controle na mão ponho-me a buscar.
Doido, mas com tanto canal não acho nada que prenda minha atenção. Vai daqui, vai dali, dei com um filme super trash: O Tubarão de duas cabeças. Tem coisa melhor, ou pior, para não pensar em nada? Ali me deixei ficar. Era a semana do tubarão.
História a mesma e, se não me engano, nos três filmes que vi um atrás do outro, os atores também são os mesmos. Em cada um dos filmes eles são destroçados, mastigados e jogados para o alto. As cabeças brigando cada uma por um pedaço. Muda o filme e lá está a mocinha do biquíni, o moço forte e heroico, além de figurantes que obviamente só aparecem para serem comidos pelo bicéfalo peixão. Muito sangue na água, muita gritaria. Cenas que poderiam ser gravadas em fundo de quintal ou garagem. Contudo, no estado em que me encontrava, só não encarava novela mexicana ou turca, pois aí é para acabar com os pequis de Goiás.
Perco-me em tempo com essas produções estranhas. Penso no sufoco por falta de dinheiro dos caras que se propõem a fazer essas bobagens.
Curto os defeitos pouco especiais que, de tão ruins, parecem gozação. Além disso, nesses filmes os bichos assuntam menos do que o Pikachu ou os Teletubbies.
Quanto pouco dinheiro desperdiçado para produção de besteira.
Bom, aguentei dois ou três rounds e vi que o melhor era sair de casa, encontrar amigos e jogar conversa fora. Pena que as conversas hoje só giram em torno de futebol ou política polarizada. Não sei o que soa mais trash.
De qualquer maneira, peguei a programação da série. Caso alguém se sinta vazio, vá lá.
Sharknado, Tubarões de Areia, Avalanche de Tubarões, Tubarão Fantasma, Tubarão Zumbi e, o mais "original" em título, Jurassic Shark. Deixa o Spielberg saber da brincadeira sonora que copiaram de seu "Park".
Em tempo, anunciaram um novo "sucesso" para a semana:
O tubarão de quatro cabeças. Perco por nada!
Publicada em Diário de Uberlândia em 19 de agosto de 2018
sexta-feira, agosto 17
Calango
- Mãe tem um jacaré na piscina!
- O que isso menina, onde já se viu! Estamos em Uberlândia e não em uma fazenda no Pantanal.
- Mas mãe, tem um jacaré na piscina lá no quintal, vem, mãe, vem ver!
- Ô menina, tem não, isso é coisa de sua imaginação. Andou escutando histórias de seu pai outra vez?
- Nem conversei direito com o papai hoje, e não é história. Tem um jacaré na nossa piscina. Vem mãe, juro que tem e se a gente não salvar ele vai morrer afogado.
- Então tá, vamos lá ver o tal jacaré. Deve ser aquele do Peter Pan, que comeu a mão do capitão Gancho. Brincou a mãe com o apavoramento da pequena criança.
Numa toada ligeira a menina puxava a mãe pelo bolso da calça jeans, com tanta força que se fosse outro tecido teria estourado.
Chegando ao quintal depararam com cena inusitada. Um calango, daqueles criados, que hora se debatia e nadava em círculos, hora se deixava ficar exausto a boiar, como a buscar fôlego e forças para conseguir se livrar daquela imensidão de água, que teimava em tentar engoli-lo. O instinto de sobrevivência jamais iria abandoná-lo e aquele lagarto iria tentar se safar enquanto o menor músculo de seu esguio corpo respondesse aos seus primitivos comandos neurais. A água estava baixa, estratégia para evitar que pombas às dezenas ali não viessem saciar sede e sujar toda as pedras das quais tão bem delas cuidava.
Calango deu azar, talvez distraído com alguma borboleta e sonhando com almoço garantido, errou a pisada e despencou piscina adentro.
- Não falei que tinha! Eufórica e, com ar de vitória, comemorou a mocinha do alto de seus poucos anos de vida.
- Jacaré né? Riu a mãe
- É um calango filha. Certo que é dos grandes, mas é um calango e não vai te pegar. Disse isto, fazendo careta e fazendo cosquinhas nas costelas da menina.
- Agora me ajuda a salvar o pobre coitado, pega a redinha de catar folhas.
Com cuidado pescaram o bicho e o colocaram sobre macia grama. Afastaram alguns passos e ficaram a observar o coitado, ofegante, a se aquecer e lentamente recuperar forças. Passaram-se poucos minutos e a mando da mágica da vida, um pulo, uma carreira e lá se foi buscar refúgio na segurança fechada de exuberante canteiro de samambaias.
- Feliz agora? Seu "jacaré" está são e salvo. Me deixa correr para as panelas pois senão o almoço hoje não sai.
Beijou carinhosamente a filha e se foi a pensar que de um jeito ou de outro estavam no caminho certo. Pelo menos conseguiram passar para os filhos o amor e respeito a todas as coisas vivas. Mostrar a elas o mal que os homens estavam a fazer destruindo o lar de tantas criaturas. Derrubando o cerrado, enchendo a paisagem de falsos lagos, represas sem fim que de tão grandes, tudo destruíam à sua volta. As balelas que eram os programas de recomposição e preservação de margens que, no fim, viravam clube particular de alguns poucos.
Pelo menos, seus filhos cresciam dotados da consciência de que era preciso mudar para que o planeta, como o calango salvo, pudesse se recuperar novamente. Eles jamais jogariam lixo na rua, nunca como certos párias da raça humana ou colocariam fogo em mato, terrenos ou em montes de folhas rasteladas, espalhando fumaça para todos os lados em clara demonstração de egoismo e arrogância. Cresceriam sabendo que os recursos são limitados e, se queremos continuar aqui devemos aprender a pensar como a terra.
Estava quase chegando à cozinha quando novamente ouviu grito estridente da filha:
- Mãe tem uma onça na mangueira!
Sem disposição a deixar a conversa se estender, já meio de mau humor, voltou ao quintal.
- Cadê? Deve ser algum gato perdido à caça de passarinho. Então, me mostra! Resmungou.
A menininha, meio trêmula, apontava o dedinho para mancha escura em meio à folhagem densa da mangueira.
Olhou, apurou a vista, chegou mais perto. Uma descarga elétrica percorreu seu corpo de ponta-a-ponta, ficou lívida e imobilizada. Agarrou a filha no colo e saiu em desembestada carreira casa à dentro. Era uma onça.
Republicado em Diário de Uberlândia em 12 de agosto de 2019
segunda-feira, agosto 6
Finalíssima
O campo de futebol era interessante, grande que só, parecia maior do que os oficiais dos estádios ou "arenas", como está na moda agora. Aqui tenho de fazer uma pausa na prosa para um assunto que me intriga. Algo que me deixa fora do sério e confuso é essa mania de imitar os outros nas coisas mais bestas do mundo. Não sei quem inventou essa história de trocar estádio por arena, mas como nosso futebol anda tão ruim e violento posso até aceitar e acrescento, ao invés de jogadores, que se tornem gladiadores. Arena lhes cabe bem.
Outra babaquice, agora no basquete, foi a criação da denominação NBB, "Novo Basquete Brasil", numa imitação grotesca , alusão à toda poderosa NBA norte americana, National Basketball Association . Tenha a santa paciência! O que tem de "novo"? Vai ser novo até quando? Daqui a vinte anos ainda será essa bobagem de "novo"? Falta de criatividade e amor próprio puro e simples. Copia-se o que é bom, não essas trenheiras bestas. Até juiz virou árbitro! Bom, esse tem a ver com nossa conversa.
Na realidade a "arena" era um piquete sem uso. Terreno ondulado, possuía um murundu bem no meio do campo, fazendo com que de uma trave não se pudesse ver a outra. Os goleiros sempre tinham sensação de solidão em certos momentos do jogo, mas quando vinha ataque adversário parecia coisa de filme: se via primeiro as cabeças dos jogadores e só depois é que seus troncos apareciam e, em desenfreada, vinham morro abaixo para encher o pé na bola de capotão G18. Para os que só conhecem as bolas oficiais da FIFA, a letra G é de gomos de couro e o número 18 era quantidade deles. Os tais gomos, formavam a bola. Rara e cara por aquelas bandas.
Atrás de um dos gols havia uma mata fechada, bruta. Sucupiras, aroeiras, perobas-rosa robustas, pura madeira de lei, compunham a mata. Na beirada, mamas-cadelas carregadas de frutos e crianças, abrigavam casas de João-de-barro, passarada sempre irritada em dias de clássico.
Beirando um dos lados do campo havia um pasto de vacas nelore, recém paridas. Tudo bicho bravo a proteger cria.
Quando o chute saía torto e a bola rumava para a mata ou pasto, era um Deus nos acuda. Entre as árvores, além de cobras, corria boato de onça em tocaia, atraída pela algazarra. Ficava, diziam, encolhida em galho grosso a observar na escuridão das sombras a chance de levar um almoço fácil. Criança entrava lá nem!
Se não para lá e fosse bola para o pasto das vacas paridas, aí não tinha bicho escondido não, mais temidas do que as prováveis onças da mata, as brutas estavam todas relando a barriga no colonião, com suas crias no pé. E quem é que entra? Onça era mais mansa do que aquelas montanhas de músculos, prontas a defender prole com toda e descomunal força que lhes foi outorgada pela natureza.
Eram horas para decidir quem ia buscar a bola. Houve jogo cancelado, por conta de bola perdida. A regra estipulada era que o time que isolasse a bola assim, tinha que comprar outra por conta e trazer no domingo seguinte para encerrar a partida e, como disse, eram raras e caras. Mas fazer o quê?
Sorte é que quase sempre aparecia um moleque mais atrevido que arrastava barriga entre o pasto, furtivamente, evitando o olhar nervoso das zelosas mães e conseguia recuperar a dita. Se bem que, vez ou outra, o jeito era correr feito doido e se cortar todo na cerca, em pulo para fugir de pisoado de vaca enfurecida. Ganhava picolé e refrigerante como recompensa e virava alvo dos olhos gulosos das meninas moças de toda região.
Do outro lado ficavam as "arquibancadas". Bancos de tábua colocados em fileira ao longo de todo o gramado. Contudo, a maioria trazia seu banquinho ou assistia como as crianças, empoleirados em árvores. Mangueiras centenárias, que forneciam frondosa e fresca sombra. O comércio de churrasquinhos, cervejas, pinga e de tudo quanto há era farto e o povo ia com força. Era a única diversão de quem por lá morava ou vinha acompanhando outro time. Briga? Sempre, mas nada que uns bons tiros de Flober para o alto não apaziguasse.
Naquele domingo acontecia a grande final do campeonato. O Roção como era conhecido. Jogo do time da casa contra outro da zona rural de município vizinho. O jogo corria frouxo. Alguns de botina, outros descalços, pois estes não se davam com calçado algum para jogar. Alguns privilegiados, que haviam juntado dinheiro, exibiam vistosas e coloridas chuteiras. Os jogos de camisa eram bonitos. Presentes de fazendeiros ou de comerciantes das regiões de origem dos times. Pareciam aqueles de Fórmula 1 de tanta propaganda de patrocinadores que carregavam.
Perto de acabar e zero a zero no placar. Foi quando um do time local deu um chute de efeito do campo de defesa. A bola apareceu do nada por sobre o morrote do meio de campo e, pegando o goleiro de surpresa, foi morrer no fundo da rede! A torcida explodiu de alegria. Mas qual, o apito do juiz se fez trinar e ele não apontou o meio de campo, anulando o gol.
─ Não, não, estava em posição irregular!
O capitão do time, homem calmo de fala mansa e educada ponderou:
─ Olha sêo juiz, não quero ensinar o pai nosso para o vigário, mas não tem impedimento se a bola foi lançada do nosso campo.
Não adiantou nada.
─ Quem manda aqui sou eu, gol anulado!
Apesar das vaias e irritação da plateia, o jogo seguiu.
Quase no finalzinho do tempo regulamentar, escanteio para o time da casa. Bola batida com perfeição, direto na cabeça do zagueiro e rolou mansa rede adentro. GOOOOLLLLLLL, levantou a moçada.
Novamente apito anulando o gol legítimo.
Novamente o educado capitão se aproximou do juiz, cabeça baixa, mãos para trás em sinal de respeito. Cochichou.
─ Sêo juiz, a regra reza que não existe impedimento em cobrança de escanteio. Longe de mim querer colocar ameaça, mas olha a nossa torcida, está enfezada e o senhor conhece o sistema aqui. Tem umas duzentas pessoas ali. Com o senhor apitando errado desse jeito, eu não vou dar conta de segurar esse povo não. Não me responsabilizo pela vossa segurança!
O juiz com cara de bravo, olhou aquele povão que espumava de ódio e revolta, desmanchou o semblante, caminhou para o meio do campo e chamou os capitães dos times.
Com cara séria, mas meio pálida, declarou solenemente:
─ É o seguinte, sabe esses dois gols que eu anulei? Pois é, analisei bem. Agora estão valendo! Festa geral. O time local levou a faixa do Roção 2018.
E não havia o tal árbitro de vídeo. Já pensou?
Obrigado Mestre!
Publicado em Diário de Uberlândia em 05 de agosto de 2018
terça-feira, julho 31
A incrível história do homem que pensava ser milho
Quem nasceu em Ouro Preto ou visitou a cidade, há de se lembrar de Dona Olímpia pessoalmente ou de suas histórias. Olympia Angélica de Almeida Cotta, de família abastada, andava por toda cidade a contar histórias por alguns trocados, com roupas lindamente extravagantes, modelo século XVIII, estranhas, sem nada a combinar. Sempre com chapéu enorme, coberto por flores, maquiada e inúmeros colares. Carregava um cajado de ponta florida, sempre sorridente e solícita. Rita Lee a nomeou a primeira hippie do Brasil. Ganhou versos de Drummond e música de Milton Nascimento. Foi tema até de samba-enredo da Mangueira e, se não me engano, a Verde-Rosa ganhou o carnaval aquele ano.
Contam que pediu licença do que muitos consideram realidade, em decorrência de uma desilusão amorosa. Ainda em Ouro Preto temos a inesquecível figura de Bené da Flauta. Sobre tão pura pessoa certa feita escrevi:
[ Bené da flauta, com seus bichinhos esculpidos com pequeno canivete em pedra sabão.
Dando vida a elefantes africanos/indianos, vaquinhas, e muitos, muitos outros que existiram apenas em sua imaginação.
Se houve certo dia a arca de Noé,
Para sempre lembrança da lata de Bené.
Pouco falar, mais a comunicar com sorrisos, gestos e sons da alma, sempre calma.
Foi-se em cortejo de anjos barrocos, às portas do céu bateu.
— Entra Bené, a casa é sua, pois como santo em terra sempre viveu.
Rôta roupa em iluminado manto luz se transformou.
Abrindo sorriso imenso Bené da flauta quase de alegria a chorar, soltou seus bichinhos mundo afora, agora a puro cantar.
Nem no céu Bené quis falar. Tomou da flauta, sua voz e ao vento semeou cantigas de passarinhos, que até hoje se espalham no tempo em carinho.
Eternizados em lembranças das gentis gentes que o conheceram e dele guardam até hoje suas criações.
Sensíveis e raras que são, transmutam vaquinhas, ursos, leões em sonhos, lembranças, alegria/harmonia em corações.
Onde Bené passava, ficava leveza. Pés descalços na pedra lavrada. Íngremes ladeiras, seus corredores, morada.
Lá vem o Bené da Flauta, lá vem, escoltado por cortejo de anjos e querubins.
Bené da lata, a arca de Bené.
Pureza sua, viva mais um pouco que seja, em mim.] w.h.stutz
Mas aqui quero é recontar história a mim passada por Mestre na vivencia e na arte de contar. Sua sensibilidade para as artes é indicador de visão aberta de vida, sobre a qual tem um olhar diferenciado, mais apurado/aguçado, livre dos preconceitos e da intolerância que tanto atrapalham o crescimento humano. Assim me foi passado, assim a vocês floreio e reconto. Agradeço Mestre por mais esta memória confiada.
A cidadezinha se perdia entre serras e vales. Era um quase nunca para chegar, mas a viagem valia a poeira, lama e pontes quebradas, dada a imensa beleza proporcionada por matas, cachoeiras e riachos piscosos de lambaris graúdos. As matas preservadas eram patrimônio de todos que delas com zelo vigiavam. Bichos e gentes em harmonia. Casas poucas, gente quase só crianças e seus sábios velhos, sempre a observarem tudo da mercearia ou da praça.
Para fazer valer a tradição, a currutela tinha também seu desmiolado, sem eira nem beira, que era carinhosamente acolhido por todos. Hora almoçava na casa de um, hora de outro. Sempre tinha café da manhã garantido e janta não faltava quem lhe proporcionasse. Em troca, mas sem cobrança, carpia terreno aqui e ali, varria calçadas, levava encomendas. Dependendo da lua a única coisa que não fazia de modo algum era entrar em quintal onde houvesse galinha. É que nesses períodos cismava que era milho. Milho mesmo! Grão de espiga. O medo de ser comido por bicho de pena tomava conta. Mal saia às ruas, aliás duas apenas, resto era campo, mata e pasto, que o medo de pomba do bando, maritaca ou outro comedor de milho se apoderava dele.
O pessoal da cidadezinha, conhecedor da história, evitava falar do assunto, mas a criançada não deixava barato. Olha a galinha! Sêo Manuel Sola, por esse nome foi batizado. Ele corria a se esconder em pavor. Molecada a rir de rolar no chão. Condoídos com tamanho sofrimento, resolveram juntar-se e enviar Manuel Sola para Belo Horizonte, para tratamento psiquiátrico.
Assim o tempo modorrentamente foi passando, preguiçoso pelas bandas daquela pequena cidade e Manuel do milho quase sendo esquecido.
Foi quando a notícia de seu retorno correu como pé de vento serra acima, até dar na terrinha. Alvoroço e expectativa. Será que Manuel Sola se curou da mania de ser milho? Prepararam festança com cantoria, comida e bebida a ufa, para recepcioná-lo.
Foi só o trem encostar na estação e o homem altar, claro que tem trem! Estamos em Minas, que Manuel, nos ombros do povo, foi carregado para a torda onde a festança já rolava solta.
Todos vinham perguntar: E aí Manuel, você ainda é milho? Ele rapidamente respondia: ─ Que milho que nada! Tá doido? Nunca fui milho, sou muito é gente humana! E assim foi. Todos felizes com a cura do moço.
Lá pelas tantas, dia querendo amanhecer, esse um, muito tonto de tanta cachaça, chega bem pertinho dele e cochicha:
─ Conta aqui Manuel, só prá mim. Você tem certeza mesmo que não é milho?
─ Mas que história de ser milho é essa? Sou gente, sou planta não! Resposta indignada!
─ Então explica. Tô te observando a noite toda, você rodou por tudo que é canto, mas quintal nenhum beirou, e ai?
Manuel Sola cambaleou da pinga um pouco, cabreiro, olhando para os lados e respondeu baixinho, bem pé de orelha:
─ Seguinte, eu sei que muito bem que não sou milho, mas me será que as galinhas sabem?
quarta-feira, julho 25
Revisores
Não dá para viver sem eles. Nossa pressa de escrever, de segurar o pensamento pela barra da saia ou pelo último fio de cabelo, nos leva a cometer assassinatos dignos de prisão perpétua contra a nossa maravilhosa e complexa língua pátria.
Acentos não colocados, vírgulas em excesso, crases e até alguns extintos tremas, enfiados por um corretor automático louco e sem juízo, aparecem. Um aranzé sem fim.
Acho que todos que se arriscam a escrever padecem disso. O mais douto dos seres escreventes carece em algum momento em sua vida de um revisor imparcial e competente.
Feita a catarse, passada a tempestade cósmica de ideias se cruzando em brilhantes/deslumbrantes cometas, bandos de pássaros em revoada migratória, vem o cansaço. Não dá para reler na hora, pois se o fizer muda tudo.
Se der tempo reserve o texto por alguns dias, coberto com pano de alva seda, a marinar em algum canto. Feito isto o encaminhe para a fornada final, para releitura.
Aqui entra o paciente revisor que dá brilho e forma a nossa arte. Depois é só degustar ou desprezar se sentir que errou tempero.
Por anos tive uma amiga revisora fantástica. Com ela muito aprendi. Foram muitas e muitas trocas. Como era bom e equilibrado. Nunca a conheci pessoalmente, acreditem se quiser, pois tudo era feito por meio da mágica tecnologia. Pessoa especial e tranquila.
Mas como tudo tende a acabar, com nossa parceria não foi diferente. Certa feita ela se recusou tempestivamente a revisar um texto no qual falava de passarinho, de molecagem de criança inocente. Na infância tínhamos por sistema pegar pardais em arapucas, pois estes espantavam nossas cobiçadas companhias de quintal, sempre soltas e cuidadas em cochos elevados de quirera, frutas, alpiste e painço. Coleirinhas, papa-capim, canarinhos da terra ou chapinhas, como os chamávamos por lá, bicos-de-lacres, sairas de mil cores e tamanhos, sabiás e até tucanos, gralhas e tais, apareciam.
Mas era só chegarem os urbanos pardais que acabavam com tudo.
Depois de capturar em nossas arapucas os danados, arrancávamos as penas do rabo e os soltávamos cotós que só.
Cabeça de criança, a ideia não era maltrato, era espantá-los para longe.
Aí deu zica. Minha amiga por ser protetora de bichos como nós mesmos, não aceitava a ideia de revisar tal prosa.
Isto também é demais, pensei. O revisor é parceiro, mas não é ator da criação alheia.
Negou? Não quis se sentiu ofendida? Relevo de certa forma, por ser ela pessoa tão urbana quanto os pardais e por desconhecer a infância de crianças das Minas, que já nascem em grandes quintais cheios de bicho e ar puro. Tudo bem, direito dela, mas findou linda parceria, já que querer interferir em criação alheia é meio demais. Deixo não. Será que minha amiga toparia revisar um livro sobre as barbaridades do nazismo? Sobre os horrores das crianças morrendo de fome pelo mundo? Ou com gente pode?
Careço dizer que ainda gosto por demais da minha antiga revisora e só tenho bem querer por ela. Talvez algum dia nos reencontremos ciberneticamente afora. Torço sempre para que seja super feliz, ela merece.
Ganhei caminho solo. Sofrência, mas trás crescimento.
Hoje minha parceira em revisão, além de entender o meu inventar de palavras, conhece bem a liberdade do meu criar. Sugestões boas são muitas e isto faz parte. Também, não poderia ser de outra maneira. Fomos casados por 33 anos e, como bons amigos que continuamos, conhece bem minhas rabugices no inventar.
Ela me cobra em chocolates. Uma barganha gigante, pois tende a inflacionar o mercado. Ofereço um, quer dois. Se for urgente, pasmem, me cobra até cinco. Um abuso. Hora vou ao PROCON. Doce, mas abuso. Curvo-me sempre, faz parte.
Conhecer a falta de lógica onde ela não existe, o sonhar e o jeito do outro é o que cria parceria. Porém, repito, já pensou se os grandes escritores dos clássicos tivessem que se submeter aos caprichos do faço não faço de algum revisor? A Ilíada estaria no primeiro verso e olha que Homero escreveu mais de quinze mil. Ou ainda não haveria registro daqueles cinquenta dias da guerra de Tróia: Ah não, Aquiles um semideus ficar furioso? Nunca. Paz e amor cara! Quanto machismo. Sequestrar Helena? Que mulher se deixaria levar assim? Imagino Homero de saco cheio e pensando: ─ Quer saber, vou escrever na areia! E ainda, Iracema não andaria nua, assim como Tarzan usaria calça legging camuflada.
Pois eu, aposentado, já estou estudando para nova profissão: Revisor de fábrica de macarrão de letrinhas.
Aí sim ficarei independente. Quem sabe monto uma gráfica no futuro?
Assinar:
Postagens (Atom)
































