segunda-feira, outubro 5

Besouro


Juro que foi sem querer. Foi instinto de pura defesa. Como de costume, distraído estava olhando o nada. Aliás, quanta coisa tem o nada. Lembra movimento de calçadão de cidade grande, enxame de abelha jataí quando pronta a levantar voo e seguir para outra colmeia formar, parece, às vezes, trilheiro de formiga-correição, mas com a vantagem de não ter, nem fazer barulho, só um, o bater de ferrão que mais parece crepitar de fogo. Ou, no caso de nossas abelhas nativas, um zumbido de nota só, acertando temperatura da morada.

O nada está sempre cheio daquilo que você quiser. Coisas boas, coisas ruins, alegrias e medos moram ali no nada. Aquilo que você quer ser muito no nada habita. Aquilo que te apavora se tornar também ali reside Para apreciar esse canto do pensamento tem que ter juízo e aprendizado, senão endoida. Dizem que os loucos riem ou choram sofrido fácil. Verdade é que eles, sem treino ou guia, descobriram o caminho, a porta do nada. Entram e não saem mais. Um perigo. Bom lugar para se esconder, mas não abuse, deixe caminho de volta bem sinalizado

Ah, e desconfie sempre quando perguntar a alguém o que ela tem e como resposta receber um vazio “Nada”! Aí, geralmente tem muita coisa oculta doída. Dor, geralmente, muita dor. Pois lá estava olhando tempo quando vulto bitelo veio em alvoroço em minha direção. Foi nada não. No reflexo levei a mão e com tapa joguei longe. Escutei o barulho seco/zumbinsento quicar no chão e rolar feito bola de gude negra. Parou rente à parede. Encostadinho no rodapé.
Saí do transe de pensamento vazio e corri rápidos olhos para acompanhar meu desacerto e a acrobacia do bicho. Besouro grande, mal-humorado que só. Resmunguento como todo besouro com voo interrompido a tapa ou bocada de sapo. Deitei de pulo rente ao chão para acompanhar a ginástica do casquento tentando se aprumar.

Debatia patas em pedaladas ao ar. De suas costas abria uma parte de suas asas dobradas em canivete em seu elítrio para dar impulso. Dei-lhe ligeiro peteleco, o que o fez cair em pernas. Antenas a brandir como se dedos em riste fossem, tonto, mas valente a me reprimir tamanha violência sem sentido se é que alguma violência sentido tem.

Evolução, às vezes, deve fazer rascunho. Besouro não foi feito para voar. Tem tudo contra ele, inclusive a física, mas teimou, pois do chão saiu um Santos Dumont ou um autêntico Wright dos coleópteros. A história que resolva este imbróglio. É certo que seu voar não é muito coordenado, mas se faz deslocar, mesmo que seja para lugar perigoso. Poucos devem acertar grama serenada e companheira perto, para então juntar trapinhos e construir toca e prole.

Por esse agora tinha responsabilidade, causei-lhe permanente intratável labirintite. Preparo canto de jardim ou vaso grande para que, no tocar de roda, não despenque ou tente novo flutuar, o que seria desastroso. Se alguém souber de besoura desempedida, mande sinais. Meu aturdido amigo carece casar, mas não tem dinheiro nem um centavo na caixinha vi e ele vive literalmente tonto.






Jornal Correio em  4 de outubro de 2015




Besouro

segunda-feira, setembro 28

Aprendendo a viver





Vivo falando de bichos, sei bem. Como não se deles absorvo energia e a esperança de vida. Tento retribuir de alguma maneira. Não, não os alimento, não faço cevas para o simples apreciar, nada contra, mas penso no dia em que não puder colocar a fruta fresca, a quirera, o miolo de pão. Não quero amor por dependência nem de bicho. Por muito tempo, servi água com néctar para beija-flores, eram dezenas, formatos e cores deslumbrantes, brigavam os grandes com os pequenos colibris que tinha que ser mais ligeiros. Depois vieram as cambacicas e abelhas arapuá.

Um conselho de amigo dos pequenos de penas. Não se aventure a alimentá-los sem orientação de quem conhece, pois a sua maravilhosa ação, repleta de carinho e gosto pelo belo pode ser remédio mortal a eles, se usar açúcar refinado, então, é sentença de morte, diarreias e inflamação de língua os levarão. Sem saber, estará dizimando joias da arca da natureza. Você não notará, pois sempre aparecerão outros no lugar dos perdidos. Prefiro plantar árvore e flores, deixar crescer e dar fruto/flor. Assim, eles virão por vontade própria e irão embora prometendo volta quando comer acabar.



Árvores que plantei muitos anos atrás, hoje são cenário de sinfonia de passarada, meus morcegos bailam em rasantes inofensivos em diários espetáculos noturnos. Uma alegria contagiante de viver. Como a Maude do Harold de “Ensina-me a viver”. Vi o filme em 1971 ou 72, não me lembro bem quando, a sala de cinema da Imprensa Oficial, em Belo Horizonte, se dava ao luxo de passar apenas filmes bons. Hoje, não sei, será que virou templo de igreja como o Cine Pathé na Savassi?

Semana passada, fui rever em adaptação para teatro com Glória Menezes e Arlindo Lopes e grande elenco, sempre quis escrever isso tipo – siga aquele carro! – nos papéis principais. Montagem impecável, dinâmica. Cheguei meio desconfiado, pois conhecendo do cinema queria ver como seria a adaptação para o palco. A tradução de Millôr Fernandes foi a base de tudo, pelo que sei. Pequena dificuldade para a última cena. No cinema, Harold desembesta estrada acima em seu carro fúnebre e o mesmo (o carro) voa em despenhadeiro. Pausa, silêncio, câmara fixa no alto da estrada, de lá me vem um Harold feliz, livre, tocando banjo/presente ao som de Cat Stevens. Aprendeu a viver. Direção e adaptação de João Falcão consegue o efeito com recursos visuais e sonoros. Valeu a pena! E muito.

Sorte dele que não mora no Brasil, pois teria comprado extintor ABC por medo de multa e que, como aquela caixinha de primeiros socorros, lembram, de obrigatório virou acessório. Acessório obrigatório? Como certa feita indagou um irmão meu ao ser abordado sem a tal caixinha na Rodovia dos Inconfidentes.

Ia falar de canto de passarinho, pois hoje, manhã toda, sabiá cantou sem trégua à janela de meu laboratório. Parece que até meus escorpiões estavam mais animados. Todos precisamos de uma Maude na vida, a minha me aparece em forma de bichos, plantas, nuvens, vento – insignificantes para a maioria – para mim? Ensinam-me a viver.






Em Jornal Correio de 27 de setembro de 2015



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhYW1IaTg4RmZxeHc/view?usp=sharing

segunda-feira, setembro 21

História da mula



Essa história não é minha. Está na boca dos matutos em vendas e botecos nas pequenas vilas, na lida diária na roça, prosa para ajudar passar o tempo no compasso musical de enxada cortando terra. Portanto, se acharem dono me contem créditos e méritos serão dados.

Birra, implicância mesmo tenho de plágio, plagiador é ladrão de ideias. Vivente vazio, parasita de criação. Quero não que me tomem por um. Contar eu conto e pronto.

Seu Zé pensou bem e decidiu que as perdas que sofreu num acidente de trânsito eram sérios o suficiente para levar o outro ao tribunal. O advogado do réu começou a inquirir seu Zé:

– O Senhor não diz na hora do acidente “Estou ótimo”?

Zé responde:

– Conto. Tinha acabado de colocar minha mula favorita na caminhonete…

– Só responda à pergunta: O Senhor não diz na cena do acidente: “Estou ótimo”?

–Bom, coloquei a mula na caminhonete e tava descendo a rodovia…

O advogado interrompe outra vez e atuando nervoso que nem palco de teatro urra enfurecido:

– Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos. Na cena do acidente, este homem diz ao policial que estava bem. Agora, semanas após o acidente, ele está tentando processar meu cliente. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda a pergunta.

Mas, a essa altura, o juiz estava muito interessado na resposta de seu Zé:

– Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.

Seu Zé agradeceu e prosseguiu:

– Coloquei a mula na caminhonete e estava descendo a rodovia quando uma picape atravessou o sinal vermelho e bateu na minha bem do lado. Fui lançado fora para lado da rodovia e a mula foi pro outro. Eu tava muito ferido e não podia me mover. Mais eu podia ouvir a mula zurrando em dor. Aí, policial chegou. Ele ouviu a mula sofrendo e foi até onde ela estava. Depois de dar olhada nela, pegou arma e atirou 3 vezes bem no meio dos olhos dela. Então, o policial atravessou a estrada com arma na mão, olhou pra mim e diz:

– Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?

– Aí, eu pensei ligeiro e falei: Tô ótimo! O que o sr. falaria, Meritíssimo?







Jornal Correio 20 de Setembro de 2015




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terça-feira, setembro 15

Ler dói



Ler dói. Bom, acho que deve ser dor lancinante, daquelas tipo pedras nos rins ou na vesícula que surgem do nada, e geralmente à noite, quando não queremos incomodar ninguém e ficamos contando os segundos para clarear e pedir socorro. Aí, como passe de mágica, pedrinha resolve dar o ar da graça e achar o caminho para fora. Já tentou colocar um texto imenso no seu Facebook ou enviar para um grupo via WhatsApp? Vá lá, em um e-mail que seja?

Pode apostar que poucos, pouquíssimos o lerão. Outro dia fiz uma experiência interessante digna de tese de mestrado, não, de doutorado. Claro, não segui normas da ABNT pois ficaria mais difícil ainda e causaria duplo sofrimento em algum provável leitor.

Foi assim: resolvi, para variar, falar de bichos, dos miúdos que nos fazem imperceptível companhia toda a nossa existência e poucos têm um olhar mais atento aos pequeninos e seus mundos fascinantes. Foram dois parágrafos contando a história de uma lagarta verde, deste tamaninho, que desceu flutuando de uma goiabeira em seu quase invisível fio de seda, falei de seu balançar suave como trapezista de circo mambembe, contei de seu contorcionismo ritmado. Parecia bela bailarina de pole dance flutuante. Mágico, levitava.

Descrevi os olhos de uma plateia faminta, não por espetáculo, mas por saborear aquele verde e tenro corpinho. Tordos e pardais a apreciar não arte, mas refeição. Bom, do nada, peguei resenha de jogo Galo contra o Olímpia, aquele de 23 de julho de 2013 e coloquei no texto, totalmente sem contexto.

Para piorar, fechei minha crônica com mão salvadora que, delicadamente, recolheu a pequena lagarta artista/guloseima pelo fio de seda, e levei para longe de sua sinistra plateia. Este texto foi publicado em vários grupos e nas mídias sociais, sabe quantas pessoas questionaram a maluquice? Cinco. Sabe quantos “curtir” o texto recebeu? Setenta e três. Logo, querido leitor, tire suas próprias conclusões.

Vida estressada, falta de paciência ou, pior, falta absoluta de capacidade de simplesmente ler. Estamos vivendo época em que reinam analfabetos funcionais, pois como sempre nos dizia nosso professor de Patologia Wilson Ferreira Lúcio – um mestre da didática e do educar – a interpretação faz parte do texto.

Foi-se, e aqui não tem saudosismo, o tempo dos telegramas – com suas fitinhas de letras coladas. Avançou no visual, tem até fonado! Ultimamente, é mais usado apenas para cruéis demissões em massa de montadoras e grandes indústrias. O romantismo das cartas escritas de próprio punho, aqui tem muito saudosismo, mas muito mesmo, depois conto, também desapareceu.

Então, meu amigo, se quer se comunicar em redes sociais e se saber visto ou lido, mande fotos ou vídeos ou se acostume com a solidão rodeada de milhões de “kkks” e curtidas vazias. Nota do autor, que aliás sou eu: esta é uma crônica de ficção, nada disso aconteceu de fato, mas muito perto da realidade de cadeira posso afirmar.” No mais, Gerais.







Jornal Correio de Uberlândia em  13/09/2015




https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhUTZaMmQwTGRRdG8/view?usp=sharing

terça-feira, setembro 8

Outro Agosto





A última sexta de agosto amanheceu seca, novidade alguma, pois todos os dias deste oitavo mês do ano normalmente são assim, ressequidos, cheirando a vento, poeira e fuligem. Tão normal quanto estúpida, a mão do homem, sempre ele. Contaram que só naquela curta semana foram dezenas de focos de incêndio, alguns gigantescos. A fazenda Tatu ardeu como a velha Roma de um ensandecido Nero ou seria de Vitélio? Só que naquele instante, aqui em nosso Cerrado, no crepitar das chamas e agonia de morte ninguém tocava lira ou compunha ode em louvor a deuses inexistentes. Ali, além do ruído seco da destruição, animais fugiam em pânico, muitos obrigados a deixar para as brasas suas crias. Ação humana hedionda e assassina.

Que não se gosta de árvores, em Uberlândia, é fato constatado. Já diz aqui, árvore boa é na porta do vizinho. Sombra é legal, mas árvore? Quanta “sujeira” né, trabalho de varrer folhas. E os morcegos que horror vão atacar, enrolar nos cabelos das moças. Um perigoso inimigo a usar de árvores para se ocultar e, do nada, avançar de surpresa. Quanta fantasia, quanta falta de informação, quanta burrice.
O vento naquela manhã de terça soprava teimoso, redemoinhos carregavam sacis de um lado para outro em alegres molecagens. Um pouco depois das sete, em trote rápido, subia a ladeira moça nova. Sacis insistiam em desalinhar cabelo dela, levantar sua saia, parecia não se importar. Acompanhava a carreira o filho, talvez irmão, este sério e cabeça baixa para evitar ciscos. Mochila às costas. Perdeu hora para escola. Observei. Aflita chegou ao portão, acompanhou garoto até lá dentro.

Do jeito que chegou virou para trás e, ainda em carreira desceu a rua, vento agora a empurrava, afobação continuava visível, talvez pressa atrasada para trabalho. Sumiu de minhas vistas. Passado alguns longos minutos, lá estava ela semblante triste, com um passar manso de mãos pelos cabelos, seguia emoldurada por janela de ônibus.

Ensimesmado, esqueci vento, sacis, poeira. Como nossa Uberlândia mudou. Outro dia não tão longe assim aqui não havia pressa. O vento de agosto, claro, era o mesmo mas era claro e limpo, não carregava tanta poeira vermelha de campos arados que hoje sufocam em abraço a cidade. O trânsito não agarrava as pessoas, não mudava o humor das gentes.
Corria-se sim, mas atrás da fantástica vontade de viver. Árvores eram plantadas e a cidade, jardim. Lua cheia na praça. Mães ou irmãs talvez avôs que se mantêm jovens e bonitas, felizmente são tantas avós lindas e jovens agora, mesmo na correia de afazeres/tarefas fazem contraste com a cidade que envelhece e se enfeia.

Ainda dá tempo, há salvação. Plante árvores. Anjos disfarçados de passarinhos e floradas exuberantes voltarão com trilhas sonoras e perfume para calçadas e praças. Sombras para namorar, crianças livres.
Sacis alegres continuarão a aprontar, mas temerosos saberão que poderão, a qualquer momento, perderem seus gorros e acabarem em garrafa a servir moleque.
Ainda dá tempo. Feliz 127 anos Uberlândia. Bem-vindo setembro.






terça-feira, setembro 1

Pintos



A agência de notícias Reuters, no dia 24 de julho, me sai com esta manchete: “Pintos de granjas dos EUA são enviados até para Brasil para escapar de gripe aviária”. Li atento a matéria e deu para sentir a preocupação e o desespero dos criadores do Grande Irmão do Norte com a possibilidade de perder preciosa genética das aves. Ali, em cada gota de sangue daquelas poedeiras existem milhões e milhões de dólares em investimento em pesquisa, acertos e erros até atingir o estágio atual. Li que tem pesquisa genética que começou em 1900. Muitas gerações de criadores e de penosas. Os que começaram o trabalho jamais chegariam a ver seus resultados, isso é que é pensar longe.

No que diz respeito à cultura científica, investimento em pesquisa não precisa dizer que nossos irmãos do Norte estão anos luz à nossa frente. Aqui, geralmente matamos a galinha dos ovos de ouro antes que a segunda joia apareça, não por casmurrice, mas por falta de investimentos ou fome.

Mas lendo a tal matéria algumas ideias me vieram à cabeça. Em momentos de crise, dizem os experts, é que temos que ser criativos e superar os temporais. Que tal se, na onda da tal gripe aviária por lá, não fosse boa ideia criar uma rede hoteleira para pintos. Haveria aviões especialmente adaptados para transportá-los, criaríamos a Pintos Air Lines ou simplesmente TransPinto. Pintos na primeira classe receberiam ração balanceada, água mineral Acqua di Cristallo, conhece não? Joga no Google e chora. Para os pintos da classe comercial quirera chips e água Lindóia sem gás. O trajeto seria acompanhado de perto pelo Veterinário de Bordo, cobertorzinhos de cashmere para os chiques e mantinhas simples e piniquentas para os demais.

Ao aqui chegarem teriam recepção de honra com direito a coral de galos e galinhas cantantes. Tapete vermelho para não sujarem os pés em nosso solo pátrio. Risco de contaminação, se não gripe por outras mazelas.

Conduzidos em limusines climatizadas aos barracões Saúde Pura para Aves – SPAs – super luxo onde ficariam até virarem frangotes fortes e resistentes para retornarem ao país de origem. Genética salva e perpetuada. Claro, alguns não voltariam, não que se apaixonassem por alguma franguinha nativa das coxas grossas, poucas penas mostrando corpo escultural e com muito samba no pé, nada disso, afinal aqui é Brasil. Muitos, na calada da noite seriam arrastados de seus poleiros de luxo e acabariam em fundo de panela em bela galinhada geneticamente correta, regada a boas cervejas e cachaça de primeira.
Aí do nada, uma jabuticaba caiu em minha cabeça e acordo assustado de minhas elucubrações, mas feliz por não ser atingido por uma jaca, certo, Monteiro Lobato?






Em Jornal Correio de 30 de agosto de 2015




Pintos

quarta-feira, agosto 26

Politica municipal


Peço licença aos jornalistas especializados na matéria aqui do CORREIO de Uberlândia, vou dar pisada leve, daquelas de não deixar nem marcas em praia na qual cambaleio, queimo os pés em quente e movediça areia e corro para água ligeiro.

Penso hora que vi quase de tudo. Nada vi. Quando o assunto é arte da política, aí me embanano todo. Sou parlamentarista por convicção e fervoroso defensor do voto distrital; este fortalece a relação entre político e cidadão, meu voto elege ou não quem escolhi e não um pára-quedista qualquer de outro lugar do qual nunca nem ouvi falar.

Infelizmente, ando a perder em ambas as formas que realmente acredito democráticas. Pronto, é o máximo no assunto que me estendo, que consigo, me dando por satisfeito como cidadão. Nunca sei se em quem votei, anda ou não a fazer.

Uberlândia, terra da qual agora também sou filho, adotado e por decreto é fato, mas minha cidade de coração anda a me passar alguns sustos quando o assunto é política e politicagens.
Li outro dia aqui no CORREIO que querem lançar Hélio Costa como candidato a prefeito ano vem. Que maluquice é essa São Jorge – desculpe evocar seu nome em vão, Santo guerreiro, mas apenas a ti posso pedir proteção. Me vem um senhor lá de Barbacena, que não conhece nem onde fica a Morada Nova, Jardim Sucupira. E a Granja Marileusa? Saberia ele onde fica? Duvido que tenha participado sequer de uma edição da maravilhosa Corrida do Cerrado. Dirão que isso não tem a menor importância. Concordo, em parte, mas saberá ele o que é o Cerrado?

Mas e os anseios do nosso povo? Como pensa/ fala, seu sotaque gostoso? Ouço meus filhos fecharem os erres. Nem com quase quarenta anos de Uberlândia consegui perder meus erres arranhados de Belo Horizonte. Imagina o senhor Hélio Costa conversando com o nossa gente. Vai parecer programa de entrevista de televisão, com direito até ao balançar de ombros muito bem capturado nas charges de Valtênio.

Pensa que acabou aí, queridos amigos?

Além do barbacenense, mais um estranho no ninho prepara para se lançar candidato, o zero de votos e ex-suplente de senador, carioca da gema e dos “xis”, Wellington Salgado. Aliás, eu cá na minha ignorância fico a pensar na tal figura de suplente, me explica: isso serve para quê mesmo? Uma pessoa assumir um cargo da envergadura de um senador sem ter tido sequer um votinho? Nem o dele próprio! Fala sério.
Será nossa Uberlândia tão pobre de gente capaz assim? Claro que não! Temos figuras do naipe de Gilmar Machado, pronto para tentar reeleição, temos Odelmo Leão, temos três Prados, um Tenente reformado, temos Leonídio, Luiz Humberto e tantas outras lideranças aqui da terra que verdadeiramente conhecem o chão onde pisam, se não aqui nasceram fizeram vida aqui há décadas.
Falam a língua de nosso povo “como ninguém fala mais” – Saudades, Teotônio Vilela. A lei permite estas coisas, então é direito deles correrem atrás da viúva seja eles de onde forem: Erechim, Quixeramobim, São. Mas que é estranho e esquisito, lá isso é! Sarneys do Amapá!

Fico imaginando o programa eleitoral ano que vem. Que salada de sotaques estrangeiros. Prata da casa Uberlândia, prata da casa… No mais, Gerais.








Jornal Correio em 26/08/2015




Politica municipal




segunda-feira, agosto 24

Domingo no Sabiá




A mais preciosa das minhas amigas me contou aventura. Não satisfeito fui conferir. Tristemente vi, ouvi e senti o motivo de sua chateação.
Domingo tem cheiro de domingo. Parece lógico, mas não é. Conhece por acaso o cheiro de uma segunda-feira, de uma terça?
Os cheiros perfumados começam geralmente nas quintas-feiras, na sexta são mais ainda perceptíveis, explodem em coloridos no sábado e se fixam mansos aos domingos.

Portanto, domingo tem perfume delicado e prazeroso. Esse, em particular, emanava em brisas perfume “floral aquático”, idênticos à criação do mágico perfumista Harry Fremont, aliás, a descrição acima pertence a uma de suas obras primas: O Oui! De Lancôme.
Este era o aroma daquele domingo: Oui! Acordei cedo como de costume. Janela sempre aberta, claridade suave, cantos de milhões de pássaros e tagarelar de maritacas entraram cedo no quarto. Mais realista do que o rei tomo banho para dormir e ao acordar, racionamento que me perdoe, mas esta, juro, é minha única extravagância de consumo. Atualmente tenho apenas um pequeno cacto para cuidar e um jardim minúsculo, portanto, água fica sempre na taxa mínima.

Seguindo plano feito antes de dormir, resolvi correr no Parque do Sabiá e não nos bairros, como faço quatro vezes por semana. Adoro aquele parque, o lugar, as pessoas. Ilha de um verde diferente dentro de uma cidade que parece odiar árvores.

Decidido a dar três saborosas voltas, saío manso, trote leve, aquecendo. Incontáveis bons-dias e acenos de mão muita gente conhecida. Fiz caminho anti-horário. Pouco depois da descida do canil da Polícia Militar, começando a subida para chegar ao zoológico – única parte de lá que detesto – sou adepto do fim de todos os zoos do mundo – me deparo com o motivo da tristeza e revolta de minha especial amiga.

Um dragão mecânico em rugido insuportável, soltando fumaça de óleo diesel no rosto daqueles que ali vão em busca de ar puro e saúde. Além disso, levantando poeira para todos os lados em total falta de harmonia com um dia de paz e lazer. Um funcionário do parque carregava este monstro às costas: um desnecessário espalhador de folha e poeira a vociferar e cuspir de um lado para outro. Aliás, é exatamente o que este equipamento faz. Parente mecânico dos espanadores domésticos, só serve mesmo para mudar as folhas de lugar. Tudo bem que os usem, mas em pleno sábado e domingo? Muita falta de poesia, de sensibilidade. Folha não é lixo, não é sujeira. Deixe-as lá. Não fazem mal a ninguém e o barulho do nelas pisar é parte do sair urbano. Fumaça e poeira em área onde até fumar poderá (e deve) ser proibido quebram toda a beleza estética de nosso lindo parque. Que sabiá ou outro passarinho vai competir com aquele motor poluidor e inútil em limpeza?

Fica aqui um pedido de muitos ardorosos adoradores do Parque do Sabiá. Se acharem que aquele equipamento serve para alguma coisa, por favor, que seja usado em horários especiais, longe das gentes, longe dos bichos.
Aliás: “Você sabia que o Sabiá sabia assobiar?” – Durma-se com um barulho desses.








No Jornal Correio de 23 de agosto 2015



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhNjV5Z00wNjR4NFE/view?usp=sharing

segunda-feira, agosto 17

Sobre o nada




Diz um sábio amigo meu: “para quem não tem nada, metade é o dobro.” Confesso que fiquei muito tempo a imaginar o significado deste nada. Podia ser um nada total, um meio nada, um quase nada com ponta de algo. Hoje, por exemplo, acordei com um nada de escrever, coisa rara. Não que não tivesse vontade, mas não me vinha assunto. Fiquei parado olhando o vazio da folha em branco, hipnotizado pelo nada.

Tinha passado por uma overdose de coisas ruins a semana toda. Algumas me diziam respeito diretamente, outras, ao mundo, da porta para fora. Os noticiários pessimistas, histórias de inflação voltando, economistas nos ensinando como usar nosso rico e suado dinheirinho. O que não devemos fazer para conseguir vencer o mês. Falaram de tudo menos da tal felicidade de se sentir vivo.

Não que ache que a preocupação com finanças domésticas e pátrias não seja de suma importância. Mas nem tudo pode ser definido em cifrões e, muito menos, colocado em escalas e gráficos. Os governos mundiais, assim como as mídias, deviam achar espaço, prioritário e grande, para levar esperança e felicidade às pessoas. Mandatários e as gentes deveriam pôr fim às guerras e abolir vaidades e ambições. Vive-se com pouco. Morre-se e mata-se por menos ainda.

Pois é, cheguei até aqui como náufrago encontra ilha. De repente, uma onda de um azul-turquesa atira corpo desanimado em canto perdido, paradisíaco. Cachoeiras com águas puras e cristalinas, frutas tropicais em abundância, pássaros multicoloridos com seus cantos melodiosos. Riachos repletos de peixes saborosos. Montanhas imensas a proteger de vento sul, bichos de todas as espécies vivendo em harmonia.

Tudo perfeito. Em poucos dias, nosso náufrago se restabelece forte, corado, saciado. Estava feliz com seu, e só seu mundo aprazível. Era um bem-aventurado, nada de contas a pagar no fim do mês, nada de humanos destruindo/poluindo um mundo que longe agora estava. Nada de gritarias, altas falas, tons estridentes, lamúrias e desilusões. Pressa para não perder o capítulo da novela. Não precisa de transporte público, de emprego, de shoppings ou restaurantes.

Nada de música sertaneja, de buzinas de carros, engarrafamentos. Adeus prestações, cartões de crédito, carnê do Baú, sonho com Mega-Sena, fofocas e mentiras. Não mais ter que lidar com ciúmes ou invejas. Pressão doze por oito. Correr 20 km todo dia em praia só sua. Beber água de coco – as paroxítonas terminadas em “o” não se acentuam combinado?

Aí, em outro belo amanhecer, aparece na praia uma linda mulher. Caiu de um navio de cruzeiro, talvez embriagada de solidão. Perfeito demais, roteiro de filme de Hollywood de segunda. Passam a viver juntos e felizes. Por um tempo. Aí, chega uma @#$% de uma cobra e sussurra em seu ouvido: “Come logo essa @#$%& de maçã, pô!”

O mundo vem abaixo. Um dia, ele, em desespero, se atira no mar e dispara a nadar em direção ao sol poente. Sobem as legendas, um imenso “The End” preenche a tela. Nosso náufrago exaurido se apoia em algo vivo e ameaçador, nem se importa, pois vale o dito popular: “para quem está afogando, meu amigo, jacaré é toco.” No mais, Gerais.







Correio de Uberlândia 16 de agosto 2015




 Sobre o nada

segunda-feira, agosto 10

Saracura




Entardece manso. Saracuras cantam logo ali no brejo: três potes, três potes, três potes. Bateu um não estar e não ser. Sozinho, subi e desci escada de casa mil vezes, nada lá em cima, embaixo pouco. Sem fome ou vontade de nada, abro e fecho geladeira três, quatro cinco vezes, de lá só o ventinho frio, nem vejo o que tem dentro.

Hora de dormir que não chega. Tento televisão. Não tem uma notícia boa. Música, penso eu, adoro cantos gregorianos, me lavam alma. Não funcionou desta feita. Faço relaxamento sem nunca ter aprendido. Fico em posição bem confortável, desligo música, fecho os olhos e concentro. Quero pensar em um nada. Relaxo os músculos por partes. Dois imensos minutos se passam.

Coça o nariz, finjo que não está acontecendo. A coceira aumenta, não dá! Levo palma da mão esfrego com força. Volta a tentar meditar. Esvazio os pensamentos, os fecho em baia, pois como tropa selvagem não têm costume a prisão. Percebo em algum canto da mente uma superlotação de pensamentos. Se apertam contra a prisão que criei para eles. Rebelados, pedem ajuda, peço calma por alguns minutos. Vai dar confusão pensar sem pensar.

Agora coça a cabeça, o cabelo. Será por isso que os monges são carecas, penso cá com minha solidão? Não deve ser esse o motivo, pois se cabelo não vão ter para coçar imagina o estrago que faria um mosquito ali pousando no ápice de profunda contemplação mental. Tranco mais estes pensamentos em masmorra.

Beleza, consigo soltar os ombros, antevejo a porta para entrar em alfa. Opa, estou no caminho certo. Certo, né!? O telefone fixo toca. Mas não é possível! Atendo sem paciência. Uma gravação pergunta se sou fulano de tal, se for aperte um se não for aperte dois. Tá certo que aperto o dois, bato o telefone com certa força no suporte. Tem base? Agora até cobrança é feita por gravação.

Meu telefone deve ter pertencido a vários estelionatários ou maus pagadores. Todo dia, uma pessoa com um sotaque diferente liga procurando alguém. Para oferecer doce de leite ou prêmio de rifa é que não é. E o pior é que este número é recente, adquiri há poucos meses, poucos o sabem meu. Volta a posição para relaxar. Quase perto de cochilo, a almofada começa a escorregar lentamente. Abro um olho, a coisinha continua escorregando manso. Aprumo. Definitivamente não vou conseguir nada hoje.

Volto à geladeira. Penso em dar uma corrida boa mas meu joelho está pedindo folga a ponto de me fazer perder a bela corrida de revezamento Uberlândia-Romaria. Abro a porta da prisão dos pensamentos, eles chegam como pororoca e se espalham misturados na praia de meu estar. Como quebra-cabeça ou bibliotecário, vou colocando cada um deles em sua devida prateleira, alguns ariscos, tentam me escapar. Passo peia, laço outro longe a se perder. O melhor é deixar passar, respirar fundo, mergulhar em sono repleto de sonhos. Amanhã, tudo estará novamente no lugar.

E as saracuras, agora, em maior número engrossam coro melancólico e, pelo que sei, partem para festa no céu, quebrei três potes, três potes, três potes, com um coco só, um coco só, um coco só.









Jornal Correio em 09 de agosto 2015



segunda-feira, agosto 3

Cantada




Adoro rádio. Nada melhor para dormir do que um rádio à válvula, daqueles que custam a esquentar e ficam zumbido em estática o tempo todo. Ganhei um assim do grande amigo Júlio Penna. Este, sim, entende de rádio, tem dezenas. Fuça, busca peça, conserta, ajeita e os deixa prontos para quem gosta de viajar nas ondas longas, médias, curtas e frequência modulada. O presente apresentou um pequeno problema ao regular volume e ele o levou para arrumar.

Alguns preferem som remasterizado, livre de ruídos e outros atrapalhos. Particularmente, os tais atrapalhos é que me fascinam.

Ouvir uma Nina Simone em um ensaio em plena Nova York e, ao fundo, ouve-se o telefone tocar, carros buzinam lá fora. Quem ligou em pleno ensaio? Algum diretor de teatro da Broadway? Um restaurante na 150 West 57th Street? O Russian Tea Room, por exemplo, confirmando reservas? Ou simples nightclub onde ela poderia soltar a voz e beber em paz? E as buzinas, qual a marca dos carro? Um tradicional Ford preto? Um Oldsmobile imponente? E a causa de tanta aflição? Mulher em trabalho de parto, alguém ferido a bala por algum gangster? Ou simples impaciência com um trânsito já caótico da Grande Maçã nos distantes anos 30 do século passado?

Tudo isso e muito mais se pode criar com a cabeça no travesseiro, ouvindo rádios e suas estáticas. São viagens infinitas a cada mexida no seletor de estação.

Antes de ganhar joia rara de Júlio, comprei um rádio moderninho. Não queria aqueles que tocam CD, queria um rádio e pronto. Na pressa, levei para casa o bicho.

Para meu espanto, o danado só toca rádio FM, nem AM tem. Uma tristeza. Tive que me conter com o danado.
Achar estação do agrado à noite é que era complicado. Ou era rádio de igreja exaltando pecados e castigos aos quatro ventos ou era música sertaneja universitária – vai ser chato pra lá. Bom, vai ver que o chato eu sou. Nada de noticiários, nada de preamar, aviso aos navegantes, nada dito em voz suave de locutor tipo Eldorado de São Paulo – “Artes e entretenimento” seu lema. Saudades do “Varig é dona da noite” ou de “Um instrumento dentro da noite”, aqui não pega.

Resignado, me deixei levar, colocando atenção às letras das músicas e se conseguiria me soltar em pensamentos. Dou exemplo de duas estações, sem citar nomes para não magoar ninguém, que tocavam músicas com letras que poderiam parecer cantadas a uma linda mulher. Uma de muito bom gosto tocava um gentil Caetano: “Fonte de mel/ Nos olhos de gueixa/ Kabuki, máscara/ Choque entre o azul/ E o cacho de acácias/ Luz das acácias/ Você é mãe do sol (…) Você é linda/ Mais que demais/ Você é linda sim/ Onda do mar do amor/ Que bateu em mim” e seguia. Outra estação tocava algo assim: “É bonita/ Você sabe que é bonita/ Mas eu sei que é bandida (…) Você com essa cara de santa/ Mas a falsidade é tanta/ Só eu mesmo sei dizer (…)”

Não sabia se ria ou chorava. Me conte você, moça, mas com sinceridade, qual das duas cantadas você gostaria de receber?

Júlio, querido amigo, que falta está fazendo o velho e bom Vintage Crosley anos 50…








Jornal Correi em 2 de agosto de 2015



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhLXhtclFmc3lFWUU/view?usp=sharing

segunda-feira, julho 27

Yes we C. A. M. !




Amanheceu quarta-feira. O ano 2013. Pode parecer coisa de filme americano, quando o advogado em julgamento caminha lentamente em direção ao  réu,  de costas para testemunha interrogada , pergunta levantando o braço direito, entre seus dedos rodopia uma caneta tinteiro:
─ Onde o senhor estava  dia 23 de julho de 2013 às vinte e cinquenta  da noite e o que fazia ?

Posso quase apostar que poucos que passarem os olhos por estas mal traçadas linhas lembrarão. Puxe da memória, caro leitor, difícil, não é? O engraçado é que nos filmes o interrogado dá detalhes. Queria ter memória assim.
Mas se me perguntarem onde estava e o que estava fazendo nesse dia, posso jurar sobre todos os livros sagrados que saberia dizer.
Conto.
O amanhecer já foi estranho, um friozinho incômodo se fazia mostrar, pelejando para nos deixar mais um pouco sob as cobertas. Mas não dava para dormir, o dia prometia ser longo e arrastado, uma multidão de gente tinha um compromisso à noite e o esperar doía.

Ensimesmado, perdendo conta de quantas vezes olhei para o relógio naquele dia. Nada parecia estar bem. Havia algo diferente no ar e não eram os “aviões de carreira”. Trabalho, almoço, soneca, mas qual que nem cochilo. Em dia de 220 horas finalmente anoiteceu, era pouco para a ansiedade de que dar 9 e tanto e esta não chegava.
Que vontade de estar em minha Belo Horizonte natal, enfrentado o caótico trânsito da Avenida Antônio Carlos a caminho de nossa casa na Pampulha: o imponente Mineirão. A Galoucura se fazia ouvir “O Mineirão é nosso!”

Final da Libertadores. A coisa, nossa situação não era das melhores. Espaço pouco resumo. Primeiro tempo de arrancar cabelo. Nada de gol.
Primeiro minutinho do segundo tempo, Jô! Esperança reacende, jogo suado e sofrido como tudo na vida de um bom atleticano e só aos 40 e poucos do segundo tempo Leonardo Silva emplaca dois a zero. Prorrogação de garra, mas deu em nada, levamos para os pênaltis. E pensar que tudo começou com o pé abençoado de Victor ao defender chute perfeito de Riascos em pênalti contra o Tijuana . Não, nada podia dar errado, não agora pô!

Miranda do Olímpia de cara perdeu sua cobrança.
Alecsandor, Guilherme, Jô e Leonardo Silva deixaram suas marcas, o Mineirão tremia. Gimenez se deu mal e mais uma vez a estrela de “São Victor” brilhou como super nova e garantiu o título continental Galo Campeão da Libertadores de 2013! Me desculpe Giafrancesco Guarnieri mas “O grito parado no ar” ecoou por toda Minas, desceu das montanhas, invadiu as Gerais navegando por rios e córregos, desaguou em rincões e sertões adentro a notícia, como revoada de aves migratórias se espalhou ligeira a festa. Estava só começando e eu, meu filho e minha filha, dormimos com sorriso no rosto.

Disse para Pablo, cruzeirense de carteirinha que falar do galo é falar de sol em invernada de Macondo, é levar luz para a caverna mitológica de Platão, era salvar Julieta de Shakespeare mudando final de seu clássico. Ele, gozador, pediu menos poesia, ao que respondi: “Não, amigo celeste, quero mais, a poesia de vestir sempre a camisa 12 alvinegra! Afinal ser Atleticano e como ser mineiro, é um “estado de espírito”. Galo forte Vingador!







Jornal Correio em 27 de Julho de 2015



sexta-feira, julho 24

Domingo na praça









"sussurro sem som onde a gente se lembra que nunca soube."



João Guimarães Rosa 

segunda-feira, julho 20

Camafeu

(Foto: Carlos Nader/GOVSP/Divulgação)

Talvez essa moçada, aqueles que não conheceram bonde – o de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, não vale, que não têm a mínima ideia ou, no máximo, ouviram falar de videocassete, máquina de escrever, monóculo com foto, câmara fotográfica com rolo de filme. E, o que é pior, nunca se deram ao prazer de ler clássico de nossa e da literatura mundial. Esses talvez também não devam ter a mínima ideia do que seja um camafeu.

Camafeu vem de longe, séculos antes de Cristo. Encontrado em escavações arqueológicas, pelo visto, sempre foi um enfeite. A realeza egípcia era vaidosa ao extremo, nunca entendi o motivo de só serem pintados de perfil. Bons em invenções e construtores audazes, eram ruinzinhos em perspectiva. Ou, então, pediam para crianças pintarem tumbas e pirâmides como parte do ensino para se tornarem futuros arquitetos. Se foi assim, enganaram a todos que profanaram seus santuários. Doce deboche.

Geralmente, camafeus são feitos em pedra preciosa, trazem delicada escultura em alto relevo. Já foi pingente, mas nossas avós os usavam em seus xales, cheirando a água de lavanda, como prendedores. Existem peças maravilhosas em museus mundo afora.

Década de 80. Em jeep emprestado da Secretaria de Estado da Saúde, cinza, capota de lona rasgada, queimando óleo quarenta, ao passarmos pela então tranquila praça Tubal Vilela, avistamos sujeito vendendo filhote de tamanduá, assim na cara dura. Naquela época, as leis de proteção de fauna, se existiam, ninguém dava a menor bola. Pedi para parar o projeto de sucata e desci cuspindo fogo pelas ventas. Dei uma danada de uma bronca no sujeito. Aí, me contou que matou a mãe para comer e queria vender o filhote, tinha família com fome, vinha de um longe Nordeste. Bateu-me uma vergonha sem tamanho, miséria levou aquele homem a um ato que para ele era normal, só queria, como qualquer um, sobreviver e salvar os seus.

Comprei o bichinho, ganhei um problema. Como todo bom tamanduá miúdo, acostumado estava em ficar agarrado com a mãe. Não deu outra. Já no pegar, o pequenino se agarrou a mim em busca de proteção, carinho e calor. Aninhou mesmo. Adotamos o tamanduá e passamos a revezar no carregar e alimentar. Tereza, colega de trabalho, batizou-o de Camafeu, que ficou conosco muito tempo, cresceu forte, às vezes, gripava, e não tinha cerimônia em correr aquela língua gelada em quem o pegasse no colo.

Dia chegou de deixá-lo ganhar mundo. Debaixo de tempestade de choro das meninas e muito nó na garganta e falta de coragem de verter lágrimas, nós entregamos Camafeu para a Florestal, esta seguramente o soltou em local apropriado. Hoje, já deve ser avó ou avô, tanto trato e nunca olhamos se era macho ou fêmea.

Quanto à máquina, a minha é uma Remington, não o revólver ou rifle, é de escrever, sabendo que palavras são bem mais poderosas do que armas, para não perder a chance de usar um lugar-comum. Vi charge genial onde o pai escrevia em uma máquina e o filho, tipo geração Y, observava fascinado. Eufórico disse: “Pai, que doido, esta máquina é tudo de bom, é só escrever que ela já imprime!”

Sinal dos tempos…






Jornal Correio 19/07/2015



 Camafeu

segunda-feira, julho 13

Cafubira





E o balão vai subindo, vem caindo a garoa/ O céu é tão lindo e a noite é tão boa/ São João, São João!/ Acende a fogueira no meu coração!
Canto outra:
Capelinha de Melão é de São João/ É de Cravo é de Rosa é de Manjericão/ São João está dormindo/ Não acorda não !/ Acordai, acordai, acordai, João!

Agora, querido amigo... Quantas vezes nos últimos anos ouviu estas cantigas em alguma festa junina? Sei, nenhuma, não é?

O dia 24 deste ano foi o mais silencioso do ano, não se ouviu foguetório de alvorecer, nem vi nas ruas as pequenas fogueiras tão comuns. E olha que caiu numa sexta-feira, dia de relaxar e festar.
A única festa perto de autenticamente São João de que consegui participar foi em um Centro de Formação, tudo muito organizado, crianças dançando quadrilha, correio elegante, canjica e quentão. Pescaria, pipoca, pé de moleque. Claro, não faltou o horror de música sertaneja universitária e show lindo por sinal, de uma intercambista canadense que cantou em voz idêntica a Whitney Houston, dentre outras My Heart Will Go On – aquela da trilha sonora do filme Titanic.
Traques, espanta brotinhos, cheiro de pólvora no ar. Mas nada de tradição junina na essência.

Junho se foi em silêncio, sexta 24 não teve missa para o Santo regente na catedral.
Esqueci de mencionar Santo Antônio. Será que vela foi acessa pedindo casamento ou hoje se busca par pelo Face tão somente?
De São Pedro, coitado, o ultimo do calendário, nem notícias.

Entra Julho começam as festas, vai entender.
Lá vou eu visitar festa “julhina”.
Me deu a impressão de feira gastronômica. Tudo muito organizado mas o foco era comer e beber. Filas e mais filas. Imensas filas. O quentão quase vira “frião” e cachorro quente torna-se “cold dog”.
Foi me dando uma cafubira lascada.

Começa com um bater de pés involuntário e incontrolável, ganham vida própria e sapateiam sem parar, não adianta tentar segurar o joelho, a impulsão é mais forte do que a gente. Sobe então para as pernas que, num desajeito incompreensível destampam a bater joelho com joelho se estiver sentado, se estiver em pé a sensação que cada perna quer tomar um rumo. Sobe para a boca do estômago, um aperto que só chega a um peito arfante e para na garganta em nó. Aí seu moço, dona moça, dá uma nervura de passarinho engaiolado a bater bico em tela de arame até sangrar e, deságua em sapituca da braba, um endoidecer de filha de Sorôco, de Rosa, “enfeitada de disparates”. Assim me sentia naquela noite de festa São João.
Tudo isso ao som de uma desarranjada “dupla de dois” sertanejos universitários, eita povo que não gradua nunca! Peixes fora d’água, não era local nem hora. Vazei depressinha.

Volto no domingo para almoço. Redenção total. Música boa, de um bom forró nordestino lá onde São João é reverenciado com paixão e fé mês inteiro. As vaidades desfilantes da noite foram deixadas em casa e as pessoas mostravam a simplicidade que tanto pregava o dono da festa. Passei tarde iluminada e feliz. Volto ano que vem, de dia.
Cafubira passou, é assim do jeito que vem, vai.
"São João acende a fogueira de meu coração".










Publicado Jornal Correio em 13 de julho de 2015