terça-feira, janeiro 29

Vida Simples





Dedicado a Públio M15

Vila miúda. De um lado descampado de pasto a perder de vista, aqui e ali uma mancha de matinha a preservar nascentes. Perigoso de banhar, território de bichos de querer longe. Sem mais ter para onde ir, habitavam terra e copa de árvores. Bichos peçonhentos que nem gente humana. Cobra rasteira aprendeu escalar tudo no rastro de ninho de passarinho. No chão, contam, até pisada de onça grande no barro beira córrego eram avistadas.

Pra toda banda aranhas de todo feitio, cor e tamanho. Veneno, muito veneno. Passarinhada fazia ninhal, pois fruta do mato e até de quintal tinha muita. Sementes levadas por morcegos e outros bichos. Festa só. Não havia menino que não cobiçasse as mangas enormes em amarelo/vermelho/roxo, as goiabas de tamanho assim, jambos carnudos, pitangas e amoras maiores do que o ovos de garnisé vindas lá de Guernsey, longe canal da mancha e soltas aqui, agora cantavam em português fluente.

Abelhas zumbiam em trabalho sem parar e, cada oco, pequeno que fosse, era rico em mel de favo. Das miudinhas sempre fartura: Jataí-itajaó, Inhanti, Lambe-suor, Marmelada, Moça branca, Mané-de-abreu, Arapuá, Abelha Cachorro, Tataira, Caga fogo, Mirim Preguiça. Eram tantas tribos, que se tornava difícil contar. Cada um dava um nome.

Orquídeas de pouco ver enfeitavam o tudo. Contam que gringo foi lá, retratista de natureza, visitou as ilhas verdes do demeio do pasto, voltou mais nunca. Veio até avião da capital com gente de busca, mateiros da região de experiência seguiram junto, cães de farejo agudo, mas nada se achou. Nunca.

Alguns contam que foi vingança das manchas, pois queriam não era retrato, era levar para longe nossas riquezas frágeis. Paraíso perigoso. Tinha o doce, tinha o ardume, arrastando, beirando cada pau caído, o susto e a morte. Melhor não ir. Deixar quieto as manchas fervendo vida, prudência. Beleza não era para ser vivente que de lá não fosse. Contar de lá era o que ficava. E disso a vila era sábia.

Se de um lado era pasto, virando para o poente era parte areia e findava no mar. O sustento de quase todos vinha da pesca. Um dia o lugarejo fora beira-mar, mas vento veio carregando toda areia das praias nossas e até da África. Vinha em tempestade. Açoite no corpo e na alma. Casas foram recuando, recuando, recuando. Por tantas vezes povoado se afastou do mar que pouco se via. O vento deu sossego, mas caminho ficou longe. Assim o andar da porta de casa até o barco amarrado na areia beirando mar, transformou-se no dia a dia das gentes daquele lugar.

Não demorou turista descobrir o recanto. Avisados do que havia do lado de lá, nem se aventuravam no medo. Armavam barracas na praia sob sombra de belas e viçosas castanheiras. Pequenos comércios de peixe, camarão, lagosta, moquecas, siris e seus parentes guaiamus, rendiam bom sustento nos meses de férias. Depois disto, era solidão mansa, silêncio frio de paz.

Morador por nome eu não sei, mas apelidado de Xaréu, por conta de uma história de um desses de mais de seis quilos que diz ter fisgado, mas que na hora de embarcar rabiou e fugiu água a fundo, era com frequência questionado. — Xareú de seis quilos? Conte outra! E era risada que só. Manso, da paz, mas sistemático, nunca ligava. Restava saber se verdade era, mas que Xareú ficou assim apelidado, isso ficou.

No verão dos turistas Xareú inventou e montou barraca de pau e folha de sapé a vender café, leite morno, rosca, pão e biscoitos fritos pela mulher, para os famintos da cidade.

Contei, era sistemático e teimoso. Tinha sistema. Manhã azul/férias. Chega turista branquelo leite, todo cor da bunda.
— Bom dia!
— Dia!
— Queria um café com leite e uma rosca com manteiga.
— O café com leite eu vendo, rosca também, mas manteiga só no pão. Aqui não se come rosca com manteiga. Onde já se viu fato assim? Resmungou perdendo o humor.
— Moço, mas eu vou pagar. É só passar a manteiga na rosca e pronto! Retrucou o turista.
— Aqui não! Se quiser manteiga é só no pão, na rosca nunca, vendo não.
— Tá certo. Mas o senhor vende a manteiga por pacote ou quilo? Pode ser?
Abriu sorriso, ia dar negócio. — Aí eu vendo.
— Então me vê quatro roscas e um tablete de manteiga.
Xareú feliz a embrulhar as roscas, primeira venda do dia. Prometia.
Deu estalo em Xareú. Parou, desritmou o empacotar. Olhou para o teto de sapé por onde entravam tímidos raios de sol. Um deles acertou em cheio seu olho, piscou forte no desviar.
— Não, vou vender mais não! Enrugando a testa.
— Mas por que santo homem? Eu vou levar daqui!
— Acha que sou bobo? Você vai é passar manteiga nas roscas! Aqui não violão! Manteiga só no pão!

E lá se foi um irritado visitante a pisar firme na areia.
Eita! Povo da cidade esquisito, irrita atoinha que só!






Veterinário e escritor
Publicado em Diário de Uberlândia em 27 de janeiro de 2019

terça-feira, janeiro 22

Fumaça


A noite chegou mansa. Horário de verão complica a vida de todo ser vivente, custa a escurecer e o amanhecer demora mais um pouco. Particularmente gosto, pois posso aproveitar um pouco mais o fim de tarde. Confesso, chego ao fim de semana cansado de um não sei o quê. Fico imaginado as gentes que moram na terra de Papai Noel dos Natais cada vez mais difíceis pois a vida não está para peixe nem peru. Na Lapônia, que fica encostada no círculo Ártico, acontecem em alguns períodos "noites sem noites". É quando o sol nunca some na linha do horizonte, corre por ele de ponta a ponta, mas não desaparece. Assim têm luz vinte e quatro horas por dia, durante meses. Coitado dos poetas, dos seresteiros, dos namorados. Gilberto Gil se lá vivesse, jamais teria composto Lunik 9, pois jamais chegaria a "hora de escrever e cantar e não haveria derradeiras noites de luar".

Aquela noite, que mansa chegou, seria diferente. Lua nova, escuridão total, canto longe de alguma Mãe-da-lua, pensando ter perdido sua companhia. Os Urutaus são assim, melancólicos. Carga pronta, caminhão esperando o amanhecer na olaria para seguir viagem.

Assim do nada, do fundo do breu, uma risadinha arranhada na carroceria do velho D-9.500 de 1958 mais conhecido por "barriga d'água" por conta do eterno vazamento do bloco do motor. Um cachorro vigia uivou, de medo. Logo outra risada mais aberta, seguida de outra e mais outra. Depois de certo tempo o que se ouvia era um gargalhar de milhares. Risos de doer o estômago, como quem boa e bem contada piada, ou caso, ouviu. Aquele riso aberto de quem vê alguém levar um tombo em lodo de pedra de riacho e a seguir perguntar com dentes travados: Machucou? Diante da negativa despenca em gargalhar a plenos pulmões. As risadas não paravam. Depois de muito tempo, um movimentar sem fim deu lugar ao riso. Inquietação geral, despencar de lugar algo, esborrachar em chão com som seco, tosses, risos, delírios acéfalos.

Pela manhã, rebordosa geral. Todos para o caminhão. O chacoalhar martelava cada pedaço. Ressaca assim nem de cachaça de carotinho, de cinquenta centavos, nem de vinho doce de mesa, garrafão bebido no bico. Quem disse que conseguiam ficar em formação ali na carroceria? Para espanto geral mal se mantinham, e não era o balanço de estrada esburacada não, a zoeira estava dentro de cada um. Volta e meia, quando o vento conseguia levantar parte da lona que os cobria e uma brisa gostosa entrava sem educação, o alívio era breve. Alguns mais resistentes ainda davam longas, sinistras e sonoras gargalhadas. Motorista e ajudante se entreolhavam arredios na boleia.

Aqueles tijolos, depois da queima de toneladas de droga tipo cocaína, crack, cigarro falso do Paraguai - esse deve ser um mata-rato - toneladas de "Maruamba" em forno de cerâmica pela Polícia Federal , por muito tempo não iriam prestar para levantar paredes, podia até bater prumo, mas logo, do nada efeito "poltergeist" amaneciam de ponta cabeça equilibrados em apenas um cabo de enxada. No meio da linhada assentada, um risinho arranhado se faria ouvir e logo a algazarra novamente se instalaria.

Pedreiro assentava hoje, no dia seguinte encontrava confusão de formatos de paredes. Os tijolos, muito doidos, não conseguiam ficar parados em pilhas. Farra do bode no transporte até a obra, depois só confusão. E cadê peão para trabalhar nessa obra?

Roubo frase, nem acredito, "Max Payne" um game antigo : “Não sei quanto aos anjos, mas o medo é que dá asas aos homens...”


Publicado em Diário de Uberlândia em 18 de janeiro de 2019


Dura vida




Abriu a boca em bocejo de engolir o mundo. Acordou tarde, havia passado quase toda a noite a campear comida. Tinha revirado latas de lixo e terrenos baldios, onde a estupidez humana ficava escancarada, diante das montanhas de sobras que ali jogavam com vontade. Um dia quase tomou saco repleto de tranqueiras na cabeça, lançado sem a menor cerimônia por cima de um muro.

Desconfiava que, se eles não viam o lixo este deixava de ser problema deles. Assim, era mais fácil jogá-lo de lá do muro, não lhes dando atenção. Tipo o ditado mais dito no mundo: "o que os olhos não vêem o coração não sente". Vai nessa toada para você ver onde vai parar, digo eu.

Quanta tarouquice desse povo. Mal sabiam que ali se criavam ratarias gigantescas, que esperavam ansiosamente o momento de entrar nas casas dos parvos que os alimentavam sem saber, a espalhar doenças e destruição. Como disse o escorpião de Esopo, dando de ombros antes de se afogar, é a natureza deles.

Evitava tais territórios por dois motivos: a concorrência era grande e os restos ali atirados eram sempre de péssima qualidade.
A humanidade pronta a submergir por escolha e atitudes próprias.

Deu-se conta de que seu corpo doía todo. Talvez a posição de dormir. Ademais, o sereno da madrugada não tinha secado de todo e o sol ainda estava longe, no risco do horizonte. Deu uma chacoalhada e seguiu caminho. A fome o empurrava. Outra lata de lixo, um saco a rasgar e fuçar, à cata de algo que lhe abrandasse um pouco o incômodo. Sabia que a hora não era das melhores, mas como a penumbra não havia rendido nada tinha que se arriscar às claras.

Não demorou muito a ser xingado por um que vinha e quase levou um pontapé. Sentiu o vento do chute, mas esquivou-se como deu. Quanto mau humor matinal. Pensando nas contas a pagar? Gastou mais do que podia nas festas? Nesta época sempre encontrava nos sacos das sobras, recibos vencidos, IPTU, IPVA, imposto de renda, contas de lojas e vendas. Comprar é fácil, pagar, sacrifício. Como essa gente gosta de posar de importante. Gastam sem poder e vivem duras penam para pagar, quando é que pagam. Uma roda viva de sofrimento desnecessária. Basta pôr freio. Ele não devia um tostão. Também, não tinha nada, não carregava o peso de excessos. Vivia das sobras e lhe bastava.

Nesse meio pensar, um cachorro saiu em disparada a latir em sua direção. Não dava para fugir. Parou encarando o bicho. Olho no olho. O cão ladrava em fúria, espumava pelos cantos da boca, olhos vermelhos de um ódio instintivo. Não atacava. Latiu até ficar rouco. O olhar e a falta de medo foram decisivos para evitar confronto. Ainda latindo, pêlos em pé da nuca ao cavador do rabo, o cão foi devagarzinho se afastando. Virava quando em vez e ainda dava com seus olhos nele fixos. Saiu resmungando. Logo achou um bicicleteiro para aporrinhar.

Imóvel, coração ainda aos pulos de um medo que conseguiu não demonstrar, músculos tesos, respirou fundo e foi relaxando aos poucos. Agora não sabia o que doía mais. Fome ou corpo?

Achou melhor parar um pouco. Jogou-se em um beco aparentemente seguro. De uma calha lá no fundo corria uma água. A sede provocada pelo encontro com a fera lhe havia secado por inteiro. Sem cerimônia bebeu com avidez. Sentiu gosto de sabão de bola, mas nem isso o impediu. Bebeu como se fosse água do mais límpido riacho de mata fechada, vindo de cachoeira iluminada por sol da manhã. Fechou os olhos e ouviu o canto de passarinhos de todas as cores. Uma borboleta pousou em seu nariz.
Abriu os olhos e o que viu foi uma horrenda varejeira lhe beliscar as ventas. Com tapa a expulsou de seu breve sonho.

Tentar levantar ligeiro lhe repuxou a espinhela. Sem pressa, arqueado, se enrolou como pode. Tinha que descansar. Um ronco oco se fez ouvir em seu estômago. Não aguentava mais. Voltou ao sonho, ao riacho, se banhou nos respingos fortes da queda d'água, rolou na grama macia e manso subiu em árvore linda, de onde se via o fim do mundo em verde e montanhas. Nada disso existia mais. Só roça gigante, um deserto verde baixo sem vida para ele e para todos outros que ali moravam. Migrou forçado para a cidade, virou mendigo da natureza. Ali onde raras árvores existiam, tentava sustento. Seu alimento principal eram as lembranças, a fartura, a paz perdida.

Vida de gambá na cidade era dura e arriscada, mas tinha que sobreviver. Não havia lugar para fugir, mas algo lhe empurrava sempre - dia há de vir, as florestas voltarão a reinar. Dormiu exausto.

William H Stutz
Veterinário e escritor



Publicado em Diário de Uberlândia em 14 de Janeiro de 2019

sexta-feira, janeiro 11

Transporre - Efemérides

Desde que a lei seca que passou a vigorar no trânsito brasileiro já começou a fazer lá seus efeitos tanto no comportamento de motoristas quanto nos valores humanos. Que fique bem claro que considero a mistura álcool-direção explosiva. Mas a celeuma criada não podia ser mais inspiradora.

Na toada que vai, não raro ouviremos conversas diferentes sobre futuros casamentos. É fim do antipático e nefasto requisito tão presente na conversa de mesquinhos e dos de coração de pedra: bonita e rica, perfeita para casar.

De agora em diante tende a ser mais ou menos assim:
- A moça é um partidão, até que não é muito bonita não, é remediada de dinheiro, mas tem carteira de habilitação e olha que lindo: não bebe nadinha e detesta bombons de licor. Casal perfeito, será? Noites de sábado e futebol de domingo, o futuro maridão bebe em paz, patroa conduz.

Dia desses sentado em uma roda, tomando cerveja básica é claro, todos vizinhos a pouca distância de casa e nenhum dirigindo, fica o registro, surgiu a ideia de implantarmos em Uberlândia e com pretensões de expansão para todo país, prestação de serviço inusitado especialmente para os fins de semana, sugestivo nome veio à baila: Transporre.

Isso mesmo, seria um serviço de vans adaptadas para os apreciadores de uma boa cerveja gelada nos bares, nos clubes e mesmo nos churrascos e reuniões em casa de amigos sejam eles ainda solteiros ou cujas companheiras também ingerissem álcool. Assim todos poderiam sair tranquilos e moderadamente apreciar suas bebidas preferidas e guloseimas etílicas sem correr risco de infringir a lei. Seria o transporte solidário dos boêmios de carteirinha, dos poetas, namorados e seresteiros, que por ação da bebida não podem, como cantou um dia Gil, correr, mesmo chegada a hora de sorrir e cantar talvez as derradeiras noites de luar.

Apesar do nome sugerido em reunião de boteco, o serviço não é dirigido àqueles que de forma irresponsável consomem bebidas alcoólicas. Serviço Vip para bebuns ou não Vips, enfim um serviço diferenciado para os que sabem realmente apreciar sabores, seja uma loura gelada, uma cachacinha mineira de engenho ou bombons de licor, biotônicos Fontouras e até para os usuários de desodorantes e perfumes que em sua composição contenham o ilícito álcool.

E para as oktoberfest da vida e outros eventos de vulto onde haja venda de bebidas já estamos pensando em grandes ônibus com ar condicionado e serviço de bordo: café quente extraforte, caldos variados e marmitex caprichados para repor energias e atenuar os efeitos da bebida; será o Transporrão da madrugada.

O mais importante é que deve sempre valer a importante e inquebrantável regra não só em função de leis, mas em função do bom senso, da responsabilidade e da civilidade: Se dirigir não beba jamais, mas se beber chama o motorista abstêmio do Transporre, garantia de festa segura e tranquila para todos.






Publicado em Diário de Uberlândia em 06 de janeiro de 2019

quinta-feira, janeiro 3

Preceitos diários




Sou exageradamente dado a reflexões. Pode parecer bobagem, mas não tem uma manifestação a meu redor que eu não busque um motivo, uma razão para tal. Só as gentes humanas com suas posturas já deveriam preencher meu tempo, pois tenho por sistema levar grande parte dos acontecimentos do dia para cama comigo.
Por que tal pessoa age assim com tanta maldade acumulada?
Por que a figura atropelou propositalmente aquele gato?
E assim vai. As reflexões que demandam tempo prefiro levar para o leito. O silêncio da noite nos permite ir mais longe.
As reflexões leves do cotidiano me trazem paz. O motivo do canarinho tanto cantar, o céu de um azul deslumbrante, cada fruto de nossa horta colhido em movimentos ritualísticos de agradecimento. Estes e tantos outros reverberam em belas auroras boreais em pleno trópico, brilham como o mar ao nascer do dia em puro ouro líquido.

Temos um calendário da Seicho-No-Ie, presente de alguma amiga para minha companheira de caminhada.
Só, pois ela está em viagem, já me sinto mais pele, propenso a introspecção. A solidão assim é tão pesada...Virei o calendário para o dia de hoje e assim encontrei:

"Não há ninguém que seja pobre na infinita abundância da natureza."

"Havia muitas flores brancas em uma árvore velha e isso era muito bonito. Além disso, uma fragrância maravilhosa vinha dessas flores e se espalhava por todos os Lugares ... Que abundante riqueza permeia a natureza! Apesar de estarem envolvidos nessa abundância, as pessoas pensam que são pobres ou se sentem solitárias."
Seicho Taniguchi, Junsui Ni Ikiyou

Tão apegado ao pensar nunca havia me feito a pergunta maior sobre o rolinho que girava todo santo dia, talvez pelo fato de ainda, como os hamsters, acordar por etapas. Quem os tem ou já os teve, sabe do que estou falando. Mas o que é a Seicho-No-Ie? Lá me pus a buscar resposta direta sem rodeios e assim encontrei:

"É um ensinamento de amor que prega que o ser humano é filho de Deus, que o mundo da matéria é projeção da mente e, também, nos revela qual é a nossa verdadeira natureza. É uma filosofia que transcende o sectarismo religioso, pois acredita que todas as religiões são luzes de salvação que emanam de um único Deus."

Perfeito para mim, pois pego gomo doce de todas as religiões sem praticar nenhuma. Já lhes disse gnóstico em outras escritas.

Assim, segui para o outro ritual do dia a pensar no que li;
“Não há ninguém que seja pobre na infinita abundância da natureza.”
Não quando foi escrito, mas não serve mais para nossos dias, onde vivemos o destruir gradual de tudo que vive. Destruímos florestas, secamos rios, rasgamos a terra em desmesurada ganância. As poucas leis que seriam para proteger as espécies viventes vão caindo uma a uma, em dominó de negociatas espúrias, a beneficiar meia dúzia de pouco pensar.
Sim, estamos cada vez mais pobres, miseráveis de vida, no que depende a “infinita abundância da natureza.”
Último recurso para alguns de nós é defender causas que não queremos acreditar perdidas e repetir o jargão "a natureza encontrará seu caminho". Acrescento que para tal, careçe eliminar a raça mais nociva sobre a terra, nós humanos.

Continuando, "Apesar de estarem envolvidos nessa abundância, as pessoas pensam que são pobres ou se sentem solitárias."
Não meus queridos, estamos pobres sim, estamos solitários mesmo juntos. Olhe ao seu entorno e repare o que já se perdeu e não retorna nunca mais. Não apenas matéria, mas emoções, sentimentos, amores.
Não me levem por pessimista neste último texto de um agonizante 2018. Tento apenas trazê-los a minha companhia em reflexão maior, de criação, de reconstrução de sentimentos e ambiente. Desejo sim, para todos, um ano novo de muito repensar. Façamos um trato. Plante uma árvore. Se não der cultive um vaso. Se não der regue as plantas do vizinho. Se não der, ...Vai dar! Somos os tutores do planeta. Vamos fazer nossa curta viagem prazerosa e mais leve. Ainda há tempo! O muda, mas é um simples virar de página, como os preceitos diários.
Feliz Ano Novo de coração a todos! Virem as páginas do que estar por vir com carinho e atenção


Publicado em Diário de Uberlândia em 30 de dezembro de 2018 ( Último texto do ano)




quarta-feira, dezembro 26

Relógio

Tinha nascido em um belo janeiro, farto de chuva e colheita boa. Na roça nasceu, da roça nunca saiu. Se havia um mundão mais perto pra lá da vila, não era de sua conta e nem rompante de ir além possuía. Gostava da vidinha que lhe arrastava. Era feliz.

Por nome Marlubrano Sebastião, segundo nome em homenagem ao santo do dia, veio ao mundo pelas mãos de parteira boa de ofício. Esse vinga! Exclamaram ao ver o miúdo chorar com força. A mãe tinha perdido dois antes dele, daí a grita de alegria.

O primeiro nome, Marlubrano, foi por conta também da mãe. Quando jovem, chegou à vila um apresentador de fita de cinema. Armou tela grande, não muito branca, meio amarelada pelo uso e com uns buracos que possibilitavam, para alegria dos mais novinhos, espiar pedaços de filme fugidos da tela para as paredes das casas e para as mangueiras, assustando galinhas e passarinhos.

O filme era Espíritos Indômitos e não teve jeito dela não se encantar com a beleza daquele moço na cadeira de rodas. Ficou o nome na ideia. Marlon Brando, repetia ela todo dia como se fosse reza. Marlon Brando, Marlon Brando... Mas com o passar do tempo, os afazeres na lida, os seguidos e sofridos partos que deram a ela as duas primeiras filhas, os dois seguintes perdeu as crianças, foi comendo letras e jeito de falar. Marlão Brano, Marlanbrano, assim ficou. Como fim de memória, o que restou da infância e dos sonhos da mãe foi Marlubrano Sebastião, com muito orgulho. Enchia o peito para dizer que tinha nome de artista famoso. A mãe, velhinha, curtida de sol e vento, suspirava melancólica por aqueles olhos azuis em preto e branco do moço do cinema.

E a vida ia mansa para Marlubrano. Aos domingos era dia de feira na vila, e para lá carreavam todos e tudo que se produzia na região. Porco, galinha, rapadura, vestidos de chita, botinas e chapéus Panamás feitos nem tão longe. A cidadezinha virava uma festa de movimento. Desde muito Marlubrano tinha um pensamento de querer. Um relógio de bolso com aquela correntinha de engatar no cinto. Achava chique por demais ver os mais abastados da região, em roda de conversa, tirarem com firmeza o patacão, abrirem a tampa e darem aquela levantada de queixo, com olhar meio que por cima dos óculos, pensar longe e após o estalo gostoso de ouvir ao fechar o bicho, guardá-lo no bolso do paletó ou mesmo no bolsinho de moedas da calça. Vidrava só de ver!

Era seu mais íntimo desejo. Nem as moças do alcoice, cheirando a lavanda e leite de rosas a insinuarem-se nas janelas com seus imensos decotes, competiam com seu desejo de possuir um belo e reluzente relógio de bolso. Se bem que, por falta de dinheiro para comprar o sonho, acabava seus domingos quase sempre nos braços das moças, em suas camas sedosas e macias, pagando-lhes a bebida mais cara da região.

Esse domingo seria diferente. Ficou mais de mês sem sentir cheiro de alfazema e sem tomar cerveja cara com as amigas confidentes. Juntou dinheiro, centavo a centavo e à feira seguiu determinado. Levou pouca coisa para vender, só um cadinho caso tivesse que inteirar.

Mal chegou à vila, foi direto para a banca que vendia jóias de prata, bijuterias coloridas e, claro, relógios de pulso e de bolso, ao gosto do freguês. Posando de conhecedor, olhava um, sentia o peso, jogava de uma mão para outra. Levava ao ouvido, ouvia longe o funcionar da máquina. Gastou bem uma meia hora para decidir. Escolheu o mais bonito da banca. Era dourado, com desenhos em alto relevo, onde se via uma cena que lhe pareceu bíblica. Anjinhos, potes jorrando algo que devia ser vinho e, em um córrego, uma moça a se banhar. Isso tudo ele viu em seu objeto de vontade. Pagou sem pestanejar, nem catirar preço. Foi na lata.

Não dava para saber se o que brilhava mais ao sol era o relógio ou o rosto de Marlubrano.
Amarrou a correntinha na cinta e saiu pela feira a rodar o tão sonhado. Voltou para casa feliz como criança. Mostrou a conquista para mãe, para os agregados do sítio, para cães e gatos, para cavalos, vacas e até para as galinhas.
No anoitecer, banho tomado, sabão de bola perfumado, bateu janta ligeiro e pulou no catre. A luz da lua entrava como vento. Parecia que queria ver a preciosa joia. Passou a noite admirando o relógio. Adormeceu com ele no peito.

Dia seguinte arriou o cavalo cedo e seguiu outra vez para a currutela, fazer o que não fez no dia anterior, de tão envolvido que estava com a compra. Na cinta o relógio.
Apeou na porta da venda e, mal colocou o pé na soleira, um amigo de longa data disse:

─ Dia Marlubrano ! Quantas horas?

Aí veio o estalo. Tinha agora o tanto querer, mas não sabia o uso. Desconhecia número e letras. Não aprendera ler ou escrever. Sem tempo, roça consome vida de criança, ensanguenta mãos em colheita de algodão. Mas, em lampejo de pensamento, devolveu ao companheiro:
─ Calcula?
─ Hum, deve ser umas nove horas.
─ Em riba! Ligeiro se foi venda adentro.







Publicado em Diário de Uberlândia em 24 de dezembro de 2018

segunda-feira, dezembro 17

Zéfiro






A noite não foi das melhores. Quem nunca passou por algo assim? Você deita de um lado, os pensamentos escorrem dentro da cabeça, para o outro, se acumulam junto ao travesseiro parceiro e lá ficam martelando o seu pensar. Dói o ombro você virar para o outro lado e, como areia de ampulheta, lá vem aquele monte de pensares a se esgueirarem por um canto qualquer onde exista vazio. Grão a grão vão se acumulando em montículos do outro lado. O travesseiro esquenta, você o vira. Breve frescor, pois logo está tão quente quanto. A janela aberta a trazer brisa de nada adianta. Desligaram o vento noturno. Saudade das chuvas que até outro dia embalavam sono em carinhosa sonata.

O lençol compartilha sua agonia, mas em deboche ganha vida própria. Teima em lhe aquecer como se cobertor fosse. Descubro os pés em estratégia, nada adianta. Rolo de um lado para o outro na tentativa de achar um sono, que nem no horizonte se avista. Mais pensamentos em rodopio, sempre ruins, sempre atormentadores. Vejo o passar das horas bem na minha frente. Fixo o olhar na janela e acho as estrelas. Foco meu pensamento nelas, viajo. O sono manso vem abraçar. Sobressalto. Algo funesto se materializa do nada, abro os olhos. Testa a suar. O corpo teima em doer mais. Exagero de exercícios, caminhadas puxadas e corridas diárias. Vou me dar um tempo, penso totalmente aceso.

Procuro os sons noturnos, meus companheiros. Nenhum pio de coruja, nenhum grito das inquietas galinhas d'angola. Os grilos em silêncio absoluto. Como é que pode?

Muito bem, me rendo. Penso em sair da cama e ler um bom livro. Há alguns dias que não abro o meu Livro do desassossego, de Fernando Pessoa ou Bernardo Soares.

Talvez o heterônimo menos conhecido de Pessoa. Talvez nem fosse, talvez a simples vontade de assinar a obra assim. A história do guarda-livros iria me tirar mais o sono ainda.
Busquei refúgio no rádio. Perguntariam: por que não liga a TV? Respondo: detesto televisão no quarto e jamais submeteria lugar tão sagrado a ela.
Meia dúzia de vaga-lumes passam em brilho pelo vão da janela, pirilampeiam pelo quarto e voltam para a penumbra do céu de uma estrela. Um conforto, ainda estou vivo. Só, insone, mas vivo e começando a ficar irritado por não conseguir conciliar o sono.
Ligo o radinho. Este sim, companheiro. Não queria música, queria vozes, conversa. Busquei até achar. E para minha grata surpresa era uma prosa com o escritor Gonçalo Júnior. Confesso que não o conhecia até então, mas o seu livro me levou em viagem à infância em minha Belo Horizonte. O título? "O Deus da Sacanagem: a Vida e o Tempo de Carlos Zéfiro".
Já tinha esquecido aqueles livrinhos e seus desenhos de péssima qualidade, mas que eram disputadíssimos à época e seriam os manuais de iniciação nas artes do prazer de várias gerações.

Fiquei mais fã ainda só em saber que esse cara durante mais de quarenta anos deu nó na censura, na polícia, no Doi-Codi, no DOPS, na igreja, nos fofoqueiros de plantão, na malandragem carioca, nas socialites e em toda a força bruta e "inteligência" da ditadura militar que vivíamos a época,
Uma trecho da sinopse:

" Por décadas, o pacato funcionário público carioca Alcides Caminha viveu no subúrbio de Anchieta e de lá escondeu de todo mundo, inclusive da polícia, que era o desenhista Carlos Zéfiro, autor das famigeradas revistinhas pornográficas em quadrinhos conhecidas como “catecismos”. Entre as décadas de 1950 e 1970, principalmente, com suas narrativas de sexo explícito, Zéfiro fez a alegria de adolescentes, jovens e adultos do sexo masculino, que pouca ou nenhuma informação tinham sobre sexo, em uma época de forte repressão moral, promovida por entidades conservadoras, políticos, juízes, educadores e religiosos.
Primeiro, suas revistinhas foram consagradas por toda Rio de Janeiro. Depois, espalhou-se pelo Brasil. Com um detalhe: eram sempre vendidas às escondidas.”
Já encomendei o livro, depois conto.

Por verdadeiro nome Alcides Caminha, o Zéfiro, não ficou só nos “catecismos”, poucos sabem, mas era também ótimo compositor. Sabem a música A flor e o espinho? A letra é do próprio Alcides, em um longe 1957. A música é de ninguém menos que Nelson Cavaquinho até hoje reverenciada .
Assim como essa obra prima, tem várias outras por ele compostas. Zéfiro foi ainda um grande defensor dos direitos das mulheres e, se falava de sexo, seus textos sempre enalteciam a mulher e o seu direito ao prazer. A igreja queria crucificar esse misterioso filho do cão, como era chamado pelos inimigos.
Pois assim, confortado por tão rica entrevista, sobre um personagem que fez parte de minha infância, fui tranquilo ao encontro do filho de Hipnos.

Mesmo profícua, a noite não foi das melhores. Dormi perto do amanhecer, mas a primeira visão que tive ali, bem na minha frente, no galho da goiabeira que quase adentra o quarto, foi um maravilhoso papa capim, com todo seu singelo e discreto esplendor. Anos sem ver um desses na cidade. Fiquei imóvel e, assim do nada, ele entoou seu indescritível/inconfundível canto. Canto também da minha infância, de meus largos quintais.

Recompensa em dose dupla no recordar de criança, que por várias vezes pensei já em mim não habitar. Ao reencontrá-la criança soube que nunca me abandonou segundo sequer, tive de volta a plena alegria do viver.







Publica em Diário de Uberlândia em 16 de dezembro 2018


segunda-feira, dezembro 10

Paletão



Quem nunca foi às compras em um supermercado? Tenho lá minhas cismas com tais comércios, principalmente em época de festas ou feriados. Aquele monte de "ofertas" me deixa desconfiado, de orelha em pé. Gasto mais tempo olhando data de validade cravadas em minúsculas letrinhas e em locais nada fáceis de encontrar, do que pegando o que fui buscar.

Confesso que prefiro as boas e velhas vendas, daquelas que têm de tudo quanto há, sem a organização intencional, sempre com estratégias muito bem estudadas das grandes redes, a fim de estimular compra que nem se quer fazer. Os produtos estão dispostos cientificamente e psicólogos treinados traçaram estratégias a bem do consumo, nada bom para o consumidor.

Antigas vendas que ainda reinam em muitas cidades do interior de nosso imenso território, carregam um ar de graça em sua desorganização. São acolhedoras e simpáticas, repletas de aromas e cheiros mágicos, com poderes a lhe remeter a qualquer fase de sua vida. O pito de fumo de rolo do Vô, a goiabada da vizinha de rancho, sempre acompanhada de um tenro queijo canastra. Caixas de lápis de cor com perfume de infância. Goma arábica, maria-mole cor de rosa salpicada de bolinhas prateadas, botinas mateiras, sacos de arroz, milho, feijão, linguiça e sempre, um gato sonolento que mal abre os olhos à sua passagem.

A caixa de bacalhau salgado aberta sobre o balcão de madeira gasta. Bingas e fluído azul em ampolas. O barrilzinho de pinga com pequeno coité pendurado na torneira, sempre a lhe dar boas-vindas. Tanta coisa que, se não estiver ao alcance das vistas, é só perguntar: ─ Tem camisinha de lampião?
─ Tem sim senhor, estão logo ali na prateleira atrás das panelas de alumínio batido.

Sabe de tudo, de lugar a preço e aceita catira também. Duas mantas de tear cardadas e fiadas lá em casa, trocadas por linha de anzol, cabeçada de arreio e par de chinelos. Negócio fechado. Todo mundo satisfeito. Dinheiro é o de menos. Com canivete cortam tora de linguiça, bebem uma da boa, mastigam o tira-gosto em sinal de amizade e negócio acertado.

Tem muita venda assim e não carece ir longe. No meio desse devaneio, lá estava eu em supermercado. Já aviso, levo lista feita e raramente saio dela. Aprendi a resistir à profusão de cores, corredores infinitos de tentações e moças oferecendo degustações. Estranho, acho que nunca vi homem servindo patês, cafezinhos ou provas de sucos e tais. Estranho.

Lista na mão, me pego no açougue. Nela constava um quilo de paletão.

Pego minha senha. É, acha que não? Até para balcão de carnes tem senha. Estávamos em três de cá e, de dentro, a atender, quatro. Mesmo assim tive que ouvir o sonoro ─ Pegou a senha? Olhei em volta, mais ninguém que pudesse tumultuar. Sorri e senha peguei.
─ A Senhora? Diz o magarefe. A jovem lhe mostra a senha. Ele nem confere. ─ O que vai ser?

Antes do pedido ela coça os cabelos louros: ─ Qual é a diferença entre paleta e paletão? Olho ligeiro para minha lista e confiro a coincidência. O rapaz de avental branco encheu o peito e deu aula sobre os dois cortes. Nisso, mais gente se juntou, curiosa no assunto. A loira moça, em seriedade e atenção, bateu o martelo. Paletão, vou levar paletão! A outra senhora, senha em punho timidamente lhe perguntou: ­─ E como se prepara?

O pequeno grupo - já nem tão pequeno - se voltou todo em atenção para ela, inclusive o pessoal de dentro do balcão. Ela, com uma descontração absoluta e entre tomadas de ar profundas, pois não se fazia em pausa o contar, explicou o passo-a-passo de um delicioso preparo, com direito a exclamações entusiasmadas que levaram todos a sentir até o sabor do prato. Essa saborosa receita deve exigir prá lá de meia hora de puro fazer/prazer. Além da plateia atenta, a fila atrás de mim foi só aumentando, porém, em círculo e perto da moça dos cabelos loiros e de requintados dotes culinários. Havia algo mágico, com ar de venda naqueles minutos que passaram voando. Como a sair de transe o moço do avental branco: ─ E o senhor? A resposta ele parece que já sabia. ­ ─ Paletão dois quilos, por favor. Ele sorriu. ─ Em cubos como o daquela senhora? Pelo meu olhar já sabia que sim. Enquanto preparava o pedido me pus a memorizar a receita, ia fazer sucesso.

Recebi meu pedido. Olhei a imensa fila que tinha se formado. Não mais pediram senha e só o que conseguia escutar ao me afastar bem devagar era: Paletão, por favor. Paletão, paletão, paletão! Os pedidos foram ficando longe e abafados pelo movimento, conversas de laranjas, alfaces, detergentes...

Dei de ombros em pensamentos: Vai faltar paletão !







Publicado em Diário de Uberlândia em 9 de dezembro de 2018

segunda-feira, dezembro 3

Olha o Natal ai gente!



Pois assim, como título destas mal traçadas linhas, retomo o tema Natal. Data sagrada para católicos outros cristãos e para o comércio, não necessariamente nessa ordem.

Ano duro que se vai e vai tarde. País dividido em ideologias, mergulhado em recessão, dinheiro escasso, desemprego nas alturas. As perceptivas não são das melhores para 19, mas como já lhes disse, sou como Panglós, o eterno conselheiro de Cândido, o otimista, personagem do mestre François-Marie Arouet, ou Voltaire para os doutos, um ícone da liberdade e do iluminismo. Tenho esperanças de que teremos um ano novo rico em avanços, apesar dos pesares. Amigos farão as pazes, mesmo com o Palmeiras campeão brasileiro.

Nossa árvore de Natal este ano idealizada pela artista nata e ouropretana Marília Pereira, não por acaso minha companheira e mulher, retrata tudo que em nosso entorno vive e o que espera para o futuro. Um retrato de devoção e fé ao momento.

Ela, Marília, católica, fervorosa devota de Nossa Senhora, eu gnóstico enveredando pelo misticismo, o sincretismo religioso e algumas correntes filosóficas, devoto absoluto de São Jorge, Ogum.

Filtro de barro iluminado com cordão de flores que piscam. Obra simples, mas carregada de alegria e esperança, como deveria ser a data. Assim definimos seu conteúdo filosófico:

O barro simbolizando a matéria prima da criação do homem.
"O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente." Gênesis 2:7

A parte inferior do filtro que capta e armazenar representa alérm do homem, também a riqueza, a nobreza, a postura, o companheirismo, adoração pelo amor emanado por mulher, além de tentar sempre defender a relação (Não senhoras! Não é machismo de minha parte, é como um pêndulo).

"O Senhor Deus disse: "Não é bom que o homem esteja só; vou dar-lhe uma ajuda que lhe seja adequada." Gênesis 2:18

E Deus fez a mulher, sem manual...

A água ali depositada gota a gota simboliza a vida, o renascer em chão seco e rachado. Aparentemente improdutivo e estéril, torna-se vivo como jovem Fênix, a renascer não do fogo, mas do precioso líquido purificado pela mulher e distribuído igualmente entre todos os seres viventes. Na crença de tantos o precioso líquido foi utilizado por São João Batista, para batismo de Jesus no rio Jordão.
As flores/luzes em emaranhado, para nós, simbolizam os tortuosos caminhos a seguir do nascer à morte, uma vida iluminada de bem fazer, de paz e harmonia. Uma vida em tentativa permanente de justiça e perfeição.

Assim, da criação da artista e da interpretação deste que se faz poeta, nasceu nossa pura e inocente intenção de festejo de Natal.

Enquanto isso, no mundo real, no Black Christmas sem descontos e encantos, imagino: Olhando do alto uma Rua 25 de março ou qualquer shopping center desse nosso Brasil varonil, um extraterrestre, ou um gringo pouco informado, acreditaria se tratar de um bloco de carnaval, tamanha a multidão, as cores e as faces em alegre consumismo. Facilidades do paga-se tudo em dez vezes no cartão. A seguir, logo vem a passagem, a virada e, como todos tentam acreditar, ano novo, vida nova! Vamos gastar gente! Pagar é outra história. Afinal, para que existe Serasa e SPC?

Quando chega o carnaval saímos todos no "Bloco dos Farrapos". Como bem diz o ditado, "quem não deve ($) não treme!" Dessa forma, segura firme sua garrafa de catuaba ou o carotinho de Pedra 90, pois, pensando bem, só falta um ano para outro ano novo começar!

Vivamos o eterno conflito.

"Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Ou se preferir: "Devemos cultivar nosso jardim."
Voltaire







Publicado Jornal Diário de Uberlândia em  02 de dezembro de 2018

segunda-feira, novembro 26

Preparo




Parece coisa de fim de ano. Deu novembro já pelo meio. Por força de um celular a buscar remendo, me vi perdido no templo máximo do gastar sem vontade, um shopping. Quem já teve na infância curiosidade de ver como funciona um formigueiro por dentro, sabe bem o que quero mostrar. Pois, criança curiosa, pai me levou certa feita ao maravilhoso Centro de Amostras que, como as imponentes árvores da Avenida Afonso Pena, foi ao chão. Lá vi o tal. Corredores em idas e vindas, ninheiras, roça de fungo, aposentos de rainha. Em encanto colei nariz no vidro e por nada queria me ir. Hipnose. Arrastado sem sentir, pensei comigo que um dia iria fazer um. Anos e cicatrizes de todas as formas, corpo e alma criando calos. Coração sempre pronto, o tempo se fez vento e junto me carregou. Um dia fiz o meu formigueiro.

Como a criança que nunca me largou e muito ensinou saí a caçar tanajura. Criei caminhos, ninhos em potes, tratei-as com pétalas de rosa, suculentas e rubras Acalifas, folhas de amargoseira, Contas-de-Santa-Bárbara, assim por cá nomeadas. Além de apreciada pelas formigas diz a lenda que Santa Bárbara protege contra raios e tempestades. Lá em casa tinha muita reza a mando Vó.  Em noites de tempestade recitar ela, vela acessa nos punha a recitar:

"Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura (...)"

Nunca medo de tempestade tive, trovão sempre me pôs dormir em estranha paz. A chuva, uma deliciosa cadência a acalmar loucos e feridos na alma.

Pois assim fiz meu formigueiro. Um dia depois de longa travessia, encontrei-o em imobilidade de morte. Alguém de coração negro e vestido com manta de inveja o envenenou. Perdi gosto, desisti das gentes, me recolhi em copas.

Assim me vi dentro de imenso formigueiro de gente. Cheiros e cores passavam em raso vôo por todos os lados. Esbarrões e olhares. Gente produzida, eu de sandália Franciscana. Gente com elegantes cortes, eu sertanejando jeans surrado/camiseta antiga, e se vi, até buraco tinha. Uns a buscar reparo, eu o invisível.
Furdunço me agoniando. Gosto de feira, festa de rua e praças. Ali um estranho em fervedouro alheio.
Ligado no modo automático segui sem muita atenção.
Mas como não perceber o súbito nascer de árvores gigantes de plástico sem vida, a produzir frutos de vidro e cipós de luzes num piscar ritmado? Nas vitrines risonhos papais-noéis de vazio olhar. Alguns me abanaram a mão, cismei.

Começou novembro e com ele as armadilhas do gastar. Não sou apegado à religião, pois como Riobaldo de Rosa, o Guimarães e seu perfeito Grande sertão: veredas, tomei por minha verdade:

" O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma… Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio… Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; (...). Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar – o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. (…)”

Festeja-se o nascimento de Jesus, mas conta-se que ao chegar a um templo em Jerusalém deu com um enorme shopping a céu aberto.
Em fúrias soltou bois, cabras e pombas, detonou barracas, espalhou moedas pelo chão:

— "Tirem tudo isso daqui! A casa do meu Pai não é lugar pra ficar comprando e vendendo coisas!"

Obviamente não foram estas palavras mas algo assim. E o que vemos hoje? O aniversário Dele insano comercio.

Mas não é por razão esta que fico sempre triste nessa época. A solidão aperta, saudade de nem sei mais o quê. A hipocrisia anda solta.


"(...) Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias… (...)"

Aliquis ora pro nobis nóbis






Publicado em Diário de Uberlândia em 26 de novembro de 2018

quarta-feira, novembro 21

Mercado de pulgas







Chuvinha mansa a trazer dia. Vontade de ficar um pouco mais debaixo das cobertas. Quem não gostaria? Infelizmente tinha um levantar a me esperar. Tinha nada, pois era domingo e podia ficar o tempo que quisesse ali, mas detesto perder a manhã, parte mais linda do dia. Os cheiros são novos, os olhares das gentes quase sempre mansos e vagarosos.

O delicioso Mercado de Pulgas a visitar. Perfeito para o dia.
Tomei rumo para o Mercado Municipal onde acontece sempre o evento. Cá comigo no pensar, tomo um belo café lá por perto e me deixo ficar a contemplar objetos e pessoas. Gente risonha, bonita no ver e comportar. Nenhuma desavença, discussão só de preços, pechinchar é preciso.

Dei com os burros n'água. O Mercado de Pulgas fugiu da garoa. Mas o tempo riu tímido. Poderia ter acontecido. A chuvinha se desfez em um lindo dia de céu azul, sem nuvens. Mas como adivinhar? A feirinha da Sérgio Pacheco sempre acontece. Sinal de chuva, praça vazia. Poucas barracas, expositores, cantores e meu delicioso acarajé some. Contento-me quando lá, com o também saboroso churrasquinho ou com o yakisoba abrasileirado em tempero e sabor.

Mercado de pulgas. Não aconteceu o acontecido. Frustrado, passei a dar voltas sem rumo mercado adentro. Sinto-me um pouco incomodado, apreciador que sou de mercados municipais. Afinal, conhece-se uma cidade por meio deles.
Já pensou ir a Pádua e não conhecer o seu belo centro de comércio de cores e aromas? E a Boquería em Barcelona? Para os grandes vôos, o Grande Mercado de Budapeste ou na Tailândia, o fantástico Mercado Flutuante em Damnoen Saduak.

Se quiser ficar por perto saiba que o de Belo Horizonte é considerado um dos dez melhores do mundo. Uma viagem ao de Montes Claros ou São Luis, que também tem o seu, assim como Salvador e São Paulo com vitrais de Conrado Sorgenicht Filho.
O nosso é tímido e repetitivo em mercadorias. Parece que todo mundo, com raras exceções, vende a mesma coisa. Mas gosto dele assim mesmo e o frequento desde os tempos de estudante.

Os bares e algumas lojas fazem hoje seu diferencial. E, lógico, as manifestações artísticas lhe dão alma e mais vida.
Hora conto a história de um banquinho que comprei da senhora do acarajé, do box lá no canto do estacionamento. A negociação foi divertida e o banquinho nem era para vender. Era de uso da venda.

Ainda confuso com o dia e esperança perdida das belas antiguidades das pulgas, me deixei levar.
Do nada, meio abafado, senti um batido a lembrar um ponto de umbanda:

"Ogum é guerreiro/Que nos livra de todo mal/ Na Aruanda ele é cavaleiro/ Oh na Umbanda ele é general ogunhê ".

Assim imaginei ouvir. Segui em hipnose. Deparei-me com uma porta aberta, que já dava em escada, como a convidar para entrar. Sem cerimônia subi devagar degrau por degrau, a imaginar o que lá poderia encontrar. Bela surpresa. Gente bonita, colorida, lugar de ali se deixar. Sorrisos sinceros na chegada, sem estranhamento nenhum ou olhar de cima para baixo como a julgar. Nem um "filho de quem"? Tão raro por cá.
Não sabia se era ensaio ou exercício, mas era lindo. A música, o rodar de vestidos de chita coloridos. Lembrei de minha adolescência e de tempos bem menos distantes. Deu vontade de entrar na roda, cantar, acompanhar o bater de palmas. Faltou coragem. Os olhos quiseram me pregar peça da alma e lágrimas ali se juntaram como orvalho em folha larga da mata.

Sentei em degrau da escada e a cabeça em rodopio me levou a ver lugares, gente, paisagem.
Estranho não nos deixarmos mais chorar. Respirei fundo em alegria diferente, com cheiro de anis, biscoito de araruta e Oui de Lancome. Ganhei o domingo. Não houve mais mercado de pulgas. Pelo menos até agora, mas garimpei o "Centro de teatro de Uberlândia", assim dizia a placa esmaltada no alto da porta de entrada.
Ali, seguro, vou voltar sempre.

"Eu vi chover, eu vi relampear/ Eu vi chover/ Eu vi relampear/ Mas mesmo assim o céu estava azul (...)" (Ponto de Oxóssi)







Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 18 de novembro de 2018

segunda-feira, novembro 12

Casa laranja




Foto de Marcos - Pousada Mondego 
Ouro Preto

Casarão secular tem estilo chalé, do final do império. Lambrequins rendilhados nos beirais, sinal de luxo e riqueza à época. Seus jardins imensos guardam ainda ruínas de um velho monjolo. A grande pedra, que tanto moeu, se encontra jogada em um canto, cercada de mato e histórias. Seus gemidos ainda podem ser ouvidos. Bastam atenção e espírito leve.
O jardim se espalha até a beira do córrego do Caquende que um dia foi limpo e piscoso. Mãos e atos humanos se encarregaram de transformá-lo em um nada de vida. Alguns heroicos sapos ainda conseguem, sabe-se como, cantar triste sinfonia de sobrevivência. Talvez em seu coaxar lamuriento se voltem tristes para o que ali antes havia. Memória genética da destruição.
Colocando-se de costas para o pobre riacho tens a impressão nítida de outros tempos. Ciprestes imensos em disciplinada fileira se dobram em música ao vento, que vem lá da igreja do Rosário.

A construção quase se esconde entre vegetação. Trepadeiras floridas e buquês de hortênsias formam caminho, iluminando pequena trilha batida entre grama e mato. Caramanchão meio despido deixa cair cachos de belas flores miudinhas. Pequenas jóias escondidas no cinza do paredão de pedra, avencas em renda portuguesa e samambaias atrevidas em tanto verde, despencam em fartura selvagem/bela, apoiadas em aveludado musgo eternamente úmido.

Cochos cavados em pedra se deixam largados pelos cantos do quintal, calangos ali tomam sol em espaçosa segurança.
Dois leões, também em pedra, olham para o vazio do portão de entrada. Esfinges sem segredos a cobrarem apenas aguardando, aguardando. A fazer companhia aos inanimados felinos, dois cães. Aparentando braveza só no tamanho, se deixam levar a troco do menor afago. Sentem-se sós de gente. O casarão parece divido em três partes. A varanda dá acesso por um lado. Uma pequena quinta se deixa cercar por paredes espessas. Chega-se a ele por um lance de três degraus e portal fechado com pesado portão de ferro. É ali, ao fundo, que se encontra o caramanchão e as avencas.

A cor laranja das paredes externas confere certa imponência à construção. De longe, do alto se vê.
Um segundo andar em janelas permite imaginar as dimensões internas, causam certa surpresa a princípio.
A frente de cada janela uma sacada curta, parapeito também de ferro com desenhos que lembram arabescos.
Ali talvez esteja o mistério, a magia de toda construção. Não ali fisicamente, erguida em imobilidade eterna. Mas devido a uma curiosa e diária visita.

Toda tarde, antes do repicar dos sinos de Vila Rica, na mesma sacada, pousa manso um belo tucano. Anos repetindo a rotina. Esperava-se que uma vez pousado se virasse para as torres e casas ao longe, para as montanhas ou para o jardim. Não. O pouso é feito sempre de frente para a janela. Talvez a solidão aí o levasse para apreciar seu reflexo e sentir certo conforto. O abandono e solidão menos lhe doeriam. Penso que bela ave pode vir sistematicamente em recordação de alguém ou alguma coisa passada. Ao invés de imenso salão vazio e escuro, iluminação se dá tão e somente por pequenas frestas do telhado sem forro. Talvez o pássaro ouvisse música e atentaria para algum baile. Belas damas em trajes deslumbrantes, com decotes, cores, colares de pedras preciosas e tiaras a espalharem mais e mais brilho. Cavalheiros elegantes, alguns com trajes da guarda imperial, brindavam champanhe em talhadas taças de cristal.

Uma orquestra entoava os sucessos de época vindos da corte.
Abaixo, na entrada hoje calçada, carruagens e belos cavalos eram dispostos espalhados pelo encantado jardim.
Seriam estas as lembranças do tucano? O que sentia bela e pobre criatura em suas visitas diárias?
O escurecer vem do Itacolomy, desce as encostas da serra e lança-se pelo campo. Muda, abraça as primeiras casas da cidade, corre suas ruas, becos e vielas, envolvendo pessoas e animais. Envolve a vida. O tucano mesmo de costas, parece perceber o chegar frio da sombra. Sem soltar som que seja, se lança do parapeito de ferro. Ninguém sabe seu destino. Certo mesmo é que amanhã estará novamente naquela janela, revivendo novos bailes, novas músicas, preciosas lembranças. Amanhã.






Publicado em Jornal Diário de Uberlândia em 11 de novembro de 2018



terça-feira, novembro 6

Acabou

Amanheceu segunda. Entre mortos e feridos se salvaram todos. Não, nem todos. Nunca em minha vida assisti a um embate tão duro entre duas correntes de pensamento. O nível das discussões foi tão baixo, que embrulhava o estômago. A raiva, o ódio e o rancor afloravam frente a qualquer comentário, por mais insignificante que fosse. Parecia pessoal. Havia uma permanente patrulha ideológica a espreitar redes sociais, prontas a apontar dedos e tecer ofensas, caso o digitado não dissesse exatamente o que um lado ou outro queria ouvir.

Catarse coletiva! Incompreendida, mas geral. Foi como se a porteira fosse aberta e a boiada inteira, imensa, em transe, sem saber ao certo o rumo, se lançasse em disparada diante de algo reprimido, indecifrável.

Não, não se salvaram todos. Amizades antigas desfeitas, agressões inúteis e toscas. A democracia pode ter sobrevivido ao pleito, mas seria o que que queríamos? Adversários se transformaram em inimigos mortais. Faltou razão, sobrou sectarismo e ódio. Faltou educação e respeito. Nunca, repito, vi tanto ódio oculto, profundo e represado, se lançar com tamanho vigor contra as rochas da razão e do bom senso, a ponto de romper as paredes "opressoras" de cada mente.

O vencer aqui ficou em segundo plano. A guerra, o digladiar tornou-se o esporte nacional.
Agora que tudo acabou, rezemos para que as patrulhas se desfaçam e que não surjam milícias nem de um lado, nem de outro. Que a normalidade democrática reine e permita que um país chamado Brasil passe a existir de fato. Que o respeito à nossa Constituição seja pleno e o sonho para o futuro seja possível.

Famílias e pedaços se recomponham, amigos voltem a brindar à vida e à felicidade de viver.
Aqueles que se sentem vitoriosos, que zelem para que esta vitória seja plena de paz e caminhe cadenciadamente e em harmonia. E aqueles que perderam, não se sintam derrotados, mas parte do processo mais belo de um país livre.
Que as discussões doravante sejam civilizadas e no campo das ideias, calcadas na razão.

Defender o que se acredita é saudável e meritório. Saber como defender é mais importante ainda.
Chega de divisão, chega de agressões e vinganças pessoais. O futuro de um país inteiro depende dessa luz para não correr risco de mergulhar em escuridão, pouco vista na história da humanidade, mas que, quando em trevas esteve, pagou preço incalculável pela aventura e desfaçatez de insanos. A História contempla esses momentos de horror e trevas.

Acreditemos, pois nossa pátria mãe gentil não pode e não deve passar por aventuras e correr riscos. Somos grandes, somos frágeis. O gigante se fere com um simples espinho de rosa. União! É hora de baixar a guarda e juntos caminharmos pacificamente rumo a um futuro que pode ser auspicioso ou fúnebre. Depende de nós, sempre de nós.

Não quero jamais concordar com Nelson Rodrigues quando disse:

"Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos."

Olhar à frente, um futuro nos espera. Vamos provar que o ácido gênio de nossa dramaturgia, autor de O Beijo no Asfalto, A Mulher sem Pecado e A Falecida, pode e estava errado.

Paz eu peço, paz eu espero. Ligue para o amigo com quem você rompeu, beije a mulher que pensou diferente. O primeiro passo para o fim é a divisão. Um pequeno tratado escrito no século IV a.C. já alertava guerreiro.

Nem Sun Tzu, nem Nelson Rodrigues. O futuro nos aguarda. Fazê-lo sólido depende apenas de nós. Afinal, não existem derrotados ou vitoriosos quando a nau navega  a todos.
Viva a Democracia!






Publicado em Jornal Correio em 4 de novembro em 2018

quarta-feira, outubro 31

Lazinho





Com o passar do tempo fica difícil guardar multidão de pensares e lembranças. Dia desses contei do labirinto de prateleiras com gavetas, pilhas e pilhas de recordações amarradas com finíssimos cordões de passado que, a qualquer momento, podem se romper em derrame de imagens, situações e vivências que habitam nossas cabeças. Pois então. Hora ou outra carecemos de um empurrão para o passado, para pescar no mar de dias aqueles que nos atropelaram com um lampejo escondido.

Numa prosa com o amigo Marcelo, que é garçom por profissão portanto grande andarilho da noite e que possui invejável capacidade de estocar acontecidos, alguns nós foram desatando, gavetas se abrindo.

Não conseguia esconder o sentimento de orgulho desse amigo, a puxar de sua prodigiosa memória detalhes vivenciados que, na minha cabeça, foram rebrotando como em pasto seco e judiado, após receber boa e pesada chuva. Uma benção ver as tanajuras e cupins alados em alvoroço, como flashes a te conduzir por prazerosos caminhos, lá longe no passado.

Claro que como garçom, me levou em sua narrativa a passeio por antigos bares da cidade, desde as particularidades de cada “copo sujo” aos frequentados por gente mais abonada e esnobe da cidade.

Passamos por praças onde ainda se podia sentar e ficar de prosa a noite toda, sem ser importunado por polícia e muito menos por ladrão. Não é mentir, nem licença poética de escritor não. Só quem viveu pode confirmar.

Já correu de ganso na Praça Tubal Vilela? Não!? Pois nós corremos e muito, ao cruzar a praça a trote para não perder o Transcol, que nos levaria ao Campus Umuarama para aula de histologia cedinho, às sete horas em ponto, no anfiteatro do Bloco A, ao lado da anatomia humana. Calouros de Veterinária, Medicina e Odontologia, todos juntos. O mestre? O professor Gladstone. Isto mesmo. Este que atualmente é nosso secretário de saúde.

Mas, os gansos nos forçavam marcha. Pense. Qual seria o destino de belos gansos soltos na Tubal Vilela hoje? Quanto tempo você acha que lá ficariam? Uma, duas, talvez três horas? Certo, fui otimista.

Passamos pelo Sobrado, seguimos para o Frango Assado. Em conversa mansa cruzamos a porta do DAGEMP. Nele, basicamente só havia homens e, como todo bom sábado de estudante, quase todos bebuns. Na praça outra vez, um pastel na Paulistana com guaraná mineiro de garafinha de vidro. De lá os mais abastados enchiam as mesas do Garibaldi's ou "já ó" por apelido. O motivo? Na falta de fazer e cantar de galo, era só moça bonita passar pela calçada e lá vinha um em mentiras: "Viu aquela ali? Pois já ó!" E fazia gesto com mão passando pelos lábios.

Memória é como braseiro. Fica assim fingindo de apagada sob fina camada de cinzas, mas basta um sopro e alguns gravetos para que possa novamente arder em chamas e voltar a aquecer.

Tomamos um escaldado no Porta Aberta ali na Rio Branco depois um pulo no Bar do Tarcisio todo pintado de um azul cinza - barra pesada.

Seguimos prosa até o Bar do Bené, lá na Fernando Vilela. E já que estávamos no Martins, uma gelada no Carne Assada e pega rumo para visitamos algumas "casas de tolerância", vizinhas ao Parque de Exposições. Pô, quer nome mais babaca e preconceituoso para se dar a uma zona? Tolerância! Que maquiagem mal feita.
Ali sim apesar de cara, a cerveja mais gelada da cidade.

Mas, baixemos os ânimos. Pois bem, sei que se estiver a ler esta prosa neste domingo, sua cabeça vai estar mesmo é no resultado das eleições. As mais doidas que minha curta vida de eleitor para presidente me ofereceu. A sorte está lançada. Que se salve ao menos a Democracia, a pedra mais cara e preciosa que temos.

Minha conversa com Marcelo tinha que parar no estabelecimento mais pitoresco de todos à época. Este merece destaque, por ser um tratado. O Bar do Lazinho, lá na Afonso Pena com Santos Dumont. Quem lembra levante a mão - antiquado isso não é – então, como nas horrorosas conferências online de venda de qualquer coisa, quem por passou solte dai uma alva de "claps" ( que tristeza...)

Enfim conheceu o Bar do Lazinho? Segue um pouco de alguma coisa para relaxar o tenso domingo eleitoral. Então se lembre do slogan: "Lazinho não faz propaganda" . O estreito e miúdo bar tinha duas mesas. A mesa 1 e a mesa 250, isso ela nunca explicou para ninguém. Porém, a marca registrada do Lazinho era um cartaz bem escrito e anexado à parede com os preços do moca

Cafezinho 10,00
Cheirinho 10,00
Um tiquinho 10,00
Fundinho 10,00
Ainda havia aqueles que trabalhavam com bom humor e felizes.
Seria muito nostálgico um fundo respirar e dizer: Bons tempos?

Bom domingo, bom voto.








Publicado em Diário de Uberlândia em 28 de outubro de 2018

terça-feira, outubro 23

São Tomé



Depois do milagre da ressurreição da torta de camarão em certo hiper mercado, resolvi ficar mais atento. Nada pelo visto é o que parece ser, pelo menos para os lados do consumidor. Guardo essa história para um novo contar.

Me veio então uma ideia no mínimo dantesca, que à primeira vista me pareceu inefável: resolvi medir rolo de papel higiênico. Será que aqueles alvos e macios rolos teriam mesmo os tantos metros indicados na embalagem? É que nós, simples mortais, dados à consumição, andamos tão enganados que fica difícil acreditar no "vale o que está escrito". Na zoo contravenção do barão de Drummond afirmam que sim, sei lá eu.

A ideia, a principio maluca, carecia de bases científicas e testemunhais para ter valor real. Pensei em filmar o experimento e depois colocar no Youtube, junto com o gato comendo carne no açougue. Desisti. Como na internet quase tudo também não é o que é, assim como as pessoas não são o que ou quem dizem ser, logo alguém no meio da multidão virtual dará um grito: — Mais uma pulha! Um fake, farsa total!

Pensei então em criar uma comissão de alto nível (um perigo falar alto nível ou notáveis hoje, generais podem não gostar). Uma banca especializada. Mas onde encontrar doutores, PhDs em medir ph? Como os experts, além de raros, são de difícil lida, fiquei imaginando o longo e inútil debate acadêmico que estaria fomentando. Questões do tipo se o picotado do papel deveria entrar na medição ou se deveria ser descontado paquimetricamente (de paquímetro e não paquiderme),do resultado final.

Como quase tudo no mundo dos muito especializados, da academia, exceções à parte é óbvio, a discussão duraria uma eternidade, demandaria pesquisa pura e altos financiamentos em projetos, bolsas e simpósios, e cá para nós, no fim, jamais se chegaria a uma conclusão e ainda ficariam criadas duas escolas, duas linhas de pensamento filosófico contemporâneo, em medir o quê? Papel higiênico. Achei melhor não envolver os "notáveis" em minhas pendências existenciais.

Então, em surto de lucidez, me dei conta de que já contamos com órgãos e instituições próprias para isso. Criadas para nos proteger, defender a população e seu bolso contra o descaso e desrespeito. Foquei na instituição maior, aquela federal.

Mas só de pensar na papelada que teria de preencher, nas justificativas que teria que apresentar, me deu tristeza, larguei para lá. Pensei no Procon. Mas também mudei de idéia. Pelo que acompanho, sei bem da competência daquele órgão. Sei que fazem das tripas coração com o pequeno número de agentes de seu quadro, portanto seria uma falta de consideração da minha parte solicitar ao respeitado e atuante órgão destacar um servidor para auditar medição de papel higiênico. Não seria justo nem de bom alvitre.

Me veio à baila história do moço cujo carro furou o pneu em estrada da roça e que estava sem macaco. Resolveu andar até fazenda próxima para pedir emprestado. Com pouco dinheiro no bolso, durante o percurso sofismava. Se pôs a imaginar quanto o dono da fazenda iria lhe cobrar pelo uso do equipamento. À medida que se aproximava, a quantia imaginária subiu tanto, mas tanto que, depois de bater à porta, já descarregou sua raiva em atônico e sonolento senhor que mal havia destravado a tramela: — Sabe o que você faz com esse seu macaco!?
Andamos ficando com raiva antes da hora.

Querem saber, mudei de ideia, vou mesmo é contar palito de fósforos e de dentes.Quero ter absoluta certeza de que as caixinhas contém o que prometem. Pago para ver.






Publicado em  Diário de Uberlândia em 21 de outubro de 2019