segunda-feira, maio 25

Praga de plágio




Uma semana fora de nossa Uberlândia parece uma eternidade quando se trata de acontecimentos inusitados. Cheguei de um longe Maranhão, onde estava, mais uma vez, a convite do Ministério da Saúde, capacitando técnicos daquele Estado para implantarem programa de manejo de escorpiões. Sensação de realização absoluta quando vemos o resultado destas capacitações.

Percorrermos praticamente todo país mostrando nossa experiência. Modéstia às favas, temos, sim senhor, um dos melhores programas de controle desse bicho no Brasil. Participamos da elaboração do Manual de Controle de Escorpiões do mesmo Ministério, portanto, da normatização de condutas a serem seguidas para tal em um país continental – a rima foi sem querer, mas fica rica. Pode um profissional de saúde ter satisfação maior?

Cheguei sábado, depois de longo e confuso vôo, repleto de conexões malucas e horas de espera em aeroportos, onde cafezinho custa até oito contos. Constatação: a distância mais curta entre dois pontos da aviação nunca é uma reta. Domingo, ainda com ressaca de tanto voar, participei da superbem organizada Corrida do Sesc. Fiquei feliz. Depois, almocei na “Nossa Feira” da Praça Sérgio Pacheco.
Em casa, abri os jornais do dia. Aí o susto: “Argh, plágio!” de Gustavo Hoffay. O simples passar d’olhos já me trouxe péssimas lembranças. Mais espanto ao ler, como é de costume, a bem escrita crônica de Hoffay. Explico.

Por muito tempo fui roubado em textos por certo cidadão, que se diz jornalista e que publicava sistematicamente textos meus, de Thogo Lemos, de Ana Maria Cunha, de Marília Alves Cunha, Cláudio Vital e sabe-se lá de quantos mais. Muitos amigos leitores, indignados, escreveram para o tal jornal, sobre o demente. Resposta nenhuma. Sigam o link cerradodeminas.blogspot.com.br/2011 e confiram.

Se este for o mesmo jornal, provavelmente o ladrão de idéias, o intelectualmente doente, será o mesmo. Ah, não sei se já viram, mas o seu “Salve-se quem puder” amigo Gustavo, publicado em 29/09/2010, foi copiado na integra lá também.

Certa feita, ao ser entrevistado por enigmática, articulada, informada e de muito bem escrever personagem, que assinava @uberlandia, foi feita a mim a seguinte pergunta:
“Qual a sensação de se ter um texto roubado? É igual, parecido ou pior do que ter uma casa arrombada?”
Respondi: As criações, sejam literárias ou outra forma de expressão, custam algum sofrimento para quem as produz. Pode parecer mentira, mas criar muitas vezes dói, machuca. Porém, depois de prontas vem um porre de endorfina. Relaxante sensação de prazer absoluto. Quando te roubam um texto te roubam mais do que palavras, roubam um pouco de sua vida e isso incomoda pra caramba.
Ao final das contas um texto roubado é uma casa violada.

Salvei o dia com meu Galo dando tunda no Fluminense por quatro a um. Poderia ser um domingo perfeito não fosse o remoer em asco e nojo do mau caráter “tartufo acéfalo” plagiador (adorei esta expressão) e a pequenez de um jornal que aceita tais escritos.
Mas deixa estar caro Gustavo, hora ele acha o dele.








Publicado em 24 de maio de 2015  Jornal Correio 



segunda-feira, maio 18

Lagartixas




Muito tempo atrás construímos primeira casa, daquelas financiadas pelo BNH. Casa miúda, mas enfim própria. Chega de aluguel, que vinha se arrastando desde os tempos de república. O bairro era longe que só. Acesso só pela estrada do Caça e Pesca pista simples e estreita, um ermo. Como tive que vender moto para comprar o terreno, ficamos a pé. O ônibus tinha roteiro por lá, mas como quase não tinha morada, comia volta. Era comum ver só a capota do bruto por sobre a braquiária tomando rumo da cidade outra vez. Aí era bater a pé e rezar por rara carona. Isso era em tempo de sol ou chuva. Aos poucos, bem devagar o bairro foi crescendo. Região foi aprumando mansa, estragando paisagem, destruindo cerrado onde filhos cresceram descalços, subindo em árvores, livres.

Do nada, a estradinha de pista única virou avenida, fim de sossego pairava sobre gente que queria silêncio e ar puro.

Dia da mudança. Toda tralha coube em carroceria de caminhonete. Vasculhando casa alugada agora vazia, repleta de ecos desconhecidos, ouvia-se o próprio andar, a respiração ficava pesada em denso ar de lembranças que ficariam para sempre no limbo, em busca de algo esquecido. Quase fechando a porta pela última vez, um impulso me fez voltar. Senti na nuca dezenas de olhos a me observarem em tristeza. Arrepiei arredio. Com coração na mão e pequena tremula dei passo para a sala repleta de nada. Notei ligeiro movimento em um canto. Virei de vez e me dei com os donos daqueles olhos de empurrar nuca.

Dezenas de lagartixas corriam parede abaixo sem nada entender. Jeito que ficaram olhando a casa vazia, olhos enormes e pidões como a perguntar se iam lá ficar. Teria eu coragem de tamanha malvadeza? Toquei a recolher as bichinhas em caixa de sapato. Uma a uma foram embarcando em nave cargueira de papel rumo ao novo lar. Soltei-as todas assim que entrei na casa nova. Foi uma festa. Cresceram e multiplicaram. Tomei por hábito, no silêncio de mato, deixar o passar das horas no sofá olhando para o telhado sem forro. Começar a escurecer e lá vinham elas caçar sustento, namorar e espiar a vida. Dormia tranquilo com o bater de mandíbulas delas em som que poucos conhecem.

Regozijo antes de chuva em fartura de aleluias, maná em mel. Deleite de ver.

Anos se passaram, fizemos novo telhado. Durante a retirada das antigas telhas, ia lá eu encarapinhado entre ripas e caibros, aprendendo a galgar telha, do espigão à cumeeira na cata dos ovos branquinhos das amigas mágicas na arte do mimetismo. Um teatro a cada passeio. Descansa as vistas.

Dos ovos colhidos para caixa baixinha com pouco de areia. Inventei ninho berço. Cobertura de telhas deixada ao sol. Todo dia ia fuçar. Até que, em mais um milagre da vida elas iam saindo de seus ovos, pareciam grande olhos com pequeno rabo. As espalhei por todos os cômodos, casa agora protegida. Todos podiam em paz dormir, bichinhos atentos ali estavam para em silêncio faminto marcar vigília.

Essa prosa não finda aqui, torna-se, para a vida, mais linda.






Publicada Jornal Correio em 17 de maio de 2015




https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOha3N0R0s2SkNJRDQ/view?usp=sharing

sexta-feira, maio 15

Injustiça



Páscoa já se vai longe, mas num parar de nada fazer, daqueles que os olhos param olhando nada, ou mais, olhando para dentro das lembranças, e me peguei em sorriso. Lembrei de matéria de jornal. Corri pesquisar e clarear com detalhes as recordações.

Sabido é que tenho por costume as miudezas, disse e repito isso sempre. Pois agora vivendo fim de férias, além das corridas diárias, costume de me enveredar cerrado adentro para apreciar suas belezas e mistérios. É cupinzeiro, casa de tatu ou cascavel, é abelha jataí em toco caído num passar aflito em busca de pólen e néctar. Frágeis criaturinhas, como todas nossas abelhas nativas não foram premiadas com ferrão, resta defesa do ataque em massa, do embolar no cabelo, entrar no nariz e orelhas de intrusos sedentos de doce e raro mel. Quase nunca funciona e como o cerrado está perto de acabar por nossa conta, com elas as abelhas mansas correm sério risco de desaparecer de fato.

Numa dessas idas às trilhas, seguindo rastro de paca só para saber morada, ouvi vento a favor um choramingo triste. Apurei ouvido e segui lamento. Desci de lado, arrastando botina, pequeno barranco até dar numa vereda. Nascente de córrego em meio a buritis e outras palmeiras.

O choramingo foi ficando mais alto. Dava aperto no coração a angústia que acompanhava.
Vi à frente pequena criatura sentada meio de lado em tronco caído. Mão no queixo e olhos vermelhos de tanto choro. Era albino. Branco como algodão cardado e limpo, talvez os olhos vermelhos não fossem apenas de choro.

Cheguei com jeito para não assustar, puxei prosa.
─ Uai sô de onde vem tanta tristeza?
Me olhou assustado, mas logo se refez, triste encolheu ombros e suspirou como se nada importasse mais, podia ser até bandido ou onça, não faria diferença.

─ Rapaz conte, sou todo ouvidos, quem sabe posso ajudar.
─Tem jeito não, essa dor vem de longe. Muda não.
─ Pois conte então pelo menos alivia.
Parou um pouco, olh.os vermelhos fitando o nada, tomou fôlego e desabafou:
─ Você acreditava em papai Noel?
Acenei um sim com a cabeça.
─ Pois é, depois descobriu que era a maior balela, cascata pura, tudo K.O.
Aí vem fadinha, mula sem cabeça, Cuca. Tudo mentira.
Agora essa de ladainha da páscoa, sacanagem. Você conhece algum mamífero além do ornitorrinco que bota ovo? Não né. Poxa tinha que ser galinha da páscoa. Quer ovo pequeno, por que não codorna da páscoa? Ovo grandão tem ema, avestruz da páscoa. Não seria mais coerente? Aí falam dos símbolos, da fertilidade. Ora, essa história de ovo... Olha o que Jerold Aust disse: “Os mitos sobre a criação de muitos povos da antiguidade se baseiam num ovo cósmico que deu origem ao universo (...) Antigos povos do Egito e da Pérsia, os amigos trocavam ovos decorados no equinócio da primavera (...)”.
─ Nada de Coelho!

Olha o que fizeram comigo, deu até no jornal, brincadeira? Olha lá no portal do G1 de 1º de abril, tá lá em letras graúdas na primeira página: “Ovo de páscoa de 1 metro pesando 20 kg foi vendido em Brasília por 4000,00.” E não é pegadinha de dia da mentira não, posso te garantir, choramingou envergonhado baixinho o coelhinho.
Você faz idéia do parto em dor que foi botar ovo desse tamanho? Até hoje sofro resguardo.






Publicado Jornal Correio em 11 de maio de 2015



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quinta-feira, maio 7

Cola




Depois da última prosa sobre meu compadre Temporal, muita coisa do tempo de escola da boa e velha república me veio à cabeça. Foram cinco anos de muita luta, dedicação e também de muita alegria e risadas. Só quem morou em república sabe o grande aprendizado que aí se tem. Conviver com um monte de gente a princípio desconhecida, dividir o mesmo espaço sabendo respeitar o limite do outro é um exercício de tolerância, humildade e paciência. Nem tudo eram flores, pelo contrário flores poucas, mas conseguimos mesmo assim sorver cada nuance cada matiz das cores e aromas de instantes inesquecíveis ternamente perpetuados em nossos corações e mentes (bem lugar-comum essa expressão, nome de documentário de longínquo 1974, mas é verdade. Seria bem extremamente pedante dizer Hearts and Minds, concordam?).

Almoço e janta pelo menos seis dias por semana era o tradicional arroz, feijão, ovo e “355”, apelido dado ao tomate, pois este era a semana inteira, ano todo. Vez ou outra rolava um coelho doado pelo Valle, pois sempre um de nós lá estava estagiando. Bife histologicamente cortado uma vez por semana. Aprende-se a dar valor a pedacinho de vida, de felicidade garimpada na bateia do tempo.

Nosso tempo não tinha a maravilha de um RU – Restaurante Universitário. Ouço tanto estudante descer a lenha na comida ali servida, balanço a cabeça apenas, não sabem de nada mesmo!

Conto um caso ou um milagre, mas não conto os santos envolvidos. Ética de ex-republicano, pois, sem autorização verbal, santo fica de fora, para nós a palavra ainda vale. Nada de documentos registrados em cartório. Como não consegui contato com todos os envolvidos, fica o caso.

Prova dura de alguma matéria do sétimo ou oitavo período. Prova de múltipla escolha. Nunca gostei dessas, preferia exposição escrita, coisa de vício também já contado.

Certa altura, tempo quase se esgotando, algumas questões mais complicadas em branco sem resposta. Companheiro à minha frente balançava na carteira, aflito, carecia nota para fechar matéria. Uma das complicadas era a questão seis. Por mais que puxasse da memória, do estudado, também nada me vinha à cabeça. Começa a cantoria.
“Barrica – do apelido conto não –, a seis”, sussurrou a meia altura o colega atormentado.
Barrica de pronto respondeu: “A”
“Barrica, a seis!”
Resposta já meio nervosa: “A, pô!”
A aflição não deixava o amigo e colega “pescar” a resposta. E a esta altura todos ao redor já assistiam de camarote ao drama da cola, inclusive o professor, bem disfarçadamente curioso em saber onde ia parar aquilo.
“Ô Barrica caramba, a seis!”

Não teve aquele que não escutou a súplica e a resposta. Barrica sem paciência respondeu foi alto dessa vez: “É A, cara!”
O colega não aguentou. Ficou de pé no meio da sala e nervoso apelou: “Ah não pô…. é A ou E?!!!”
Deu no que deu, além da turma desmontar de rir, o professor, disfarçando riso contido, ainda foi camarada, recolheu a prova de ambos e anulou apenas a questão seis que, de fato, era A.






Publicado Jornal Correio em 03 de maio de 2015




 Cola

Destino



Uma libélula voa apavorada em minha sala. Faz-se noite, não posso nem abrir janela para deixá-la ir-se, viraria presa fácil. Seu voo helicóptero a conduz em direção ao globo de luz. Bate de frente. Recuo preocupado. Ligeiro, bato a mão no interruptor e a escuridão se fecha. Ouço o aflito bater de asas procurando pouso. Nada, achou foi a luz da cozinha. Sigo sua agonia.

Vontade de pegar nas mãos, guardar em caixa de sapato e soltar amanhã com o frescor do orvalho. Melhor não, elas são frágeis como algumas pessoas especiais em sentimento. Quebram facilmente, não quero magoar nem bicho nem gente. Apago tudo. Acendo pequena vela. Tenho paixão por luz de vela, o que devia imaginar é que libélulas também.

Me dou conta que armei armadilha mortal para aquelas asas de pura e transparente seda. Em investida suicida roçou asas na chama perfumada. Senti aperto no coração, frio na espinhela. Em voo aparentemente derradeiro topou forte na parede. Imóvel se fez no chão frio. Acendo a luz com um sentimento de culpa gigante. A vejo, atrás do aparador. De canto de olho, miro meu São Jorge, presente de uma amiga especial. Peço em milésimo de segundo que me preserve de tamanha imputação.
Com cuidado de quem já está mais do que acostumado a lidar com as miudezas da vida, como cobras de vidro, escorpiões e sentimentos de alma, recolho a frágil figura.

Óculos, meu reino por um par de óculos. Devidamente com olhos, a observo cuidadosamente. Nada que mostre machucado, nada que a impeça de alçar voo. Talvez tonta pelo espanto de um tremular de fogo. Talvez a essência aromática a tenha abatido. Fico com ela na palma da mão por imensos minutos. Uma perna se mexe, estica devagar. Uma asa, outra asa, quatro asas e tremor, de motor de B-29, porém sem escândalo característico das máquinas de guerra e morte. Uma anteninha curiosa vibra. Num golpe rude alça voo sem rumo. Sigo com os olhos e sei bem onde pousou.

Volto à escuridão minha casa. Escovo dentes mergulhado em negrume. Ligo meu rádio que não mostra fonte de luz, apenas um botãozinho amarelado. Amanhã, a moça está solta. Janela aberta, olho um céu de estrelas, começo a cochilar. Um zumbido vem rápido cantar em meu ouvido. Ponho atenção e mão em concha, espero. Cantou outra vez. Certeiro tapa e lá se foi mais um pernilongo, esparramado em minha mão. Sorri com aquela morte. Nunca vou entender gênese humana, passa horas salvando uma libélula e, de cara limpa, mata seu vizinho ou se destrói em solidão, quem lhe deu tanto poder? Como pode simples criatura ter assim destino de tantos outros seres viventes?

Bom, se foi a Diretoria lá do alto, está na hora Dele convocar sua bancada toda e rever conceitos de humanidade. Quem sabe não está na hora de dar por encerrada sua obra, assinar embaixo e pendurar numa parede celeste. Quem sabe coloca tela nova, branquinha e começa tudo outra vez, mas, desta feita, usando tintas, de cores mais suaves. Dizem que já fez isso uma vez e pediu para que casal de cada ser vivo fosse ajuntado. Mas se for fazer o mesmo e despachar os casaizinhos pela galáxia afora, por favor, Senhor, não leva casal de gente nem macaco, lembra de Darwin, ah, nem de Aedes, pelo Amor de Deus, quero dizer, pelo Seu amor. Amém.





Publicado Jornal Correio em 26 de abril 2015



 Destino

Almoço de domingo



Acostumado a comprar para muitos, erro mão. Agora compro para uma pessoa, eu. Fim de semana saio às compras. Dois, três quilos de linguiça temperada com pimenta e mais um pouco da mansa, sem o ardume, picanha fatiada grossa, prontinha para a grelha, coxa e sobrecoxa de frango, pois, sempre tem (tinha) alguém que não come carne vermelha. Queijo trança para tira gosto. Cerveja com e sem álcool. Carvão, pego na carvoaria saca de 25 kg. Agora sei o tamanho do exagero. Nem lugar para guardar tamanho fardo tenho mais. Ara!

Refrigerante, não. Tiro de ideia. Ninguém toma mais esse veneno. Suco de tomate cai como luva e suco de uva orgânica para os não ao álcool. Passo na feira, tudo para bela salada. Abasteço o carro. Andei pra caramba. Combustível pela hora da morte. Matuto: e se todo mundo parasse de usar carro? Preço despencava, planeta agradecia. Sacudo de leve a cabeça: sonha, Zé!

Chego em casa. Abro porta, aroma de limpeza bate no peito. Ontem teve faxineira. Será que foi ontem mesmo ou há dois dias? Os cheiros da faxina se misturam com meus óleos de laranja, incenso e flores da área externa. Os sinos da felicidade tocam à porta da frente me dando boas- vindas em alegre dançar.
Dou-me conta de que estou totalmente só e que não tem ninguém esperando ou visita marcada. Olho para o porta-malas do carro cheio de sacolas. Alface, curiosa, desponta sobre o tapete de plástico verde parece sorrir em frescor. Reciclável, dizem. Acaba a pressa. Passo a descer as compras lento, separando item por item. Algumas para as travessas de preparo, outras para a geladeira. O meu silêncio é calmo.
Como é cedo, decido sair para minha corrida diária, pois, um pouco de endorfina vai fazer bem. Quinze quilômetros. Chego exaurido, feliz. Ducha gelada e toco preparar almoço.

O temperar tem gosto ácido, cheiros cheiram outra coisa que não o de dar água na boca. Pensamento parece não ter peia. Música faz companhia. Coloco seleção de meu gosto e canto baixinho acompanhando. Acendo churrasqueira em ritual místico. A fumaça te busca em companhia tentando lhe abraçar. Não adianta mudar de lado. Ela vem serpenteando ar a te buscar. Turíbulo. Lavo alface, tomates, pico cebola, asso carne. Esqueço de comer. Perdi vontade, assim, só bem mais tarde, antes de dormir, arrisco beliscar algo. Vivo só, mas envolvido em paz inexplicável. A comida pronta vai me servir durante mais de semana.

“Quem sabe/ O Super Homem/ Venha nos restituir a glória/ Mudando como um Deus/ O curso da história (…), canta Gil” na sucessora das antigas vitrolas. Vou ficar quietinho, esperando tocaia de vida, sem isca, sem chama, “quem sabe ser verão apogeu de primavera”. Passa o dia em calma de templo budista.

Estou seriamente pensando em parar de comer carne vermelha. Aí, faço, então moqueca em panela de barro, temperada com bastante pó de pirlimpimpim das asas da tritagonista da obra de Sir James Matthew “Peter and Wendy”, a linda e meiga Sininho, ou quem sabe, de uma fadinha de verdade que, assim como por encanto, venha para, a quatro mãos, dar gosto ao desgosto Me guardo, me aguardo.





Publicado Jornal Correio em 19 de abril de 2015


segunda-feira, abril 13

Contadora de histórias




Para Clara Clarice Villac

Ela chegava mansa puxando sua longa e esguia sombra como quem nada queria. Sentava no banco mais sombreado da praça, um imponente ipê ou flamboaiã carregado de flor. Este último sempre em fogo como a mandar sinais para sua longe terra nativa, a grande e misteriosa ilha de Madagascar com sua variedade única de plantas e bichos, será que aquela da praça sonhava com imensos morcegos, verdadeiras raposas voadoras. Teria ela em seu cerne lembranças de graciosos/curiosos bandos de delicados lêmures a lhe acarinharem galhos e flores. Como sonharão as árvores?

Estas duas decoravam palco improvisado da magra e airosa moça. Não trazia caderno ou livro, apenas vestido de chita, blusa rendada, chapéu de palha de uma simplicidade elegante como a das princesas de suas histórias. Passarinhos, como em cena de filme de Walt Disney pousavam no mesmo banco sem medos, nunca em sua mão e não cantavam com olhos pidões como nos desenhos, apenas sentavam esparramados, aproveitando uma nesguinha de sol fujão da sombra densa fresquinha. Sua voz eram várias. Criança emburrada a velhinha coando café. De grito de araponga, rugir de onça, a sussurrar de vento. Virava onda esparramando espuma nas praias, virava trovão e tempestade.

Hora meiga como bica d’água de quintal, hora furiosa e grave como dragão adormecido em seu pior pesadelo. Passava como ninguém o som, a cor e o gosto dos escritos que não carecia ler – estavam todos em sua memória onde cabiam mais histórias do que as contadas nos papiros da Biblioteca Imperial de Constantinopla somados ao acervo da suntuosa biblioteca de Alexandria, transformados em cinzas cujo conteúdo parecia a pequena mulher ter aspirado cada partícula na tentativa de preservação de cada dito antes de espalharem-se em fuligem.

Não demorava muito, crianças, velhos, passantes cães errantes, gatos resmungões à sua volta reuniam. Como que paralisados, entravam em transe ao som do contar de cada história. Bebês, aos poucos, iam relutantes fechando olhos, caindo em profundo sono. Homens carrancudos, mulheres nervosas se aquietavam em calma de cordilheira branca em neve. Gatos se aninhavam nas costas de enormes cães. A criançada esquecia a bola, o peão, as brilhantes bolas de gude. O som de ensandecido trânsito desaparecia em mágica.

O tempo parava. Vivia-se ali a eternidade congelada. Assim como chegava, ia embora. Todos que ali estavam a seu redor não notavam a partida calma da contadora de histórias, o dom de tamanha assim permitia. Levava-se algum tempo para que todos voltassem ao planeta Terra, as pequenas crianças eram as que primeiro notavam e retomavam a cantoria de choros pirracentos, cães rugiam com o atrevimento dos gatos e os espalhavam árvores afora, as buzinas voltavam a disparar irritadas. O mundo acordava em pândega pouco festiva.

Mas um sentimento inexplicável ficava em todos, gentes e bichos – algo de muito bom tinha acontecido, como sonho esquecido, o gosto de fruta doce ficava na boca e na alma. E nossa mágica contadora de histórias ia mansa buscar outras praças. Entrechos novos sempre pairam ao seu redor, e ela, sorrindo sabia costurar mansinho uns aos outros na criação de alegria.







Publicado Jornal Correio em 12 de abril de 2015







domingo, abril 5

Na mosca





Tem coisa mais desagradável do que entrar em banheiro público e encontrá-lo sem as mínimas condições de uso? Estou sendo educado, pois, quando digo sem condições, me refiro à sujeira mesmo. Não apenas sujeira de pés, botinas ou sapatos carreando lama ladrilhos adentro. Refiro-me exatamente àquela sujeira que você está pensando. Em viagens a trabalho ou passeio, já me deparei com cenas que nem me atrevo a descrever. E não é só banheiro de boteco ou parada de ônibus não. Tente um em praça pública Brasil afora.

Se na hora do aperto você não estiver no sul, meu amigo, em particular em Gramado onde banheiros públicos parecem mais salas de espera de consultórios médicos limpíssimos, aconselho a travar e esperar chegar a um local seguro. Aliás, esse termo banheiro me intriga. Banheiro tem que ter chuveiro. Aqui, a maioria só tem vasos e assessórios para outros usos que não um refrescar. “Water Closet” ou WC seriam mais indicados. Usando a palavra certa em inglês para banheiro, seria “Bathroom”.

Os turcos tiveram uma ideia genial, contudo, preciso pesquisar mais para ter certeza disso, pois conhecendo banheiros turcos, fico na dúvida. Pintaram uma mosca no esmalte dos vasos de mijadores. Descobriram que os homem são levados por impulso irresistível a urinar em cima de insetos mortos ou alvos determinados. Até o fato de a maioria dos homens serem destros pesou na hora de decidir onde colocar a mosca. A obra de arte antirrespingos fica sempre mais à esquerda. Coisa séria, fruto de estudos profundos de psicólogos, engenheiros, arquitetos e antropólogos, além, certamente, de donos de bares e restaurantes. Depois da mosca o grau de acerto do xixi dentro do vaso subiu noventa por cento. Os das bexigas cheias passaram a mirar nela inconscientemente. Sucesso e higiene.

A César o que é de César: conta o blog “Banheiro”: “Mictórios da Inglaterra Vitoriana já apresentavam ícones de moscas, abelhas ou mesmo alvos. Também se ouvia falar de cientistas alemães desenvolvendo uma fita que muda de cor ao contato com a urina, oferecendo aos homens algo que o ícone da mosca não pode oferecer: feedback.” Sem respingos, resultado: bordas de vasos e chão mais secos e limpos.

Um grande shopping da cidade utilizou estratégia interessante. Não sei se proposital, mas a observação me levou a crer que funciona. Em um banheiro masculino, bem à frente dos mictórios, foram colocadas em vitrine fotos e manequins de belas mulheres, cujo ângulo destas faz parecer que estão olhando o pessoal na hora do xixi. Parece que os marmanjos, intimidados, acertam mais dentro do que fora. Pena, semana atrás ao participar de corrida de rua que de lá saia, quase todo corredor tem por mania um xixizinho antes da prova, observei que a tática não funcionou, sujeira geral, nem as moças de plástico marfim acanharam os caras.

Outro grande problema agora a resolver, refere-se tanto aos banheiros femininos quanto masculinos. Como fazer que todos, ao utilizarem um WC, lavem as mãos e acertem os papéis nos cestos. Treinos com a turma do Novo basquete Brasil ou NBB? Aliás, ridícula sigla. De novo nada tem a não ser tentar mais uma vez imitar gringo e sua poderosa NBA, bem que o pessoal daqui poderia ser mais criativo










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segunda-feira, março 30

Tempo, tempo, tempo



Em um março de algum ano nem tão longe assim, escrevi em meu caderno de poemas:


Estava eu distraído a contar estrelas quando relógio faminto pousou em meu pulso Sorveu voraz todo o tempo que nele cabia
Saciado, como bom tempo voou
Tristemente confesso; sinto falta de cada segundo roubado.


A rapidez misteriosa dessa marcha “ininterrupta e eterna de instantes” sempre me intrigou.
Quando muito jovens, reclamávamos da lentidão do seu passar. Não víamos a hora de comemorar aniversário de dezoito anos, um ritual de passagem imaginário onde a data mágica nos liberaria do jugo do mundo. Poderíamos sentar em um bar e pedir uma cerveja, poderíamos sem medo da polícia frequentar as casas e becos da rua Guaicurus, da Paraná, de banho tomado, barba feita – barba santo Homem, que barba? Penugens que, em nossa cabeça infantil, imaginávamos que nos envelhecia e nos fazia parecer mais velhos, viris. Empesteados de Leite de Rosas ou Lancaster deixávamos rastros de um perfume (?) dos quais abelhas, varejeiras e Aedes, mesmo não existindo mais em território nacional à época, fugiam em polvorosa, pior do que Rodox.

E podíamos dirigir. Juntamos migalhas, fazíamos biscates, vendíamos garrafas e jornais velhos, tudo para juntar dinheiro para pagar auto-escola – recuso-me a usar a nova grafia imposta pelo Acordo Ortográfico de 1990; só não uso o trema, que para mim só servia para borrar o papel quando ainda se escrevia usando caneta tinteiro. Fazer aqueles dois pontinhos era mancha imensa e certa no imaculado papel almaço.

Então, podíamos dirigir, tirávamos a suada carteira de habilitação, mas cadê o carro?
Não importava. O que valia era ostentar a carteira de motorista mesmo sabendo que seria revalidada muitas vezes até conseguirmos comprar nosso primeiro e carro velho, caindo aos pedaços, queimando óleo quarenta.

E tinha o título de eleitor, não servia para muita coisa à época, mas, em 1974 votamos pela primeira vez e sentimos o prazer de eleger Itamar Franco senador. Uma vingança à mordaça imposta pela redentora.
Quase ia esquecendo o temido certificado de reservista. Ninguém em sã consciência queria servir às Forças Armadas em plenos anos de chumbo.

Neste março que se vai sem águas suficientes que o fechem, meu filho fez 20 anos. Olho fotos dele em minha estante, bem pequenino ao lado da irmã também catatau. Hoje, barba e bigode, carteira de motorista, título de eleitor e carro, certificado de reservista. O tempo permitiu avanços. O tempo dá, o tempo tira.

Propus um acordo com o tempo. Me leve forças do corpo, clareie meus cabelos, não ocultarei as mechas brancas com Tablete de Santo Antônio, em troca, me deixe criança de alma, não permita que perca o encanto pelas insignificâncias tal qual meu mestre Manoel de Barros, quero ser contador de passarinhos em praças públicas, quero contar histórias e rir de mim mesmo. Ao tempo, entrego todo o meu viver.
Caetano encantou com sua “Oração ao Tempo”:

“És um senhor tão bonito/Quanto a cara do meu filho/Tempo, tempo, tempo, tempo/ Vou te fazer um pedido/ Tempo, tempo, tempo, tempo”.



Publicado Jornal Correio em 29/03/2015









quarta-feira, março 25

Palavras






Palavras são mágicas. Têm força de mantra e podem mudar rumo do acontecer. Não vou cair no lugar-comum de dizer que as palavras ferem mais do que a espada, metaforicamente tudo bem, mas se puderem escolher falem mal com gosto de mim. Meu velho pai, norte-americano do Brooklyn NY, sempre dizia “Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me”, pacifista incurável.

Nós humanos, via de regra, não possuímos poderes sobrenaturais, mas, às vezes, assim acreditamos.
Já aconteceu com você de desejar algo muito, mas muito mesmo a ponto de pensar nessa coisa o tempo todo e, de repente, do nada essa coisa acontece? Mãos erguidas em agradecimento como se aquele milagre divino fosse. Temos mania de achar que as coisas caem do céu, bem em nosso colo, basta acreditar e pronto.

Olha, não é tão simples. Assim fosse, meu Galo mineiro jamais perderia partida sequer, principalmente contra o Cruzeiro; ficaria rico sem esforço, se com muito esforço nunca conseguirei, imagina sem fazer nada, mergulhado em mentalizações e vontade. Dinheiro não vem do nada e se caísse na minha horta só choveria nota de três. A fé tem seu lugar mas, mesmo confiando no amigo, amarra o camelo.
Mas as palavras são mágicas. Podem elevar nosso astral ou nos jogar em depressão que nem química resolve, reza brava ou tirador de espírito não consegue nos erguer, o bicho pega.

Já desejou a morte de alguém? Claro que já, quem não? Livre pensar! É só pensar! diria Millôr. E um belo dia, logo depois de, inconscientemente, você rezar para que tinhoso levasse seu desafeto, você recebe um telefonema contando que o cabra ou a cabra morreu! Sentimento de culpa bate na hora. Pô, eu queria, mas não queria assim…. eu disse morrer, mas não morrerrrrr. Esquece, seu poder não é tamanho, você não é nenhum X-men, nenhum Professor Charles Xavier.

Agora, que a palavra escrita ou falada repetida milhões de vezes tem poder destrutivo, isso tem. A maior das mentiras vira verdade pétrea, podendo causar estragos em um país ou afetar toda a humanidade. A tal história das armas químicas do Sadam é um exemplo contemporâneo da força da propaganda. Não que o homem fosse santo, mas a desculpa para detonar com ele dentre outras tantas eram as tais armas. Cadê?

Tirando as infecções alimentares, porres homéricos, automedicação, feijoadas, dobradinhas, torresmo e pés de porco, refrigerantes, embutidos, estriquinina ou chumbinho, fico com a citação bíblica: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai”.

Felipe Wilkon nos conta: “Nada do que vem de fora de você pode lhe atingir intimamente. Não temos controle total sobre a matéria. Se alguém atirar uma pedra em você, a pedra pode atingi-lo. Mas um mau pensamento, uma má palavra, uma má intenção qualquer só irá atingi-lo se você permitir. (…)”
Sei não, quer saber, mesmo não acreditando em mandingas, feitiços ou trabalhos do mal, carrego a máxima andina: “No creo en las brujas pero que las hay, las hay… ”

Não custa apegar na fé, na proteção de santo de devoção e carregar bem rente ao corpo seu patuá… Que os anjos nos protejam. Salve Jorge!






Publicado em 22 de março de 2015 em Jornal Correio









quarta-feira, março 18

Tipos de pisadas

Vai começar a caminhar o correr? Evite lesões, conheça seu tipo de pisada e compre o tênis correto.



segunda-feira, março 16

Dr. Spock








Bom dia para quem me lê cedinho, boa tarde para quem deita no sofá depois do almoço abraçado ao nosso CORREIO, boa noite para quem tem paciência de esperar e para aqueles que não passam olhos pelos modestos escritos desse aprendiz das letras com Pós- Graduação em fábrica de macarrão de letrinhas.

Perdemos um ícone da ficção científica, Leonard Nimoy, o dr. Spock de “Jornada nas Estrelas”. Estranhamente não se deu a devida atenção a um que cativou milhares. Talvez em fã clubes espalhados pelo mundo possam ter ocorrido choros e homenagens. Por aqui, acho que estamos por demais ocupados com a realidade nua e crua que nos move em sobrevivência. Assim sempre foi e assim será sempre.

Suas orelhas pontudas, resultado de mistura vulcano/humano, seu cumprimento peculiar, juntando o “mindinho” com o “seu vizinho” e separando-os do “maior de todos” apertado ao “fura-bolo”, ficou eternizado na mente de muitas gerações – a série durou 40 anos, meus amigos e amigas. O sinal, por sinal, segundo o blog Literary Daydreams, “é símbolo da primeira letra (ou item) do alfabeto hebraico, chamado Shin. O ator Leonard Nimoy, nosso eterno Spock, era de uma família judaica ortodoxa. Em uma das bênçãos, o rabino de sua sinagoga fez o gesto com uma das mãos e Nimoy guardou aquilo.

Antes das gravações de “Star Trek”, os roteiristas lhe pediram para dar algum traço cultural aos nascidos no planeta Vulcan, terra natal de Spock. O ator sugeriu então a saudação feita pelo rabino, que, na história, seria equivalente ao aperto de mãos dos humanos.”

Seu super hiper golpe paralisante, um simples e ligeiro aperto de dedos na escápula adversária, e lá ia o oponente para um apagar sem sonhos. Todos levantavam desse golpe esfregando a nuca e ressabiados com um nada saber.

Sucesso entre a criançada, a série era praticamente imperdível, mesmo com o terrível som das dublagens primitivas que derrapavam na sincronização com os movimentos da boca, tipo desenho da mesma época “Jonny Quest” e seu fiel e medroso Bandit, onde as bocas boiavam em borrões sem nexo articular. Depois vieram os filmes, mas levados ao cinema, nem de perto lembram o gosto de pular no sofá e, olhos vidrados, acompanhar a saga dos navegantes intergalácticos, pela qual cada um de nós viajava em sua própria USS Enterprise.

“O espaço, a fronteira final… Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo, onde nenhum homem jamais esteve…”.

É para lá que Nimoy, em serena seriedade de Spock partiu, deixando saudades.

Cardassianos, Borgs, Ferengi, Klingons, Romulamos que se cuidem. Dr. Spock se ergue de sua cápsula funerária, no planeta Gênesis, revigorado, pronto a defender as civilizações do universo afora contra o mal.

“Vida longa e próspera” é o que podemos desejar ao dr. Spock. Afinal, partiu seu lado humano, mas seu lado vulcano a estas alturas deve estar no Quadrante Delta, do outro lado da galáxia, onde, como bom representante de sua raça alienígena, viverá 200 anos, pois só gastou 83 entre nós.

Publicado Jornal Correio de Uberlândia 15/03/2015










https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhVUdDN2lmS2FpdkU/view?usp=sharing

quinta-feira, março 12

Conosco



Tempo se faz e não cumpro promessa de aqui contar história prometida. Algumas pessoas me cobraram. Enviaram “mails”, posts no Twitter, pombos correio chegaram anilhados à minha janela. Muitas duras in box no Face. Cartas de próprio punho, lotaram minha varanda. O brado era um só: “Cadê a história!?”
Bom, atendendo essa multidão fictícia de gente em clamor, hoje mato curiosidade de todos e todas – continuo tendo que me policiar para não esquecer de contemplar as questões de gênero, eita moda sem graça essa. Chega de enrolação.

Contam, não tenho como provar, pois fato se passou há muito tempo. Época que nem estrada de asfalto havia entre Iturama e Uberaba. Vir até Uberlândia? Só por Campina Verde, parando obrigatoriamente em Honorópolis para comer pastel de gueroba. Dava de mil no do Trevão. Dali até o Prata, eram 54 mata-burros contados. Resumindo, locomover-se pelas Gerais era um suplício, um exercício de paciência e resignação. Talvez este seja um dos motivos do nosso desconfiado silêncio mineiro, aprendemos a observar antes mesmo de andar ou falar. Daí a nossa relação maior com São Paulo e Goiás. Minas demorou aqui chegar.

Depois de muita carta timbrada passeando em lombo de burro, trem e jardineiras prá lá e prá cá, marca-se audiência com governador na capital. Pauta extensa, muito pedir, até construção de escolas rurais. Cabra bom, além de sua época. Pensar em escola naquele tempo?

Marcado o tal encontro, com uma antecedência de quem sabe o que vai enfrentar. Prefeito e comitiva pegam caminho. Rural Willys, muitos pneus reservas e correntes para caso de barro. O prefeito, como autoridade máxima do grupo impôs a regra clássica de tocador de boiada, peão criado no trecho: “Se tiver poeira vou à frente, se tiver porteira vou ao meio, se tiver atoleiro, vou atrás.”

Toca para a capital. Lá pelas tantas, bate fome no pessoal, encostam num dos postos e seguem para almoço. O prefeito desce, estica pernas, e volta para o carro.
— Prefeito, o senhor não quer comer alguma coisa conosco?
— Agradecido, patroa mandou matula, me refestelo com o tempero dela aqui na sombra dessa Copaíba.
Assim foi. Muitas paradas, atoladas. Boiadas imensas, que nem leito de rio de águas brancas mansas e lentas. Matula acabou.

Em todas as paradas, a mesma pergunta:
— Doutor, vamos comer um pouco conosco, a comida daqui é famosa.
— Agradecido, fico só na água da moringa.
Um pernoite, em fazenda conhecida já na virada da serra. Café ligeiro e toca caminho. Outro dormir, amanhecer e estrada que não acaba.

Outra vez hora do almoço.
— Dr. Prefeito, pelo amor do Santíssimo come alguma coisa conosco, o senhor está no jejum desde ontem. Assim o senhor desmaia fraqueza junto ao governo.
Tirou o chapéu, coçou cabeça. Esse era um dos motivos que alegou para não entrar na política, só comia o tempero da sua mulher. Era sistemático.

Mas a fome falou mais alto, se rendeu, riscou o chão com a botina, suspirou e lá se foi, cabeça baixa.
— Tá certo, vamos lá, deixa provar um pouco desse conosquinho que vocês tanto falam. Encantou-se, viu que era bom.







Publicado Jornal Correio em  08 de março de 2015






terça-feira, março 3

Gentílico




Não tem um diazinho na vida da gente que não aprendemos algo novo. Lendo antiga coluna aqui no CORREIO de Arthur Fernandes, como de costume – para ser franco ando tão longe de política partidária que, se não fosse a coluna do Ivan (Santos) e a “Confidencial” e algumas colunas especializadas de outros jornais, ficaria condenado ao enfado e alienação. Não estou mais no tempo de fazerem fácil minha cabeça, leio o que me chega com olhar crítico e sempre buscando entrelinhas nas palavras de políticos galanteadores, principalmente em vésperas de eleição. Pois foi a “Confidencial” que pousei os olhos na sonora palavra “soteropolitano”.

Confesso minha ignorância, não conhecia seu sentido. Claro, desconfiei com base no texto do que se tratava, mas, como bom mineiro, lancei mãos ao Aurélio. E lá, confirmei minha suspeita. Explicadinho:
(Soterópoli[s], topônimo [nome helenizado da cidade de Salvador] + -ense) adjetivo de dois gêneros 1. Relativo a Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Substantivo de dois gêneros; 2. Natural ou habitante de Salvador; Sinônimo Geral: Salvadorense.

Salvadorense eu tinha vaga lembrança, mas, na realidade, nunca havia pensado nisso. Para mim, quem nasce em Salvador era outra coisa, sem nome definido. Capoeira, passar uma tarde em Itapoã, elevador Lacerda, pelourinho, acarajé no tabuleiro da baiana. Igreja e Fita de Nosso Senhor do Bonfim, Praça Castro Alves, Caimmy, Caetano, Gil, Bethânia. Dodô e Osmar, pois “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.

Depois dessa resolvi fazer busca de gentílicos pitorescos de nosso Brasilzão, encontrei encantadoras pérolas, a maioria quase absoluta acaba em “ense”, mas outras soam música, mostro alguns. Natural do Rio Grande do Norte, conhecido potiguar. Paroara para quem nasce no Pará é místico, vejo ao longe boto-cor-de-rosa, pororoca, Jussara. As surpresas, quem nasce no Paraná além de paranaense também pode ser chamado de tingui. Fluminense para quem é do Rio de Janeiro – viu só, pelo menos, em algum momento, todo flamenguista ou botafoguense é fluminense: plebiscito já para mudar tal absurdo.
Os curiosos: quem é natural de Brasília, não errou quem chutou candango, quem, no DF, nasce é Distrital. Feia denominação, mas foi esta encontrada e, claro, lembra política. Brasiliense veio depois para lapidar denominação que um dia já foi candango.

O absurdo: com esta encontrada bati de frente, sabem como podemos nós mineiros ser chamados? Acredite se quiser: montanhês ou geralista. Sai fora, montanhês é cabrito e geralista lembra generalista, o que podemos até ser em se tratando de nossas belezas, nossa gente, nosso céu, montanhas, cerrado, vales e rios. Nossa história, nossas catedrais construídas ou esculpidas em vento e chuva. Nas palavras de Frei Beto: “Mineiro a gente não entende – interpreta. Ser mineiro é antes de tudo um estado de espírito.”

Obrigado, Arthur Fernandes, mais uma vez por tuas mãos, ou escritos, enriqueço meu parco vocabulário. Muito Axé e que São Jorge Guerreiro que é Ogum te ilumine com sua luz protetora.







Publicado Jornal Correio em 1º de março de 2015




 https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhczJfUHB0dF9OSmM/view?usp=sharing

segunda-feira, fevereiro 23

Temporal






Outro dia contei história de meu amigo, colega de república e hoje de profissão, o compadre Temporal. De nome de batismo Jeová, poucos sabem a origem do apelido, no mínimo, diferente. Peço licença ao “véio” para contar a gênese de pitoresca alcunha. Naquela época, as aulas de Histologia eram dadas no anfiteatro do bloco A do campus Umuarama e os calouros de Veterinária, Odontologia e Medicina as assistiam juntos. Bom, nem tão juntos assim. As cadeiras do anfiteatro eram dividas em três blocos separados por dois corredores. O pessoal da Medicina ficava no central, os da Odonto à direita, e nós, da Veterinária, à esquerda. Nenhuma conotação política. Qualquer semelhança com o parlamento inglês é mera coincidência.

Nosso mestre, professor Gladstone, famoso por seu rigor e fina didática, era temido entre os alunos por suas provas, principalmente, as práticas, consideradas dificílimas. Normal. Aula corria tranquila, começava às sete da manhã, o que significava que a maioria de nós tinha levantado às cinco e meia para pegar ônibus ou carona. Saudade do professor dr. Virgílio Mineiro, seu cavanhaque branco e seu Dodge Dart amarelo. Não podia ver um jalequinho em uma esquina que parava de boa vontade e lotava de alunos em carona promissora. Aula às sete, sair da cama às cinco e meia, não dava outra: metade do povo só esperava o apagar de luzes para slides e toma cochilo!

Certa aula, professor sorteia três alunos de cada turma para apresentar trabalho na semana seguinte. Um dos escolhidos? Claro, o “véio” Jeová. Assunto a ele solicitado, falar sobre as mitocôndrias.
Beleza. Dia vai, dia vem e nada de Jeová pensar em fazer a apresentação. Nossa agitada vida social republicana o impedia de tirar algumas horas para tão sofrida tarefa. E o dia chegando, e o “véio” nada.
Não deu outra, pois data marcada, seja de coisa boa ou ruim, hora chega. A dele chegou. Confiante de que o professor Gladstone iria esquecer-se dele, lá foi tranquilo.

Chama um, chama outro, Jeová começa a suar frio e me pede no estalo: me fala qualquer coisa sobre as tais mitocôndrias rápido, senão me lasco todo. Balbuciei um resumo tímido e ele, sorrindo, disse: “tá bom demais da conta, deixa comigo”.
— Sr. Jeová! Chamou o professor do alto do palco do anfiteatro.

— Pois não, professor, e seguiu confiante acima.
— Sobre o quê mesmo iremos falar?
— Mitocôndrias professor.
— Comecemos então – passou- lhe o giz e apontou para o quadro-negro.

Jeová coçou a cabeça, enxugou a palma da mão:
— É assim, as mitocôndrias são estruturas bem pequenas, que possuem umas cristas e produzem energia.
Deu uma parada olhou para nós e voltando-se para o professor retrucou.
— Olha só professor, só deu para estudar até aí, pois, ontem à noite, caiu um “temporal” lá na república e acabou a luz e, por conta das goteiras, não deu para estudar mais.

Gargalhada geral de todo auditório e até do professor. Zerou é claro. Até hoje, quase 40 anos depois, todos os contemporâneos, independentemente de curso, não sabem quem é Jeová. Mas o Temporal? Todos se lembram dele. Um detalhe: seu irmão mais novo Joel, quando foi morar com a gente, já chegou batizado de Chuvisco.






Publicado Jornal Correio em 23 de fevereiro de 2015




 Temporal