segunda-feira, abril 13

Contadora de histórias




Para Clara Clarice Villac

Ela chegava mansa puxando sua longa e esguia sombra como quem nada queria. Sentava no banco mais sombreado da praça, um imponente ipê ou flamboaiã carregado de flor. Este último sempre em fogo como a mandar sinais para sua longe terra nativa, a grande e misteriosa ilha de Madagascar com sua variedade única de plantas e bichos, será que aquela da praça sonhava com imensos morcegos, verdadeiras raposas voadoras. Teria ela em seu cerne lembranças de graciosos/curiosos bandos de delicados lêmures a lhe acarinharem galhos e flores. Como sonharão as árvores?

Estas duas decoravam palco improvisado da magra e airosa moça. Não trazia caderno ou livro, apenas vestido de chita, blusa rendada, chapéu de palha de uma simplicidade elegante como a das princesas de suas histórias. Passarinhos, como em cena de filme de Walt Disney pousavam no mesmo banco sem medos, nunca em sua mão e não cantavam com olhos pidões como nos desenhos, apenas sentavam esparramados, aproveitando uma nesguinha de sol fujão da sombra densa fresquinha. Sua voz eram várias. Criança emburrada a velhinha coando café. De grito de araponga, rugir de onça, a sussurrar de vento. Virava onda esparramando espuma nas praias, virava trovão e tempestade.

Hora meiga como bica d’água de quintal, hora furiosa e grave como dragão adormecido em seu pior pesadelo. Passava como ninguém o som, a cor e o gosto dos escritos que não carecia ler – estavam todos em sua memória onde cabiam mais histórias do que as contadas nos papiros da Biblioteca Imperial de Constantinopla somados ao acervo da suntuosa biblioteca de Alexandria, transformados em cinzas cujo conteúdo parecia a pequena mulher ter aspirado cada partícula na tentativa de preservação de cada dito antes de espalharem-se em fuligem.

Não demorava muito, crianças, velhos, passantes cães errantes, gatos resmungões à sua volta reuniam. Como que paralisados, entravam em transe ao som do contar de cada história. Bebês, aos poucos, iam relutantes fechando olhos, caindo em profundo sono. Homens carrancudos, mulheres nervosas se aquietavam em calma de cordilheira branca em neve. Gatos se aninhavam nas costas de enormes cães. A criançada esquecia a bola, o peão, as brilhantes bolas de gude. O som de ensandecido trânsito desaparecia em mágica.

O tempo parava. Vivia-se ali a eternidade congelada. Assim como chegava, ia embora. Todos que ali estavam a seu redor não notavam a partida calma da contadora de histórias, o dom de tamanha assim permitia. Levava-se algum tempo para que todos voltassem ao planeta Terra, as pequenas crianças eram as que primeiro notavam e retomavam a cantoria de choros pirracentos, cães rugiam com o atrevimento dos gatos e os espalhavam árvores afora, as buzinas voltavam a disparar irritadas. O mundo acordava em pândega pouco festiva.

Mas um sentimento inexplicável ficava em todos, gentes e bichos – algo de muito bom tinha acontecido, como sonho esquecido, o gosto de fruta doce ficava na boca e na alma. E nossa mágica contadora de histórias ia mansa buscar outras praças. Entrechos novos sempre pairam ao seu redor, e ela, sorrindo sabia costurar mansinho uns aos outros na criação de alegria.







Publicado Jornal Correio em 12 de abril de 2015







domingo, abril 5

Na mosca





Tem coisa mais desagradável do que entrar em banheiro público e encontrá-lo sem as mínimas condições de uso? Estou sendo educado, pois, quando digo sem condições, me refiro à sujeira mesmo. Não apenas sujeira de pés, botinas ou sapatos carreando lama ladrilhos adentro. Refiro-me exatamente àquela sujeira que você está pensando. Em viagens a trabalho ou passeio, já me deparei com cenas que nem me atrevo a descrever. E não é só banheiro de boteco ou parada de ônibus não. Tente um em praça pública Brasil afora.

Se na hora do aperto você não estiver no sul, meu amigo, em particular em Gramado onde banheiros públicos parecem mais salas de espera de consultórios médicos limpíssimos, aconselho a travar e esperar chegar a um local seguro. Aliás, esse termo banheiro me intriga. Banheiro tem que ter chuveiro. Aqui, a maioria só tem vasos e assessórios para outros usos que não um refrescar. “Water Closet” ou WC seriam mais indicados. Usando a palavra certa em inglês para banheiro, seria “Bathroom”.

Os turcos tiveram uma ideia genial, contudo, preciso pesquisar mais para ter certeza disso, pois conhecendo banheiros turcos, fico na dúvida. Pintaram uma mosca no esmalte dos vasos de mijadores. Descobriram que os homem são levados por impulso irresistível a urinar em cima de insetos mortos ou alvos determinados. Até o fato de a maioria dos homens serem destros pesou na hora de decidir onde colocar a mosca. A obra de arte antirrespingos fica sempre mais à esquerda. Coisa séria, fruto de estudos profundos de psicólogos, engenheiros, arquitetos e antropólogos, além, certamente, de donos de bares e restaurantes. Depois da mosca o grau de acerto do xixi dentro do vaso subiu noventa por cento. Os das bexigas cheias passaram a mirar nela inconscientemente. Sucesso e higiene.

A César o que é de César: conta o blog “Banheiro”: “Mictórios da Inglaterra Vitoriana já apresentavam ícones de moscas, abelhas ou mesmo alvos. Também se ouvia falar de cientistas alemães desenvolvendo uma fita que muda de cor ao contato com a urina, oferecendo aos homens algo que o ícone da mosca não pode oferecer: feedback.” Sem respingos, resultado: bordas de vasos e chão mais secos e limpos.

Um grande shopping da cidade utilizou estratégia interessante. Não sei se proposital, mas a observação me levou a crer que funciona. Em um banheiro masculino, bem à frente dos mictórios, foram colocadas em vitrine fotos e manequins de belas mulheres, cujo ângulo destas faz parecer que estão olhando o pessoal na hora do xixi. Parece que os marmanjos, intimidados, acertam mais dentro do que fora. Pena, semana atrás ao participar de corrida de rua que de lá saia, quase todo corredor tem por mania um xixizinho antes da prova, observei que a tática não funcionou, sujeira geral, nem as moças de plástico marfim acanharam os caras.

Outro grande problema agora a resolver, refere-se tanto aos banheiros femininos quanto masculinos. Como fazer que todos, ao utilizarem um WC, lavem as mãos e acertem os papéis nos cestos. Treinos com a turma do Novo basquete Brasil ou NBB? Aliás, ridícula sigla. De novo nada tem a não ser tentar mais uma vez imitar gringo e sua poderosa NBA, bem que o pessoal daqui poderia ser mais criativo










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segunda-feira, março 30

Tempo, tempo, tempo



Em um março de algum ano nem tão longe assim, escrevi em meu caderno de poemas:


Estava eu distraído a contar estrelas quando relógio faminto pousou em meu pulso Sorveu voraz todo o tempo que nele cabia
Saciado, como bom tempo voou
Tristemente confesso; sinto falta de cada segundo roubado.


A rapidez misteriosa dessa marcha “ininterrupta e eterna de instantes” sempre me intrigou.
Quando muito jovens, reclamávamos da lentidão do seu passar. Não víamos a hora de comemorar aniversário de dezoito anos, um ritual de passagem imaginário onde a data mágica nos liberaria do jugo do mundo. Poderíamos sentar em um bar e pedir uma cerveja, poderíamos sem medo da polícia frequentar as casas e becos da rua Guaicurus, da Paraná, de banho tomado, barba feita – barba santo Homem, que barba? Penugens que, em nossa cabeça infantil, imaginávamos que nos envelhecia e nos fazia parecer mais velhos, viris. Empesteados de Leite de Rosas ou Lancaster deixávamos rastros de um perfume (?) dos quais abelhas, varejeiras e Aedes, mesmo não existindo mais em território nacional à época, fugiam em polvorosa, pior do que Rodox.

E podíamos dirigir. Juntamos migalhas, fazíamos biscates, vendíamos garrafas e jornais velhos, tudo para juntar dinheiro para pagar auto-escola – recuso-me a usar a nova grafia imposta pelo Acordo Ortográfico de 1990; só não uso o trema, que para mim só servia para borrar o papel quando ainda se escrevia usando caneta tinteiro. Fazer aqueles dois pontinhos era mancha imensa e certa no imaculado papel almaço.

Então, podíamos dirigir, tirávamos a suada carteira de habilitação, mas cadê o carro?
Não importava. O que valia era ostentar a carteira de motorista mesmo sabendo que seria revalidada muitas vezes até conseguirmos comprar nosso primeiro e carro velho, caindo aos pedaços, queimando óleo quarenta.

E tinha o título de eleitor, não servia para muita coisa à época, mas, em 1974 votamos pela primeira vez e sentimos o prazer de eleger Itamar Franco senador. Uma vingança à mordaça imposta pela redentora.
Quase ia esquecendo o temido certificado de reservista. Ninguém em sã consciência queria servir às Forças Armadas em plenos anos de chumbo.

Neste março que se vai sem águas suficientes que o fechem, meu filho fez 20 anos. Olho fotos dele em minha estante, bem pequenino ao lado da irmã também catatau. Hoje, barba e bigode, carteira de motorista, título de eleitor e carro, certificado de reservista. O tempo permitiu avanços. O tempo dá, o tempo tira.

Propus um acordo com o tempo. Me leve forças do corpo, clareie meus cabelos, não ocultarei as mechas brancas com Tablete de Santo Antônio, em troca, me deixe criança de alma, não permita que perca o encanto pelas insignificâncias tal qual meu mestre Manoel de Barros, quero ser contador de passarinhos em praças públicas, quero contar histórias e rir de mim mesmo. Ao tempo, entrego todo o meu viver.
Caetano encantou com sua “Oração ao Tempo”:

“És um senhor tão bonito/Quanto a cara do meu filho/Tempo, tempo, tempo, tempo/ Vou te fazer um pedido/ Tempo, tempo, tempo, tempo”.



Publicado Jornal Correio em 29/03/2015









quarta-feira, março 25

Palavras






Palavras são mágicas. Têm força de mantra e podem mudar rumo do acontecer. Não vou cair no lugar-comum de dizer que as palavras ferem mais do que a espada, metaforicamente tudo bem, mas se puderem escolher falem mal com gosto de mim. Meu velho pai, norte-americano do Brooklyn NY, sempre dizia “Sticks and stones may break my bones, but words will never hurt me”, pacifista incurável.

Nós humanos, via de regra, não possuímos poderes sobrenaturais, mas, às vezes, assim acreditamos.
Já aconteceu com você de desejar algo muito, mas muito mesmo a ponto de pensar nessa coisa o tempo todo e, de repente, do nada essa coisa acontece? Mãos erguidas em agradecimento como se aquele milagre divino fosse. Temos mania de achar que as coisas caem do céu, bem em nosso colo, basta acreditar e pronto.

Olha, não é tão simples. Assim fosse, meu Galo mineiro jamais perderia partida sequer, principalmente contra o Cruzeiro; ficaria rico sem esforço, se com muito esforço nunca conseguirei, imagina sem fazer nada, mergulhado em mentalizações e vontade. Dinheiro não vem do nada e se caísse na minha horta só choveria nota de três. A fé tem seu lugar mas, mesmo confiando no amigo, amarra o camelo.
Mas as palavras são mágicas. Podem elevar nosso astral ou nos jogar em depressão que nem química resolve, reza brava ou tirador de espírito não consegue nos erguer, o bicho pega.

Já desejou a morte de alguém? Claro que já, quem não? Livre pensar! É só pensar! diria Millôr. E um belo dia, logo depois de, inconscientemente, você rezar para que tinhoso levasse seu desafeto, você recebe um telefonema contando que o cabra ou a cabra morreu! Sentimento de culpa bate na hora. Pô, eu queria, mas não queria assim…. eu disse morrer, mas não morrerrrrr. Esquece, seu poder não é tamanho, você não é nenhum X-men, nenhum Professor Charles Xavier.

Agora, que a palavra escrita ou falada repetida milhões de vezes tem poder destrutivo, isso tem. A maior das mentiras vira verdade pétrea, podendo causar estragos em um país ou afetar toda a humanidade. A tal história das armas químicas do Sadam é um exemplo contemporâneo da força da propaganda. Não que o homem fosse santo, mas a desculpa para detonar com ele dentre outras tantas eram as tais armas. Cadê?

Tirando as infecções alimentares, porres homéricos, automedicação, feijoadas, dobradinhas, torresmo e pés de porco, refrigerantes, embutidos, estriquinina ou chumbinho, fico com a citação bíblica: “O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai”.

Felipe Wilkon nos conta: “Nada do que vem de fora de você pode lhe atingir intimamente. Não temos controle total sobre a matéria. Se alguém atirar uma pedra em você, a pedra pode atingi-lo. Mas um mau pensamento, uma má palavra, uma má intenção qualquer só irá atingi-lo se você permitir. (…)”
Sei não, quer saber, mesmo não acreditando em mandingas, feitiços ou trabalhos do mal, carrego a máxima andina: “No creo en las brujas pero que las hay, las hay… ”

Não custa apegar na fé, na proteção de santo de devoção e carregar bem rente ao corpo seu patuá… Que os anjos nos protejam. Salve Jorge!






Publicado em 22 de março de 2015 em Jornal Correio









quarta-feira, março 18

Tipos de pisadas

Vai começar a caminhar o correr? Evite lesões, conheça seu tipo de pisada e compre o tênis correto.



segunda-feira, março 16

Dr. Spock








Bom dia para quem me lê cedinho, boa tarde para quem deita no sofá depois do almoço abraçado ao nosso CORREIO, boa noite para quem tem paciência de esperar e para aqueles que não passam olhos pelos modestos escritos desse aprendiz das letras com Pós- Graduação em fábrica de macarrão de letrinhas.

Perdemos um ícone da ficção científica, Leonard Nimoy, o dr. Spock de “Jornada nas Estrelas”. Estranhamente não se deu a devida atenção a um que cativou milhares. Talvez em fã clubes espalhados pelo mundo possam ter ocorrido choros e homenagens. Por aqui, acho que estamos por demais ocupados com a realidade nua e crua que nos move em sobrevivência. Assim sempre foi e assim será sempre.

Suas orelhas pontudas, resultado de mistura vulcano/humano, seu cumprimento peculiar, juntando o “mindinho” com o “seu vizinho” e separando-os do “maior de todos” apertado ao “fura-bolo”, ficou eternizado na mente de muitas gerações – a série durou 40 anos, meus amigos e amigas. O sinal, por sinal, segundo o blog Literary Daydreams, “é símbolo da primeira letra (ou item) do alfabeto hebraico, chamado Shin. O ator Leonard Nimoy, nosso eterno Spock, era de uma família judaica ortodoxa. Em uma das bênçãos, o rabino de sua sinagoga fez o gesto com uma das mãos e Nimoy guardou aquilo.

Antes das gravações de “Star Trek”, os roteiristas lhe pediram para dar algum traço cultural aos nascidos no planeta Vulcan, terra natal de Spock. O ator sugeriu então a saudação feita pelo rabino, que, na história, seria equivalente ao aperto de mãos dos humanos.”

Seu super hiper golpe paralisante, um simples e ligeiro aperto de dedos na escápula adversária, e lá ia o oponente para um apagar sem sonhos. Todos levantavam desse golpe esfregando a nuca e ressabiados com um nada saber.

Sucesso entre a criançada, a série era praticamente imperdível, mesmo com o terrível som das dublagens primitivas que derrapavam na sincronização com os movimentos da boca, tipo desenho da mesma época “Jonny Quest” e seu fiel e medroso Bandit, onde as bocas boiavam em borrões sem nexo articular. Depois vieram os filmes, mas levados ao cinema, nem de perto lembram o gosto de pular no sofá e, olhos vidrados, acompanhar a saga dos navegantes intergalácticos, pela qual cada um de nós viajava em sua própria USS Enterprise.

“O espaço, a fronteira final… Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar novos mundos, pesquisar novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo, onde nenhum homem jamais esteve…”.

É para lá que Nimoy, em serena seriedade de Spock partiu, deixando saudades.

Cardassianos, Borgs, Ferengi, Klingons, Romulamos que se cuidem. Dr. Spock se ergue de sua cápsula funerária, no planeta Gênesis, revigorado, pronto a defender as civilizações do universo afora contra o mal.

“Vida longa e próspera” é o que podemos desejar ao dr. Spock. Afinal, partiu seu lado humano, mas seu lado vulcano a estas alturas deve estar no Quadrante Delta, do outro lado da galáxia, onde, como bom representante de sua raça alienígena, viverá 200 anos, pois só gastou 83 entre nós.

Publicado Jornal Correio de Uberlândia 15/03/2015










https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhVUdDN2lmS2FpdkU/view?usp=sharing

quinta-feira, março 12

Conosco



Tempo se faz e não cumpro promessa de aqui contar história prometida. Algumas pessoas me cobraram. Enviaram “mails”, posts no Twitter, pombos correio chegaram anilhados à minha janela. Muitas duras in box no Face. Cartas de próprio punho, lotaram minha varanda. O brado era um só: “Cadê a história!?”
Bom, atendendo essa multidão fictícia de gente em clamor, hoje mato curiosidade de todos e todas – continuo tendo que me policiar para não esquecer de contemplar as questões de gênero, eita moda sem graça essa. Chega de enrolação.

Contam, não tenho como provar, pois fato se passou há muito tempo. Época que nem estrada de asfalto havia entre Iturama e Uberaba. Vir até Uberlândia? Só por Campina Verde, parando obrigatoriamente em Honorópolis para comer pastel de gueroba. Dava de mil no do Trevão. Dali até o Prata, eram 54 mata-burros contados. Resumindo, locomover-se pelas Gerais era um suplício, um exercício de paciência e resignação. Talvez este seja um dos motivos do nosso desconfiado silêncio mineiro, aprendemos a observar antes mesmo de andar ou falar. Daí a nossa relação maior com São Paulo e Goiás. Minas demorou aqui chegar.

Depois de muita carta timbrada passeando em lombo de burro, trem e jardineiras prá lá e prá cá, marca-se audiência com governador na capital. Pauta extensa, muito pedir, até construção de escolas rurais. Cabra bom, além de sua época. Pensar em escola naquele tempo?

Marcado o tal encontro, com uma antecedência de quem sabe o que vai enfrentar. Prefeito e comitiva pegam caminho. Rural Willys, muitos pneus reservas e correntes para caso de barro. O prefeito, como autoridade máxima do grupo impôs a regra clássica de tocador de boiada, peão criado no trecho: “Se tiver poeira vou à frente, se tiver porteira vou ao meio, se tiver atoleiro, vou atrás.”

Toca para a capital. Lá pelas tantas, bate fome no pessoal, encostam num dos postos e seguem para almoço. O prefeito desce, estica pernas, e volta para o carro.
— Prefeito, o senhor não quer comer alguma coisa conosco?
— Agradecido, patroa mandou matula, me refestelo com o tempero dela aqui na sombra dessa Copaíba.
Assim foi. Muitas paradas, atoladas. Boiadas imensas, que nem leito de rio de águas brancas mansas e lentas. Matula acabou.

Em todas as paradas, a mesma pergunta:
— Doutor, vamos comer um pouco conosco, a comida daqui é famosa.
— Agradecido, fico só na água da moringa.
Um pernoite, em fazenda conhecida já na virada da serra. Café ligeiro e toca caminho. Outro dormir, amanhecer e estrada que não acaba.

Outra vez hora do almoço.
— Dr. Prefeito, pelo amor do Santíssimo come alguma coisa conosco, o senhor está no jejum desde ontem. Assim o senhor desmaia fraqueza junto ao governo.
Tirou o chapéu, coçou cabeça. Esse era um dos motivos que alegou para não entrar na política, só comia o tempero da sua mulher. Era sistemático.

Mas a fome falou mais alto, se rendeu, riscou o chão com a botina, suspirou e lá se foi, cabeça baixa.
— Tá certo, vamos lá, deixa provar um pouco desse conosquinho que vocês tanto falam. Encantou-se, viu que era bom.







Publicado Jornal Correio em  08 de março de 2015






terça-feira, março 3

Gentílico




Não tem um diazinho na vida da gente que não aprendemos algo novo. Lendo antiga coluna aqui no CORREIO de Arthur Fernandes, como de costume – para ser franco ando tão longe de política partidária que, se não fosse a coluna do Ivan (Santos) e a “Confidencial” e algumas colunas especializadas de outros jornais, ficaria condenado ao enfado e alienação. Não estou mais no tempo de fazerem fácil minha cabeça, leio o que me chega com olhar crítico e sempre buscando entrelinhas nas palavras de políticos galanteadores, principalmente em vésperas de eleição. Pois foi a “Confidencial” que pousei os olhos na sonora palavra “soteropolitano”.

Confesso minha ignorância, não conhecia seu sentido. Claro, desconfiei com base no texto do que se tratava, mas, como bom mineiro, lancei mãos ao Aurélio. E lá, confirmei minha suspeita. Explicadinho:
(Soterópoli[s], topônimo [nome helenizado da cidade de Salvador] + -ense) adjetivo de dois gêneros 1. Relativo a Salvador, capital do estado da Bahia, no Brasil. Substantivo de dois gêneros; 2. Natural ou habitante de Salvador; Sinônimo Geral: Salvadorense.

Salvadorense eu tinha vaga lembrança, mas, na realidade, nunca havia pensado nisso. Para mim, quem nasce em Salvador era outra coisa, sem nome definido. Capoeira, passar uma tarde em Itapoã, elevador Lacerda, pelourinho, acarajé no tabuleiro da baiana. Igreja e Fita de Nosso Senhor do Bonfim, Praça Castro Alves, Caimmy, Caetano, Gil, Bethânia. Dodô e Osmar, pois “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”.

Depois dessa resolvi fazer busca de gentílicos pitorescos de nosso Brasilzão, encontrei encantadoras pérolas, a maioria quase absoluta acaba em “ense”, mas outras soam música, mostro alguns. Natural do Rio Grande do Norte, conhecido potiguar. Paroara para quem nasce no Pará é místico, vejo ao longe boto-cor-de-rosa, pororoca, Jussara. As surpresas, quem nasce no Paraná além de paranaense também pode ser chamado de tingui. Fluminense para quem é do Rio de Janeiro – viu só, pelo menos, em algum momento, todo flamenguista ou botafoguense é fluminense: plebiscito já para mudar tal absurdo.
Os curiosos: quem é natural de Brasília, não errou quem chutou candango, quem, no DF, nasce é Distrital. Feia denominação, mas foi esta encontrada e, claro, lembra política. Brasiliense veio depois para lapidar denominação que um dia já foi candango.

O absurdo: com esta encontrada bati de frente, sabem como podemos nós mineiros ser chamados? Acredite se quiser: montanhês ou geralista. Sai fora, montanhês é cabrito e geralista lembra generalista, o que podemos até ser em se tratando de nossas belezas, nossa gente, nosso céu, montanhas, cerrado, vales e rios. Nossa história, nossas catedrais construídas ou esculpidas em vento e chuva. Nas palavras de Frei Beto: “Mineiro a gente não entende – interpreta. Ser mineiro é antes de tudo um estado de espírito.”

Obrigado, Arthur Fernandes, mais uma vez por tuas mãos, ou escritos, enriqueço meu parco vocabulário. Muito Axé e que São Jorge Guerreiro que é Ogum te ilumine com sua luz protetora.







Publicado Jornal Correio em 1º de março de 2015




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segunda-feira, fevereiro 23

Temporal






Outro dia contei história de meu amigo, colega de república e hoje de profissão, o compadre Temporal. De nome de batismo Jeová, poucos sabem a origem do apelido, no mínimo, diferente. Peço licença ao “véio” para contar a gênese de pitoresca alcunha. Naquela época, as aulas de Histologia eram dadas no anfiteatro do bloco A do campus Umuarama e os calouros de Veterinária, Odontologia e Medicina as assistiam juntos. Bom, nem tão juntos assim. As cadeiras do anfiteatro eram dividas em três blocos separados por dois corredores. O pessoal da Medicina ficava no central, os da Odonto à direita, e nós, da Veterinária, à esquerda. Nenhuma conotação política. Qualquer semelhança com o parlamento inglês é mera coincidência.

Nosso mestre, professor Gladstone, famoso por seu rigor e fina didática, era temido entre os alunos por suas provas, principalmente, as práticas, consideradas dificílimas. Normal. Aula corria tranquila, começava às sete da manhã, o que significava que a maioria de nós tinha levantado às cinco e meia para pegar ônibus ou carona. Saudade do professor dr. Virgílio Mineiro, seu cavanhaque branco e seu Dodge Dart amarelo. Não podia ver um jalequinho em uma esquina que parava de boa vontade e lotava de alunos em carona promissora. Aula às sete, sair da cama às cinco e meia, não dava outra: metade do povo só esperava o apagar de luzes para slides e toma cochilo!

Certa aula, professor sorteia três alunos de cada turma para apresentar trabalho na semana seguinte. Um dos escolhidos? Claro, o “véio” Jeová. Assunto a ele solicitado, falar sobre as mitocôndrias.
Beleza. Dia vai, dia vem e nada de Jeová pensar em fazer a apresentação. Nossa agitada vida social republicana o impedia de tirar algumas horas para tão sofrida tarefa. E o dia chegando, e o “véio” nada.
Não deu outra, pois data marcada, seja de coisa boa ou ruim, hora chega. A dele chegou. Confiante de que o professor Gladstone iria esquecer-se dele, lá foi tranquilo.

Chama um, chama outro, Jeová começa a suar frio e me pede no estalo: me fala qualquer coisa sobre as tais mitocôndrias rápido, senão me lasco todo. Balbuciei um resumo tímido e ele, sorrindo, disse: “tá bom demais da conta, deixa comigo”.
— Sr. Jeová! Chamou o professor do alto do palco do anfiteatro.

— Pois não, professor, e seguiu confiante acima.
— Sobre o quê mesmo iremos falar?
— Mitocôndrias professor.
— Comecemos então – passou- lhe o giz e apontou para o quadro-negro.

Jeová coçou a cabeça, enxugou a palma da mão:
— É assim, as mitocôndrias são estruturas bem pequenas, que possuem umas cristas e produzem energia.
Deu uma parada olhou para nós e voltando-se para o professor retrucou.
— Olha só professor, só deu para estudar até aí, pois, ontem à noite, caiu um “temporal” lá na república e acabou a luz e, por conta das goteiras, não deu para estudar mais.

Gargalhada geral de todo auditório e até do professor. Zerou é claro. Até hoje, quase 40 anos depois, todos os contemporâneos, independentemente de curso, não sabem quem é Jeová. Mas o Temporal? Todos se lembram dele. Um detalhe: seu irmão mais novo Joel, quando foi morar com a gente, já chegou batizado de Chuvisco.






Publicado Jornal Correio em 23 de fevereiro de 2015




 Temporal

quinta-feira, fevereiro 19

Vício



Mas, afinal de contas, o que é um vício? Não me refiro aos Vícios com V maiúsculo, tipo fumar, usar hard drugs, jogar baralho, frequentar cassinos clandestinos, coisas assim. Falo de vícios normais, do cotidiano. Contemplar belezas da vida, o vício de amar, o vício por boa música, boa companhia, o fabuloso e já raro vício de ler, vício de viver e contar da vida, vício de escrever. Aí eu me peguei ou me ferrei.

Acostumando, ou viciado, a dedilhar todo dia, tem que acontecer algo muito diferente e estranho para que não me pegue com meu livrinho de notas, meu notebook e, de um tempo para cá, mesmo sofrendo martírio de letras miúdas, dedos grossos e vista fraca de meu smartphone – e ele aparelho, se acha esperto – o bichinho se tornou um salvador de ideias, claro que no transcrever as correções são milhares. Letras trocadas, frases inteiras sem sentido; custo a decifrar. Na falta de caneta e papel, ele bem que ajuda. Sou o maior “enviador” de mensagens eletrônicas para mim mesmo. Abafa solidão, sempre terei uma mensagem minha a esperar. Não cheguei à fase de responder as minhas próprias mensagens nem de curtir spam, mas…

Se procurar em qualquer dicionário vai encontrar definições de vício que vão lhe deixar de cabelo em pé, olha só: Defeito ou imperfeição. Prática frequente de ato considerado pecaminoso. Tendência para contrariar a moral estabelecida. Hábito inveterado. Dependência do consumo de uma substância. Erro de ofício. Erro habitual no uso da língua. Mau hábito ou costume que as bestas adquirem = Manha
Consultei várias coleções de palavras na esperança sempre verde de encontrar significado que me aliviasse. Nada achei. Comecei a me sentir um pervertido pronto a “perturbar a ordem ou o estado das coisas”. Palavras deles, os léxicos. Essa definição até me deu um “up”, pois é exatamente o que todos nós gostaríamos de fazer para vida melhor viver, ar mais puro respirar.

Mas já que sou viciado em escrever vou tentar me encaixar no que me classificam. É defeito ou imperfeição escrever? Acho que sim, pois quem escreve tende a pensar e isso hoje mais parece defeito de fábrica. Eu tendo a contrariar a moral estabelecida? Todo humano pensante deve ter esta tendência, se você como eu luta contra a homofobia, a xenofobia ou qualquer tipo de preconceito, bem-vindo ao time dos que lutam contra uma moral indecente estabelecida. Mania, bom esta está clara e com ela concordo. Dependência de consumo de alguma substância, eita se tenho, consumo substâncias literárias, poemas, ensaios, contos, não me importa gênero tanto faz narrativas ou líricos. Jamais me internem em clínicas de desintoxicação de leituras.

Habitualmente, erro no uso da linguagem? Como sou um anarquista na escrita, devo cometer milhões de erros, nasci para descumprir regras, se as seguisse não sentiria prazer em meu vício de escrever.
Manhoso sou, besta que não, senhor dicionário. Lembrei Novos Baianos: “Por que não viver?/ Não viver esse mundo/ Por que não viver?/ Besta é tu!/ Besta é tu! Besta é tu!”






Publicado em Jornal Correio em 15 de fevereiro de 2015




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segunda-feira, fevereiro 9

Pelada na mata

Noite alta. Tenho por costume acordar no meio da madrugada, principalmente com lua cheia. As sombras da mata bem em frente ao mangueirão misturadas com prata da lua são convite para passeio. Desço escadas da varanda e sigo rumo à penumbra. Vou descalço pela grama cortada baixo. Satisfeito, sinto o molhar dos pés encharcados de orvalho fresco. Esfrego peito do pé e abraço folhagens com os dedos, mato gelado e frio. Sensação boa que nem de coceira de bicho de pé.
Esbarrão nas pernas. Duquesa, nossa imensa vira-latas acordou de sono leve no tapete da cozinha e, como de costume chega aos trancos e barrancos. Eterno querer brincar. Patas sujas de terra vermelha, ficam marcas em dorso nu. Ralho com olho e dedo no focinho, ela em alegre abanar de rabo e arfante língua de fora atende de pronto. Sabe o propósito do passeio, noite de ver beleza inimaginável, sabe do silêncio a fazer.
Na boca da mata sento em tronco antigo de aroeira caída. Calço as botinas e sigo por trilha de pouco uso. Ramas e galhada escondem caminho, conheço traçado. Carrego na cabeça. Perco não. Normalmente Duquesa seguiria à frente, espantando bicho que houvesse, hoje, sabida, segue rente calcanhar. Hora outra esbarro salto da botina levinho em seu queixo. Toma por afago e gane baixinho. Um olhar duro a faz baixar as orelhas, se aquieta, menos o rabo e brilho nos olhos, esses não tem como apagar. Luz da lua desenha monstros e princesas no chão verde e nas copas das árvores. Horda bárbara em marcha silenciosa segue ligeira entre troncos ao sabor das nuvens e vento, num esconde/aparece da lua. Parecem marchar rumo a falso triunfo, Águas Sextias selaria destino. Antevejo nuvens de fantasmas em debandada. Acostumei com o recriar épicos e clássicos em caminhadas assim. A luz e suas sombras enfeitiçam. Fornalha da imaginação carregada.
O andar é calmo, os pios, gritos e rangeres são conhecidos parentes da noite, primos-irmãos meus.
Um tanto mais tarde logo vemos – Duquesa e eu – um clarão amarelo de fogueira. Nosso destino. Chegamos agachados para não chamar atenção. Apertamos o corpo bem rente ao chão de musgo e folhas secas. Botamos atenção na prosa que de lá nos chega límpida e clara, vento a nosso favor.
– Assim não! A bola é nossa!
– Jeito nenhum, ganhamos no par ou ímpar, você escolheu o primeiro do seu time, então mané, a bola é nossa.
Grita outro lá do fundo:
– Começa logo sô, a noite logo vai embora e não jogamos nada.
– Reclama não, não combinamos que não podia jogar de cachimbo?
– Ah tá, saci sem cachimbo, então me entrega seu gorro, quero ver!
– Gorro não, sem ele como viajar em redemoinho, como roubar ovo indez, como fazer galinha sair do choco. Me conta?
Pensei comigo: daí porque algumas de minhas galinhas largaram os ninhos. Eita bicho atentado.
– Outra coisa seu velho pitador, nada de dar rasteira nem canelada. Mês passado fiquei com a perna doída.
– Você que é ruim de bola e de traquinagens, ou acha que não estamos de olho em você?
– Inveja de vocês! Quem amarrou a crina do alazão bravo? Quem deu nó nas espigas de milho na roça de seu José da Novena? Euzinho – disse ensaiando um catira.
– Empurra logo esse coité e vamos jogar, com cachimbo e touca, pois é assim que somos.
Já não conseguia mais conter o riso e tive que morder o lábio para não dar bandeira.
Sei que aquele bando de miúdos brigou, brigou até o sol romper em ouro transformando a mata em quadro de Miró. Passarada a piar, corujas atentas ao jogo que não houve buscaram abrigo. No meio da clareira, só o coité solitário.
E assim como de costume, depois de exaustivas discussões sem que a pelada nem tivesse começado, gratificante banho de cachoeira e cada um, feliz da vida busca seu gomo de bambu para um belo dia de sono.

Saci é assim, em bando então. Sem pressa. Mês que vem volto com Duquesa. Virou lenda.



Imagem do Saci de www.ecoloja.com.br

Viver sozinho, não só






“Podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais”.
Chuvas de verão, de Fernando Lobo na voz de Caetano.


Desde que resolvemos que deveríamos morar cada um no seu canto, depois de mais de três décadas de um viver juntos, tenho me deparado com situações inusitadas do dia a dia. Uma relação tão duradora e rica resultou em amizade bonita e terna. Nada de rusgas ou desavenças. Pelo contrário aflorou um sentimento forte e único, de muito carinho e solidariedade. Aprende-se a ler o sentimento um do outro. O apartar se tornou necessário, nasceu atenção especial de um para com o outro.

Mas como toda mudança traz alguns desafios assim, de lá e de cá lá, vou eu reaprendendo a seguir trecho. Dentre as vicissitudes enfrentadas, algumas merecem destaque. O tal do papel filme. Enrosco-me todo com aquilo, perco a metade até conseguir colocar no jeito de uso, o primeiro piquei todo – destino: lixo. Aprendi a comprar marca mais decente, se é que existe. O tal de passar roupa é outro suplício, antes era dividido: um lavava e o outro passava. Contas e banco. Aprendi a me programar, controlar despesas domésticas. Também com a superprofessora que tive! Me deu todas as dicas, pois, antes, só ela fazia, nunca soube nem gostava de lidar com dinheiro.

Grande desafio: compras em excesso. Sempre fui considerado inimputável em supermercados, incapaz no ato de fazer compras. Talvez privações de infância me fizeram um comprador de inutilidades. Agora, solto, comprei tanta coisa sem necessidade… Isso sem contar o não saber comprar para uma pessoa. Aprendi na bruta a lidar com o não desperdício.

Infelizmente, a indústria se esqueceu de nós solitários viventes. Não existem embalagens, pelo menos aqui, para os anacoretas. Já viu vender saquinhos com 250 g de arroz, feijão, açúcar? Pacotes porção única de macarrão? Não me falem daqueles instantâneos, pelo amor de Deus. Falo de massa fina, tipo canelone, rondeli, tagliatelle ou um imbatível farfalle. Molho de tomate, 50 g de queijo fresco ou ralado, existe? Da comida a produtos de limpeza às frutas e legumes. Verduras, então. Um pé de alface é desperdício, dá para vender meio pé? Um calcanharzinho apenas? Compro três tomates e fico com medo de deixar perder.
Um jiló para o arroz, uma batata doce, um pimentão, cabeça de alho única, cebola duas no máximo. Minha feira da semana cabe em uma sacolinha. Mas pelo menos não sobra, jogar comida fora é um desaforo. Isso sem contar que cozinhar só para você não tem a menor graça.

Não entrei nessa fase ainda. Fico na marmita por enquanto. Mas pretendo me aventurar logo pela arte da gastronomia solitária. Pequenos pratos saborosos e saudáveis. Nós solitários poderíamos criar uma confraria, trocar receitas, experiências domésticas e de vida a um. Enfatizo, sós sem solidão. Fica o clamor à indústria. Pequenas porções, sachês de sabão em pó, amaciante. Tanto a oferecer a um grupo que só faz crescer, gente que fez opção por estilo de vida. Assim poderíamos ler, escrever, compor, pintar, meditar sabendo que, em segundos, poderemos preparar delicioso repasto sem depender de disque pizza ou do Suchi in.

“Bola de meia/bola de gude/o solidário não quer solidão”.
Milton Nascimento e Fernando Brant.






Publicado Jornal Correio em 09/02/2015




 Sozinho, mas não só

segunda-feira, fevereiro 2

Sombra



Fotos:  william h stutz



Cada dia que passa mais me assusta a falta de árvores em nossa cidade. Falei disso outro dia, acho. Minha memória anda cozida pelo calor de um janeiro atípico onde chuva que tão comum e esperada insiste em não aparecer. A última foi aquela acompanhada de muito vento e granizo, que além de estragos normais, fez a alegria de muita gente.

Hoje em dia é redundante dizer que está de cabeça quente. Se você chegou da rua, não estava usando chapéu ou sombrinha, cabeça quente está.

É só dar uma volta pela cidade e contar a quantidade de árvores que desapareceram.

Sem árvore, sem sombra. E o estranho é que na maioria das vezes, aquele que se aperta, rasteja atrás de salvador e fresco lugar fora do sol é o mesmo que irritado com as folhas que sujam seu passeio, seu quintal, seu canteiro, as condenam à morte sem aviso prévio. Chegam na cara dura e pronto, cortam sem dó nem piedade.

Outro dia, um domingo, deparei com cena inusitada. Saindo da academia, me dou em meio a pátio gigantesco de asfalto. Como era cedo, poucos lá estavam estacionados.

No meio deste pasto de betume e areia, uma pequena e torta árvore poupada suava seiva para sobreviver. Sob sua generosa sombra – apesar de mínima – quatro carros se apertavam como vacas holandesas a se proteger do sol de cedo, mas já esturricante, daqueles de rachar mamona. No resto do estacionamento fechado em negrume e exalando calor, uma ou outra árvore pingada, sempre com um carro a seguir esguia e fraca sombra.

Um lugar que dá preferência a carros em vez de árvores. Tão comum em nossa cidade que chega a me dar medo. Pois a vida vibraria agregada ao plantio de belas e frondosas Damas de Verde, com toda certeza atrairiam muito mais gente e até passarinho.

Por que não transformar estes espaços em belos parques arborizados? Qualquer shopping que assim fizer só tem a ganhar. Ah, mas aí caberia menos carros –argumentaria o senhor de charuto na boca, pés sobre mesa de jacarandá e sala climatizada em condicionado a 16-17 graus.

Meu senhor, menos carro pode não significar menos gente, menos consumidores.

Lembre-se que estamos aprendendo a usar transporte coletivo, aprendendo a andar com os próprios pés em belas e saudáveis caminhadas. Este público se sentiria compelido por força invisível e saudável a buscar local belo e arborizado; do descanso a entrar em seus templos de consumo seria um pulo. Pensem nisso.

Plantem que eles virão, passarinhos, sombras e até as gentes. Contribuam com vida para a nossa cidade. Todo ser vivente agradecerá. E o senhor do charuto ficará mais rico e talvez, com consciência mais leve.

Cientistas, políticos, palpiteiros de plantão, todos têm uma explicação na ponta da língua para a falta de chuva por nossas bandas. Mas em um ponto todos eles concordam: o desmatamento urbano também contribui para as duras mudanças em nosso clima.

Ou tomamos uma atitude já ou estamos fadados às lamúrias e às torneiras secas. De líquido só lágrimas, algumas de tristeza, algumas de arrependimentos, mas muitas e principalmente as de crocodilo.

No mais Gerais, se ainda der tempo.







Publicado Jornal Correio em 1º de Fevereiro de 2015



 https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhT29GdXA2WWtpMVk/view?usp=sharing

segunda-feira, janeiro 26

De rodoviárias e bibliotecas





Refaço, sem muito esforço, o caminho que me trouxe a Uberlândia. Não carece repetir histórias contadas da chegada, das charretes da velha rodoviária onde hoje se encontra a biblioteca. Quando cheguei, as histórias estavam dentro das pessoas que iam e vinham de todos os cantos e por ali passavam. Hoje as histórias estão nos livros que descansam agitadamente imóveis nas prateleiras à espera de quem os desperte em vida, os folheie e viaje com eles. Bibliotecas e rodoviárias têm muito em comum. Ambas foram criadas para transportar pessoas a longínquos paradeiros. Não se medem quilômetros, léguas ou metros. Medem-se em sentimentos, expectativas, paixões, desilusões, saudades.

Mais semelhanças estão em ambas presentes. As bibliotecas trazem conhecimento, informações. O sacolejo das velhas jardineiras também. Se cada livro tem sua história, cada ser vivente que por aquela velha rodoviária perambulou também é rico em casos. Universo único, luminoso e rico. Depois de morar em pensões, quartos alugados e algumas repúblicas, finquei raiz em uma delas, a já mencionada Quilombo dos Palmares, na Felisberto Carrejo.

Esta, sim, misto de biblioteca, rodoviária, estação de trem, feira-livre, encontro de comadres, saída de missa, dada a quantidade de histórias que por lá aconteceram e, em suas paredes devem estar, como livros, aguardando quem as conte. Uma delas: Colega e hoje compadre, moço grande e forte, criado em fazenda lá pelas bandas da Cumbuca perto de Iturama. Tamanho, força, mas medroso de assombração que só. Foi a deixa. Amarramos linha de pesca em sua coberta e corremos a mesma até o quarto em frente ao nosso. Dividia o quarto com ele.

Tudo combinado. Assim que chegou da rua em noite alta de sábado, estávamos na sala, à luz de velas apenas, o breu quase total. Colega em atabaque marcava ponto de umbanda e amiga se fazia por encarnada de espírito, da fala grossa e girava a cabeça. No começo o compadre riu meio sem jeito. Aos poucos foi perdendo a graça e tremia. Dizia que era o frio. Era medo. Aquilo durou bem uns 20 minutos, quanto outro da república ligou as luzes do relógio e todos em ensaiado grito alto terminamos a “sessão”.
Deu uma pressa no “véio” – assim carinhosamente o chamávamos – de dormir que ninguém conseguia segurá-lo. E era tudo que queríamos. Noite ia fundo, todos acordados, menos o “véio”. Foi só esperar o seu alto roncar. Começou a segunda parte do plano. Do quarto em frente, começaram a puxar o fio amarrado na coberta. Eu fingia dormir para o tudo acompanhar.
No primeiro puxão a coberta foi parar no peito dele. Acordou assustado, me chamou e com voz trêmula: “Viu isso?” – “Vi nada, só é imaginação sua, vai dormir!”

Pouco passou e puxaram outra vez a linha de anzol, desta vez, com tanta força que a coberta parou nos pés. Aí foi pulo só! Ficou em pé no meio do quarto e gritou forte: — Toma que é seu alma penada, tá com mais frio do que eu, fica com ela!
Gargalhada geral, e só então o incauto tomou ciência da farra. E você pensava que estudante de república só estudava? Tempo bom.















Publicado no Jornal Correio em 25 de janeiro de 2015