domingo, setembro 28

Segundona



Segundona, como de costume, pego trecho a pé para o trabalho. Caminhada cedo, boa para espantar restinho de sono que não sai nem com banho frio e bucha, mesmo tendo corrido as dez milhas domingo, me sinto pleno em alegria para começar a semana.

Os bons-dias são quase sempre para as mesmas pessoas; o senhor reciclador de latinhas, alegre por farta colheita, restos de sábados e domingos. “Tenho de levantar ainda de madrugada – me confessa – a concorrência tá grande. Tem até dono de ferro-velho que traz ajudante, fica desigual – me conta meio triste do alto de sua rangedora bicicleta.” Entristeço. Para as empregadas domésticas ou “ajudantes” como a sociedade, como que envergonhada, insiste em chamá-las, um quase pedido de desculpas. Os vigias noturnos deixando seus postos.

Como fumam as empregadas. Descem do ônibus e, em sua maioria, é botar pé no chão, puxam da binga, acendem cigarro. A indústria do tabaco investe em filões cada vez mais frágeis em informação. O cheiro de fumaça deles se mistura aos dos carros aflitos e impacientes. Segundona, e como todos os dias da semana, temos, nós pedestres, que enfrentar uma travessia perigosa na Nicomendes.

Já tentou atravessar aquela avenida na altura do Dmae? Uma aventura de alto risco. Faço rapel, montanhismo, trilha de mata. Juro, tenho mais medo dessa travessia do que descer em cordas o pontilhão da Fepasa sobre o rio Araguari – e olha que são noventa metros de queda livre e o rio ali, moço, traiçoeiro. Muitas partes de nossa cidade são assim, não foram feitas para humanos a pé. Privilégio dos carros. Caminhantes, bicicleteiros ou ciclistas, como queiram, mas aí tem grande diferença, concordam? Também não têm vez no trânsito e, principalmente, na Nicomedes.

Bicicleteiro é Seu José catador de latinhas, é o peão de obra que leva na garupa embrulhadinha sua marmita e garrafa de café. É o estudante de escola pública, é o vigia sonolento que busca cama com o chegar do sol. Ciclista é o que anda em grupos organizados, roupas colantes, coloridas, reluzentes, capacetes com desenhos estilo Andy Warhol ou Dali.

Não existe uma faixa de pedestre que seja naquela redondeza. Como existem “direitas livres” no encontro de duas avenidas de grande movimento. O passar de carros em alta velocidade é grande. Resta a nós, invisíveis seres de cidade, esperar oportunidade para atravessar. Raro o dia em que este campo minado não nos obriga ou a uma carreirinha trotada ou ficar parado congelado e rezar para que os motoristas nos vejam, quase todos ao celular, adiantando algum expediente, ficam cegos para tudo que não seja de metal e maior do que eles.

Como a maioria da turma anda de carro, acho pouco provável que algo seja feito por ali. Repito pela enésima vez, me faço Panglós, o otimista, apesar de duvidar, acredito que algum dia irão olhar com mais carinho para aqueles, que como eu, optaram por caminhar ou bicicletar. Perigoso, mas saudável. É isso, se até aqui no texto cheguei é porque em relativa segurança fui e voltei. Mas amanhã. Bom, amanhã é outro dia. “Viver é muito perigoso” não é amigo Guimarães Rosa?







Publicado Jornal Correio em  28/09/2014



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domingo, setembro 21

Quem mexeu no meu queijo?



Engano seu, caro leitor, se pensa que vou falar daquele desenhinho chato para burro de autoria de Spencer Johnson que já vi mais de 20 vezes em várias línguas, até em japonês, confesso que se fosse em mandarim daria para entender o filmete, não o livro.

Ver uma vez, discutir o que representam os ratos Sniff e Scurry, e os duendes Hem e Haw é uma coisa, vá lá. Mas toda reunião, todo treinamento, seja lá qual for o assunto em pauta, lá vêm eles. A única parte interessante e que me prende são os comentários do Coach. Cada um tem uma interpretação do abordado.

Algumas racionais e bem elaboradas – outras, de deixar hipopótamo de queixo caído. Os coachee, ou seja, nós, temos de calibrar nossos filtros de besteirol para que não passem nem pequenas moléculas do produto que querem nos ensinar a acreditar e vender. Falo produto para generalizar, pois pode bem ser algum bem material ou uma ideia. Convencer é uma coisa. Fazer a cabeça, criar maquininhas engajadas em causas e metas que em condições normais não se acreditaria é meio fascistoide. E de Homo reacionarius quero galáxias de distância.Mas e o danado do meu queijo em que andavam a mexer?

Compadre meu, morador em distrito longe em pequena, mas bem organizada chácara, onde produz de tudo um pouco para seu sustento e para presentear amigos. Tem pomar com tudo quanto há de fruta; tem lago onde cria e despesca lindas piraputangas, pacus e tilápias.

Horta de dar inveja nos jardins de Keukenhof, na Holanda e suas sete milhões de tulipas multicoloridas. Três vaquinhas dessa altura, holandesas purinhas que dão baldes e mais baldes de leite ao dia. Córrego passando beirando a casa de varanda larga e vista para a serra. Um pedaço do paraíso para poucos. Este é dele, da esposa e dos filhos que já voaram longe e lá passam fins de semana e férias.

Pois meu compadre é dado a fazer queijos. E que queijo ele produz. Muito Canastra fica no chinelo perto destas obras de arte culinária. Como dizem em Portugal: “É o queijo que faz o queijeiro e não o contrário”.

Toda vinda a Uberlândia faz questão de queijo trazer e, desta última visita, não foi diferente. Muita prosa, alegria de reencontro – dia passou manso. Pousou aqui em casa e seguiu trecho antes de amanhecer. Assim foi.

O queijo embrulhadinho ficou sobre a mesa da cozinha. No avançar da manhã, notei que o papel que o embrulhava estava meio rasgado num canto. Uai! Rato? Há de ser não, aqui não os tem! Pelo menos vistos nunca foram. Desembrulhei e coloquei em prato coberto por alvo pano. Segui. Não demorou muito, passando pela cozinha novamente, percebi que o pano tinha sido arrastado e havia pedaço queijo com parecer de roído.

Tá errado, rato não anda de dia, só se bando for muito grande e fome apertada. Se assim fosse, todos veriam os danados por toda parte. Não era o caso. Experiente em fazer campana para bicho fotografar, montei guarita escanteado. O queijo eu via. Só ele.

Passou mais de hora e nada. Não entrego fácil. Passou mais tempo e eu na tocaia.Do nada barulho de asas batendo e pouso arranhado na janela. Pus atenção. Logo mais asas e mais escorregar vidro abaixo. Num fazer vento que me bateu no rosto desceram sobre a mesa duas lindas, coloridas e muito das brejeiras maritacas. Andar desengonçado por sobre mesa de madeira, com gingado e pios de garganta, avançaram até o queijo e sem cerimônia foram roendo e resmungando. Nunca soube de maritaca comer queijo, mas essas ali estavam para o contrário provar. Peraí! Tomara eu ver suas molecas! Parti para cima delas – em alvoroço e boa mira passaram lisas janelas afora.

Ri de mim, concorrente de queijo agora era maritaca! Só comigo. Pena uma só. O queijo lindo e saboroso tinha que ir para a geladeira. Queijo frio perde gosto.
E, no mais, eu quero é ser gauche na vida, como soprou o anjo torto que vive na sombra de Drummond. Coachee só de poesia, bichos e amores.







Publicado Jornal Correio em 21/09/2014



domingo, setembro 14

Placas



Curiosa polêmica gerada pelos prefixos das placas de carro aqui em Uberlândia e outros Estados. Matéria no CORREIO de Uberlândia nos conta que algumas, tais como PUM, HIV, GAY estão gerando constrangimento. Particularmente não vejo problema algum em ter carro com placas assim. Das citadas, acharia até legal, pois rodar com placas com as letras HIV e GAY demonstram aguçada tolerância e espírito humano do dono do carro, que não está nem aí para o que os outros pensam.
Mostram que aquele condutor é de espírito aberto e livre de qualquer preconceito quanto à doença e quanto à liberdade de escolha individual, que deve ser, no mínimo, respeitada e muito. Piadinhas sempre irão existir, mas só incomodam aqueles que têm preocupação exagerada com miudezas. Sorrisinhos irônicos e deboche revelariam, na verdade, personalidades horrorosamente homofóbicas e preconceituosas.
O prefixo PUM é genial e deveria ser exclusivo de carros desregulados e antigos da DKV. Pensei em algumas combinações que devem existir por aí e que, de alguma maneira, devem causar estranhamento.Se de todas as placas fosse dono, as distribuiria com alguns critérios: prefixo RIR para o de bem com a vida, DAR para o filantropo, OLA para o simpático, OVO para o granjeiro ou recém-aprovado em vestibular, GOL para a copa, bom, vamos esquecer dessa. OLE para torcida, CAM especial para nós atleticanos, FLA para rubro-negro, FLU para pó de arroz. MAR, CEU, LUA para poetas e apaixonados, CHE para gaúchos, UAI para mineiros, FEU para os amargos, REU para os acusados. FIM para o pessimista. Tanta coisa importante para se preocupar e me vem ficar grilado com prefixo de placa de carro?
Estranho é que, ao se preocupar com letras onomatopéicas tipo POW, SOC, POF, BUA esquecem o principal: a numerologia. E, aí, meu caro, é que o bicho pega. Que tal um carro com a numeração 6666, besta e meia. Segundo o site “Mundo estranho” o número 17 é agourento na Itália. Nos algarismos romanos, ele é escrito como XVII. Quando as letras são embaralhadas, formam a palavra VIXI, que, em latim, quer dizer “minha vida acabou”. O medo é tanto que o carro de modelo R17, da Renault, é vendido lá como R177. Quer uma placa 1717? A combinação 4233 significa assassinato para os egípcios. Tenebroso.
Nós, inseguros humanos, sempre nos preocupamos em dar significado a tudo, talvez para suprir as incertezas do que nos aguardam. Sustos do dia a dia. Devemos, sim, é tomar muito cuidado com os exageros advindos da superstição, da intolerância dos preconceituosos, pois com quantidade de informação a ocupar quase todo o ar que respiramos, podemos despencar em outra idade das trevas, inquisições podem estar aí se anunciando e “bruxas” perto de serem novamente lançadas às fogueiras, pelo simples fato de quererem ser o que são. Um perigo.
E cá para nós, essa história de mensagens subliminares é conversa para BOI dormir. No mais, quer saber, fique em PAZ com suas placas, são apenas letras e números. E, lembre-se, MEU: quem afoba, come CRU.




Publicado Jornal Correio em 14/09/2014






domingo, setembro 7

Jornal


Monstera saborosa 
foto: William H Stutz

Relendo deliciosa coluna de Ivan Santos de vinte e nove de julho bem cedo. Sou dado a guardar leituras que me agradam, volta e meia retorno a elas. Cada leitura parece diferente.
Do nada um “plaft”. Conhecedor da origem do barulho me levanto manso busco caminho da porta.
Jornaleiro madrugador esse. Da chegada do jornal só escuto o tombo dele aterrissando em minha varanda, imagino o aranzé, milhões de letrinhas se espalhando pelo piso, confusão generalizada para, às pressas voltarem ao lugar e remontarem palavras, talvez seja por isso que quando em vez encontramos letras trocadas, nada a ver com revisão, não deu foi tempo de chegar ao lugar certo. Fotos às vezes saem em locais errados, deve ter sido o balanço.
Posso usar como despertador nosso entregador de jornal, mas se assim fizesse chegaria cedo demais ao trabalho.

Saio cedinho às vezes dia abre bocejo multicolorido bem a leste quando pego rumo, o dia ainda com preguiça de amanhecer, mas junto ao portão, lá está meu exemplar do CORREIO.

Quando em vez me permito sono mais profundo, sábados, domingos, feriados fico mais um tempinho deitado, mas logo e, como relógio suíço me vem o aquele “plaft” do jornal atirado com precisão de mira laser e o arrancar da moto do entregador de notícias.
Durante a semana, ou estou no banho, ou longe no quintal a conferir orvalho a escorrer em imbés de largas folhas, às vezes trocando água do bebedouro dos passarinhos que já se acostumaram com essa fonte de água e saem de longe para saciar sede de garganta seca de fumaça de carro e queimadas. Ninguém vejo.

Por falar em imbé, ano passado ganhei de amigo de longa data, Zé Mesquita uma muda de Monstera saborosa a folha é de tamanho e aspecto jurássico e ainda dá fruto que, segundo meu querido Zé – Doutor de olhos – médico competente que com sabedoria cuida das vistas para que as pessoas não percam a beleza da vida e possam não apenas ver, mas enxergar.
Era a fruta preferida da princesa Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, ufa! Isso não é um nome, é escalação de time de vôlei com reserva e tudo. Esta linda planta também é fonte de orvalho a matar sede de joaninhas e pequenos passarinhos.

Recolho jornal no alpendre. Já percebeu que jornal recebido em casa também é fantástico indicador meteorológico? Se vier com saquinho de plástico, a chance de chover é imensa, se vem só com gominha amarela é sol certo.

Mas voltando à coluna de Ivan de “Campanha eleitoral morna”. Por uma coincidência logo hoje, mais de mês depois da publicação, me deparo em esquina, monte de moças bonitas, de pernas de fora apesar do frio matinal a abanar bandeiras de candidato. Sempre fico com um aperto na garganta quando vejo cenas como esta, repetidas de dois em dois anos. O que será que passa na cabeça das meninas? Quanto vale tamanha exposição pública?

Quanto ao vizinho de bairro de Ivan que disse que só vota em quem criar a figura de “Mamãe Noel”. Acrescento. Tem também que corrigir uma aberração criando a “coelhinha da páscoa”, afinal onde nesse ou em outro mundo que coelho macho bota ovo?


Publicado Jornal Correio em 7 de Setembro de 2014








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domingo, agosto 31

Do tempo



Era dado a conferir tempo quase todo dia antes de sair de casa. Os motivos desta mania deviam-se ao meu trabalho e de minha equipe, aliás, a melhor e mais comprometida turma que já conheci e com  qual trabalhei durante uma vida. Usando palavras minhas, de domingo passado, posso, sem medo de errar, chamar “meu” pessoal de “cuidadores públicos”, tamanho o envolvimento da turma com o fazer.

Cada Ordem de Serviço torna-se missão e não medem esforços para resolvê-la. Aqueles que não aguentam o pique não ficam. Isto é normal. Cada um, cada um. Ninguém é obrigado a dar certo com determinado fazer. Trabalhar em equipe é um desafio diário. Em cada cabeça um pensar, uma formação, um jeito de assim ser, um time de futebol a torcer. Desavenças naturalmente surgem, mas cabe a nós, grupo, resolver qualquer pendência por menor que seja, o mais rápido possível. Senão, se agiganta, vira dragão a expelir labaredas e, aí, só Jorge Guerreiro, de quem sou devoto incondicional, para resolver.

Puxando da hagiografia, convém lembrar que Santo Jorge foi soldado romano no exército do imperador Diocleciano. Para muitos de nós brasileiros, e aí me incluo, criados à luz do sincretismo religioso, São Jorge também é poderoso Orixá: Ogum senhor dos metais, deus da guerra, da agricultura e da tecnologia. Como ele, nós também vivemos do improviso, pois muitos dos equipamentos que carecemos usar ou não foram inventados ainda ou são de difícil aquisição.

Mais uma vez, nosso pessoal mostra criatividade ímpar: aparadores de redes para captura de morcegos, abrigos, lonas para proteção de chuva e frio da mata e caixas organizadoras, se transformam em confortáveis recipientes para transporte de serpentes. Há também os terráreos de escorpiões antifuga e mil outras coisas que, ao longo dos anos, tivemos de inventar para que o cuidar das solicitações da população fossem atendidos e nós tivéssemos o máximo de proteção individual.

Felizes, loucos somos. Um bando de Melquieades e de José Arcádio Buendía da surreal Macondo de Garcia Marquez, vivendo bem aqui em nossa Uberlândia. Criando ferramentas e instrumentos de trabalho, recolhendo medos, desmistificando crenças enraizadas sobre vida de nossos bichos.

Ia falar do conferir tempo todo dia, tomei outro rumo. Céu de brigadeiro se abriu e me conduziu em voo pássaro, contrariando a Lei de Bernoulli. Pensamentos não seguem leis da física. São regidos por pura poesia e pirotecnia das emoções. Da previsão de tempo, falo depois, antes de trovejo, prometo.

Em caso de mal-olhado ou emanação de ódio dirigida à minha pessoa ou a meu grupo de trabalho depois de tudo aqui declarado, só me resta reza de proteção: “Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem, e, nem em pensamento, eles possam ter para me fazerem o mal. Facas e lanças quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem”. Salve Jorge!







Publicado Jornal Correio  31 de Agosto de 2014








terça-feira, agosto 26

Atender ou cuidar?



Podem parecer sinônimos, longe disto são. Vamos à didática. Um é verbo intransitivo, outro transitivo. Na gramática de nossa pátria língua, verbo é aquela palavrinha que designa, indica ação, situação ou mudança de estado. Esta definição, por si só, separa bem as duas palavras. Atender é prestar atenção, ter em consideração, zelar de alguma coisa.

Cuidar é bem maior. Vai além. É imaginar, supor, pensar, meditar sobre, ter cuidado, demonstrar interesse.
Bom, serve também para os idólatras quando usado como verbo pronominal.

É de bom alvitre esclarecer que não fui eu que escolhi tais significados. Estão em qualquer bom dicionário. Aquela coleção organizada, em ordem alfabética, de palavras ou outras unidades lexicais que muitos detestam consultar.
Mas deixemos essas chatices linguísticas de lado e vamos ao ponto.

Imagine um filhote de passarinho caído de ninho aquecido em suas mãos protetoras. Você está atendendo a esse serzinho trêmulo em pânico abandono ou está cuidando dele? O atender chega a ser algo frio, se não com ponta de desprezo. Às vezes, uma penosa e irritante obrigação. O cuidar alberga, é holístico, transfere bem-estar e segurança.
Começo para nos definir, servidores públicos da saúde. Nobre função quando aprendemos ou já nasce conosco o prazer pelo cuidar.

Um simples telefonema, trazendo uma angústia, um problema, deve ser cuidado com o carinho que bem merece. Acontece toda hora por aqui. Um morcego, um escorpião ou uma cobra, quanto pânico podem trazer para quem está do outro lado da linha em busca de cuidado, de ajuda em sua aflição. O que para nós é rotina, para quem se depara com os bichos é confronto.

Vamos mais longe. Você gostaria de ser atendido por um médico ou cuidado por este profissional?
Eu escolho o médico cuidador. Aquele que te ampara por completo, que te olha nos olhos e que verdadeiramente te escuta. Arrisco a dizer que, grande parte da cura (ou não) começa na consulta. Se começa por um estranho avaliando outro, não pode dar muito certo. Carece afeto no sentindo amplo da palavra. Aqui, estendo a todos nós servidores públicos, que temos por ofício cuidar das aflições das gentes.

Se dependesse de mim, seríamos chamados de Cuidadores Públicos e com muita honra. Citei médicos, mas falo de todo profissional ligado ao serviço público ou não. Quando aprendemos a cuidar nos tornamos realizados, felizes e completos.

Aquele bom dia sereno seguido do nome do servidor/cuidador que fala ao telefone é o começo de uma relação que pode ser agradável ou um terror. As portas do serviço público são os primeiros contatos. Um rugido mal-humorado coloca o munícipe na defesa. Fecho com palavras do dr. Antonio Carlos Lopes, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica: “A medicina é humana em sua essência, feita de humanos para seres humanos. Não é possível mais assistir à sua fragmentação em duas medicinas – uma para os pobres e outra para os ricos. Dar e receber assistência médica de qualidade e universal, mais do que um anseio, é um direito de todos.”

A vida deveria nos preparar sempre para cuidar. Quanto a atender? Deixa que a porta eu abro.






Publicado no Jornal Correio em 24 de Agosto de 2010

domingo, agosto 17

Sessenta



Raça humana, as gentes do mundo inteiro, desde sempre, por motivos muitos, teve a mania de exaltar ou temer extremamente datas redondas. “Portanto, uma referência: seja para comemorar, enaltecer ou refletir”. Solta, entre aspas, esta frase não é minha.

Aparece desse jeitinho em dezenas de textos, sem fonte, portanto, perdido fico e sem identificação segue. Uma infelicidade no mundo da web em que as autorias se perdem em infinito espaço binário, sem fronteiras, sem dono, sem ética ou, muitas vezes, sem pudor. Eu mesmo já tive vários textos plagiados na íntegra por certo cidadão de mídia sem o menor escrúpulo, mas são águas passadas. De raiva a dó, pena foi pulo ligeiro. O Ministério da Saúde adverte: raiva, mágoa e rancor matam.

Algumas destas esféricas datas recentes: 1910 – Revolução Mexicana; 1930 – Começa a Revolução de 1930 (a vá!); 1940 – É aberto o campo de concentração Auschwitz na Polônia, pelos nazistas; 1950 – Maracanã é inaugurado; 1960 – Inauguração de Brasília.

Em 2000, o mundo ia acabar. Virou nada e aqui estamos. Os “milenaristas” se deram mal. Ah, em 1954, nasci. Mas “peraí”, 54 não é data redonda! Correto, mas a idade que mês que vem faço é: Sessenta anos. Pois sobre isto é que quero falar com você.

Ô datazinha fatídica essa para todos que lá chegam! Pense comigo. Até aos 59 anos, 364 dias, 23 horas e 59 minutos somos pessoas normais. Avance um minutinho. Pronto, viramos terceira idade. Outro dia no trânsito paramos atrás de ônibus. Distraído levantei os olhos, enorme cartaz com grisalhos sorridentes empunhando carteira sob frase, algo assim: Você idoso, tem mais de 60? Junte-se a nós. Carteirinhas ameaçadoras em riste a me convocar: “I want you!” A palavra idoso e os 60 pareciam piscar em neon festivo.

Idosos, passamos a ter vaga especial de estacionamento, filas exclusivas, a pagar meia em inscrições de corridas, concursos, cinema, teatro e afins. Há também descontos na compra de remédios e um monte de coisas. Para uns, são merecidas conquistas em país tão desigual, para outros tantos, pode ser reforço ou retrato de uma realidade falseada. De uma hora para outra, o cabra perde metade de estímulos para adiante seguir e pior, como diz meu compadre Geninho, pode perder metade de sua autoestima.

Deixo claro que me sinto muito bem. Idades e seus encantos próprios. Ouvi de um globetrotter, quando perguntado sobre hora de parar: “When the head says go, and the legs say no!” (Quando a cabeça diz vai, as pernas, dizem não). Em português, não rima e fica meio sem graça, mas é sério. Minha cabeça sempre diz GO! As pernas ainda não gritaram NO!

Comemoremos, pois, cada data redonda de nossa vida. Cada etapa com seu sabor característico, perfume e cor, assim como o antigo “Dulcora”.

“Drops dulcora /A delícia que o paladar… adora/ Quadradinhos embrulhadinhos um a um/ Você quer um? (…)”.
Lembra? Não? Então sua data redonda é bem inferior à minha. Aproveite a alegria de viver sem moderação (alegria desmedida, que fique bem entendido).






Publicado Jornal Correio em 17 de agosto 2014



Sessenta

domingo, agosto 10

Perdas - parte II


Perdeu o fio a meada? Não se preocupe, a Parte 1 está no jornal de domingo passado, passa lá via web ou clique Perdas parte 1

.A criação de uma nova edição do “Livro da Lei”. Desta vez universal, voltado muito mais para a beleza, para a paz e alegria de viver. Um livro que poderia ser facilmente compreendido por todos; livre dos medos, dos pecados inventados, dos preconceitos que as errôneas análises levam multidões a eterna confusão e atrito. Menos medo e pecado, mais alegria, confraternização e consequentemente, mais paz e harmonia entre os povos.


Seria também impossível comercializar o seu conteúdo e, assim, só haveria a religião do amor. Ninguém ousaria falar em nome de Deus com ameaças tipo chamas eternas a queimar que nem churrasquinho do “Titõe”, pois as suas palavras seriam sempre serenas e bem-humoradas.
Humanidade, alforriada da ameaça de arder no caldeirão do coisa ruim, sem o terror das ameaças de mercadores da palavra divina, respiraria aliviada.  Nada de comprar terrenos no céu em troca de algo, corretagem imobiliária do paraíso não teria mais vez. Nada de dízimos ou castigos. Se este foi o plano da Diretoria celestial, acertaram em cheio nos levando o que há de melhor no trato com as ideias e emoções.

Mais humor, compaixão, menos cobrança, menos pecados. Um livro que realmente libertasse os homens de amarras invisíveis, mas causadoras de sofrimento e tristeza. Cada um saberia realmente separar o certo do errado. Dogma único: Não farás mal algum a outro ser vivente.
Pessoas queridas que, por motivo honrado, foram chamados à luta, escreverão livro mais humanizado, livre para todo o sempre de toscas interpretações e imitações. A eles faço um pedido: não se esqueçam, por favor, de disponibilizá-lo o mais breve possível na web para download. Prevendo os bilhões de acessos, sugiro humildemente que utilizem o sistema Torrent. Boas sementes germinarão e o mundo será de fato um melhor lugar para se viver.

Mal penso em deitar a pena – caneta esferográfica vá lá, em susto recebo a notícia que o mágico escritor Ariano Suassuna acaba de seguir viagem depois de rápido adoecer. A pressa em repensar o mundo é tamanha ou a amiga Samira, quando nos diz que propositalmente “querem deixar a terra menos interessante”, pode estar coberta de razão.

Eu cá com testa franzida de espanto, roubo do poeta Vinicius de Moraes, que lá já está a espera dos amigos com seu indefectível copo na mão, verso de “Cotidiano 2”: “Às vezes quero crer mas não consigo / É tudo uma total insensatez /Aí pergunto a Deus: escute, amigo / Se foi pra desfazer, por que é que fez?”

Já nosso Drummond, pernas cruzadas em cantinho de céu, ao lado de seu anjo torto, tímido sorriso mineiro nos lábios, cotovelo apoiado na perna deve estar a balançar o dedo indicador em suave movimento: Bem-vindos, hora de ser gauche (nessa) vida.







Publicado Jornal Correio em 9 de agosto de 2014


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domingo, agosto 3

Perdas - Parte 1



Amiga paulista, Samira, com olhar cinzento de tristeza, soltou uma frase que me levou a distante pensar: “Continua o movimento de deixar a terra menos interessante”. Ela se referia às partidas, quase que na mesma carruagem, de Rubem Alves e João Ubaldo Ribeiro. Somo aí a recente viagem do mestre Clarimundo Campos, proprietário eterno deste espaço que, despretensiosamente, como inquilino, ando a ocupar.

Se nosso Clarimundo não galgou merecida expressão nacional e mundial, foi porque assim não quis. Preferiu a quietude a se submeter, quem sabe até, ao peso de um fardão.

É verdade e estranho que, de uma pancada só, nos foram tirados três grandes nomes das letras. Mas pensando bem, vamos juntos raciocinar sobre os acontecidos. Alguma coisa deve estar ocorrendo lá em cima. Aplico o termo “em cima”, pois é de corrente uso. Os bons sobem, os maus descem. Mas é tudo uma questão de crença e posição geográfica, pois se assim fosse mesmo estaríamos cheios aqui por nossas bandas de japoneses maus e eles lotados de gente nossa e ruim.

Talvez, por determinação da Diretoria, tenha sido instituído que fossem chamados os melhores escritores deste plano para tarefa divinamente hercúlea. Se pesquisarmos, veremos que, além do nosso trio imortal, outros laureados com Nobel de literatura, como o sem adjetivos de primor Gabriel Garcia Marquez e tantos outros mundo afora, de alguns meses para cá, andam fazendo mala e partindo – Garcia Marquez nos deixou outro dia, em abril deste ano. Quantos de outros países se foram e não sabemos? Coincidência? Não acredito nisso.

A Diretoria já usou desse expediente outras vezes. Um recente se deu quando os anjos e querubins, tomados de enfado, cantavam aos bocejos as musicas celestiais. Convocada reunião extraordinária, resultou na ida de Amy Winehouse para dar um upgrade melódico na turma dos pequenos. Michael Jackson também subiu, não deu certo. Os ággelos em toda sua pureza tinham medo dele.

Para mim, eles foram convocados para refazer mandamentos, desta vez, não em tábuas, mas na mais pura das pedras preciosas, lapidada em joia com esmero pelo talentoso Hefesto, marido traído de Afrodite. Mas deixemos os deuses de outra época de lado.

Além de atualizar os mandamentos que até os dias de hoje continuam em versão beta e muito pouco usados pela humanidade, pode ser que outra tarefa seja conferida ao grupo a dedo escolhido.

(Continua domingo que vem)







Perdas - Parte I






Publicado Jornal Correio em 3 de agosto de 2014



domingo, julho 27

Fábulas


Clique na imagem que ela aumenta




Outro dia, aqui mesmo no nosso CORREIO, falei sobre a absurda repressão sofrida pelas versões originais das histórias infantis. O tal “politicamente correto” levado ao extremo produz barbaridades. Comecei com o “Atirei o pau no gato” e por ai afora.
No amanhecer hoje, um estranho fenômeno aconteceu na porta de casa. Tenho uma grande quantidade de árvores frondosas no jardim da frente, grandes mesmo, todas plantadas por Bia e eu. Um jambolão gigante tornou-se morada de centenas de passarinhos, self-service de outros tantos durante a época de frutos. Uma bela colônia de morcegos por lá mora, itinerante. Ora se instala, ora desaparece. Um ipê rosa se emaranha no jambolão em namoro secreto.

Duas cariotas, quase a tocar o céu, apóiam ninho de gavião carcará, que, aliás, anda muito feliz com as queimadas urbanas, acredito que apenas eles estejam em festa, pois é durante e depois delas que mais gostam de caçar.

Mais ipês, sete-de-copas, mama-cadela vigorosa, e outras tantas, completam mini mata.
Ao sair para o trabalho notamos um aranzé de folhas espalhadas, mais do que de costume e, em área bem delimitada, apenas folhas de ipê. Parecia que bando de bugios tinha passado só por aquela árvore e chacoalhado com força os galhos. Talvez na tentativa de derrubar algum ninho ou fazer voar passarinho ainda tonto de sono. Mas como chegaram ali sem passar por outras árvores, rastro no chão não havia. Fica o mistério que me proponho a desvendar em uma ou duas noites de campana. Se for bicho descubro. Depois conto.

Olhando aquelas folhas grama afora me lembrei da musiquinha infantil “O cravo Brigou com a Rosa.” Se fosse cair na armadilha do policiamento ideológico que sataniza tudo e todos, imagino como seriam as notícias sobre o enredo da cantiga.

Nos noticiários: Briga violenta entre Cravo e Rosa acaba em delegacia. Cravo teve ferimentos leves, foi atendido na UAI e liberado. Já Rosa, despedaçada, encontra-se em observação no Hospital de Clínicas, sem previsão de alta. Cravo foi indiciado com base na lei Maria da Penha, autuado, responderá em liberdade.

Manchete do dia seguinte: Margaridas, Açucenas e Camélias ainda em luto por irmã que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu, organizam passeata em todo país contra violência. Redes sociais bombando. Hashtag com sua centilha da semana: #perfumesimespinhosnao. Não criamos monstros contando histórias, eles são formados a exemplos. Como os bugios fantasmas de meu jardim, plantamos idéias, conceitos e preconceitos em nossas crianças conforme agimos. Cantando? Jamais.










Fábulas






Publicado Jornal Correio em 27 de julho de 2014

domingo, julho 20

Humilhação




Mais de semana se passou depois da estarrecedora derrota da seleção brasileira por incríveis sete a um. Confesso que naquela quarta estava otimista em relação ao nosso time. Arrisquei palpite de dois a zero para nós. Eu, como milhões de brasileiros, estava contaminado pela propaganda maciça a favor de nosso futebol hexa, certo em cores e brilhos Brasil afora. Acho que a seleção que compramos não era a que nos foi vendida 24 horas por dia, de forma ufanista e ostensiva. Compramos o produto errado. Pensei em reclamar ao Procon e ao Conselho Nacional de Autorregulamentação (Conar). Propaganda enganosa da brava. Quero meu sonho de volta e em dobro, pois assim reza a lei.

Não sou de morrer por futebol. Fico mais tenso em jogo de meu Galo Mineiro do que em Copa do Mundo, mas confesso que, naquele dia, sentia algo diferente no ar. Vibração positiva. Estava totalmente tomado pelo canto da sereia, regozijo excessivo, lavagem cerebral. Íamos ganhar.

Bola rolando, me dei conta do drama anunciado. Quatro a zero para os teutônicos. Tupiniquins mais fanáticos, em momentos assim, roem unhas demais, fumam demais ou bebem em esbórnia depressiva. Há aqueles mais apaixonados que até enfartam demais. Eu faço diferente. Quando estou alegre ou triste demais, aborrecido ou pasmo ao extremo, saio às ruas e corro. Começo em lenta caminhada e depois disparo. A distância não interessa, o importante é deixar o pensar livre. Assim fiz. Tênis velho no pé e rua. A cidade parecia paralisada, silêncio de catedral gótica, Notre-Dame do Cerrado, quietude nervosa de caverna profunda onde apenas ouvem-se sussurros de sonhos hibernados. Um cãozinho saiu de um matagal e me seguiu aflito, talvez acuado pelos foguetes ensurdecedores que antecederam o jogo. Corri à exaustão, quebrei.

Antes do jogo, crianças jogavam bola, uniformizadas em verde-e-amarelo, gritando alegres e inocentes a vitória. Imagino o rosto dos pequenos frente à televisão. Isso é aquilo? Pais baixando olhos envergonhados da mentira engolida e repassada às crias.

É, chegou a hora de contarmos para nossas crianças que Papai Noel e Coelho da Páscoa não existem. Mas, sinceramente? Acho que qualquer criança com mais de 4 anos já sabe disso. Jogou no Google.






Publicado em Jornal Correio em 20 de julho de 2014



Humilhação

domingo, julho 13

Papa Chico

Será que dou conta?





Meio de tarde cheirando à queimada. Não me acostumo nunca. Humanos vão queimar todo o mato roçado do mundo até explodir em tosse seca. Porém não é sobre fumaça que escrevo hoje.

Recebi telefonema que me fez tremer. Assim na lata, sem rodeios, convite para escrever no espaço em que mestre Clarimundo ficou por tantos anos. Na hora, me veio um lampejo: mal chegou lá no alto e já aprontou mais uma das suas. Sei que tem o dedo de Clarimundo nisso. Tenho plena convicção de que nada é por acaso. Vejamos: ele agrônomo, eu veterinário. Nós dois sempre falamos de observações do movimentar da vida.

Miramos onde poucos prestam atenção. Tenho aqui comigo que ele queria que o espaço ficasse com gente ligada a terra, às miudezas dos seres viventes que poucos olham. Passou uma empreitada sem nem pedir. Não sei se mereço ou se vou dar conta.

Nunca tal grandeza havia passado sequer em pensamento por minha cabeça. Escrevo por prazer e senso de liberdade. Escrevendo, ganho asas que, normalmente, não possuo. Só e, raramente, em sonhos, consigo alçar vôo alma humana adentro e visitar cantos que nunca foram abertos.

Clarimundo Campos é insubstituível. Jamais chegarei perto de seus escritos e de suas lições de vida. Peço, portanto, permissão por aqui estar. Se não agradar, me conte logo, pego minha tralha e sigo caminho. Contudo, se gostarem um pouquinho, saibam que tirarei leite de pedra para tentar ser boa companhia aos domingos.

Nunca escrevi com hora marcada e tem dia que travo. Vem o tal vazio de palavras. Quando isso acontece, encolho em canto mais longe de meu quintal e falo com formigas, corujas e gambás que teimam em morar na cidade. Muitas vezes, eles sopram uma história antiga ou algo que viram na cidade lá embaixo. Rabisco correndo para não esquecer.

Clarimundo de onde estiver me conte: por que eu? Tantos bons escritores bem perto. A responsabilidade de utilizar um espaço que foi, e continua sendo seu, por tantos anos, é grande. Prometo que vou tentar fazer de tudo para honrá-lo. Agora um pedido meu: quando tiver tempo me conte, daí, que escrevo daqui. Vamos tentar essa parceria em segredo. Desejem-me sorte. Não me vejam como intruso, sou apenas mais um contador de casos, um observador de gente, de bichos e do mundo.

Fecho meu primeiro dia com Manoel de Barros, pois tanto ele quanto o Sr. e Guimarães Rosa, ocupam espaço idêntico em meu pensar. “Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.”








Jornal Correio de 13 de Julho de 2014 -  Página B8 - Revista




Será que dou conta?


segunda-feira, julho 7

Reposição hormonal

Homens também precisam da reposição hormonal; veja dica de especialista

Os problemas de saúde que surgem com o passar dos anos, como a redução dos hormônios, não é exclusividade das mulheres. A popularmente conhecida “andropausa” – na verdade um termo incorreto faz analogia a menopausa – afeta os homens a partir dos 40 anos e é denominada Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) ou Hipogonadismo Senil. Os sintomas, segundo o urologista Luiz Mauro Coelho Nascimento, vão desde a diminuição do desejo sexual a piora da qualidade das ereções, e assim como nas mulheres, pode causar depressão, osteoporose , alteração de humor e insônia.

Para o médico, mesmo a queda dos hormônios masculinos sendo lenta e progressiva em relação às mulheres, o crescente aumento da expectativa de vida fará com que a “andropausa” chegue a todos os homens em idade mais ou menos avançada. “Nos últimos anos o interesse em estudos envolvendo o homem idoso aumentaram significativamente, trazendo uma relação muito forte entre hormônios masculinos e função sexual, osteoporose, depressão e qualidade de vida”, disse o especialista.

A redução da testosterona pode ainda estar associada a algumas doenças como obesidade, estresse, diabetes, Aids, alcoolismo e insuficiência renal, hepática e respiratória. Para o diagnóstico em pacientes com suspeita de hipogonadismo senil, recomenda-se procurar um especialista e fazer uma avaliação laboratorial, com a dosagem da testosterona biodisponível. “Se diagnostica a DAEM, poderá ser realizada a reposição hormonal. O tratamento é contra-indicado para pacientes com de câncer de próstata ou mama, obstrução urinária grave e apnéia do sono”, afirmou Luiz Mauro.


Fonte: Jornal Correio


domingo, julho 6

Heróis



Hora do almoço. Meio-dia em ponto. Garis param a varrição e buscam suas marmitas. No canteiro da avenida, sob a sombra generosa de belos oitis, em silêncio de templo budista, cabeças baixas, calados comem. Um faz o sinal da cruz ao amassar a quentinha vazia. Agradecimento sincero. Aos poucos vão, um a um, terminando a refeição. Talvez a primeira do dia após o café puro, solitário do madrugar.

Alguns se estendem à sombra, jogam o boné sobre os olhos em busca de cochilo reparador. Outros conversam baixinho. Disciplina. Dura pouco. Logo um começa a brincar com outra. São garis e garis. Ou seriam garis masculinos e garis femininos? Hoje, tudo tem que ser pontuado, risco do politicamente incorreto. Não mais sussurram. O volume da voz toma conta da rua e ouve-se de qualquer canto as provocações brincalhonas. Casam um com outro, “coretam” – concordo, esta palavra não existe, é inventada, faz parte de nosso vocabulário regional e, deliciosamente, expressa o que sonoriza. Um sinônimo? Gozação, troça, zombaria. Coretam uns aos outros em alegria infantil.

Passado um tempo aquele que parece ser o chefe da turma, bate palmas e grita: “Bora gente, vamos mexer o doce!”. A alegria com que voltam às suas vassouras e pás é contagiante. Quem não gostaria de ter um grupo assim, motivado, feliz no dia a dia de trabalho duro e, acredito, de remuneração nada convincente?
Penso em gente engravatada e triste. Pena que os garis são invisíveis. Passamos por eles como se fossem inanimados seres; postes, calçadas. Mal sabemos que aqueles possuem o MBA da vida. Certa feita foram humilhados ao vivo, na televisão, por um jornalista. Microfone estava aberto. Me nego até hoje a assisti-lo. O que ele falou com até certa raiva é que é uma vergonha!

A vida urbana seria impossível sem a presença deste batalhão de profissionais. Houve época em que o trabalho de varrição e coleta de lixo era atribuição direta do município.

Quando se ventilava algum movimento de greve ou paralisação no setor público, a grande preocupação dos mandatários de plantão era a adesão ou não da limpeza urbana.

E do outro lado, os sindicatos torciam e rezavam para que a moçada aderisse aos movimentos. Eram o fiel da balança. A população parecia não sentir a mínima falta do restante dos servidores. Mas do pessoal do lixo, a história era outra. Deu no que deu, terceirizaram o serviço para alegria de uns e desmobilização de outros.

Conheço por nome os que varrem minha rua. Os admiro. Não levam suas frustrações para a linha de frente, cuidam da maquiagem da cidade, reduzem consideravelmente o risco de doenças das gentes. Fazem-nos sentir orgulho de mostrar nossa cidade.

Uma grande pena que o trabalho destes heróis passe despercebido da maioria de nós.

Rua limpa hoje não demora muito a receber outra carga da formação do caráter e educação de muita gente fina. Não demoram os papéis, as pontas de cigarros, garrafas e coisas que até Deus duvida, serão novamente lançados despudoradamente em nossas vias. Como formiguinhas, tão logo amanhece, lá estão eles e elas. Novamente, a rua se enche de sons de vassouras, de risadas e “coretos”. As vassouras não param nunca. Com tanta sujeira, varre-se também a falta de educação, a civilidade, a falta de vergonha na cara daqueles que, como monarcas, atiram seus restos ao vento.






Publicado Jornal Correio em  6 de Julho de 2014