"Se for falar mal de mim me chame, sei coisas horríveis a meu respeito" (Clarice Lispector)
quinta-feira, julho 30
segunda-feira, julho 27
Yes we C. A. M. !
Amanheceu quarta-feira. O ano 2013. Pode parecer coisa de filme americano, quando o advogado em julgamento caminha lentamente em direção ao réu, de costas para testemunha interrogada , pergunta levantando o braço direito, entre seus dedos rodopia uma caneta tinteiro:
─ Onde o senhor estava dia 23 de julho de 2013 às vinte e cinquenta da noite e o que fazia ?
Posso quase apostar que poucos que passarem os olhos por estas mal traçadas linhas lembrarão. Puxe da memória, caro leitor, difícil, não é? O engraçado é que nos filmes o interrogado dá detalhes. Queria ter memória assim.
Mas se me perguntarem onde estava e o que estava fazendo nesse dia, posso jurar sobre todos os livros sagrados que saberia dizer.
Conto.
O amanhecer já foi estranho, um friozinho incômodo se fazia mostrar, pelejando para nos deixar mais um pouco sob as cobertas. Mas não dava para dormir, o dia prometia ser longo e arrastado, uma multidão de gente tinha um compromisso à noite e o esperar doía.
Ensimesmado, perdendo conta de quantas vezes olhei para o relógio naquele dia. Nada parecia estar bem. Havia algo diferente no ar e não eram os “aviões de carreira”. Trabalho, almoço, soneca, mas qual que nem cochilo. Em dia de 220 horas finalmente anoiteceu, era pouco para a ansiedade de que dar 9 e tanto e esta não chegava.
Que vontade de estar em minha Belo Horizonte natal, enfrentado o caótico trânsito da Avenida Antônio Carlos a caminho de nossa casa na Pampulha: o imponente Mineirão. A Galoucura se fazia ouvir “O Mineirão é nosso!”
Final da Libertadores. A coisa, nossa situação não era das melhores. Espaço pouco resumo. Primeiro tempo de arrancar cabelo. Nada de gol.
Primeiro minutinho do segundo tempo, Jô! Esperança reacende, jogo suado e sofrido como tudo na vida de um bom atleticano e só aos 40 e poucos do segundo tempo Leonardo Silva emplaca dois a zero. Prorrogação de garra, mas deu em nada, levamos para os pênaltis. E pensar que tudo começou com o pé abençoado de Victor ao defender chute perfeito de Riascos em pênalti contra o Tijuana . Não, nada podia dar errado, não agora pô!
Miranda do Olímpia de cara perdeu sua cobrança.
Alecsandor, Guilherme, Jô e Leonardo Silva deixaram suas marcas, o Mineirão tremia. Gimenez se deu mal e mais uma vez a estrela de “São Victor” brilhou como super nova e garantiu o título continental Galo Campeão da Libertadores de 2013! Me desculpe Giafrancesco Guarnieri mas “O grito parado no ar” ecoou por toda Minas, desceu das montanhas, invadiu as Gerais navegando por rios e córregos, desaguou em rincões e sertões adentro a notícia, como revoada de aves migratórias se espalhou ligeira a festa. Estava só começando e eu, meu filho e minha filha, dormimos com sorriso no rosto.
Disse para Pablo, cruzeirense de carteirinha que falar do galo é falar de sol em invernada de Macondo, é levar luz para a caverna mitológica de Platão, era salvar Julieta de Shakespeare mudando final de seu clássico. Ele, gozador, pediu menos poesia, ao que respondi: “Não, amigo celeste, quero mais, a poesia de vestir sempre a camisa 12 alvinegra! Afinal ser Atleticano e como ser mineiro, é um “estado de espírito”. Galo forte Vingador!
Jornal Correio em 27 de Julho de 2015
sexta-feira, julho 24
segunda-feira, julho 20
Camafeu
(Foto: Carlos Nader/GOVSP/Divulgação)
Talvez essa moçada, aqueles que não conheceram bonde – o de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, não vale, que não têm a mínima ideia ou, no máximo, ouviram falar de videocassete, máquina de escrever, monóculo com foto, câmara fotográfica com rolo de filme. E, o que é pior, nunca se deram ao prazer de ler clássico de nossa e da literatura mundial. Esses talvez também não devam ter a mínima ideia do que seja um camafeu.
Camafeu vem de longe, séculos antes de Cristo. Encontrado em escavações arqueológicas, pelo visto, sempre foi um enfeite. A realeza egípcia era vaidosa ao extremo, nunca entendi o motivo de só serem pintados de perfil. Bons em invenções e construtores audazes, eram ruinzinhos em perspectiva. Ou, então, pediam para crianças pintarem tumbas e pirâmides como parte do ensino para se tornarem futuros arquitetos. Se foi assim, enganaram a todos que profanaram seus santuários. Doce deboche.
Geralmente, camafeus são feitos em pedra preciosa, trazem delicada escultura em alto relevo. Já foi pingente, mas nossas avós os usavam em seus xales, cheirando a água de lavanda, como prendedores. Existem peças maravilhosas em museus mundo afora.
Década de 80. Em jeep emprestado da Secretaria de Estado da Saúde, cinza, capota de lona rasgada, queimando óleo quarenta, ao passarmos pela então tranquila praça Tubal Vilela, avistamos sujeito vendendo filhote de tamanduá, assim na cara dura. Naquela época, as leis de proteção de fauna, se existiam, ninguém dava a menor bola. Pedi para parar o projeto de sucata e desci cuspindo fogo pelas ventas. Dei uma danada de uma bronca no sujeito. Aí, me contou que matou a mãe para comer e queria vender o filhote, tinha família com fome, vinha de um longe Nordeste. Bateu-me uma vergonha sem tamanho, miséria levou aquele homem a um ato que para ele era normal, só queria, como qualquer um, sobreviver e salvar os seus.
Comprei o bichinho, ganhei um problema. Como todo bom tamanduá miúdo, acostumado estava em ficar agarrado com a mãe. Não deu outra. Já no pegar, o pequenino se agarrou a mim em busca de proteção, carinho e calor. Aninhou mesmo. Adotamos o tamanduá e passamos a revezar no carregar e alimentar. Tereza, colega de trabalho, batizou-o de Camafeu, que ficou conosco muito tempo, cresceu forte, às vezes, gripava, e não tinha cerimônia em correr aquela língua gelada em quem o pegasse no colo.
Dia chegou de deixá-lo ganhar mundo. Debaixo de tempestade de choro das meninas e muito nó na garganta e falta de coragem de verter lágrimas, nós entregamos Camafeu para a Florestal, esta seguramente o soltou em local apropriado. Hoje, já deve ser avó ou avô, tanto trato e nunca olhamos se era macho ou fêmea.
Quanto à máquina, a minha é uma Remington, não o revólver ou rifle, é de escrever, sabendo que palavras são bem mais poderosas do que armas, para não perder a chance de usar um lugar-comum. Vi charge genial onde o pai escrevia em uma máquina e o filho, tipo geração Y, observava fascinado. Eufórico disse: “Pai, que doido, esta máquina é tudo de bom, é só escrever que ela já imprime!”
Sinal dos tempos…
Jornal Correio 19/07/2015
Talvez essa moçada, aqueles que não conheceram bonde – o de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, não vale, que não têm a mínima ideia ou, no máximo, ouviram falar de videocassete, máquina de escrever, monóculo com foto, câmara fotográfica com rolo de filme. E, o que é pior, nunca se deram ao prazer de ler clássico de nossa e da literatura mundial. Esses talvez também não devam ter a mínima ideia do que seja um camafeu.
Camafeu vem de longe, séculos antes de Cristo. Encontrado em escavações arqueológicas, pelo visto, sempre foi um enfeite. A realeza egípcia era vaidosa ao extremo, nunca entendi o motivo de só serem pintados de perfil. Bons em invenções e construtores audazes, eram ruinzinhos em perspectiva. Ou, então, pediam para crianças pintarem tumbas e pirâmides como parte do ensino para se tornarem futuros arquitetos. Se foi assim, enganaram a todos que profanaram seus santuários. Doce deboche.
Geralmente, camafeus são feitos em pedra preciosa, trazem delicada escultura em alto relevo. Já foi pingente, mas nossas avós os usavam em seus xales, cheirando a água de lavanda, como prendedores. Existem peças maravilhosas em museus mundo afora.
Década de 80. Em jeep emprestado da Secretaria de Estado da Saúde, cinza, capota de lona rasgada, queimando óleo quarenta, ao passarmos pela então tranquila praça Tubal Vilela, avistamos sujeito vendendo filhote de tamanduá, assim na cara dura. Naquela época, as leis de proteção de fauna, se existiam, ninguém dava a menor bola. Pedi para parar o projeto de sucata e desci cuspindo fogo pelas ventas. Dei uma danada de uma bronca no sujeito. Aí, me contou que matou a mãe para comer e queria vender o filhote, tinha família com fome, vinha de um longe Nordeste. Bateu-me uma vergonha sem tamanho, miséria levou aquele homem a um ato que para ele era normal, só queria, como qualquer um, sobreviver e salvar os seus.
Comprei o bichinho, ganhei um problema. Como todo bom tamanduá miúdo, acostumado estava em ficar agarrado com a mãe. Não deu outra. Já no pegar, o pequenino se agarrou a mim em busca de proteção, carinho e calor. Aninhou mesmo. Adotamos o tamanduá e passamos a revezar no carregar e alimentar. Tereza, colega de trabalho, batizou-o de Camafeu, que ficou conosco muito tempo, cresceu forte, às vezes, gripava, e não tinha cerimônia em correr aquela língua gelada em quem o pegasse no colo.
Dia chegou de deixá-lo ganhar mundo. Debaixo de tempestade de choro das meninas e muito nó na garganta e falta de coragem de verter lágrimas, nós entregamos Camafeu para a Florestal, esta seguramente o soltou em local apropriado. Hoje, já deve ser avó ou avô, tanto trato e nunca olhamos se era macho ou fêmea.
Quanto à máquina, a minha é uma Remington, não o revólver ou rifle, é de escrever, sabendo que palavras são bem mais poderosas do que armas, para não perder a chance de usar um lugar-comum. Vi charge genial onde o pai escrevia em uma máquina e o filho, tipo geração Y, observava fascinado. Eufórico disse: “Pai, que doido, esta máquina é tudo de bom, é só escrever que ela já imprime!”
Sinal dos tempos…
Jornal Correio 19/07/2015
segunda-feira, julho 13
Cafubira
“E o balão vai subindo, vem caindo a garoa/ O céu é tão lindo e a noite é tão boa/ São João, São João!/ Acende a fogueira no meu coração!”
Canto outra:
“Capelinha de Melão é de São João/ É de Cravo é de Rosa é de Manjericão/ São João está dormindo/ Não acorda não !/ Acordai, acordai, acordai, João!
Agora, querido amigo... Quantas vezes nos últimos anos ouviu estas cantigas em alguma festa junina? Sei, nenhuma, não é?
O dia 24 deste ano foi o mais silencioso do ano, não se ouviu foguetório de alvorecer, nem vi nas ruas as pequenas fogueiras tão comuns. E olha que caiu numa sexta-feira, dia de relaxar e festar.
A única festa perto de autenticamente São João de que consegui participar foi em um Centro de Formação, tudo muito organizado, crianças dançando quadrilha, correio elegante, canjica e quentão. Pescaria, pipoca, pé de moleque. Claro, não faltou o horror de música sertaneja universitária e show lindo por sinal, de uma intercambista canadense que cantou em voz idêntica a Whitney Houston, dentre outras My Heart Will Go On – aquela da trilha sonora do filme Titanic.
Traques, espanta brotinhos, cheiro de pólvora no ar. Mas nada de tradição junina na essência.
Junho se foi em silêncio, sexta 24 não teve missa para o Santo regente na catedral.
Esqueci de mencionar Santo Antônio. Será que vela foi acessa pedindo casamento ou hoje se busca par pelo Face tão somente?
De São Pedro, coitado, o ultimo do calendário, nem notícias.
Entra Julho começam as festas, vai entender.
Lá vou eu visitar festa “julhina”.
Me deu a impressão de feira gastronômica. Tudo muito organizado mas o foco era comer e beber. Filas e mais filas. Imensas filas. O quentão quase vira “frião” e cachorro quente torna-se “cold dog”.
Foi me dando uma cafubira lascada.
Começa com um bater de pés involuntário e incontrolável, ganham vida própria e sapateiam sem parar, não adianta tentar segurar o joelho, a impulsão é mais forte do que a gente. Sobe então para as pernas que, num desajeito incompreensível destampam a bater joelho com joelho se estiver sentado, se estiver em pé a sensação que cada perna quer tomar um rumo. Sobe para a boca do estômago, um aperto que só chega a um peito arfante e para na garganta em nó. Aí seu moço, dona moça, dá uma nervura de passarinho engaiolado a bater bico em tela de arame até sangrar e, deságua em sapituca da braba, um endoidecer de filha de Sorôco, de Rosa, “enfeitada de disparates”. Assim me sentia naquela noite de festa São João.
Tudo isso ao som de uma desarranjada “dupla de dois” sertanejos universitários, eita povo que não gradua nunca! Peixes fora d’água, não era local nem hora. Vazei depressinha.
Volto no domingo para almoço. Redenção total. Música boa, de um bom forró nordestino lá onde São João é reverenciado com paixão e fé mês inteiro. As vaidades desfilantes da noite foram deixadas em casa e as pessoas mostravam a simplicidade que tanto pregava o dono da festa. Passei tarde iluminada e feliz. Volto ano que vem, de dia.
Cafubira passou, é assim do jeito que vem, vai.
"São João acende a fogueira de meu coração".
Publicado Jornal Correio em 13 de julho de 2015
segunda-feira, julho 6
Trinta e cinco
Clica na imagem que aumenta
Publicado Jornal Correio em 5 de julho de 2015
Festa grande, churrasco animado. Não era para menos, estávamos comemorando trinta e cinco anos de formados, Medicina Veterinária – turma de 1980 da nossa Federal de Uberlândia. Claro, nem metade da turma compareceu, mas quem veio apesar do passar de tantos anos continuava barulhento para mais de metro. Parecia multidão. Sexta um Happy hour que foi tudo de happy e pouco de hour, durou horas a fio, noite adentro.
Bom encontrar gente sumida, cada um em canto desse Brasil gigante, roncando é fato, mas deitado em berço esplêndido. Domingo um fantástico churrasco na fazenda de Knychala, onde com fidalguia fomos recebidos. Alugamos van para não preocupar com volta e prováveis excessos. Quase todos com as famílias, minha filha apareceu depois. Acostumada a dirigir na roça, em um pulo chegou para as bandas do Cruzeiro dos Peixotos. Passou direto pois não tem placa indicatória, mas percebeu antes de chegar em Martinésia, virou ligeira. Como não bebe, quando dirige, minha carona de volta estava garantida.
Conheço meu povo veterinário, sair seria um custo, ninguém ia deixar. Saída à francesa lá pelas tantas. Lud filha do compadre Temporal deu um show com o berrante, para amaciá-lo uma dose de conhaque chifre adentro para afinar, pouco uso. Pouco nos chamamos por nome, os apelidos cruzaram os anos, ilesos. Ju, Zé da Bola, Fubá, Carteiro, Gatão, Goiaba, Joinha, Bafo, Barrica, só para citar alguns. Todos com uma história escondida atrás da alcunha. Daria livro, quem sabe um dia?
Berrante afinado a conhaque lá se vai a tocar, relembrando modas e abraços, cantoria. Saudade sendo curada. Regozijo.
Fim de festa, noite alta. Promessa e trato de novo encontro, agora anual. Próximo será na casa de Carteiro, interior de São Paulo.
Na noturna arrumação do que restou da nossa bagunça, óculos esquecidos, chapéu em um canto, botinas e camisetas foram recolhidas. O berrante voltou para a parede da sala da sede.
Brisa fria cortante da madrugada entrava por fresta de janela entreaberta, embalava sono das criaturas. Cortina batia leve. Uma golfada mais forte e o berrante tombou de lado no gancho. Cabeça doendo de ressaca, abriu um olho e tentou firmar as vistas. Meu Jesus, nunca na vida tinham enviado goela abaixo tanta bebida. A garganta ardia em brasa, tossiu forte, mugido descompassado saiu de sua bocarra. Luzes acenderam no alto da escada, fingiu dormir. Alguém desceu, olhou tudo, fechou a teimosa janela. Luzes se aquietaram. O berrante arriscou uma vista. Recompôs-se na alça de couro curtido por tanto uso em cabeça de arreio e costas de peão.
Cabeça ainda doía um pouco. Já recomposto e sem vergonha que só, foi manso no toque até acordar sua paixão, a viola. Estavam de flerte há muito tempo, mas ela orgulhosa, não soltava acorde fácil ao galanteador. Ele nunca perdeu a esperança e sabia que dia mais, dia menos iriam tocar juntos em festa de núpcias. Cavaquinhos e cornetinhas para criar, seriam felizes para frente. Enquanto isso só restava ao imenso chifre artista cantar para sua amada viola “Vê, ali está/ O meu berrante no mourão do ipê/
Vou cuidar melhor/ Porque foi ele que me deu você.”
Chora Zé Fortuna e Pitangueira !
Publicado Jornal Correio em 5 de julho de 2015
segunda-feira, junho 29
Conhece o Jadir?
Sábado, 13 de junho, dia de Santo Antônio. Uberlândia foi agraciada com um espetáculo de tirar o chapéu. Em noite morna, entrecortada vez ou outra por brisa friazinha que fazia questão, em soprar de anjo, vir de encontro a algumas milhares de faces atentas em olhos e ouvidos, e ainda sob um céu estrelado que só. Por mais de hora, viajamos ao som da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Cadeira VIP, quarta fileira.
Obrigado pelo convite. Desfrutamos de programa perfeito, fechando com a abertura de “O Guarani”, do nosso Carlos Gomes, nascido campineiro. Aliás, campineiro ou campinense, foi pena que voou em discussão estéril entre os “nobres” intelectuais em um longe 1956 quando da fundação da Academia Campinense de Letras. Campineiro era para povo da roça “nome pois indigno” para letrados – informações em garimpo, bateia rasa de fragmentos do “Pró-Memória de Campinas”.
Fim de espetáculo e bateu fome de caminhante sem rumo. Tinha corrida de trilha domingo cedo, estava quebrando todas minhas regras pré-carreira. Como diz um grande amigo candango “para quem não tem nada, metade é o dobro”. Lascado, lascado e meio.
Lá fomos nós para uma lanchonete de renome mundial, onde tudo tem o mesmo gosto e cheiro de plástico e isopor. Tempero cheira a ar-condicionado. Freguesia de empinados pescoços. Ao entrar, avaliados da botina mateira velha ao chapéu de lona que uso por costume há muitos anos, aqui e no mato.
Peguei rumo do banheiro para mãos lavar antes de comer. Grande susto. Nunca em toda minha vida de muito correr mundo vi um lugar tão sujo, mas pensa sujeira, multiplica por vinte banheiros químicos em final de rave, estava pior. Saí arrepiado.
Me senti um palhaço, aliás o símbolo de tal cadeia de lanchonetes. Passou. Abriu domingo embruscado, corri. Almoço na Feira da Gente, artesanato e comida boa e a preço justo. Ouvindo um bom chorinho, muita conversa, cerveja redentora. Claro, banheiro. Sigo pela praça cumprimentando artesãos, prosa ligeira com o fazedor de pulseiras de couro, mostro as minhas, trocamos ideias.
Cortei caminho para acarinhar cãezinhos para adoção. Vontade de levar todos. Já na entrada do banheiro, cheiro marcante de água sanitária, e um senhor, com capricho, rodo, balde e cara boa a limpar, incessantemente, piso e vasos. O entra e sai de gente simples, motociclistas – motoqueiro é pejorativo – enfim, nosso povo das ruas a frequentar um banheiro público e limpo. A comparação com a franquia gringa me veio na hora. Este senhor, por nome Jadir, poderia dar aulas de higiene para eles. Horas de praça, várias idas ao banheiro, sempre limpo. Puxei prosa, tiramos fotos juntos, admirei o servidor público que acredita no que faz há 25 anos. Queixa, uma só.
– Pois é doutô, só queria mesmo era um cheirinho bom para agradar mais. Dia seguinte, encontrei o secretário de Serviços Urbanos Eduardo Afonso. Contei caso. Domingo próximo, teremos banheiro da Sergio Pacheco, além de limpo, cheirando eucalipto. Parabéns, Jadir. Serviço público carece de muito mais gente como você.
Jadir me representa!
Ah, lembrando, apesar dos exageros da noite, poeira subiu, fiz um tempo excelente na trilha.
Publicado Jornal Correio em 28 de junho 2015
segunda-feira, junho 22
Monstro de quintal
Foto www.indiogigantesp.com.br
Menino novo em uma Belo Horizonte bela e limpa. Nascido e criado no bairro Funcionários, tivemos o privilégio de sermos uma das últimas gerações a ter verdadeira infância de rua. Descer a Afonso Penna de carrinho de rolimã, da praça da ABC até a Tiradentes, lá embaixo esquina com Aimorés, jogar bola, bentialtas (o bete daqui) só que com bola de meia e casinha de graveto em plena Rua Ceará. Vai fazer isso hoje, seriam considerados esportes ultrarradicais, superando o skydive em muito. Tudo era tranquilo não apenas pelo olhar criança, adultos também sorriam sempre. Cara amarrada, no máximo era fome, naqueles dias.
Já aqui contei que pouco serviam portões ou entradas formais, nossas trilhas e ruas eram os muros e galhos. Passávamos de casa em caso subindo em árvores, escalando obstáculos com facilidade felina.
Mas havia uma casa, muro a muro com a minha que era uma aventura, esta sim radical, de entrar. Por coincidência a mais frequentada por nossa turma, ali tínhamos grandes amigos. O muro dava para um imenso quintal pouco cuidado, repleto de bananeiras de qualidades variadas: prata, ourinho, caturra, maçã, era um festival. Tinha também imensos pés de jabuticaba Sabará, mexericas, figos, e até um pé de maçã, que nunca maçã deu. Bananeira tem troco ou caule? Bom, intuitivamente os chamo de falsos troncos. Estes, após terem seus cachos colhidos se amontoavam pelo chão, dando ao lugar um aspecto lúgubre de terra de ninguém, repleta de esconderijos para fantasia infantil povoar. Mas aí nesse lugar sombreado de pouco sol morava uma fera perigosíssima a qual todos temiam, a ponto de com ela ter pesadelos. Os cabelos da nuca arrepiavam só de imaginar tomar carreira dela, o coração batia em descompasso, suávamos frio. E hiperventilação no respirar. Os mais fraquinhos clareavam os lábios de onde sangue fugia, e muitos desmaiavam em pânico.
Esta fera não era nenhum cachorro imenso de latido grosso, nem algum ser fantasmagórico fruto de imaginação coletiva, nenhuma fantasia criada para afugentar incautos ladrões de fruta. Era nada mais, nada menos do que o empinado e rabugento Galo índio de Seo Aristides, que por sinal nem ele, o dono, conquistava respeito e não foi só uma ou duas vezes que teve a camisa rasgada, costas riscadas de fora a fora por mais palmo de esporas afiadas. Isso, o tal quintal também tinha um galinheiro imenso onde reinava absoluto o galo de Seo Aristides.
A maior prova de valentia entre nós era entrar triunfante pelo portão interno do galinheiro vindo do muro, se esgueirando por entre as plantas, se arrastando como cobra, um olho no galo outro no caminho a despistar a fera que ao mínimo barulho levantava a cabeça além do pescoço, a inclinava mineiramente desconfiado de um lado para outro. Não nos notando, mas nos sabendo, batia forte as asas e disparava seu canto ameaçador de “Aqui tem dono!” Grande parte da infância foi um sobressalto entre nós e o galo. Muita gente saiu riscada em encontros desagradáveis, pois quando em vez o galo fugia do terreiro e aí, não tinha quem ficasse de fora. E lá ia Seo Aristides com vara de bambu imensa a tanger o bicho de volta para seu lugar. Colher ovos era outra aventura, mesmo sabendo onde todos os ninhos ficavam por conta do indez que lá repousava, honraria para quem mais ovos trouxesse.
Galo adoeceu – troça da criançada – fim de uma lenda, com o galo se foi nossa infância.
Crescemos para um mundo começando a ficar sem sonhos. Nunca mais encontrei meus amigos.
segunda-feira, junho 15
Galinhada
Clique no texto abaixo para ampliá-lo
Publicado Jornal Correio em 14 de junho de 2015
Nada como uma boa relação patrão/empregado, principalmente na roça onde a lida é bruta. Hora boa para deixar a insatisfação disfarçada aparecer, ou é na derrubada de novilho para tirar os bagos ou na hora de passar gado no tronco, seja por vacina, vermífugo ou curar frieira. Confiando já é temeroso, imagina não. Sei que estes dois se davam bem demais, alem de patrão, parentes. Criados juntos, contrariando música de Milton Nascimento, “Morro velho”; Os laços de amizade se mantiveram fortes mesmo na vida adulta. Um na sede, outro em casa simples, terreiro largo, ajeitada que só.
Dava fim de semana. Era um e os seus almoçando na casa do outro. Conviver sadio de afeição.
Desde moleques, gostavam de mangar um do outro. Sapo em botina, bater chapéu em cachopa de marimbondo só para ver “pizeiro” de cavalo e mergulho em córrego para fugir de bicho enfurecido e venenoso. Afrouxar barrigueira de cavalo para ver arreio rodar, esconder roupa do outro quando de banho em cachoeira. E por aí afora.
Velhos, ainda mantinham saudável bom humor de amigos do peito. Certa feita o patrão amigo e compadre – trocaram batismo de filhos, selando eterna amizade – convidou para almoço em dia não combinado. Lá foram de charrete levantando poeira. Chegando, muita prosa, cerveja, riso, moda de viola e forró pé de serra.
O almoço. Cardápio deixou velhaco esse um. Escargot de entrada, com pinça e tudo mais. Depois fartas porções de Balut, aquele ovo de pata com o embrião quase nascendo, que é cozido e comido “na casca”. Tudo isso e muito mais, fruto das viagens pelo mundão do outro. Trouxe as “iguarias” já tramando sacanagem com o compadre. Na verdade ficaram só os dois à mesa, comadres e filhos estavam tranquilos saboreando bela leitoa pururuca lá na cozinha.
– Ara compadre, quero esses trem não! Isso lá é coisa de comer?
Percebeu a trama. É rir até perder fôlego, entraram de cara para trás na cerveja, passando assim o resto dia.
Tempo passou, a história foi se apagando. Foi quando patrãozinho recebeu recado do afilhado, moleque miúdo canela fina, sempre descalço por querência. Não andava, parecia pé de vento, corria arteiro por todos os cantos. Chegou bufando:
– Padrinho, pai convidou para almoçar amanhã, contou que vai fazer galinhada da pesada.
Recado dado, virou nos calcanhares, deixando o padrinho com mão levantada e frase na goela com resposta.
Dia chegou. Festa, Viola e prosa, manhã passou passarinho.
– Vamos pra mesa compadre?
– Bora, a fome tá assim ó, e você sabe o tanto que gosto de galinhada.
Logo o panelão fumegante saiu do fogão para a mesa. Boca marejou água em fartura. O cheiro do tempero dava para sentir longe. Cachorrada dos vizinhos de quilômetros uivou. Convidado esfomeado atacou primeiro, encheu colher de um arroz bem temperado e lá vieram junto três ou quatro pés de galinha. Cutucou outra ponta da panela, brotaram mais uns tantos pés.
– Uai compadre, mas essa galinhada só tem justo o que eu não como! Só tem pé uai!
– É uma galinhada da pesada compadre, aproveita, reclama não.
Vingança, prato que se come frio, e com muito pé de galinha. Lembrei de Esopo.
Publicado Jornal Correio em 14 de junho de 2015
segunda-feira, junho 8
Preto no branco
Nasci meio esquisito, quase sem melanina, aquilo que dá cor à pele da gente. Coisa da genética, meus avós, russos PO – Puros de Origem – vieram do Cáucaso da região de Cabárdia-Balcária fugindo, judeus que eram, ainda crianças da perseguição bolchevique. Quem não fugiu foi sumariamente executado pelas tropas de Lênin e posteriormente o sanguinário Stalin se encarregou da dizimar quem sobreviveu. Nossa família não era menchevique. Foram perseguidos apenas por serem judeus. Fugiram para os Estados Unidos da América. Meu pai nasceu no Brooklyn, NY. Mas cá prá nós, chega de autobiografia.
O fato é que passei toda minha infância e adolescência alvo de bullying por parte da moçada. Quase sem cor e pêlos, pronto, alvo fácil para gozações. Quando tomava sol em praia ficava parecendo aquele sorvete de três sabores. Peito chocolote, bunda creme, pernas cor de morango.
Tanta gozação me dá o direito, na onda das minorias raciais, de não mais aceitar ser chamado de branco, branquelo ou genérico; similar então nem pensar.
A denominação agora deverá ser cáucasodescendente e não abro mão. Desta forma, as cores preta(o) e branca(o) serão abolidas do dicionário politicamente correto. Por decreto, as substituo por afrodescendente e o já citado cáucasodescendente. Assim sendo, algumas expressões serão alteradas sob pena de ser tachado de preconceituoso. Vamos citar algumas: bandeira branca será agora bandeira cáucasodescendente. Imagina a música na voz de Dalva de Oliveira: “Bandeira cáucasodescendente eu quero paz (…)” fica mais legal, né!?
Pássaro preto vira Pássaro Afrodescendente, o Assum de Gonzagão também:
“Tudo em vorta é só beleza / Sol de Abril e a mata em frô / Mas Assum afrodescendente, cego dos óio / Num vendo a luz, ai, canta de dor.”
A zebra, assim como a camisa do Galo Mineiro, passa a ter uma listra afrodescendente e outra cáucasodescendente.
Dia de tempestade o céu estará afrodescendente em ameaça torrencial.
Se for de Campinas e não torcer para o Guarani, vibre com as vitórias da Ponte Afrodescendente.
Qual a cor do cavalo cáucasodescendente de Napoleão?
Se a barra pesasse diria em murmúrio “é, meu, a coisa aqui está afrodescendente…”
Daniela Mercury cantaria:
“Sou amarrado nessa pele escura/ Na sua cultura / Em sua formosura/ Mas no final tudo é uma só mistura/ A mesma estrutura/Isso é beleza pura.
E todo mundo aqui é afrodescendente e cáucasodescendente.
E todo mundo aqui é afrodescendente e cáucasodescendente”.
Como diz um dos atores mais lúcidos que conheço, Morgan Freeman, em entrevista a Mike Wallace, clareza impressionante ao se referir às datas de consciência disso ou daquilo e como, se não acabar, pelo menos não tornar os preconceitos menos enraizados em nossa cultura, geradora de ódio, minorias e cotas, diz Freedon: “Deixemos de falar sobre ele (o preconceito).”
Aos que me maldisserem por rir de mim mesmo eu solto a mais bela pomba
cáucasodescendente da paz.
Falando sério: Pelo fim das as formas de preconceito já!
Pensem bem, segundo o projeto Genoma:
“Não existem diferentes raças humanas, mas, sim, uma única espécie a HUMANA!”.
Publicado dia 07 de junho de 2015
segunda-feira, junho 1
Ainda das lagartixas
Domingo passado, falei de minhas lagartixas, isso, as chamo de minhas, pois assim as sinto. As protejo de qualquer maldade humana e, em troca silenciosa e não sabida, elas protegem a mim e minha casa devorando aos montes bichos que mal poderiam causar, baratas, aranhas perigosas, mosquitos, moscas e pernilongos diurnos e seresteiros de orelha. Contei da casa nova e da operação de resgate na qual as levei todas para nova morada.
Pois então, recentemente, mudei de casa outra vez. Vazia que só, mesmo depois de com capricho e detalhes terminar a arrumação de móveis, e tais. Lá entrava, sentia algo faltando. Sentava num canto olhava, espiava pra tudo que era canto, a sensação ficava colada comigo, chegava a impedir andar tranquilo.
Ao deitar para dormir, a falta de alguma coisa ficava aguda, que nem febre quando abraça. Primeiro, arrepios leves que ganham força, começa um tremor malárico fraco que ganha força até ao sol quente. Depois monta brava em delírio. Era isso que sentia, sem febre ou delírio, mas com tremura.
Não está certo, onde mora esse oco, esse nada em torno?
Sentado, madrugada adentro, olhava parede branca onde dançavam sombras de galhos de árvores. Me dava nó apertado em garrote vil, perdia o sono em tanto pensar. Fui levando sensação despejada até começo de abril, quando, do nada, rebolando no piso liso vem ela, lagartixinha miúda, frágil filhote. Era isso, pensei alto, minhas amigas das paredes, brincando de mudar de cor e estalar queixo. Me faltava o corre-corre pelas paredes, o esconde-esconde entre móveis e quadros, o olhar matreiro, debochado de quem se sabe agradando!
Deitei no chão e me pus a conversar manso com ela. Super assustada. Deve ter vindo da rua ou de algum pedaço de mudança, deve ter vindo ovo, pois era bem novinha. Ocupou a casa, era o que faltava. Se saio e demoro, a primeira coisa ao retorno é procurar a bichinha, não aquieto enquanto não encontro.
Acompanho dia a dia seu crescer. Bem alimentada com a quantidade de pequenos bichos em seu self-service particular, é fácil de notar seu desenvolver. Aedes não falta, e vez ou outra em ato de criança, capturo uma mosca, arranco-lhe as asas e a sirvo em bandeja. Bote certeiro e lá vai para o papo.
Quando está transparente a pego nas mãos e vejo/sinto seu coraçãozinho disparado. Banho. A pego encolhida em canto do box. Quase se afogou no chuveiro. Não sabia que lá estava e muito menos ela ao entrar curiosa. Com jeito para não machucar, tirei, coloquei em local seguro a secar. Cresce assim o terror das baratas e aranhas marrons. Se brincar, fica forte e até escorpião encara. Vou recolher mais algumas na outra casa, pois isolamento faz bem a ninguém. Logo povoam a nova pequena casa.
Muitas das vezes, não é o belo relativizado por nossos padrões que está a nos proteger. Lagartixas, sapos, morcegos, cito alguns. Guardiões da vida como hoje conhecemos, e que teimamos em destruir. São bichos que merecem atenção e proteção, sem eles nossa vida aqui na terra seria ou inviável ou um inferno.
Publicado em 31 de maio Jornal Correio de Uberlândia
segunda-feira, maio 25
Praga de plágio
Uma semana fora de nossa Uberlândia parece uma eternidade quando se trata de acontecimentos inusitados. Cheguei de um longe Maranhão, onde estava, mais uma vez, a convite do Ministério da Saúde, capacitando técnicos daquele Estado para implantarem programa de manejo de escorpiões. Sensação de realização absoluta quando vemos o resultado destas capacitações.
Percorrermos praticamente todo país mostrando nossa experiência. Modéstia às favas, temos, sim senhor, um dos melhores programas de controle desse bicho no Brasil. Participamos da elaboração do Manual de Controle de Escorpiões do mesmo Ministério, portanto, da normatização de condutas a serem seguidas para tal em um país continental – a rima foi sem querer, mas fica rica. Pode um profissional de saúde ter satisfação maior?
Cheguei sábado, depois de longo e confuso vôo, repleto de conexões malucas e horas de espera em aeroportos, onde cafezinho custa até oito contos. Constatação: a distância mais curta entre dois pontos da aviação nunca é uma reta. Domingo, ainda com ressaca de tanto voar, participei da superbem organizada Corrida do Sesc. Fiquei feliz. Depois, almocei na “Nossa Feira” da Praça Sérgio Pacheco.
Em casa, abri os jornais do dia. Aí o susto: “Argh, plágio!” de Gustavo Hoffay. O simples passar d’olhos já me trouxe péssimas lembranças. Mais espanto ao ler, como é de costume, a bem escrita crônica de Hoffay. Explico.
Por muito tempo fui roubado em textos por certo cidadão, que se diz jornalista e que publicava sistematicamente textos meus, de Thogo Lemos, de Ana Maria Cunha, de Marília Alves Cunha, Cláudio Vital e sabe-se lá de quantos mais. Muitos amigos leitores, indignados, escreveram para o tal jornal, sobre o demente. Resposta nenhuma. Sigam o link cerradodeminas.blogspot.com.br/2011 e confiram.
Se este for o mesmo jornal, provavelmente o ladrão de idéias, o intelectualmente doente, será o mesmo. Ah, não sei se já viram, mas o seu “Salve-se quem puder” amigo Gustavo, publicado em 29/09/2010, foi copiado na integra lá também.
Certa feita, ao ser entrevistado por enigmática, articulada, informada e de muito bem escrever personagem, que assinava @uberlandia, foi feita a mim a seguinte pergunta:
“Qual a sensação de se ter um texto roubado? É igual, parecido ou pior do que ter uma casa arrombada?”
Respondi: As criações, sejam literárias ou outra forma de expressão, custam algum sofrimento para quem as produz. Pode parecer mentira, mas criar muitas vezes dói, machuca. Porém, depois de prontas vem um porre de endorfina. Relaxante sensação de prazer absoluto. Quando te roubam um texto te roubam mais do que palavras, roubam um pouco de sua vida e isso incomoda pra caramba.
Ao final das contas um texto roubado é uma casa violada.
Salvei o dia com meu Galo dando tunda no Fluminense por quatro a um. Poderia ser um domingo perfeito não fosse o remoer em asco e nojo do mau caráter “tartufo acéfalo” plagiador (adorei esta expressão) e a pequenez de um jornal que aceita tais escritos.
Mas deixa estar caro Gustavo, hora ele acha o dele.
Publicado em 24 de maio de 2015 Jornal Correio
segunda-feira, maio 18
Lagartixas
Muito tempo atrás construímos primeira casa, daquelas financiadas pelo BNH. Casa miúda, mas enfim própria. Chega de aluguel, que vinha se arrastando desde os tempos de república. O bairro era longe que só. Acesso só pela estrada do Caça e Pesca pista simples e estreita, um ermo. Como tive que vender moto para comprar o terreno, ficamos a pé. O ônibus tinha roteiro por lá, mas como quase não tinha morada, comia volta. Era comum ver só a capota do bruto por sobre a braquiária tomando rumo da cidade outra vez. Aí era bater a pé e rezar por rara carona. Isso era em tempo de sol ou chuva. Aos poucos, bem devagar o bairro foi crescendo. Região foi aprumando mansa, estragando paisagem, destruindo cerrado onde filhos cresceram descalços, subindo em árvores, livres.
Do nada, a estradinha de pista única virou avenida, fim de sossego pairava sobre gente que queria silêncio e ar puro.
Dia da mudança. Toda tralha coube em carroceria de caminhonete. Vasculhando casa alugada agora vazia, repleta de ecos desconhecidos, ouvia-se o próprio andar, a respiração ficava pesada em denso ar de lembranças que ficariam para sempre no limbo, em busca de algo esquecido. Quase fechando a porta pela última vez, um impulso me fez voltar. Senti na nuca dezenas de olhos a me observarem em tristeza. Arrepiei arredio. Com coração na mão e pequena tremula dei passo para a sala repleta de nada. Notei ligeiro movimento em um canto. Virei de vez e me dei com os donos daqueles olhos de empurrar nuca.
Dezenas de lagartixas corriam parede abaixo sem nada entender. Jeito que ficaram olhando a casa vazia, olhos enormes e pidões como a perguntar se iam lá ficar. Teria eu coragem de tamanha malvadeza? Toquei a recolher as bichinhas em caixa de sapato. Uma a uma foram embarcando em nave cargueira de papel rumo ao novo lar. Soltei-as todas assim que entrei na casa nova. Foi uma festa. Cresceram e multiplicaram. Tomei por hábito, no silêncio de mato, deixar o passar das horas no sofá olhando para o telhado sem forro. Começar a escurecer e lá vinham elas caçar sustento, namorar e espiar a vida. Dormia tranquilo com o bater de mandíbulas delas em som que poucos conhecem.
Regozijo antes de chuva em fartura de aleluias, maná em mel. Deleite de ver.
Anos se passaram, fizemos novo telhado. Durante a retirada das antigas telhas, ia lá eu encarapinhado entre ripas e caibros, aprendendo a galgar telha, do espigão à cumeeira na cata dos ovos branquinhos das amigas mágicas na arte do mimetismo. Um teatro a cada passeio. Descansa as vistas.
Dos ovos colhidos para caixa baixinha com pouco de areia. Inventei ninho berço. Cobertura de telhas deixada ao sol. Todo dia ia fuçar. Até que, em mais um milagre da vida elas iam saindo de seus ovos, pareciam grande olhos com pequeno rabo. As espalhei por todos os cômodos, casa agora protegida. Todos podiam em paz dormir, bichinhos atentos ali estavam para em silêncio faminto marcar vigília.
Essa prosa não finda aqui, torna-se, para a vida, mais linda.
Publicada Jornal Correio em 17 de maio de 2015
sexta-feira, maio 15
Injustiça
Páscoa já se vai longe, mas num parar de nada fazer, daqueles que os olhos param olhando nada, ou mais, olhando para dentro das lembranças, e me peguei em sorriso. Lembrei de matéria de jornal. Corri pesquisar e clarear com detalhes as recordações.
Sabido é que tenho por costume as miudezas, disse e repito isso sempre. Pois agora vivendo fim de férias, além das corridas diárias, costume de me enveredar cerrado adentro para apreciar suas belezas e mistérios. É cupinzeiro, casa de tatu ou cascavel, é abelha jataí em toco caído num passar aflito em busca de pólen e néctar. Frágeis criaturinhas, como todas nossas abelhas nativas não foram premiadas com ferrão, resta defesa do ataque em massa, do embolar no cabelo, entrar no nariz e orelhas de intrusos sedentos de doce e raro mel. Quase nunca funciona e como o cerrado está perto de acabar por nossa conta, com elas as abelhas mansas correm sério risco de desaparecer de fato.
Numa dessas idas às trilhas, seguindo rastro de paca só para saber morada, ouvi vento a favor um choramingo triste. Apurei ouvido e segui lamento. Desci de lado, arrastando botina, pequeno barranco até dar numa vereda. Nascente de córrego em meio a buritis e outras palmeiras.
O choramingo foi ficando mais alto. Dava aperto no coração a angústia que acompanhava.
Vi à frente pequena criatura sentada meio de lado em tronco caído. Mão no queixo e olhos vermelhos de tanto choro. Era albino. Branco como algodão cardado e limpo, talvez os olhos vermelhos não fossem apenas de choro.
Cheguei com jeito para não assustar, puxei prosa.
─ Uai sô de onde vem tanta tristeza?
Me olhou assustado, mas logo se refez, triste encolheu ombros e suspirou como se nada importasse mais, podia ser até bandido ou onça, não faria diferença.
─ Rapaz conte, sou todo ouvidos, quem sabe posso ajudar.
─Tem jeito não, essa dor vem de longe. Muda não.
─ Pois conte então pelo menos alivia.
Parou um pouco, olh.os vermelhos fitando o nada, tomou fôlego e desabafou:
─ Você acreditava em papai Noel?
Acenei um sim com a cabeça.
─ Pois é, depois descobriu que era a maior balela, cascata pura, tudo K.O.
Aí vem fadinha, mula sem cabeça, Cuca. Tudo mentira.
Agora essa de ladainha da páscoa, sacanagem. Você conhece algum mamífero além do ornitorrinco que bota ovo? Não né. Poxa tinha que ser galinha da páscoa. Quer ovo pequeno, por que não codorna da páscoa? Ovo grandão tem ema, avestruz da páscoa. Não seria mais coerente? Aí falam dos símbolos, da fertilidade. Ora, essa história de ovo... Olha o que Jerold Aust disse: “Os mitos sobre a criação de muitos povos da antiguidade se baseiam num ovo cósmico que deu origem ao universo (...) Antigos povos do Egito e da Pérsia, os amigos trocavam ovos decorados no equinócio da primavera (...)”.
─ Nada de Coelho!
Olha o que fizeram comigo, deu até no jornal, brincadeira? Olha lá no portal do G1 de 1º de abril, tá lá em letras graúdas na primeira página: “Ovo de páscoa de 1 metro pesando 20 kg foi vendido em Brasília por 4000,00.” E não é pegadinha de dia da mentira não, posso te garantir, choramingou envergonhado baixinho o coelhinho.
Você faz idéia do parto em dor que foi botar ovo desse tamanho? Até hoje sofro resguardo.
Publicado Jornal Correio em 11 de maio de 2015
quinta-feira, maio 7
Cola
Depois da última prosa sobre meu compadre Temporal, muita coisa do tempo de escola da boa e velha república me veio à cabeça. Foram cinco anos de muita luta, dedicação e também de muita alegria e risadas. Só quem morou em república sabe o grande aprendizado que aí se tem. Conviver com um monte de gente a princípio desconhecida, dividir o mesmo espaço sabendo respeitar o limite do outro é um exercício de tolerância, humildade e paciência. Nem tudo eram flores, pelo contrário flores poucas, mas conseguimos mesmo assim sorver cada nuance cada matiz das cores e aromas de instantes inesquecíveis ternamente perpetuados em nossos corações e mentes (bem lugar-comum essa expressão, nome de documentário de longínquo 1974, mas é verdade. Seria bem extremamente pedante dizer Hearts and Minds, concordam?).
Almoço e janta pelo menos seis dias por semana era o tradicional arroz, feijão, ovo e “355”, apelido dado ao tomate, pois este era a semana inteira, ano todo. Vez ou outra rolava um coelho doado pelo Valle, pois sempre um de nós lá estava estagiando. Bife histologicamente cortado uma vez por semana. Aprende-se a dar valor a pedacinho de vida, de felicidade garimpada na bateia do tempo.
Nosso tempo não tinha a maravilha de um RU – Restaurante Universitário. Ouço tanto estudante descer a lenha na comida ali servida, balanço a cabeça apenas, não sabem de nada mesmo!
Conto um caso ou um milagre, mas não conto os santos envolvidos. Ética de ex-republicano, pois, sem autorização verbal, santo fica de fora, para nós a palavra ainda vale. Nada de documentos registrados em cartório. Como não consegui contato com todos os envolvidos, fica o caso.
Prova dura de alguma matéria do sétimo ou oitavo período. Prova de múltipla escolha. Nunca gostei dessas, preferia exposição escrita, coisa de vício também já contado.
Certa altura, tempo quase se esgotando, algumas questões mais complicadas em branco sem resposta. Companheiro à minha frente balançava na carteira, aflito, carecia nota para fechar matéria. Uma das complicadas era a questão seis. Por mais que puxasse da memória, do estudado, também nada me vinha à cabeça. Começa a cantoria.
“Barrica – do apelido conto não –, a seis”, sussurrou a meia altura o colega atormentado.
Barrica de pronto respondeu: “A”
“Barrica, a seis!”
Resposta já meio nervosa: “A, pô!”
A aflição não deixava o amigo e colega “pescar” a resposta. E a esta altura todos ao redor já assistiam de camarote ao drama da cola, inclusive o professor, bem disfarçadamente curioso em saber onde ia parar aquilo.
“Ô Barrica caramba, a seis!”
Não teve aquele que não escutou a súplica e a resposta. Barrica sem paciência respondeu foi alto dessa vez: “É A, cara!”
O colega não aguentou. Ficou de pé no meio da sala e nervoso apelou: “Ah não pô…. é A ou E?!!!”
Deu no que deu, além da turma desmontar de rir, o professor, disfarçando riso contido, ainda foi camarada, recolheu a prova de ambos e anulou apenas a questão seis que, de fato, era A.
Publicado Jornal Correio em 03 de maio de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)









