segunda-feira, novembro 23

Com “oui” ou com uai





O título aí no alto peguei no Facebook, uma alusão às duas tragédias recentes. Mariana e Paris. Dei uma de químico da observação e deixei decantar os comentários torrenciais que, como o mar de lama da Vale do ex-rio Doce, entupiram as redes, devastando tudo. Pacientemente, esperei a poeira (?) baixar um pouco e me arrisco a dizer o já dito. Não quero entrar no mérito do ranking da tragédia – qual é mais ou menos “importante”. Aqui vão apenas observações minhas que, certamente, vão provocar a ira e indignação de alguns. Sabemos que daqui a alguns dias – e serão poucos – o acontecido em São Bento, assim como lá do outro lado na cidade Luz, não passará de notícia antiga e não comoverá mais ninguém, vamos ser honestos pelo menos com a gente mesmo. Aqui obviamente não me refiro a pais, mães, irmãos e amigos, para os quais a dor será eterna.
Alguém ainda chora os mortos da boate Kiss?

Quantos ainda rezam por Aylan Kurdi? Esqueceu quem é? Aquele menino lindo morto numa praia na longínqua Turquia das “Mil e Uma Noites” – e pelo amor de Deus, não me refiro a nome de novela!
A mesma mídia que traz a tragédia é a mesma que a apaga, substituindo manchete que já não mais vende. Secam o bagaço da dor e o jogam nas nossas caras como se nada tivesse ocorrido.

Mas aqui quero mais é falar ou desabafar. Nunca em minha vida tinha visto um clima tão hostil, tão medíocre. Qual tragédia é mais importante, a nossa ou a deles? Qual a imprensa cobre mais, dá mais tempo à nossa ou à francesa? O tempo de televisão parecia coisa de campanha política, cada um tem de ter o mesmo tempo, nenhum segundo a mais do que o outro. Mediadores? Milhões de brasileiros inconformados. Quem são esses caras que logo agora aparecem para estragar nossa tragédia pessoal? O maior desastre ambiental nacional vai ser ofuscado pelas luzes de Paris? Que absurdo as cores da bandeira da França no Palácio do Planalto! E nós, em “Bleu blanc et rouge” e nem por isso sofri menos pelo nosso doce rio e sua lama assassina.

Não existe um medidor de tragédia, todas são sinônimo de sofrimento, dor profunda. Lágrimas. Uma, a de São Bento resultado de negligência, descaso, usura, ganância. A outra fruto da intolerância, do ódio. Já as vidas perdidas na lama ou na bala são idênticas.

Nós, brasileiros, nos tornamos competitivos até nisso, menos no que realmente interessa. O bem comum que se dane. A clássica frase de que “Mineiro só é solidário no câncer” serve para uma nação inteira, principalmente aqueles aculturados apenas pelas redes sociais, onde o “profundo” é de um reducionismo horripilante. Será que é falta de futebol decente? Sem futebol, sem piloto de fórmula, um de destaque, só restando os gritos de locutor imbecilizado que mora fora do Brasil?

Choro e convido a todos, por ambas as tragédias e por muitas outras já esquecidas. Rezo do meu jeito sempre por todos os Aylan Kurdi do mundo, sejam de onde forem e que se lasque o imbecil ufanismo da miséria, da morte, da dor criado – pelo visto – apenas aqui em nosso País. Somos maiores do que isso.
Termino com frase de minha filha, que, por sinal, se chama Mariana e não é mera coincidência, que escreveu em sua postagem única, pois inteligentemente não ficou dando corda para os sectários da miséria, da abjeção: “A única religião de que a humanidade precisa é o AMOR.”






Escritor e poeta do invisível


Jornal Correio em 22 de novembro de 2015




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Vigília

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Como diria Charlie Brown para Snoppy, ambos filosóficos personagens do saudoso cartunista Charles Schulz, que nos deixou há mais de 15 anos, “criador da tirinha “Peanuts”, um dos maiores fenômenos mundiais dos quadrinhos” segundo o jornal “Folha de São Paulo”. Outro dia falei de rede social, mas este infinito mundo de bites, cálculos geodésicos, PHPs, Java, além dos às vezes indecifráveis “vc”, “tb”, “naum”, “fmz”, “ahsuhaisjslaskdjlsk”, nos oferece um mundo novo de oportunidades únicas, basta saber usar.

Bom, mas deixemos para programadores e, principalmente, para educadores o assunto avaliarem e discutir onde tudo isso vai parar, do desenvolvimento de programas ao crescimento humano. Nós leigos nos limitamos a tentar usar de tão rica ferramenta da melhor maneira possível.

Voltando à vaca fria ou aos nossos carneiros, “revenouns à nous moutons”. Na tirinha mencionada antes do divagar, Charlie Brown, sempre pessimista, em suspiro reflete:
“– É, algum dia todos nós vamos morrer, Snoopy.

Ao que fiel escudeiro, o filósofo das banalidades profundas, o cãozinho Snoopy imediatamente retruca:
– Verdade, mas todos os outros dias, não.”

Conto este caso para poder contar outro que ouvi de uma amiga de longe, sem tentar atrapalhar o domingo de ninguém, pois infelizmente falar de morte aqui no ocidente, esta passagem ainda é vista com medo e reservas sendo que assim não deveria ser, como um dia diz Charles Bukowski: “Todos vamos morrer, todos nós, que circo! Isso sozinho deveria nos fazer amarmo-nos uns aos outros, mas não faz.”
Sem mais enrolação cara, ao caso enfim!

Mãe e filho cumprem a dolorosa obrigação de irem a um velório de parente distante, pouco visto, pouca relação, a última vez que toparam em vida o tempo tinha apagado lembrança. Mas fazer o quê, e lá se foram cumprir ritual. O falecido teve vida boa e morreu de morte natural morrida mesmo às vésperas de completar cem anos, nunca tinha ficado doente, nem gripizinha dessas que todos nós pegamos com frequência mesmo após o advento da vacina contra as danadas.

Sua comida foi sempre feita em banha de porco, adorava ovos e carne mal passada. Nunca abandonou sua cervejinha de fim de semana e a pinguinha diária antes do almoço. Para deixar muitos com inveja, morreu, fez a passagem, desencarnou, bateu com as dormindo e em paz. Muito rico, não deixou testamento, a família agora como de praxe ia se desintegrar em brigas pelo espólio do falecido.

Lá pelas tantas, enfarado obviamente, criança em velório é tortura, e não aguentando mais puxou a barra da saia da mãe e cabreiro sussurrou:
– A senhora já veio aqui antes?

Achando que o filho estava confuso com aquilo tudo, pois era debutante em velórios, a mãe diz que sim, várias vezes e tentou engasgada, explicar ao filho o sentido e da brevidade da vida. Mas qual, pergunta veio na lata:
– Então, você sabe se aqui tem Wi Fi. Qual é a senha?

A mãe fechou a cara horrorizada e disfarçadamente, mas rosnou:
– Respeita o defunto…

O menino com sorriso estampado no rosto, não se conteve, rumorejou eufórico:
– Tudo junto, mãe!?







Jornal Correio em 22 de novembro 2015





Vigilia

segunda-feira, novembro 16

Nove moças e um frango


Imagem da web
O ano? Não me lembro mais. Época boa, estudante morando em república, precisa mais? Apertos comuns a todos e já deles falei, mas que eram recompensados por uma vida em que a maior preocupação era fechar todas as matérias do período. Apesar de o curso ser integral, dava-se jeito de trabalhar à noite. Aulas de inglês. Puxado, mas divertido. As repúblicas faziam alegria e aborrecimento da cidade, morar vizinho de uma podia ser sinal de dor de cabeça. Sempre tivemos vizinhos muito bons e compreensivos, nos suportavam, relação harmônica.

Pois foi nesse tempo que aconteceu ótima passagem. República só de garotas. Nove de uma vez, cobiçadas, viviam cortejadas por filas imensas de estudantes vorazes em adolescência. Moravam em um prédio baixo, três ou quatro andares apenas. O apartamento delas parecia dormitório de colégio interno de freiras. Sete camas militarmente enfileiradas e, ao fundo, um beliche.

Sempre imaginava como seriam as noites ali. Lá pelas tantas, os falares dormindo, os roncos, é, acha que não? Meninas também roncam e alto às vezes. Pensa-se que cozinhar não seria problema, pois dezoito prendadas mãos estariam ali sempre alegres e dispostas a fazer almoço e jantar. Vai nessa. Pena que em nosso tempo não existia Restaurante Universitário (RU). Ali nas meninas custava sair um café. Nove de uma vez, cada uma com um gosto, cada uma com desgosto de alguma coisa. Coentro nem pensar, sal de mais, sal de menos, comida no óleo, comida na banha. Melhor era cada uma comer onde bem entendesse.

Ciclos menstruais sincronizados têm disso, convivência. Casas dos horrores de cólicas e humor tétrico, TPM voando pela janela em rosnares. Ai do moço estudante que aparecesse por lá nesse período rubro-negro do mês. Assim eram as nove meninas. Um belo dia, resolveram, depois de muita, mas muiiiita conversa, fazer um frango caipira. Uma delas trouxe de casa na roça um vivo. Começou o dilema, quem ia matar o penoso. A faca de pouco fio, como quase toda faca de república feminina, passava de mão em não.

– Não pode ter dó senão não morre!

– Eu não faço isso nunca, faço veterinária para cuidar de bichinhos e não matá-los.

– Ah sei, mas churrasco no Vila Verde você come, né!

Passa o tempo. Tentam imobilizar o frangote. Uma segurando numa asa, outra noutra e nas pernas mais duas. Seis para imobilizar, uma para sangrar. Arrancar as penas do pescoço outro sofrimento.

– Pega minha pinça de sobrancelha – gritou uma. – Tadinho…

– Já diz, não pode ter dó! Ai é que não morre nunca.

Tarde caindo, fome apertando, o galo exausto quase se matando para ter sossego. O que se via eram nove meninas descabeladas, suadas, espalhadas pelos cantos. Não deu outra, desistiram e, banho tomado, refeitas e maquiadas, faceiras foram comer galeto frito no Sobrado, felizes da vida ver os moços e serem vistas. De lá para o Pedal (D.A. da Pedagogia, Economia, Direito, Artes e Letras).

Quanto ao frango. Bom, este também se refez, trocou penas, saiu da requeima do pretenso sacrifício, mudou-se para terreiro de vizinho das meninas. De lá, toda madrugada, cantava forte atazanando-as até que formadas, foram embora cada uma para seu canto.







Jornal Correio em 15 de novembro de 2015




Nove moças e um frango

segunda-feira, novembro 9

Fim de temporada

Fim de temporada de corridas no asfalto, uma ou outra pode surgir, mas meu calendário 2015 oficial encerrou. Fechado com chave, ops, com medalha de OURO na #Udi21. Ficam algumas trilhas por fazer. Pois que venha 2016 com muito, mas muito chão.





Sincericida



Pois não é?! A gente chega a certa idade em que as coisas ficam de uma simplicidade que só. Não me refiro à idade contada em primaveras, luas, sóis, mudas de pele ou carnavais. Falo de uma era que está dentro de cada um. Conheço muito menino velho e um tantão de velho menino. Aqui, uma pausa para, pela última, vez, explicar gênero. Meninas velhas e tais estão também incluídas.

O lance é que, da mesma forma que me nego a adotar a tal nova ortografia, a questão de gênero nos escritos não me pega. Sou, sim, plenamente concordante quando diz respeito ao ser humano, suas escolhas, sua liberdade. Não me refiro aqui a essa chata linguística, mas à diferença e discriminação de escolhas pessoais e intransferíveis. Achei um absurdo negarem este direito à discussão nas escolas mornas e carregadas de preconceitos, debate vazio de bom senso, sobrou hipocrisia.

O linguista, semiólogo, filólogo, poeta, entre outras coisas, Aldo Bizzocchi, lança luz sobre o dito: “[…] há uma pitada de “politicamente correto” nessa história, já que gênero seria, supostamente, uma palavra mais “neutra”, sem conotações sexistas […]”. Sinceridade? Uma afronta à inteligência de nossas crianças que, assim, perdem uma oportunidade ímpar, em pleno século 21, de colocarem a cabecinha para pensar aberto, a entender e respeitar diferenças. Seremos lembrados como o século da caretice. Uma pena.

Explicada a minha posição em relação aos “os” e “as” definitivamente? Então, pronto. Como eu dizia, os jovens velhos são, literalmente, um pé no saco. Parecem abacate madurado embrulhado em jornal ou dentro da saca de arroz, da tulha ou ‘tuia’, aqui em nossa Minas. Sem gosto, sem sal, sem doce. Chatos precoces, se acham. Ô paciência! Vai discutir com eles Kant, Maquiavel ou Dante – aprendido no wikipédia – interpretações de arrepiar careca. Moinhos de Don Quixote, amor de Quasimodo pela cigana Esmeralda, fariam Cervantes e Victor Hugo dar piruetas no céu dos escritores.

O que vem acontecendo comigo é que peco quando em vez por excesso de sinceridade. Minha cota de sapos finalmente se esgotou. Sei que posso, às vezes, passar por mal-educado ou até grosso. Não, grosso não, mas me nego a esconder o que penso e como penso. Acontecidos errados, injustos que vejo/ouço não me calo mais: conto, defendo, denuncio publicamente. Amiga comadre, que padece do mesmo mal, recentemente me alertou que gente como a gente pode estar sujeito a um “sincericídio”, pois o ditado popular nos alerta; “o peixe morre pela boca”. Não adianta procurar no dicionário, pois é palavra criada, língua viva. O “sincericida” não é, mas pode se tornar ato dramático ou, no mínimo, injusto. A liberdade de expressão só livre se agrada, caso contrário, fadado a perseguição e inimizades.

Pagamos o preço de ser absolutamente livres; não tememos represálias nem opressão. Paz de consciência. Ah, e somos bons no que fazemos, além de modestos, é claro. Se é disso que vou morrer, me vou tranquilo, “Duela a quien duela”, mas palavras de certo caçador por nome Fernando. Quer mais? Não carece.








Jornal Correio em 07 de novembro de 2015




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terça-feira, novembro 3

Panta rei



Maravilhosa chuva de quarta passada, pena, não choveu em toda cidade, todos mereciam seu frescor revitalizante. Aos primeiros pingos grossos, podia-se notar a poeira da calçada se debatendo em agonia. Milhares de grãos de terra levantavam em minicogumelos atômicos, espalhando pó para todos os lados. Durou pouco. Logo a chuva ritmou em nota única e debruçou forte lavando chão, telhados, folhas e almas. O pó se foi enxurrada abaixo. Aos poucos, outras notas eram ouvidas; bicas d’água nos telhados, o batido da água em folhas e grama, o tamborilar em latas e baldes. Metais, cordas, sopro, percussão. A regente? A chuva. Bem-te-vis aguardavam quietinhos o poslúdio de bela sonata.

A primeira vontade foi de sair e abrir os braços sob o toró. Cheguei a tirar as sandálias e caminhar para a porta. Em outras épocas, iria direto para a chuva e ali me deixaria ficar. Parei na varanda. Me peguei olhando de um lado para outro como se estivesse prestes a cometer ato falho. Não deixou de ser, pois dei um pause na minha mais forte vontade, um dedo repressor imaginário me apontava.

Casa nova, vizinhança pouco conhecida, me deu certo receio. Explico, mudei para onde estou há pouco tempo, depois de morar quase três décadas no mesmo lugar. Como em Pasárgada, na casa que escolhi construída a gosto e jeito.

Não conto história com tristeza ou mágoa. Conto fato, como certeza da permanente mutabilidade de nossos rumos. Não sou vítima nem algoz de absolutamente nada. Sou consequência, ou parte dela. Não dominamos nem o segundo mais próximo a nós, imagina uma vida inteira.

Agora morando só em lugar diferente, respirando ares novos ainda não me sinto tão à vontade. Caminho para isso. Tempo.

Parei na pequena varanda e me satisfiz com os respingos que, em segundos, molharam minha perna, meus pés, meus pensamentos. Encostei na parede, me dei por saciado com o carinho que a fria água fazia. Afago gratuito, sem cobrança, sem pedir nada em troca.

Um beija-flor pousou em trepadeira florida que se dobrou bela bem defronte à minha porta, aproveitava sabiamente os mesmos respingos para se banhar nas folhas. De tão miúdo, um único pingo poderia lhe trazer sérios problemas, uma asinha quebrada, uma dor de cabeça imensa caso o acertasse em cheio entre os olhos. Olhos estes que, quando me dei conta, pareciam me fitar. Com curiosidade devia pensar: “Poxa, uma coisa tão grande e com medo da chuva? Ou esse humano sabe de algo que não sei?” Deu de ombros, deu de asas e bico e continuou seu banho de fazer inveja, pensamento livre de medos e solidão. Ele, pequena joia, se bastava em sua felicidade.

O ar agora cheirava, finalmente, à primavera. Outubro se vai ligeiro, as águas aguardam em algum porto o momento de desembarcar e saciar nossa sede de vida.

Nada é para sempre. Nem os sentimentos mais profundos, meras impressões do vivido, nem as mais prolongadas secas. Panta rei, tudo muda. Mesmo quando verdes musgos tudo dominarem e as roupas e casas cheirarem mofo e alguns começarem a maldizer invernada. Ovos nos mourões de cerca e rezas para Santa Clara, fica a certeza. O sol voltará a brilhar. Heráclito era o cara.







Em Jornal Correio de 1º de novembro de 2015



Panta rei

segunda-feira, outubro 26

Happy hour



Tenho um sentimento de dor e alegria quando boto reparo em artistas da noite. Músicos, cantores lutando para sobreviver e tendo de se expor a situações, para mim, constrangedoras. O pessoal lá dando sangue em seu trabalho e a plateia… Disse plateia? Pessoal do bar, do clube ou seja lá onde for, pouco se lixando para o que toca. Ao fim de cada música, uma ou duas pessoas batem palmas tímidas.

Outro dia, em um happy hour desses por aí, ouvi de um violonista muito bom um agradecimento inusitado e bem-humorado:
– As palmas são poucas, mas sinceras, diz filósofo chinês Ping Pong Pung.

Achei perfeito. Mesmo assim, os pedidos de músicas não param de chegar, seja por grito de algum bebum, seja pelo antigo papelzinho levado pelo garçom. Os caras são heróis. Rendo aqui minha homenagem a todos os artistas da noite. Vocês, são guerreiros.

Aproveito e reconto caso que há muito tempo ouvi. Noite alta, madrugada querendo descansar em bocejo comprido silencioso, só esperando sol dar as caras. Entre prédios da cidade grande o amanhecer demora mais um pouco, a linha do horizonte já não se delimita por montanhas, mar em beijo de bom-dia com as luzes do alvorecer.

Em ambiente assim tomado de fumaça, mesas empilhadas, garçons já sem suas roupas de trabalho aguardam pacientemente, escorados em balcão de couro, um último freguês. Ali jamais amanhecia. Conhecido da casa, não podia ser enxotado. Ao piano desgastado pelo tempo, mas muito bem afinado, tocava de olhos fechados em longo cochilo. Anos na noite o ensinaram esse maravilhoso truque. Sob a madeira repleta de manchas de copos, quieto sem gelo, produzindo pequenas ondas circulares no amarelo ouro da bebida a cada nota mais forte, uma dose generosa de uísque.

O músico de olheiras fundas, paletó jogado a canto e gravata com nó desatado, atendia um a um os pedidos do incansável ébrio cliente. De sua mesa, observava com a atenção que ainda lhe sobrava o vazio salão. A cada fim de música, batia frenéticas palmas e gritava a plenos pulmões: “Bravo!” E seguia, “toca aquela”. Pianista agradecia mecanicamente, com um suave balançar de cabeça e gentilmente, atendia pedido. Gorjeta polpuda, e sabia disso.

Hora, do nada, um macaquinho apareceu entre as mesas, subiu no piano e cuidadosamente subiu no copo de uísque, molhou o rabo e correu para longe. Pianista nada percebeu, já o cliente, em susto, quase caiu da cadeira, esfregou com força os olhos pensando estar louco. A cena se repetiu duas, três vezes. Coração aos pulos, levantou cambaleante e derrubando cadeiras empilhadas chegou ao piano e sussurrou ao ouvido do velho músico:
– Escuta, o macaquinho molhou o rabo em seu uísque.

Este parou um pouco, como a decifrar o lhe foi dito. Do nada e em espanto de olhos agora bem abertos de conhecedor de tudo que se toca na noite, bateu a não no teclado e quase em gaguejo respondeu:
– Caraca meu, esta eu não conheço, mas faz o lá-lá-lá que eu te acompanho.

Não sei o motivo, mas me veio à cabeça Humphrey Bogart, genial, interpretando Rick Blaine em “Casablanca”. Disse ou não disse?
– Play it again, Sam!






Jornal Correio em 25 de outubro de 2015



Happy hour

segunda-feira, outubro 19

Zumbido



Menino novo antenado com as tecnologias. Esforçado na escola, aluno de Veterinária na Federal de Uberlândia, um dos dez mais conceituados no País. Vida seguia calma e sem atropelos. Um sobressalto matutino mudaria o correr de riacho entre veredas sombreadas, onde o som mais alto que se fazia ouvir era o pulo da cachoeirinha batendo em poço largo e fundo, onde a bicharada estava acostumada a se refrescar e molhar pelos e penas.

Em susto, coração disparado, sentou-se ligeiro, de olhos arregalados na cama. Vozes, milhares delas começaram a conversar dentro de sua cabeça. Sacudiu, bateu a palma da mão aberta na testa por várias vezes e nada. As vozes agora cantavam um sertanejo universitário, talvez o sabendo ser ele estudante de Veterinária, em um querer lhe agradar. Sua vida dali para frente virou um tormento. Dia e noite eram músicas sobre músicas. No começo, lhe apraziam, pois faziam seu gosto musical, mas a repetição sem fim foi lhe cansando, levando-o à exaustão.

Não contou para ninguém sobre o martírio por medo de lhe considerarem louco. Mas as mudanças físicas, de tão visíveis, chamaram a atenção de seus pais. Sorte sua não morar em república como em nosso tempo, pois, se assim fosse, a chance de alguém notar seria mínima. E só em tempo de férias ou feriado prolongado, em casa, atinariam que algo não estava certo.

Se antes falava manso, seu tom de voz agora era outro. Vociferava na tentativa de vencer aquele suplicio musical. Passou a ter sérias dificuldades de aprendizado e relacionamento, escondia-as do mundo em canto escuro de quarto num balançar de corpo frenético. Sofria.

Não atendia os telefonemas de namorada nem dos colegas e faltava às aulas com frequência preocupando a todos. A família se pôs atenta e mesmo contra a vontade do nosso rapaz, conseguiu convencê-lo a duras penas a procurar ajuda médica.

Acompanhado de pai e mãe pegaram rumo ao recurso. Psiquiatra, mãe?! Ah não, vocês também estão achando que fiquei doido? Calma, filho, vai dar tudo certo! Ela, carinhosamente, lhe afagava os cabelos. O pai, solidário, não largava ombro do filho em carinhoso abraço. Sala de espera. Horror dos horrores, tempo não passa. Daí, talvez, acho que já disse isso, venha o nome paciente. Pois haja a bendita.

Finalmente chamados, entraram os três, pois sozinho ele ia não. Exame clínico ligeiro, passou a inquiri-lo com jeito sereno dos especialistas.
— Tem tempo que vem ouvindo estas vozes, estes cantos?
— Pelo amor de Deus, doutor, será que me tornei esquizofrênico? Li muito sobre isso.
— Calma. Mas me diga, tem algum momento que as vozes cessam?
— Bom, quando tomo banho elas me dão sossego, dai penso em só ficar debaixo do chuveiro.

Olhando de um lado para outro cabreiro sussurrou:
— Acho que elas tem medo de água. Pode ser doutor?
— Só no chuveiro elas somem?
— Não. Outro dia resolvi pular na piscina para testar o medo delas e não me acompanharam.
— Tudo bem, mas vamos fazer o seguinte, para continuar nossa conversa será que dá para você tirar esses malditos fones de ouvidos os quais só tira para tomar banho e nadar!?







Jornal Correio 18 de outubro 2015




Zumbido

terça-feira, outubro 13

Imposto



Já perceberam que certas coisas em nossas vidas empurramos com a barriga até não ter saída? Vamos postergando, inventado desculpas para não fazer algo que sabemos que vamos depender dela. Recentemente, passei por uma dessas. Carteira de habilitação a vencer. Diferente da maioria dos brasileiros, segundo pesquisas, ando na contramão do gosto popular. Dizem que o homem “patropi” gosta mais de carro do que de gente. Dedica aos bólidos carinhos e mimos, às vezes, nunca dispensados a pessoas amadas.

É da natureza, está na genética. Quantas e quantas vezes em prosas ouvi queixas e até choros de homens barbados motivados por um arranhão na pintura do carro. Do jeito descrito parecia que haviam rasgado carro com abridor de lata. Todos em uníssono, “hoooo” de pavor, se levantam e vão lá ver o estrago. Cada um com seu olhar clínico de especialista em lesões a autos. Tanta gente em torno da lataria avariada que fiquei do outro lado sem nada ver. Os comentários ultrapassam o limite da sensatez:
— Um cara que faz uma coisa desta merece prisão perpétua — diz um aos berros.

Outro:
— Se pego o responsável por uma sacanagem deste tamanho esfolava vivo.

Inconformados voltam para a mesa do bar, sei que até o fim da noite só vão falar e beber em luto.

Agora, sozinho junto ao carro, resolvo dar uma olhada no estrago. Chego, olho, reparo, chego mais perto, coloco os óculos, quase encosto o rosto para tentar achar algo que merecesse tamanha revolta. Depois de muito procurar, acho um arranhãozinho do tamanho de beiço de pulga, em canto perto da porta. Perco a paciência. E tento lembrar ao dono do carro que sua esposa está no hospital operada da vesícula! Despeço de turma, sigo a pé.

Nunca fui dado ao ato de dirigir e nunca me apeguei muito a carros. Coisas inanimadas nunca me chamaram muita atenção. Nessas, CNH vencendo, lá vou ver o que fazer mas sem muita pressa. Fico sabendo que tenho que fazer um tal curso de renovação, um tantão de horas de aula com a confirmação digital de presença. Fiz mesma coisa que qualquer um faria, e aí não fujo das estatísticas: Reclamar! Somos mestres nisso e péssimos em atitudes. Mais um jeito de arrancar dinheiro, absurdo, desaforo e por aí afora. Tudo que nos é imposto é motivo de esperneio. Claro, quando vemos o tanto de impostos que nos são impostos é de arrancar os cabelos mesmo, principalmente, quando não percebemos retorno na utilização dos tributos.

Sem choro nem vela, fui lá eu a fazer o tal curso. Resmungando, com cara de poucos amigos, depois de anos me vi sentado em cadeira de sala de aula como aluno. Não foi meu espanto que, logo na primeira aula, comecei a gostar! Obra e arte do instrutor, dono de uma didática e técnicas de motivação natas. Surpreendentemente, não vi o tempo passar e podem apostar, aprendi coisas que jamais acreditava que existissem no trato com o trânsito.

É fato que não vou tomar gosto por dirigir, mas ao fazê-lo daqui em diante terei outros olhares ao que me cerca. Peguei a mão certa e não ultrapassarei jamais meus limites. Sinal verde. Sigo.







Jornal Correio em 11/10/2015




Imposto





segunda-feira, outubro 5

Besouro


Juro que foi sem querer. Foi instinto de pura defesa. Como de costume, distraído estava olhando o nada. Aliás, quanta coisa tem o nada. Lembra movimento de calçadão de cidade grande, enxame de abelha jataí quando pronta a levantar voo e seguir para outra colmeia formar, parece, às vezes, trilheiro de formiga-correição, mas com a vantagem de não ter, nem fazer barulho, só um, o bater de ferrão que mais parece crepitar de fogo. Ou, no caso de nossas abelhas nativas, um zumbido de nota só, acertando temperatura da morada.

O nada está sempre cheio daquilo que você quiser. Coisas boas, coisas ruins, alegrias e medos moram ali no nada. Aquilo que você quer ser muito no nada habita. Aquilo que te apavora se tornar também ali reside Para apreciar esse canto do pensamento tem que ter juízo e aprendizado, senão endoida. Dizem que os loucos riem ou choram sofrido fácil. Verdade é que eles, sem treino ou guia, descobriram o caminho, a porta do nada. Entram e não saem mais. Um perigo. Bom lugar para se esconder, mas não abuse, deixe caminho de volta bem sinalizado

Ah, e desconfie sempre quando perguntar a alguém o que ela tem e como resposta receber um vazio “Nada”! Aí, geralmente tem muita coisa oculta doída. Dor, geralmente, muita dor. Pois lá estava olhando tempo quando vulto bitelo veio em alvoroço em minha direção. Foi nada não. No reflexo levei a mão e com tapa joguei longe. Escutei o barulho seco/zumbinsento quicar no chão e rolar feito bola de gude negra. Parou rente à parede. Encostadinho no rodapé.
Saí do transe de pensamento vazio e corri rápidos olhos para acompanhar meu desacerto e a acrobacia do bicho. Besouro grande, mal-humorado que só. Resmunguento como todo besouro com voo interrompido a tapa ou bocada de sapo. Deitei de pulo rente ao chão para acompanhar a ginástica do casquento tentando se aprumar.

Debatia patas em pedaladas ao ar. De suas costas abria uma parte de suas asas dobradas em canivete em seu elítrio para dar impulso. Dei-lhe ligeiro peteleco, o que o fez cair em pernas. Antenas a brandir como se dedos em riste fossem, tonto, mas valente a me reprimir tamanha violência sem sentido se é que alguma violência sentido tem.

Evolução, às vezes, deve fazer rascunho. Besouro não foi feito para voar. Tem tudo contra ele, inclusive a física, mas teimou, pois do chão saiu um Santos Dumont ou um autêntico Wright dos coleópteros. A história que resolva este imbróglio. É certo que seu voar não é muito coordenado, mas se faz deslocar, mesmo que seja para lugar perigoso. Poucos devem acertar grama serenada e companheira perto, para então juntar trapinhos e construir toca e prole.

Por esse agora tinha responsabilidade, causei-lhe permanente intratável labirintite. Preparo canto de jardim ou vaso grande para que, no tocar de roda, não despenque ou tente novo flutuar, o que seria desastroso. Se alguém souber de besoura desempedida, mande sinais. Meu aturdido amigo carece casar, mas não tem dinheiro nem um centavo na caixinha vi e ele vive literalmente tonto.






Jornal Correio em  4 de outubro de 2015




Besouro

segunda-feira, setembro 28

Aprendendo a viver





Vivo falando de bichos, sei bem. Como não se deles absorvo energia e a esperança de vida. Tento retribuir de alguma maneira. Não, não os alimento, não faço cevas para o simples apreciar, nada contra, mas penso no dia em que não puder colocar a fruta fresca, a quirera, o miolo de pão. Não quero amor por dependência nem de bicho. Por muito tempo, servi água com néctar para beija-flores, eram dezenas, formatos e cores deslumbrantes, brigavam os grandes com os pequenos colibris que tinha que ser mais ligeiros. Depois vieram as cambacicas e abelhas arapuá.

Um conselho de amigo dos pequenos de penas. Não se aventure a alimentá-los sem orientação de quem conhece, pois a sua maravilhosa ação, repleta de carinho e gosto pelo belo pode ser remédio mortal a eles, se usar açúcar refinado, então, é sentença de morte, diarreias e inflamação de língua os levarão. Sem saber, estará dizimando joias da arca da natureza. Você não notará, pois sempre aparecerão outros no lugar dos perdidos. Prefiro plantar árvore e flores, deixar crescer e dar fruto/flor. Assim, eles virão por vontade própria e irão embora prometendo volta quando comer acabar.



Árvores que plantei muitos anos atrás, hoje são cenário de sinfonia de passarada, meus morcegos bailam em rasantes inofensivos em diários espetáculos noturnos. Uma alegria contagiante de viver. Como a Maude do Harold de “Ensina-me a viver”. Vi o filme em 1971 ou 72, não me lembro bem quando, a sala de cinema da Imprensa Oficial, em Belo Horizonte, se dava ao luxo de passar apenas filmes bons. Hoje, não sei, será que virou templo de igreja como o Cine Pathé na Savassi?

Semana passada, fui rever em adaptação para teatro com Glória Menezes e Arlindo Lopes e grande elenco, sempre quis escrever isso tipo – siga aquele carro! – nos papéis principais. Montagem impecável, dinâmica. Cheguei meio desconfiado, pois conhecendo do cinema queria ver como seria a adaptação para o palco. A tradução de Millôr Fernandes foi a base de tudo, pelo que sei. Pequena dificuldade para a última cena. No cinema, Harold desembesta estrada acima em seu carro fúnebre e o mesmo (o carro) voa em despenhadeiro. Pausa, silêncio, câmara fixa no alto da estrada, de lá me vem um Harold feliz, livre, tocando banjo/presente ao som de Cat Stevens. Aprendeu a viver. Direção e adaptação de João Falcão consegue o efeito com recursos visuais e sonoros. Valeu a pena! E muito.

Sorte dele que não mora no Brasil, pois teria comprado extintor ABC por medo de multa e que, como aquela caixinha de primeiros socorros, lembram, de obrigatório virou acessório. Acessório obrigatório? Como certa feita indagou um irmão meu ao ser abordado sem a tal caixinha na Rodovia dos Inconfidentes.

Ia falar de canto de passarinho, pois hoje, manhã toda, sabiá cantou sem trégua à janela de meu laboratório. Parece que até meus escorpiões estavam mais animados. Todos precisamos de uma Maude na vida, a minha me aparece em forma de bichos, plantas, nuvens, vento – insignificantes para a maioria – para mim? Ensinam-me a viver.






Em Jornal Correio de 27 de setembro de 2015



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segunda-feira, setembro 21

História da mula



Essa história não é minha. Está na boca dos matutos em vendas e botecos nas pequenas vilas, na lida diária na roça, prosa para ajudar passar o tempo no compasso musical de enxada cortando terra. Portanto, se acharem dono me contem créditos e méritos serão dados.

Birra, implicância mesmo tenho de plágio, plagiador é ladrão de ideias. Vivente vazio, parasita de criação. Quero não que me tomem por um. Contar eu conto e pronto.

Seu Zé pensou bem e decidiu que as perdas que sofreu num acidente de trânsito eram sérios o suficiente para levar o outro ao tribunal. O advogado do réu começou a inquirir seu Zé:

– O Senhor não diz na hora do acidente “Estou ótimo”?

Zé responde:

– Conto. Tinha acabado de colocar minha mula favorita na caminhonete…

– Só responda à pergunta: O Senhor não diz na cena do acidente: “Estou ótimo”?

–Bom, coloquei a mula na caminhonete e tava descendo a rodovia…

O advogado interrompe outra vez e atuando nervoso que nem palco de teatro urra enfurecido:

– Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos. Na cena do acidente, este homem diz ao policial que estava bem. Agora, semanas após o acidente, ele está tentando processar meu cliente. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda a pergunta.

Mas, a essa altura, o juiz estava muito interessado na resposta de seu Zé:

– Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.

Seu Zé agradeceu e prosseguiu:

– Coloquei a mula na caminhonete e estava descendo a rodovia quando uma picape atravessou o sinal vermelho e bateu na minha bem do lado. Fui lançado fora para lado da rodovia e a mula foi pro outro. Eu tava muito ferido e não podia me mover. Mais eu podia ouvir a mula zurrando em dor. Aí, policial chegou. Ele ouviu a mula sofrendo e foi até onde ela estava. Depois de dar olhada nela, pegou arma e atirou 3 vezes bem no meio dos olhos dela. Então, o policial atravessou a estrada com arma na mão, olhou pra mim e diz:

– Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?

– Aí, eu pensei ligeiro e falei: Tô ótimo! O que o sr. falaria, Meritíssimo?







Jornal Correio 20 de Setembro de 2015




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terça-feira, setembro 15

Ler dói



Ler dói. Bom, acho que deve ser dor lancinante, daquelas tipo pedras nos rins ou na vesícula que surgem do nada, e geralmente à noite, quando não queremos incomodar ninguém e ficamos contando os segundos para clarear e pedir socorro. Aí, como passe de mágica, pedrinha resolve dar o ar da graça e achar o caminho para fora. Já tentou colocar um texto imenso no seu Facebook ou enviar para um grupo via WhatsApp? Vá lá, em um e-mail que seja?

Pode apostar que poucos, pouquíssimos o lerão. Outro dia fiz uma experiência interessante digna de tese de mestrado, não, de doutorado. Claro, não segui normas da ABNT pois ficaria mais difícil ainda e causaria duplo sofrimento em algum provável leitor.

Foi assim: resolvi, para variar, falar de bichos, dos miúdos que nos fazem imperceptível companhia toda a nossa existência e poucos têm um olhar mais atento aos pequeninos e seus mundos fascinantes. Foram dois parágrafos contando a história de uma lagarta verde, deste tamaninho, que desceu flutuando de uma goiabeira em seu quase invisível fio de seda, falei de seu balançar suave como trapezista de circo mambembe, contei de seu contorcionismo ritmado. Parecia bela bailarina de pole dance flutuante. Mágico, levitava.

Descrevi os olhos de uma plateia faminta, não por espetáculo, mas por saborear aquele verde e tenro corpinho. Tordos e pardais a apreciar não arte, mas refeição. Bom, do nada, peguei resenha de jogo Galo contra o Olímpia, aquele de 23 de julho de 2013 e coloquei no texto, totalmente sem contexto.

Para piorar, fechei minha crônica com mão salvadora que, delicadamente, recolheu a pequena lagarta artista/guloseima pelo fio de seda, e levei para longe de sua sinistra plateia. Este texto foi publicado em vários grupos e nas mídias sociais, sabe quantas pessoas questionaram a maluquice? Cinco. Sabe quantos “curtir” o texto recebeu? Setenta e três. Logo, querido leitor, tire suas próprias conclusões.

Vida estressada, falta de paciência ou, pior, falta absoluta de capacidade de simplesmente ler. Estamos vivendo época em que reinam analfabetos funcionais, pois como sempre nos dizia nosso professor de Patologia Wilson Ferreira Lúcio – um mestre da didática e do educar – a interpretação faz parte do texto.

Foi-se, e aqui não tem saudosismo, o tempo dos telegramas – com suas fitinhas de letras coladas. Avançou no visual, tem até fonado! Ultimamente, é mais usado apenas para cruéis demissões em massa de montadoras e grandes indústrias. O romantismo das cartas escritas de próprio punho, aqui tem muito saudosismo, mas muito mesmo, depois conto, também desapareceu.

Então, meu amigo, se quer se comunicar em redes sociais e se saber visto ou lido, mande fotos ou vídeos ou se acostume com a solidão rodeada de milhões de “kkks” e curtidas vazias. Nota do autor, que aliás sou eu: esta é uma crônica de ficção, nada disso aconteceu de fato, mas muito perto da realidade de cadeira posso afirmar.” No mais, Gerais.







Jornal Correio de Uberlândia em  13/09/2015




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terça-feira, setembro 8

Outro Agosto





A última sexta de agosto amanheceu seca, novidade alguma, pois todos os dias deste oitavo mês do ano normalmente são assim, ressequidos, cheirando a vento, poeira e fuligem. Tão normal quanto estúpida, a mão do homem, sempre ele. Contaram que só naquela curta semana foram dezenas de focos de incêndio, alguns gigantescos. A fazenda Tatu ardeu como a velha Roma de um ensandecido Nero ou seria de Vitélio? Só que naquele instante, aqui em nosso Cerrado, no crepitar das chamas e agonia de morte ninguém tocava lira ou compunha ode em louvor a deuses inexistentes. Ali, além do ruído seco da destruição, animais fugiam em pânico, muitos obrigados a deixar para as brasas suas crias. Ação humana hedionda e assassina.

Que não se gosta de árvores, em Uberlândia, é fato constatado. Já diz aqui, árvore boa é na porta do vizinho. Sombra é legal, mas árvore? Quanta “sujeira” né, trabalho de varrer folhas. E os morcegos que horror vão atacar, enrolar nos cabelos das moças. Um perigoso inimigo a usar de árvores para se ocultar e, do nada, avançar de surpresa. Quanta fantasia, quanta falta de informação, quanta burrice.
O vento naquela manhã de terça soprava teimoso, redemoinhos carregavam sacis de um lado para outro em alegres molecagens. Um pouco depois das sete, em trote rápido, subia a ladeira moça nova. Sacis insistiam em desalinhar cabelo dela, levantar sua saia, parecia não se importar. Acompanhava a carreira o filho, talvez irmão, este sério e cabeça baixa para evitar ciscos. Mochila às costas. Perdeu hora para escola. Observei. Aflita chegou ao portão, acompanhou garoto até lá dentro.

Do jeito que chegou virou para trás e, ainda em carreira desceu a rua, vento agora a empurrava, afobação continuava visível, talvez pressa atrasada para trabalho. Sumiu de minhas vistas. Passado alguns longos minutos, lá estava ela semblante triste, com um passar manso de mãos pelos cabelos, seguia emoldurada por janela de ônibus.

Ensimesmado, esqueci vento, sacis, poeira. Como nossa Uberlândia mudou. Outro dia não tão longe assim aqui não havia pressa. O vento de agosto, claro, era o mesmo mas era claro e limpo, não carregava tanta poeira vermelha de campos arados que hoje sufocam em abraço a cidade. O trânsito não agarrava as pessoas, não mudava o humor das gentes.
Corria-se sim, mas atrás da fantástica vontade de viver. Árvores eram plantadas e a cidade, jardim. Lua cheia na praça. Mães ou irmãs talvez avôs que se mantêm jovens e bonitas, felizmente são tantas avós lindas e jovens agora, mesmo na correia de afazeres/tarefas fazem contraste com a cidade que envelhece e se enfeia.

Ainda dá tempo, há salvação. Plante árvores. Anjos disfarçados de passarinhos e floradas exuberantes voltarão com trilhas sonoras e perfume para calçadas e praças. Sombras para namorar, crianças livres.
Sacis alegres continuarão a aprontar, mas temerosos saberão que poderão, a qualquer momento, perderem seus gorros e acabarem em garrafa a servir moleque.
Ainda dá tempo. Feliz 127 anos Uberlândia. Bem-vindo setembro.






terça-feira, setembro 1

Pintos



A agência de notícias Reuters, no dia 24 de julho, me sai com esta manchete: “Pintos de granjas dos EUA são enviados até para Brasil para escapar de gripe aviária”. Li atento a matéria e deu para sentir a preocupação e o desespero dos criadores do Grande Irmão do Norte com a possibilidade de perder preciosa genética das aves. Ali, em cada gota de sangue daquelas poedeiras existem milhões e milhões de dólares em investimento em pesquisa, acertos e erros até atingir o estágio atual. Li que tem pesquisa genética que começou em 1900. Muitas gerações de criadores e de penosas. Os que começaram o trabalho jamais chegariam a ver seus resultados, isso é que é pensar longe.

No que diz respeito à cultura científica, investimento em pesquisa não precisa dizer que nossos irmãos do Norte estão anos luz à nossa frente. Aqui, geralmente matamos a galinha dos ovos de ouro antes que a segunda joia apareça, não por casmurrice, mas por falta de investimentos ou fome.

Mas lendo a tal matéria algumas ideias me vieram à cabeça. Em momentos de crise, dizem os experts, é que temos que ser criativos e superar os temporais. Que tal se, na onda da tal gripe aviária por lá, não fosse boa ideia criar uma rede hoteleira para pintos. Haveria aviões especialmente adaptados para transportá-los, criaríamos a Pintos Air Lines ou simplesmente TransPinto. Pintos na primeira classe receberiam ração balanceada, água mineral Acqua di Cristallo, conhece não? Joga no Google e chora. Para os pintos da classe comercial quirera chips e água Lindóia sem gás. O trajeto seria acompanhado de perto pelo Veterinário de Bordo, cobertorzinhos de cashmere para os chiques e mantinhas simples e piniquentas para os demais.

Ao aqui chegarem teriam recepção de honra com direito a coral de galos e galinhas cantantes. Tapete vermelho para não sujarem os pés em nosso solo pátrio. Risco de contaminação, se não gripe por outras mazelas.

Conduzidos em limusines climatizadas aos barracões Saúde Pura para Aves – SPAs – super luxo onde ficariam até virarem frangotes fortes e resistentes para retornarem ao país de origem. Genética salva e perpetuada. Claro, alguns não voltariam, não que se apaixonassem por alguma franguinha nativa das coxas grossas, poucas penas mostrando corpo escultural e com muito samba no pé, nada disso, afinal aqui é Brasil. Muitos, na calada da noite seriam arrastados de seus poleiros de luxo e acabariam em fundo de panela em bela galinhada geneticamente correta, regada a boas cervejas e cachaça de primeira.
Aí do nada, uma jabuticaba caiu em minha cabeça e acordo assustado de minhas elucubrações, mas feliz por não ser atingido por uma jaca, certo, Monteiro Lobato?






Em Jornal Correio de 30 de agosto de 2015




Pintos

quarta-feira, agosto 26

Politica municipal


Peço licença aos jornalistas especializados na matéria aqui do CORREIO de Uberlândia, vou dar pisada leve, daquelas de não deixar nem marcas em praia na qual cambaleio, queimo os pés em quente e movediça areia e corro para água ligeiro.

Penso hora que vi quase de tudo. Nada vi. Quando o assunto é arte da política, aí me embanano todo. Sou parlamentarista por convicção e fervoroso defensor do voto distrital; este fortalece a relação entre político e cidadão, meu voto elege ou não quem escolhi e não um pára-quedista qualquer de outro lugar do qual nunca nem ouvi falar.

Infelizmente, ando a perder em ambas as formas que realmente acredito democráticas. Pronto, é o máximo no assunto que me estendo, que consigo, me dando por satisfeito como cidadão. Nunca sei se em quem votei, anda ou não a fazer.

Uberlândia, terra da qual agora também sou filho, adotado e por decreto é fato, mas minha cidade de coração anda a me passar alguns sustos quando o assunto é política e politicagens.
Li outro dia aqui no CORREIO que querem lançar Hélio Costa como candidato a prefeito ano vem. Que maluquice é essa São Jorge – desculpe evocar seu nome em vão, Santo guerreiro, mas apenas a ti posso pedir proteção. Me vem um senhor lá de Barbacena, que não conhece nem onde fica a Morada Nova, Jardim Sucupira. E a Granja Marileusa? Saberia ele onde fica? Duvido que tenha participado sequer de uma edição da maravilhosa Corrida do Cerrado. Dirão que isso não tem a menor importância. Concordo, em parte, mas saberá ele o que é o Cerrado?

Mas e os anseios do nosso povo? Como pensa/ fala, seu sotaque gostoso? Ouço meus filhos fecharem os erres. Nem com quase quarenta anos de Uberlândia consegui perder meus erres arranhados de Belo Horizonte. Imagina o senhor Hélio Costa conversando com o nossa gente. Vai parecer programa de entrevista de televisão, com direito até ao balançar de ombros muito bem capturado nas charges de Valtênio.

Pensa que acabou aí, queridos amigos?

Além do barbacenense, mais um estranho no ninho prepara para se lançar candidato, o zero de votos e ex-suplente de senador, carioca da gema e dos “xis”, Wellington Salgado. Aliás, eu cá na minha ignorância fico a pensar na tal figura de suplente, me explica: isso serve para quê mesmo? Uma pessoa assumir um cargo da envergadura de um senador sem ter tido sequer um votinho? Nem o dele próprio! Fala sério.
Será nossa Uberlândia tão pobre de gente capaz assim? Claro que não! Temos figuras do naipe de Gilmar Machado, pronto para tentar reeleição, temos Odelmo Leão, temos três Prados, um Tenente reformado, temos Leonídio, Luiz Humberto e tantas outras lideranças aqui da terra que verdadeiramente conhecem o chão onde pisam, se não aqui nasceram fizeram vida aqui há décadas.
Falam a língua de nosso povo “como ninguém fala mais” – Saudades, Teotônio Vilela. A lei permite estas coisas, então é direito deles correrem atrás da viúva seja eles de onde forem: Erechim, Quixeramobim, São. Mas que é estranho e esquisito, lá isso é! Sarneys do Amapá!

Fico imaginando o programa eleitoral ano que vem. Que salada de sotaques estrangeiros. Prata da casa Uberlândia, prata da casa… No mais, Gerais.








Jornal Correio em 26/08/2015




Politica municipal