sexta-feira, fevereiro 26

Escorpiões




Em um mês, foram registrados, em Uberlândia, 44 casos de acidentes com escorpião no período de dezembro de 2015 a janeiro de 2016. No ano passado, foram 20.015 ocorrências de pessoas picadas pelo aracnídeo em todo o Estado. Durante o período de chuva, os cuidados devem ser redobrados já que enchentes, alagamentos e enxurradas acabam obrigando o animal a deixar os esconderijos e procurar locais secos.

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Jornal Correio em 25/02/2016






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segunda-feira, fevereiro 22

Fantasia



Foto da protagonista da cronica por William H Stutz
Meu já conhecido hábito de observar as “insignifitudes”, para mais uma vez abusar de palavras de um dos maiores gênios da literatura brasileira, o mestre Manoel de Barros, me fez seu seguidor e com ele me sentir um “Apanhador de desperdícios.” Continuo a recitar mantra de Manoel: “Tenho em mim esse atraso de nascença./ Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos./ Tenho abundância de ser feliz por isso.”

Como bom cristão que reza, como bom pastor que pastoreia, pescador que lança rede ou simples/complicado como ser vivente que vive, esta terça de Carnaval existiu para me provar crença no belo que poucos enxergam, olham, veem (ortografia nova horrorosa, sem acento tipo chapéu Deerstalker). Tem dia que existe só para nos mostrar algo especial, que a vida vale o respirar.

Ando a sofrer com excesso de passado. Digo sofrer, pois é assim mesmo, “dilorido”/lamentoso atoleiro de lembranças. Areia movediça mental, quanto mais mexe mais fundo se vai. Quando dei por mim estava tão longe que até preguiça de voltar deu. Foi quando faceira ela borboletou casa a dentro. Quietou meu debater e a segui com a alma. Imaginei chegando das festas ou saindo para acompanhar bloco. Não, era novinha de roupagem e vida. Tinha acabado de sair de hibernação transformadora. Como sei? Ora, ela deitou pouso em parede branca e vagarosamente se pôs num abrir/fechar de asas. Tinha que secá-las para poder alçar voo de verdade.

Seu tempo de beleza é curto. Algumas poucas semanas. Se tiver sorte, um mês. Diferente dos humanos, se torna bela e assim se vai. As marcas do seu tempo não se dão em rugas ou casmurrices, mas em uma perda ligeira de brilho, imperceptível ao olhar comum, posto que poucos vão por atenção nela mesmo. Esta pequena joia me arrancou do mar de pensamentos e me trouxe de volta. Como “Quasimodo” de Victor Hugo ou Ferdinando, o touro de “Munro Leaf”, popularizado pelo desenho animado de Disney, me deixei levar pela miúda e estonteante beleza. O melhor antidepressivo é a contemplação. Me acode muito.

A propósito, o termo “excesso de passado” foi garimpado em publicação do Face. Garimpado sim, pois a grande maioria do que se vê ali segue a linha da falta de fonte, do “diga amém e compartilha”. Visito o Face como leria um antigo almanaque do Biotônico. Pouca ciência muita tolerância, muita informação desnecessária.

Carnaval. Concordo, sou ruim da cabeça e doente do pé, mas tento ser um bom sujeito. Não fico por aí a maldizer o ritmo. Gosta? Aproveite e se esbalde em “chuva suor e cerveja.” Não gosto de Carnaval plastificado, de camelô. Não consigo me imaginar vendo um desfile na televisão. Vi um, há vários anos atrás. Pelo que contam, vi todos. Muda nada.

Minha pequena visita aprumou e voou rumo a goiabeira. Foi procurar amor de sua existência. Tinha pressa de perpetuar a espécie. Sofria de “excesso de presente”. Tinha o que fazer. Desejei-lhe boa sorte, cantarolei marchinha que Tavinho Moura puxou um dia em Carnaval de praia, em um Espírito Santo de águas frias e limpas: “A minha fantasia ninguém muda. Esse ano vou sair de Buda, vai ser Buda prá lá, vai ser Buda pra cá (…)”

Penso agora em “excesso de futuro”.








Em Jornal Correio 21 de fevereiro 2016




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segunda-feira, fevereiro 15

A ponte





Ele sempre quis saber o que havia lá do outro lado. Ligando uma margem à outra havia uma ponte. Era uma ponte de madeira, beiral caído, algumas tábuas soltas; nada de especial, não chamava atenção. Construída há muito tempo, agora pouco era usada, pois, depois da mudança do traçado da nova rodovia, ela ficou meio que isolada, no meio do mato, ligando nada a lugar algum. Eventualmente, algum tropeiro ou peão-do-trecho a usava para cortar caminho, mas era raro, muito raro. Virou atalho. Não era muito alta, mas uma queda podia ser perigosa, pois o córrego era raso e as águas cristalinas que corriam sob sua estrutura abrigavam muitas pedras.

Em uma de suas cabeceiras a vegetação tomava conta, samambaias imensas, escondiam pequenas teias de aranha que pela manhã brilhavam orvalhadas como joias. Ele gostava de ficar observando a outra margem, sempre quis saber o que havia do outro lado.

Espiava curioso os aglomerados de árvores, os contornos, as sombras. Sons, muitos sons vinham da outra margem do rego d’água. Cantos, rugidos, piados. E ele queria saber o que lá havia, era seu sonho, sua obsessão. Toda tarde, apoiava-se em um galho e ali, quieto, ficava a olhar o lado de lá. Por várias vezes, criou coragem e ensaiava enfrentar o trecho e realizar seu desejo, mas, no derradeiro instante, desistia, esse medo o enfraquecia, sentia que se não o enfrentasse a sua vida não teria sentido. A ponte era seu desafio maior e único.

Naquela dia, acordou decidido, faria a travessia logo mais ao escurecer, saberia, enfim, o que havia do outro lado. Esperou ansioso a chegada da tarde, o sol estava diferente, as nuvens mais brilhantes, uma brisa fria tocou seu corpo; sentiu cheiro de chuva. Não se apoiou como de costume em seu galho preferido, com o pequeno coração em disparada recostou-se na própria ponte e esperou. A noite chegava convidativa, as primeiras estrelas já se faziam anunciar: tênue brilho, esmeraldas e turmalinas. Tinha chegado o momento, ele sabia disso, ia finalmente saber o que havia do outro lado. Ergueu a cabeça, respirou fundo, fechou os olhos, se postou para a arrancada.

Qual a sua decepção; bateu subitamente o medo, o seu incompreensível, irracional medo, não conseguiu se mover. Lutou desesperadamente contra esta força que o impedia de avançar, sem sucesso. Resignado deitou-se no chão e ali se deixou ficar por muito tempo — sofria. Se fez noite fechada e vaga-lumes riscavam o ar bem próximos de sua cabeça. Suspirou e deu uma última olhada para a ponte — apenas um vulto negro agora sem linhas, sem contorno, sem graça; obstáculo. Ainda não foi desta vez que conheceria o que havia do outro lado. Levantou-se amargo, sacudiu a poeira de sua colorida plumagem, passou o bico vagarosamente sob suas asas, sentiu o calor de sua pele, esticou as patas e voou para seu ninho.

Melodiosamente entoou triste canto noturno. Dormiu cansado e, mais uma vez, sonhou com a ponte, e claro, com o que haveria do outro lado. Alguns de nós somos assim, nunca atravessamos nossas pontes, uma pena.








Jornal Correio domingo, 14 de fevereiro 2016




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quinta-feira, fevereiro 11

Nomes



Amigo Júlio Penna, assim mesmo com aristocrático duplo N, me deu um alerta. Nomes. Todo cuidado é pouco na hora de escolher nome de filho. Ser criativo, pode gerar constrangimentos e bullying.
Encontrei alguns tantos, mostro poucos: Maiquel Edy Marfy, Patrick Itambé da Silva, Erripóter, Romixinaide, João Lenão, Milquesheiqueson. A lista é imensa.

Poderiam ter me batizado João. Meu filho assim foi, segue composto em Lucas, iluminado João Lucas. Ah, João Batista, João de Barro. Tantos Joões. Poderia ser José, nome que por si só transmuta, vira Zé e não tem quem tire. Zé das Couves, gente do povo. Talvez Maria, Vidente ou das Graças, Aparecida, de Fátima, das Dores, horrores. Da Penha. Maria das Luzes, Maria. Tantas uma só. Maria Cristina, ou apenas Cristina, Tina, Cri, como o cantar dos grilos. Com sorte Mariana, como minha filha, nome forte.

Poderiam ter me dado Pedro, pedra bruta, pronta a lapidar. Mas dei sorte, pois poderiam ter me agraciado com nomes vários e diferentes: Dosolina, Tazinasso, Elvis Presley da Silva, Eraldonclóbes Souza, Espere em Deus Mateus, Benedito Camurça Aveludado ou quem sabe Maycom Géquiçom ou Franklestan? Djennypher estaria de bom tamanho?

Sendo filho de pai gringo do Brooklyn, NY, não posso reclamar. Na verdade adoro meu nome e já o encontrei abrasileirado para Uilhan. Há tempos guardo grafias do mesmo: Uiliam, Wilian, Wilha, Uilen, raramente com dois “Ls e M com é. O sobrenome então, dá zica sempre. Stutz é um arraso, só soletrando ou mostrando documento. — Por gentileza pode copiar? A que mais gosto das variações vem das gentes simples a me chamarem de Seo Uila. Cheiro de mato, sopro de vento de sonoridade e pureza de alma. Sinto-me figura de Rosa, o Guimarães. Orgulho que só.

Nomes marcam época, modismo. Os anos 60, com o belo movimento de contracultura hippie, fizeram brotar nomes como Brisa, Estrela, Mel, Flor, Sol, Dilan, Demian, Iris e Jasmim. Estes sempre soam bem e trazem vibrações de paz e amor.

Já outros, do gracejo ao trauma, a distância é pequena, como beijo de pulga. Mas fique tranquilo, se não gosta de seu nome, mude, pois é só ir ao cartório. Tenho uma amiga que detestava seu nome. Chamava-se Mari Onete. Não teve dúvidas, mudou para Títere dos fios. Está feliz da vida andando com as próprias pernas.

Caso ouvi, contado de moço que chegou para tirar de identidade. Perguntas de sempre. Endereço, estado civil ou militar e nome completo. — Papaulo Persegonha. Como é que é? Estranhou funcionário da delegacia. — Papaulo Persegonha, repetiu com cara de poucos amigos e conhecedor do estranhamento. Meu caro, você por acaso é gago? — Não senhor, mas meu pai era e o escrivão um tremendo de um gozador.

Pois então amigo Júlio, diz bem, com propriedade. Nome de gringo, mas alma e espírito de total brasilidade, matuto desconfiado de Minas, sem ufanismo, olho observando. Aprovando o que acho bom, sem mais julgar o errado ao meu atentar. Aprendi, contei, reconto com João meu filho.
Ficamos assim, sem muito mais. Se seu nome é Bond, James Bond, o meu bem pode ser uell, Manoel, reza a troça. Cada um com sua sina.








Jornal Correio em 07 de fevereiro de 2016   (Um domingo de carnaval)




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segunda-feira, fevereiro 1

Aedes


Céu de marte em março. by Márcia Valle

O dia amanheceu quente. Sol pálido e embaçado se fez mostrar em céu vermelho marte sem graça. Fim de mais uma noite sem lua, sem estrelas. Estrelas, coçou a cabeça a pensar. A última vez que viu uma de verdade foi no museu de História Natural, no planetário. Lembra claramente da sensação de alegria e bem estar ao ver as constelações, a lua. Via Láctea fazendo jus ao seu nome, caminho de leite.

Pulou da cama, tomou seu banho a seco. Água pura era coisa rara e cara. Riu sozinho das mentiras contadas em pen drive, com memórias de parente longínquo. Dois banhos por dia com água! Vê se pode? Nem naquele tempo! E o falsocéu nas imagens de recordação, um azul de doer os olhos, nuvens brancas e pássaros para todo lado? Esses antigos tinham tempo!

Quanto a ele, não tinha tempo a perder. Vestiu rapidamente sua armadura protetora e, como sempre, a primeira missão do dia estava por fazer. Desembainhou sua raquete eletrônica e se pôs a fazer a inspeção diária de dez minutos por sua casa. Todos eram obrigados a fazê-la, sob pena de prisão e processo por omissão.

Os inimigos se escondiam por todos os cantos. Debaixo de camas, mesas e poltronas. Sentiu o primeiro ataque nos pés. Reagiu por instinto, brandindo sua raquete em golpe certeiro, “plect” rodopia como samurai, “plect” “plect” estalos indicam mais dois inimigos abatidos. Decorrido o tempo de busca e após algumas dezenas de “plects”, extenuado, suando feito cavalo de corrida, encostou-se para breve descanso. Sentiu as feridas. Estas coçam mais do que pó de mico. Os inimigos desenvolveram poderosas armas, não respeitando mais tecido grosso e muito menos repelentes ou venenos.

O século é o 23 e os Aedes estão maiores e mais vorazes. Aprenderam táticas de guerrilha. Transmitem centenas de doenças e agravos, de chulé a bico de papagaio. Reproduziam-se em barrancos e areia, seca, desenvolveram cérebro tornaram-se pensantes. Poças de chuva ácida não careciam. Darwin explicaria.
Dengue, zica, chikungunya? Coisas do passado.

Para cada vacina, em seus laboratórios nos mangues, charcos eles descobrem outras doenças e métodos para atacarem humanos. Atualmente estão desenvolvendo formas de transmissão da apatia e do desleixo, na tentativa de deter os gladiadores que lhes vem causando muitas baixas.

Assim, logo após a queda dos porcos e a malsucedida Revolução dos Bichos, virá o império Aedes aegypti. Brinca para você ver! Ficção de hoje é a realidade de amanhã. Cuide do seu pedaço, do seu quintal. Deixando criadouros do mosquito você está contribuindo para a evolução de super raça de Aedes.

Faça sua parte senão estamos com os dias contados. Isto se nós mesmos não resolvermos nos implodir antes, alimentando os Kim Jong-il da vida a caviar e Champanhe Goût de Diamants, enquanto ele brinca de bombas de nitrogênio.

Inspecione sua casa dez minutos por dia. O mosquito é democrático. Casa de rico ou de pobre, não dá bola para política ou futebol. A hora é agora, senão, nossos bisnetos verão o sol nascer embaçado em seu vermelho marte/morte.










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segunda-feira, janeiro 25

Chuva


Foto da web (autor desconhecido)
 
Parece que, finalmente, a tão esperada chuva deu o ar da graça e cravou nuvens sobre nossas cabeças. Como demorou este ano. Não vou ficar repetindo as possíveis causas de tanto calor como o que passamos e agora, o atraso das águas, mas sabemos que a culpa é nossa, do El Niño e de sua namoradinha La Niña. Com suas maldades infantis e terríveis consequências, foram gerados por ações humanas. Criamos monstros. Pode parecer loucura, mas tem criança má sim. Como diz o psiquiatria infantil Fabio Barbirato: “Não é fácil a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”. E grande parte da culpa, se é que se pode definir como tal, é de quem a criou. No caso dos dois Niños, nós mesmos.

Abrimos a Arca da Aliança, fizemos da natureza nossa inimiga e, como tal, sugamos suas riquezas em dose alta demais, enfumaçamos a casa. Estamos condenados a pagar alto preço por tamanha heresia. As águas vieram em pingos verdes, a terra rachada que nem nossos calcanhares de criança criada livre, pé no chão, agradeceu florescendo em mantos e matas e mantras.

Nas pobres cidades um desastre que se repete desde quando inventaram o progresso, o asfalto, a especulação imobiliária e o ódio por árvores. Ruas em armadilhas se transformam, mato cresce com vigor nos terrenos e seus donos acham que é dever do poder público carpir. Mato, quanto mais corta mais forte cresce.

A roçada de hoje é o matagal de poucos dias para frente. Cada dono deveria cuidar do que é seu. Logo a tão esperada chuva vira tormento para muitos, roupa não seca, mofo aparece, goteiras esquecidas renascem. Não demora ovo na cerca e novenas para Santa Clara, acompanhada da mandinga: “Lágrima do peito aberto, coração de Deus ferido, nos defendei da tempestade e de todos os perigos”. Não tem cerca na cidade grande? Ovo na calha ou no muro. Tudo para espantar a até outro dia tão esperada senhora da vida e fartura. Se não funcionar, pelo menos um gambá que mora hoje pertinho de você ganha uma almoço, pois na mata já não tem abrigo.

De bendita a amaldiçoada é um pulo. As gentes da cidade desconhecem o valor dessa riqueza. Dela só sabem pela televisão, pela previsão do tempo, pelas reportagens trágicas. Quer trecho para Pasárgada? Impossível. Aeroportos fechados por conta do mau tempo, sem teto dizem. Ônibus ou carro? Um perigo, estradas queijo suíço, quedas de barreiras e o preço do pedágio para as alturas a encontrar nuvens pesadas foi.

Saudades de ficar quietinho na varanda com uma boa xícara de ágata colorida de café quente, olhando a chuva benzer campos e montanhas de um lado, à minha frente cheiro de sal, uma imensidão de mar calmo. Já viu chovendo no mar? Água morninha. O ritmado quebrar de ondas baixas deixa espuma na praia. Nada de preocupação com alagamentos, atoleiros ou pedágios. Andar descalço em areia molhada, deixar chuva correr pela aba do chapéu, sonhar com roça pronta, cantarolar alegria, peito a explodir. Viver é tão bom.

A vida pode ser assim, mansa. O cheiro de terra molhada convida à contemplação. Só não pode barragem mineradora por perto a ameaçar com sua ganância de lama.









Jornal Correio em 24 de Janeiro de 2016




Chuva

segunda-feira, janeiro 18

T.I. e passarinhos



Interessante, assim como Dannilo Camargos, mestre em assuntos relacionados com nossa sociedade, sou também um fervoroso apaixonado por tecnologia e, como ele afirma, também pouco sei lidar com ela. Tenho um “Personal” em TI, meu filho – quando me aperto recorro a ele, ou seja, a todo minuto. Travou, não baixou, colocar música no iPod, ligar o tal cabo HDMI do note à televisão para assistir meus clássicos… O último que revi foi “Morte em Veneza”, filme baseado na maravilhosa obra de Thomas Mann, magistralmente dirigido pelo gênio Luchino Visconti.

A beleza como descreve, fiel ao livro, a paixão em seu sentido mais puro de Aschenbach por Tadzio, só poderia ter como trilha sonora o quarto movimento – Adagietto – da “5ª Sinfonia”, de Mahler. Não conto mais. Quer ver e admirar uma obra-prima do cinema? Busque no YouTube, está lá completinho. Mas se eu fosse você, tentaria encontrar em locadora ou, se der sorte, assistir no cinema em alguma sessão especial dedicada à sétima arte. Certo, também tive a mesma dúvida: quais as outras seis mesmo? Arquitetura, escultura, pintura, gravura, música e coreografia, pronto, respondido. Coisas do século 18, do Século das Luzes. Já pensou sentar em um bar com John Locke, Voltaire, Rousseau, Montesquieu – este, deveria ser (re) lido por todos que almejam poder, continua atualíssimo.

Uma coisa que me impressiona na tecnologia é sua face burra. Hoje abri minha caixa de e-mails e além daqueles que realmente me interessavam recebi uma lista de pedidos e “presentes”. Certo cidadão sei lá de onde me oferece, em um português de tradutor, alguns milhões de dólares assim do nada, me cabendo apenas abrir uma conta conjunta para que ele, na maior boa-fé possa promover evasão de divisas de seu país em miséria e doença. Tão bonzinho! Três bancos me pedem para recadastrar senha, pois se não o fizer danço, perco conta. “Estranhamente” nunca tive conta nas instituições que me pedem atualização ou, às vezes, me compram algum título sob ameaça de protesto, cobrança judicial. Até o Leão do IR já me cobrou dados por e-mail.

Alguns de hoje cedo: “Perca peso sem esforço”, “Sou um amigo seu vc (sic) está sendo enganado”, “Como se livrar de Multas”, “Seu pedido de compras está em anexo”, e alguém me mandou os “dados de um orçamento urgente”. Outros querem te pegar pelo ego: “Queria corresponder com você, sou loira, alta, inteligente, resolvida financeiramente. Não é aventura é compromisso sério”. Ah vá! Olha só, acabo de receber outro de um Omar Toure Arabiya – a grana está, segundo ele, no Bank of Africa BOA Ouagadougou Burkina Faso West África –, quero não. Alguém se habilita? Esse povo tem tempo.

Queria um filtro de spam mais poderoso. Fico na minha, paro com a mão no queixo e fico a ouvir passarinho e vento. Borboletas me distraem facilmente, as sigo com olhar por horas. Aí, quando João me visitar resolverá o engastalho de tanto lixo eletrônico. Tranquilo e ligeiro, como sempre, para meu sossego cibernético.

Quanto aos passarinhos, estes não eram spam e cantam, alegrando meu dia em frenética sinfonia.







Jornal Correio 17 janeiro 2016




segunda-feira, janeiro 11

Toques



Vocês já prestaram atenção na variedade de toques de celular que rolam por ai? Além do previsível e chato som do Whatsapp, cada qual escolhe como quer o toque que mais lhe agrada. Uns mais conservadores se prendem às opções do próprio aparelho e, olha, são muitas. Sons de naves espaciais ou efeitos especiais de cinema, cantos de passarinho mecânico sem graça que só. Foles, sintetizadores e até um que tenta mal e porcamente imitar som de telefone antigo, aquele preto, pesadão, muito usado como arma de crime em filmes de gângsteres.

Mas coming back to the cold cow, como bem traduziu Millôr, é tanta criatividade que chega a ser engraçado. Outro dia em viagem para visitar especial amiga. Felizes com o reencontro, seguimos debaixo de chuva fina para restaurante e colocar prosas em dia. Sem querer, me peguei prestando atenção aos sons de telefones espertos que só naquele delicioso e aconchegante espaço.

Minha amiga que já sabe muito bem como sou, paradoxalmente um atento disperso, se pôs a rir me trazendo de volta ao mundo. Mas ficaram gravados os “trimmmsss” modificados, prontos para o papel.
Lá ouvi muita chamada com som sertanejo, não só a música, mas cantado mesmo. Duplas de universitários, que nunca estudaram, bombando para todo lado. A região da cidade é tipo assim, dada a estes falsetes que, mesmo escutando pouco ou com moderação, como fumo e álcool, fazem mal a saúde. Neste caso, o Ministério da Saúde não avisa, mas deveria. Em alguma mesa, uma sonata de Mozart avisava alguém que a mãe queria lhe falar. Como sei? Ouvi a moça resmungar torcendo o nariz: — O que é dessa vez mãe?

Pois é, ainda tem disso, para cada pessoa uma música. Pouco depois, no aparelho da mesma menina, tocou um Michel Teló aos berros. Bom, acho que dá para imaginar quem estava ligando. Ouvi um “oi beemm”, dos mais melosos.

Ah, as pessoas! Acham que se elas gostam todos têm que gostar, pois não atendem de pronto. Deixam tocar o raio da música todinha e, se possível, até duas vezes e você tem que escutar a torturante seleção musical(?) alheia. Eita suplício! Em algum locais, raros, ouve-se um Led Zeppelin, um solo de Eric Clapton ou um belo blues-rock de Eddie Van Halen. Aí, sim, dá vontade de que a pessoa não atenda nunca. Well, gosto é gosto.

Barra foi caso contado por um amigo. Participando de mesa como mediador em palestra internacional sobre escorpiões, silêncio total. Do nada, toca um telefone na plateia. O toque? Som de transa das “calientes”. Apavorado, o dono do celular não conseguia acertar a tecla de volume e muito menos o desligar. Assim, aquilo ecoou por eternos instantes para susto geral. Todos os olhares se voltaram para canto da sala. Ali, encolhido e vermelho, como peru depois de duas doses fartas de cachaça, pronto para o sacrifício em véspera de Natal, um senhor de meia idade apertava tudo que podia para parar o som. Quanto mais tentava, mais alto ficavam os gritos e sussurros. Nove e meio segundos depois conseguiu.
Não corra riscos, caro amigo. Bote logo um “Jingle Bells” ou música gospel como padrão em seu celular. Se resguarde, custa nada!






Jornal Correio  10 de janeiro de 2016




Toques JC

segunda-feira, janeiro 4

Domingo na praça




Tem gente tão sistemática que se puder bate continência para geladeira General Eletric. Não que eu consiga chegar a este ponto, mas sou, de certa forma, meticuloso no meu comportar. Este comportamento se acentuou um pouco mais depois que passei a viver só. Como um cego em seu ambiente cotidiano, se trocar uma cadeira de lugar pode ocorrer tropeço. Sei onde e como guardo minhas coisas. Alguns podem me chamar de sistemático, complicado. Até ao fato de ser virginiano atribuíram meu jeito de ser. Cá para nós, acho esse papo de horóscopo uma balela. Caso tenha a ver com força gravitacional, posição das estrelas e outros corpos, pergunto: qual seria a maior e mais próxima massa a exercer alguma força sobre um recém-nascido? Respondo: a do médico e sua equipe na hora do parto. Assim, pode-se ter nascido em médico com ascendência em enfermeira ou em aparelho de luz cirúrgica da OSRAM. Este até parece nome de planeta.

O viver sozinho te obriga a criar uma rotina de sobrevivência para não pirar. Como tem menos de um ano que estou nessa, vou tratando de me ajeitar. Horário de acordar aos sábados e domingos é o mesmo. Cedo, muito cedo. Correr quatro dias por semana e academia outros três. Além de fazer bem é uma forma de socialização, mesmo conversando pouco. Assim vem sendo. Estou alegre, corro. Estou deprê, corro também ou puxo ferro para fortalecer pernas e panturrilha. Para fazer o quê? Correr mais, uai. Viciei em endorfina.

Entre novos hábitos, cultivei um aos domingos: Almoçar na Feira da Gente da Praça Sérgio Pacheco. Comida boa e preço justo, música às vezes boa, às vezes ótima, às vezes péssima. Sem problemas tudo é festa.

Dia desses, como de costume, na praça. Gente para prosear não falta. Naquele dia, estava de papo com a senhora que cata latinhas. Cansada, sentou-se em banco de concreto a meu lado. Contou de sua vida, de sua família. Em nenhum momento, senti tristeza naqueles olhos que já pousaram vista em quase tudo que se tem para olhar. A prosa animada era entrecortada por levanta ligeiro para recolher uma ou duas latinhas esquecidas em alguma mesa. A concorrência ali é brava. Enquanto dava tempo para pegar meu almoço e levar para casa, vou ficando, empurrando ao máximo estes momentos, pois sozinho, fim de semana, é assombrado. Filha de Jack, da barraquinha onde quase sempre pego comer, que conhece meu ofício, vem me chamar. Tinha um morcego pendurado na tela de um alambrado, estava rente ao chão.

Lá fui eu em pensamentos. Fui passear, ouvir música e buscar comida. Pronto, e agora um morcego. Mostram-me o coitadinho, um filhote, talvez despencado das costas da mãe em aprendizado de voo. Em pleno domingão de folga. “Finge nem ver” e “deixa prá lá” diriam alguns.

Sem chance. Há uma coisa maior dentro da gente. Lá fui eu recolher o bichinho. Com a ajuda da moça, colocamos em uma caixinha que passou a me acompanhar o resto do dia.

Já pensou se criança ou bicho vai lá mexer? Mordida e risco bravo. Está aqui em casa. Amanhã, lá no Laboratório, decido rumo. Consciência tranquila. Meu trabalho mora em mim. Sou feliz assim, pelo menos tento ser.







Jornal Correio em 03 de Janeiro de 2016



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segunda-feira, dezembro 28

Ano novo?



E mais um ano se vai em fumaça. Sei que não temos muita coisa para comemorar, pois o mundo está de cabeça para baixo. As mazelas comportamentais, o fanatismo religioso, as crises, a ganância, a vaidade e outras tantas bruxas e tragédias, reinaram em 2015. Muita zica para poucos dias. Ano digno de ser esquecido. Lúgubre começo de conversa para uma crônica de quase fim de ano. Certo, não foi bom mesmo, mas será que foi de todo ruim? Pensemos. Se estamos escrevendo ou lendo estas mal traçadas linhas já é um bom sinal – sobrevivemos. Atravessamos águas turbulentas, ondas de metros, tempestade e vendavais. Mas, do ponto mais alto de mastro de nossa frágil nau, quase sem rumo, alguém, um anjo talvez, gritou a plenos pulmões: Terra à vista!

Será? Entreolhamo-nos céticos. Terra à vista! A voz se fez ouvir novamente. Teimosos, sorrimos. Timidamente, é verdade, mas logo ali já se avistava a terra firme de um tempo novo. Raça resiliente essa nossa. A evolução assim o provou. Nascemos humanóides, quase símios, todos descendentes de Lucy a nossa Eva. Esta, “uma mocinha de 20 anos, 1,20m de altura, provavelmente morta por um crocodilo e que passou cerca de 3,2 milhões de anos sob as areias da Etiópia até ser descoberta em 1974” (mundoestranho.abril.com.br). Enfrentamos todo tipo de provação que a evolução das espécies impõe às criaturas. E olha só, chegamos até aqui. Se para melhor ou para pior não sei bem, mas chegamos. Não será um aninho, um átomo de tempo, que vai nos colocar em desespero. Há esperança.

Derrotas pessoais, amores perdidos, amizades rompidas. Tristezas. Tapetes puxados, nada disso pode nos derrubar. Um ano-novo é como uma porta que abre para o vazio. Cabe a nós preenchermos cada pedacinho dele com o que de melhor pudermos oferecer. Plante árvores, ouça passarinhos, sinta o vento. Ria de si mesmo, cumprimente e sorria para as pessoas. Aprendi, com meu filho João, algo que me fez outro. Não fale mal de ninguém, cada um tem sua sina e caminho. Se não puder ajudar, não atrapalhe. Seja gentil.
Sempre fui muito otimista, até com fome e bolso vazio. Cito mais uma vez o enigmático personagem do magnífico iluminista Voltaire. Sou uma espécie de dr. Panglóss melhorado, pois a sobrancelha ainda levanta para certos atos e “desatos”.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Seguremos o bridão, toquemos a encarar os desafios de se sentir vivo. O ano de 2016 pode ser melhor ou pior do que este que se vai, como se dele quiséssemos guardar poucas lembranças. Depende muito mais de cada um de nós.

Como bom atleticano e devoto de São Jorge, abro o peito e solto o grito: — Eu acredito!

Tomo a liberdade de usar uma máxima que, desde sempre, conduz minha vida, do mestre Mario Quintana: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho!”.

Acredite também, acredite em você, vai na fé e, já que estamos em tempos de “Star Wars” outra vez, fica minha mensagem de paz e otimismo: que “a Força esteja com e em você”. Vai que é sua. Sejamos um pouco Cândido, sem perder o senso crítico. Feliz ano-novo. Vale a pena. Vejo sua última frase:
“— Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”







Jornal Correio em 27 de dezembro de 2015



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segunda-feira, dezembro 21

Quintal luz





Noite passada, presenciei deslumbrante espetáculo. No elenco, milhares de atores e figurantes. Fiquei paralisado com tanta beleza. Não havia cortinas para se abrir e o palco era a imensidão. Associar o apoteótico “gran finale” daquele maravilhoso momento aos mais belos espetáculos de luzes do mundo seria pouco, ante a beleza que escorria do ar bem ali à minha frente no meu quase quintal.

Fui nascido e criado sempre junto a grandes quintais. Meu mundo, meus sonhos, minhas descobertas das pequenas e grandes coisas estão visceralmente ligado a eles. Ali não precisava de nada, nem de ninguém, criava um imaginário lugar onde tudo era belo e funcionava. Ali me escondia. Claro, à medida que eu, infelizmente, crescia, os quintais de minha vida ficaram menores. Queria sempre mais espaço.

Aprendi com os habitantes dos quintais ser o que sou. Sapos, pererecas, galinhas, passarinhos milhões, fadas, sacis e outros tantos, me contavam os segredos do mundo. Ali, ávido li milhões de livros. Em dias de Sol, me deixava ficar deitado na grama a olhar nuvens criando formas. Conversava sozinho, me contava histórias e inventava sonhos. Sozinho no quintal, sonhei minha primeira namorada. Era linda. Cabelos loiros, olhos de um azul mineral. E ela gostava de mim. Na verdade, nunca tive uma namorada loira, mas nos meus quintais da vida podia. Depois, adulto, já não sonhava loiras, nem namoradas. Sonhava viagens, sonhava lugares sonhava histórias.

Hoje não tenho mais quintal, mas tenho sonhos. O quintal carrego comigo, como caramujo carrega concha. Como caranguejo eremita assumo posse temporária de algo que não construí.

O quintal a que me referi lá no início não passa de uma área comum de onde atualmente moro. Agradável, mas impessoal. Para minha sorte, parte de meu eu criança me permite muros invisíveis, jardins e árvores imaginárias. Crio meus quintais, minhas veredas, minhas florestas. Mas o espetáculo foi real. Horário de verão tem o grande prazer de atrapalhar quase tudo. Custou a escurecer e meus beija-flores ainda vinham ávidos buscar um último golinho de néctar. Voavam cansados, olhos pesados, mas cadê noite para aquietar?

Pronto, custou mas veio o manto de lua nova. Enfim se fez noite e, como passe de mágica, zilhões de quase estrelas vieram brincar em meu quase quintal. Um esvoaçar de brilhos. Natal luz que nada, meu quintal luz particular. Vaga-lumes brotavam do vazio e se espalhavam a minha volta, em festival de romântico caçar de par. Alguns por engano entravam por minha janela. Corria lá e tratava de colocá-los para fora, onde os feromônios eram mais fortes. O amor literalmente estava no ar. Quanto tal beleza me fazia falta. Senti-me tão vivo.

Fechei com força os olhos e como se recebesse a bênção de centenas de estrelas cadentes, personificadas em cada luzinha daquelas, fiz meu pedido. Vai, vaga-lume, ilumina a noite, meus sonhos, a vida. Corre atrás da eternidade da perpetuação de sua colorida e luminosa espécie. Quem sabe um dia terei novamente quintal de verdade, para com mais pompa recebê-los.











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segunda-feira, dezembro 14

Fumaça



A noite chegou. Horário de verão complica a vida de todo ser vivente, custa a escurecer e o amanhecer demora mais um pouco. Particularmente gosto, pois posso aproveitar um pouco mais o fim de tarde. Confesso, chego ao fim de semana cansado de um não sei o quê. Fico imaginado as gentes que moram na terra de Papai Noel e aproveito o clima de Natal, apesar do mesmo não estar para peixe ou peru. Na Lapônia, que fica encostada no círculo Ártico, acontecem em alguns períodos “noites sem noites”. É quando o sol nunca some na linha do horizonte, corre por ele de ponta a ponta, mas não desaparece.

Assim têm luz vinte e quatro horas por dia, durante meses. Coitados dos poetas, dos seresteiros, dos namorados. Gilberto Gil se lá vivesse, jamais teria composto “Lunik 9”, pois jamais “haveriam derradeiras noites de luar”. Aquela noite, que mansa chegou, seria diferente. Lua nova, escuridão total, canto longe de alguma Mãe da lua, pensando ter perdido sua companhia. Os Urutaus são assim, melancólicos.

Do fundo do breu, uma risadinha arranhada. Um cachorro vigia uivou, de medo. Logo outra risada mais aberta, seguida de outra e mais outra. Depois de certo tempo o que se ouvia era um gargalhar de milhares. Risos de doer o estômago, como quem boa e bem contada piada, ou caso, ouviu. Aquele riso aberto de quem vê alguém levar um tombo em lodo de pedra de riacho. Machucou? Diante da negativa despenca em gargalhar a plenos pulmões. As risadas não paravam. Depois de muito tempo, um movimentar sem fim deu lugar ao riso. Inquietação geral, despencar de lugar algo, esborrachar em chão com som seco, tosses, risos, delírios acéfalos.

Pela manhã, rebordosa geral. Todos para o caminhão. O chacoalhar martelava cada pedaço. Ressaca assim nem de cachaça de carotinho de cinquenta centavos. Quem disse que conseguiam ficar em formação ali na carroceria? Para espanto geral, mal se mantinham, e não era o balanço de estrada esburacada não, a zoeira estava dentro de cada um. Volta e meia, quando o vento conseguia levantar parte da lona que os cobria e uma brisa gostosa entrava sem educação, o alívio era breve. Alguns mais resistentes ainda davam longas, sinistras e sonoras gargalhadas. Motorista e ajudante se entreolhavam arredios na boleia.

Aqueles tijolos, depois da queima de droga tipo cocaína, crack, cigarro falsos, toneladas de “Maruamba” em forno de cerâmica pela Polícia Federal, por muito tempo não iriam prestar para levantar paredes, podia até bater prumo, mas logo, no meio da linhada assentada, um risinho arranhado se faria ouvir e logo a algazarra novamente se instalaria.

Pedreiro assentava hoje, no dia seguinte, encontrava confusão de formatos de paredes do nada, efeito “poltergeist”. Amanheciam de ponta cabeça equilibrados em apenas um cabo de enxada. Os tijolos, muito doidos, não conseguiam ficar parados em pilhas. Farra do bode no transporte até a obra, depois só confusão. E cadê peão para voltar trabalhar nessa obra?

Roubo frase de, nem acredito, “Max Payne” um game antigo: “Não sei quanto aos anjos, mas o medo é que dá asas aos homens…” Ótimo domingo!







Jornal Correio em 13 de dezembro de 2015




Fumaça

segunda-feira, dezembro 7

Consolo



Para uma amiga em dor certa feita escrevi, sê Fênix.
Usufrui do direito quem tens ao sofrimento real, ele é teu e único.
Necessário.

Mas lembra-te, a vida segue inexoravelmente seu curso. Atropela os incautos, deslumbra os afoitos, premia os justos e corajosos.

Após amarguras sentidas transforma-te, sê a grega e mitológica ave, que além de seu eterno retorno das cinzas é capaz de suportar pesadas cargas. Ressurge exuberante e mais sábia, mais serena.

Desvenda os mistérios que regem nosso universo, eterno, possível, prazeroso.
Sê feliz querida amiga, sê feliz.














Escrever


Imagem web


 

Não sei se já aconteceu com você querido leitor, mas aposto que sim. Sabe aquele dia quando, por mais que você queira, não consegue escrever uma linha sequer? Não, não é meu caso hoje em particular, pelo contrário. As ideias e os estímulos são milhares, assunto não anda faltando. Basta andar pelas ruas de qualquer cidade, ler um jornal ou sentar em um boteco sozinho que seja, pedir uma cerveja, uma garrafa de água mineral e se deixar ficar. Pode ser numa praça também. Os bancos à sombra ou na noturna penumbra são locais perfeitos para armar tocaia. Com olhar e ouvidos atentos, logo captura-se uma ideia, uma história.

Como em toda boa caçada é bom fingir desdém, pois algumas ideias são ariscas, parecem canarinhos rondando arapuca da infância. Mesmo com quirera farta à disposição os danadinhos custam a entrar debaixo da armadilha. Mas é exatamente aí que vive a emoção. O entra não entra, a tensão, a espera.

Melhor do que essa sensação, só o desarmar da armadilha com o bichinho lá dentro e correr para segurá-lo. Um afago na cabeça do apavorado, sentir seu coraçãozinho repicando entre seus dedos e depois de manso abrir a mão, deixá-lo ir embora em voo ligeiro.

Tinha um amigo que arrancava o rabo das avezinhas não apenas para vê-las voarem cotós e de lado, mas para que elas apreendessem a ter medo de arapuca e nunca mais caíssem numa. Não sei se funcionava, mas a verdade é que nunca pegamos um passarinho cotó em nossas caçadas.

Pois, naquele tempo, não havia esse papo de politicamente correto, de vida sustentável, de preservar bicho. E, mesmo assim, sem aulas ou repressão externa, mas por natureza mesmo, não gostávamos de prender, nem de judiar de bicho ou criação. Os de prender eram estrangeiros e que não conseguiriam viver soltos, tipo canário belga ou periquito australiano. Nunca entendi bem essa história de não aprender a viver solto. Será que tem até bicho que nasce com sina de prisão?

Se nunca gostei de prender bicho, com ideias a história era e é outra. Desde muito miúdo, tomei gosto pelo agarrar as escorregadias lembranças que por mim passavam. Na praça, no bar, na venda de beira de estrada, onde quer que eu vá, carrego sempre isca de pegar ideia. Aliás, estou prestes a patentear uma máquina de pegar ideias que inventei para tal.

Tenho de confessar que me inspirei na máquina de esticar horizontes, de Manoel de Barros, uma de suas mais geniais invenções. Está em fase de testes, mas tem me dado bons frutos. O problema é quando as ideias chegam em bando, em alvoroço discreto de bicos-de-lacre, miudinhos e belos. Minha máquina ainda tem o defeito do encanto e isso a distrai a ponto de perder todos os pensamentos. Questão de tempo, aprimoro o instrumento, talvez lhe dando mais portas, mais ouvidos, mais olhos atentos.

Assim, meu amigo, se algum dia se sentir entrevado no escrever, liga não, são ideias que andam pousadas perto. Preste atenção na direção do vento que elas lhe contarão segredos inimagináveis. Relaxe e se deixe ficar. O papel nunca ficará em branco. Bom domingo.






Jornal Correio em 06 de dezembro de 2015




Escrever

segunda-feira, novembro 30

Semana



Como é que você conta os dias da semana? Como diria um amigo em reposta a um “post” quando pergunto quem será que compra o Petróleo do Exército Islâmico (EI): “Todo mundo, pô! Todo mundo precisa de petróleo. Que pergunta mais besta!” Claro que no rápido ler penso que meu querido amigo de décadas foi rápido demais, pois a pergunta não se referia ao mundo árabe, mas sim ao petróleo dos poços ocupados por estes senhores da guerra e do horror. Mas e aí como você conta os dias da sua semana? Outra pergunta besta, pensaria a maioria: Uai conto como todo mundo: primeiro vem a terrível e ressaquenta segunda-feira, o dia mais odiado segundo pesquisa feita pelo International research center for absurd affairs – IRCAA, para a sigla em inglês. Ah, tal instituição foi criada agora. Depois vem a terça, maioria dorme mais cedo e os resquícios da esbórnia começam a diminuir, mas, por favor, fala mais baixo!

Pronto, a quarta chega e a semana começa de verdade, tem futebol, chegou-se ao meio e para baixo todo santo ajuda, logo se avista uma quinta e, glória ao criador, sangue de Jesus tem poder, chega a sexta novamente. É mais ou menos assim? Pode ser, pode ser. Mas que dia mesmo começa a tal semana ou as sete manhãs? No domingo ou na segunda? O dicionário nos explica:

“Primeiro dia da semana, depois de sábado e antes de segunda-feira.

“Domingo.” “Na tradição cristã, último dia da semana, consagrado ao descanso e à oração.”

Dizem que a Diretoria descansou ao sétimo dia, aí resolveram chamar de domingo esse dia.

Na verdade pouco importa, pois o domingo pode ser tudo, “consagrado ao descanso e à oração para uns”. Futebol, se tiver jogo do Galo é sagrado, churrasco e cerveja para outros. Rezem por nós.

Mas existem outras formas de se contar dias da semana. Sabemos desde que o mundo é mundo que jamais conseguiremos fechar nossas agendas de trabalho e que muito ficará para a semana vindoura. No nosso caso que trabalhamos com emergências então, não existe agenda, a mesma é o cotidiano do mundo, perigoso de Riobaldo Tatarana, assim, conto a semana com bananas, ou maçãs. Isso mesmo, frutas. Todo dia no meio da manhã enganamos a fome com uma delas, trago na segunda cinco frutas que aqui ficam guardadas. Cada dia uma que vai. Esqueço dos nomes dos dias, mas sei que estamos no quarto, quinto ou sexto contando minhas frutas.

Enfim existem mil formas de se contar os famosos cinco dias úteis, seja por cigarros fumados, noites de prazer, dívidas e/ou dia de pagamento. O importante, caro amigo, é que se curta cada um deles, pois aqui nunca se ganha tempo, cada segundo que passa é poeira de retirada e o caminho não tem atalho. “Carpe diem” poeta vivo, aproveite o dia.

Resolvida a questão da semana. Pergunto: e em previsões de horóscopo você acredita? Tenho um outro amigo que deixa de viajar se o dele der algum sinal de perigo. Sem razão, pois, na verdade, ele tem de conferir é o signo do piloto do avião, ou não?

“Eu sou de Virgem e só de imaginar me dá vertigem” aproveito e passeio “Pelas vitrines da Sloper da alma”. Não é, João Bosco?






Jornal Correio 29 de novembro de 2015




Semana