segunda-feira, outubro 17

Dia da criação




"(…)deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação. (…). Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado. Na verdade, o homem não era necessário (…). Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias. Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa. Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos (…)” – Fragmento de “Dia da criação”, de Vinícius de Moraes

Pois não é que essa semana, que passou voando, que nem harpia em retorno ao ninho, comemorou-se o 434º aniversário do calendário gregoriano e ainda o Rosh Hashaná, o ano novo Judaico, segundo o calendário estamos no ano 5778. Ainda temos o calendário Chinês. Estamos vivendo o Ano do Macaco de Fogo. Este, curioso e sem papas na língua, cria amigos e inimigos facilmente.

Para contar tempo, o homem criou mais um monte de calendários, o calendário hegírico ou Islâmico, Calendário Juche que, como tudo mais, só é usado na Coreia do Norte. Bom, de tão isolados que são, só serviria para eles mesmo e não vai fazer diferença para o restante do planeta. Ainda tem o Maia, o Etíope e tais.

O fato é que o homem sempre arrumou um jeito de prender o tempo e tentar usá-lo a seu bel prazer. Quantos não riscam diariamente a folhinha, na tentativa de apressar o tempo por algum motivo? O mais comum hoje é o dia do pagamento. Acaba-se de receber e já começa a marcar o dia do próximo. Não está fácil pra ninguém.

Contam os criacionistas que Ele se desdobrou em criar o mundo no qual vivemos, deu um duro danado e, exausto, resolveu a parada no sétimo dia. Se existisse televisão, certamente iria assistir a um bom programa, um filme, talvez. Os dez mandamentos, não estas versões atuais, seria sem dúvida alguma aquele com Charlton Heston, Yul Brynner, e “grande elenco”. Esse jargão nas artes deve ter sido criado para economizar papel.

Particularmente, acho que Deus, em momento de tensão, de saco cheio de tudo, resolveu pintar os passarinhos e plantas. Esquece o tempo, pensou. Pediu ajuda aos anjos poetas. Decidiram que o vento não teria cor visível, nem aroma especial. Assim, cada um poderia escolher o que sentir. Salgou o mar, mas adoçou rios, riachos e cachoeiras. Distraiu-se com saíras. Alguns querubins as usavam para limpar as mãos de tintas, deixando algumas com até sete cores. E Ele viu que era bom. Deve ter sorrido feliz.
Começou a pensar ao observar as belezas de seus artistas alados — Esqueçam o tempo criaturas. O sol, a lua, as marés, as chuvas e as flores. O amor, fome e sede serão seus relógios. Pronto, aí veio uma merda de uma serpente e atrapalhou tudo.

“(…) o tempo não serve de medida: um ano nada vale, dez anos não são nada. Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranquila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intépido, como se diante deles estivesse a eternidade.”

Rainer Maria Rilke em Cartas a um jovem poeta

“(…) o homem não era necessário (…)”

Ficassem apenas os poetas…







Jornal Correio em 16 de outubro de 2016

segunda-feira, outubro 10

Trem bom




Imagem coletada na web

Esse tempo está mais para trem bala do que para maria-fumaça. Ligeiro que só, às vezes, não permite nem paisagem. Da janela apenas mistura de cores, riscos azuis, prováveis rios e córregos da infância. Hora ou outra um rosto. Quem será meus Deus? Puxo da memória. A viagem continua em compasso de xote, nossa polca patropi. Não, o ritmo é zumba, de tão ligeiro. Havia um tempo de toada de maria-fumaça, um tango, um bolero manso. Um arrastar gostoso das horas. Ficou longe. “Maria-fumaça não canta mais/ Para moças, flores, janelas e quintais”, cantou Bituca.

Pois sim, lá se vão quase dois anos a morar só. Totalmente adaptado a nova vida. Já não ocorrem os desperdícios de tudo. Não acontece mais o horror de ter que jogar coisas fora por estragarem ou por validade perdida. Achei o equilíbrio. Já assovio sem razão, canto no banheiro, dou risada sozinho. Outro dia pela manhã acordei com um zumbido forte. Será o quê? Pensei. Pernilongos, isso mesmo. Os danados estavam em turma. Parecia festa e o cardápio certamente seria eu. O “seria” é que, já sabendo dos visitantes noturnos (diurnos também para dar com pau), durmo de cortinado. Isto mesmo. Devo ter sangue tipo gourmet, pelo menos para o paladar voraz dos meus alados visitantes.

Se eu estiver no Mineirão lotado até a tampa, em uma final onde jogam Atlético Mineiro, meu Galo de coração, contra o Cruzeiro, seguramente aparecerá um pernilongo. Um só, desavisado, vindo da lagoa da Pampulha, trazido pelo vento direto para o gramado. Ele vai se recompor, aprumar as asas, dar uma olhada na massa alvinegra, obviamente maioria no estádio, e com seu olhar culicídeo vai me achar. Bem lá no meio, com a nossa tradicional charanga, há “mil anos”, entra na arquibancada tocando “Mamãe eu quero” e pimba! Logo estarei coçando. Ele me acha. Acha mesmo!

Certo dia, frente àquela infantaria pernilongal, saquei de minha já famosa raquete eletrônica e, depois de vários sets de luta, estalos e cheiro de mosquito queimado, postei-me no centro do campo de batalha. Centenas de corpos alados se espalhavam pelo chão. Senti-me o próprio Leônidas durante a Batalha de Termópilas. Não lembra? Tem o filme por nome “300: Rise of an Empire”.

Aquela batalha fora minha, mas a guerra, só rindo, nasceu perdida. Enquanto nós humanos continuarmos a criar esses bichos, não tem jeito, pois, para todos eles, fornecemos em fartura casa, comida e roupa lavada. Quem não quer tamanho aconchego? Leila Diniz: — “Cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”.

O mundo é, e será sempre, dos sôfregos pequeninos.

A vida ligeira que só, me põe a pensar na maria-fumaça e nas estações que à frente estão. Não carece perder tempo em contar quantas ainda temos, mas a velocidade nos trilhos poderia bem reduzir para trote manso, deixando a paisagem passar sonolenta e bela. Um cochilo, vento de serra e perfume de terra molhada. Cada um aperta o maquinista de sua via como quer. Prefiro e assim. Sigo querendo amigo, que seja desse jeito. Mesmo com fornalha em ouro brasa, o resfolegar poderia ser manso, o ranger musical e a viagem bem demorada.






Jornal Correio em 09 de outubro de 2016

terça-feira, outubro 4

Pronto!


O gosto por carne assada e cerveja, muita cerveja, fazia da vida do amigo um eterno fim de semana. De família grande todos com gosto idêntico, mudavam apenas quanto ao time de futebol. Alguns eram fanáticos corintianos, outros flamenguistas e, dizem, meio que de olhos baixos, até são paulino e palmeirense tinha. Porém, não se estranhavam. Levavam tudo na esportiva e gozação, como deve ser quando se trata de futebol e política. Cada um tem o seu time e partido. Eu disse partido? Esquece. Quis dizer candidato, pois até eles, políticos, em sua maioria, andam a esconder o partido a que pertencem. Foi-se o tempo de se bater no peito e dizer com orgulho: Sou Democrata! Outro: Sou Republicano! Opa, acho que errei na geografia.

Não importa, a história é outra. Voltando ao amigo, como disse, de família grande, aniversário é que não faltava. Não importava o dia da semana, tinha que comemorar. Churrasco e cerveja, muita, muita cerveja. Batizado, casamento, começo de namoro, fim de namoro, time ganhou, time perdeu, time jogou, churrasco e cerveja, sempre muita. Isso em dias úteis. Nos inúteis, dos feriados e fins de semana, não carecia desculpa, pois já eram para tomar todas mesmo.

Não que o amigo não trabalhasse, longe disso, trabalhava e muito. Compromissado e bom de serviço. Mas venceu horário, pronto, disposto a tudo. Outra característica fantástica sua era o vício da leitura. De bula de remédio, revista velha, jornais de ontem aos grandes clássicos, nada passava batido aos seus olhos. Minto, ao seu olho. Só tinha uma vista. Da outra não enxergava. Curiosamente só descobriram sua cegueira aos 11 anos de idade. Acho que já falei disso. Vou conferir. Se não, depois conto.

Este saudável hábito de leitura, que aos poucos vem se perdendo, como milhões de pessoas, por conta do maldito smartphone e seus aplicativos, em particular o WhatsApp, não tirou sua rapidez de pensamento e outra mania: palavras cruzadas. Do nível mais alto àquelas mais simples detona todas em tempo ligeiro. Bom, isso quando não pegava uma, começada por outra pessoa, sem o trato com a coisa. Ao ponto. Não o churrasco, mas o contar.

Certa noite, acordou com dor lancinante no dedão do pé, irradiava para tornozelo. Tentou levantar-se. Desastre. Despencou sentado na cama. Não conseguia encostar o pé no chão. Apavorado, ligou para o irmão pedindo ajuda.

— Acode aqui mano. Acho que quebrei o pé dormindo.

— Como assim mano! Ninguém quebra pé dormindo!

— Não sei como, devo ter dado um chute na parede sonhando. Corre que o trem tá feio.
Urgência médica, lá se foi, apoiado e saltitando que nem saci. No hospital, depois da habitual longa espera, foi finalmente atendido por médico sonolento de longo plantão. Examinou, mexeu daqui, cutucou dali e ele, aos berros, a cada virada. Radiografia para tirar a teima do amigo, pois o diagnóstico estava fechado. Nada de fratura.

— Olha doutor, se não é chute na parede, o que é que eu tenho? Perguntou, já com água no olho.
— Gota meu filho. Seu problema é da gota serena.

— Você bebe?

— Socialmente, mas aceito um golinho só para acompanhar.

— Gosta de carne?

— Vixe!

Passou remédio e dieta. O remédio tomou. Quanto à dieta, filosofou:

Todo ser humano tem que escolher: fazer dieta ou ser feliz.

Ele, escolheu ser feliz. Não abriu mão de sua cerveja e churrasco. Vai ser feliz lá num rodízio!

Leia super rapidinho em um fôlego só:
Esta prosa não é recomendada em casos de suspeita de dengue e muito menos para menores de 18 anos.






Jornal Correio em 2 de outubro de 2016

segunda-feira, setembro 26

Irreflexão




Casamento de sobrinha. Linda cerimônia, a começar pela beleza natural dos noivos. Alegria contagiante, ar de felicidade ecoava pela igreja de imensa e sóbria nave, a acomodar com conforto família e convidados. A cerimônia transcorreu bela e em paz absoluta. Cantos e serena musicalidade.

Finda a solenidade o costumeiro e agradável zum -zum-zum de encontros entre gentes que há tempos não se viam, beijos, apertos de mãos e, claro, as repetitivas piadinhas dos mais próximos. As gozações de sempre de todos os encontros, casamentos, aniversários e tais.
Bora pra festa? Onde fica o local do rega-bofe? Putz, essa expressão é antiga. Juro, não é do meu tempo.”— Opa! Finalmente o pai da noiva colocou a mão no bolso!” Gracejo. Hoje vamos nos fartar às suas custas, brinca o primo.

Outro lado bom dos casamentos são exatamente esses reencontros, onde reina bom humor, companheirismo e obviamente muita gozação.
— Eu não sou daqui, sei chegar não. Vai à frente que sigo, decide outro.
Eu, mesmo daqui sendo não sabia direito como chegar. Conhecia bairro, ruas, caminhos, mas o exato não. Tentei apelar para o GPS, mas quem disse que ele, no caso ela, a voz, estava de bom humor. Queria nem marcar o trajeto. Outro sobrinho: — Me segue, te espero ali e aponta o dedo para um canto da praça. Beleza, respondo.

Alguns minutos imensos a caçar grana para o flanelinha, que nem estava lá quando cheguei. Vou ao lugar do encontro, para em caravana de dois seguir.
Encosto bem atrás do carro que fica alguns minutos parado. Esperando mais alguém, penso eu. Sem aviso prévio arranca e segue rua. Eu atrás. Vira à esquerda, sigo. Dobra em avenida larga, acompanho. Acelera, piso um pouco mais a imaginar o motivo de tanta pressa. Passa ponte, viaduto e eu ali grudado, em zig zag de fórmula 1.

Caramba, será que tem alguém passando mal ou com vontade louca de ir ao banheiro? Não posso perdê-lo de vista, piso também.
O caminho estava certo. Mas me pergunto, para que tanta volta? Do nada, parou quase em frente ao 36º Batalhão de Infantaria Motorizado, a Águia da Tubalina do EB.
Não entendi nada. Pus-me em parelha e baixei o vidro.
— Errou, a virada é para a esquerda, gritei. Ele nem se deu ao trabalho de baixar o vidro coberto com uma película tão escura, com a qual certamente seria parado em blitz.
Pensei comigo: sigo, viro e mostro o caminho. Assim fiz.

Dei o balão na rotatória e de lá ainda gesticulei meio sem paciência, pois o tempo ia encompridando.
Nada, ficou quieto. Bom, ele sabe o caminho sigo daqui.
Fui matutando, mas cisma do jeito que veio se foi. Depois de perguntar a duas, três pessoas no trecho se conheciam a rua e de constatar que ninguém conhece nada, nem o próprio endereço, parei numa farmácia e recebi direitinho a indicação do lugar.

E não é que para meu espanto o sobrinho já estava lá, sentando confortavelmente? Uai, disse eu, não entendi sua pressa e sua parada perto do quartel!
— Eu não parei no quartel, e você sumiu! — Sumi? Estava colado na rabeira do seu carro! Estava não! Que carro você seguiu? — Ora, um não sei das quantas branco.
Mas o meu carro é prata!
Não é que segui o carro errado o tempo todo! E se fossem malas preparando um malfeito? Poderia ter tomado um tiro!
Vai ser distraído prá lá. “Viver é muito perigoso”. Viraria estatística e pronto.






Jornal Correio 25 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 19

Correr






Longe de mim campear seara alheia, principalmente, quando se trata de corridas. O grande maratonista Nilson Lima, a quem todos admiramos, é o mestre na arte. Eu, um mero aprendiz.

Há menos de seis anos, fui contaminado pelo prazeroso esporte. Nada de competir com ninguém. Minha luta é comigo mesmo, baixar tempo, melhorar resistência e tais. Não, não sou a dedicação em pessoa, não me alimento como deveria, treino sozinho e sem muita técnica. Corro porque gosto, me dá prazer e porres “endorfináticos”. Corria todo dia e depois completava com uma malhação básica, para fortalecer, principalmente, panturrilha, joelhos e tornozelos.

Tudo ia muito bem obrigado, até que em check-up anual descobri que meu CPK estava nas alturas. Na verdade, até então, nem sabia que tínhamos esse tal de CPK, que para mim soava mais com formulação de adubo tipo NPK 4.14.8. A causa de tal elevação, segundo o meu nefrologista, um super e dedicado profissional, estava clara: excesso de esforço físico. Eram quatro dias de corrida e dois a puxar ferro por semana. Sentia-me bem no peso e me dava ao luxo de tomar minha cervejinha fim de semana, sem culpa. Bastou um descanso de cinco dias e o tal voltou aos níveis normais.

E agora, José? Como refazer uma rotina de atividades para que a tal “creatinofosfoquinase” (é esse o nome do trem), mantenha-se em níveis que não me prejudiquem? Como fazer para não parar com tão prazerosa atividade?

Sim, diminuí radicalmente os treinos, tanto em quantidade quanto em tempo. Se corria 15 km, hoje corro cinco. Se treinava seis dias por semana, tento me satisfazer com quatro. O body pump está suspenso até segunda ordem, viu Carlinha?

Quanto aos outros dias, aqueles parados, fico parecendo cavalo de corrida em brete de largada. Não que eu seja um grande corredor, longe disso. Para usar ainda a linguagem do turfe eu poderia ser chamado de matungo ou mesmo um erado redomão, que corre por instinto, sem muita doma.
Puro impulso espontâneo, repito. Correr é prazer e pronto. Se não fazemos nada somos preguiçosos sedentários. Já fui assim tempos atrás. Até pagava menino para correr para mim. Se nos exercitamos muito, aparecem indicadores que te colocam em risco.

O tal equilíbrio. Como encontrar o ponto certo, a medida que supre o prazer de fazer e não o ameaça com mal pior? Poderia culpar a idade. Conversa. Nosso grande José Gama, do alto de seus 81 anos, está aí firme, correndo todo dia e foi homenageado em 11 de setembro com uma corrida maravilhosa. Merecedor de toda honra e pompa. Foi uma grande festa. Nosso queridíssimo e fera “Dez” beira a faixa etária do Gama, assim como tantos outros na casa dos “enta”.

Não, queridos amigos, a idade não é culpada. Enganam-se aqueles que pensam que vou parar. Vou nada. Asfalto, terra, trilha e serra sigo correndo, trotando nem que seja como o velho Rocinante de Dom Quixote.

Mas isso me lembra uma história contada, ocorrida lá pelas bandas de Sacramento. Dois irmãos a colocar atenção em calçadão de parque, em final de tarde:

— Mano, cheguei à conclusão que correr ou caminhar engorda e envelhece.
— Como assim? É justamente o contrário, retrucou o mais moço.
— Ah é? Põe tento aí no parque! Quem você vê correndo ou caminhando? Só idoso e obeso!

É o horário amigos! E que bom que estejam lá buscando qualidade de vida.
Vamos correr moçada, pois só faz bem. CPK prá PQP !






Jornal Correio em 18 de setembro de 2016

sexta-feira, setembro 16

Lembrança



Lembrei tanto de você moça. Seu perfume contagiante impregnado na pele, vento morno em chamar chuva que não nos ouve.
Conto minutos. Até o escurecer, até o escurecer

E essa primavera que se aventura ninhos adentro sem nem ainda ter chegado
tem pressa no seu preguiçoso passar

15 de setembro de 2016

segunda-feira, setembro 12

Advogado



Caso contado, reconto. Sempre quis ser advogado. Desde muito miúdo não perdia filme que tivesse júri. Ficava em pé junto à televisão, imitava gestos, andar e expressões, tanto da defesa quanto da acusação. Reproduzia jeito sisudo de juízes prestando atenção às teses e argumentos que, por fim, levariam réu a liberdade ou sairia dali algemado.

Terminado o filme, corria juntar amigos e criava clima de um julgamento no quintal de sua casa. Tinha de tudo. Advogado de acusação, júri, juiz e claro, o réu. Ele sempre fazia o papel da defesa. Os crimes eram terríveis e geralmente reais.

— Senhores do júri, este cidadão sem o menor pudor, na calada da noite, escondido pelas sombras e com a cumplicidade de Laica, a cadelinha da casa, com a qual mantinha um relacionamento muito próximo de amizade, teve o despudor de assaltar a geladeira e devorar, sem o menor constrangimento, a última fatia de torta enquanto seus pais inocentemente dormiam, envoltos pelas asas de Hipnos, pai de Morfeu. Por tal ato ilícito eu peço aos senhores “data vênia”. Embora não soubesse o que isto significava, usava toda hora.

Outros crimes levados ao júri do quintal. Roubar beijo da menina mais bonita da rua, faltar à pelada e nem emprestar a bola, esconder em casa em pique-pega. Gravíssimos crimes, para os quais a pena pedida era geralmente prisão perpétua. Agora, meu amigo, você pode imaginar o enfado daqueles obrigados a participar da brincadeira. E ai deles se negassem. Era tunda na certa.

Foi nada não. Menino cresceu sempre estudioso. Formou advogado. Não satisfeito, prestou concurso para delegado. Foi aprovado com louvor. Cabeceira mesmo. Glória tanta que lhe deram o luxo de escolher comarca.

Sonhador como sempre, escolheu cidade miúda encravada para os lados da serra da Bocaina, um lugar lindo em paz e roças de Lavandas. Sentia que ali poderia ganhar experiência de ofício, para depois, quem sabe, tentar concurso para juiz. Apesar de sempre se lembrar dos filmes de sua infância e da série dos magistrados, ele gostava mesmo era do teatral da cena.

Inexoravelmente, como diria Caetano o “Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos”, o bom e velho tempo voava. A pacata e bela cidade em eterna paz, não tinha crime nem desarranjo, nem roubo de torta ou beijo roubado. Viu-se triste e inútil. Aproveitava a delegacia vazia para estudar, pois juiz seria.

Em um final de dia arrastado, em que o perfume das lavandas iluminava o ar, resolveu parar em um dos poucos bares da cidade para tomar uma cerveja, antes de rumar para hotel onde morava. Sentou-se perdido em si mesmo, via longe para dentro das lembranças, nada envolta existia naquele momento.

Distração perigosa para delegado, mesmo em cidade de paz. Até de costas para porta ficava, um desaviso. Foi quando um cabra, totalmente bêbado, começou a fazer troça dele. No começo ele até sorriu, ligou não. Mas todos conhecemos bebum. Sorriso dado é trela e o homem não parava. Debruçava-se por sobre a mesa do delegado, falava alto, cuspido. Desagrado.

Resolvido a por fim nessa passagem, o jovem delegado fingiu sério: — Toma rumo cabra, se ficar amolando mais um minuto eu te prendo.

O bêbado em falar pastoso, torcendo o pescoço e a mão, retrucou:
— Senhor me prende, mas eu saio. Disse meio cantado.
— Sai não! Eu sou o delegado!
— Eu sei, mas quando eu prender o senhor, “cê” num sai nunca mais!
— E não?
— Não senhor, nunquinha mais.
— Ora essa, quem você pensa que é seu atrevido?!
— Uai, sou o coveiro Dotô, o coveiro.

Nosso amigo hoje é juiz federal.






Jornal Correio em 11 de setembro de 2016
 e
Jornal Voz Ativa - Ouro Preto Minas Gerais

quinta-feira, setembro 8

Coluna Social

Pronto, saí na Coluna Social, já posso virar letra de música.   Brincadeiras à parte valeu Jadir Júnior. Faço por merecer tal destaque?






segunda-feira, setembro 5

Vetustade






— Oi, sim, conte. Lembra quando criança?
— E lá você foi criança algum dia? Já nasceu pronto, velho. E sorriu vazio de dentes.
— Não implica ara, criados juntos reconhece? Tu mais eu, Belenzinho, Choreu, quem mais?
 Lembra aí.
— Esse povo morreu quase tudo, sobrou nóis, sei.
— Pois me fale, qual a melhor brincadeira de fazer naqueles tempos? —  Humm, tudo era bom.
— Pescar no córrego? Longe. Nadar na cachoeira?
— Perdeu distância.
— Sei no certo – com brilho nos olhos – ver as moças tomar banho na cachoeira, escondido na moita de bambu que nem calango, só os olhos de fora.
— É, era bom de mais da conta, vixe se era, mas ainda não era a melhor. — Como assim? Moço, menina nuazinha em pelo, molhadinha de gotejamento d’água, era ruim?
— Ruim era não, endoidou?
—Era bom que só, mas longe de ser o melhor trem de fazer.
— Conte pois, velho gagá, não consigo lembrar melhor. Sorriso de canto de boca, levou pensamento para poção do véu de noiva. Mocinhas arrepiadas de frio. Ouviu direitinho a gritaria. O coração acelerado, o desejo ainda por nascer se fazendo notar. “Minha linda juventude, páginas de um livro bom”.
— Fale estrupício, cadê que tinha melhor?
— Roubar galinha.
—Como é que é? Deu de babar agora?
—Lembra Deuzivaldo.
— Ara – fungando - não gosto que assim me trate! O nome é meu, mas gosto de jeito nenhum.
— Deixa de ranzinzagem Valdo, mas vai levar para o túmulo. Pois é Valdo, sempre foi promessa sua colocar nome de Valdo no retrato da carneira. — Esquece homem, dia ainda vai longe!
— Sei não, sei não…
— Mas pensa Valdo, aqui mesmo. Não era esse o banco de cimento doado por venda, mas era justo aqui. Lembra? Tronco de aroeira cumprido, apoiado em tocos fazia as vezes. A trama nascia aqui. Escolher o quintal, pajear as galinhas, saber o pouso de dormir.
Chegado o dia combinado, era esperar anoitecer e rumar para o terreiro. Uns vigiavam, outro pulava pra dentro. Com galho de goiabeira cutucava pés da escolhida de manso até ela, aborrecida, trocar poleiro pelo galho. Ciência e vagareza. Trazia manso até o braço alcançar. Ligeiro era o agarrar pescoço e torcer. Nem um pio. O que sobrava de medo enroscava bem perto do papo. Ali ficava vazio. O feito estava feito. Suando a testa a gente corria longe, em alegria. Quanta saudade de poder correr com vento judiando da pele! Olho marejava em feliz tristeza.
Aí Valdo era acender fogo, depenar, sapecar, passar o canivete no bucho, e assar em fogueira nossa, sem sal ou pimenta.
— Não senhor eu sempre levei trouxinha de tempero roubado do pilão de mãe!
—Verdade, levava mesmo.
—No fim sobrava quase tudo para Futrica. Cadelinha esperta aquela.
Por fome nossa não era. Era o prazer. Coxa, sobrecoxa, peito. O resto era dela, Futrica. Dormia dois dias, repasto.
— Valdo, e se a gente roubasse uma galinha hoje?
—Endoidou? Perdeu razão e juízo? Imagina tu subindo em muro! Nem bombeiro com ambulância consertava.
— É, tem razão, não podemos. Mas se encomendar?
—E menino de hoje rouba galinha? Sabe não. Vai acabar preso ou levando coça.
—Tem razão Deuzivaldo – assim disse para provocar.
—Valdo! Cansado de saber: V-A-L-D-O.
Cutucou Valdo com a ponta romba do canivete. É brincadeira sô!
—Vamos comer uma pizza então.
— E não? Agora.
— Ó, que galinha com pena era bom era, mas pra mim ainda carrego fresquinho as moças da cachoeira. Cada uma.






Jornal Correio em 04 de setembro de 2016

segunda-feira, agosto 29

Domingo





“O soldado, no forte:
-Capitão, capitão, os índios estão vindo!!
– E são amigos ou inimigos?
– Devem ser amigos, porque estão todos juntos…
– E quantos são?
– Acho que uns mil e três.
– Como assim?
– Vêm três na frente e uns mil atrás…”



Bom dia, gente do bem. Nada como começar um domingo com uma boa risada, um sorriso que seja. A história aí no alto contado por amigo, pode ser ótimo desjejum. Até outro dia, achava domingo o pior dia da semana, principalmente, seu final de tarde. A expectativa da chegada de uma segunda-feira era terrível.

Já notaram que os sons, ou a falta de alguns, caracterizam muito bem um domingo? Explico. Amanhece domingo. Muitos acordam bem mais tarde, ressaca de sábado, noitada foi boa. Festa, show, serenata, pouco provável hoje em dia, assim como madrugar na porta da padaria para desfrutar da primeira fornada de pão quentinho com manteiga, existe mais não, aqui não.

O domingo amanheceu, quem ficou na cama perdeu metade do dia. Outros levantam cedo, juntam a tralha toda para clube, rua, pastel na feira, missa. Correr, caminhar, passear. Sentar na praça, deixar a manhã passar mansa em sua preguiça. Impossível ficar em casa em um domingo, a não ser quando há almoço com amigos ou família. A cozinha começa mais cedo, toca a preparar fartura. Cheiro de carvão no ar, churrasco anunciado.

Dia de bermuda e camiseta. Finalmente a pele do corpo vê o mundo. Os parques estão cheios.
Os sons. Somem os barulhentos carros e motos, é domingo. Se você mora perto de rua ou avenida movimentada e tem sono leve, imagino que teve que aguentar até altas horas o rugido e desenfreio daqueles voltando da farra. Puxadas firmes dos possantes motores, em clara demonstração de pequenez cerebral e educação zero. Mas domingo de manhã não. Os monstros metálicos estão escondidos em covis. Seus babacas condutores, escornados em algum canto em sono sem sonhos, acordarão tarde com uma puta dor de cabeça e gosto de corrimão de escada na boca. Esquece esses caras. Um violão acorda em algum quintal. Risos, criançada. Alegria!

A tarde chega marrenta, é domingo. A existência da perspectiva de segunda começa a dar as caras. Os sons mudam, luzes começam a piscar em um acender de cidade. Sons agora dos clássicos e deprimentes programas de televisão tradicionais. Antes, um longe aborrecido narrar de jogo de futebol. Também sentia isso, hoje não mais.

Sabe aquela brisa que desce narina abaixo e bate manso, refrescante, no peito, na boca do estômago? Os ouvidos buscam em um vazio de paz absoluta qualquer barulhinho, um existir plenitude. A paz, equilíbrio total.

Apenas a pele lhe mantém aqui no mundo físico. Momento único de superabundância, de contato com o universo. Um prazer inigualável.

Assim estão sendo meus finais de tarde de domingo. Pode ser o seu, se quiser. Quanto à chegada da segunda, que ótimo, se não achar nenhum motivo para dela gostar, o que é uma pena, te dou pelo menos um motivo como conforto, é o dia mais distante da próxima. Carpe diem.

Às segundas em particular a vida fica mais leve. No mais, Gerais.







Jornal Correio em 28 de agosto 2016

segunda-feira, agosto 22

Cidadão







Um bom dia de coração para todas as gentes do bem. Pois vejam queridos, ganhei identidade virei feliz, homem do cerrado. Terra que me abraçou como cria.
Engrossei couro, curti pele sob o sol mais bonito das paragens.
Meu peito em alegria pula dança de aleluias, revoada de tanajuras, maritacas, bicos-de-lacre, andorinhas da patagônia, migratórias como eu. Elas se vão eu, guardei pouso, fiquei
Posso assim agora responder firme: De onde seo moço? Por onde?
Uberlândia digo altivo olhar fincado em quem perguntou. O erre sai raspado como da origem, ligo não, Uberrrlândia, lá/ali na ponta das Minas, aqui bem dentro do peito. Alma acalmada por naturalidade possuir. Os filhos fazem as vezes do cantar a palavra nascidos/criados. De papel passado Uberlândia

Cá cheguei manso, não de paz de medo. Um novo grande por demais. Um vasto sem serras que me mostravam distâncias. Olhava, não via fim. O céu encostava em um lá longe, como mar fosse. Estranhamento.
A seca de secar com vontade, a temporada maravilhosa das chuvas, o renascer a olhos vistos. Descobri lento alguns de seus segredos. Outros ficarão para sempre em baús, caixas guardadas.
O sol nascia do pasto, olhar reto. Depois a lua. Não tem igual em grandeza e clarão-ouro. Outro vazio no começar. As gentes. Distantes desconfiadas, não era filho de ninguém, carregava sobre nome difícil, estrangeiro.
Morar em pensão, conhecer devagar o jeito daquele que tinha, sem maldade porém seco no começar. Conquistas
Tempo se vez marca. Conheci afinal as cozinhas e quintais. Vi o escondido, reservado para poucos. O jeito mineiro de ser dessa Minas que ainda não era minha. Portas e sorrisos se abrindo. Ganhei a confiança. Passei pra dentro.
Apaixonei, casei, descasei, nunca desapaixonei/desamorei, sentimento fraterno/eterno. Filhos lindos, da terra nova nascidos. Raiz profunda criada, A bruteza bela do cerrado. Me tornei pequizeiro, barbatimão, Buriti, Mangaba, mutamba, jatobá. Me tornei munguba, ipê de todas as cores, a aroeira - aqui não pica-pau. Posso peroba-do-campo, timbó sem veneno.

Me colori em penas e pelos me tornei um deles: onça, ema, sagui cobras cascavel, jiboia e jararaca.Solitário com lobo-guará, cachorro-do-mato, arredio que nem Bandeira.Me vejo tucano-rei, urubu-rei, perdiz. A arara-canindé, pato do mato, canarinho-da-terra.

Banhei em cachoeiras onde ninguém vê serra, parecendo brotar do chão. Aprendi vastidão. Saí de casulo apertado de maravilhosas montanhas, conheci chance de ter duas moradas. Dois sotaques, dois jeitos. Me tornei mais livre, de Barbatimão, Capim Gordura para fartura de Colonião, napié.
Me perfumei de tantas flores, êxtase de abelha jatái

O céu mais lindo me cobre, as noites mais iluminadas de estrelas e sons que só aqui existem. Urutau cantou em minha janela. Caburezinha em vigília, zela.

E as gentes. De tudo quanto é canto, recanto perturas/lonjuras. Um misturado de jeitos. Custa conhecer. as Minas aqui desconfiadas são, tem que ganhar confiança, provar a que veio. Se em paz para somar, logo vira de casa.
Agora com orgulho posso contar. Sou filho da terra, mãe de leite. Me deu sustento, base, referência. Meus amigos, de cá e de lá. Carrego a felicidade de não apenas me sentir, mas, mesmo por decreto, de ser agora uberlandense.






Jornal Correio em 21 de agosto de 2016

terça-feira, agosto 16

Passagem



Pois assim, tem cada coisa que acontece em nossas vidas que chegam a dar frio na espinhela. Os ritos de passagem, a ordem do tempo e o jeito que se apresenta é regra na vivência de humanos e não humanos. Bichos por exemplo. Passarinho nasce numa dependência danada de pai e mãe. Tem que comer. Abre imenso bico para chamar atenção e ganhar mais grilos, minhocas ou o que vier de longe, trazido no papo de seus guardiões. Passa tempo na preguiça. Empluma, muda pio. Chega hora, mesmo a contragosto, empurrado, tocado do ninho é. Primeiro voo solo despenca. Mas apruma, toma gosto e não para mais. Primeira passagem.

Depois, aulas de canto. Do desafinado piar a gorjeios insossos, desafinado num trocar de voz.
Torna-se tenor, barítono ou outro especialista. Segunda passagem. Aprende a namorar, conquista a parceira e leva a vida bem vivida, se não houver interferência de mão de gente a prendê-lo em gaiola, pedra de estilingue ou queimada assassina a lhe impor fim. Peguei passarinho, mas reparo em qualquer criatura. Taruíras, minhas preferidas, gatos, cães, morcegos e até escorpiões e borboletas. Todos têm ritmo, harmonia de vivência.

Poderia ser diferente com as gentes? Toca falar de rituais diferentes que nos são apresentados, bons e ruins, pouco naturais, mas presentes.

O estúpido aprender a fumar foi um deles, mas naquele tempo era assim, todos fumavam. O motivo? Fazer parte de um grupo, fingir de pavão para as moças e tantas outras bobagens importantes nas cabeças desmioladas de pré-adolescentes. Fazia-se a rodinha e os mais velhos acendiam o pito. Os iniciados tinham que botar a fumaça pra dentro, segurar e ainda falar o nome de cada um ali presente sem soltar um tiquinho que fosse da baforada. Isto feito soltava tudo de uma vez.

O mundo girava ao seu redor. Uma vontade de passar mal segurada para não fazer feio. Alguns caíam de bunda no chão e tossiam os bofes. Pronto, passou. Agora era treinar e fumar até dar picumã nas narinas. Felizmente todos de nosso grupo pararam logo e hoje fumar encanta cada vez menos gente. Fumar significa hoje uma grande caretice catinguda. Uma passagem.

Qual adolescente que não sonhou com os 18 anos para poder tirar habilitação? Carro tinha não, mas habilitação era um troféu a exibir. E entrar num bar e pedir uma cerveja? Tem dezoito? Perguntaria o garçom. Com ares de grande ator apresentava a identidade fingindo enfado. Assistir filme proibido para menores, conquista! Outra travessia.

Mil outras para mostrar, pois a vida é regrada por muitas. Porém, uma em especial me marcou. Um belo dia entrei na casa dos sessenta. Recente, mas aqui estou. Nada de lugar comum, do tipo “Sex-agenário” em demonstração clara de tentar gritar ao mundo “oh, eu dô conta viu!?”. Nada disso.

Ao colocar o pé em minha terceira juventude, corri para conseguir o cartão de estacionamento para idoso. Senti-me aquele menino da porta do cinema, pronto para assistir “Último tango em Paris”.
Orgulho de cabelos grisalhos e da vaga ali me esperando. Tudo ia muito bem, até que um belo dia um amigo me perguntou:
— Cara, você vem aqui todo dia, certo?

Acenei um sim desconfiado.
— Você vem fazer o quê mesmo?

Correr 5, 10, 15 Km, às vezes, dependendo da disposição.
— Então, me explica o motivo de ocupar vaga de idoso?

— Uai, é direito adquirido, tenho sessenta!

— Direito é, mas é justo? Você vem aqui correr 10 km e quer parar aqui? Deixa para idoso que mais precisa, aquele que tem dificuldade de se locomover. O que são mais 100, 200 metros para quem vai detonar duas, três ou mais léguas?

Pois olhe, não parei mais em tais vagas. Acima do direito adquirido, a consciência não permitia. Fico triste quando vejo um mundo de gente nova usando irregularmente vagas reservadas para idosos e/ou deficientes físicos na cara dura. Nada como um olhar de fora para te mostrar caminhos.

Uso mais não. Ali não. Obrigado amigo Otolini. Graças a sua sensata observação subi mais um degrau na escada do viver. Outro ritual interno. Bela passagem.






Jornal Correio 14 de agosto de 2016

segunda-feira, agosto 8

Capotraste



Nossa língua é uma viagem. Já observaram quantas palavras soam como uma coisa e na verdade é outra totalmente diferente? Pensei aqui algumas que sempre me levavam a outro lugar e as compartilho com você, que tem a paciência de ler minhas elucubrações. Pronto, aí já está uma das recolhidas na tarrafa da curiosidade. Tá certo que ela significa exatamente o que quer dizer, mas pense que louco, se você passou a noite estudando, você elucubrou pra caramba. Sabia? Porém essa é um nadinha de nada.

Ando com uma “osfresia” danada. Meu Jesus Cristim, já procurou um médico? Tenho um amigo que quase morreu disso. Ainda mais se for acompanhada de “iscnofonia”, aí, lascou. É, acho que você tem razão, vou ligeiro. Será que isso pega? Vou avisar o pessoal do laboratório, pois vai que passei isso para alguém, quero carregar culpa não. Ouvi contar que chá de “ginge” é bom para esse trem. Ponha umas gotinhas de “abléfaro” que passa em dois tempos.

Bom, estimo melhoras. Vou aproveitar o bom tempo e ver se aproveito o manso do rio para um “náfego” tranquilo. Cuidado com o “Zafimeiro”, dizem que em agosto ele anda solto pelos cantos, um perigo.
Vale puxar reza, senão novena. Esse agosto é de agouro marrento, redemoinho e sacis a solta, é de tomar cuidado, vigília.

Vou-me antes do acainhar dos cães no trecho e, se tiver sorte, ainda pesco meia dúzia de “arúspices”, já que é tempo delas. Dá uma moqueca de lamber beiço.

Pois não é? Cada palavra no seu galho. Só não entendo os motivos pelos quais elas me levam a pensar longe coisa que não é, mas lembrança faz nascer. Tem língua mais repleta de histórias e passagens de Marias-Fumaça do que a nossa? Querida e rica língua pátria. É “acontista” de nascença.

Outro dia, meu filho me apresentou uma. Ao sair apressado para buscar um capotraste, perguntou a passadas se eu queria alguma coisa. Pensei ligeiro, pois estava mesmo com fome e, ainda sentindo o vento de sua saída, respondi:

Traz um pra mim também. Pode ser mal passado! Atentei que ele parou. Quietou alguns segundos e voltou de fasto. Colocou só a cabeça pra dentro e, com sorriso armado, perguntou:

Como é que é? Aí, falei: uai, pode não? Estas coisas se não forem malpassadas perdem o gosto.

Pai, capotraste não é de comer, é para o braço do violão, como se fosse uma pestana.

Aí, parado fiquei eu. Certo, respondi, mas que tem som de comida e boa tem. Se não é, deveria ser. E outra, pestana pra mim é fio de cabelo da pálpebra ou, quando muito, é puxar uma palha, de preferência em rede depois do almoço, numa deliciosa preguiça mineira.

É cada uma!

Outras estranhices que mostrei vou contar significado não, deixo busca no dicionário, mas só vale o de papel, aquele livrão grosso e com aroma de muita coisa contatada. Fica de presente para você. Enquanto isso, tome um belo “Cabotino”, acompanhado de deliciosa “viscacha”, não há quem resista.







quarta-feira, agosto 3

Quintais



Tenho mania de lua, sempre tive, desde pequeno. Cresci em quintal grande, cresci em vários quintais. Conto. Apesar dos muros que separavam as casas, eles, os muros, não delimitavam espaço para nós. Sempre havia árvore a ser escalada e buracos nos tijolos que nos servir de apoio. Era pulo só e já estávamos na continuação de nossos quintais. Alguns eram hostis. Contei do galo que dava carreira em quem se aventurasse por seu terreiro. Outros, donos, ruins em tristeza e péssimo humor, nos rogavam pragas e atiravam caquis maduros quando, como bando de micos, cruzávamos “seu território”.

Nem podiam imaginar que suas moitas de bananeiras, há muito, se tornaram nossos banheiros. Para que correr apertado para casa se ali em “nosso” pedaço existiam tantos banheiros desocupados? É fato que, de quando em vez, um de nós saía correndo com as calças arriadas escorraçado por alguma galinha no choco. Ninhos espalhados pelas moitas eram mais temidas armadilhas dos cães bravos.

Aliás dos cães. Alguns infelizes que detestavam crianças, bem dizer não éramos exatamente santos, pelo contrário nos faziam miúdos de verdade, com toda coragem e molecagem que nossas pernas e imaginação permitissem.

Logo que corria notícias de cachorro novo em nossos quintais começava estratégia de conquista.
Deitado sobre o muro deixava o bicho latir grosso sem parar. O dono chegava na varanda, via cena e sorria satisfeito a pensar : um menino que aqui não entra mais, frutas e galinhas seguras. Qual!
O bicho latia até ficar rouco e, cansado de em pé ficar, soltava o quarto traseiro, sentava. Bom sinal. O latido ia ficando fraquinho, murmúrio, até se trasnformar em bocejo canino. Largava o corpo com as patas da frente esticadas, parecendo a desnarizada esfinge egípcia e deitava em leve rosnar. Era o sinal para o segundo estágio da conquista.

Todos nós carregávamos bolinhas miúdas de carne, do tamanho de bolinhas de gude, surrupiadas de geladeiras de casa. Hora em vez rendia coça, pois um tinha levado a mistura do almoço. Chinelo cantava. Sinal respeitado por todos. Aquela marca vermelha de sandália havaiana pregada nas costas era um troféu, cicatriz de uma guerra de paz. E, acredite, ninguém virou bandido por conta disso.

As bolinhas de carne iam sendo atiradas junto ao cachorro que, depois de bom cheirar, catava uma a uma com o canto da boca, comia ainda deitado, focinho rente ao chão. Umas jogadas mais um pouquinho em nossa direção. Com preguiça, levantava. Uma espriguiçada de dobrar lombo para frente, outro bocejo e lá vinha o bicho. Assim acontecia durante alguns dias. Logo já fazia parte da turma, acompanhava pulando e aí não tinha jabuticaba que chegasse. O dono do bicho em feliz maldade, achando agora que era maritaca, preparava espingarda de sal.

Tenho mania de lua. Sei suas fases, acompanho seu brilho, seu silêncio. Os bichos me ajudam a lembrar. Morcegos em particular. Se é lua cheia, o movimento é menor, começa tarde. Na nova é aquele fantástico aranzé.

Um piseiro no céu. Triste aquele que não olha o céu com paixão verdadeira. O resto é falsa poesia.









Em Jornal Correio de 31 de julho de 2016

segunda-feira, julho 25

Sinal fechado


PS: As letrinhas publicadas em vermelho... bom as letrinhas vermelhas...



"– Olá! Como vai?
– Eu vou indo. E você, tudo bem?"


– Oi moça, sumiu!
− Nossa quanto tempo, que bom te encontrar. Fazendo compras?
− Não, só olhando o movimento, cores de vitrinas. Observando gente, pensando na morte da bezerra, como sempre.
"– Tudo bem! Eu vou indo, correndo para pegar meu lugar no futuro… E você?"

− Sumida daquele tanto, onde anda escondida?
− Nada, quase não saio. Ando por aí, no Facebook e tais.
− Que legal, vou solicitar amizade. Você aceita, pode ser?

"– Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das ruas…
– Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!"

− Claro, vamos ter mil encontros que nem te conto. Tanta coisa para conversar e por em dia.
− O que anda fazendo?
− Nada demais, o de sempre. Muita prosa boa no Twitter. Sabe como é. E você?
− Fazendo minhas corridinhas, vigiando passarinho, pôr do sol, nascer de lua. Estrelas e tons de verde…

"– Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!"

− Olha me dê seu telefone.
− Pô, que legal, vai me ligar? Poderíamos aproveitar o frio e saírmos para tomar um caldo.
− Não vai dar, agradeço, fica para uma próxima vez. Agora que tenho seu telefone, vou te adicionar no Whatsapp. Vai ser bom retomarmos nossos contatos.
− É mesmo. E se a gente marcasse um chopinho?
− Difícil, pois tenho encontros com amigos que estão longe e até com alguns aqui da cidade pelo Skype quase toda noite, mas quem sabe não é?
− Nem um cineminha um dia?
− Você tem Netflix? Estou acompanhando cada série fantástica. Já assistiu Game of Thrones?
− Pensei na telona.
− Ah não, dá muito trabalho! Além do mais tem que sair de casa.
− Podíamos marcar um vinho então e ouvir boa música, que tal? Tenho uma coleção…
− Aí é legal. Tenho cada playlist no Spotify e do Youtube que você vai horrizar.
−… de vinil…

“- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
– Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!”

− Bom, tenho que ir. Foi maravilhoso te ver e nos veremos muito mais agora que temos nossos contatos. Vou ver umas coisas ali na frente.
− Nossa, será que nessa galeria tem wifi?
− Claro que tem.
− Sabe a senha?
−Sei… haja saco.
− Tudo junto?
− Acho que sim, sempre é.

"– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…
– Adeus! – Adeus!
– Adeus!”

Muito obrigado Paulinho da Viola, na voz de Chico, por seu “Sinal Fechado”. Saiba que, por mal dos pecados, os sinais andam fechando e abrindo ligeiros demais. As gentes se fechando em bites, gigas e games. Prosa anda rara e a calma pressa interiorana substituída por guerra, pressa, sobrevivência. “Viver anda cada vez mais perigoso” (Rosa/ Riobaldo)

"Gentes tão escondidas. Reclusas, se negam ao perdão. Descrença que entristece. Sigo viagem.
Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difícil não é ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é saber definir o que quer e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

"– Pra semana…
– O sinal…
– Eu procuro você…
– Vai abrir, vai abrir…
– Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
– Por favor, não esqueça, não esqueça…"







Correio de Uberlândia 25 de julho de 2016 - quase fim de férias

quinta-feira, julho 21

Bezerro





Foto Trilha dos Tucanos

Desespero de fazendeiro, só criava gado à larga, solto no pasto, no mato. Era bicho prá todo lado, embrenhado em grotões onde cavalo nenhum conseguia chegar. Reconto essa história sem tirar nem por. Foi um acontecido longe, pelas bandas da Serra do Cipó, coladinho em Conceição do Mato Dentro, que um dia foi da Comarca de Sabará, depois de Serro Frio e chegou a chamar Conceição do Serro.

Quem disse que ele conseguia peão que ficasse? Na primeira hora do dia, já se via desespero, num aqui não fico não homi. Como juntar gado brabo desse jeito, de investir em arreio de montaria? Assim foi. Tinha que vacinar o rebanho. Fiscalização avisou. Suava desespero. Fazer o quê da vida?

Estava assim na varanda, sentado em banco comprido de madeira jacarandá, lustroso de tanta bunda alisar, quando chega a pé homenzinho miúdo, franzino que só. Calça na canela e sandália de couro cru. Camisa amassada indicava viagem longe. De bagagem um quase nada. Parou assim parado, olhando chão. Observado foi sendo.

Passado o tempo de timidez, murmurou:
— Há de ser aqui que andam de precisão de vaqueiro? Me contaram lá em Conceição, me ponho na sua vontade, que trabalhar careço.

Olhou aquela figura pequenina, dos braços fraquinhos, pensando se ria ou chorava. Dá conta nunca da empreitada, sofismou. Mas tinha solução que outra fosse?

Contou o serviço de juntar o gado para o curral. Tinha que ser todos. Rês nenhuma poderia ficar para trás perdida.
— Vou lhe arrumar cavalo bom e se quiser começar amanhã está contratado, pois já é hora de almoço e seu dia não ia render.

— Agradeço patrão, mas almoço fica prá quando voltar. Quero cavalo não. Vou a pé mesmo. É só apontar direção da bicharada.

— Sem cavalo ou mula? Endoidou? Contaram a braveza dos bichos?

— Contaram patrão. Ligo não. Sigo assim mesmo e se não chegar todos nem paga aceito.
Sendo assim, apontou o caminho.

Fazendeiro balançou a cabeça. Deve ser doido varrido, mas quer, deixa tentar. Assim, faço ao menos caridade em dar de comer quando voltar triste.

Eu não vi, pois é história repicada, mas contam que esse moço miúdo ficou emprenhado a correr dia todinho. Correu mato, cerrado, serra e grotão, açodando um por um dos bichos. De mamando a caducando trouxe todos.

Fazendeiro ainda triste na varanda levantou os olhos, esfregou para ver e não pensar desverdade das vistas. Descendo a serra vinha manada rumo ao curral. Correu sentar no varão da porteira a contar, apontador.

Todos estavam ali, faltava nada.
— Moço de Deus, mas conseguiu feito nunca produzido, e a pé! Conta, deu muito trabalho?

— Olha patrão, trabalho, trabalho, os grandes e os sobre ano deram não. Mas aquele bezerrinho amarelo me deu suador, pois o bichinho é ligeiro e esperto, conhece caminho.

Bezerro amarelo? Uai seu moço, tem vaca aí não! Só macho. Mostra o tal. Subiu na cerca e apontou o canto mais longe: Olha lá ele!

Olhou seguindo o dedo e arregalou os olhos em espanto. O bezerro que o cabra tinha tangido, no seu correr sem parar, era um veadinho-campeiro, veio no afoito, no engano. Vai correr assim lá em Minas, seo moço!









Jornal Correio em 17 de janeiro de 2016

e

Jornal Voz ativa - Outro Preto Minas

terça-feira, julho 12

Sonho realizado

Mais um sonho profissional realizado. Orgulho de fazer parte de  equipe tão fantástica.
Caminhos escolhidos, abraçados com paixão.


Clica na imagem que amplia

Para baixar o Manual em PDF seguem os links 

http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/publicacoes-svs  (página “Publicações da SVS”, na aba “Zoonoses”)

http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/julho/08/manual-zoonoses-normas-2v-7julho16-site.pdf  (link direto)

segunda-feira, julho 11

Moletom





Frio que não quer ir embora força a gente a fazer cada uma! Roupa de frio de ruar (ato de ir para rua, bater pernas, cair no mundo). Frase muitas e muitas vezes gritada por mães ou avós aflitas: Já vai ruar outra vez menino!! Já é rara. Agasalho de ficar em casa, de dormir, então, nem se fala. Tomar banho e vestir o quê para, confortavelmente, se deixar ficar em sofá a ler, ouvindo boa música ou mesmo vendo televisão? Não tinha. Criei coragem e fui a lojas garimpar algum do meu agrado.A falta de costume me fez espantar com o tamanho das lojas visitadas. Imensas, cheias. De roupa, gente pouca.

Funcionários sem identificação seguindo tendência, se misturam a potenciais fregueses, ao que ficamos com cara de boi sonso, olhando para ver se dão sinal de vida de vendas ou se são outros clientes. Achei que cliente era só de consultório, não é não. De freguês a cliente em um dia de compras. O jeito foi me virar sozinho e procurar o departamento de moletons. Tinha que existir um, ora.

Depois de muito andar, já sentia o frio diminuir. Achei o tal lugar onde os moletons se escondiam, um sobre o outro, parecendo dizer em triste murmúrio: — Me leva não! Olhei um, olhei outro e revirei a pilha tentando não desorganizar. Cáspita! Qual seria meu tamanho? Acostumado com números 38, 40 e tais, aqui eram letras, como nas camisetas.

O jeito era experimentar. Agarrei um de cada cor e, outra luta, foi achar um provador, que agora se chama “trocador”. Trocador pra mim é de ônibus. Segui busca. Até aqui não havia sido abordado por ninguém da loja. Nem alma penada chegou, com sorriso ou cara feia, para perguntar que raios estava fazendo ali. Achei! Não só o provador, como também um alguém que, rapidamente, contou as peças que carregava e me deu uma ficha, além de seco olhar.

Cabine de experimentar roupa consegue ser menor do que banheiro de ônibus ou avião. Alguns ganchos, um espelho, e banquinho, cortina que mal fecha. Ginástica de contorcionista para desamarrar o tênis, equilibrar em uma perna só, cabeça encostada na parede de compensado, três pulinhos para um lado e quase me vi no corredor aos gritos de “Abrem-se as cortinas”! Celular cai chapado, carteira some e chaves do carro se escondem como coelho ligeiro em meio a tanto pano. Comecei a suar, o calor só aumentando.

As medidas. Meu manequim é um quase nada. O tamanho P fica curto na canela. O comprimento M faz a barra arrastar no chão. Jesus Cristinho, o G fica uma marmota! Mais acrobacia para vestir a calça e calçar tênis. Um serviu, mas a cor não era a que eu queria.

Recolho tudo, saio de cadarço desamarrado, entrego para a moça roupas e ficha. Retorno ao canto dos moletons e pego mais um tanto de modelo diferente. O trocador fica longe dos moletons, fiz umas tantas viagens. Suor já brotando nas têmporas e testa. A moça me estende outra ficha e as chaves do carro, que ficaram no monte. Primeiro sinal de humanidade. Acho que ela estava ficando com dó de mim. O calor que sentia lembrava o de um bom treino de academia. Quase não conseguia tocar o tecido quente do experimentado.

Exausto, me dei por vencido, pois nada me servia. Com um calor desses, que moletom que nada! Comprei, sem experimentar, um calção de corrida. Saí feliz da vida.






Em Jornal Correio 10 de julho de 2016

segunda-feira, julho 4

Cometa




Foto  Comet  Lovejoy :  Sky and telescope

Valdelândio, por todos nomeado Vau, era sonhador incorrigível. Vau, por facilidade no chamar, já que seu nome de batismo era difícil de pronunciar, principalmente depois de noitada no boteco da vila. Vau ficou. Não era de raso de córrego, de água nas canelas, nem sujeito pouco profundo. Nas ideias e nas gentilezas era cabra de muito conteúdo, muita história, vivência. Quando pegava a contar, até mosquito se aquietava a ouvir, desprotegido, das taruíras que perdiam fome e instinto, e paravam a balançar cabeça escutando. Pois me conte, se lagartixa é dita surda? Ali elas conseguiam ouvir e bem escutado.
Dava conselho para criança e gente erada, sabia.

Tanto sabia e não guardava nada, generoso que só. Vau um sonhador sem limites. Gostava de uma caninha de engenho, pelo sabor conhecia até variedade da cana. Cana Rosa, Fita, Bambu, Carangola, Cabocla, Preta e sabe-se lá qual mais. Porém gostava mesmo era de aguardente produzida da cana caiana, planta nobre das antigas. Costumava contar: Cana de setembro gosto não, pinga aguada sem sabor, a de novembro começa a mostrar espírito, alma, mas ainda não convence. Já as plantas de dezembro, chegam carregadas de sumo doce, prontas para festança de fim de ano. Estas sim dão bebida boa. Pois olhe e apure, nem o garapão dessa tem azedume malcheiroso daquele tanto.

Mesmo com discurso conhecedor, não provia desfeita a ninguém e se, em visita, toca-se pinga de indústria, não se fazia rogado. Bebia com gosto e ainda elogiava. Homem bom esse Vau. Inimigo não tinha, mas amigos de fato. Poucos, mas bons. Conhecidos? de manada.

Trabalhava o suficiente para tocar vida, não tinha de posse um passarinho para dar água, mas os tinha aos bandos em quintal de sua pequena tapera. Tanta árvore de fruta e sombra tinha plantado que havia pelo chão só folha a enriquecer e alimentar minhocas e caramujos. Grama ali nascia não.

Vau tinha cisma única de como seria o outro lado, como seria a volta, o morrer. Não entendia a graça nisso. Essa coisa de céu e inferno ele nem de longe acreditava, pois até o padre de cabeça lhe tinha tirado isso. Era que nem bicho-papão para moleque miúdo. Era para assustar, aprumar comportamento. O mistério era maior.

Ideia o seguia. Era só deitar a olhar estrelas e vinha a preocupação. Teria lá uma pinguinha boa para abrir apetite? Tinha que ter, ah isso tinha! Os bons e justos iam misturar com os desalmados trapaceiros, fazedores de coisa ruim? Tinha que ter um lugar apartado, senão ia ser um aranzé. O que não se desentendeu aqui ia sobrar só para a eternidade em algum canto do universo? Então era o inferno! Padre balançava cabeça num desisto.

Foi nada não. Dia desse, passando olhos em revista, leu manchete: “Cientistas descobrem que o cometa libera álcool etílico e açúcar”. Deu de interessar. Ficou sabendo que tinham descoberto um cometa que atendia por Lovejoy e que ele estava “soltando uma quantidade de álcool relativa a de 500 garrafas de vinho por segundo durante sua atividade de pico”.

Relaxou. Pronto, agora sabia até quando iria dessa para outra. Seria na passagem do alegre cometa etílico. Levantou sorrindo felicidade, bateu o chapéu na perna, olhou com gosto noite estrelada. Tomou caminho do boteco cantarolando: “Pegar carona nessa cauda de cometa…”