quarta-feira, outubro 15

Eleição



 Domingo passado teve eleições. Independentemente do resultado fica claro que o nosso país passa por um período histórico no que diz respeito à democracia. Acredito eu que seja o mais longo sem golpes ou falcatruas explícitas contra o estado de direito. Delitos e saques aos montes continuam como desde o tempo de Cabral. Nesse quesito, para nossa decepção, “fica tudo como dantes no castelo de Abrantes”.

Não me dou de política falar. Mas não me pensem algum alienado, um distraído cívico. Pelo contrário. Reflito, penso tempo todo e me preocupo com ela de fato. Não vendo voto, não barganho em troca de nada e, o mais importante, conheço bem meus candidatos. Deixo o escrever sobre, para os especialistas, sou simples observador atento.

Sobre o que se passou nos dias que precederam pleito, afetou todas as cidades do país. Absurdos visuais e auditivos extrapolaram o bom senso.
A Justiça Eleitoral criou regras rígidas que diminuíram sobremaneira a sujeira dos ilustres candidatos. Em termos. Os famigerados cavaletes esconderam praças e canteiros floridos, cobriram grama sofrida e castigada por seca prolongada impedindo tenros brotos de mostrarem vida. Transformaram em exposição de péssimo gosto de rostos maquiados e trabalhados a photoshop de gosto duvidoso, ruas e avenidas inteiras. Parece que esses senhores e senhoras descobriram a cobiçada fonte da juventude. Ficam mais novos a cada eleição. Frases de efeito sem efeito nenhum acompanham sorridentes falas fáceis como a dizer:
— Olhem pra mim! Olhem pra mim!

Particularmente acho pouquíssimo provável que alguém em sã consciência escolha em quem votar olhando aqueles cavaletes ridículos.

A história de serem retirados depois das 22 horas é outra incógnita, mais difícil de decifrar do que o enigma da esfinge de Édipo Rei de Sófocles, “Decifra-me ou devoro-te”. Fomos, todos, engolidos em bocada de sucuri beira-rio. Após as 22 horas aquelas peças de péssimo gosto que ficassem ao relento, pouco mais importam à população, pois se de dia só são notadas para maldizê-las, à noite ficam sem plateia. Obstruíram visão de esquinas em horários de pico; à noite, entre o crepúsculo vespertino e o matutino não seriam mais nocivos do que à luz do dia enfrentando a beleza de manhãs, a indignação dos pássaros e das gentes.

Outra coisa boa. Acabou o horário eleitoral gratuito. Claro que tem que ser gratuito! Já pensou o cara ligando para uma operadora de televisão e contratando um pay per view de horário eleitoral:
— Gostaria de comprar os horários eleitorais completos de Minas Gerais, São Paulo e Rio de janeiro. Se tiver desconto pode incluir Bahia e Rio Grande do Sul.

Bom, quando falo que acabou o horário eleitoral , tenho que me lembrar do segundo turno.
Bom, este sim é mais democrático e esclarecedor (será?). Pelo menos o tempo dos que pleiteiam o trono da Alvorada é igual. Os debates tornam-se mais objetivos, cessam as agressões, passa-se às ideias, acho.

Pois com está, só buscando no poeta de Alegrete, o genial Mário Quintana, uma definição para tamanho furdunço: "(...) o excesso de gente impede de ver as pessoas...!”







Publicado Jornal Correio em 12/10/2014




quarta-feira, outubro 8

Dia das Crianças

O tempo passou ligeiro, voo risco colibri. As mãos  um pouco maiores, mais calejadas é verdade. De fato, só mudou o bicho a segurar. Essa criança mora em mim.

William H Stutz
Veterinário, poeta, escritor, olheiro da vida




domingo, outubro 5

Curto e grosso





Contam – discordo frontalmente – que quando começo aula, palestra, apresentação, nunca respeito o tempo a mim conferido. O número de caracteres que disponho para compor esta coluna, às vezes, me aperta. O gostar de escrever é culpado. Quando me ponho a caso contar me transporto para dentro dele. É prazeroso.
Assunto me pega em voo solo e manso, esqueço e sigo em frente. Quando vejo, prosa ficou imensa, corro a revê-la para caber direitinho nesta parte que cabe nesse diário que tão generosamente me acolheu. Se tenho, por exemplo, que escrever um capítulo inteiro de uma publicação inicialmente travo. Vejo-me perdido inicialmente naquele mundo de espaço em branco. Bicho pega.

Gosto de começar a escrever à noite. Barulho só de grilo, pio de Urutau, grito de coruja.O vento misturando as copas de minhas árvores é música e inspiração. Não tem telefone, vozes humanas nem barulho de rua. Vez ou outra sirene longe. Polícia, bombeiro ou ambulância? Me disperso em pensar tragédia ocorrida. Tomo litros d’água, detesto café. Sigo adiante como Maria Fumaça. Patino em trilho de ferro, rodas vão em reverso, vapor para todo lado. Caldeira quase em ponto de explosão, solto a manivela devagar. Ideias passam como paisagem, começo lentas, bem distintas. Vejo braço erguido de moleque em adeus sem dono, vejo o olhar calmo de gado.





À medida que pego velocidade, visões se misturam. Serra e mata se tornam um só, riacho transforma-se em mancha azul de aquarela, túneis passagem em flash de lambe-lambe. Escuro/claro/escuro/claro. O som do apito passa por minha janela em risco reto. De locomotiva rangendo em ferro e parafusos soltos a trem bala. Não existe mais nada lá fora. Um vazio externo me cerca e afundo todo em texto. Em freada brusca volto ao mundo.

Ministrando treinamento. Quatros horas a mim conferidas em dias alternados. Avançamos hora de almoço adentro, o intervalo quase não existiu e ainda ficou coisa para debater. Culpa minha? Não senhor, não senhora. Quando se percebe o envolvimento das pessoas não tem medição em hora, a conversa flui solta. E se não tem mediador vai longe mesmo.

Congresso em Gramado (RS). Minha apresentação tinha 20 minutos, segue tranquila. Do nada uma plaquinha é deixada à minha frente nela assustadora mensagem: “Cinco minutos.” Toquei.  Outra placa: Tempo esgotado. Aflito, pois nem meus slides havia mostrado, pedi desculpas e saí.
Ministrada aula teórica pela manhã, em algum lugar do Brasil, partimos para prática de campo à tarde. Prática bruta de captura consome força física. Sol de rachar. Solicitam-me uma aula na Faculdade de Medicina à noite. Aceito com prazer, e aviso aos companheiros que dali à uma hora estaria de volta para jantarmos. Três horas depois, volto. Claro que todos já tinham jantado e aos risos confirmaram que nem me esperaram. Haviam apostado que eu não conseguiria falar apenas uma hora. Mas a turma era interessada, como parar?

Os adoro, mas naquele dia comeram sanduíche e nós, deliciosa moqueca com camarão graúdo. Pronto, tirem suas próprias conclusões que o espaço aqui estourou.

Publicado Jornal correio em 5/10/2014 (dia de eleição)











domingo, setembro 28

Segundona



Segundona, como de costume, pego trecho a pé para o trabalho. Caminhada cedo, boa para espantar restinho de sono que não sai nem com banho frio e bucha, mesmo tendo corrido as dez milhas domingo, me sinto pleno em alegria para começar a semana.

Os bons-dias são quase sempre para as mesmas pessoas; o senhor reciclador de latinhas, alegre por farta colheita, restos de sábados e domingos. “Tenho de levantar ainda de madrugada – me confessa – a concorrência tá grande. Tem até dono de ferro-velho que traz ajudante, fica desigual – me conta meio triste do alto de sua rangedora bicicleta.” Entristeço. Para as empregadas domésticas ou “ajudantes” como a sociedade, como que envergonhada, insiste em chamá-las, um quase pedido de desculpas. Os vigias noturnos deixando seus postos.

Como fumam as empregadas. Descem do ônibus e, em sua maioria, é botar pé no chão, puxam da binga, acendem cigarro. A indústria do tabaco investe em filões cada vez mais frágeis em informação. O cheiro de fumaça deles se mistura aos dos carros aflitos e impacientes. Segundona, e como todos os dias da semana, temos, nós pedestres, que enfrentar uma travessia perigosa na Nicomendes.

Já tentou atravessar aquela avenida na altura do Dmae? Uma aventura de alto risco. Faço rapel, montanhismo, trilha de mata. Juro, tenho mais medo dessa travessia do que descer em cordas o pontilhão da Fepasa sobre o rio Araguari – e olha que são noventa metros de queda livre e o rio ali, moço, traiçoeiro. Muitas partes de nossa cidade são assim, não foram feitas para humanos a pé. Privilégio dos carros. Caminhantes, bicicleteiros ou ciclistas, como queiram, mas aí tem grande diferença, concordam? Também não têm vez no trânsito e, principalmente, na Nicomedes.

Bicicleteiro é Seu José catador de latinhas, é o peão de obra que leva na garupa embrulhadinha sua marmita e garrafa de café. É o estudante de escola pública, é o vigia sonolento que busca cama com o chegar do sol. Ciclista é o que anda em grupos organizados, roupas colantes, coloridas, reluzentes, capacetes com desenhos estilo Andy Warhol ou Dali.

Não existe uma faixa de pedestre que seja naquela redondeza. Como existem “direitas livres” no encontro de duas avenidas de grande movimento. O passar de carros em alta velocidade é grande. Resta a nós, invisíveis seres de cidade, esperar oportunidade para atravessar. Raro o dia em que este campo minado não nos obriga ou a uma carreirinha trotada ou ficar parado congelado e rezar para que os motoristas nos vejam, quase todos ao celular, adiantando algum expediente, ficam cegos para tudo que não seja de metal e maior do que eles.

Como a maioria da turma anda de carro, acho pouco provável que algo seja feito por ali. Repito pela enésima vez, me faço Panglós, o otimista, apesar de duvidar, acredito que algum dia irão olhar com mais carinho para aqueles, que como eu, optaram por caminhar ou bicicletar. Perigoso, mas saudável. É isso, se até aqui no texto cheguei é porque em relativa segurança fui e voltei. Mas amanhã. Bom, amanhã é outro dia. “Viver é muito perigoso” não é amigo Guimarães Rosa?







Publicado Jornal Correio em  28/09/2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhTnR4RUxpZnJPZVk/edit?usp=sharing

domingo, setembro 21

Quem mexeu no meu queijo?



Engano seu, caro leitor, se pensa que vou falar daquele desenhinho chato para burro de autoria de Spencer Johnson que já vi mais de 20 vezes em várias línguas, até em japonês, confesso que se fosse em mandarim daria para entender o filmete, não o livro.

Ver uma vez, discutir o que representam os ratos Sniff e Scurry, e os duendes Hem e Haw é uma coisa, vá lá. Mas toda reunião, todo treinamento, seja lá qual for o assunto em pauta, lá vêm eles. A única parte interessante e que me prende são os comentários do Coach. Cada um tem uma interpretação do abordado.

Algumas racionais e bem elaboradas – outras, de deixar hipopótamo de queixo caído. Os coachee, ou seja, nós, temos de calibrar nossos filtros de besteirol para que não passem nem pequenas moléculas do produto que querem nos ensinar a acreditar e vender. Falo produto para generalizar, pois pode bem ser algum bem material ou uma ideia. Convencer é uma coisa. Fazer a cabeça, criar maquininhas engajadas em causas e metas que em condições normais não se acreditaria é meio fascistoide. E de Homo reacionarius quero galáxias de distância.Mas e o danado do meu queijo em que andavam a mexer?

Compadre meu, morador em distrito longe em pequena, mas bem organizada chácara, onde produz de tudo um pouco para seu sustento e para presentear amigos. Tem pomar com tudo quanto há de fruta; tem lago onde cria e despesca lindas piraputangas, pacus e tilápias.

Horta de dar inveja nos jardins de Keukenhof, na Holanda e suas sete milhões de tulipas multicoloridas. Três vaquinhas dessa altura, holandesas purinhas que dão baldes e mais baldes de leite ao dia. Córrego passando beirando a casa de varanda larga e vista para a serra. Um pedaço do paraíso para poucos. Este é dele, da esposa e dos filhos que já voaram longe e lá passam fins de semana e férias.

Pois meu compadre é dado a fazer queijos. E que queijo ele produz. Muito Canastra fica no chinelo perto destas obras de arte culinária. Como dizem em Portugal: “É o queijo que faz o queijeiro e não o contrário”.

Toda vinda a Uberlândia faz questão de queijo trazer e, desta última visita, não foi diferente. Muita prosa, alegria de reencontro – dia passou manso. Pousou aqui em casa e seguiu trecho antes de amanhecer. Assim foi.

O queijo embrulhadinho ficou sobre a mesa da cozinha. No avançar da manhã, notei que o papel que o embrulhava estava meio rasgado num canto. Uai! Rato? Há de ser não, aqui não os tem! Pelo menos vistos nunca foram. Desembrulhei e coloquei em prato coberto por alvo pano. Segui. Não demorou muito, passando pela cozinha novamente, percebi que o pano tinha sido arrastado e havia pedaço queijo com parecer de roído.

Tá errado, rato não anda de dia, só se bando for muito grande e fome apertada. Se assim fosse, todos veriam os danados por toda parte. Não era o caso. Experiente em fazer campana para bicho fotografar, montei guarita escanteado. O queijo eu via. Só ele.

Passou mais de hora e nada. Não entrego fácil. Passou mais tempo e eu na tocaia.Do nada barulho de asas batendo e pouso arranhado na janela. Pus atenção. Logo mais asas e mais escorregar vidro abaixo. Num fazer vento que me bateu no rosto desceram sobre a mesa duas lindas, coloridas e muito das brejeiras maritacas. Andar desengonçado por sobre mesa de madeira, com gingado e pios de garganta, avançaram até o queijo e sem cerimônia foram roendo e resmungando. Nunca soube de maritaca comer queijo, mas essas ali estavam para o contrário provar. Peraí! Tomara eu ver suas molecas! Parti para cima delas – em alvoroço e boa mira passaram lisas janelas afora.

Ri de mim, concorrente de queijo agora era maritaca! Só comigo. Pena uma só. O queijo lindo e saboroso tinha que ir para a geladeira. Queijo frio perde gosto.
E, no mais, eu quero é ser gauche na vida, como soprou o anjo torto que vive na sombra de Drummond. Coachee só de poesia, bichos e amores.







Publicado Jornal Correio em 21/09/2014



domingo, setembro 14

Placas



Curiosa polêmica gerada pelos prefixos das placas de carro aqui em Uberlândia e outros Estados. Matéria no CORREIO de Uberlândia nos conta que algumas, tais como PUM, HIV, GAY estão gerando constrangimento. Particularmente não vejo problema algum em ter carro com placas assim. Das citadas, acharia até legal, pois rodar com placas com as letras HIV e GAY demonstram aguçada tolerância e espírito humano do dono do carro, que não está nem aí para o que os outros pensam.
Mostram que aquele condutor é de espírito aberto e livre de qualquer preconceito quanto à doença e quanto à liberdade de escolha individual, que deve ser, no mínimo, respeitada e muito. Piadinhas sempre irão existir, mas só incomodam aqueles que têm preocupação exagerada com miudezas. Sorrisinhos irônicos e deboche revelariam, na verdade, personalidades horrorosamente homofóbicas e preconceituosas.
O prefixo PUM é genial e deveria ser exclusivo de carros desregulados e antigos da DKV. Pensei em algumas combinações que devem existir por aí e que, de alguma maneira, devem causar estranhamento.Se de todas as placas fosse dono, as distribuiria com alguns critérios: prefixo RIR para o de bem com a vida, DAR para o filantropo, OLA para o simpático, OVO para o granjeiro ou recém-aprovado em vestibular, GOL para a copa, bom, vamos esquecer dessa. OLE para torcida, CAM especial para nós atleticanos, FLA para rubro-negro, FLU para pó de arroz. MAR, CEU, LUA para poetas e apaixonados, CHE para gaúchos, UAI para mineiros, FEU para os amargos, REU para os acusados. FIM para o pessimista. Tanta coisa importante para se preocupar e me vem ficar grilado com prefixo de placa de carro?
Estranho é que, ao se preocupar com letras onomatopéicas tipo POW, SOC, POF, BUA esquecem o principal: a numerologia. E, aí, meu caro, é que o bicho pega. Que tal um carro com a numeração 6666, besta e meia. Segundo o site “Mundo estranho” o número 17 é agourento na Itália. Nos algarismos romanos, ele é escrito como XVII. Quando as letras são embaralhadas, formam a palavra VIXI, que, em latim, quer dizer “minha vida acabou”. O medo é tanto que o carro de modelo R17, da Renault, é vendido lá como R177. Quer uma placa 1717? A combinação 4233 significa assassinato para os egípcios. Tenebroso.
Nós, inseguros humanos, sempre nos preocupamos em dar significado a tudo, talvez para suprir as incertezas do que nos aguardam. Sustos do dia a dia. Devemos, sim, é tomar muito cuidado com os exageros advindos da superstição, da intolerância dos preconceituosos, pois com quantidade de informação a ocupar quase todo o ar que respiramos, podemos despencar em outra idade das trevas, inquisições podem estar aí se anunciando e “bruxas” perto de serem novamente lançadas às fogueiras, pelo simples fato de quererem ser o que são. Um perigo.
E cá para nós, essa história de mensagens subliminares é conversa para BOI dormir. No mais, quer saber, fique em PAZ com suas placas, são apenas letras e números. E, lembre-se, MEU: quem afoba, come CRU.




Publicado Jornal Correio em 14/09/2014






domingo, setembro 7

Jornal


Monstera saborosa 
foto: William H Stutz

Relendo deliciosa coluna de Ivan Santos de vinte e nove de julho bem cedo. Sou dado a guardar leituras que me agradam, volta e meia retorno a elas. Cada leitura parece diferente.
Do nada um “plaft”. Conhecedor da origem do barulho me levanto manso busco caminho da porta.
Jornaleiro madrugador esse. Da chegada do jornal só escuto o tombo dele aterrissando em minha varanda, imagino o aranzé, milhões de letrinhas se espalhando pelo piso, confusão generalizada para, às pressas voltarem ao lugar e remontarem palavras, talvez seja por isso que quando em vez encontramos letras trocadas, nada a ver com revisão, não deu foi tempo de chegar ao lugar certo. Fotos às vezes saem em locais errados, deve ter sido o balanço.
Posso usar como despertador nosso entregador de jornal, mas se assim fizesse chegaria cedo demais ao trabalho.

Saio cedinho às vezes dia abre bocejo multicolorido bem a leste quando pego rumo, o dia ainda com preguiça de amanhecer, mas junto ao portão, lá está meu exemplar do CORREIO.

Quando em vez me permito sono mais profundo, sábados, domingos, feriados fico mais um tempinho deitado, mas logo e, como relógio suíço me vem o aquele “plaft” do jornal atirado com precisão de mira laser e o arrancar da moto do entregador de notícias.
Durante a semana, ou estou no banho, ou longe no quintal a conferir orvalho a escorrer em imbés de largas folhas, às vezes trocando água do bebedouro dos passarinhos que já se acostumaram com essa fonte de água e saem de longe para saciar sede de garganta seca de fumaça de carro e queimadas. Ninguém vejo.

Por falar em imbé, ano passado ganhei de amigo de longa data, Zé Mesquita uma muda de Monstera saborosa a folha é de tamanho e aspecto jurássico e ainda dá fruto que, segundo meu querido Zé – Doutor de olhos – médico competente que com sabedoria cuida das vistas para que as pessoas não percam a beleza da vida e possam não apenas ver, mas enxergar.
Era a fruta preferida da princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, ufa! Isso não é um nome, é escalação de time de vôlei com reserva e tudo. Esta linda planta também é fonte de orvalho a matar sede de joaninhas e pequenos passarinhos.

Recolho jornal no alpendre. Já percebeu que jornal recebido em casa também é fantástico indicador meteorológico? Se vier com saquinho de plástico, a chance de chover é imensa, se vem só com gominha amarela é sol certo.

Mas voltando à coluna de Ivan de “Campanha eleitoral morna”. Por uma coincidência logo hoje, mais de mês depois da publicação, me deparo em esquina, monte de moças bonitas, de pernas de fora apesar do frio matinal a abanar bandeiras de candidato. Sempre fico com um aperto na garganta quando vejo cenas como esta, repetidas de dois em dois anos. O que será que passa na cabeça das meninas? Quanto vale tamanha exposição pública?

Quanto ao vizinho de bairro de Ivan que disse que só vota em quem criar a figura de “Mamãe Noel”. Acrescento. Tem também que corrigir uma aberração criando a “coelhinha da páscoa”, afinal onde nesse ou em outro mundo que coelho macho bota ovo?


Publicado Jornal Correio em 7 de Setembro de 2014








https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRkZXaXIwdnVJUGs/edit?usp=sharing

domingo, agosto 31

Do tempo



Era dado a conferir tempo quase todo dia antes de sair de casa. Os motivos desta mania deviam-se ao meu trabalho e de minha equipe, aliás, a melhor e mais comprometida turma que já conheci e com  qual trabalhei durante uma vida. Usando palavras minhas, de domingo passado, posso, sem medo de errar, chamar “meu” pessoal de “cuidadores públicos”, tamanho o envolvimento da turma com o fazer.

Cada Ordem de Serviço torna-se missão e não medem esforços para resolvê-la. Aqueles que não aguentam o pique não ficam. Isto é normal. Cada um, cada um. Ninguém é obrigado a dar certo com determinado fazer. Trabalhar em equipe é um desafio diário. Em cada cabeça um pensar, uma formação, um jeito de assim ser, um time de futebol a torcer. Desavenças naturalmente surgem, mas cabe a nós, grupo, resolver qualquer pendência por menor que seja, o mais rápido possível. Senão, se agiganta, vira dragão a expelir labaredas e, aí, só Jorge Guerreiro, de quem sou devoto incondicional, para resolver.

Puxando da hagiografia, convém lembrar que Santo Jorge foi soldado romano no exército do imperador Diocleciano. Para muitos de nós brasileiros, e aí me incluo, criados à luz do sincretismo religioso, São Jorge também é poderoso Orixá: Ogum senhor dos metais, deus da guerra, da agricultura e da tecnologia. Como ele, nós também vivemos do improviso, pois muitos dos equipamentos que carecemos usar ou não foram inventados ainda ou são de difícil aquisição.

Mais uma vez, nosso pessoal mostra criatividade ímpar: aparadores de redes para captura de morcegos, abrigos, lonas para proteção de chuva e frio da mata e caixas organizadoras, se transformam em confortáveis recipientes para transporte de serpentes. Há também os terráreos de escorpiões antifuga e mil outras coisas que, ao longo dos anos, tivemos de inventar para que o cuidar das solicitações da população fossem atendidos e nós tivéssemos o máximo de proteção individual.

Felizes, loucos somos. Um bando de Melquieades e de José Arcádio Buendía da surreal Macondo de Garcia Marquez, vivendo bem aqui em nossa Uberlândia. Criando ferramentas e instrumentos de trabalho, recolhendo medos, desmistificando crenças enraizadas sobre vida de nossos bichos.

Ia falar do conferir tempo todo dia, tomei outro rumo. Céu de brigadeiro se abriu e me conduziu em voo pássaro, contrariando a Lei de Bernoulli. Pensamentos não seguem leis da física. São regidos por pura poesia e pirotecnia das emoções. Da previsão de tempo, falo depois, antes de trovejo, prometo.

Em caso de mal-olhado ou emanação de ódio dirigida à minha pessoa ou a meu grupo de trabalho depois de tudo aqui declarado, só me resta reza de proteção: “Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem, e, nem em pensamento, eles possam ter para me fazerem o mal. Facas e lanças quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem”. Salve Jorge!







Publicado Jornal Correio  31 de Agosto de 2014








terça-feira, agosto 26

Atender ou cuidar?



Podem parecer sinônimos, longe disto são. Vamos à didática. Um é verbo intransitivo, outro transitivo. Na gramática de nossa pátria língua, verbo é aquela palavrinha que designa, indica ação, situação ou mudança de estado. Esta definição, por si só, separa bem as duas palavras. Atender é prestar atenção, ter em consideração, zelar de alguma coisa.

Cuidar é bem maior. Vai além. É imaginar, supor, pensar, meditar sobre, ter cuidado, demonstrar interesse.
Bom, serve também para os idólatras quando usado como verbo pronominal.

É de bom alvitre esclarecer que não fui eu que escolhi tais significados. Estão em qualquer bom dicionário. Aquela coleção organizada, em ordem alfabética, de palavras ou outras unidades lexicais que muitos detestam consultar.
Mas deixemos essas chatices linguísticas de lado e vamos ao ponto.

Imagine um filhote de passarinho caído de ninho aquecido em suas mãos protetoras. Você está atendendo a esse serzinho trêmulo em pânico abandono ou está cuidando dele? O atender chega a ser algo frio, se não com ponta de desprezo. Às vezes, uma penosa e irritante obrigação. O cuidar alberga, é holístico, transfere bem-estar e segurança.
Começo para nos definir, servidores públicos da saúde. Nobre função quando aprendemos ou já nasce conosco o prazer pelo cuidar.

Um simples telefonema, trazendo uma angústia, um problema, deve ser cuidado com o carinho que bem merece. Acontece toda hora por aqui. Um morcego, um escorpião ou uma cobra, quanto pânico podem trazer para quem está do outro lado da linha em busca de cuidado, de ajuda em sua aflição. O que para nós é rotina, para quem se depara com os bichos é confronto.

Vamos mais longe. Você gostaria de ser atendido por um médico ou cuidado por este profissional?
Eu escolho o médico cuidador. Aquele que te ampara por completo, que te olha nos olhos e que verdadeiramente te escuta. Arrisco a dizer que, grande parte da cura (ou não) começa na consulta. Se começa por um estranho avaliando outro, não pode dar muito certo. Carece afeto no sentindo amplo da palavra. Aqui, estendo a todos nós servidores públicos, que temos por ofício cuidar das aflições das gentes.

Se dependesse de mim, seríamos chamados de Cuidadores Públicos e com muita honra. Citei médicos, mas falo de todo profissional ligado ao serviço público ou não. Quando aprendemos a cuidar nos tornamos realizados, felizes e completos.

Aquele bom dia sereno seguido do nome do servidor/cuidador que fala ao telefone é o começo de uma relação que pode ser agradável ou um terror. As portas do serviço público são os primeiros contatos. Um rugido mal-humorado coloca o munícipe na defesa. Fecho com palavras do dr. Antonio Carlos Lopes, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica: “A medicina é humana em sua essência, feita de humanos para seres humanos. Não é possível mais assistir à sua fragmentação em duas medicinas – uma para os pobres e outra para os ricos. Dar e receber assistência médica de qualidade e universal, mais do que um anseio, é um direito de todos.”

A vida deveria nos preparar sempre para cuidar. Quanto a atender? Deixa que a porta eu abro.






Publicado no Jornal Correio em 24 de Agosto de 2010

domingo, agosto 17

Sessenta



Raça humana, as gentes do mundo inteiro, desde sempre, por motivos muitos, teve a mania de exaltar ou temer extremamente datas redondas. “Portanto, uma referência: seja para comemorar, enaltecer ou refletir”. Solta, entre aspas, esta frase não é minha.

Aparece desse jeitinho em dezenas de textos, sem fonte, portanto, perdido fico e sem identificação segue. Uma infelicidade no mundo da web em que as autorias se perdem em infinito espaço binário, sem fronteiras, sem dono, sem ética ou, muitas vezes, sem pudor. Eu mesmo já tive vários textos plagiados na íntegra por certo cidadão de mídia sem o menor escrúpulo, mas são águas passadas. De raiva a dó, pena foi pulo ligeiro. O Ministério da Saúde adverte: raiva, mágoa e rancor matam.

Algumas destas esféricas datas recentes: 1910 – Revolução Mexicana; 1930 – Começa a Revolução de 1930 (a vá!); 1940 – É aberto o campo de concentração Auschwitz na Polônia, pelos nazistas; 1950 – Maracanã é inaugurado; 1960 – Inauguração de Brasília.

Em 2000, o mundo ia acabar. Virou nada e aqui estamos. Os “milenaristas” se deram mal. Ah, em 1954, nasci. Mas “peraí”, 54 não é data redonda! Correto, mas a idade que mês que vem faço é: Sessenta anos. Pois sobre isto é que quero falar com você.

Ô datazinha fatídica essa para todos que lá chegam! Pense comigo. Até aos 59 anos, 364 dias, 23 horas e 59 minutos somos pessoas normais. Avance um minutinho. Pronto, viramos terceira idade. Outro dia no trânsito paramos atrás de ônibus. Distraído levantei os olhos, enorme cartaz com grisalhos sorridentes empunhando carteira sob frase, algo assim: Você idoso, tem mais de 60? Junte-se a nós. Carteirinhas ameaçadoras em riste a me convocar: “I want you!” A palavra idoso e os 60 pareciam piscar em neon festivo.

Idosos, passamos a ter vaga especial de estacionamento, filas exclusivas, a pagar meia em inscrições de corridas, concursos, cinema, teatro e afins. Há também descontos na compra de remédios e um monte de coisas. Para uns, são merecidas conquistas em país tão desigual, para outros tantos, pode ser reforço ou retrato de uma realidade falseada. De uma hora para outra, o cabra perde metade de estímulos para adiante seguir e pior, como diz meu compadre Geninho, pode perder metade de sua autoestima.

Deixo claro que me sinto muito bem. Idades e seus encantos próprios. Ouvi de um globetrotter, quando perguntado sobre hora de parar: “When the head says go, and the legs say no!” (Quando a cabeça diz vai, as pernas, dizem não). Em português, não rima e fica meio sem graça, mas é sério. Minha cabeça sempre diz GO! As pernas ainda não gritaram NO!

Comemoremos, pois, cada data redonda de nossa vida. Cada etapa com seu sabor característico, perfume e cor, assim como o antigo “Dulcora”.

“Drops dulcora /A delícia que o paladar… adora/ Quadradinhos embrulhadinhos um a um/ Você quer um? (…)”.
Lembra? Não? Então sua data redonda é bem inferior à minha. Aproveite a alegria de viver sem moderação (alegria desmedida, que fique bem entendido).






Publicado Jornal Correio em 17 de agosto 2014



Sessenta

domingo, agosto 10

Perdas - parte II


Perdeu o fio a meada? Não se preocupe, a Parte 1 está no jornal de domingo passado, passa lá via web ou clique Perdas parte 1

.A criação de uma nova edição do “Livro da Lei”. Desta vez universal, voltado muito mais para a beleza, para a paz e alegria de viver. Um livro que poderia ser facilmente compreendido por todos; livre dos medos, dos pecados inventados, dos preconceitos que as errôneas análises levam multidões a eterna confusão e atrito. Menos medo e pecado, mais alegria, confraternização e consequentemente, mais paz e harmonia entre os povos.


Seria também impossível comercializar o seu conteúdo e, assim, só haveria a religião do amor. Ninguém ousaria falar em nome de Deus com ameaças tipo chamas eternas a queimar que nem churrasquinho do “Titõe”, pois as suas palavras seriam sempre serenas e bem-humoradas.
Humanidade, alforriada da ameaça de arder no caldeirão do coisa ruim, sem o terror das ameaças de mercadores da palavra divina, respiraria aliviada.  Nada de comprar terrenos no céu em troca de algo, corretagem imobiliária do paraíso não teria mais vez. Nada de dízimos ou castigos. Se este foi o plano da Diretoria celestial, acertaram em cheio nos levando o que há de melhor no trato com as ideias e emoções.

Mais humor, compaixão, menos cobrança, menos pecados. Um livro que realmente libertasse os homens de amarras invisíveis, mas causadoras de sofrimento e tristeza. Cada um saberia realmente separar o certo do errado. Dogma único: Não farás mal algum a outro ser vivente.
Pessoas queridas que, por motivo honrado, foram chamados à luta, escreverão livro mais humanizado, livre para todo o sempre de toscas interpretações e imitações. A eles faço um pedido: não se esqueçam, por favor, de disponibilizá-lo o mais breve possível na web para download. Prevendo os bilhões de acessos, sugiro humildemente que utilizem o sistema Torrent. Boas sementes germinarão e o mundo será de fato um melhor lugar para se viver.

Mal penso em deitar a pena – caneta esferográfica vá lá, em susto recebo a notícia que o mágico escritor Ariano Suassuna acaba de seguir viagem depois de rápido adoecer. A pressa em repensar o mundo é tamanha ou a amiga Samira, quando nos diz que propositalmente “querem deixar a terra menos interessante”, pode estar coberta de razão.

Eu cá com testa franzida de espanto, roubo do poeta Vinicius de Moraes, que lá já está a espera dos amigos com seu indefectível copo na mão, verso de “Cotidiano 2”: “Às vezes quero crer mas não consigo / É tudo uma total insensatez /Aí pergunto a Deus: escute, amigo / Se foi pra desfazer, por que é que fez?”

Já nosso Drummond, pernas cruzadas em cantinho de céu, ao lado de seu anjo torto, tímido sorriso mineiro nos lábios, cotovelo apoiado na perna deve estar a balançar o dedo indicador em suave movimento: Bem-vindos, hora de ser gauche (nessa) vida.







Publicado Jornal Correio em 9 de agosto de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhazdhbGNLanJyNEE/edit?usp=sharing








domingo, agosto 3

Perdas - Parte 1



Amiga paulista, Samira, com olhar cinzento de tristeza, soltou uma frase que me levou a distante pensar: “Continua o movimento de deixar a terra menos interessante”. Ela se referia às partidas, quase que na mesma carruagem, de Rubem Alves e João Ubaldo Ribeiro. Somo aí a recente viagem do mestre Clarimundo Campos, proprietário eterno deste espaço que, despretensiosamente, como inquilino, ando a ocupar.

Se nosso Clarimundo não galgou merecida expressão nacional e mundial, foi porque assim não quis. Preferiu a quietude a se submeter, quem sabe até, ao peso de um fardão.

É verdade e estranho que, de uma pancada só, nos foram tirados três grandes nomes das letras. Mas pensando bem, vamos juntos raciocinar sobre os acontecidos. Alguma coisa deve estar ocorrendo lá em cima. Aplico o termo “em cima”, pois é de corrente uso. Os bons sobem, os maus descem. Mas é tudo uma questão de crença e posição geográfica, pois se assim fosse mesmo estaríamos cheios aqui por nossas bandas de japoneses maus e eles lotados de gente nossa e ruim.

Talvez, por determinação da Diretoria, tenha sido instituído que fossem chamados os melhores escritores deste plano para tarefa divinamente hercúlea. Se pesquisarmos, veremos que, além do nosso trio imortal, outros laureados com Nobel de literatura, como o sem adjetivos de primor Gabriel Garcia Marquez e tantos outros mundo afora, de alguns meses para cá, andam fazendo mala e partindo – Garcia Marquez nos deixou outro dia, em abril deste ano. Quantos de outros países se foram e não sabemos? Coincidência? Não acredito nisso.

A Diretoria já usou desse expediente outras vezes. Um recente se deu quando os anjos e querubins, tomados de enfado, cantavam aos bocejos as musicas celestiais. Convocada reunião extraordinária, resultou na ida de Amy Winehouse para dar um upgrade melódico na turma dos pequenos. Michael Jackson também subiu, não deu certo. Os ággelos em toda sua pureza tinham medo dele.

Para mim, eles foram convocados para refazer mandamentos, desta vez, não em tábuas, mas na mais pura das pedras preciosas, lapidada em joia com esmero pelo talentoso Hefesto, marido traído de Afrodite. Mas deixemos os deuses de outra época de lado.

Além de atualizar os mandamentos que até os dias de hoje continuam em versão beta e muito pouco usados pela humanidade, pode ser que outra tarefa seja conferida ao grupo a dedo escolhido.

(Continua domingo que vem)







Perdas - Parte I






Publicado Jornal Correio em 3 de agosto de 2014



domingo, julho 27

Fábulas


Clique na imagem que ela aumenta




Outro dia, aqui mesmo no nosso CORREIO, falei sobre a absurda repressão sofrida pelas versões originais das histórias infantis. O tal “politicamente correto” levado ao extremo produz barbaridades. Comecei com o “Atirei o pau no gato” e por ai afora.
No amanhecer hoje, um estranho fenômeno aconteceu na porta de casa. Tenho uma grande quantidade de árvores frondosas no jardim da frente, grandes mesmo, todas plantadas por Bia e eu. Um jambolão gigante tornou-se morada de centenas de passarinhos, self-service de outros tantos durante a época de frutos. Uma bela colônia de morcegos por lá mora, itinerante. Ora se instala, ora desaparece. Um ipê rosa se emaranha no jambolão em namoro secreto.

Duas cariotas, quase a tocar o céu, apóiam ninho de gavião carcará, que, aliás, anda muito feliz com as queimadas urbanas, acredito que apenas eles estejam em festa, pois é durante e depois delas que mais gostam de caçar.

Mais ipês, sete-de-copas, mama-cadela vigorosa, e outras tantas, completam mini mata.
Ao sair para o trabalho notamos um aranzé de folhas espalhadas, mais do que de costume e, em área bem delimitada, apenas folhas de ipê. Parecia que bando de bugios tinha passado só por aquela árvore e chacoalhado com força os galhos. Talvez na tentativa de derrubar algum ninho ou fazer voar passarinho ainda tonto de sono. Mas como chegaram ali sem passar por outras árvores, rastro no chão não havia. Fica o mistério que me proponho a desvendar em uma ou duas noites de campana. Se for bicho descubro. Depois conto.

Olhando aquelas folhas grama afora me lembrei da musiquinha infantil “O cravo Brigou com a Rosa.” Se fosse cair na armadilha do policiamento ideológico que sataniza tudo e todos, imagino como seriam as notícias sobre o enredo da cantiga.

Nos noticiários: Briga violenta entre Cravo e Rosa acaba em delegacia. Cravo teve ferimentos leves, foi atendido na UAI e liberado. Já Rosa, despedaçada, encontra-se em observação no Hospital de Clínicas, sem previsão de alta. Cravo foi indiciado com base na lei Maria da Penha, autuado, responderá em liberdade.

Manchete do dia seguinte: Margaridas, Açucenas e Camélias ainda em luto por irmã que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu, organizam passeata em todo país contra violência. Redes sociais bombando. Hashtag com sua centilha da semana: #perfumesimespinhosnao. Não criamos monstros contando histórias, eles são formados a exemplos. Como os bugios fantasmas de meu jardim, plantamos idéias, conceitos e preconceitos em nossas crianças conforme agimos. Cantando? Jamais.










Fábulas






Publicado Jornal Correio em 27 de julho de 2014

domingo, julho 20

Humilhação




Mais de semana se passou depois da estarrecedora derrota da seleção brasileira por incríveis sete a um. Confesso que naquela quarta estava otimista em relação ao nosso time. Arrisquei palpite de dois a zero para nós. Eu, como milhões de brasileiros, estava contaminado pela propaganda maciça a favor de nosso futebol hexa, certo em cores e brilhos Brasil afora. Acho que a seleção que compramos não era a que nos foi vendida 24 horas por dia, de forma ufanista e ostensiva. Compramos o produto errado. Pensei em reclamar ao Procon e ao Conselho Nacional de Autorregulamentação (Conar). Propaganda enganosa da brava. Quero meu sonho de volta e em dobro, pois assim reza a lei.

Não sou de morrer por futebol. Fico mais tenso em jogo de meu Galo Mineiro do que em Copa do Mundo, mas confesso que, naquele dia, sentia algo diferente no ar. Vibração positiva. Estava totalmente tomado pelo canto da sereia, regozijo excessivo, lavagem cerebral. Íamos ganhar.

Bola rolando, me dei conta do drama anunciado. Quatro a zero para os teutônicos. Tupiniquins mais fanáticos, em momentos assim, roem unhas demais, fumam demais ou bebem em esbórnia depressiva. Há aqueles mais apaixonados que até enfartam demais. Eu faço diferente. Quando estou alegre ou triste demais, aborrecido ou pasmo ao extremo, saio às ruas e corro. Começo em lenta caminhada e depois disparo. A distância não interessa, o importante é deixar o pensar livre. Assim fiz. Tênis velho no pé e rua. A cidade parecia paralisada, silêncio de catedral gótica, Notre-Dame do Cerrado, quietude nervosa de caverna profunda onde apenas ouvem-se sussurros de sonhos hibernados. Um cãozinho saiu de um matagal e me seguiu aflito, talvez acuado pelos foguetes ensurdecedores que antecederam o jogo. Corri à exaustão, quebrei.

Antes do jogo, crianças jogavam bola, uniformizadas em verde-e-amarelo, gritando alegres e inocentes a vitória. Imagino o rosto dos pequenos frente à televisão. Isso é aquilo? Pais baixando olhos envergonhados da mentira engolida e repassada às crias.

É, chegou a hora de contarmos para nossas crianças que Papai Noel e Coelho da Páscoa não existem. Mas, sinceramente? Acho que qualquer criança com mais de 4 anos já sabe disso. Jogou no Google.






Publicado em Jornal Correio em 20 de julho de 2014



Humilhação