quinta-feira, fevereiro 19

Vício



Mas, afinal de contas, o que é um vício? Não me refiro aos Vícios com V maiúsculo, tipo fumar, usar hard drugs, jogar baralho, frequentar cassinos clandestinos, coisas assim. Falo de vícios normais, do cotidiano. Contemplar belezas da vida, o vício de amar, o vício por boa música, boa companhia, o fabuloso e já raro vício de ler, vício de viver e contar da vida, vício de escrever. Aí eu me peguei ou me ferrei.

Acostumando, ou viciado, a dedilhar todo dia, tem que acontecer algo muito diferente e estranho para que não me pegue com meu livrinho de notas, meu notebook e, de um tempo para cá, mesmo sofrendo martírio de letras miúdas, dedos grossos e vista fraca de meu smartphone – e ele aparelho, se acha esperto – o bichinho se tornou um salvador de ideias, claro que no transcrever as correções são milhares. Letras trocadas, frases inteiras sem sentido; custo a decifrar. Na falta de caneta e papel, ele bem que ajuda. Sou o maior “enviador” de mensagens eletrônicas para mim mesmo. Abafa solidão, sempre terei uma mensagem minha a esperar. Não cheguei à fase de responder as minhas próprias mensagens nem de curtir spam, mas…

Se procurar em qualquer dicionário vai encontrar definições de vício que vão lhe deixar de cabelo em pé, olha só: Defeito ou imperfeição. Prática frequente de ato considerado pecaminoso. Tendência para contrariar a moral estabelecida. Hábito inveterado. Dependência do consumo de uma substância. Erro de ofício. Erro habitual no uso da língua. Mau hábito ou costume que as bestas adquirem = Manha
Consultei várias coleções de palavras na esperança sempre verde de encontrar significado que me aliviasse. Nada achei. Comecei a me sentir um pervertido pronto a “perturbar a ordem ou o estado das coisas”. Palavras deles, os léxicos. Essa definição até me deu um “up”, pois é exatamente o que todos nós gostaríamos de fazer para vida melhor viver, ar mais puro respirar.

Mas já que sou viciado em escrever vou tentar me encaixar no que me classificam. É defeito ou imperfeição escrever? Acho que sim, pois quem escreve tende a pensar e isso hoje mais parece defeito de fábrica. Eu tendo a contrariar a moral estabelecida? Todo humano pensante deve ter esta tendência, se você como eu luta contra a homofobia, a xenofobia ou qualquer tipo de preconceito, bem-vindo ao time dos que lutam contra uma moral indecente estabelecida. Mania, bom esta está clara e com ela concordo. Dependência de consumo de alguma substância, eita se tenho, consumo substâncias literárias, poemas, ensaios, contos, não me importa gênero tanto faz narrativas ou líricos. Jamais me internem em clínicas de desintoxicação de leituras.

Habitualmente, erro no uso da linguagem? Como sou um anarquista na escrita, devo cometer milhões de erros, nasci para descumprir regras, se as seguisse não sentiria prazer em meu vício de escrever.
Manhoso sou, besta que não, senhor dicionário. Lembrei Novos Baianos: “Por que não viver?/ Não viver esse mundo/ Por que não viver?/ Besta é tu!/ Besta é tu! Besta é tu!”






Publicado em Jornal Correio em 15 de fevereiro de 2015




https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhUVVDb21hMU5iTE0/view?usp=sharing






segunda-feira, fevereiro 9

Pelada na mata

Noite alta. Tenho por costume acordar no meio da madrugada, principalmente com lua cheia. As sombras da mata bem em frente ao mangueirão misturadas com prata da lua são convite para passeio. Desço escadas da varanda e sigo rumo à penumbra. Vou descalço pela grama cortada baixo. Satisfeito, sinto o molhar dos pés encharcados de orvalho fresco. Esfrego peito do pé e abraço folhagens com os dedos, mato gelado e frio. Sensação boa que nem de coceira de bicho de pé.
Esbarrão nas pernas. Duquesa, nossa imensa vira-latas acordou de sono leve no tapete da cozinha e, como de costume chega aos trancos e barrancos. Eterno querer brincar. Patas sujas de terra vermelha, ficam marcas em dorso nu. Ralho com olho e dedo no focinho, ela em alegre abanar de rabo e arfante língua de fora atende de pronto. Sabe o propósito do passeio, noite de ver beleza inimaginável, sabe do silêncio a fazer.
Na boca da mata sento em tronco antigo de aroeira caída. Calço as botinas e sigo por trilha de pouco uso. Ramas e galhada escondem caminho, conheço traçado. Carrego na cabeça. Perco não. Normalmente Duquesa seguiria à frente, espantando bicho que houvesse, hoje, sabida, segue rente calcanhar. Hora outra esbarro salto da botina levinho em seu queixo. Toma por afago e gane baixinho. Um olhar duro a faz baixar as orelhas, se aquieta, menos o rabo e brilho nos olhos, esses não tem como apagar. Luz da lua desenha monstros e princesas no chão verde e nas copas das árvores. Horda bárbara em marcha silenciosa segue ligeira entre troncos ao sabor das nuvens e vento, num esconde/aparece da lua. Parecem marchar rumo a falso triunfo, Águas Sextias selaria destino. Antevejo nuvens de fantasmas em debandada. Acostumei com o recriar épicos e clássicos em caminhadas assim. A luz e suas sombras enfeitiçam. Fornalha da imaginação carregada.
O andar é calmo, os pios, gritos e rangeres são conhecidos parentes da noite, primos-irmãos meus.
Um tanto mais tarde logo vemos – Duquesa e eu – um clarão amarelo de fogueira. Nosso destino. Chegamos agachados para não chamar atenção. Apertamos o corpo bem rente ao chão de musgo e folhas secas. Botamos atenção na prosa que de lá nos chega límpida e clara, vento a nosso favor.
– Assim não! A bola é nossa!
– Jeito nenhum, ganhamos no par ou ímpar, você escolheu o primeiro do seu time, então mané, a bola é nossa.
Grita outro lá do fundo:
– Começa logo sô, a noite logo vai embora e não jogamos nada.
– Reclama não, não combinamos que não podia jogar de cachimbo?
– Ah tá, saci sem cachimbo, então me entrega seu gorro, quero ver!
– Gorro não, sem ele como viajar em redemoinho, como roubar ovo indez, como fazer galinha sair do choco. Me conta?
Pensei comigo: daí porque algumas de minhas galinhas largaram os ninhos. Eita bicho atentado.
– Outra coisa seu velho pitador, nada de dar rasteira nem canelada. Mês passado fiquei com a perna doída.
– Você que é ruim de bola e de traquinagens, ou acha que não estamos de olho em você?
– Inveja de vocês! Quem amarrou a crina do alazão bravo? Quem deu nó nas espigas de milho na roça de seu José da Novena? Euzinho – disse ensaiando um catira.
– Empurra logo esse coité e vamos jogar, com cachimbo e touca, pois é assim que somos.
Já não conseguia mais conter o riso e tive que morder o lábio para não dar bandeira.
Sei que aquele bando de miúdos brigou, brigou até o sol romper em ouro transformando a mata em quadro de Miró. Passarada a piar, corujas atentas ao jogo que não houve buscaram abrigo. No meio da clareira, só o coité solitário.
E assim como de costume, depois de exaustivas discussões sem que a pelada nem tivesse começado, gratificante banho de cachoeira e cada um, feliz da vida busca seu gomo de bambu para um belo dia de sono.

Saci é assim, em bando então. Sem pressa. Mês que vem volto com Duquesa. Virou lenda.



Imagem do Saci de www.ecoloja.com.br

Viver sozinho, não só






“Podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais”.
Chuvas de verão, de Fernando Lobo na voz de Caetano.


Desde que resolvemos que deveríamos morar cada um no seu canto, depois de mais de três décadas de um viver juntos, tenho me deparado com situações inusitadas do dia a dia. Uma relação tão duradora e rica resultou em amizade bonita e terna. Nada de rusgas ou desavenças. Pelo contrário aflorou um sentimento forte e único, de muito carinho e solidariedade. Aprende-se a ler o sentimento um do outro. O apartar se tornou necessário, nasceu atenção especial de um para com o outro.

Mas como toda mudança traz alguns desafios assim, de lá e de cá lá, vou eu reaprendendo a seguir trecho. Dentre as vicissitudes enfrentadas, algumas merecem destaque. O tal do papel filme. Enrosco-me todo com aquilo, perco a metade até conseguir colocar no jeito de uso, o primeiro piquei todo – destino: lixo. Aprendi a comprar marca mais decente, se é que existe. O tal de passar roupa é outro suplício, antes era dividido: um lavava e o outro passava. Contas e banco. Aprendi a me programar, controlar despesas domésticas. Também com a superprofessora que tive! Me deu todas as dicas, pois, antes, só ela fazia, nunca soube nem gostava de lidar com dinheiro.

Grande desafio: compras em excesso. Sempre fui considerado inimputável em supermercados, incapaz no ato de fazer compras. Talvez privações de infância me fizeram um comprador de inutilidades. Agora, solto, comprei tanta coisa sem necessidade… Isso sem contar o não saber comprar para uma pessoa. Aprendi na bruta a lidar com o não desperdício.

Infelizmente, a indústria se esqueceu de nós solitários viventes. Não existem embalagens, pelo menos aqui, para os anacoretas. Já viu vender saquinhos com 250 g de arroz, feijão, açúcar? Pacotes porção única de macarrão? Não me falem daqueles instantâneos, pelo amor de Deus. Falo de massa fina, tipo canelone, rondeli, tagliatelle ou um imbatível farfalle. Molho de tomate, 50 g de queijo fresco ou ralado, existe? Da comida a produtos de limpeza às frutas e legumes. Verduras, então. Um pé de alface é desperdício, dá para vender meio pé? Um calcanharzinho apenas? Compro três tomates e fico com medo de deixar perder.
Um jiló para o arroz, uma batata doce, um pimentão, cabeça de alho única, cebola duas no máximo. Minha feira da semana cabe em uma sacolinha. Mas pelo menos não sobra, jogar comida fora é um desaforo. Isso sem contar que cozinhar só para você não tem a menor graça.

Não entrei nessa fase ainda. Fico na marmita por enquanto. Mas pretendo me aventurar logo pela arte da gastronomia solitária. Pequenos pratos saborosos e saudáveis. Nós solitários poderíamos criar uma confraria, trocar receitas, experiências domésticas e de vida a um. Enfatizo, sós sem solidão. Fica o clamor à indústria. Pequenas porções, sachês de sabão em pó, amaciante. Tanto a oferecer a um grupo que só faz crescer, gente que fez opção por estilo de vida. Assim poderíamos ler, escrever, compor, pintar, meditar sabendo que, em segundos, poderemos preparar delicioso repasto sem depender de disque pizza ou do Suchi in.

“Bola de meia/bola de gude/o solidário não quer solidão”.
Milton Nascimento e Fernando Brant.






Publicado Jornal Correio em 09/02/2015




 Sozinho, mas não só

segunda-feira, fevereiro 2

Sombra



Fotos:  william h stutz



Cada dia que passa mais me assusta a falta de árvores em nossa cidade. Falei disso outro dia, acho. Minha memória anda cozida pelo calor de um janeiro atípico onde chuva que tão comum e esperada insiste em não aparecer. A última foi aquela acompanhada de muito vento e granizo, que além de estragos normais, fez a alegria de muita gente.

Hoje em dia é redundante dizer que está de cabeça quente. Se você chegou da rua, não estava usando chapéu ou sombrinha, cabeça quente está.

É só dar uma volta pela cidade e contar a quantidade de árvores que desapareceram.

Sem árvore, sem sombra. E o estranho é que na maioria das vezes, aquele que se aperta, rasteja atrás de salvador e fresco lugar fora do sol é o mesmo que irritado com as folhas que sujam seu passeio, seu quintal, seu canteiro, as condenam à morte sem aviso prévio. Chegam na cara dura e pronto, cortam sem dó nem piedade.

Outro dia, um domingo, deparei com cena inusitada. Saindo da academia, me dou em meio a pátio gigantesco de asfalto. Como era cedo, poucos lá estavam estacionados.

No meio deste pasto de betume e areia, uma pequena e torta árvore poupada suava seiva para sobreviver. Sob sua generosa sombra – apesar de mínima – quatro carros se apertavam como vacas holandesas a se proteger do sol de cedo, mas já esturricante, daqueles de rachar mamona. No resto do estacionamento fechado em negrume e exalando calor, uma ou outra árvore pingada, sempre com um carro a seguir esguia e fraca sombra.

Um lugar que dá preferência a carros em vez de árvores. Tão comum em nossa cidade que chega a me dar medo. Pois a vida vibraria agregada ao plantio de belas e frondosas Damas de Verde, com toda certeza atrairiam muito mais gente e até passarinho.

Por que não transformar estes espaços em belos parques arborizados? Qualquer shopping que assim fizer só tem a ganhar. Ah, mas aí caberia menos carros –argumentaria o senhor de charuto na boca, pés sobre mesa de jacarandá e sala climatizada em condicionado a 16-17 graus.

Meu senhor, menos carro pode não significar menos gente, menos consumidores.

Lembre-se que estamos aprendendo a usar transporte coletivo, aprendendo a andar com os próprios pés em belas e saudáveis caminhadas. Este público se sentiria compelido por força invisível e saudável a buscar local belo e arborizado; do descanso a entrar em seus templos de consumo seria um pulo. Pensem nisso.

Plantem que eles virão, passarinhos, sombras e até as gentes. Contribuam com vida para a nossa cidade. Todo ser vivente agradecerá. E o senhor do charuto ficará mais rico e talvez, com consciência mais leve.

Cientistas, políticos, palpiteiros de plantão, todos têm uma explicação na ponta da língua para a falta de chuva por nossas bandas. Mas em um ponto todos eles concordam: o desmatamento urbano também contribui para as duras mudanças em nosso clima.

Ou tomamos uma atitude já ou estamos fadados às lamúrias e às torneiras secas. De líquido só lágrimas, algumas de tristeza, algumas de arrependimentos, mas muitas e principalmente as de crocodilo.

No mais Gerais, se ainda der tempo.







Publicado Jornal Correio em 1º de Fevereiro de 2015



 https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhT29GdXA2WWtpMVk/view?usp=sharing

segunda-feira, janeiro 26

De rodoviárias e bibliotecas





Refaço, sem muito esforço, o caminho que me trouxe a Uberlândia. Não carece repetir histórias contadas da chegada, das charretes da velha rodoviária onde hoje se encontra a biblioteca. Quando cheguei, as histórias estavam dentro das pessoas que iam e vinham de todos os cantos e por ali passavam. Hoje as histórias estão nos livros que descansam agitadamente imóveis nas prateleiras à espera de quem os desperte em vida, os folheie e viaje com eles. Bibliotecas e rodoviárias têm muito em comum. Ambas foram criadas para transportar pessoas a longínquos paradeiros. Não se medem quilômetros, léguas ou metros. Medem-se em sentimentos, expectativas, paixões, desilusões, saudades.

Mais semelhanças estão em ambas presentes. As bibliotecas trazem conhecimento, informações. O sacolejo das velhas jardineiras também. Se cada livro tem sua história, cada ser vivente que por aquela velha rodoviária perambulou também é rico em casos. Universo único, luminoso e rico. Depois de morar em pensões, quartos alugados e algumas repúblicas, finquei raiz em uma delas, a já mencionada Quilombo dos Palmares, na Felisberto Carrejo.

Esta, sim, misto de biblioteca, rodoviária, estação de trem, feira-livre, encontro de comadres, saída de missa, dada a quantidade de histórias que por lá aconteceram e, em suas paredes devem estar, como livros, aguardando quem as conte. Uma delas: Colega e hoje compadre, moço grande e forte, criado em fazenda lá pelas bandas da Cumbuca perto de Iturama. Tamanho, força, mas medroso de assombração que só. Foi a deixa. Amarramos linha de pesca em sua coberta e corremos a mesma até o quarto em frente ao nosso. Dividia o quarto com ele.

Tudo combinado. Assim que chegou da rua em noite alta de sábado, estávamos na sala, à luz de velas apenas, o breu quase total. Colega em atabaque marcava ponto de umbanda e amiga se fazia por encarnada de espírito, da fala grossa e girava a cabeça. No começo o compadre riu meio sem jeito. Aos poucos foi perdendo a graça e tremia. Dizia que era o frio. Era medo. Aquilo durou bem uns 20 minutos, quanto outro da república ligou as luzes do relógio e todos em ensaiado grito alto terminamos a “sessão”.
Deu uma pressa no “véio” – assim carinhosamente o chamávamos – de dormir que ninguém conseguia segurá-lo. E era tudo que queríamos. Noite ia fundo, todos acordados, menos o “véio”. Foi só esperar o seu alto roncar. Começou a segunda parte do plano. Do quarto em frente, começaram a puxar o fio amarrado na coberta. Eu fingia dormir para o tudo acompanhar.
No primeiro puxão a coberta foi parar no peito dele. Acordou assustado, me chamou e com voz trêmula: “Viu isso?” – “Vi nada, só é imaginação sua, vai dormir!”

Pouco passou e puxaram outra vez a linha de anzol, desta vez, com tanta força que a coberta parou nos pés. Aí foi pulo só! Ficou em pé no meio do quarto e gritou forte: — Toma que é seu alma penada, tá com mais frio do que eu, fica com ela!
Gargalhada geral, e só então o incauto tomou ciência da farra. E você pensava que estudante de república só estudava? Tempo bom.















Publicado no Jornal Correio em 25 de janeiro de 2015

segunda-feira, janeiro 19

Férias e o mar






Recebo de pessoa muito especial por meio de mensagem no telefone foto de uma linda castanheira, aqui mais conhecida como sete de copas, ladeada por caminho de areia, ao fundo maravilhoso Atlântico. Com a foto frase de música de Beto Guedes: “Da janela lateral do quarto de dormir…”

Paro tudo que estou fazendo. Sonhos flutuam dentro de mim como águas-vivas à deriva em mar calmo e morno. Sinto cheiro de maresia em pleno cerrado. Ouço ondas a se desmancharem em espuma em praia de areia branca. Tatuís soltam borbulhas – desde criança nunca concordei com essa palavra que não me trazia lembrança de bolhas, não podia ser assim – para a criança aqui dentro sempre foi “borbolhas” com “o” mesmo, confere sonoridade.

Guruçás aflitos em ligeireza, limpam tocas a cada ir e vir do inabalável movimento da água.
Ouço gaivotas em gritos contínuos a sobrevoar rede de arrastão que vem à praia chegando. Muito peixe miúdo vai sobrar – banquete de aves e mil outros bichos de praia. Meninos pequenos com seus baldinhos coloridos cheios d’água irão catar muitos destes peixinhos para brincar de aquário. Minutos depois, dispersos como toda criança esquecerão dos peixinhos que morrerão em prisão de plásticos e, atirados à areia por mãe zelosa alimentarão formigas, gatos famintos em refeição à milanesa.

Ouço os vendedores de picolé, de espetinho de camarão, de amendoim torrado em latinhas com carvão em brasa balançado como turíbulo em ritual cerimonioso.

O vento quente soprando sem parar arrasta chapéus de turistas incautos com seus narizes brancos de Hipoglós. Quando em vez, um guarda-sol passa em cambalhotas à minha frente em desengonçado malabares. Atrás dele sempre alguém a correr em apressada carreira.

Sinto cheiro de peixe frito, moquecas borbulhantes trazem fome cedo. Penso em me contentar com um peroá frito, segura até almoço tarde de praia.

Mergulho em fria e reconfortante água. Furo ondas como profissional do interior das Gerais. Ensaio um jacaré, tomo um caixote que deixa com a cara na areia. Finjo nada acontecer, repito façanha. Hora deu certo, me levanto com pose de surfista profissional.

Ninguém reparou.

Sonhos flutuam dentro de mim. Vejo à larga barcos pontilhando horizonte. Luzes de um imenso transatlântico começam a acender em constelação flutuante.

O sol pincela suas cores em tela líquida, pintura em movimento. Mais um dia se vai manso, alma e corpo leves.

Alguém abre a porta e saio de torpor perigoso, estava com enorme exemplar de escorpião na ponta da pinça, pensava ver ali camarão. Não é certo. Pessoas das quais gostamos imensamente deveriam sair de férias junto com a gente. Um lá outro cá não dá rock. Castigo. Ano que vem programamos para a mesma data, pode apostar.

Do nada outra foto, ah! Não! Agora em final de manhã, mesa pé na areia e abre-se cerveja véu de noiva. Melhor concentrar no trabalho.














segunda-feira, janeiro 12

Seu Mercão




Seu Américo, Mercão assim chamado por lá. Tamanho e força física tinha de sobra. Preguiça do povo encurtou nome, virou Mercão. Pois esse finalzinho de dia vinha da Cumbuca sua fazenda, em Jipão 54 caindo aos pedaços de tanto sacolejo de trabalho. Depois de pesado dia de apartação só muita cachaça para relaxar no final de tarde. Vinha com o peão por nome/apelido Maluco, esse sei origem não.

Na estradinha de terra massapé do Monte Alto, alegria de tarefa feita, e altos do álcool. Naquela época, só as gentes bebiam álcool, carros só gasolina ou diesel. Seu Mercão pisava fundo, alegria de ver poeira subindo.
— Vamos botar o braço na viola! – gritou alto Seu Mercão.

Vento forte no rosto, chapéu atolado para não voar, ria alto. Explico expressão: botar o braço na viola era mear velocímetro, o dos jipes era redondo que nem relógio de pulso e o termo significava pisar até 80 km assim, rústico, veloz e endoidice para a época. O ponteiro ficava em pezinho como relógio marcando meio-dia/noite e meia lua tomava jeito de bojo de viola.

Riam em alegre irresponsabilidade – moços jovens, trabalhadores, mas zero de juízo. Numa curva fechada, o carro derrapou feio e, na toada que estava, seguiu em frente, quase roçando o capim gordura da beira do riscado da estrada, ameaçando topar de frente com moitas de Camboatás filhotes, mas já carregados de espigas e frutos – pequenos corações amarelos.

Agarrado firme em volante dono de três volta de folga até pegar obediência dos pneus – o peão caronista apavorado vendo a tal viola em caco pensou para dentro: “Vai zangar a capação”, não teve jeito, gritou forte de parecer bezerro procurando mãe:
— Olha a ponte, seu Mercão!

Esse olhou ligeiro de olhos um tanto arregalados retrucou afobado para o carona,:
— Pior se não tivesse! Pior se não tivesse!

Passaram tirando fina na tábua da ponte, o riacho continuou correndo manso. Anjo da guarda descabelado, de olheiras imensas e asa caída, mas, ainda forte no poder, ajudou mais uma vez. Depois dessa pediu aposentadoria por periculosidade, voou céu acima para setor de recursos humanos. Humanos?

Chegaram em casa que era poeira em forma de gente. Vivos, inteiros que era farra só. O anjo da guarda dos dois entrou numa requeima brava, abriu em muda por stress, troca de pena.Dona Filó os esperava na varanda da casa com cara de poucos amigos. Ralhar não adiantava. Falou brava:
— Seus sem juízo, bora os dois tomar banho que vou preparar um conosquinho, apesar de não de haver merecimento.
Conhece conosquinho não? Pode deixar, para alguma semana explico.

Resgate de acontecidos me faço Gonzagão: “Minha vida é andar por esse país, pra ver se um dia descanso feliz”..






Publicado Jornal Correio em 11 de Janeiro de 2015



 Seu Mercão

terça-feira, janeiro 6

Aberta temporada de nossos bichos

Incidência de morcegos cresce durante este período do ano

Foto Jornal Corrreio


Matéria do Jornal Correio clique AQUI

domingo, janeiro 4

Ano Novo








O ano que finda já mostrou seus estertores – quando estas mal traçadas linhas forem publicadas, 2015 já terá nos mostrado seu primeiro belo domingo. O normal seria uma chuva de elogios e fogos. Brindes e amigos invisíveis, confraternizações e muita festa. Claro que tudo isso é bom e saudável, mas neste ano vejo as comemorações mais como alívio de quem atravessou deserto árido, rompeu tormentas. Vivemos todos um pouco a história de Odisseu que ao “mar padeceu mil tormentos, quando lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”. Vivemos quase dez anos em um. Ou seria um ano em vinte quatro horas de James Joyce em saga contemporânea sintetizada?

Foi mais um ano. Bom para muitos, ruim para outros tantos. O importante é que sobrevivemos a ele. Levou-nos tanta gente boa. Joe Coker será que você foi o último a partir rumo às estrelas? Fechou-se a cota das perdas? Sei lá, ainda faltam alguns dias. Todo ano perdemos muita gente, mas este carregou na dose. Sobrevivemos, aos trancos e barrancos.

Como crianças mal comportadas, tomamos castigo da mãe-terra. As estações se transformaram mudando datas. Chuva, em pirraça, se negou a cair em grandes áreas onde não era costume sua ausência tão prolongada. Em outros cantos mostrou força destrutiva como a avisar em sussurro baixinho: toma juízo gente, toma juízo! Zelem mais pela única casa que vocês possuem para viver. Nem barba de molho nos foi dado direito de colocar, faltou água para afogá-las.

Absolutamente, caro amigo, nem de longe quero parecer um pessimista tristonho ou ave de mau agouro. Porém, como observador atento das vozes e humores da natureza humana e do conjunto de forças que regem o universo, o ano que se foi pode ter sido aviso claro.

Ano também de eleições. A democracia se consolida. Aí, sim, uma notícia maravilhosa, venceu o povo, venceu o que pode não ser o melhor regime de todos, mas desconheço melhor: Viva a democracia, viva a liberdade. Parte ruim: um pequeno número de pessoas que “usam o volume morto do cérebro” saem em mini-protestos pedindo volta da ditadura. Tenham dó gente, tenham dó.

Tivemos Copa do Mundo… Mudemos ligeiro de assunto! Galo foi campeão da Copa do Brasil! Felicidade pura.

Espero que alguma lição de bom senso tenha frutificado. Deixemos 2014 se ir em paz. Vamos cuidar bem de 2015 e pensar em um lugar melhor de se viver. Vamos buscar a concórdia em sua plenitude. Plante mais árvores, colha bons frutos. Ceve passarinhos, receba belos cantos. Se cuide e cuide do outro em amor fraterno. Se o ano que mostra pequeno brilho de amanhecer vai ser bom ou ruim, sei lá. Depende apenas de nós e de mais ninguém.

Quino, um dos mais geniais cartunistas do planeta, deu voz a seus personagens Mafalda e Manolito, para nos enviar recado sério e que deveríamos botar atenção:

- Manolito: “As pessoas esperam que o ano que está começando seja melhor do que o anterior.”

- Mafalda: “Aposto que o ano que está começando espera é que as pessoas sejam melhores.”

Feliz Ano-Novo para todos. Ah, e para todas – agora tem isso, senão me taxam de politicamente incorreto.







Publicado Jornal Correio em  04/01/2015





segunda-feira, dezembro 29

Mintaka, Alnilam e Alnitak

Mintaka, Alnilam e Alnitak, estes nomes cutucavam sua cabeça desde que tinha pegado trecho ainda de madrugada rumo ao vilarejo para providenciar registro das filhas trigêmeas que haviam nascido semana atrás.A mulher guardava resguardo cercada e vigiada de perto por duas parteiras imensas de gordas. Quarto sempre na penumbra, ainda não tinha botado os olhos de verdade nas meninas.

Quando foi permitido entrada breve, pousou olhar em tênue brilho e um monte de perninhas e bracinhos magrinhos, gravetos prontos a quebrar ao menor toque. Olhou com curiosidade de quem olha roça brotando. Um pequeno grunhido vindo do berço de bambu que ele mesmo fizera foi o bastante para que expulso fosse do guardo quase a vassouradas.

Passou noite em claro, sentado em banquinho junto à porta do quarto. Cada grito de sua mulher lhe parecia facada no peito. Sofreu em silêncio e solidário as dores do parto. Aba do chapéu ficou amassada de não tampar mais sol. Quanto, num repente, após longo silêncio que o deixou apreensivo e alerta, uma carona suada apareceu à porta e gritou: “São três!” Três o quê – quis perguntar, não deu tempo. Segundos depois, a mesma figura novamente anunciou “São três, homem, três meninas.”

Sentiu bambeza nas pernas, a botina dobrou de lado. Teve de encostar-se à parede de adobe para não cair. Me Pai, meu São Jorge, três de uma vez. A esposa estava grande mesmo, pés inchados, mal conseguia beirar o fogão. Cozinhava de lado de tão barriguda. Mas três!? Pensou, meio rindo na porquinha Piau que teve exatos três leitõezinhos.

Passado o baque, sabendo que tinha de buscar registro das meninas. Pediu e foi atendido pelas parteiras para ir à vila, pois o resguardo iria durar mês inteiro. Trinta dias naquele cômodo escuro, tomando canja e gemada para descer bastante leite e pior, sem lavar os cabelos. Pensou com desejo na esposa. A viu em sonhos lavando seus longos e negros cabelos que iam até a cintura na cachoeira do Salto, logo ali no quintal. Sentiu um arder por dentro. Arreou o cavalo e seguiu lento. No cartório, confusão. O tabelião não queria registrar com aqueles nomes. “Assim não tem jeito Seu José, é esquisito demais.”

Bateu pé, mentiu promessa, rude não implorou, mas entre dentes rosnou assim ia ser. Assim foi. Conhecida fama daquele homem franzino, chapéu apertado na cabeça, punhal de prata sempre na cinta, nas costas. Saiu de lá confuso, mas satisfeito. “Diacho, de onde me brotaram na ideia esses nomes pras meninas?”

Na volta mostrou os papéis.
– Ô Zé endoidou, que nomes são esses, tirou isso de onde? – Ele, coçando a cabeça sem resposta. Realmente não sabia, não tinha a mais longínqua lembrança de ter pelo menos ouvido estes nomes.
– Pode até ter papel com estes nomes estranhos, mas nós vamos chamá-las, viu Senhor José, – seu nome foi proferido com gravidade – nós vamos chamá-las e a vida toda de Maria das Graças, Maria Cristina e Maria Aparecida. Serão para sempre nossas três Marias, estamos entendidos?

Enquanto isso, em algum lugar bem no centro do Cinturão de Órion, um casal sorria feliz: as três Marias brilham novamente.






Publicado em Jornal Correio em 28/12/2014





domingo, dezembro 21

Ponto de vista






"Em terra de olho quem tem um cego, errei."
Placa do Barari - Praia de Santa Monica -ES

Colega de trabalho de longa data. Da convivência diária nasceu grande amizade. Inevitável, nosso grupo funciona assim. Sempre sobra tempo para prosa, seja no laboratório, no campo ou em confraternizações. Nestes momentos rola bom churrasco ou galinhada e, claro, cerveja gelada. Consequência? Laços de afinidades que se fortalecem, além do excelente, ponderado e rápido trabalho em atender gente. Saber acumulado em reduzir aflição de pessoas que nos procuram, por conta de um morcego, escorpião, aranha ou cobra.

O cara é uma enciclopédia viva no que diz respeito a futebol. Sabe tudo, assiste tudo. Desde campeonato do Terrão ao nacional das Filipinas ou torneio de peladas dos Montes Urais. Escalações, nome de técnicos, colocação na tabela, situação financeira dos clubes, quem entrou ou saiu. Até nome completo e ficha corrida dos juízes o cara domina. Possui dúvidas sobre futebol ou afins? Consulte o Divino, que tem resposta na ponta da língua.

Sua história de vida, como a de cada um de nós, daria livro. A dele em particular, com passagens hilárias. Nasceu na roça, na roça morou por muito tempo. Freqüentava a escola rural da região. Era traça de livros. Devorava todos que encontrava. A pequena biblioteca da escola ficou ainda menor para sua fome de leitura. Hábito este que carregou até há pouco tempo. Nos momentos em que trabalho não havia lá estava Divino agarrado a um livro. Não sei se continua assim, pois agora o vejo nas paradas fazendo palavras cruzadas. São muitas e muitas. O vocabulário adquirido nas leituras facilita.

Menino de roça, moleque que só, com seus irmãos aprontava todas. Ajudavam o pai na lavoura, mas na hora de brincar nada os impediam de subir em árvore de fruta, roubar galinha de vizinho, passar susto em estradeiro, pitar talo de chuchu, caçar passarinho e nadar no córrego. Vida normal e sadia de menino do campo.

Para ele o mundo era simples, belo e normal. Nada o incomodava. Certa feita, em meio a molecagens, um cisco pousou com força de pedra em um de seus olhos. Imediata escuridão. Tropeçando, caindo e, claro, apavorado, correu buscar socorro junto à mãe, que tomou aquilo por manha, preguiça de carpir roça. Como um cisco em um olho poderia cegar alguém? Larga de finura e toca volta a ajudar seus irmãos! Aos poucos, as lágrimas cuidaram de clarear as vistas. Vida seguiu dura, mas serena.

Meses depois do ocorrido, apareceu por aquelas bandas, na escola, médico à mando da Secretaria de Educação para avaliar criançada. Exame de vista fazia parte. Quando o doutor tampou um dos olhos de Divino, o pânico tomou conta da criança:
— Acode! Tô cego! Gritou apavorado. O médico assustado apurou exame. E não é de ver (ou não ver) que o menino tinha um olho cego de nascença e ninguém notara? Como tinha nascido assim, para ele o mundo era desse jeito mesmo, compensado pelo olho bom. Em casa chegaram a cutucar o globo ocular para confirmar o fato. Não deu outra era assim mesmo.

Em nada atrapalhou desenvolvimento, nem crescimento pessoal. Leva vida normal e, na verdade, enxerga mais com um olho do que muitos com dois. Vê longe.
Com o avançar da idade só um problema vem devagar chegando. Descobriu que está ficando míope. Sacanagem!







Publicado em Jornal Correio de 21/12/2014



domingo, dezembro 14

Bom de Morar







Em um domingo de novembro, o leitor João Vendramini publicou o seguinte comentário sobre as “melhores cidades para se viver”, conforme ranking BCI100, produzido pelo escritório britânico Delta Economics & Finance para a publicação “América Economia Brasil”, que avalia um conjunto de 77 atributos das cidades do país – publicado em 31 de outubro aqui em nosso CORREIO: “Moro em São Paulo e trabalho em São Caetano do Sul. Mauá em oitavo e Diadema em 15º lugares? Minha opinião: esse ranking é pífio e patético. Pobreza e violência não permitem que essas cidades possam ser qualificadas como “melhores cidades para se viver”. Sinto muito, mas eu não usaria esse ranking para nada.”

Não tem como não concordar com o senhor Vendramini. Só de imaginar a cidade de Santos em fins de semana onde falta até ar para se respirar como a campeã da lista, e Belo Horizonte com seu trânsito agarrado em terceiro, me ponho a imaginar se a turma que elaborou a pesquisa se arriscaria a morar em algumas das cidades que ali aparecem muito acima de Uberlândia, 19ª colocação.

Acho que a pergunta que temos de fazer para estes caras é: “O que vocês consideram qualidade de vida?” Como eles jamais vão me responder, resolvi elaborar a minha lista das 10 melhores cidades para se viver, de acordo com meu gosto particular. Adianto que não vou usar o manjado Índice de Desenvolvimento Humano Municipal no Brasil (IDHM) nem outro indicador oficial. Vou usar o recém-criado IGPW, ou seja, “Índice de Gosto Pessoal de William” que talvez, quem sabe, seja aprovado pela ONU algum dia. Não vou citar nossa cidade, pois posso parecer tendencioso. Uberlândia é hors concours.

À lista: Morro da Garça (MG), Mansidão (BA), Gameleira de Goiás (GO), Onça de Pitangui (MG), Campo Azul (MG), Vila Flor (RN), Harmonia (RS), Nova Esperança do Sul (RS), Peixe-Boi (PA) e Sossego (PB).Sabem, queridos amigos, o que estas cidades têm em comum? Além de nomes extremamente poéticos, belos e sonoros? Nenhuma delas tem mais do que 25 mil habitantes.

E o mais importante: em nenhuma delas foi registrado nem um homicídio nos últimos três anos segundo o “Mapa da Violência 2013 – Homicídios e Juventude no Brasil”, do Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, que tem entre seus fundadores expoentes do naipe de Antônio Houaiss, Darcy Ribeiro, Jorge Werthein, Herbert José de Souza, Elizabeth Fox, Gabriel Cohn e Paulo Bonavides, para citar alguns. Bom de morar é onde se tem paz completa. Onde a porta do alpendre fica aberta dia e noite e todos se chamam pelo nome. É lugar assim que quero para mim, onde o belo vence a cobiça, onde o amor e as amizades valem mais do que o “ter”.

Onde podemos parar as vistas e olhar longe, felizes de poder viver nossos mais profundos sonhos. Descansar a cabeça no ombro da pessoa amada, ternura e paz sem ganância ou competição. Instituto algum, com suas metodologias complicadas, equações e planilhas vai saber escolher lugar verdadeiramente bom de viver. Emprestado de Caetano: “E é por isso que eu gosto lá de fora… Porque sei que a falsidade não vigora”.








Publicado Jornal Correio em 14/12/2014





sexta-feira, dezembro 12

40 anos de amizade - 40 years friendship

40 anos de amizade - 40 years  friendship

O tempo judia, estraga/melhora mas a alma de criança vive trancada dentro de cada um de nós. Força saída todo instante. Insistimos em mantê-la presa, tristonha de brilho e luz. Esses três ai nas fotos mostram o resultado de deixar esse lado de permitir moleque sempre solto, livre como passarinho, livre como vento, livre com poeira de estrela.

Quarenta anos, quarenta anos, de verdadeira amizade pura e verdadeira. Encontros poucos mas quando acontecem são intensos como explosões de uma super nova - hecatombe . Sempre presente a sensação que ontem foi que nos encontramos pela última vez. Cada um mora dentro do outro, em prova verdadeira de que amor fraternal existe.












segunda-feira, dezembro 8

Fim da picada




Final dos tempos. Leio matéria que aqui transcrevo pedacinho: “Motoristas de várias localidades venezuelanas reclamam de dificuldades para abastecer seus carros, apesar de a Venezuela ser um país produtor de petróleo e derivados.” Se em um dos maiores produtores de petróleo do mundo falta gasolina e diesel, imagina o que sobra para o resto do mundo.

Tudo bem, não é a primeira vez que campeões em alguma coisa sentem escassez na pele de algum produto; vejamos o Brasil, o país do futebol (sic). Faltou futebol geral na última copa – a pá de cal foi um 7 a 1 contra a Alemanha que por dó não quis humilhar mais país anfitrião.

Explicar ou reforço a utilização do tal sic que vemos por toda parte. Se até bem pouco tempo era empregado apenas para apontar algum erro de ortografia ou pontuação, hoje tornou-se um grande companheiro para expressar descontentamento e discordância total de alguma afirmação. Logo o sic lá do alto tem sua razão de ser, pois nossa seleção ocupa a ridícula sexta posição no ranking da FIFA, abaixo até da recentemente “freguesa” de carteirinha Colômbia. De “Los hermanos” não vou nem falar, além de Papa eles possuem e ostentam um glorioso segundo lugar na mesma tabela.

Não sou nenhum Camargo Neto quando se trata de futebol, mas como diz a cartomante, as cartas e os números não mentem jamais – outro sic aqui; manipular números para o bem ou para o mal é corriqueiro. Trapaça com algarismos sejam eles áureos, atômicos, quânticos, completos, primos ou nem parentes, existe desde quando surgiram há mais de 30.000 anos, e tome evolução tanto das formas de contar quanto das maracutaias. Hoje podemos contar com a simplicidade de dois, apenas dois números, o zero e o um. Com este mágico código binário pode-se surrupiar bilhões, falsear relatórios e até realizar o não feito.

Falta combustível na Venezuela, futebol no Brasil. A seguir tendência logo não teremos Coca-Cola nos Estados Unidos, cerveja na Alemanha, sushi no Japão. Pizza na Itália será vendida na clandestinidade, perfume na França só importado do Paraguai.

Se pararmos para escutar com atenção vamos perceber que o mundo passa por uma turbulência generalizada. Os motivos vários, quase sempre com a mão humana a atrapalhar. Talvez alguns disparos de energia cósmica estejam interferindo na ordem natural das coisas.

Agora temos um satélite por nome sugestivo de Rosetta que desovou o módulo Philae para se agarrar como carrapato ao cometa Churyumov-Gerasimenko, nome que lembra banda de rock, e que custou a “bagatela” de 1,4 bilhão de euros. Recursos desta monta, seriam suficientes para resolver a fome no planeta, descobrir a cura e/ou vacina contra Ebola, AIDS, malária, a cura do câncer, Alzheimer e tantos outros tormentos. Mas não. Toda essa grana foi literalmente para o espaço.

Fica a pergunta das perguntas para tão árduos tempos, o inferno astral da humanidade: Será que os escoceses, passarão a tomar whisky importado?
Pois é, tem dia que de noite é assim. Final dos tempos.





Publicado  Jornal Correio em 7 de dezembro 2015





segunda-feira, dezembro 1

Fado


Inspirado em entrevista ao Jornal Correio da 
Prof ª  Drª   Ana Maria Bonetti dias atrás.

Um belo dia, o mundo amanheceu um pouco mais silencioso. Não que os carros ou as indústrias tivessem suas máquinas desligadas, transformando as cidades em um longo e duradouro domingo à tarde. Era um silêncio diferente e notado por poucos. Os que lotavam pontos de ônibus para, em amarga tristeza, irem trabalhar, nada notaram de diferente. A rotina, a bovina passividade de sair de casa diariamente para se fazer o que não gosta, os impedia de atentar para assuntos que não fossem a complicada tarefa de sobreviver. Nas cidades maiores, onde os metrôs ziguezagueiam como imensas cobras cegas no subsolo, menos ainda. Tudo anormal como sempre. Desumana repetitiva jornada de vida. Vazio só.


Mas algo estava diferente e poucos sabiam do grande risco que corriam. Porém, o que importa? No campo, nas matas, nos cerrados, o constrangedor silêncio foi percebido de pronto. Faltava alguma coisa. Bichos e homens da lida campestre sentiram algo estranho, indefinido. O moço a carpir lavoura começou cedo. Mal o sol deu as caras encalorado, a atenção foi aguçada. Falta alguma coisa, mas o quê? Apoiado no cabo de guatambu da enxada punha reparo, observava. Muito estranho. Passarinho diferente não era, conhecia todos. Vento também não. Soprava manso e ainda fresco, secando a noite que se foi.
Continuou trabalho. Cisma danada que atormenta!

Hora da merenda, mulher chega com marmita. Trocaram olhares preocupados.
— Também está percebendo?
—Tô, respondeu olhando o chão arado.
— Me conta pelo amor de Nossa Senhora. Tá sentindo o quê?
— Um aperto no peito e na boca do estômago.
— Eu também.
— Mas tem coisa aí, que mais tá sentindo?
— Um vazio. Vazio no tempo, vazio no ar. Sei explicar não. Mas tô gostando não.

A mulher se foi e ele, sozinho novamente. Tomou rumo da mata perto da nascente do córrego. Encheu a cabaça de água fresca e descalçou as botinas. Enfiou os pés na água fresca e se pôs a olhar em volta. Tinha que ficar atento, pois ali tinha colmeia gigante da qual, vez ou outra, colhia boa lata de mel. Deu uma espiada para o lado dela. Só não caiu porque já estava sentado. Não havia abelha, uma sequer. Os favos pendiam em branca cera e as formigas carregavam afoitas as larvas ainda vivas.

As abelhas! Falta o zumbido das abelhas! Gritou a plenos pulmões. As abelhas tinham partido. Ninguém sabia para onde e nem o motivo. No jornal, deu que sumiram no mundo todo. Era o sinal de que, depois de tanto judiar da terra, chegara a hora de pagar pelo malfeito. Por séculos destruímos e arrancamos a fórceps tudo o que a terra podia nos dar. Cansada, resolveu parar. Era o fim do experimento Terra.

Tardezinha, casal lá na roça, abraçado, sentado em banco perto da represa, olhava entristecido o céu estrelado por demais. Havia milhões de estrelas a mais do que o normal e um caminho de poeira se desenhava partindo daqui para profundo canto do universo. Foi para lá que as abelhas foram. Viraram estrelas e deixaram belo e brilhante rastro de pólen, como presente de despedida. Foram-se em busca de paz. E o mundo, condenado, ficou bem mais triste.






Publicado Jornal Correio em 29/11/2014


Fado