segunda-feira, abril 25

Gatos




Gato é um bicho interessante. É que nem pequi, jiló ou dobradinha. Não tem meio termo, pois ou você gosta ou não quer nem vê-lo por perto. Bom, tem sim, já que existem pessoas como eu que conseguem admirar a beleza, a elegância e a independência felina. As variações de pelagens infinitas, as três cores das fêmeas. Se você não sabia, conto. Apenas as fêmeas possuem pelagem tricolor, herança ligada ao sexo em bom genetiquês.

E os olhos? Quanta beleza, profundidade e sensualidade. Não é à toa que mulher bonita é chamada de gata. Pode ser, por motivo outro, ligado ao fogo. Quem não ouviu ou usou a expressão “fogosa que nem gata no cio”?

A relação humanos/gatos é milenar. O bichano já foi adorado como um deus pelos egípcios. Aqui abro espaço para um pouco de cultura inútil, daquelas informações que você jamais vai usar na vida (mas vai que…): “Bastet, a deusa egípcia da fertilidade e do amor materno, era comumente representada por uma mulher com cabeça de gato”. Mas, aí, lá pela bandas da idade média os cristãos resolvem endemonizar o pobre bicho. Muita gente boa foi para a fogueira, taxada de bruxa, pelo simples fato de possuir um gato. Caraca, será que não tinham mais o que fazer não?

Viu só? Quem é que poderia viver sem essa informação? Agora que estamos todos salvos do poço escuro da ignorância, sinto-me mais confiante para continuar a vida. Em minha varanda, tem uma namoradeira secular, daquelas feitas sem prego e as emendas das tábuas preenchidas com cera de abelha. Na minha varanda, sobre a namoradeira, eu tenho um vasinho de cactos, presente de filho.

Pois não é que, de uns dias para cá, em minha varanda, sobre a namoradeira, toda manhã, meu vasinho começou a aparecer tombado? Pedrinhas brancas, que o adornam, espalhadas por todo canto. Seria o vento, pensei sem pensar. Que vento nada. Noite alta chego de manso. Lá, como dono do pedaço, todo esticado, quem encontro? Um lindo gato filhote, desmamado, mas filhote, preto como a mais negra das noites de lua nova e ameaçando chuva, sem estrelas e sem vaga-lumes. Seus olhos esverdeados brilhavam fixos em mim. Levantou-se manso, deu uma bela espreguiçada, desceu flutuando do banco e, em miado choro, veio em minha direção. Passou rente a minhas pernas, pedindo afago. Abaixei e acariciei por longo tempo sedoso pelo. Assim ficamos, no silêncio, em reconhecimento mútuo.

Gatos não são escolhidos, eles escolhem companhias, pois jamais serão de ninguém. Não me atrevo a dizer que serei seu dono, isso nunca. Agora, estamos em fase de namoro. Hoje cedo entrou casa adentro. Delicadamente, eu disse não. Ainda não é hora. E tem mais, quem vai cuidar quando eu viajar? Mas confesso que já está me agradando a ideia dela, é uma feminha, ser minha dona. Estou mesmo precisando de companhia e carinho, isso elas sabem dar. Vamos ver no que vai dar, se for para ser, será.

Bastet aqui citada, não originou “basquete” da NBB – esse papo de Novo Basquete Brasil, é triste. Nossa capacidade infinita de imitar. Tudo isso só para parecer com a NBA gringa.

Bom domingo, no mais Gerais, preguiça felina.







segunda-feira, abril 18

Intolerância




Minha filha trouxe de presente linda camiseta da Holanda. Malha de boa qualidade, preta, com uma estrela vermelha no peito. Sobre a estrela lia-se em letras brancas “Amsterdam”. Feliz da vida a vesti fui passear à toa como de costume.

Mania, vejo tantas histórias velejando entre gente, folhas e ruas que me custa guardar para um dia contar. Muitas dou conta de prender em meu caderninho roto de páginas soltas, agrupadas com clipes e fita durex. A maioria foge aos risos de minha memória falha.

E lá vou eu pensando na riqueza da vida, no prazer de ter olhos para enxergar e não apenas ver sem por tento. Sorria para mim mesmo. Do nada, começo a ouvir deboches agressivos, piadas de mal gosto, xingamentos mesmo. Não era comigo, pensei, mas era. Fui xingado, chamado de petralha e outros adjetivos que não vou nem citar, ninguém merece.

Pobres coitados, mal sabem o belo significado místico desta estrela para os cervejeiros da idade média. “A estrela vermelha vem dos tempos da Idade Média, onde os cervejeiros acreditavam que ela tinha um poder mágico. Cada ponta representa um elemento: terra, ar, fogo, água e um quinto elemento que acreditavam ser mágico até hoje é desconhecido.” (Fonte: site “Bar, Bebida e Propaganda”).

Foi nada não, tempo passou e numa pressa de sair agarrei outra camiseta, esta da “Bee” (sem jabá) onde estava estampado belo e colorido tucano. Em plena praça fui. Fui xingado, chamado de coxinha e outros adjetivos que também não vou nem citar, pois ninguém merece.

Pobres coitados, mal sabem o belo significado místico desta bela ave: “Também conhecido como tucano-toco, o tucanuçu é o maior dos tucanos, vivendo em todo o Brasil Central e em partes da Amazônia. No Cerrado e na Mata Atlântica, pode-se encontrar a espécie em maior número, em rápidas visitas a pomares e árvores com frutos.”

Os tucanos são, com as araras e papagaios, um dos símbolos mais marcantes das aves do continente sul-americano. Tomaram-me a estrela e o tucano. Com que direito? Vivemos um período de irracionalidade absurda, tanto ódio onde poderia reinar paz, tanto sectarismo onde poderia reinar tolerância. Que país é esse, Legião Urbana? Silêncio, todos da formação original da banda já se foram sem nos dar resposta.

Já que o rancor e a raiva não levam a nada, fecho com duas historinhas. Uma encontrei em rede social e a outra foi escrita por um especial amigo, cujo nome preservo. Conto depois se me autorizar. Quanta bobagem dos fanáticos/sectários de todos os lados, formas e tamanho!

As historinhas: 

“Não entendi nada! Ontem fui fazer um lanche de final de tarde e pedi um sanduíche de mortadela (adoro!), quando fui pagar me deram trinta “real”, uma camisa da CUT, um boné do MST e me colocaram num ônibus, que me deixou na Praça da Estação. Estou voltando pra padaria pegar meu carro. Que saco!”

A outra: 

“Que faaase!! Gozado, outro dia, pedi uma coxinha. Recebi uma camiseta amarela, com uma foto do Bolsonaro, um poodle cor de rosa e um cartaz pedindo a volta da Hebe Camargo. Pode? “

Só falta agora um perseguir os canhotos e outros, os destros.








Jornal Correio 17 de Abril 2017



Caderno Revista, página 25


http://digital.mflip.com.br/pub/correiodeuberlandia/index.jsp?serviceCode=login&numero=23999&edicao=3575#page/24&ipg=136438


segunda-feira, abril 11

Celular






Saudade do tempo em que celular era apenas um celular. Servia exatamente para o que foi criado, ligar e receber chamadas. Eram imensos, pesados e horrorosos. Algumas pessoas exibidas só andavam com aquele que mais parecia rádio de pilha, dependurado na cintura como se fosse uma arma. As chamadas eram caríssimas e viam-se esnobes da mesa de bar ligar para o balcão, só para pedir mais uma cerveja. Nem precisa dizer que a conta de celular ficava três, quatro, até cinco vezes mais cara do que a despesa do boteco, com boas cervejas e iscas de filé acebolado consumidas.

A velocidade da tecnologia e a miniaturização transformaram os monstrengos em Liliputianas caixinhas falantes. Não, não é palavrão. Caso não conheça, é termo criado no belo livro “Viagens de Gulliver”, do escritor inglês Jonathan Swift (1667-1745), que não é marca de salsicha.

Pequenos, mas ainda telefones e nada de internet, redes sociais e tais. Engano. Alguns mais modernosos já vinham com o jogo da cobrinha, o Snake. Havia o lance de empilhar caixotes, o Stack Attack, o Space Impact. Neste, era você contra todos os invasores do espaço. Para completar, o medo de extraterrestres. Havia o Space Invaders onde o lance era derrubar naves das intergalácticas inimigas.

Apareceu o pré-pago que democratizou o uso do celular. Desconheço atualmente aquele que não tem pelo menos um. Mas se tem um só, pode ter certeza de que tem vários chips. No caminho inverso da liliputização, os celulares atualmente estão cada vez maiores. É a fase “Brobdingnag” ou agigantamento, da segunda viagem de Swift. Fazem coisas que até Deus duvida. Comando de voz, — Ô Celú, me liga aí para fulano de tal. Pimba!

— Já está na linha mestre – falta só responder.

Redes viciantes que acabaram com conversas e rodas de amigos. Idiotizam mentes brilhantes. Câmeras de não sei quantos megapixels, aplicativos e jogos para todos os gostos. Conexões internet de altíssima velocidade, nomes loucos/estranhos que passaram a fazer parte de nosso vocabulário cotidiano: wi-fi, bluetooth, Instagram, download, Browser, Inbox, Jailbreak, Java e por aí afora. Vou poupá-los das pronúncias que ouço por aí quando tentam balbuciar aos novos vocábulos.

Temos hoje celulares que mais parecem tela de televisão. Aliás, para tal servem também. Quanto maior o aparelho, maior o status, pensam alguns. Mal sabem que, ao colocar em exibição sobre a mesa aquele objeto de desejo de tantos, olhos maldosos podem estar preparando furto ou roubo. O mais interessante é que, com tanto recurso e tamanha tecnologia, as pessoas esquecem-se de utilizá-lo para ligar e receber chamadas.

“Na última viagem, Gulliver encontrou os Houyhnhm, uma raça de cavalos que possuía muita inteligência, que representavam os ideais iluministas da verdade e da razão. Os Houyhnhm temiam que alguém dos yahoos (uma raça imperfeita de um tipo de “humanos”) movidas por instintos primitivos, se tornasse culto, satirizando a raça humana. Gulliver vê a humanidade como yahoos e toma nojo do ser humano.”

Prestaram atenção no nome da espécie tão temida pelos inteligentes cavalos. Só para lembrar, “Viagens de Guliver” foi lançado em 1726. Presságio?








Jornal Correio em 10 de Abril 2016







terça-feira, abril 5

Matemática


Coçava a cabeça em um buscar solução. Nunca tinha passado por perreio assim. Sabia sem mágoa que não tinha estudo algum, a vida não permitiu. Muito novo entrou na lida, ajudar no sítio. Seis filhas, só ele filho homem. Tinha duas obrigações, ajudar pai na roça para garantir sustento e vigiar as irmãs para que não caíssem em garras de moços/lobos, famintos por tenra carne. Quase conseguiu. Mesmo depois da volta do pai e da mãe para as estrelas mantinha vigília cerrada. Digo quase, pois conseguiu levar quatro das moças ao altar que, contrariadas, casaram sem amor.

Acharam por bem seguir sina. Outra, de tanta tristeza, por tanto desamor sofrer, escolheu convento, virou freira. A mais triste das religiosas preferiu clausura. Contam que chorava dia e noite. Eterno desidratar só podia levar ao fim. Morreu afogada em lágrimas. Santificaram-na. Contam até milagres da freira-que-chorava-sem-parar.

Tinha romaria e fila para entrar no quartinho do convento onde, contam e repito o dito, não vi, brotou por todos os lados, do chão ao teto, milhares de risonhas margaridas. Alimentadas pelo sal das lágrimas que carcomeu todo o lugar de pedra, inclusive o teto. O estranhamento maior era que as margaridas sorridentes nunca murchavam, não sentiam nem a falta de sol e água. A caçula fugiu para sempre. Ninguém saberia mais de seu paradeiro. Feliz, ganhou estrada.

Por conta do tal perreio foi buscar recurso. Procura o compadre na venda, em um domingo de pouca coisa. O dia era para descansar, jogar dominó, beber uma cachacinha de alambique, dos antigos, pedra e cobre. Da quentura até refrescar era um deleite só.
Sabia o compadre. Bom de notícias, de escrita e principalmente de contas, aprendeu, estudou muito. Fez até a quarta série, mas como só tinha até ai na escola da fazenda, seu pai o obrigou a fazer cinco vezes. Aprendeu com jeito e poderia até ser professor. Pediu a ele socorro.

— Compadre você é bom de matemática, acode fazer conta de venda de frango. Você sabe, eu crio a meia com o compadre Armiro tem tempão. Sempre dava número seguro de fácil trato. Era só ir apartando na carroça mesmo, no jacá. Um lá prá dentro, outro pra fora. Nunca deu de errar, nem de sobrar. Pois não é que dessa vez sobrou uma franga grande, do pescoço pelado? Canela seca das boas, até cotoco de espora a danada tem. Peito carnudo e firme. Nem ia vender, pois ia ficar para tirar raça junto com meu galo índio ou passar no papo, em belo refogado.

Pois olhe, sobrou essa belezura, assim no acaso, sem tramóia, nem ajeito. Foi o acontecer sozinho, acaso.
Tirei todas pra trás e tornei voltar. Sempre sobrando uma. Ai me deu de ideia contar as galinhas. Pronto, taí o mandeiro do erro. Tocou cinquenta e um no todo. Como é divido isso na ponta do lápis, sei fazer não senhor.
O compadre que, àquela altura da manhã, já havia derrubado mais de meia garrafa da cana e tantas de cervejas, nem pestanejou;
— Uai compadre essa é das mais fáceis. Pensa comigo: cinquenta e um divido por dois, só pode dar meio litro prá cada um, senta ai, toma um gole ara!






Jornal Correio em 27/03/ 2016



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Bicicleta



A vila, já contei, tinha poucas almas. Era um lugar tranquilo e bom de se morar. Longe de tudo é fato, sem recurso. No aperto, tinha que andar muito, isso assustava um pouco quem não era de lá. Acostumamos rápido. O dia da chegada está perpetuado em lembranças.

O ônibus dirigido pelo Seo Zé Toco corcoveou por mais de 90 km em terra massapé, bem diferente do ácrico chão de cá. Na seca, poeira só, nas águas, atoleiro sem fim. Asfalto, um pedacinho à toa depois do Monte Alto, mas não ajudava muito, o maior encravador ficava em subida bem antes do chão preto. Naquela época éramos esquecidos. Quantas vezes ficamos ali esperando trator para arrastar o carro.
A cidadezinha foi esvaziada com o fechamento das olarias. Muita história.

O segundo grande êxodo se deu rumo ao sonho Rondônia. Diziam maravilhas de lá. Terras boas e baratas, quando não, dadas pelo governo. Muitos venderam tudo e para lá partiram. Se deu certo sei não. O ônibus nos deixou em frente a nossa primeira morada, Pensão de Dona Mercides. Quando arrancou levantou tamanha nuvem de poeira vermelha que, no paradão de um meio dia, desceu mansa com o próprio peso. Rua foi aos poucos aparecendo.

Mesmo sem asfalto o chão brilhava em forno de carvoaria, trêmulo, desfigurava adiante. Alguns preguiçosos cães se encolhiam em sombra de marquise. Poucas árvores. Já nasciam ideias, fresquinhas de plantio que não se realizou. Depois conto motivos.

Assim a vida seguiu caminho. Aulas na escola, logo boas amizades, povo bom daquele tanto, difícil de encontrar. Fomos acostumando, mas as ideias para a minha Macondo eram inúmeras, curiosamente era a criançada que encampava tamanhos sonhos, realizamos muitos juntos.

Aos domingos, a vila se transformava, era uma festa. Gente chegava dos sítios para fazer compras, ver parentes e, claro, assistir filme. Tinha sim uma sala de cinema que funcionava nos fundos de um bar. Jogo de futebol com torcida e movimento, às vezes, tinha.

Um dos bares era de Jorginho japonês. Nipônico por nome Jorginho era no mínimo diferente. Ali se bebia, jogava-se conversa e dominó. Ficava apinhado naqueles domingos. Pois conto. Amanheceu segunda e uma bicicleta ficou sozinha, abandonada como pedal encostado no meio fio, bem em frente ao bar do Jorginho. Bicicleta nova, bem enfeitada. Fitas coloridas saindo das manoplas dançavam ao vento seco, farol a dínamo, selin com capa onde se via um reluzente escudo do Flamengo e no paralama dianteiro um imponente emblema dourado da Raleigh, com suas asas em posição de vento. Entre os raios, macarrões coloridos.

Assim, como monumento, a bicicleta lá ficou a segunda, amanheceu terça, quarta e quinta. Na sexta-feira, um pouco incomodada com a bela bicicleta na rua o Jorginho me veio falar: — Professor, sabe aquela bicicleta que está na porta do bar desde domingo passado? Respondi com aceno, concentrado em abrir entrada em coité para fazer ninho.

— Pois é estou meio preocupado com ela.

Perguntei o motivo.

— Uai, professor, vai que alguém rouba a bichinha como que vai ser? Arqueei sobrancelha em pensar.
Conhece lugar melhor de se morar?







Jornal Correio em 3 de abril 2016





segunda-feira, março 21

Cabelo arrepiado



Seguia caminho sem rumo certo. Puro andar, ver gente. Depois que criaram a amarela zona azul no centro da cidade ficou gostoso outra vez. Arrisco dizer que foi uma das maiores conquistas que nós, reles pedestres, recebemos ultimamente. Incluo-me pedestre, pois sinto prazer em parar carro, comprar algum tempo só para mim. Nada de coisa arranjada de visitar loja em promoção, banco pagar conta, nada disso. Compro algum tempo só para mim. Andar sem atropelo ou pressa, olhar as gentes, sorrir para um e receber em troca olhar acolhedor, às vezes, um carrancudo desvia o olhar. Problema está nele. Ligo não.

Uma mão em cuia, velha conhecida, se estende em minha direção: — Me dá uma moeda? Não determina valor. Uma moeda basta. Percebe que sou eu, recolhe ligeira a mão e solta sorriso amarelo, pois me sabe. Paro olho como quem vai dar bronca. Tiro do bolso nota de dois reais. Ajoelho e lhe entrego sussurrando em sorrisos: — Mala.

Me agradece com um levantar de ombros, como a dizer — — Fazer o quê patrão? O sorriso agora é com os olhos. Sem vergonha, sussurrei amizade. Levanto. Batendo com o nó dos dedos leve comprimento em seu joelho. Sigo, olho fachadas bonitas, infelizmente entre feiura de cartazes de propaganda. Acho ângulos, me encanto com detalhes esquecidos. Bando de curicacas passa rente a prédios. Sinto-me um privilegiado.

Compro garrafa d’água, banco de praça. Frondosa sombra. Adiante crianças brincam como antigamente pulando corda: “Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra de seu namorado: A, B, C” e por aí afora vai. Percebe-se o erro proposital quando chega a letra do príncipe merecedor dos encantos/criança. Quando erra antes, mãozinha na cintura, dedo em negativa: não, não, não! Não valeu e inventa-se desculpa de corda afrouxada de propósito ou a outra não bateu direito levando ao tropeço. Pezinho com chinelinho de plástico bate irritado no chão.

Pode pensar que estou em bairro longe, sossegado. Nada, estou no Centro, em pleno dia de semana. Diminua o acesso aos carros e as pessoas voltam como abelhas, borboletas, joaninhas atraídas pelo espaço livre e pelo vento correndo, polinizando convívio.

Sonho que o centro da cidade deveria ser das pessoas. No máximo, bicicletas seriam admitidas.
Sei, os comerciantes iriam protestar, reclamar prejuízos. Será mesmo? O novo, as mudanças assustam. Vejo nosso Centro como imenso Quartier Latin sem o encantador Sena, sem a imponente Sorbonne, templo do saber. Boulevard Saint Michel lá, aqui boulevard Tubal. Mas não faz diferença. As mesas nas calçadas, as fachadas livres de cartazes, coloridas. Um café, um jornal, um copo d’água. Pode ocupar sem pressa, não carece comprar tempo. Nada de garçons aflitos, Buenos Aires.

Meu tempo, o comprado, está acabando. Dou imenso gole no bico da garrafa. A água está morna, como a calma que sinto. Existe, então, um lugar onde se pode comprar tempo. Pena que não trás de volta.
Lento caminho cantarolando adaptado: “Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra de minha namorada”. A cada passo uma letra, o abecedário vai ser recitado muitas vezes. Parei longe. Nem imagino uma primeira letra.

Tempo esgotado.






Jornal Correio em 20 de Março de 2016 ( Aniversário de João Lucas)




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segunda-feira, março 14

Campanha política


Foto: Francisca Schueroff  (site na web)
 
“Houve um tempo no passado que um político do interior só tinha prestígio se tivesse poder para nomear, demitir, mandar prender e soltar.” Assim começou a coluna de Ivan Santos, quarta-feira, no segundo dia de um março, normalmente, com abundantes águas a fechar um verão, poetando-me em Jobim. Sempre começo leitura do CORREIO de Uberlândia pela coluna de Ivan, pois é como o editorial que sinto falta. “Folha” e “Estadão”, sempre pelo editorial inicio. Cada um tem um sistema de ler jornal. Daí, talvez, a dificuldade em trocar de diário. Outro dia, em Brasília, comprei o “Correio Braziliense”.

Levei bom tempo para saber por onde começar. Folheei de frente para trás e de trás para frente. Como sou ambidestro, poderia ser ambisinistro, mas escolheram a direita para mandar, ao começar uma refeição sempre fico a passar garfo/faca de uma mão a outra até decidir qual corta e qual espeta. Assim me sinto sempre ao abrir jornal a mim estranho, da cidade em que estiver.

Bom, depois da coluna de Ivan, desloco para olhar para “Ponto de Vista”, mas só leio dependendo de quem assina. Pulo para a A3 e foco no “Confidencial”, para então relaxar e correr para o Revista, onde me delicio. Isto feito, pulo para o “Opinião do leitor” e bato perna pelo jornal todo. Leio horóscopo, classificados e até o “quem morreu”, tomando o cuidado de observar se lá não estou listado.

Domingo passado, falei de passagem como professor rural em escola de pequeno distrito, longe, longe. Como disse, bateu saudade de um tempo feliz. Bernard Shaw: “Reminiscências fazem alguém sentir-se deliciosamente maduro e triste”.

A coluna de Ivan me fez lembrar um acontecido naquela região onde morava. Não sei se é fato ou fita, mas o fato é que contam como sucedido, de fato. Um candidato tradicional fazia campanha pelas vilas de seu imenso município e lá pelas voltas de Estrela da Barra seguia sua comitiva. Rural Willys, Jeeps e um caminhão Ford palanque.

Foguetório na entrada da vila para juntar povo para comício. Festança de bandeiras, distribuição de camisetas e bonés e, o mais esperado, dois bois no rolete e muito chope. Gente assim juntou de tanta. Muito palavrório, promessas, chamada de palmas e gritos pelos capangas do candidato, com seus reluzentes Smith Wesson na cintura e imponentes e vistosas Winchesters nos ombros.
Seguindo discurso:
— Meu povo, se eu ganhar e conto com o voto “docêis”, vou espalhar um mundo velho de pontes em todas as estradas da região!
Uma voz na multidão: — Seu moço, aqui tem córrego mais não!
— “Não tem córrego? Então, “nois faiz uai!”- e seguiu converseiro.
— Pensa bem meu povo, hora que eu assumir a vitória, vou fazer túnel para a Mogiana fazer curva e passar aqui. Vai ficar fácil viajar e carrear produção.
A mesma voz no meio do povão:
— Uai sô, mas aqui não tem serra, nem montanha!
— Não tem ainda! “Nóis faiz”!
Toca adiante comício.
— Se eu ganhar essa política vou mandar fazer escola para a meninada toda. Ninguém fica sem aula!
A voz:
— Carece não, tem mais criança por essas bandas não, e faz tempo.
Retruco na lata:
— Não tem criança? Sem problema, nem aborrecimento. “Nóis faiz”, uai!
Foi eleito disparado.








Jornal Correio em 13 de março de 2016




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terça-feira, março 1

Controle de Aedes

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A contemplação sempre nos traz ideias, algumas factíveis outras meio loucas. Geralmente estas últimas é que funcionam. Assim foi toda minha vida. Quando poderia imaginar que um programa de controle de escorpiões, implantado em uma cidade onde o escorpião não era considerado bicho perigoso, poderia vingar e transformar-se em um dos modelos de controle para nosso Brasil?

Pois é, de mirar para dentro um dia perdido no tempo, do perceber a necessidade não sentida de uma gente sendo agredida constantemente por esse bicho, nasceu nosso trabalho. Não mais nosso, e sim, um direito da população que felizmente aprendeu a cobrar por ele, perpetuando algo que lhe pertence e não pode sofrer interrupções. Fico feliz e realizado. Foi assim também com o controle da raiva canina. Quando começamos a brigar contra ela, era um Deus nos acuda. Quatro, cinco casos por semana davam entrada no Hospital Veterinário. Neste ano, completamos trinta, isso mesmo, trinta anos sem um caso sequer da doença em cão ou gato. Deu trabalho, mas como valeu à pena. Vidas salvas, missão cumprida.

Outro dia, ao entardecer ou anoitecer, não sei, pois os estertores do horário de verão são cruéis com o dia e com a noite, fazendo-os cumprir hora extra. Custa a escurecer e nunca amanhece, me peguei melancólico. De tanta picada que estava a levar, me veio uma ideia de como controlar o mosquito da dengue e, de quebra, diminuir, razoavelmente, os pernilongos comuns, cantantes de pé de ouvido.
Raquetes elétricas. Simples assim, ecologicamente corretas, não poluem e consomem faiscazinha de eletricidade ao serem carregadas na tomada. Calma, explico. Resolvi batizar de Projeto Guga meu divagar, seguindo exemplo da Polícia Federal e os nomes curiosos que dá às suas ações.

Seguinte: Uberlândia tem por volta de 300 mil domicílios, aí considero casas e apartamentos dos edifícios, cada vez mais abundantes, destruindo nossos horizontes. Vamos supor que cada domicílio destes receba uma raquete elétrica com instruções de uso e obrigação de detonar, digamos, 6 Aedes por dia. É pouco pela quantidade que temos voando para todos os lados.

Teríamos, pois a bagatela de 1,8 milhão eliminados por dia, certo? Por mês seriam 54 milhões e por ano 640 milhões bichos a menos atazanando nossas vidas. Super significativa, esta quantidade de Aedes fora de combate diminuiria, e muito, a transmissão da tríade do mal: zika, dengue, chikungunya. Além de levar atividade física para toda a população de uma vez só, diminuiríamos filas nas Unidades de Saúde e gastos com medicamentos. Todos ganham menos os mosquitos, é claro.

No varejo cada raquete dessa custa, digamos, R$ 25. Custo do Projeto Guga R$ 7,5 mil. Contudo, com uma compra grande licitada e bem fiscalizada, o custo vai cair e muito. Gasta-se mil vezes mais do que isso apenas com folhetos, explicando o que todos já sabem. Verdade, mas não fazem.

Aí, está. O projeto tem tudo para dar certo se aliado, é claro, ao básico que é acabar com água parada. Isso todo mundo já faz, ou não. Fica apenas a pergunta: quem vai colocar o guizo no pescoço do gato?







Jornal Correio de 28 de fevereiro de 2016



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sexta-feira, fevereiro 26

Escorpiões




Em um mês, foram registrados, em Uberlândia, 44 casos de acidentes com escorpião no período de dezembro de 2015 a janeiro de 2016. No ano passado, foram 20.015 ocorrências de pessoas picadas pelo aracnídeo em todo o Estado. Durante o período de chuva, os cuidados devem ser redobrados já que enchentes, alagamentos e enxurradas acabam obrigando o animal a deixar os esconderijos e procurar locais secos.

Clique no ícone PDF abaixo para matéria completa


Jornal Correio em 25/02/2016






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segunda-feira, fevereiro 22

Fantasia



Foto da protagonista da cronica por William H Stutz
Meu já conhecido hábito de observar as “insignifitudes”, para mais uma vez abusar de palavras de um dos maiores gênios da literatura brasileira, o mestre Manoel de Barros, me fez seu seguidor e com ele me sentir um “Apanhador de desperdícios.” Continuo a recitar mantra de Manoel: “Tenho em mim esse atraso de nascença./ Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos./ Tenho abundância de ser feliz por isso.”

Como bom cristão que reza, como bom pastor que pastoreia, pescador que lança rede ou simples/complicado como ser vivente que vive, esta terça de Carnaval existiu para me provar crença no belo que poucos enxergam, olham, veem (ortografia nova horrorosa, sem acento tipo chapéu Deerstalker). Tem dia que existe só para nos mostrar algo especial, que a vida vale o respirar.

Ando a sofrer com excesso de passado. Digo sofrer, pois é assim mesmo, “dilorido”/lamentoso atoleiro de lembranças. Areia movediça mental, quanto mais mexe mais fundo se vai. Quando dei por mim estava tão longe que até preguiça de voltar deu. Foi quando faceira ela borboletou casa a dentro. Quietou meu debater e a segui com a alma. Imaginei chegando das festas ou saindo para acompanhar bloco. Não, era novinha de roupagem e vida. Tinha acabado de sair de hibernação transformadora. Como sei? Ora, ela deitou pouso em parede branca e vagarosamente se pôs num abrir/fechar de asas. Tinha que secá-las para poder alçar voo de verdade.

Seu tempo de beleza é curto. Algumas poucas semanas. Se tiver sorte, um mês. Diferente dos humanos, se torna bela e assim se vai. As marcas do seu tempo não se dão em rugas ou casmurrices, mas em uma perda ligeira de brilho, imperceptível ao olhar comum, posto que poucos vão por atenção nela mesmo. Esta pequena joia me arrancou do mar de pensamentos e me trouxe de volta. Como “Quasimodo” de Victor Hugo ou Ferdinando, o touro de “Munro Leaf”, popularizado pelo desenho animado de Disney, me deixei levar pela miúda e estonteante beleza. O melhor antidepressivo é a contemplação. Me acode muito.

A propósito, o termo “excesso de passado” foi garimpado em publicação do Face. Garimpado sim, pois a grande maioria do que se vê ali segue a linha da falta de fonte, do “diga amém e compartilha”. Visito o Face como leria um antigo almanaque do Biotônico. Pouca ciência muita tolerância, muita informação desnecessária.

Carnaval. Concordo, sou ruim da cabeça e doente do pé, mas tento ser um bom sujeito. Não fico por aí a maldizer o ritmo. Gosta? Aproveite e se esbalde em “chuva suor e cerveja.” Não gosto de Carnaval plastificado, de camelô. Não consigo me imaginar vendo um desfile na televisão. Vi um, há vários anos atrás. Pelo que contam, vi todos. Muda nada.

Minha pequena visita aprumou e voou rumo a goiabeira. Foi procurar amor de sua existência. Tinha pressa de perpetuar a espécie. Sofria de “excesso de presente”. Tinha o que fazer. Desejei-lhe boa sorte, cantarolei marchinha que Tavinho Moura puxou um dia em Carnaval de praia, em um Espírito Santo de águas frias e limpas: “A minha fantasia ninguém muda. Esse ano vou sair de Buda, vai ser Buda prá lá, vai ser Buda pra cá (…)”

Penso agora em “excesso de futuro”.








Em Jornal Correio 21 de fevereiro 2016




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segunda-feira, fevereiro 15

A ponte





Ele sempre quis saber o que havia lá do outro lado. Ligando uma margem à outra havia uma ponte. Era uma ponte de madeira, beiral caído, algumas tábuas soltas; nada de especial, não chamava atenção. Construída há muito tempo, agora pouco era usada, pois, depois da mudança do traçado da nova rodovia, ela ficou meio que isolada, no meio do mato, ligando nada a lugar algum. Eventualmente, algum tropeiro ou peão-do-trecho a usava para cortar caminho, mas era raro, muito raro. Virou atalho. Não era muito alta, mas uma queda podia ser perigosa, pois o córrego era raso e as águas cristalinas que corriam sob sua estrutura abrigavam muitas pedras.

Em uma de suas cabeceiras a vegetação tomava conta, samambaias imensas, escondiam pequenas teias de aranha que pela manhã brilhavam orvalhadas como joias. Ele gostava de ficar observando a outra margem, sempre quis saber o que havia do outro lado.

Espiava curioso os aglomerados de árvores, os contornos, as sombras. Sons, muitos sons vinham da outra margem do rego d’água. Cantos, rugidos, piados. E ele queria saber o que lá havia, era seu sonho, sua obsessão. Toda tarde, apoiava-se em um galho e ali, quieto, ficava a olhar o lado de lá. Por várias vezes, criou coragem e ensaiava enfrentar o trecho e realizar seu desejo, mas, no derradeiro instante, desistia, esse medo o enfraquecia, sentia que se não o enfrentasse a sua vida não teria sentido. A ponte era seu desafio maior e único.

Naquela dia, acordou decidido, faria a travessia logo mais ao escurecer, saberia, enfim, o que havia do outro lado. Esperou ansioso a chegada da tarde, o sol estava diferente, as nuvens mais brilhantes, uma brisa fria tocou seu corpo; sentiu cheiro de chuva. Não se apoiou como de costume em seu galho preferido, com o pequeno coração em disparada recostou-se na própria ponte e esperou. A noite chegava convidativa, as primeiras estrelas já se faziam anunciar: tênue brilho, esmeraldas e turmalinas. Tinha chegado o momento, ele sabia disso, ia finalmente saber o que havia do outro lado. Ergueu a cabeça, respirou fundo, fechou os olhos, se postou para a arrancada.

Qual a sua decepção; bateu subitamente o medo, o seu incompreensível, irracional medo, não conseguiu se mover. Lutou desesperadamente contra esta força que o impedia de avançar, sem sucesso. Resignado deitou-se no chão e ali se deixou ficar por muito tempo — sofria. Se fez noite fechada e vaga-lumes riscavam o ar bem próximos de sua cabeça. Suspirou e deu uma última olhada para a ponte — apenas um vulto negro agora sem linhas, sem contorno, sem graça; obstáculo. Ainda não foi desta vez que conheceria o que havia do outro lado. Levantou-se amargo, sacudiu a poeira de sua colorida plumagem, passou o bico vagarosamente sob suas asas, sentiu o calor de sua pele, esticou as patas e voou para seu ninho.

Melodiosamente entoou triste canto noturno. Dormiu cansado e, mais uma vez, sonhou com a ponte, e claro, com o que haveria do outro lado. Alguns de nós somos assim, nunca atravessamos nossas pontes, uma pena.








Jornal Correio domingo, 14 de fevereiro 2016




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quinta-feira, fevereiro 11

Nomes



Amigo Júlio Penna, assim mesmo com aristocrático duplo N, me deu um alerta. Nomes. Todo cuidado é pouco na hora de escolher nome de filho. Ser criativo, pode gerar constrangimentos e bullying.
Encontrei alguns tantos, mostro poucos: Maiquel Edy Marfy, Patrick Itambé da Silva, Erripóter, Romixinaide, João Lenão, Milquesheiqueson. A lista é imensa.

Poderiam ter me batizado João. Meu filho assim foi, segue composto em Lucas, iluminado João Lucas. Ah, João Batista, João de Barro. Tantos Joões. Poderia ser José, nome que por si só transmuta, vira Zé e não tem quem tire. Zé das Couves, gente do povo. Talvez Maria, Vidente ou das Graças, Aparecida, de Fátima, das Dores, horrores. Da Penha. Maria das Luzes, Maria. Tantas uma só. Maria Cristina, ou apenas Cristina, Tina, Cri, como o cantar dos grilos. Com sorte Mariana, como minha filha, nome forte.

Poderiam ter me dado Pedro, pedra bruta, pronta a lapidar. Mas dei sorte, pois poderiam ter me agraciado com nomes vários e diferentes: Dosolina, Tazinasso, Elvis Presley da Silva, Eraldonclóbes Souza, Espere em Deus Mateus, Benedito Camurça Aveludado ou quem sabe Maycom Géquiçom ou Franklestan? Djennypher estaria de bom tamanho?

Sendo filho de pai gringo do Brooklyn, NY, não posso reclamar. Na verdade adoro meu nome e já o encontrei abrasileirado para Uilhan. Há tempos guardo grafias do mesmo: Uiliam, Wilian, Wilha, Uilen, raramente com dois “Ls e M com é. O sobrenome então, dá zica sempre. Stutz é um arraso, só soletrando ou mostrando documento. — Por gentileza pode copiar? A que mais gosto das variações vem das gentes simples a me chamarem de Seo Uila. Cheiro de mato, sopro de vento de sonoridade e pureza de alma. Sinto-me figura de Rosa, o Guimarães. Orgulho que só.

Nomes marcam época, modismo. Os anos 60, com o belo movimento de contracultura hippie, fizeram brotar nomes como Brisa, Estrela, Mel, Flor, Sol, Dilan, Demian, Iris e Jasmim. Estes sempre soam bem e trazem vibrações de paz e amor.

Já outros, do gracejo ao trauma, a distância é pequena, como beijo de pulga. Mas fique tranquilo, se não gosta de seu nome, mude, pois é só ir ao cartório. Tenho uma amiga que detestava seu nome. Chamava-se Mari Onete. Não teve dúvidas, mudou para Títere dos fios. Está feliz da vida andando com as próprias pernas.

Caso ouvi, contado de moço que chegou para tirar de identidade. Perguntas de sempre. Endereço, estado civil ou militar e nome completo. — Papaulo Persegonha. Como é que é? Estranhou funcionário da delegacia. — Papaulo Persegonha, repetiu com cara de poucos amigos e conhecedor do estranhamento. Meu caro, você por acaso é gago? — Não senhor, mas meu pai era e o escrivão um tremendo de um gozador.

Pois então amigo Júlio, diz bem, com propriedade. Nome de gringo, mas alma e espírito de total brasilidade, matuto desconfiado de Minas, sem ufanismo, olho observando. Aprovando o que acho bom, sem mais julgar o errado ao meu atentar. Aprendi, contei, reconto com João meu filho.
Ficamos assim, sem muito mais. Se seu nome é Bond, James Bond, o meu bem pode ser uell, Manoel, reza a troça. Cada um com sua sina.








Jornal Correio em 07 de fevereiro de 2016   (Um domingo de carnaval)




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segunda-feira, fevereiro 1

Aedes


Céu de marte em março. by Márcia Valle

O dia amanheceu quente. Sol pálido e embaçado se fez mostrar em céu vermelho marte sem graça. Fim de mais uma noite sem lua, sem estrelas. Estrelas, coçou a cabeça a pensar. A última vez que viu uma de verdade foi no museu de História Natural, no planetário. Lembra claramente da sensação de alegria e bem estar ao ver as constelações, a lua. Via Láctea fazendo jus ao seu nome, caminho de leite.

Pulou da cama, tomou seu banho a seco. Água pura era coisa rara e cara. Riu sozinho das mentiras contadas em pen drive, com memórias de parente longínquo. Dois banhos por dia com água! Vê se pode? Nem naquele tempo! E o falsocéu nas imagens de recordação, um azul de doer os olhos, nuvens brancas e pássaros para todo lado? Esses antigos tinham tempo!

Quanto a ele, não tinha tempo a perder. Vestiu rapidamente sua armadura protetora e, como sempre, a primeira missão do dia estava por fazer. Desembainhou sua raquete eletrônica e se pôs a fazer a inspeção diária de dez minutos por sua casa. Todos eram obrigados a fazê-la, sob pena de prisão e processo por omissão.

Os inimigos se escondiam por todos os cantos. Debaixo de camas, mesas e poltronas. Sentiu o primeiro ataque nos pés. Reagiu por instinto, brandindo sua raquete em golpe certeiro, “plect” rodopia como samurai, “plect” “plect” estalos indicam mais dois inimigos abatidos. Decorrido o tempo de busca e após algumas dezenas de “plects”, extenuado, suando feito cavalo de corrida, encostou-se para breve descanso. Sentiu as feridas. Estas coçam mais do que pó de mico. Os inimigos desenvolveram poderosas armas, não respeitando mais tecido grosso e muito menos repelentes ou venenos.

O século é o 23 e os Aedes estão maiores e mais vorazes. Aprenderam táticas de guerrilha. Transmitem centenas de doenças e agravos, de chulé a bico de papagaio. Reproduziam-se em barrancos e areia, seca, desenvolveram cérebro tornaram-se pensantes. Poças de chuva ácida não careciam. Darwin explicaria.
Dengue, zica, chikungunya? Coisas do passado.

Para cada vacina, em seus laboratórios nos mangues, charcos eles descobrem outras doenças e métodos para atacarem humanos. Atualmente estão desenvolvendo formas de transmissão da apatia e do desleixo, na tentativa de deter os gladiadores que lhes vem causando muitas baixas.

Assim, logo após a queda dos porcos e a malsucedida Revolução dos Bichos, virá o império Aedes aegypti. Brinca para você ver! Ficção de hoje é a realidade de amanhã. Cuide do seu pedaço, do seu quintal. Deixando criadouros do mosquito você está contribuindo para a evolução de super raça de Aedes.

Faça sua parte senão estamos com os dias contados. Isto se nós mesmos não resolvermos nos implodir antes, alimentando os Kim Jong-il da vida a caviar e Champanhe Goût de Diamants, enquanto ele brinca de bombas de nitrogênio.

Inspecione sua casa dez minutos por dia. O mosquito é democrático. Casa de rico ou de pobre, não dá bola para política ou futebol. A hora é agora, senão, nossos bisnetos verão o sol nascer embaçado em seu vermelho marte/morte.










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segunda-feira, janeiro 25

Chuva


Foto da web (autor desconhecido)
 
Parece que, finalmente, a tão esperada chuva deu o ar da graça e cravou nuvens sobre nossas cabeças. Como demorou este ano. Não vou ficar repetindo as possíveis causas de tanto calor como o que passamos e agora, o atraso das águas, mas sabemos que a culpa é nossa, do El Niño e de sua namoradinha La Niña. Com suas maldades infantis e terríveis consequências, foram gerados por ações humanas. Criamos monstros. Pode parecer loucura, mas tem criança má sim. Como diz o psiquiatria infantil Fabio Barbirato: “Não é fácil a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”. E grande parte da culpa, se é que se pode definir como tal, é de quem a criou. No caso dos dois Niños, nós mesmos.

Abrimos a Arca da Aliança, fizemos da natureza nossa inimiga e, como tal, sugamos suas riquezas em dose alta demais, enfumaçamos a casa. Estamos condenados a pagar alto preço por tamanha heresia. As águas vieram em pingos verdes, a terra rachada que nem nossos calcanhares de criança criada livre, pé no chão, agradeceu florescendo em mantos e matas e mantras.

Nas pobres cidades um desastre que se repete desde quando inventaram o progresso, o asfalto, a especulação imobiliária e o ódio por árvores. Ruas em armadilhas se transformam, mato cresce com vigor nos terrenos e seus donos acham que é dever do poder público carpir. Mato, quanto mais corta mais forte cresce.

A roçada de hoje é o matagal de poucos dias para frente. Cada dono deveria cuidar do que é seu. Logo a tão esperada chuva vira tormento para muitos, roupa não seca, mofo aparece, goteiras esquecidas renascem. Não demora ovo na cerca e novenas para Santa Clara, acompanhada da mandinga: “Lágrima do peito aberto, coração de Deus ferido, nos defendei da tempestade e de todos os perigos”. Não tem cerca na cidade grande? Ovo na calha ou no muro. Tudo para espantar a até outro dia tão esperada senhora da vida e fartura. Se não funcionar, pelo menos um gambá que mora hoje pertinho de você ganha uma almoço, pois na mata já não tem abrigo.

De bendita a amaldiçoada é um pulo. As gentes da cidade desconhecem o valor dessa riqueza. Dela só sabem pela televisão, pela previsão do tempo, pelas reportagens trágicas. Quer trecho para Pasárgada? Impossível. Aeroportos fechados por conta do mau tempo, sem teto dizem. Ônibus ou carro? Um perigo, estradas queijo suíço, quedas de barreiras e o preço do pedágio para as alturas a encontrar nuvens pesadas foi.

Saudades de ficar quietinho na varanda com uma boa xícara de ágata colorida de café quente, olhando a chuva benzer campos e montanhas de um lado, à minha frente cheiro de sal, uma imensidão de mar calmo. Já viu chovendo no mar? Água morninha. O ritmado quebrar de ondas baixas deixa espuma na praia. Nada de preocupação com alagamentos, atoleiros ou pedágios. Andar descalço em areia molhada, deixar chuva correr pela aba do chapéu, sonhar com roça pronta, cantarolar alegria, peito a explodir. Viver é tão bom.

A vida pode ser assim, mansa. O cheiro de terra molhada convida à contemplação. Só não pode barragem mineradora por perto a ameaçar com sua ganância de lama.









Jornal Correio em 24 de Janeiro de 2016




Chuva