domingo, agosto 31

Do tempo



Era dado a conferir tempo quase todo dia antes de sair de casa. Os motivos desta mania deviam-se ao meu trabalho e de minha equipe, aliás, a melhor e mais comprometida turma que já conheci e com  qual trabalhei durante uma vida. Usando palavras minhas, de domingo passado, posso, sem medo de errar, chamar “meu” pessoal de “cuidadores públicos”, tamanho o envolvimento da turma com o fazer.

Cada Ordem de Serviço torna-se missão e não medem esforços para resolvê-la. Aqueles que não aguentam o pique não ficam. Isto é normal. Cada um, cada um. Ninguém é obrigado a dar certo com determinado fazer. Trabalhar em equipe é um desafio diário. Em cada cabeça um pensar, uma formação, um jeito de assim ser, um time de futebol a torcer. Desavenças naturalmente surgem, mas cabe a nós, grupo, resolver qualquer pendência por menor que seja, o mais rápido possível. Senão, se agiganta, vira dragão a expelir labaredas e, aí, só Jorge Guerreiro, de quem sou devoto incondicional, para resolver.

Puxando da hagiografia, convém lembrar que Santo Jorge foi soldado romano no exército do imperador Diocleciano. Para muitos de nós brasileiros, e aí me incluo, criados à luz do sincretismo religioso, São Jorge também é poderoso Orixá: Ogum senhor dos metais, deus da guerra, da agricultura e da tecnologia. Como ele, nós também vivemos do improviso, pois muitos dos equipamentos que carecemos usar ou não foram inventados ainda ou são de difícil aquisição.

Mais uma vez, nosso pessoal mostra criatividade ímpar: aparadores de redes para captura de morcegos, abrigos, lonas para proteção de chuva e frio da mata e caixas organizadoras, se transformam em confortáveis recipientes para transporte de serpentes. Há também os terráreos de escorpiões antifuga e mil outras coisas que, ao longo dos anos, tivemos de inventar para que o cuidar das solicitações da população fossem atendidos e nós tivéssemos o máximo de proteção individual.

Felizes, loucos somos. Um bando de Melquieades e de José Arcádio Buendía da surreal Macondo de Garcia Marquez, vivendo bem aqui em nossa Uberlândia. Criando ferramentas e instrumentos de trabalho, recolhendo medos, desmistificando crenças enraizadas sobre vida de nossos bichos.

Ia falar do conferir tempo todo dia, tomei outro rumo. Céu de brigadeiro se abriu e me conduziu em voo pássaro, contrariando a Lei de Bernoulli. Pensamentos não seguem leis da física. São regidos por pura poesia e pirotecnia das emoções. Da previsão de tempo, falo depois, antes de trovejo, prometo.

Em caso de mal-olhado ou emanação de ódio dirigida à minha pessoa ou a meu grupo de trabalho depois de tudo aqui declarado, só me resta reza de proteção: “Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge, para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me enxerguem, e, nem em pensamento, eles possam ter para me fazerem o mal. Facas e lanças quebrarão sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem”. Salve Jorge!







Publicado Jornal Correio  31 de Agosto de 2014








terça-feira, agosto 26

Atender ou cuidar?



Podem parecer sinônimos, longe disto são. Vamos à didática. Um é verbo intransitivo, outro transitivo. Na gramática de nossa pátria língua, verbo é aquela palavrinha que designa, indica ação, situação ou mudança de estado. Esta definição, por si só, separa bem as duas palavras. Atender é prestar atenção, ter em consideração, zelar de alguma coisa.

Cuidar é bem maior. Vai além. É imaginar, supor, pensar, meditar sobre, ter cuidado, demonstrar interesse.
Bom, serve também para os idólatras quando usado como verbo pronominal.

É de bom alvitre esclarecer que não fui eu que escolhi tais significados. Estão em qualquer bom dicionário. Aquela coleção organizada, em ordem alfabética, de palavras ou outras unidades lexicais que muitos detestam consultar.
Mas deixemos essas chatices linguísticas de lado e vamos ao ponto.

Imagine um filhote de passarinho caído de ninho aquecido em suas mãos protetoras. Você está atendendo a esse serzinho trêmulo em pânico abandono ou está cuidando dele? O atender chega a ser algo frio, se não com ponta de desprezo. Às vezes, uma penosa e irritante obrigação. O cuidar alberga, é holístico, transfere bem-estar e segurança.
Começo para nos definir, servidores públicos da saúde. Nobre função quando aprendemos ou já nasce conosco o prazer pelo cuidar.

Um simples telefonema, trazendo uma angústia, um problema, deve ser cuidado com o carinho que bem merece. Acontece toda hora por aqui. Um morcego, um escorpião ou uma cobra, quanto pânico podem trazer para quem está do outro lado da linha em busca de cuidado, de ajuda em sua aflição. O que para nós é rotina, para quem se depara com os bichos é confronto.

Vamos mais longe. Você gostaria de ser atendido por um médico ou cuidado por este profissional?
Eu escolho o médico cuidador. Aquele que te ampara por completo, que te olha nos olhos e que verdadeiramente te escuta. Arrisco a dizer que, grande parte da cura (ou não) começa na consulta. Se começa por um estranho avaliando outro, não pode dar muito certo. Carece afeto no sentindo amplo da palavra. Aqui, estendo a todos nós servidores públicos, que temos por ofício cuidar das aflições das gentes.

Se dependesse de mim, seríamos chamados de Cuidadores Públicos e com muita honra. Citei médicos, mas falo de todo profissional ligado ao serviço público ou não. Quando aprendemos a cuidar nos tornamos realizados, felizes e completos.

Aquele bom dia sereno seguido do nome do servidor/cuidador que fala ao telefone é o começo de uma relação que pode ser agradável ou um terror. As portas do serviço público são os primeiros contatos. Um rugido mal-humorado coloca o munícipe na defesa. Fecho com palavras do dr. Antonio Carlos Lopes, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica: “A medicina é humana em sua essência, feita de humanos para seres humanos. Não é possível mais assistir à sua fragmentação em duas medicinas – uma para os pobres e outra para os ricos. Dar e receber assistência médica de qualidade e universal, mais do que um anseio, é um direito de todos.”

A vida deveria nos preparar sempre para cuidar. Quanto a atender? Deixa que a porta eu abro.






Publicado no Jornal Correio em 24 de Agosto de 2010

domingo, agosto 17

Sessenta



Raça humana, as gentes do mundo inteiro, desde sempre, por motivos muitos, teve a mania de exaltar ou temer extremamente datas redondas. “Portanto, uma referência: seja para comemorar, enaltecer ou refletir”. Solta, entre aspas, esta frase não é minha.

Aparece desse jeitinho em dezenas de textos, sem fonte, portanto, perdido fico e sem identificação segue. Uma infelicidade no mundo da web em que as autorias se perdem em infinito espaço binário, sem fronteiras, sem dono, sem ética ou, muitas vezes, sem pudor. Eu mesmo já tive vários textos plagiados na íntegra por certo cidadão de mídia sem o menor escrúpulo, mas são águas passadas. De raiva a dó, pena foi pulo ligeiro. O Ministério da Saúde adverte: raiva, mágoa e rancor matam.

Algumas destas esféricas datas recentes: 1910 – Revolução Mexicana; 1930 – Começa a Revolução de 1930 (a vá!); 1940 – É aberto o campo de concentração Auschwitz na Polônia, pelos nazistas; 1950 – Maracanã é inaugurado; 1960 – Inauguração de Brasília.

Em 2000, o mundo ia acabar. Virou nada e aqui estamos. Os “milenaristas” se deram mal. Ah, em 1954, nasci. Mas “peraí”, 54 não é data redonda! Correto, mas a idade que mês que vem faço é: Sessenta anos. Pois sobre isto é que quero falar com você.

Ô datazinha fatídica essa para todos que lá chegam! Pense comigo. Até aos 59 anos, 364 dias, 23 horas e 59 minutos somos pessoas normais. Avance um minutinho. Pronto, viramos terceira idade. Outro dia no trânsito paramos atrás de ônibus. Distraído levantei os olhos, enorme cartaz com grisalhos sorridentes empunhando carteira sob frase, algo assim: Você idoso, tem mais de 60? Junte-se a nós. Carteirinhas ameaçadoras em riste a me convocar: “I want you!” A palavra idoso e os 60 pareciam piscar em neon festivo.

Idosos, passamos a ter vaga especial de estacionamento, filas exclusivas, a pagar meia em inscrições de corridas, concursos, cinema, teatro e afins. Há também descontos na compra de remédios e um monte de coisas. Para uns, são merecidas conquistas em país tão desigual, para outros tantos, pode ser reforço ou retrato de uma realidade falseada. De uma hora para outra, o cabra perde metade de estímulos para adiante seguir e pior, como diz meu compadre Geninho, pode perder metade de sua autoestima.

Deixo claro que me sinto muito bem. Idades e seus encantos próprios. Ouvi de um globetrotter, quando perguntado sobre hora de parar: “When the head says go, and the legs say no!” (Quando a cabeça diz vai, as pernas, dizem não). Em português, não rima e fica meio sem graça, mas é sério. Minha cabeça sempre diz GO! As pernas ainda não gritaram NO!

Comemoremos, pois, cada data redonda de nossa vida. Cada etapa com seu sabor característico, perfume e cor, assim como o antigo “Dulcora”.

“Drops dulcora /A delícia que o paladar… adora/ Quadradinhos embrulhadinhos um a um/ Você quer um? (…)”.
Lembra? Não? Então sua data redonda é bem inferior à minha. Aproveite a alegria de viver sem moderação (alegria desmedida, que fique bem entendido).






Publicado Jornal Correio em 17 de agosto 2014



Sessenta

domingo, agosto 10

Perdas - parte II


Perdeu o fio a meada? Não se preocupe, a Parte 1 está no jornal de domingo passado, passa lá via web ou clique Perdas parte 1

.A criação de uma nova edição do “Livro da Lei”. Desta vez universal, voltado muito mais para a beleza, para a paz e alegria de viver. Um livro que poderia ser facilmente compreendido por todos; livre dos medos, dos pecados inventados, dos preconceitos que as errôneas análises levam multidões a eterna confusão e atrito. Menos medo e pecado, mais alegria, confraternização e consequentemente, mais paz e harmonia entre os povos.


Seria também impossível comercializar o seu conteúdo e, assim, só haveria a religião do amor. Ninguém ousaria falar em nome de Deus com ameaças tipo chamas eternas a queimar que nem churrasquinho do “Titõe”, pois as suas palavras seriam sempre serenas e bem-humoradas.
Humanidade, alforriada da ameaça de arder no caldeirão do coisa ruim, sem o terror das ameaças de mercadores da palavra divina, respiraria aliviada.  Nada de comprar terrenos no céu em troca de algo, corretagem imobiliária do paraíso não teria mais vez. Nada de dízimos ou castigos. Se este foi o plano da Diretoria celestial, acertaram em cheio nos levando o que há de melhor no trato com as ideias e emoções.

Mais humor, compaixão, menos cobrança, menos pecados. Um livro que realmente libertasse os homens de amarras invisíveis, mas causadoras de sofrimento e tristeza. Cada um saberia realmente separar o certo do errado. Dogma único: Não farás mal algum a outro ser vivente.
Pessoas queridas que, por motivo honrado, foram chamados à luta, escreverão livro mais humanizado, livre para todo o sempre de toscas interpretações e imitações. A eles faço um pedido: não se esqueçam, por favor, de disponibilizá-lo o mais breve possível na web para download. Prevendo os bilhões de acessos, sugiro humildemente que utilizem o sistema Torrent. Boas sementes germinarão e o mundo será de fato um melhor lugar para se viver.

Mal penso em deitar a pena – caneta esferográfica vá lá, em susto recebo a notícia que o mágico escritor Ariano Suassuna acaba de seguir viagem depois de rápido adoecer. A pressa em repensar o mundo é tamanha ou a amiga Samira, quando nos diz que propositalmente “querem deixar a terra menos interessante”, pode estar coberta de razão.

Eu cá com testa franzida de espanto, roubo do poeta Vinicius de Moraes, que lá já está a espera dos amigos com seu indefectível copo na mão, verso de “Cotidiano 2”: “Às vezes quero crer mas não consigo / É tudo uma total insensatez /Aí pergunto a Deus: escute, amigo / Se foi pra desfazer, por que é que fez?”

Já nosso Drummond, pernas cruzadas em cantinho de céu, ao lado de seu anjo torto, tímido sorriso mineiro nos lábios, cotovelo apoiado na perna deve estar a balançar o dedo indicador em suave movimento: Bem-vindos, hora de ser gauche (nessa) vida.







Publicado Jornal Correio em 9 de agosto de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhazdhbGNLanJyNEE/edit?usp=sharing








domingo, agosto 3

Perdas - Parte 1



Amiga paulista, Samira, com olhar cinzento de tristeza, soltou uma frase que me levou a distante pensar: “Continua o movimento de deixar a terra menos interessante”. Ela se referia às partidas, quase que na mesma carruagem, de Rubem Alves e João Ubaldo Ribeiro. Somo aí a recente viagem do mestre Clarimundo Campos, proprietário eterno deste espaço que, despretensiosamente, como inquilino, ando a ocupar.

Se nosso Clarimundo não galgou merecida expressão nacional e mundial, foi porque assim não quis. Preferiu a quietude a se submeter, quem sabe até, ao peso de um fardão.

É verdade e estranho que, de uma pancada só, nos foram tirados três grandes nomes das letras. Mas pensando bem, vamos juntos raciocinar sobre os acontecidos. Alguma coisa deve estar ocorrendo lá em cima. Aplico o termo “em cima”, pois é de corrente uso. Os bons sobem, os maus descem. Mas é tudo uma questão de crença e posição geográfica, pois se assim fosse mesmo estaríamos cheios aqui por nossas bandas de japoneses maus e eles lotados de gente nossa e ruim.

Talvez, por determinação da Diretoria, tenha sido instituído que fossem chamados os melhores escritores deste plano para tarefa divinamente hercúlea. Se pesquisarmos, veremos que, além do nosso trio imortal, outros laureados com Nobel de literatura, como o sem adjetivos de primor Gabriel Garcia Marquez e tantos outros mundo afora, de alguns meses para cá, andam fazendo mala e partindo – Garcia Marquez nos deixou outro dia, em abril deste ano. Quantos de outros países se foram e não sabemos? Coincidência? Não acredito nisso.

A Diretoria já usou desse expediente outras vezes. Um recente se deu quando os anjos e querubins, tomados de enfado, cantavam aos bocejos as musicas celestiais. Convocada reunião extraordinária, resultou na ida de Amy Winehouse para dar um upgrade melódico na turma dos pequenos. Michael Jackson também subiu, não deu certo. Os ággelos em toda sua pureza tinham medo dele.

Para mim, eles foram convocados para refazer mandamentos, desta vez, não em tábuas, mas na mais pura das pedras preciosas, lapidada em joia com esmero pelo talentoso Hefesto, marido traído de Afrodite. Mas deixemos os deuses de outra época de lado.

Além de atualizar os mandamentos que até os dias de hoje continuam em versão beta e muito pouco usados pela humanidade, pode ser que outra tarefa seja conferida ao grupo a dedo escolhido.

(Continua domingo que vem)







Perdas - Parte I






Publicado Jornal Correio em 3 de agosto de 2014



domingo, julho 27

Fábulas


Clique na imagem que ela aumenta




Outro dia, aqui mesmo no nosso CORREIO, falei sobre a absurda repressão sofrida pelas versões originais das histórias infantis. O tal “politicamente correto” levado ao extremo produz barbaridades. Comecei com o “Atirei o pau no gato” e por ai afora.
No amanhecer hoje, um estranho fenômeno aconteceu na porta de casa. Tenho uma grande quantidade de árvores frondosas no jardim da frente, grandes mesmo, todas plantadas por Bia e eu. Um jambolão gigante tornou-se morada de centenas de passarinhos, self-service de outros tantos durante a época de frutos. Uma bela colônia de morcegos por lá mora, itinerante. Ora se instala, ora desaparece. Um ipê rosa se emaranha no jambolão em namoro secreto.

Duas cariotas, quase a tocar o céu, apóiam ninho de gavião carcará, que, aliás, anda muito feliz com as queimadas urbanas, acredito que apenas eles estejam em festa, pois é durante e depois delas que mais gostam de caçar.

Mais ipês, sete-de-copas, mama-cadela vigorosa, e outras tantas, completam mini mata.
Ao sair para o trabalho notamos um aranzé de folhas espalhadas, mais do que de costume e, em área bem delimitada, apenas folhas de ipê. Parecia que bando de bugios tinha passado só por aquela árvore e chacoalhado com força os galhos. Talvez na tentativa de derrubar algum ninho ou fazer voar passarinho ainda tonto de sono. Mas como chegaram ali sem passar por outras árvores, rastro no chão não havia. Fica o mistério que me proponho a desvendar em uma ou duas noites de campana. Se for bicho descubro. Depois conto.

Olhando aquelas folhas grama afora me lembrei da musiquinha infantil “O cravo Brigou com a Rosa.” Se fosse cair na armadilha do policiamento ideológico que sataniza tudo e todos, imagino como seriam as notícias sobre o enredo da cantiga.

Nos noticiários: Briga violenta entre Cravo e Rosa acaba em delegacia. Cravo teve ferimentos leves, foi atendido na UAI e liberado. Já Rosa, despedaçada, encontra-se em observação no Hospital de Clínicas, sem previsão de alta. Cravo foi indiciado com base na lei Maria da Penha, autuado, responderá em liberdade.

Manchete do dia seguinte: Margaridas, Açucenas e Camélias ainda em luto por irmã que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu, organizam passeata em todo país contra violência. Redes sociais bombando. Hashtag com sua centilha da semana: #perfumesimespinhosnao. Não criamos monstros contando histórias, eles são formados a exemplos. Como os bugios fantasmas de meu jardim, plantamos idéias, conceitos e preconceitos em nossas crianças conforme agimos. Cantando? Jamais.










Fábulas






Publicado Jornal Correio em 27 de julho de 2014

domingo, julho 20

Humilhação




Mais de semana se passou depois da estarrecedora derrota da seleção brasileira por incríveis sete a um. Confesso que naquela quarta estava otimista em relação ao nosso time. Arrisquei palpite de dois a zero para nós. Eu, como milhões de brasileiros, estava contaminado pela propaganda maciça a favor de nosso futebol hexa, certo em cores e brilhos Brasil afora. Acho que a seleção que compramos não era a que nos foi vendida 24 horas por dia, de forma ufanista e ostensiva. Compramos o produto errado. Pensei em reclamar ao Procon e ao Conselho Nacional de Autorregulamentação (Conar). Propaganda enganosa da brava. Quero meu sonho de volta e em dobro, pois assim reza a lei.

Não sou de morrer por futebol. Fico mais tenso em jogo de meu Galo Mineiro do que em Copa do Mundo, mas confesso que, naquele dia, sentia algo diferente no ar. Vibração positiva. Estava totalmente tomado pelo canto da sereia, regozijo excessivo, lavagem cerebral. Íamos ganhar.

Bola rolando, me dei conta do drama anunciado. Quatro a zero para os teutônicos. Tupiniquins mais fanáticos, em momentos assim, roem unhas demais, fumam demais ou bebem em esbórnia depressiva. Há aqueles mais apaixonados que até enfartam demais. Eu faço diferente. Quando estou alegre ou triste demais, aborrecido ou pasmo ao extremo, saio às ruas e corro. Começo em lenta caminhada e depois disparo. A distância não interessa, o importante é deixar o pensar livre. Assim fiz. Tênis velho no pé e rua. A cidade parecia paralisada, silêncio de catedral gótica, Notre-Dame do Cerrado, quietude nervosa de caverna profunda onde apenas ouvem-se sussurros de sonhos hibernados. Um cãozinho saiu de um matagal e me seguiu aflito, talvez acuado pelos foguetes ensurdecedores que antecederam o jogo. Corri à exaustão, quebrei.

Antes do jogo, crianças jogavam bola, uniformizadas em verde-e-amarelo, gritando alegres e inocentes a vitória. Imagino o rosto dos pequenos frente à televisão. Isso é aquilo? Pais baixando olhos envergonhados da mentira engolida e repassada às crias.

É, chegou a hora de contarmos para nossas crianças que Papai Noel e Coelho da Páscoa não existem. Mas, sinceramente? Acho que qualquer criança com mais de 4 anos já sabe disso. Jogou no Google.






Publicado em Jornal Correio em 20 de julho de 2014



Humilhação

domingo, julho 13

Papa Chico

Será que dou conta?





Meio de tarde cheirando à queimada. Não me acostumo nunca. Humanos vão queimar todo o mato roçado do mundo até explodir em tosse seca. Porém não é sobre fumaça que escrevo hoje.

Recebi telefonema que me fez tremer. Assim na lata, sem rodeios, convite para escrever no espaço em que mestre Clarimundo ficou por tantos anos. Na hora, me veio um lampejo: mal chegou lá no alto e já aprontou mais uma das suas. Sei que tem o dedo de Clarimundo nisso. Tenho plena convicção de que nada é por acaso. Vejamos: ele agrônomo, eu veterinário. Nós dois sempre falamos de observações do movimentar da vida.

Miramos onde poucos prestam atenção. Tenho aqui comigo que ele queria que o espaço ficasse com gente ligada a terra, às miudezas dos seres viventes que poucos olham. Passou uma empreitada sem nem pedir. Não sei se mereço ou se vou dar conta.

Nunca tal grandeza havia passado sequer em pensamento por minha cabeça. Escrevo por prazer e senso de liberdade. Escrevendo, ganho asas que, normalmente, não possuo. Só e, raramente, em sonhos, consigo alçar vôo alma humana adentro e visitar cantos que nunca foram abertos.

Clarimundo Campos é insubstituível. Jamais chegarei perto de seus escritos e de suas lições de vida. Peço, portanto, permissão por aqui estar. Se não agradar, me conte logo, pego minha tralha e sigo caminho. Contudo, se gostarem um pouquinho, saibam que tirarei leite de pedra para tentar ser boa companhia aos domingos.

Nunca escrevi com hora marcada e tem dia que travo. Vem o tal vazio de palavras. Quando isso acontece, encolho em canto mais longe de meu quintal e falo com formigas, corujas e gambás que teimam em morar na cidade. Muitas vezes, eles sopram uma história antiga ou algo que viram na cidade lá embaixo. Rabisco correndo para não esquecer.

Clarimundo de onde estiver me conte: por que eu? Tantos bons escritores bem perto. A responsabilidade de utilizar um espaço que foi, e continua sendo seu, por tantos anos, é grande. Prometo que vou tentar fazer de tudo para honrá-lo. Agora um pedido meu: quando tiver tempo me conte, daí, que escrevo daqui. Vamos tentar essa parceria em segredo. Desejem-me sorte. Não me vejam como intruso, sou apenas mais um contador de casos, um observador de gente, de bichos e do mundo.

Fecho meu primeiro dia com Manoel de Barros, pois tanto ele quanto o Sr. e Guimarães Rosa, ocupam espaço idêntico em meu pensar. “Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes. Prezo insetos mais que aviões. Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis. Tenho em mim esse atraso de nascença. Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos. Tenho abundância de ser feliz por isso. Meu quintal é maior do que o mundo.”








Jornal Correio de 13 de Julho de 2014 -  Página B8 - Revista




Será que dou conta?


segunda-feira, julho 7

Reposição hormonal

Homens também precisam da reposição hormonal; veja dica de especialista

Os problemas de saúde que surgem com o passar dos anos, como a redução dos hormônios, não é exclusividade das mulheres. A popularmente conhecida “andropausa” – na verdade um termo incorreto faz analogia a menopausa – afeta os homens a partir dos 40 anos e é denominada Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) ou Hipogonadismo Senil. Os sintomas, segundo o urologista Luiz Mauro Coelho Nascimento, vão desde a diminuição do desejo sexual a piora da qualidade das ereções, e assim como nas mulheres, pode causar depressão, osteoporose , alteração de humor e insônia.

Para o médico, mesmo a queda dos hormônios masculinos sendo lenta e progressiva em relação às mulheres, o crescente aumento da expectativa de vida fará com que a “andropausa” chegue a todos os homens em idade mais ou menos avançada. “Nos últimos anos o interesse em estudos envolvendo o homem idoso aumentaram significativamente, trazendo uma relação muito forte entre hormônios masculinos e função sexual, osteoporose, depressão e qualidade de vida”, disse o especialista.

A redução da testosterona pode ainda estar associada a algumas doenças como obesidade, estresse, diabetes, Aids, alcoolismo e insuficiência renal, hepática e respiratória. Para o diagnóstico em pacientes com suspeita de hipogonadismo senil, recomenda-se procurar um especialista e fazer uma avaliação laboratorial, com a dosagem da testosterona biodisponível. “Se diagnostica a DAEM, poderá ser realizada a reposição hormonal. O tratamento é contra-indicado para pacientes com de câncer de próstata ou mama, obstrução urinária grave e apnéia do sono”, afirmou Luiz Mauro.


Fonte: Jornal Correio


domingo, julho 6

Heróis



Hora do almoço. Meio-dia em ponto. Garis param a varrição e buscam suas marmitas. No canteiro da avenida, sob a sombra generosa de belos oitis, em silêncio de templo budista, cabeças baixas, calados comem. Um faz o sinal da cruz ao amassar a quentinha vazia. Agradecimento sincero. Aos poucos vão, um a um, terminando a refeição. Talvez a primeira do dia após o café puro, solitário do madrugar.

Alguns se estendem à sombra, jogam o boné sobre os olhos em busca de cochilo reparador. Outros conversam baixinho. Disciplina. Dura pouco. Logo um começa a brincar com outra. São garis e garis. Ou seriam garis masculinos e garis femininos? Hoje, tudo tem que ser pontuado, risco do politicamente incorreto. Não mais sussurram. O volume da voz toma conta da rua e ouve-se de qualquer canto as provocações brincalhonas. Casam um com outro, “coretam” – concordo, esta palavra não existe, é inventada, faz parte de nosso vocabulário regional e, deliciosamente, expressa o que sonoriza. Um sinônimo? Gozação, troça, zombaria. Coretam uns aos outros em alegria infantil.

Passado um tempo aquele que parece ser o chefe da turma, bate palmas e grita: “Bora gente, vamos mexer o doce!”. A alegria com que voltam às suas vassouras e pás é contagiante. Quem não gostaria de ter um grupo assim, motivado, feliz no dia a dia de trabalho duro e, acredito, de remuneração nada convincente?
Penso em gente engravatada e triste. Pena que os garis são invisíveis. Passamos por eles como se fossem inanimados seres; postes, calçadas. Mal sabemos que aqueles possuem o MBA da vida. Certa feita foram humilhados ao vivo, na televisão, por um jornalista. Microfone estava aberto. Me nego até hoje a assisti-lo. O que ele falou com até certa raiva é que é uma vergonha!

A vida urbana seria impossível sem a presença deste batalhão de profissionais. Houve época em que o trabalho de varrição e coleta de lixo era atribuição direta do município.

Quando se ventilava algum movimento de greve ou paralisação no setor público, a grande preocupação dos mandatários de plantão era a adesão ou não da limpeza urbana.

E do outro lado, os sindicatos torciam e rezavam para que a moçada aderisse aos movimentos. Eram o fiel da balança. A população parecia não sentir a mínima falta do restante dos servidores. Mas do pessoal do lixo, a história era outra. Deu no que deu, terceirizaram o serviço para alegria de uns e desmobilização de outros.

Conheço por nome os que varrem minha rua. Os admiro. Não levam suas frustrações para a linha de frente, cuidam da maquiagem da cidade, reduzem consideravelmente o risco de doenças das gentes. Fazem-nos sentir orgulho de mostrar nossa cidade.

Uma grande pena que o trabalho destes heróis passe despercebido da maioria de nós.

Rua limpa hoje não demora muito a receber outra carga da formação do caráter e educação de muita gente fina. Não demoram os papéis, as pontas de cigarros, garrafas e coisas que até Deus duvida, serão novamente lançados despudoradamente em nossas vias. Como formiguinhas, tão logo amanhece, lá estão eles e elas. Novamente, a rua se enche de sons de vassouras, de risadas e “coretos”. As vassouras não param nunca. Com tanta sujeira, varre-se também a falta de educação, a civilidade, a falta de vergonha na cara daqueles que, como monarcas, atiram seus restos ao vento.






Publicado Jornal Correio em  6 de Julho de 2014








quarta-feira, julho 2

O contador de casos











Foto Paulo Augusto - Jornal Correio

Prezado Clarimundo Campos, me tornei íntimo, não vou chamá-lo de “senhor” nem “doutor”, pois esta intimidade nasceu da companhia domingueira de suas crônicas. Podia sentir formas e cheiros em seus escritos. Sua ironia sutil me fascina. Assim dito, peço: Caro Clarimundo, puxe um banquinho e vamos levar um dedo de prosa. É claro que você notou que algumas mangueiras estão floridas em pleno junho. Deu a louca no mundo. As paineiras e os ipês conseguiram misturar suas flores a formar tapetes daqueles feitos para dias santos. Sei que grandes jornalistas, escritores, mestres e afins saberão muito melhor do que eu contar de você. Mas, se me permite, deixa esse simples veterinário criador de sacis, aprendiz de escriba, com meus arremedos de crônicas, prestar tributo a quem merece.

Nunca vou me esquecer do dia em que me telefonou para falar de escorpiões e morcegos. Foi conversa longa e saborosa. Depois nossos contatos se deram por meio de palavras escritas. Você, generoso, me citou por algumas vezes concedendo-me títulos maiores do que o de monarcas e grão-duques. Os recebi com justas e explicadas ressalvas. Nunca fui merecedor de tanto. Contudo, o simples fato de ser lembrado teve o peso de medalha de honra ao mérito. As carrego invisíveis no peito para que todos vejam pelo resto de minha vida.

Talvez, meu caro Clarimundo, o motivo da florada temporã das mangueiras, junto com os ipês e primaveras, tenha sido proposital. Acontecido a mando de anjos e santos, colorindo assim, os caminhos para sua passagem até as portas de grande jardim metafórico, onde tudo são cantos de passarinhos, sol suave, cachoeiras imensas despencando das rochas maciças de um Espírito Santo majestoso. Onde também, a Mata Atlântica com seus bichos e orquídeas ainda existe intocável como você sempre sonhou. Segue feliz o trilheiro Clarimundo. Sua presença está por essas bandas perpetuada em seus casos e saborosos escritos.
Os domingos ficarão menos aprazíveis sem suas prosas, jornal em luto. Literatura perde um desenhista de pensamentos da mais elevada linhagem. A pena se deita, o tinteiro pelo meio se aquietada sem leves cutucadas. Fica um vazio.

Mas alegremo-nos, também há motivos de sobra para tal. Retorna você às estrelas, pois, como elas, somos feitos do mesmo pó, da mesma matéria. Aproveita a viagem. A jornada por esses rincões foi boa, repleta de carinho e amor. Aproveita Clarimundo, meu amigo, para perguntar a idade de São Tomé. Assim, quando sabido em noite de muita estrela e lua escondida, me sopra em sonhos esse segredo. Juro, não conto para mais ninguém. Vá feliz e em paz sabendo que seu clamor permanente em defesa dos bichos e das matas deu muitos frutos.

Fico triste em perder a companhia certa de seus casos, sua crônica inteligentemente republicada nos alertou que nada é para sempre, só acreditamos quando o sempre acontece. Até algum dia mestre Clarimundo Campos. Chegará a hora de novo encontro ao pé de uma serra, com cheiro de mata e chuvisco de cachoeira. Aí, nesse paraíso, baterá a palma da mão na curva da perna e daremos risadas daquelas de dar lágrimas de espremidos olhos e que ecoarão infinitas, atingindo lonjuras. Então, caro amigo, todos saberão de verdade que, em suas palavras, “Tudo é eterno…”






Publicado Jornal Correio em 2 de Junho de 2014



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhWmgzV1k1VFZoYkU/edit?usp=sharing

segunda-feira, junho 16

Era uma vez…




Cedo deslizar sonolento para o trabalho, me deparo com cena de Fellini. Em meio a gramado ainda verde em plena seca, balões coloridos em arranjos delicados, dançavam ao sabor do vento. O sol ainda baixo lhes conferia uma luminosidade surreal. Devem ter fugido de festa de criança.

O resto do caminho segui matutando. Tempo não via sinal de festa de aniversário em casa. Andam preferindo casas especializadas em eventos onde se pode escolher enfeites temáticos, cardápio de doces e até bolos com os formatos mais estranhos. Tudo ao gosto do freguês mirim. Isto quando o presente de dois ou três anos não é uma viagem à Disney, pois semana inteira, lá, fica mais em conta do que fim de semana no Beach Park em Fortaleza.

O primeiro presente que criança ganha é um aparelhinho eletrônico com dois botões; um de pânico para, em caso de perigo, acionar os pais à distância, uma vez que raramente em casa estão e o outro, caso leve palmada, acionar a polícia, resultando em prisão e processo. Agora é lei. O segundo presente, um Smartphone.

Pensamento é ligeiro ou o caminho é longo. Peguei-me nas bobagens que querem mudar na vida dos pequenos. Comecemos pelas histórias infantis.

Não vou nem comentar a nova moda de resumir clássicos para que fiquem palatáveis e criem leitores toscos em imaginação e vocabulário. Fica para outra oportunidade. Vai criar polêmica inútil e não é o foco agora.
Cantar “Atirei o pau no gato” virou apologia aos maus-tratos aos animais. Pois cantaram para mim e para filhos assim cantei. Não me tornei nem criei monstros assassinos de bichos. Pelo contrário, ainda sou daqueles que preferem bicho à gente e meus filhos, além de admiradores contumazes da natureza e tudo que nela há, são incapazes de matar formiga. Barata voadora sim, mas formiga ou outro vivente jamais.
O lobo mau está sendo taxado de pedófilo. Querem mudar a abordagem ocorrida em ermo local para floresta movimentada, repleta de tratores e motosserras barulhentas, madeireiros ilegais aos montes para todo lado, felizes e corados em saúde, com suas camisas xadrez, heróis a proteger a pequena Chapeuzinho Vermelho.
Os três porquinhos, coitados, passando de ameaçados a obstinados comedores de carne de outro lobo, parente daquele pedófilo da história anterior. Mas que família problemática essa dos Canis lupus! Será o infausto genético?

A Bela Adormecida, afirmam alguns, era viciada em ansiolíticos pesados, daí, seu profundo sono sem sonhos. Branca de Neve, insinuam outros, era uma degenerada insaciável que mantinha um relacionamento pelo menos suspeito com os sete anões. Irmãos Grimm devem estar a sacudir ossos.

Festa no céu virou sinônimo de rave, onde tudo rola. Laudatória aos pecados da carne e às drogas. Tarja preta dos puritanos sem assunto. Sabe quem foi o autor desta bela fábula? Foi o brasileiríssimo potiguar Luís da Câmara Cascudo. Esta, como tantas outras de nosso folclore, também estão passando pelo crivo de censura velada e requerem releituras por “deseducarem” nossos pequenos. A lenda do boto cor-de-rosa. Pedem que seja vendida apenas para maiores de dezoito e lacrada. Quanta bobagem.

No mais, gerais. Deixem em paz nossa literatura infanto-juvenil, sem hífen.
Vamos viver felizes para sempre, sem neuras exacerbadas ou problemas maiores do que o cobertor que nos foi dado a usar.




Publicado Jornal Correio em 14 de junho de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhX2dOTnhUSENIVk0/edit?usp=sharing

Nota:

Achei essa horrorosa versão "politicamente correta" do Atirei o pau no gato. Como diz um comentário postado abaixo da bagaceira: "O politicamente correto já beira a chatice extrema". Isso para pegar leve, para ser educado.


"Versão Politicamente Correta" (Que horror! Vamos criar crianças imbecis desse jeito)

Não atire o pau no gato-to
Porque isso-so
Nao se faz-faz-faz
O gatinho-nho
É nosso amigo-go
Não devemos maltratar os animais
Miau!

sexta-feira, junho 6

O delicioso controle dos pombos

Com o atraso de dois anos, acabo de receber um livrete da Secretaria Municipal de Saúde de Uberlândia, intitulado “Pombos Urbanos – Uma Questão de Saúde Pública”. É muito bom. Deve ser obra do Centro de Controle de Zoonoses.

Vi, naquela esmerada publicação, o dedo do doutor William Stutz, médico veterinário sanitarista, o maior especialista do mundo em escorpiões. Como as columbas são protegidas, de todos os modos, inclusive por leis ambientais, a população das pombas aumenta rapidamente, com sérios transtornos ao meio ambiente e à saúde pública. “Uma colônia de pombos não controlada pode duplicar de tamanho a cada ano.”

Já que as pombas são tão nocivas ao meio ambiente e à saúde pública, só nos resta controlar o aumento da sua população. Mas, como? É comendo-lhes os peitos. São deliciosos, de- pois de fritas ou assados. Bem passados, podemos comê-los sem medo das bactérias e dos fungos.

Tenho experiência. Já comi muitas pombas. Foi muito antigamente. Infelizmente, não voltarei a papar os deliciosos peitos das pombas: não tenho mais condição física para pegá-las. Se você tiver um lugar recôndito no fundo do quintal, poderá contribuir para evitar o aumento das pombas urbanas. Seria bom se elas contribuíssem com a biodiversidade, mas nos campos, cerrados e matas.

Para pegar as pombas, faça assim: avezá-las num canto do quintal com resto de comida. Em seguida, no lugar da comida arme um laço, que é bem mais eficiente que arapuca. Você poderá colher uma pomba ou mais todos os dias, devidamente enforcadas. Aí, com uma pomba morta nas mãos, que vale mais que um bando voando, você depena-lhe apenas o peito e o retire do corpo de bichinha. Jogue este para os gatos ou no lixo.

Ao papar peitos de pombas, estará prestando um inestimável serviço ao meio ambiente urbano e à saúde pública. Não pode haver autoridade alguma capaz de empombar com você.

Clarimundo Campos Engenheiro 
Agrônomo aposentado
Jornal Correio de 11 de maio de 2014

Clarimundo Campos em foto do Jornal Correio
 

Um comentário ao generoso Clarimundo.

Caro Clarimundo,
 agradeço o elogio e o citar-me como "o maior especialista do mundo em escorpiões". Feliz, aceito o título mas como licença poética apenas. Na verdade sou um aprendiz de conhecer esse bicho antigo e tinhoso. Todo santo dia ele me ensina um pouquinho mais e chego à conclusão que como Sócrates o filósofo, e não o médico jogador de futebol que deixou esse mundo ainda novo, só posso parafraseá-lo no tocante aos escorpiões "Só sei que nada sei".

Em tempo: Não tive participação na elaboração do livrete. Me atenho aos meus escorpiões, serpentes, aranhas e morcegos que já  me dão muito mas revigorante trabalho diário.



Romaria

Foto de David Rotelli

Nossa Senhora da Abadia em Água Suja


quinta-feira, junho 5

Deu pódio




Foto David Rotelli

Lá estava eu em tranquilo, sabadão preguiçoso, cuidando da vida, das plantas, olhando canto de passarinho e recontado ninhos sabidos. Como a manhã mal se fazia anunciar, fui para rápido treino de tiro, não nada de arma, tiro de corrida, velocidade máxima em tempo marcado.

Dei-me por satisfeito. Podia começar almoço, tomar uma cervejinha sem culpa e aproveitar a melhor parte da semana, o fim dela. Bobagem isso, todo dia pode ser bom, vai da gente.
Lá pelas tantas, recebo telefone de amigo e companheiro de muitas e boas corridas de rua. Junto com Maria do Carmo, sua esposa, e Luiz Mauro compadre, formarmos um quarteto e tanto, pelas ruas de várias cidades, a correr pelo correr. Quarteto fantástico ou fanático? Simples prazer de testar limites. Nada de competição além daquela de tentar baixar tempo, e claro, participar e sorver a gigantesca quantidade de energia boa que rola em tais eventos. Revigorante.

“Tem corrida amanhã em Monte Carmelo. Só tem 10 km, vamos?”
Sair daqui para correr 10 km?" Sei não… Mas pensando bem, seria um passeio diferente, bora.
“Combinado! Passo aí lá pelas seis da manhã. Beleza?”

Passado um pouco, pensei no baita programa de índio que tinha arrumado. Quer saber, vai ser divertido. Vamos nessa. Sair com esse trio é sempre garantia de boas risadas. Ainda não sabia que Maria e Luiz Mauro não iriam. Relógio para despertar às cinco, levantei num escuro e num frio que há tempos não sentia.
Um relógio a despertar não. Como uso dois celulares, todos os programas de despertar estavam habilitados. Um toca às cinco. Cinco e trinta despertou outro. Às seis, um terceiro. Às sete, já no carro e a caminho de nossa aventura, disparou o do relógio de pulso. “Pra que tanto despertador em horas diferentes?”, perguntou David. Ia tentar explicar, mas a verdade é que nem eu sabia.
Viagem curta e tranquila, e lá estávamos nós entrando em uma cidade adormecida, ninguém pelas ruas. Custamos a encontrar alguém para nos indicar o local da prova.

Depois de um pouco mais rodar, chegamos. O clima contagiante de começo de prova estava no ar. O que, ou melhor, quem vimos nos assustou um pouco. Só tinha fera, gente conhecida de outras tantas, atletas de ponta. Povo ligeiro, super treinado. David matou a charada: tinha prêmios, e bons, em dinheiro. Aí, os feras vão mesmo. E eles estão certíssimos, são bons e sabem o valor que têm.
Já na largada deu para sentir o nível dos caras. Sumiu todo mundo! Lá fui eu na minha toada de sempre, quase em tour por Monte Carmelo, um sobe-desce sem fim. Fiquei literalmente na poeira. Fui incentivado pelas pessoas durante todo o percurso. Crianças corriam comigo para dar força: “Vai moço, você consegue!”.

E consegui! Uma hora e três minutos em meu cronômetro ou cinquenta e oito minutos na medição da organização. Cruzei a linha de chegada! Último dentre todos. Realizado e feliz.
E para coroar o divertido esforço, ainda fiquei em quarto lugar na categoria dos cabeças grisalhas. Último sim, mas quarto e com medalha. Valeu o domingo, valeu a diversão, valeu o almoço da quermesse à base de frango caipira, coisa de vó e de sogra, coisas da roça.
Ano que vem, estou de volta e, desta vez, espero, com quarteto completo.
Lembrando dos despertadores dos celulares e do relógio, desabilitei todos. Minto, ficou só o das cinco e trinta.





Publicado em Jornal Correio em 05 de junho de 2014


https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhaElWa3c2a1RTWjQ/edit?usp=sharing






Texto completo também em PDF ( a versão acima para publicação no Correio possui apenas 3300 caracteres com espaço) AQUI

domingo, maio 25

Calçadas livres


Foto: Marcos Salles

Jornal CORREIO de 6 de maio 2014: “Promotor defende liberdade de locomoção dos pedestres nos passeios”. Parabéns ao Ministério Público. A ele, todo meu incondicional apoio e aplauso. A manifestação de donos de bares solicitando liberação de parte de nossas já tão estreitas calçadas beira o nonsense total. Vi foto no jornal onde aparecem donos de bares carregando cartazes de protestos com o objetivo de pressionar o legislativo a alterar o código de posturas e liberar geral os passeios, essa irregular, esburacada e desrespeitada faixa que separa o asfalto dos portões de nossas casas. Dois desses cartazes me chamaram especial atenção: “Pagamos muitos impostos” e “Temos família para sustentar”. Por todos os Orixás, serão apenas eles? Ou aquela multidão que é expulsa de relativa segurança no deslocar por mesas e cadeiras é apenas figurante? Talvez, por puro prazer, gostem de ficar pulando entre carros. Deve ser isto. Ninguém mais é extorquido por impostos de toda natureza nem possuem pessoas e pessoinhas que deles dependem. Apenas os que ali protestavam carregam o peso do mundo, revezando com o mitológico titã Atlas.

Se botarmos atenção, veremos que a maioria dessas pequenas faixas de mobilidade urbana, destinadas aos pedestres deveria se chamar pistas de cross, trilhas ou algo similar. Dignas são de prática de um esporte secular: o pedestrianismo como chamam a caminhada em Portugal. Só que lá, pode-se caminhar ou pedestrianar – horrível expressão, certamente inexistente – por belos jardins e praças. Ruas calcetadas (outra expressão lusitana) com primor, capricho artístico, seguras, educadas.

Já aqui em terras ultramar, o simples caminhar é radical total. Melhor usar equipamento apropriado de segurança.

Deixando de lado o estado de conservação das vias e os esportes perigosos, voltemos ao empachamento de vias públicas.

Um fenômeno estranho está a ocorrer há tempos no país. O público vem se tornando privado e o privado se tornando público em veloz frequência. Quando obstruo um passeio público com minhas mesas, churrasqueiras e altos sons estou me portando como transgressor, pois invado o que é de todos. Quando invado propriedade privada a situação é idêntica, já que tomo posse do que é de outrem. Transgressor outra vez. Tudo de cabeça para baixo.

Adoro boteco. O ambiente é agradável, descontraído e fico horas, desde que a companhia seja boa, ali a jogar conversa fora, falar de futebol, defender meu Galo mineiro. Falar de política, rir de piada velha. Mas não preciso sentar em mesa à rua. Já o fiz, confesso, mas ficava sempre sem graça a cada olhar de soslaio, a cada tropeço, esbarrão em cadeira. Não é certo, não é justo.

Espero que nossos promotores e nossa Prefeitura sejam rigorosos e não aceitem TACs ou coisas do gênero. A população agradece. Fica aqui, mais uma vez, minha admiração pelas ações do Ministério Público e nossa Prefeitura. Termino com fragmento do conhecido poema “No caminho com Maiakovski”, de Eduardo Alves da Costa: “[...] Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor do nosso jardim./E não dizemos nada./Na segunda noite, já não se escondem;/pisam as flores,/matam nosso cão,/e não dizemos nada. Até que um dia,/o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,/rouba-nos a luz, e,/conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não podemos dizer nada [...]”






https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhRVY2ME5vM2F6TUE/edit?usp=sharing