segunda-feira, março 21

Cabelo arrepiado



Seguia caminho sem rumo certo. Puro andar, ver gente. Depois que criaram a amarela zona azul no centro da cidade ficou gostoso outra vez. Arrisco dizer que foi uma das maiores conquistas que nós, reles pedestres, recebemos ultimamente. Incluo-me pedestre, pois sinto prazer em parar carro, comprar algum tempo só para mim. Nada de coisa arranjada de visitar loja em promoção, banco pagar conta, nada disso. Compro algum tempo só para mim. Andar sem atropelo ou pressa, olhar as gentes, sorrir para um e receber em troca olhar acolhedor, às vezes, um carrancudo desvia o olhar. Problema está nele. Ligo não.

Uma mão em cuia, velha conhecida, se estende em minha direção: — Me dá uma moeda? Não determina valor. Uma moeda basta. Percebe que sou eu, recolhe ligeira a mão e solta sorriso amarelo, pois me sabe. Paro olho como quem vai dar bronca. Tiro do bolso nota de dois reais. Ajoelho e lhe entrego sussurrando em sorrisos: — Mala.

Me agradece com um levantar de ombros, como a dizer — — Fazer o quê patrão? O sorriso agora é com os olhos. Sem vergonha, sussurrei amizade. Levanto. Batendo com o nó dos dedos leve comprimento em seu joelho. Sigo, olho fachadas bonitas, infelizmente entre feiura de cartazes de propaganda. Acho ângulos, me encanto com detalhes esquecidos. Bando de curicacas passa rente a prédios. Sinto-me um privilegiado.

Compro garrafa d’água, banco de praça. Frondosa sombra. Adiante crianças brincam como antigamente pulando corda: “Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra de seu namorado: A, B, C” e por aí afora vai. Percebe-se o erro proposital quando chega a letra do príncipe merecedor dos encantos/criança. Quando erra antes, mãozinha na cintura, dedo em negativa: não, não, não! Não valeu e inventa-se desculpa de corda afrouxada de propósito ou a outra não bateu direito levando ao tropeço. Pezinho com chinelinho de plástico bate irritado no chão.

Pode pensar que estou em bairro longe, sossegado. Nada, estou no Centro, em pleno dia de semana. Diminua o acesso aos carros e as pessoas voltam como abelhas, borboletas, joaninhas atraídas pelo espaço livre e pelo vento correndo, polinizando convívio.

Sonho que o centro da cidade deveria ser das pessoas. No máximo, bicicletas seriam admitidas.
Sei, os comerciantes iriam protestar, reclamar prejuízos. Será mesmo? O novo, as mudanças assustam. Vejo nosso Centro como imenso Quartier Latin sem o encantador Sena, sem a imponente Sorbonne, templo do saber. Boulevard Saint Michel lá, aqui boulevard Tubal. Mas não faz diferença. As mesas nas calçadas, as fachadas livres de cartazes, coloridas. Um café, um jornal, um copo d’água. Pode ocupar sem pressa, não carece comprar tempo. Nada de garçons aflitos, Buenos Aires.

Meu tempo, o comprado, está acabando. Dou imenso gole no bico da garrafa. A água está morna, como a calma que sinto. Existe, então, um lugar onde se pode comprar tempo. Pena que não trás de volta.
Lento caminho cantarolando adaptado: “Suco gelado, cabelo arrepiado, qual a letra de minha namorada”. A cada passo uma letra, o abecedário vai ser recitado muitas vezes. Parei longe. Nem imagino uma primeira letra.

Tempo esgotado.






Jornal Correio em 20 de Março de 2016 ( Aniversário de João Lucas)




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segunda-feira, março 14

Campanha política


Foto: Francisca Schueroff  (site na web)
 
Houve um tempo no passado que um político do interior só tinha prestígio se tivesse poder para nomear, demitir, mandar prender e soltar.” Assim começou a coluna de Ivan Santos, quarta-feira, no segundo dia de um março, normalmente, com abundantes águas a fechar um verão, poetando-me em Jobim. Sempre começo leitura do CORREIO de Uberlândia pela coluna de Ivan, pois é como o editorial que sinto falta. “Folha” e “Estadão”, sempre pelo editorial inicio. Cada um tem um sistema de ler jornal. Daí, talvez, a dificuldade em trocar de diário. Outro dia, em Brasília, comprei o “Correio Braziliense”.

Levei bom tempo para saber por onde começar. Folheei de frente para trás e de trás para frente. Como sou ambidestro, poderia ser ambisinistro, mas escolheram a direita para mandar, ao começar uma refeição sempre fico a passar garfo/faca de uma mão a outra até decidir qual corta e qual espeta. Assim me sinto sempre ao abrir jornal a mim estranho, da cidade em que estiver.

Bom, depois da coluna de Ivan, desloco para olhar para “Ponto de Vista”, mas só leio dependendo de quem assina. Pulo para a A3 e foco no “Confidencial”, para então relaxar e correr para o Revista, onde me delicio. Isto feito, pulo para o “Opinião do leitor” e bato perna pelo jornal todo. Leio horóscopo, classificados e até o “quem morreu”, tomando o cuidado de observar se lá não estou listado.

Domingo passado, falei de passagem como professor rural em escola de pequeno distrito, longe, longe. Como disse, bateu saudade de um tempo feliz. Bernard Shaw: “Reminiscências fazem alguém sentir-se deliciosamente maduro e triste”.

A coluna de Ivan me fez lembrar um acontecido naquela região onde morava. Não sei se é fato ou fita, mas o fato é que contam como sucedido, de fato. Um candidato tradicional fazia campanha pelas vilas de seu imenso município e lá pelas voltas de Estrela da Barra seguia sua comitiva. Rural Willys, Jeeps e um caminhão Ford palanque.

Foguetório na entrada da vila para juntar povo para comício. Festança de bandeiras, distribuição de camisetas e bonés e, o mais esperado, dois bois no rolete e muito chope. Gente assim juntou de tanta. Muito palavrório, promessas, chamada de palmas e gritos pelos capangas do candidato, com seus reluzentes Smith Wesson na cintura e imponentes e vistosas Winchesters nos ombros.
Seguindo discurso:
— Meu povo, se eu ganhar e conto com o voto “docêis”, vou espalhar um mundo velho de pontes em todas as estradas da região!
Uma voz na multidão: — Seu moço, aqui tem córrego mais não!
— “Não tem córrego? Então, “nois faiz uai!”- e seguiu converseiro.
— Pensa bem meu povo, hora que eu assumir a vitória, vou fazer túnel para a Mogiana fazer curva e passar aqui. Vai ficar fácil viajar e carrear produção.
A mesma voz no meio do povão:
— Uai sô, mas aqui não tem serra, nem montanha!
— Não tem ainda! “Nóis faiz”!
Toca adiante comício.
— Se eu ganhar essa política vou mandar fazer escola para a meninada toda. Ninguém fica sem aula!
A voz:
— Carece não, tem mais criança por essas bandas não, e faz tempo.
Retruco na lata:
— Não tem criança? Sem problema, nem aborrecimento. “Nóis faiz”, uai!
Foi eleito disparado.








Jornal Correio em 13 de março de 2016




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terça-feira, março 1

Controle de Aedes

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A contemplação sempre nos traz ideias, algumas factíveis outras meio loucas. Geralmente estas últimas é que funcionam. Assim foi toda minha vida. Quando poderia imaginar que um programa de controle de escorpiões, implantado em uma cidade onde o escorpião não era considerado bicho perigoso, poderia vingar e transformar-se em um dos modelos de controle para nosso Brasil?

Pois é, de mirar para dentro um dia perdido no tempo, do perceber a necessidade não sentida de uma gente sendo agredida constantemente por esse bicho, nasceu nosso trabalho. Não mais nosso, e sim, um direito da população que felizmente aprendeu a cobrar por ele, perpetuando algo que lhe pertence e não pode sofrer interrupções. Fico feliz e realizado. Foi assim também com o controle da raiva canina. Quando começamos a brigar contra ela, era um Deus nos acuda. Quatro, cinco casos por semana davam entrada no Hospital Veterinário. Neste ano, completamos trinta, isso mesmo, trinta anos sem um caso sequer da doença em cão ou gato. Deu trabalho, mas como valeu à pena. Vidas salvas, missão cumprida.

Outro dia, ao entardecer ou anoitecer, não sei, pois os estertores do horário de verão são cruéis com o dia e com a noite, fazendo-os cumprir hora extra. Custa a escurecer e nunca amanhece, me peguei melancólico. De tanta picada que estava a levar, me veio uma ideia de como controlar o mosquito da dengue e, de quebra, diminuir, razoavelmente, os pernilongos comuns, cantantes de pé de ouvido.
Raquetes elétricas. Simples assim, ecologicamente corretas, não poluem e consomem faiscazinha de eletricidade ao serem carregadas na tomada. Calma, explico. Resolvi batizar de Projeto Guga meu divagar, seguindo exemplo da Polícia Federal e os nomes curiosos que dá às suas ações.

Seguinte: Uberlândia tem por volta de 300 mil domicílios, aí considero casas e apartamentos dos edifícios, cada vez mais abundantes, destruindo nossos horizontes. Vamos supor que cada domicílio destes receba uma raquete elétrica com instruções de uso e obrigação de detonar, digamos, 6 Aedes por dia. É pouco pela quantidade que temos voando para todos os lados.

Teríamos, pois a bagatela de 1,8 milhão eliminados por dia, certo? Por mês seriam 54 milhões e por ano 640 milhões bichos a menos atazanando nossas vidas. Super significativa, esta quantidade de Aedes fora de combate diminuiria, e muito, a transmissão da tríade do mal: zika, dengue, chikungunya. Além de levar atividade física para toda a população de uma vez só, diminuiríamos filas nas Unidades de Saúde e gastos com medicamentos. Todos ganham menos os mosquitos, é claro.

No varejo cada raquete dessa custa, digamos, R$ 25. Custo do Projeto Guga R$ 7,5 mil. Contudo, com uma compra grande licitada e bem fiscalizada, o custo vai cair e muito. Gasta-se mil vezes mais do que isso apenas com folhetos, explicando o que todos já sabem. Verdade, mas não fazem.

Aí, está. O projeto tem tudo para dar certo se aliado, é claro, ao básico que é acabar com água parada. Isso todo mundo já faz, ou não. Fica apenas a pergunta: quem vai colocar o guizo no pescoço do gato?







Jornal Correio de 28 de fevereiro de 2016



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sexta-feira, fevereiro 26

Escorpiões




Em um mês, foram registrados, em Uberlândia, 44 casos de acidentes com escorpião no período de dezembro de 2015 a janeiro de 2016. No ano passado, foram 20.015 ocorrências de pessoas picadas pelo aracnídeo em todo o Estado. Durante o período de chuva, os cuidados devem ser redobrados já que enchentes, alagamentos e enxurradas acabam obrigando o animal a deixar os esconderijos e procurar locais secos.

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Jornal Correio em 25/02/2016






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segunda-feira, fevereiro 22

Fantasia



Foto da protagonista da cronica por William H Stutz
Meu já conhecido hábito de observar as “insignifitudes”, para mais uma vez abusar de palavras de um dos maiores gênios da literatura brasileira, o mestre Manoel de Barros, me fez seu seguidor e com ele me sentir um “Apanhador de desperdícios.” Continuo a recitar mantra de Manoel: “Tenho em mim esse atraso de nascença./ Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos./ Tenho abundância de ser feliz por isso.”

Como bom cristão que reza, como bom pastor que pastoreia, pescador que lança rede ou simples/complicado como ser vivente que vive, esta terça de Carnaval existiu para me provar crença no belo que poucos enxergam, olham, veem (ortografia nova horrorosa, sem acento tipo chapéu Deerstalker). Tem dia que existe só para nos mostrar algo especial, que a vida vale o respirar.

Ando a sofrer com excesso de passado. Digo sofrer, pois é assim mesmo, “dilorido”/lamentoso atoleiro de lembranças. Areia movediça mental, quanto mais mexe mais fundo se vai. Quando dei por mim estava tão longe que até preguiça de voltar deu. Foi quando faceira ela borboletou casa a dentro. Quietou meu debater e a segui com a alma. Imaginei chegando das festas ou saindo para acompanhar bloco. Não, era novinha de roupagem e vida. Tinha acabado de sair de hibernação transformadora. Como sei? Ora, ela deitou pouso em parede branca e vagarosamente se pôs num abrir/fechar de asas. Tinha que secá-las para poder alçar voo de verdade.

Seu tempo de beleza é curto. Algumas poucas semanas. Se tiver sorte, um mês. Diferente dos humanos, se torna bela e assim se vai. As marcas do seu tempo não se dão em rugas ou casmurrices, mas em uma perda ligeira de brilho, imperceptível ao olhar comum, posto que poucos vão por atenção nela mesmo. Esta pequena joia me arrancou do mar de pensamentos e me trouxe de volta. Como “Quasimodo” de Victor Hugo ou Ferdinando, o touro de “Munro Leaf”, popularizado pelo desenho animado de Disney, me deixei levar pela miúda e estonteante beleza. O melhor antidepressivo é a contemplação. Me acode muito.

A propósito, o termo “excesso de passado” foi garimpado em publicação do Face. Garimpado sim, pois a grande maioria do que se vê ali segue a linha da falta de fonte, do “diga amém e compartilha”. Visito o Face como leria um antigo almanaque do Biotônico. Pouca ciência muita tolerância, muita informação desnecessária.

Carnaval. Concordo, sou ruim da cabeça e doente do pé, mas tento ser um bom sujeito. Não fico por aí a maldizer o ritmo. Gosta? Aproveite e se esbalde em “chuva suor e cerveja.” Não gosto de Carnaval plastificado, de camelô. Não consigo me imaginar vendo um desfile na televisão. Vi um, há vários anos atrás. Pelo que contam, vi todos. Muda nada.

Minha pequena visita aprumou e voou rumo a goiabeira. Foi procurar amor de sua existência. Tinha pressa de perpetuar a espécie. Sofria de “excesso de presente”. Tinha o que fazer. Desejei-lhe boa sorte, cantarolei marchinha que Tavinho Moura puxou um dia em Carnaval de praia, em um Espírito Santo de águas frias e limpas: “A minha fantasia ninguém muda. Esse ano vou sair de Buda, vai ser Buda prá lá, vai ser Buda pra cá (…)”

Penso agora em “excesso de futuro”.








Em Jornal Correio 21 de fevereiro 2016




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segunda-feira, fevereiro 15

A ponte





Ele sempre quis saber o que havia lá do outro lado. Ligando uma margem à outra havia uma ponte. Era uma ponte de madeira, beiral caído, algumas tábuas soltas; nada de especial, não chamava atenção. Construída há muito tempo, agora pouco era usada, pois, depois da mudança do traçado da nova rodovia, ela ficou meio que isolada, no meio do mato, ligando nada a lugar algum. Eventualmente, algum tropeiro ou peão-do-trecho a usava para cortar caminho, mas era raro, muito raro. Virou atalho. Não era muito alta, mas uma queda podia ser perigosa, pois o córrego era raso e as águas cristalinas que corriam sob sua estrutura abrigavam muitas pedras.

Em uma de suas cabeceiras a vegetação tomava conta, samambaias imensas, escondiam pequenas teias de aranha que pela manhã brilhavam orvalhadas como joias. Ele gostava de ficar observando a outra margem, sempre quis saber o que havia do outro lado.

Espiava curioso os aglomerados de árvores, os contornos, as sombras. Sons, muitos sons vinham da outra margem do rego d’água. Cantos, rugidos, piados. E ele queria saber o que lá havia, era seu sonho, sua obsessão. Toda tarde, apoiava-se em um galho e ali, quieto, ficava a olhar o lado de lá. Por várias vezes, criou coragem e ensaiava enfrentar o trecho e realizar seu desejo, mas, no derradeiro instante, desistia, esse medo o enfraquecia, sentia que se não o enfrentasse a sua vida não teria sentido. A ponte era seu desafio maior e único.

Naquela dia, acordou decidido, faria a travessia logo mais ao escurecer, saberia, enfim, o que havia do outro lado. Esperou ansioso a chegada da tarde, o sol estava diferente, as nuvens mais brilhantes, uma brisa fria tocou seu corpo; sentiu cheiro de chuva. Não se apoiou como de costume em seu galho preferido, com o pequeno coração em disparada recostou-se na própria ponte e esperou. A noite chegava convidativa, as primeiras estrelas já se faziam anunciar: tênue brilho, esmeraldas e turmalinas. Tinha chegado o momento, ele sabia disso, ia finalmente saber o que havia do outro lado. Ergueu a cabeça, respirou fundo, fechou os olhos, se postou para a arrancada.

Qual a sua decepção; bateu subitamente o medo, o seu incompreensível, irracional medo, não conseguiu se mover. Lutou desesperadamente contra esta força que o impedia de avançar, sem sucesso. Resignado deitou-se no chão e ali se deixou ficar por muito tempo — sofria. Se fez noite fechada e vaga-lumes riscavam o ar bem próximos de sua cabeça. Suspirou e deu uma última olhada para a ponte — apenas um vulto negro agora sem linhas, sem contorno, sem graça; obstáculo. Ainda não foi desta vez que conheceria o que havia do outro lado. Levantou-se amargo, sacudiu a poeira de sua colorida plumagem, passou o bico vagarosamente sob suas asas, sentiu o calor de sua pele, esticou as patas e voou para seu ninho.

Melodiosamente entoou triste canto noturno. Dormiu cansado e, mais uma vez, sonhou com a ponte, e claro, com o que haveria do outro lado. Alguns de nós somos assim, nunca atravessamos nossas pontes, uma pena.








Jornal Correio domingo, 14 de fevereiro 2016




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quinta-feira, fevereiro 11

Nomes



Amigo Júlio Penna, assim mesmo com aristocrático duplo N, me deu um alerta. Nomes. Todo cuidado é pouco na hora de escolher nome de filho. Ser criativo, pode gerar constrangimentos e bullying.
Encontrei alguns tantos, mostro poucos: Maiquel Edy Marfy, Patrick Itambé da Silva, Erripóter, Romixinaide, João Lenão, Milquesheiqueson. A lista é imensa.

Poderiam ter me batizado João. Meu filho assim foi, segue composto em Lucas, iluminado João Lucas. Ah, João Batista, João de Barro. Tantos Joões. Poderia ser José, nome que por si só transmuta, vira Zé e não tem quem tire. Zé das Couves, gente do povo. Talvez Maria, Vidente ou das Graças, Aparecida, de Fátima, das Dores, horrores. Da Penha. Maria das Luzes, Maria. Tantas uma só. Maria Cristina, ou apenas Cristina, Tina, Cri, como o cantar dos grilos. Com sorte Mariana, como minha filha, nome forte.

Poderiam ter me dado Pedro, pedra bruta, pronta a lapidar. Mas dei sorte, pois poderiam ter me agraciado com nomes vários e diferentes: Dosolina, Tazinasso, Elvis Presley da Silva, Eraldonclóbes Souza, Espere em Deus Mateus, Benedito Camurça Aveludado ou quem sabe Maycom Géquiçom ou Franklestan? Djennypher estaria de bom tamanho?

Sendo filho de pai gringo do Brooklyn, NY, não posso reclamar. Na verdade adoro meu nome e já o encontrei abrasileirado para Uilhan. Há tempos guardo grafias do mesmo: Uiliam, Wilian, Wilha, Uilen, raramente com dois “Ls e M com é. O sobrenome então, dá zica sempre. Stutz é um arraso, só soletrando ou mostrando documento. — Por gentileza pode copiar? A que mais gosto das variações vem das gentes simples a me chamarem de Seo Uila. Cheiro de mato, sopro de vento de sonoridade e pureza de alma. Sinto-me figura de Rosa, o Guimarães. Orgulho que só.

Nomes marcam época, modismo. Os anos 60, com o belo movimento de contracultura hippie, fizeram brotar nomes como Brisa, Estrela, Mel, Flor, Sol, Dilan, Demian, Iris e Jasmim. Estes sempre soam bem e trazem vibrações de paz e amor.

Já outros, do gracejo ao trauma, a distância é pequena, como beijo de pulga. Mas fique tranquilo, se não gosta de seu nome, mude, pois é só ir ao cartório. Tenho uma amiga que detestava seu nome. Chamava-se Mari Onete. Não teve dúvidas, mudou para Títere dos fios. Está feliz da vida andando com as próprias pernas.

Caso ouvi, contado de moço que chegou para tirar de identidade. Perguntas de sempre. Endereço, estado civil ou militar e nome completo. — Papaulo Persegonha. Como é que é? Estranhou funcionário da delegacia. — Papaulo Persegonha, repetiu com cara de poucos amigos e conhecedor do estranhamento. Meu caro, você por acaso é gago? — Não senhor, mas meu pai era e o escrivão um tremendo de um gozador.

Pois então amigo Júlio, diz bem, com propriedade. Nome de gringo, mas alma e espírito de total brasilidade, matuto desconfiado de Minas, sem ufanismo, olho observando. Aprovando o que acho bom, sem mais julgar o errado ao meu atentar. Aprendi, contei, reconto com João meu filho.
Ficamos assim, sem muito mais. Se seu nome é Bond, James Bond, o meu bem pode ser uell, Manoel, reza a troça. Cada um com sua sina.








Jornal Correio em 07 de fevereiro de 2016   (Um domingo de carnaval)




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segunda-feira, fevereiro 1

Aedes


Céu de marte em março. by Márcia Valle

O dia amanheceu quente. Sol pálido e embaçado se fez mostrar em céu vermelho marte sem graça. Fim de mais uma noite sem lua, sem estrelas. Estrelas, coçou a cabeça a pensar. A última vez que viu uma de verdade foi no museu de História Natural, no planetário. Lembra claramente da sensação de alegria e bem estar ao ver as constelações, a lua. Via Láctea fazendo jus ao seu nome, caminho de leite.

Pulou da cama, tomou seu banho a seco. Água pura era coisa rara e cara. Riu sozinho das mentiras contadas em pen drive, com memórias de parente longínquo. Dois banhos por dia com água! Vê se pode? Nem naquele tempo! E o falsocéu nas imagens de recordação, um azul de doer os olhos, nuvens brancas e pássaros para todo lado? Esses antigos tinham tempo!

Quanto a ele, não tinha tempo a perder. Vestiu rapidamente sua armadura protetora e, como sempre, a primeira missão do dia estava por fazer. Desembainhou sua raquete eletrônica e se pôs a fazer a inspeção diária de dez minutos por sua casa. Todos eram obrigados a fazê-la, sob pena de prisão e processo por omissão.

Os inimigos se escondiam por todos os cantos. Debaixo de camas, mesas e poltronas. Sentiu o primeiro ataque nos pés. Reagiu por instinto, brandindo sua raquete em golpe certeiro, “plect” rodopia como samurai, “plect” “plect” estalos indicam mais dois inimigos abatidos. Decorrido o tempo de busca e após algumas dezenas de “plects”, extenuado, suando feito cavalo de corrida, encostou-se para breve descanso. Sentiu as feridas. Estas coçam mais do que pó de mico. Os inimigos desenvolveram poderosas armas, não respeitando mais tecido grosso e muito menos repelentes ou venenos.

O século é o 23 e os Aedes estão maiores e mais vorazes. Aprenderam táticas de guerrilha. Transmitem centenas de doenças e agravos, de chulé a bico de papagaio. Reproduziam-se em barrancos e areia, seca, desenvolveram cérebro tornaram-se pensantes. Poças de chuva ácida não careciam. Darwin explicaria.
Dengue, zica, chikungunya? Coisas do passado.

Para cada vacina, em seus laboratórios nos mangues, charcos eles descobrem outras doenças e métodos para atacarem humanos. Atualmente estão desenvolvendo formas de transmissão da apatia e do desleixo, na tentativa de deter os gladiadores que lhes vem causando muitas baixas.

Assim, logo após a queda dos porcos e a malsucedida Revolução dos Bichos, virá o império Aedes aegypti. Brinca para você ver! Ficção de hoje é a realidade de amanhã. Cuide do seu pedaço, do seu quintal. Deixando criadouros do mosquito você está contribuindo para a evolução de super raça de Aedes.

Faça sua parte senão estamos com os dias contados. Isto se nós mesmos não resolvermos nos implodir antes, alimentando os Kim Jong-il da vida a caviar e Champanhe Goût de Diamants, enquanto ele brinca de bombas de nitrogênio.

Inspecione sua casa dez minutos por dia. O mosquito é democrático. Casa de rico ou de pobre, não dá bola para política ou futebol. A hora é agora, senão, nossos bisnetos verão o sol nascer embaçado em seu vermelho marte/morte.










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segunda-feira, janeiro 25

Chuva


Foto da web (autor desconhecido)
 
Parece que, finalmente, a tão esperada chuva deu o ar da graça e cravou nuvens sobre nossas cabeças. Como demorou este ano. Não vou ficar repetindo as possíveis causas de tanto calor como o que passamos e agora, o atraso das águas, mas sabemos que a culpa é nossa, do El Niño e de sua namoradinha La Niña. Com suas maldades infantis e terríveis consequências, foram gerados por ações humanas. Criamos monstros. Pode parecer loucura, mas tem criança má sim. Como diz o psiquiatria infantil Fabio Barbirato: “Não é fácil a sociedade aceitar a maldade infantil, mas ela existe”. E grande parte da culpa, se é que se pode definir como tal, é de quem a criou. No caso dos dois Niños, nós mesmos.

Abrimos a Arca da Aliança, fizemos da natureza nossa inimiga e, como tal, sugamos suas riquezas em dose alta demais, enfumaçamos a casa. Estamos condenados a pagar alto preço por tamanha heresia. As águas vieram em pingos verdes, a terra rachada que nem nossos calcanhares de criança criada livre, pé no chão, agradeceu florescendo em mantos e matas e mantras.

Nas pobres cidades um desastre que se repete desde quando inventaram o progresso, o asfalto, a especulação imobiliária e o ódio por árvores. Ruas em armadilhas se transformam, mato cresce com vigor nos terrenos e seus donos acham que é dever do poder público carpir. Mato, quanto mais corta mais forte cresce.

A roçada de hoje é o matagal de poucos dias para frente. Cada dono deveria cuidar do que é seu. Logo a tão esperada chuva vira tormento para muitos, roupa não seca, mofo aparece, goteiras esquecidas renascem. Não demora ovo na cerca e novenas para Santa Clara, acompanhada da mandinga: “Lágrima do peito aberto, coração de Deus ferido, nos defendei da tempestade e de todos os perigos”. Não tem cerca na cidade grande? Ovo na calha ou no muro. Tudo para espantar a até outro dia tão esperada senhora da vida e fartura. Se não funcionar, pelo menos um gambá que mora hoje pertinho de você ganha uma almoço, pois na mata já não tem abrigo.

De bendita a amaldiçoada é um pulo. As gentes da cidade desconhecem o valor dessa riqueza. Dela só sabem pela televisão, pela previsão do tempo, pelas reportagens trágicas. Quer trecho para Pasárgada? Impossível. Aeroportos fechados por conta do mau tempo, sem teto dizem. Ônibus ou carro? Um perigo, estradas queijo suíço, quedas de barreiras e o preço do pedágio para as alturas a encontrar nuvens pesadas foi.

Saudades de ficar quietinho na varanda com uma boa xícara de ágata colorida de café quente, olhando a chuva benzer campos e montanhas de um lado, à minha frente cheiro de sal, uma imensidão de mar calmo. Já viu chovendo no mar? Água morninha. O ritmado quebrar de ondas baixas deixa espuma na praia. Nada de preocupação com alagamentos, atoleiros ou pedágios. Andar descalço em areia molhada, deixar chuva correr pela aba do chapéu, sonhar com roça pronta, cantarolar alegria, peito a explodir. Viver é tão bom.

A vida pode ser assim, mansa. O cheiro de terra molhada convida à contemplação. Só não pode barragem mineradora por perto a ameaçar com sua ganância de lama.









Jornal Correio em 24 de Janeiro de 2016




Chuva

segunda-feira, janeiro 18

T.I. e passarinhos



Interessante, assim como Dannilo Camargos, mestre em assuntos relacionados com nossa sociedade, sou também um fervoroso apaixonado por tecnologia e, como ele afirma, também pouco sei lidar com ela. Tenho um “Personal” em TI, meu filho – quando me aperto recorro a ele, ou seja, a todo minuto. Travou, não baixou, colocar música no iPod, ligar o tal cabo HDMI do note à televisão para assistir meus clássicos… O último que revi foi “Morte em Veneza”, filme baseado na maravilhosa obra de Thomas Mann, magistralmente dirigido pelo gênio Luchino Visconti.

A beleza como descreve, fiel ao livro, a paixão em seu sentido mais puro de Aschenbach por Tadzio, só poderia ter como trilha sonora o quarto movimento – Adagietto – da “5ª Sinfonia”, de Mahler. Não conto mais. Quer ver e admirar uma obra-prima do cinema? Busque no YouTube, está lá completinho. Mas se eu fosse você, tentaria encontrar em locadora ou, se der sorte, assistir no cinema em alguma sessão especial dedicada à sétima arte. Certo, também tive a mesma dúvida: quais as outras seis mesmo? Arquitetura, escultura, pintura, gravura, música e coreografia, pronto, respondido. Coisas do século 18, do Século das Luzes. Já pensou sentar em um bar com John Locke, Voltaire, Rousseau, Montesquieu – este, deveria ser (re) lido por todos que almejam poder, continua atualíssimo.

Uma coisa que me impressiona na tecnologia é sua face burra. Hoje abri minha caixa de e-mails e além daqueles que realmente me interessavam recebi uma lista de pedidos e “presentes”. Certo cidadão sei lá de onde me oferece, em um português de tradutor, alguns milhões de dólares assim do nada, me cabendo apenas abrir uma conta conjunta para que ele, na maior boa-fé possa promover evasão de divisas de seu país em miséria e doença. Tão bonzinho! Três bancos me pedem para recadastrar senha, pois se não o fizer danço, perco conta. “Estranhamente” nunca tive conta nas instituições que me pedem atualização ou, às vezes, me compram algum título sob ameaça de protesto, cobrança judicial. Até o Leão do IR já me cobrou dados por e-mail.

Alguns de hoje cedo: “Perca peso sem esforço”, “Sou um amigo seu vc (sic) está sendo enganado”, “Como se livrar de Multas”, “Seu pedido de compras está em anexo”, e alguém me mandou os “dados de um orçamento urgente”. Outros querem te pegar pelo ego: “Queria corresponder com você, sou loira, alta, inteligente, resolvida financeiramente. Não é aventura é compromisso sério”. Ah vá! Olha só, acabo de receber outro de um Omar Toure Arabiya – a grana está, segundo ele, no Bank of Africa BOA Ouagadougou Burkina Faso West África –, quero não. Alguém se habilita? Esse povo tem tempo.

Queria um filtro de spam mais poderoso. Fico na minha, paro com a mão no queixo e fico a ouvir passarinho e vento. Borboletas me distraem facilmente, as sigo com olhar por horas. Aí, quando João me visitar resolverá o engastalho de tanto lixo eletrônico. Tranquilo e ligeiro, como sempre, para meu sossego cibernético.

Quanto aos passarinhos, estes não eram spam e cantam, alegrando meu dia em frenética sinfonia.







Jornal Correio 17 janeiro 2016




segunda-feira, janeiro 11

Toques



Vocês já prestaram atenção na variedade de toques de celular que rolam por ai? Além do previsível e chato som do Whatsapp, cada qual escolhe como quer o toque que mais lhe agrada. Uns mais conservadores se prendem às opções do próprio aparelho e, olha, são muitas. Sons de naves espaciais ou efeitos especiais de cinema, cantos de passarinho mecânico sem graça que só. Foles, sintetizadores e até um que tenta mal e porcamente imitar som de telefone antigo, aquele preto, pesadão, muito usado como arma de crime em filmes de gângsteres.

Mas coming back to the cold cow, como bem traduziu Millôr, é tanta criatividade que chega a ser engraçado. Outro dia em viagem para visitar especial amiga. Felizes com o reencontro, seguimos debaixo de chuva fina para restaurante e colocar prosas em dia. Sem querer, me peguei prestando atenção aos sons de telefones espertos que só naquele delicioso e aconchegante espaço.

Minha amiga que já sabe muito bem como sou, paradoxalmente um atento disperso, se pôs a rir me trazendo de volta ao mundo. Mas ficaram gravados os “trimmmsss” modificados, prontos para o papel.
Lá ouvi muita chamada com som sertanejo, não só a música, mas cantado mesmo. Duplas de universitários, que nunca estudaram, bombando para todo lado. A região da cidade é tipo assim, dada a estes falsetes que, mesmo escutando pouco ou com moderação, como fumo e álcool, fazem mal a saúde. Neste caso, o Ministério da Saúde não avisa, mas deveria. Em alguma mesa, uma sonata de Mozart avisava alguém que a mãe queria lhe falar. Como sei? Ouvi a moça resmungar torcendo o nariz: — O que é dessa vez mãe?

Pois é, ainda tem disso, para cada pessoa uma música. Pouco depois, no aparelho da mesma menina, tocou um Michel Teló aos berros. Bom, acho que dá para imaginar quem estava ligando. Ouvi um “oi beemm”, dos mais melosos.

Ah, as pessoas! Acham que se elas gostam todos têm que gostar, pois não atendem de pronto. Deixam tocar o raio da música todinha e, se possível, até duas vezes e você tem que escutar a torturante seleção musical(?) alheia. Eita suplício! Em algum locais, raros, ouve-se um Led Zeppelin, um solo de Eric Clapton ou um belo blues-rock de Eddie Van Halen. Aí, sim, dá vontade de que a pessoa não atenda nunca. Well, gosto é gosto.

Barra foi caso contado por um amigo. Participando de mesa como mediador em palestra internacional sobre escorpiões, silêncio total. Do nada, toca um telefone na plateia. O toque? Som de transa das “calientes”. Apavorado, o dono do celular não conseguia acertar a tecla de volume e muito menos o desligar. Assim, aquilo ecoou por eternos instantes para susto geral. Todos os olhares se voltaram para canto da sala. Ali, encolhido e vermelho, como peru depois de duas doses fartas de cachaça, pronto para o sacrifício em véspera de Natal, um senhor de meia idade apertava tudo que podia para parar o som. Quanto mais tentava, mais alto ficavam os gritos e sussurros. Nove e meio segundos depois conseguiu.
Não corra riscos, caro amigo. Bote logo um “Jingle Bells” ou música gospel como padrão em seu celular. Se resguarde, custa nada!






Jornal Correio  10 de janeiro de 2016




Toques JC

segunda-feira, janeiro 4

Domingo na praça




Tem gente tão sistemática que se puder bate continência para geladeira General Eletric. Não que eu consiga chegar a este ponto, mas sou, de certa forma, meticuloso no meu comportar. Este comportamento se acentuou um pouco mais depois que passei a viver só. Como um cego em seu ambiente cotidiano, se trocar uma cadeira de lugar pode ocorrer tropeço. Sei onde e como guardo minhas coisas. Alguns podem me chamar de sistemático, complicado. Até ao fato de ser virginiano atribuíram meu jeito de ser. Cá para nós, acho esse papo de horóscopo uma balela. Caso tenha a ver com força gravitacional, posição das estrelas e outros corpos, pergunto: qual seria a maior e mais próxima massa a exercer alguma força sobre um recém-nascido? Respondo: a do médico e sua equipe na hora do parto. Assim, pode-se ter nascido em médico com ascendência em enfermeira ou em aparelho de luz cirúrgica da OSRAM. Este até parece nome de planeta.

O viver sozinho te obriga a criar uma rotina de sobrevivência para não pirar. Como tem menos de um ano que estou nessa, vou tratando de me ajeitar. Horário de acordar aos sábados e domingos é o mesmo. Cedo, muito cedo. Correr quatro dias por semana e academia outros três. Além de fazer bem é uma forma de socialização, mesmo conversando pouco. Assim vem sendo. Estou alegre, corro. Estou deprê, corro também ou puxo ferro para fortalecer pernas e panturrilha. Para fazer o quê? Correr mais, uai. Viciei em endorfina.

Entre novos hábitos, cultivei um aos domingos: Almoçar na Feira da Gente da Praça Sérgio Pacheco. Comida boa e preço justo, música às vezes boa, às vezes ótima, às vezes péssima. Sem problemas tudo é festa.

Dia desses, como de costume, na praça. Gente para prosear não falta. Naquele dia, estava de papo com a senhora que cata latinhas. Cansada, sentou-se em banco de concreto a meu lado. Contou de sua vida, de sua família. Em nenhum momento, senti tristeza naqueles olhos que já pousaram vista em quase tudo que se tem para olhar. A prosa animada era entrecortada por levanta ligeiro para recolher uma ou duas latinhas esquecidas em alguma mesa. A concorrência ali é brava. Enquanto dava tempo para pegar meu almoço e levar para casa, vou ficando, empurrando ao máximo estes momentos, pois sozinho, fim de semana, é assombrado. Filha de Jack, da barraquinha onde quase sempre pego comer, que conhece meu ofício, vem me chamar. Tinha um morcego pendurado na tela de um alambrado, estava rente ao chão.

Lá fui eu em pensamentos. Fui passear, ouvir música e buscar comida. Pronto, e agora um morcego. Mostram-me o coitadinho, um filhote, talvez despencado das costas da mãe em aprendizado de voo. Em pleno domingão de folga. “Finge nem ver” e “deixa prá lá” diriam alguns.

Sem chance. Há uma coisa maior dentro da gente. Lá fui eu recolher o bichinho. Com a ajuda da moça, colocamos em uma caixinha que passou a me acompanhar o resto do dia.

Já pensou se criança ou bicho vai lá mexer? Mordida e risco bravo. Está aqui em casa. Amanhã, lá no Laboratório, decido rumo. Consciência tranquila. Meu trabalho mora em mim. Sou feliz assim, pelo menos tento ser.







Jornal Correio em 03 de Janeiro de 2016



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOheGlSNUFZMl9wSk0/view?usp=sharing

segunda-feira, dezembro 28

Ano novo?



E mais um ano se vai em fumaça. Sei que não temos muita coisa para comemorar, pois o mundo está de cabeça para baixo. As mazelas comportamentais, o fanatismo religioso, as crises, a ganância, a vaidade e outras tantas bruxas e tragédias, reinaram em 2015. Muita zica para poucos dias. Ano digno de ser esquecido. Lúgubre começo de conversa para uma crônica de quase fim de ano. Certo, não foi bom mesmo, mas será que foi de todo ruim? Pensemos. Se estamos escrevendo ou lendo estas mal traçadas linhas já é um bom sinal – sobrevivemos. Atravessamos águas turbulentas, ondas de metros, tempestade e vendavais. Mas, do ponto mais alto de mastro de nossa frágil nau, quase sem rumo, alguém, um anjo talvez, gritou a plenos pulmões: Terra à vista!

Será? Entreolhamo-nos céticos. Terra à vista! A voz se fez ouvir novamente. Teimosos, sorrimos. Timidamente, é verdade, mas logo ali já se avistava a terra firme de um tempo novo. Raça resiliente essa nossa. A evolução assim o provou. Nascemos humanóides, quase símios, todos descendentes de Lucy a nossa Eva. Esta, “uma mocinha de 20 anos, 1,20m de altura, provavelmente morta por um crocodilo e que passou cerca de 3,2 milhões de anos sob as areias da Etiópia até ser descoberta em 1974” (mundoestranho.abril.com.br). Enfrentamos todo tipo de provação que a evolução das espécies impõe às criaturas. E olha só, chegamos até aqui. Se para melhor ou para pior não sei bem, mas chegamos. Não será um aninho, um átomo de tempo, que vai nos colocar em desespero. Há esperança.

Derrotas pessoais, amores perdidos, amizades rompidas. Tristezas. Tapetes puxados, nada disso pode nos derrubar. Um ano-novo é como uma porta que abre para o vazio. Cabe a nós preenchermos cada pedacinho dele com o que de melhor pudermos oferecer. Plante árvores, ouça passarinhos, sinta o vento. Ria de si mesmo, cumprimente e sorria para as pessoas. Aprendi, com meu filho João, algo que me fez outro. Não fale mal de ninguém, cada um tem sua sina e caminho. Se não puder ajudar, não atrapalhe. Seja gentil.
Sempre fui muito otimista, até com fome e bolso vazio. Cito mais uma vez o enigmático personagem do magnífico iluminista Voltaire. Sou uma espécie de dr. Panglóss melhorado, pois a sobrancelha ainda levanta para certos atos e “desatos”.

“Tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Seguremos o bridão, toquemos a encarar os desafios de se sentir vivo. O ano de 2016 pode ser melhor ou pior do que este que se vai, como se dele quiséssemos guardar poucas lembranças. Depende muito mais de cada um de nós.

Como bom atleticano e devoto de São Jorge, abro o peito e solto o grito: — Eu acredito!

Tomo a liberdade de usar uma máxima que, desde sempre, conduz minha vida, do mestre Mario Quintana: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho, Eles passarão. Eu passarinho!”.

Acredite também, acredite em você, vai na fé e, já que estamos em tempos de “Star Wars” outra vez, fica minha mensagem de paz e otimismo: que “a Força esteja com e em você”. Vai que é sua. Sejamos um pouco Cândido, sem perder o senso crítico. Feliz ano-novo. Vale a pena. Vejo sua última frase:
“— Tudo isso está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim.”







Jornal Correio em 27 de dezembro de 2015



https://drive.google.com/file/d/0B3a7BJIdLwOhOGhUZVhFNUhwZWs/view?usp=sharing